Georges Sorel, 1847-1922.
António Sardinha identifica George Sorel como "o notável teórico do sindicalismo francês, ao caracterizar a democracia como o governo de classe contra as outras classes". Na perspectiva dos integralistas, no parlamentarismo dos partidos está apenas representada a classe política. Os políticos dos partidos constituem em si mesmo uma oligarquia mas, porque a disputa por lugares no parlamento depende fortemente do poder da imprensa e da propaganda, estes não podem deixar de estar na dependência do capital financeiro. Dos regimes parlamentares de partidos resulta assim "a forma de governo mais apta à supremacia da alta finança." . Numa célebre citação de Sorel, a democracia (dos partidos políticos) é "o paraíso sonhado pelos financeiros sem escrúpulos" (le pays de cocâgne rêvé par des financiers sans scrupules). Na mesma linha de pensamento se situa Édouard Berth e Georges Valois.
Georges Sorel e a Crítica ao Parlamentarismo da Partidocracia: Reflexão a partir de António Sardinha
Georges Sorel: O Teórico do Sindicalismo e da Crítica à Partidocracia. António Sardinha identifica Georges Sorel como uma das figuras centrais do pensamento sindicalista francês, destacando-o pelo seu olhar crítico sobre a democracia parlamentar. Para Sorel, o parlamentarismo dos partidos não representa a variedade das classes sociais, mas sim o poder de uma classe – a classe financeira – sobre as demais. Na sua essência, o parlamentarismo alimenta uma oligarquia política que, por sua vez, serve os interesses dos grandes grupos financeiros. A disputa por lugares no parlamento depende fortemente do poder da imprensa e da propaganda, o que reforça a dependência dos políticos em relação ao capital financeiro. Os regimes parlamentares tornam-se, segundo Sorel, “a forma de governo mais apta à supremacia da alta finança”, sendo a democracia parlamentar o “paraíso sonhado pelos financeiros sem escrúpulos”. Outros pensadores, como Édouard Berth e Georges Valois, alinham com esta visão crítica.
O Sindicalismo como Alternativa Orgânica. Sardinha defende o sindicalismo como uma tendência renovadora, claramente distinta do conservadorismo tradicional. Para ele, o sindicalismo é, por natureza, orgânico e antiparlamentar, propondo que o trabalhador se afaste das agitações políticas para se integrar plenamente nos interesses da sua classe. Sorel, Berth e Valois sustentam esta lógica, defendendo que a verdadeira aspiração do movimento sindicalista deverá estar na organização profissional e na restauração da harmonia entre as forças económicas.
Propriedade, Trabalho e Capital. O movimento integralista defende o sindicalismo como a base para reorganizar a sociedade segundo um princípio de harmonia. As chamadas "democracias parlamentares", ao contrário, são vistas como instrumentos de supremacia da alta finança, marcadas pela instabilidade do poder e pela corrupção eleitoral, o que as torna especialmente vulneráveis ao domínio plutocrático.
Lições da História e o Papel do Estado. Desde a Roma Antiga que as massas populares têm apoiado regimes de poder centralizado tentando obter reparações económicas. A realeza na Idade Média conseguiu consolidar-se porque obteve apoio nas comunas urbanas ou municípios. Sardinha cita o exemplo da legislação social do Império Alemão, que, mesmo criticada por setores parlamentaristas, recebeu elogios de figuras insuspeitas como Bebel. Na época de António Sardinha, depois de Sorel ter caracterizado a democracia como o governo de uma classe contra as outras classes, surgiu em França a ideia da “Monarquia Operária” (“Monarchie ouvrière”): foi então que os trabalhadores desertaram da partidocracia passando a alinhar com movimentos como a Action française.
A encíclica Rerum novarum. António Sardinha defende que a solução dos problemas nacionais passa pela unidade entre as classes, como propõe a encíclica “Rerum novarum": a colaboração e o auxílio recíproco são os fundamentos do sindicalismo cristão e tradicionalista. Somente um governo que una, em vez de dividir – onde a Propriedade e o Trabalho sejam alicerces –, poderá responder duradouramente às aspirações do proletariado. Para Sardinha, a monarquia surge como esse governo independente das oligarquias partidárias, capaz de arbitrar e servir com imparcialidade os interesses do trabalho. O operariado português ainda não compreendeu totalmente esta alternativa, mas pressente a necessidade de estabelecer uma organização autónoma dos partidos políticos.
Democracia Moderna: Oligarquia e Plutocracia. Sardinha refere-se ao pensamento de Robert Michels alinhado com Sorel, vendo nele um reforço à tese da natureza oligárquica das democracias modernas. As oligarquias partidárias dos parlamentarismos são incapazes de resolver a questão social, deixando ao proletariado apenas duas opções: a Revolução ou o Rei.
A Crítica ao Aburguesamento e à Cultura Clássica. Na “Introduction à l’économie moderne”, Sorel alerta para o risco de assimilação dos trabalhadores pelo modo de vida burguês, que pode enfraquecer a sua autonomia. O aburguesamento do operariado inglês, que imita os vícios das classes superiores, é visto como um sinal de decadência intelectual e moral. Sorel critica a decadente cultura clássica, tanto na Roma antiga como na Renascença, acusando-a de produzir uma elite de diletantes incapazes de trabalho produtivo ou de verdadeira criação espiritual. Sardinha partilha essa perspectiva sobre a decadente cultura clássica, vendo nela a raiz de vários males sociais.
O Sindicalismo como Reação à Ideologia Revolucionária. Sardinha observa que a Revolução, ao proclamar uma soberania popular teórica, não fez mais do que instaurar novas formas de opressão. O sindicalismo, apesar dos excessos dos seus sectores violentos, pode vir a representar um saudável regresso às antigas formas orgânicas corporativas do trabalho, ser um instrumento de renovação social e de superação da divisão e do antagonismo promovidos pela ideologia igualitária da Revolução. Inspirado no catolicismo social da encíclica Rerum novarum, o sindicalismo é visto por António Sardinha como antídoto para a luta de classes e instrumento de promoção da harmonia social.
O Sindicalismo como Alternativa Orgânica. Sardinha defende o sindicalismo como uma tendência renovadora, claramente distinta do conservadorismo tradicional. Para ele, o sindicalismo é, por natureza, orgânico e antiparlamentar, propondo que o trabalhador se afaste das agitações políticas para se integrar plenamente nos interesses da sua classe. Sorel, Berth e Valois sustentam esta lógica, defendendo que a verdadeira aspiração do movimento sindicalista deverá estar na organização profissional e na restauração da harmonia entre as forças económicas.
Propriedade, Trabalho e Capital. O movimento integralista defende o sindicalismo como a base para reorganizar a sociedade segundo um princípio de harmonia. As chamadas "democracias parlamentares", ao contrário, são vistas como instrumentos de supremacia da alta finança, marcadas pela instabilidade do poder e pela corrupção eleitoral, o que as torna especialmente vulneráveis ao domínio plutocrático.
Lições da História e o Papel do Estado. Desde a Roma Antiga que as massas populares têm apoiado regimes de poder centralizado tentando obter reparações económicas. A realeza na Idade Média conseguiu consolidar-se porque obteve apoio nas comunas urbanas ou municípios. Sardinha cita o exemplo da legislação social do Império Alemão, que, mesmo criticada por setores parlamentaristas, recebeu elogios de figuras insuspeitas como Bebel. Na época de António Sardinha, depois de Sorel ter caracterizado a democracia como o governo de uma classe contra as outras classes, surgiu em França a ideia da “Monarquia Operária” (“Monarchie ouvrière”): foi então que os trabalhadores desertaram da partidocracia passando a alinhar com movimentos como a Action française.
A encíclica Rerum novarum. António Sardinha defende que a solução dos problemas nacionais passa pela unidade entre as classes, como propõe a encíclica “Rerum novarum": a colaboração e o auxílio recíproco são os fundamentos do sindicalismo cristão e tradicionalista. Somente um governo que una, em vez de dividir – onde a Propriedade e o Trabalho sejam alicerces –, poderá responder duradouramente às aspirações do proletariado. Para Sardinha, a monarquia surge como esse governo independente das oligarquias partidárias, capaz de arbitrar e servir com imparcialidade os interesses do trabalho. O operariado português ainda não compreendeu totalmente esta alternativa, mas pressente a necessidade de estabelecer uma organização autónoma dos partidos políticos.
Democracia Moderna: Oligarquia e Plutocracia. Sardinha refere-se ao pensamento de Robert Michels alinhado com Sorel, vendo nele um reforço à tese da natureza oligárquica das democracias modernas. As oligarquias partidárias dos parlamentarismos são incapazes de resolver a questão social, deixando ao proletariado apenas duas opções: a Revolução ou o Rei.
A Crítica ao Aburguesamento e à Cultura Clássica. Na “Introduction à l’économie moderne”, Sorel alerta para o risco de assimilação dos trabalhadores pelo modo de vida burguês, que pode enfraquecer a sua autonomia. O aburguesamento do operariado inglês, que imita os vícios das classes superiores, é visto como um sinal de decadência intelectual e moral. Sorel critica a decadente cultura clássica, tanto na Roma antiga como na Renascença, acusando-a de produzir uma elite de diletantes incapazes de trabalho produtivo ou de verdadeira criação espiritual. Sardinha partilha essa perspectiva sobre a decadente cultura clássica, vendo nela a raiz de vários males sociais.
O Sindicalismo como Reação à Ideologia Revolucionária. Sardinha observa que a Revolução, ao proclamar uma soberania popular teórica, não fez mais do que instaurar novas formas de opressão. O sindicalismo, apesar dos excessos dos seus sectores violentos, pode vir a representar um saudável regresso às antigas formas orgânicas corporativas do trabalho, ser um instrumento de renovação social e de superação da divisão e do antagonismo promovidos pela ideologia igualitária da Revolução. Inspirado no catolicismo social da encíclica Rerum novarum, o sindicalismo é visto por António Sardinha como antídoto para a luta de classes e instrumento de promoção da harmonia social.
António Sardinha - Excertos com referências a George Sorel
Capital e Trabalho, Julho de 1917.
António Sardinha, e os integralistas, usam em regra a palavra "democracia" como sinónimo de mentira ou embuste parlamentarista, de regime político dominado por oligarquias partidárias e financeiras. É aqui feita uma exposição sumária da doutrina do catolicismo social exposta na encíclica Rerum novarum do Papa Leão XIII, manifestando esperança de que através do Sindicalismo - na organização autónoma dos trabalhadores - se poderá ir para além do domínio da plutocracia nos regimes de partidos ideológicos. A toada é optimista. Em substituição da luta de classes, o Integralismo Lusitano defende que é necessário estabelecer a harmonia entre o Capital e o Trabalho. [ver texto na íntegra]
António Sardinha, e os integralistas, usam em regra a palavra "democracia" como sinónimo de mentira ou embuste parlamentarista, de regime político dominado por oligarquias partidárias e financeiras. É aqui feita uma exposição sumária da doutrina do catolicismo social exposta na encíclica Rerum novarum do Papa Leão XIII, manifestando esperança de que através do Sindicalismo - na organização autónoma dos trabalhadores - se poderá ir para além do domínio da plutocracia nos regimes de partidos ideológicos. A toada é optimista. Em substituição da luta de classes, o Integralismo Lusitano defende que é necessário estabelecer a harmonia entre o Capital e o Trabalho. [ver texto na íntegra]
Ora não é demais repetir que nós, tradicionalistas, não somos conservadores, mas sim renovadores. Como renovadores, o Capitalismo só merece a nossa condenação. Somos francamente pelo movimento sindicalista, sem que com isso sejamos pelas arestas turbulentas de que ele se reveste por enquanto. Não confundamos as avançadas do grande exército operário com a essência das suas aspirações! O sindicalismo é por natureza uma tendencia organica. Já os seus economistas mais aclamados, como Sorel, Berth e Valois, o declaram nitidamente antidemocrático [no sentido de antiparlamentar], pregando a necessidade do trabalhador se furtar às agitações políticas para unicamente se integrar no espirito e no interesse da sua classe. Quando o movimento integralista proclama como uma das suas intenções fundamentais a organização profissional, conta com o sindicalismo para repôr a sociedade na justa harmonia das suas forças económicas, - Propriedade Trabalho e Capital.
(...)
As democracias, resultam daqui, agora e sempre, como as formas de governo mais aptas à supremacia da alta finança. São le pays de cocâgne rêvé par des financiers sans scrupules, como Georges Sorel as define. A instabilidade do poder nos governos electivos e a sua conquista pela corrupção eleitoral torna-os por natureza regimes abertos, como nenhuns outros, às imposições do plutocratismo. A historia ensina-nos que assim é desde Roma. Cesar foi trazido aos ombros da plebe, faminta de reparações económicas. Ao longo da Idade-média a Realeza se consolida com apoio nas Comunas e nas insurreições municipais. Não escapou a Mommsen, o inspirador de Bismarck, a virtude das monarquias debaixo desse ponto de vista.
A legislação social do Império alemão mereceu em Amsterdam, contra o lirismo democrático de Jaurés, a apologia insuspeita do insuspeitissimo Bebel. Hoje, e depois que Georges Sorel pôs nitidamente as democracias como governo de uma classe [classe político-financeira] contra as outras classes, a hipótese da Monarchie ouvrière levanta-se em França com a deserção em massa dos trabalhadores à mentira ignóbil da Liberdade e a sua entrada lenta, mas segura, nas fileiras entusiasmadas da Action française. A herança de Proudhon, inimigo da Revolução, renova-se e clarifica-se. E é bom lembrar que, através da influência de Proudhon, Antero de Quental guiou entre nós os passos políticos de Oliveira Martins que, ao apelar para o poder-pessoal do Rei, não tinha em mente mais do que realizar em Portugal o ideal económico do cesarismo prussiano. São factos para que chamo a atenção dos nossos operários. Dos tradicionalistas partiram sempre as vozes erguidas em seu favor. Ninguém os defendeu como o conde de Chambord, ninguém os defende como o marquês de la Tour du Pin. De um glorioso Pontífice é esse documento notável, a encíclica Rerum novarum, que rasgadamente opôs ao doutrinarismo da Revolução, todo embebido numa ideia nefasta de guerra e antagonismo social, a ideia da harmonia e da justa correspondência entre as diversas classes de que a sociedade é constituída. Não é outra a conclusão a que no seu livro La biologie humaine chega recentemente o ilustre dr. Grasset: - «A sociedade é baseada não sobre a lei da luta pela vida, mas sobre o dever da colaboração e do auxílio reciproco». Eis o fundamento do sindicalismo cristão e tradicionalista, confirmado pelas razões objectivas da ciência. Como tal, só um governo que não divida, mas que unifique, e em cujas condições de existência a Propriedade e o Trabalho figurem como alicerces indisputáveis, poderá ir ao encontro do proletariado e dar-lhe satisfação duradoira. A Monarquia é esse governo, independente por índole própria, sobranceiro por posição às oligarquias que o regime democrático [partidocracia] gera inevitavelmente consigo. O operariado português pressente-o, mas não o entendeu ainda. Na hora em que o Rei, chefe natural da Nação, for também o juiz imparcial do Trabalho, então verá que o não iludem aqueles que mais nada lhe pedem senão que se organize, que se organize contra tudo e apesar de tudo, se quiser ser forte, respeitado e temido. Assim o reconhece o Integralismo Lusitano, que no renascimento do espírito das classes depõe a solução de um dos mais graves problemas da vida nacional.
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As democracias, resultam daqui, agora e sempre, como as formas de governo mais aptas à supremacia da alta finança. São le pays de cocâgne rêvé par des financiers sans scrupules, como Georges Sorel as define. A instabilidade do poder nos governos electivos e a sua conquista pela corrupção eleitoral torna-os por natureza regimes abertos, como nenhuns outros, às imposições do plutocratismo. A historia ensina-nos que assim é desde Roma. Cesar foi trazido aos ombros da plebe, faminta de reparações económicas. Ao longo da Idade-média a Realeza se consolida com apoio nas Comunas e nas insurreições municipais. Não escapou a Mommsen, o inspirador de Bismarck, a virtude das monarquias debaixo desse ponto de vista.
A legislação social do Império alemão mereceu em Amsterdam, contra o lirismo democrático de Jaurés, a apologia insuspeita do insuspeitissimo Bebel. Hoje, e depois que Georges Sorel pôs nitidamente as democracias como governo de uma classe [classe político-financeira] contra as outras classes, a hipótese da Monarchie ouvrière levanta-se em França com a deserção em massa dos trabalhadores à mentira ignóbil da Liberdade e a sua entrada lenta, mas segura, nas fileiras entusiasmadas da Action française. A herança de Proudhon, inimigo da Revolução, renova-se e clarifica-se. E é bom lembrar que, através da influência de Proudhon, Antero de Quental guiou entre nós os passos políticos de Oliveira Martins que, ao apelar para o poder-pessoal do Rei, não tinha em mente mais do que realizar em Portugal o ideal económico do cesarismo prussiano. São factos para que chamo a atenção dos nossos operários. Dos tradicionalistas partiram sempre as vozes erguidas em seu favor. Ninguém os defendeu como o conde de Chambord, ninguém os defende como o marquês de la Tour du Pin. De um glorioso Pontífice é esse documento notável, a encíclica Rerum novarum, que rasgadamente opôs ao doutrinarismo da Revolução, todo embebido numa ideia nefasta de guerra e antagonismo social, a ideia da harmonia e da justa correspondência entre as diversas classes de que a sociedade é constituída. Não é outra a conclusão a que no seu livro La biologie humaine chega recentemente o ilustre dr. Grasset: - «A sociedade é baseada não sobre a lei da luta pela vida, mas sobre o dever da colaboração e do auxílio reciproco». Eis o fundamento do sindicalismo cristão e tradicionalista, confirmado pelas razões objectivas da ciência. Como tal, só um governo que não divida, mas que unifique, e em cujas condições de existência a Propriedade e o Trabalho figurem como alicerces indisputáveis, poderá ir ao encontro do proletariado e dar-lhe satisfação duradoira. A Monarquia é esse governo, independente por índole própria, sobranceiro por posição às oligarquias que o regime democrático [partidocracia] gera inevitavelmente consigo. O operariado português pressente-o, mas não o entendeu ainda. Na hora em que o Rei, chefe natural da Nação, for também o juiz imparcial do Trabalho, então verá que o não iludem aqueles que mais nada lhe pedem senão que se organize, que se organize contra tudo e apesar de tudo, se quiser ser forte, respeitado e temido. Assim o reconhece o Integralismo Lusitano, que no renascimento do espírito das classes depõe a solução de um dos mais graves problemas da vida nacional.
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A natureza oligárquica das democracias modernas ainda não há muito que a demonstrou uma pena insuspeita. Refiro-me ao professor Robert Michels [1876-1936], da Universidade de Turim, no seu conhecido livro, traduzido para francês,- Les partis politiques. Também assim o entende Georges Sorel, o notável teórico do sindicalismo francês, ao caracterizar a democracia como um governo de classe contra as outras classes. Dos ensinamentos de Georges Sorel deriva uma das correntes mais curiosas e mais positivas do pensamento contemporâneo. Estabelecida a incapacidade orgânica dos sistemas democráticos para resolver a questão social pela sua condição simultaneamente plutocrática e parlamentarista, ao proletariado só resta a Revolução ou o Rei.
- António Sardinha, Ao Princípio era o Verbo, Lisboa, 1924, p. 131
- António Sardinha, Ao Princípio era o Verbo, Lisboa, 1924, p. 131
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... Paul Bourget caracteriza muito bem os demi-savants ao escrever que eles tomam por liberdade de espírito a negação das verdades tradicionais e a adesão às hipóteses mais recentes, que consideram ingenuamente como sendo as do futuro. Este luxo intelectual, que não serve senão para generalizar a pior das perversões sociais, faz que a medida flutuante das populações urbanas não seja nem burguesa, nem operária, dando lugar a uma indecisão de classes, em que o proletário perde a parte mais viva da sua energia.
Eis aqui uma das consequências, - e das mais funestas! -, da Democracia. Georges Sorel, o grande mestre do pensamento sindicalista, em mais de uma passagem da sua obra notabilíssima a denuncia como tal. Assim, na sua Introduction à l'économie moderne, ele pondera com a incisão costumada : «Pode-se perguntar se os esforços empregados até hoje para civilizar as classes produtoras darão bons resultados. Eu tenho muito receio que as não aburguesem e acho que com isso só se diminui a resistência dos laços que ligam os trabalhadores à sua profissão». E Sorel, depois de acrescentar que, em vez de se submeter o operário aos caprichos da sua imaginação, o que convém é concentrá-lo no círculo das suas preocupações profissionais, reconhece que o aburguesamento do operariado inglês, que imita todos os ridículos das classes superiores do seu país e que já Kautsky assinalara no Mouvement socialiste, representa para o mesmo operariado uma desgraçada decadência intelectual e moral.
- António Sardinha, "Ao crepúsculo da inteligência" in Ao Ritmo da Ampulheta, ed. 1925.
Eis aqui uma das consequências, - e das mais funestas! -, da Democracia. Georges Sorel, o grande mestre do pensamento sindicalista, em mais de uma passagem da sua obra notabilíssima a denuncia como tal. Assim, na sua Introduction à l'économie moderne, ele pondera com a incisão costumada : «Pode-se perguntar se os esforços empregados até hoje para civilizar as classes produtoras darão bons resultados. Eu tenho muito receio que as não aburguesem e acho que com isso só se diminui a resistência dos laços que ligam os trabalhadores à sua profissão». E Sorel, depois de acrescentar que, em vez de se submeter o operário aos caprichos da sua imaginação, o que convém é concentrá-lo no círculo das suas preocupações profissionais, reconhece que o aburguesamento do operariado inglês, que imita todos os ridículos das classes superiores do seu país e que já Kautsky assinalara no Mouvement socialiste, representa para o mesmo operariado uma desgraçada decadência intelectual e moral.
- António Sardinha, "Ao crepúsculo da inteligência" in Ao Ritmo da Ampulheta, ed. 1925.
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No seu volume Ruine du monde antique, o grande espírito de Georges Sorel aponta com luminosidade as consequências desastrosas da cultura clássica, como os romanos da decadência a praticavam e como a praticaram depois, na Renascença, os receptadores da herança humanista. «Cultura de retóricos, cultura de diletantes, cultura formalista e vazia, onde os alunos, habituados a discorrer sobre temas desprovidos de todo o senso real e fora de todo o conhecimento positivo, não podem tornar-se senão beaux-esprits, capazes de discutir num salão de omni re scibili, mas impotentes para todo o trabalho produtivo, como para toda a criação verdadeiramente espiritual». Foi este falso conceito da cultura clássica que deu mais tarde o gongorismo, o marinismo, enfim, as formas preciosas e ultras em que as letras se desvirilizaram, optando pela cópia servil dos modelos que, como cânones intangíveis, as arcádias poéticas nos ofereciam na Antiguidade. Entende-se já que os Jesuítas, longe de serem uma causa dessa degradação, não representam senão uma das suas muitas vítimas.
- António Sardinha, "Os Jesuítas e as letras" in Na Feira dos Mitos, 2ª ed., 1942, p. 103.
- António Sardinha, "Os Jesuítas e as letras" in Na Feira dos Mitos, 2ª ed., 1942, p. 103.
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Obcecada pela ideia abstracta do homem anti-social, ou a-histórico - na fase de George Sorel, tudo a Revolução aboliu, proclamando uma teórica soberania popular que, na realidade, não se traduziu senão num flagelo de opressões e vexames constantes. É ao que se reduz a auréola já em crepúsculo dos Imortais Princípios.
A impugnação mais inexorável da ideologia igualitária da Revolução está na ofensiva crescente do Sindicalismo. O Sindicalismo, apesar dos exageros que lhe acidentam ainda a jornada, não é mais do que um regresso orgânico às antigas formas corporativas do Trabalho."
- António Sardinha, "A tomada da Bastilha", Ao Ritmo da Ampulheta - Crítica e Doutrina, Lisboa, Lvmen, 1925, pp. 23-29; p. 28.
A impugnação mais inexorável da ideologia igualitária da Revolução está na ofensiva crescente do Sindicalismo. O Sindicalismo, apesar dos exageros que lhe acidentam ainda a jornada, não é mais do que um regresso orgânico às antigas formas corporativas do Trabalho."
- António Sardinha, "A tomada da Bastilha", Ao Ritmo da Ampulheta - Crítica e Doutrina, Lisboa, Lvmen, 1925, pp. 23-29; p. 28.
1921 - Max_ASCOLI, Georges Sorel - Conférence lue à L'Université populaire de Ferrare, le 11 Mars 1920. Avant' Propos par Édouard BERTH [ pdf ]
Bibliografia
1921 - Max_ASCOLI, Georges Sorel - Conférence lue à L'Université populaire de Ferrare, le 11 Mars 1920. Avant' Propos par Édouard BERTH [ pdf ]
Bibliografia
- Contribution à l'Étude Profane de la Bible (Paris, 1889).
- Le Procès de Socrate, Examen Critique des Thèses Socratiques (Paris: Alcan, 1889).
- Questions de Morale (Paris, 1900).
- L'avenir socialiste des syndicats (Paris, 1901).
- La Ruine du Monde Antique: Conception Matérialiste de l'Histoire (Paris, 1902).
- Introduction à l'Économie Moderne (Paris, 1903).
- La Crise de la Pensée Catholique (Paris, 1903).
- Le Système Historique de Renan (Paris, 1905–1906).
- Les Préoccupations Métaphysiques des Physiciens Modernes (Paris, 1907).
- La Décomposition du Marxisme (Paris, 1908);
- Les Illusions du Progrès (1908);
- Réflexions sur la Violence (1908)
- La Révolution Dreyfusienne (Paris, 1909).
- Matériaux d'une Théorie du Prolétariat (Paris, 1919).
- De l'Utilité du Pragmatisme (Paris, 1921).