O sentido Nacional de uma Existência
António Sardinha
Levanto as mãos ao Senhor, - eu que sou feito de barro grosseiro e impuro, por não me haver perdido nas estradas do Egito.
- António Sardinha
- António Sardinha
RESUMO
- Esta obra foi escrita num momento de transição na vida de António Sardinha, quando abandonava o republicanismo jacobino e se convertia ao catolicismo e ao ideário monárquico. O livro presta homenagem ao etnógrafo António Tomás Pires, seu conterrâneo, e serve como testemunho público da nova orientação espiritual e política do autor.
- Apesar de ser a sua primeira obra em prosa, Sardinha decidiu inutilizá-la e retirá-la de circulação, decerto por considerar que não representava adequadamente a sua nova visão. Esta decisão revela a sua exigência intelectual e a busca pela autenticidade.
- O texto reflete a influência de autores republicanos como Teófilo Braga, que Sardinha admirava enquanto estudante, mas dos quais se distanciou ao abraçar o Integralismo Lusitano, movimento que defendia uma monarquia tradicional, orgânica e antiparlamentar.
- A obra é aqui apresentada como um documento importante precisamente por ter sido rejeitada pelo próprio autor, pois espelha o período de reconversão ideológica e espiritual que viria a moldar toda a sua produção posterior. Aquele que viria ser o seu primeiro livro - “O Valor da Raça” (1915) - também quase foi inutilizado por Sardinha, que em 1924 deu conta da sua insatisfação com o resultado final, anunciando a sua refundição num novo livro que intitularia Teoria da Nacionalidade.
- O conjunto da obra de António Sardinha revela uma busca constante pela verdade e uma disposição para rectificar suas próprias posições, exemplificando coragem moral e dignidade.
Por expressa decisão de António Sardinha (1887-1925), o seu primeiro livro em prosa intitulado O Sentido Nacional de uma Existência - António Tomás Pires e o Integralismo Lusitano (1913, ed. de 1969), foi retirado de circulação e inutilizado.
Naquela época, com vinte e poucos anos, António Sardinha abandonou o jacobinismo republicano, voltando ao catolicismo e adoptando o ideário monárquico. Este livro seria a sua primeira obra em prosa, homenageando um etnógrafo seu conterrâneo, António Tomás Pires (1850-1913), e, no mesmo passo, dando público testemunho do seu novo posicionamento espiritual e político. A decisão de inutilizar este livro não deverá ter sido tomada de animo leve. Em 1969, porém, o bibliófilo Eurico Gama, desenterrou o cadáver. Dada a muito recente reconversão religiosa e mudança de ideário político, este é um documento a considerar precisamente por ter sido inutilizado pelo seu Autor.
A primeira questão que se nos impõe é esta: porque é que António Sardinha rejeitou e inutilizou este livro?
A obra O Valor da Raça (1915), veio a ser o seu primeiro livro em prosa, cumprindo uma motivação ou função semelhante: dar conta do seu novo ideário político e lançar o que designa no subtítulo por "Introdução a uma Campanha Nacional". Pelo testemunho de Luís Chaves, sabemos que O Valor da Raça por pouco não terá sido também inutilizado: “muitas vezes António Sardinha se me queixou” de que a obra "se ressentiu da precipitação com que foi feito" (Luís Chaves, "Problemas étnicos - As origens portuguesas em António Sardinha", Política, nº 10, 10 de Janeiro de 1930, p. 38). Sem pretender apresentar conclusão sobre o assunto, o que só o Autor poderia fazer, dois aspectos chamam a atenção.
Em primeiro lugar, o estilo de escrita que, por vezes, faz lembrar o de outros republicanos da época, como Teófilo Braga, que Sardinha apreciou enquanto estudante em Coimbra. Ao ler os seus ensaios posteriores, é flagrante o contraste no estilo, aqui ainda por vezes preso a uma verbosidade truculenta. Até 1912-1913, foi esse o seu ambiente mental e estilístico de referência.
Além do estilo, algum do conteúdo poderá também ter estado na base de uma tão radical decisão. Esta obra de 1913 apresenta duas epígrafes: uma de Honoré de Balzac (1799-1850) e outra de Jules-Auguste Soury (1842-1915). Ao publicar O Valor da Raça, Sardinha repete a epígrafe de Balzac - referindo os dois princípios retirados do pórtico de La Comédie Humaine, o Catolicismo e a Realeza - mas suprime a epígrafe de Jules Soury, um neurologista muito apreciado pelos republicanos mais jacobinos, anti-religiosos e anti-clericais. Soury era o autor de uma "psicopatologia de Jesus", com um diagnóstico de demência (Jesus et les Évangiles, Paris, 1878), produzindo depois também teorias científicas de determinismo e supremacia racial, a que não é legítimo furtar um acentuado anti-semitismo.
Poucos anos antes, António Sardinha identificava-se com o republicanismo jacobino, com o positivismo e o cientismo prevalecente nesses meios, em luta contra o que designavam por "obscurantismos clericais". Além da epígrafe de Jules Soury, encontram-se neste seu primeiro livro ecos de teorias de supremacia racial, bem presentes em republicanos da época, como Aquilino Ribeiro ou Raul Proença, por exemplo, que viriam a atribuir a decadência portuguesa a uma profunda "causa psíquica e fisiológica": uma "degradação étnica" em resultado de "conúbios aviltantes", de cruzamentos com "raças inferiores". Entre os republicanos, Raul Proença sairá mesmo depois em defesa de uma "política da Raça", de uma "política fisiológica" ou Eugenia [Aquilino Ribeiro, "Em torno do problema da raça", Homens Livres, nº 1, 1 de Dezembro de 1923, p. 14; Raul Proença, Panfletos, Lisboa, 1926, pp. 57 - 58; ver a defesa de uma "política fisiológica" na página 65]. Nesse primeiro livro proscrito de prosa, curiosamente, era o jovem António Sardinha quem não deixava de advertir: "não se examinem factos de ontem com uma consciência de hoje (...). Nenhum poder nos investe no direito de chamar ao pretório o tempo que passou só porque não se combina nem coincide com as normas que regem o nosso."
Entre 1912 e 1915, António Sardinha esteve em profundo processo de transformação mental e espiritual. Em 1912, escreveu por carta para o seu amigo Luís de Almeida Braga:
"A minha alma depurou-se de certas excrescências indignas de mim (...) Eu hoje, na solidão da minha estepe, vivo a sós comigo, com a brasa inquieta que me devora. Ela me queima as impurezas em que me abafava, não há já ódio nem paixão vil, estreita, que me possa inflamar. Afastei os olhos da vergonha que me cerca e acastelei-me na sagrada religião da Esperança."
Em Dezembro desse ano, Sardinha anunciava por fim a sua conversão: "Recordas-te, Luís, de um dia me dizeres na tua casa, ao fim da jeropiga e entremeando um cavaco com a senhora Teresa (passei a Valpaços, - a terra dela), que o erro jacobino havia de morrer em mim, por incompatível com a sinceridade que eu lhe consagrava, e que os meus olhos se abririam para as verdades eternas? Pois, meu amigo, meu Irmão, leste fundo na minha alma e com alegria te conto a minha conversão à Monarquia e ao Catolicismo, - as únicas limitações, que o homem, sem perda de dignidade e orgulho, pode ainda aceitar. E eu abençoo, eu abençoo esta República trágico-cómica que me vacinou a tempo pela lição da experiência, que livrou a minha existência dum desvio fatal."
Mais tarde, no prefácio que preparou para Na Feira dos Mitos (1926), obra póstuma ainda por si organizada, sob o título "Eu pecador, me confesso", Sardinha referiu-se à "anarquia mental" dos seus vinte anos. Em 1913, ao nascer para uma nova vida espiritual, cívica e política, Sardinha poderá ter querido libertar-se de "certas excrescências" que desde logo considerou indignas de si. É significativo que António Sardinha, decerto sacudindo anti-semitismos espúrios, tenha depois escrito: “o judaísmo não assume para nós sinónimo diverso do de plutocratismo. É mais facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico ou confessional" (Purgatório das Ideias, 1929, p. 164).
Os ambientes do ateísmo e do republicanismo jacobino, que frequentou na juventude, deixaram marcas nos escritos de António Sardinha. Apesar de ter morrido jovem, com apenas 37 anos, também por isso a sua obra constitui um importante documento histórico, revelando-nos, na letra e no espírito, um singular processo de depuração e de ascese no acertar do passo com a espiritualidade dos seus pares do Integralismo Lusitano. Não sendo antídoto da desonestidade intelectual e da má-fé, vale a pena repetir aqui a "nota final" inscrita pelos editores de Na Feira dos Mitos:
“Ao leitor atento das obras de António Sardinha, não escaparão decerto afirmações e atitudes que foram modificadas em diverso sentido em artigos ou livros posteriores. Em mais de um passo dos seus escritos, ele se retifica a si mesmo, com a nobreza de quem, só buscando a verdade, abandona de boamente o caminho andado em vão, e com a humildade do cristão que confessa humanamente o seu erro, sem pecado de vaidade. Até nestas reconsiderações, a sua vida foi um exemplo de coragem moral e de aprumada dignidade que sempre será oportuno recordar.” (Rodrigues Cavalheiro e Hipólito Raposo in “Nota final”, Na Feira dos Mitos, 2ª edição, 1942, p. 314)
J.M.Q.
17.10.2024
Naquela época, com vinte e poucos anos, António Sardinha abandonou o jacobinismo republicano, voltando ao catolicismo e adoptando o ideário monárquico. Este livro seria a sua primeira obra em prosa, homenageando um etnógrafo seu conterrâneo, António Tomás Pires (1850-1913), e, no mesmo passo, dando público testemunho do seu novo posicionamento espiritual e político. A decisão de inutilizar este livro não deverá ter sido tomada de animo leve. Em 1969, porém, o bibliófilo Eurico Gama, desenterrou o cadáver. Dada a muito recente reconversão religiosa e mudança de ideário político, este é um documento a considerar precisamente por ter sido inutilizado pelo seu Autor.
A primeira questão que se nos impõe é esta: porque é que António Sardinha rejeitou e inutilizou este livro?
A obra O Valor da Raça (1915), veio a ser o seu primeiro livro em prosa, cumprindo uma motivação ou função semelhante: dar conta do seu novo ideário político e lançar o que designa no subtítulo por "Introdução a uma Campanha Nacional". Pelo testemunho de Luís Chaves, sabemos que O Valor da Raça por pouco não terá sido também inutilizado: “muitas vezes António Sardinha se me queixou” de que a obra "se ressentiu da precipitação com que foi feito" (Luís Chaves, "Problemas étnicos - As origens portuguesas em António Sardinha", Política, nº 10, 10 de Janeiro de 1930, p. 38). Sem pretender apresentar conclusão sobre o assunto, o que só o Autor poderia fazer, dois aspectos chamam a atenção.
Em primeiro lugar, o estilo de escrita que, por vezes, faz lembrar o de outros republicanos da época, como Teófilo Braga, que Sardinha apreciou enquanto estudante em Coimbra. Ao ler os seus ensaios posteriores, é flagrante o contraste no estilo, aqui ainda por vezes preso a uma verbosidade truculenta. Até 1912-1913, foi esse o seu ambiente mental e estilístico de referência.
Além do estilo, algum do conteúdo poderá também ter estado na base de uma tão radical decisão. Esta obra de 1913 apresenta duas epígrafes: uma de Honoré de Balzac (1799-1850) e outra de Jules-Auguste Soury (1842-1915). Ao publicar O Valor da Raça, Sardinha repete a epígrafe de Balzac - referindo os dois princípios retirados do pórtico de La Comédie Humaine, o Catolicismo e a Realeza - mas suprime a epígrafe de Jules Soury, um neurologista muito apreciado pelos republicanos mais jacobinos, anti-religiosos e anti-clericais. Soury era o autor de uma "psicopatologia de Jesus", com um diagnóstico de demência (Jesus et les Évangiles, Paris, 1878), produzindo depois também teorias científicas de determinismo e supremacia racial, a que não é legítimo furtar um acentuado anti-semitismo.
Poucos anos antes, António Sardinha identificava-se com o republicanismo jacobino, com o positivismo e o cientismo prevalecente nesses meios, em luta contra o que designavam por "obscurantismos clericais". Além da epígrafe de Jules Soury, encontram-se neste seu primeiro livro ecos de teorias de supremacia racial, bem presentes em republicanos da época, como Aquilino Ribeiro ou Raul Proença, por exemplo, que viriam a atribuir a decadência portuguesa a uma profunda "causa psíquica e fisiológica": uma "degradação étnica" em resultado de "conúbios aviltantes", de cruzamentos com "raças inferiores". Entre os republicanos, Raul Proença sairá mesmo depois em defesa de uma "política da Raça", de uma "política fisiológica" ou Eugenia [Aquilino Ribeiro, "Em torno do problema da raça", Homens Livres, nº 1, 1 de Dezembro de 1923, p. 14; Raul Proença, Panfletos, Lisboa, 1926, pp. 57 - 58; ver a defesa de uma "política fisiológica" na página 65]. Nesse primeiro livro proscrito de prosa, curiosamente, era o jovem António Sardinha quem não deixava de advertir: "não se examinem factos de ontem com uma consciência de hoje (...). Nenhum poder nos investe no direito de chamar ao pretório o tempo que passou só porque não se combina nem coincide com as normas que regem o nosso."
Entre 1912 e 1915, António Sardinha esteve em profundo processo de transformação mental e espiritual. Em 1912, escreveu por carta para o seu amigo Luís de Almeida Braga:
"A minha alma depurou-se de certas excrescências indignas de mim (...) Eu hoje, na solidão da minha estepe, vivo a sós comigo, com a brasa inquieta que me devora. Ela me queima as impurezas em que me abafava, não há já ódio nem paixão vil, estreita, que me possa inflamar. Afastei os olhos da vergonha que me cerca e acastelei-me na sagrada religião da Esperança."
Em Dezembro desse ano, Sardinha anunciava por fim a sua conversão: "Recordas-te, Luís, de um dia me dizeres na tua casa, ao fim da jeropiga e entremeando um cavaco com a senhora Teresa (passei a Valpaços, - a terra dela), que o erro jacobino havia de morrer em mim, por incompatível com a sinceridade que eu lhe consagrava, e que os meus olhos se abririam para as verdades eternas? Pois, meu amigo, meu Irmão, leste fundo na minha alma e com alegria te conto a minha conversão à Monarquia e ao Catolicismo, - as únicas limitações, que o homem, sem perda de dignidade e orgulho, pode ainda aceitar. E eu abençoo, eu abençoo esta República trágico-cómica que me vacinou a tempo pela lição da experiência, que livrou a minha existência dum desvio fatal."
Mais tarde, no prefácio que preparou para Na Feira dos Mitos (1926), obra póstuma ainda por si organizada, sob o título "Eu pecador, me confesso", Sardinha referiu-se à "anarquia mental" dos seus vinte anos. Em 1913, ao nascer para uma nova vida espiritual, cívica e política, Sardinha poderá ter querido libertar-se de "certas excrescências" que desde logo considerou indignas de si. É significativo que António Sardinha, decerto sacudindo anti-semitismos espúrios, tenha depois escrito: “o judaísmo não assume para nós sinónimo diverso do de plutocratismo. É mais facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico ou confessional" (Purgatório das Ideias, 1929, p. 164).
Os ambientes do ateísmo e do republicanismo jacobino, que frequentou na juventude, deixaram marcas nos escritos de António Sardinha. Apesar de ter morrido jovem, com apenas 37 anos, também por isso a sua obra constitui um importante documento histórico, revelando-nos, na letra e no espírito, um singular processo de depuração e de ascese no acertar do passo com a espiritualidade dos seus pares do Integralismo Lusitano. Não sendo antídoto da desonestidade intelectual e da má-fé, vale a pena repetir aqui a "nota final" inscrita pelos editores de Na Feira dos Mitos:
“Ao leitor atento das obras de António Sardinha, não escaparão decerto afirmações e atitudes que foram modificadas em diverso sentido em artigos ou livros posteriores. Em mais de um passo dos seus escritos, ele se retifica a si mesmo, com a nobreza de quem, só buscando a verdade, abandona de boamente o caminho andado em vão, e com a humildade do cristão que confessa humanamente o seu erro, sem pecado de vaidade. Até nestas reconsiderações, a sua vida foi um exemplo de coragem moral e de aprumada dignidade que sempre será oportuno recordar.” (Rodrigues Cavalheiro e Hipólito Raposo in “Nota final”, Na Feira dos Mitos, 2ª edição, 1942, p. 314)
J.M.Q.
17.10.2024
O Sentido Nacional de uma Existência
António Tomás Pires e o INtegralismo Lusitano
por ANTÓNIO SARDINHA
Escrito num ambiente de decadência nacional e de convulsão política, este seria o primeiro livro de António Sardinha, que o próprio autor inutilizou e impediu de circular, apresenta uma análise histórica, política e cultural da identidade nacional de Portugal, da sua evolução institucional e das correntes ideológicas que estavam moldando o seu destino. António Sardinha expôs aqui o que seria para si o essencial do pensamento do Integralismo Lusitano, movimento de ideias tradicionalistas que se viria a apresentar, em Abril de 1914, na revista Nação Portuguesa.
O Legado Esquecido de António Tomás Pires e o Espírito Nacional. O texto começa com uma homenagem a António Tomás Pires, uma figura esquecida mas importante na preparação espiritual de um renascimento de Portugal. Apesar do seu compromisso com a Pátria portuguesa, Tomás Pires foi largamente ignorado pela opinião pública, refletindo um desprezo mais amplo pelo patriotismo genuíno em favor da mediocridade e do oportunismo político. O autor lamenta o declínio do propósito coletivo e a ascensão do individualismo, que mina a coesão social e a vitalidade nacional, sublinhando a necessidade de insistir no espírito de serviço e de sacrifício como virtudes essenciais ao progresso social, contrastando-as com o egoísmo e o caos da vida política contemporânea.
Contexto Histórico: O Declínio da Nacionalidade Portuguesa e a Ascensão do Liberalismo. O documento traça a trajetória histórica de Portugal, destacando uma ruptura profunda no seu desenvolvimento causada pelas invasões francesas no início século XIX, causando mudanças ideológicas e desordem interna. Critica as ideologias liberais e republicanas importadas, que desconsideraram as realidades culturais, sociais e institucionais de Portugal. A monarquia constitucional é apresentada como um fracasso que aprofundou a divisão entre a Nação e o Estado, enfraquecendo as autonomias locais tradicionais e as instituições comunitárias que sustentavam a identidade portuguesa.
O Papel da Erudição e do Renascimento Cultural na Regeneração Nacional. Uma parte significativa do livro é dedicada aos esforços académicos no sentido de redescobrir e preservar o património histórico, linguístico, etnográfico e institucional de Portugal. Através de revistas como a Portugalia e de pesquisadores e intelectuais como Martins Sarmento, Estácio da Veiga, Santos Rocha, Leite de Vasconcelos e Fonseca Cardoso desenvolveu-se uma crescente consciência da distinta identidade cultural de Portugal, em que foi sublinhada a importância do regionalismo, das tradições locais e dos laços comunitários. Terá sido esse trabalho intelectual a lançar as bases para o movimento do Integralismo Lusitano, cujo propósito seria agora o de sintetizar esses elementos numa doutrina nacional coerente.
Integralismo Lusitano: Uma Abordagem Tradicionalista e Empírica. O Integralismo Lusitano é apresentado como um método empírico e pragmático para restaurar a energia nacional de Portugal, respeitando as suas estruturas político-sociais e realidades históricas. O movimento rejeita o universalismo abstrato e as ideologias saídas da Revolução Francesa, defendendo em vez disso um retorno à unidade orgânica da nação baseada em instituições tradicionais como a monarquia, a família e o município. É sublinhada a importância da autonomia local, do particularismo regional e da representação hierárquica dos grupos sociais como pilares de uma comunidade nacional saudável.
Princípios Centrais do Integralismo Lusitano
Crítica aos Regimes Liberal e Republicano. António Sardinha fornece uma crítica detalhada do constitucionalismo liberal e do republicanismo em Portugal, argumentando que ambos os sistemas falharam em integrar as realidades sociais e históricas da nação. O estado liberal é descrito como excessivamente centralizado, burocrático e desconectado das raízes comunitárias da sociedade portuguesa; o regime republicano recebeu essa herança, agravando-a ao minar as instituições tradicionais e exacerbar as divisões sociais, promovendo o secularismo e o individualismo. Sardinha destaca a ascensão das influências estrangeiras, da mediocridade política e do clientelismo.
A Importância da Continuidade Histórica e do Município. Um tema recorrente é a importância da continuidade histórica e da preservação do município como a unidade social fundamental da identidade portuguesa. O documento traça as origens do município desde as comunidades sedentárias pré-históricas até os tempos romanos e medievais, sublinhando o seu papel na manutenção da cultura, da autonomia local e da coesão social. Na linha do nacionalismo étnico dos republicanos da revista Portugalia, argumenta que o município encarna o "dolicóide meão" (tipo de crânio alongado) característico do substrato étnico português e serve como base natural para a representação política e a unidade nacional. Sardinha, por via da sociologia de São Tomás de Aquino, começou a afastar-se dessa tese em O Valor da Raça (1915).
O Mito do Encoberto e o Espírito de Esperança. O mito do "Encoberto" é a figura messiânica que simboliza a esperança de ressurreição e de restauração nacional. Este mito, profundamente enraizado no folclore e na história portuguesa, reflete a aspiração coletiva de superar calamidades históricas e a dominação estrangeira através da fé, do sacrifício e da renovação. Sardinha conecta este espírito de esperança à força duradoura das comunidades locais e das instituições tradicionais que resistem à dissolução e à decadência.
A Ameaça da Influência Estrangeira e das Sociedades Secretas. Sardinha alerta contra a influência perniciosa de potências estrangeiras e das sociedades secretas, particularmente a Maçonaria, que acusa de minar a integridade nacional e os valores tradicionais de Portugal. Descreve essas forças como agentes que promovem o secularismo, o individualismo e a fragmentação política, ameaçando destruir por dentro a nação. O documento apela à vigilância e resistência contra essas influências para preservar a coesão espiritual e social da nação.
Conclusão: O Apelo a um Novo Despertar Nacional. O documento conclui com um apelo a um novo despertar nacional baseado nos princípios do Integralismo Lusitano, destacando-se a necessidade de restaurar a unidade orgânica da nação através do respeito pelas instituições históricas tradicionais - a monarquia e os municípios dotados da maior autonomia. O movimento é apresentado como o antídoto para o caos e o declínio trazidos pelo liberalismo, pelo republicanismo e pelas persistentes interferências estrangeiras, oferecendo um caminho para um Portugal revitalizado e soberano, enraizado na sua identidade e tradições únicas.
O Legado Esquecido de António Tomás Pires e o Espírito Nacional. O texto começa com uma homenagem a António Tomás Pires, uma figura esquecida mas importante na preparação espiritual de um renascimento de Portugal. Apesar do seu compromisso com a Pátria portuguesa, Tomás Pires foi largamente ignorado pela opinião pública, refletindo um desprezo mais amplo pelo patriotismo genuíno em favor da mediocridade e do oportunismo político. O autor lamenta o declínio do propósito coletivo e a ascensão do individualismo, que mina a coesão social e a vitalidade nacional, sublinhando a necessidade de insistir no espírito de serviço e de sacrifício como virtudes essenciais ao progresso social, contrastando-as com o egoísmo e o caos da vida política contemporânea.
Contexto Histórico: O Declínio da Nacionalidade Portuguesa e a Ascensão do Liberalismo. O documento traça a trajetória histórica de Portugal, destacando uma ruptura profunda no seu desenvolvimento causada pelas invasões francesas no início século XIX, causando mudanças ideológicas e desordem interna. Critica as ideologias liberais e republicanas importadas, que desconsideraram as realidades culturais, sociais e institucionais de Portugal. A monarquia constitucional é apresentada como um fracasso que aprofundou a divisão entre a Nação e o Estado, enfraquecendo as autonomias locais tradicionais e as instituições comunitárias que sustentavam a identidade portuguesa.
O Papel da Erudição e do Renascimento Cultural na Regeneração Nacional. Uma parte significativa do livro é dedicada aos esforços académicos no sentido de redescobrir e preservar o património histórico, linguístico, etnográfico e institucional de Portugal. Através de revistas como a Portugalia e de pesquisadores e intelectuais como Martins Sarmento, Estácio da Veiga, Santos Rocha, Leite de Vasconcelos e Fonseca Cardoso desenvolveu-se uma crescente consciência da distinta identidade cultural de Portugal, em que foi sublinhada a importância do regionalismo, das tradições locais e dos laços comunitários. Terá sido esse trabalho intelectual a lançar as bases para o movimento do Integralismo Lusitano, cujo propósito seria agora o de sintetizar esses elementos numa doutrina nacional coerente.
Integralismo Lusitano: Uma Abordagem Tradicionalista e Empírica. O Integralismo Lusitano é apresentado como um método empírico e pragmático para restaurar a energia nacional de Portugal, respeitando as suas estruturas político-sociais e realidades históricas. O movimento rejeita o universalismo abstrato e as ideologias saídas da Revolução Francesa, defendendo em vez disso um retorno à unidade orgânica da nação baseada em instituições tradicionais como a monarquia, a família e o município. É sublinhada a importância da autonomia local, do particularismo regional e da representação hierárquica dos grupos sociais como pilares de uma comunidade nacional saudável.
Princípios Centrais do Integralismo Lusitano
- Reconhecimento da identidade cultural e histórica da nação portuguesa.
- Defesa das autonomias locais e regionais contra o estado burocrático centralizador.
- Oposição ao parlamentarismo dos partidos políticos, entendidos como representações de oligarquias e fontes de instabilidade e corrupção.
- Oposição ao individualismo abstrato, em defesa de uma representação baseada em comunidades naturais e em grupos profissionais.
- Defesa da monarquia como instituição unificadora e equilibradora dentro de uma ordem social pluralista.
Crítica aos Regimes Liberal e Republicano. António Sardinha fornece uma crítica detalhada do constitucionalismo liberal e do republicanismo em Portugal, argumentando que ambos os sistemas falharam em integrar as realidades sociais e históricas da nação. O estado liberal é descrito como excessivamente centralizado, burocrático e desconectado das raízes comunitárias da sociedade portuguesa; o regime republicano recebeu essa herança, agravando-a ao minar as instituições tradicionais e exacerbar as divisões sociais, promovendo o secularismo e o individualismo. Sardinha destaca a ascensão das influências estrangeiras, da mediocridade política e do clientelismo.
A Importância da Continuidade Histórica e do Município. Um tema recorrente é a importância da continuidade histórica e da preservação do município como a unidade social fundamental da identidade portuguesa. O documento traça as origens do município desde as comunidades sedentárias pré-históricas até os tempos romanos e medievais, sublinhando o seu papel na manutenção da cultura, da autonomia local e da coesão social. Na linha do nacionalismo étnico dos republicanos da revista Portugalia, argumenta que o município encarna o "dolicóide meão" (tipo de crânio alongado) característico do substrato étnico português e serve como base natural para a representação política e a unidade nacional. Sardinha, por via da sociologia de São Tomás de Aquino, começou a afastar-se dessa tese em O Valor da Raça (1915).
O Mito do Encoberto e o Espírito de Esperança. O mito do "Encoberto" é a figura messiânica que simboliza a esperança de ressurreição e de restauração nacional. Este mito, profundamente enraizado no folclore e na história portuguesa, reflete a aspiração coletiva de superar calamidades históricas e a dominação estrangeira através da fé, do sacrifício e da renovação. Sardinha conecta este espírito de esperança à força duradoura das comunidades locais e das instituições tradicionais que resistem à dissolução e à decadência.
A Ameaça da Influência Estrangeira e das Sociedades Secretas. Sardinha alerta contra a influência perniciosa de potências estrangeiras e das sociedades secretas, particularmente a Maçonaria, que acusa de minar a integridade nacional e os valores tradicionais de Portugal. Descreve essas forças como agentes que promovem o secularismo, o individualismo e a fragmentação política, ameaçando destruir por dentro a nação. O documento apela à vigilância e resistência contra essas influências para preservar a coesão espiritual e social da nação.
Conclusão: O Apelo a um Novo Despertar Nacional. O documento conclui com um apelo a um novo despertar nacional baseado nos princípios do Integralismo Lusitano, destacando-se a necessidade de restaurar a unidade orgânica da nação através do respeito pelas instituições históricas tradicionais - a monarquia e os municípios dotados da maior autonomia. O movimento é apresentado como o antídoto para o caos e o declínio trazidos pelo liberalismo, pelo republicanismo e pelas persistentes interferências estrangeiras, oferecendo um caminho para um Portugal revitalizado e soberano, enraizado na sua identidade e tradições únicas.
[Assinado por ‘António Sardinha (António de Monforte)’, composto e impresso na Tipografia e Estereotipia Progresso, de António José Torres de Carvalho, em Elvas, 1914. «Por disposição expressa do Autor inutiliza-se a presente edição, reservando-se apenas oito exemplares.» Um destes exemplares conserva-se em Lisboa, na Biblioteca de António Sardinha na Universidade Católica Portuguesa [cota: SARD 1101]; outro, na Biblioteca Municipal de Elvas [cota: P.H. 3642]. Nova edição, com prefácio de Eurico Gama, composto e impresso em Elvas, na Tipografia Casa Ibérica, em 1969. O prefácio de Eurico Gama ocupa duas pp., não numeradas; no final do texto de Sardinha, na p. 99, E.G. anota: «Aqui suspendeu António Sardinha, por motivos que ignoro, este seu excelente Ensaio da mais pura e mais viva fé tradicionalista.» Em Adenda, pp. 101-107, reproduz o artigo «António Tomás Pires», incluido na recolha póstuma De vita et moribus, Lisboa, Ferin, 1931, pp. 139-150. Nas pp. 107-110 regista outros documentos de António Sardinha relacionados com António Tomás Pires, incluindo o soneto «Serão ducal», publicado em Tronco reverdecido. ]
A vós outros, os que acamaradais comigo no grande sonho reparador, esta memória sobre a campa de um Homem de Boa-Vontade.
«J’écris à la lueur de deux vérités éternelles: la réligion, la monarchie, deux nécessités que les événements contemporains proclament, et vers lesquelles tout écrivain de bon sens doit essayer de ramener notre pays.»
Balzac, Do prefácio da Comédie Humaine.
«Se battre pour l’idéal des ancêtres et le salut des descendants, se battre pour les traditions de la race, pour l’honneur de caste ou de nation, voilà, selon moi, la fonction héroïque de l’homme.»
Jules Soury, Da Campagne nacionaliste.
Num morro sagrado da fronteira, à sombra da santa igreja do Hyssope, houve um Homem de Boa-Vontade que durante uma vida inteira de trabalho e dedicação foi na sua obscuridade contente um dos grandes, um dos mais incansáveis preparadores da verdadeira energia nacional. Nunca ninguém lhe decorou o nome, posto agora no destaque imbecil dos necrológios por uma meia-dúzia de palavras desbotadas – daquelas que se escrevem por dever de ofício e que na compunção profissional das gazetas são as que se encontram logo ali, à flor da pena, fornecidas pelo elogio arrepanhado que em letra de forma se aplica indistintamente a quantos se vão para não voltar. E quem, por títulos tão custosos, adquirira direito a um relevo inconfundível, a um testemunho unânime de homenagens conscientes, viu-se irmanado na frieza torpe da Opinião – transija-se com a maiúscula! – aos que se somem, improdutivos, vazios, sem um rasto que lhes assinale a caminhada, sem um eco que lhes guarde a lembrança com enternecimento.
O significado exacto do altíssimo esforço resgatador em que António Tomás Pires desbaratara as melhores fibras do coração, as possibilidades melhores da iniciativa, não lho salientou nenhuma voz sincera que ao menos por sobre a campa do Homem de Boa-Vontade desfolhasse uma nota húmida de admiração e reconhecimento. Ao fim de trinta anos de luta afincada, de apego jamais desmentido a um permanente sonho inspirador, desaparece incompreendidamente, entre um encolher de ombros brutal, como incompreendidamente, entre o mesmo encolher de ombros, lhe decorrera sempre o ardor infatigável, a cegueira generosa. É que mais do que nunca a desvergonha política se volve em alçaprema de arrivistas e palradores – é que mais do que nunca a demência verbalista se transfigura em carta autêntica de glória para um país perdido em que os estímulos selectivos cederam à zumbaia agachada do pedantocrata que quer subir, do aventureiro que quer instalar-se. Por isso, num período em que toda a actividade que se apura é logo consumida na escalada sôfrega do mandarinato, em que as débeis probabilidades individuais se polarizam nesse alvo ainda mais débil, não é para a gente estranhar que abalem no silêncio os que no silêncio renunciaram às consagrações histriónicas do tablado para escutarem unicamente os ritmos serenos de uma serena existência de espírito.
Esfiampado de se atribuir às várias, às incontáveis nulidades insupríveis que em termos passageiros conseguem alinhavar umas vacuidades sonoras para as badalarem em seguida, o adjectivo que se aluga, sem ruborecer de pudor, deserta de pronto apenas haja de ser justo, de ser sério. No cabo, calando-se, honra bem mais que falasse! Porque levar de camarada, no mais lato pé de igualdade, a Palma-Cavalão que se despede aposentado em pai-da-pátria, em legislador austeríssimo, e à criatura aprumada, limpa, que fez dos seus dias um emprego sublimado, antes deixá-la partir desapercebidamente, que em enxovalhá-la com o último insulto de um panegírico de chapa – de uma prostituída frase de circunstância! Antes deixá-la partir, sem uma hipocrisia dolorida, só com a saudade religiosíssima dos que lhe hão-de manter a memória numa recolhida devoção inalterável, como uma lâmpada votiva ardendo inalteravelmente – antes deixá-la partir no desprendimento grosseiro da rua que pelo método repentino aprende a nomear a um por um os inumeráveis arlequins que a mistificam, louvaminhando não sei que mezinhices de prosperidade colectiva, mas que nem de leve se descobre quando alguém que se queimou na labareda inquieta de uma finalidade, cheia de enlevo e excepção, entende que já é tempo de se ir a descansar.
Assim se retiram no meio de uma ignorância em que mal se enroupa a hostilidade pior os que se atreveram a ofender a planura razíssima da mediocridade, insurreccionando-se contra a água-morta de uma época em que o invertebrado domina, os que, aliando à sua ânsia de viver um sentido mais amplo que o dos horizontes quotidianos, se abrasaram eles próprios no empenho inapaziguável de se valorizarem sempre, e cada vez mais, numa porfia brava de eternos insatisfeitos. E o que essas almas, moldadas em genuina lâmina de Toledo, com um raro banho lustral a temperar-lhe a resistência, alcançaram em diafaneidade – em vibração interior –, o que essas almas assumiram em certeza e direitura, imediatamente os relativismos torpes do ambiente lho abatem como falha irremível, como insuficiência desastrada. Numa sociedade que, a exprimir-se, só se definiria pelo gregarismo mais reles, mais regressivo, onde o horror aos cumes, aos pontos de referência, se denuncia na demissão de toda a espontaneidade, de todo o incentivo, está, afinal, na íntima essência dela, no jogo das forças que lhe apressam a decomposição, o destituir-se de recorte e fisionomia, o tornar-se uma coisa espalmada, morrinhenta, tal como um areal inóspito em que nem o cardo braceja. É a gafa anónima – a insanável degradação de energia com que se acusa o esfarelamento incessante dos mundos, com que as raças se extinguem num suicídio vagaroso, com que a razão histórica de um povo se oblitera e elimina.
Traz a morte consigo, como o chão maldito de Gomorra que é coberto de sal, uma era em que o homem vai exclusivamente ao seu destino pessoal, em que ninguém se perscruta, nem com a fidelidade a uma aspiração querida da adolescência se observa o respeito de uma vocação a cumprir – de uma utilidade nossa a socializar. O atomismo individualista na dispersão dos apetites que diminuem, dos desejos que escravizam, desgarrou-nos das supremas directrizes aglutinadoras; não se conhece já o gozo místico, inefável, de se servir, ou um soberano sentimento comum ou uma conduta de sacrifício desbravador – e servir é a virtude divina pela qual o instinto se liberta dos cárceres estreitos, a chave maravilhosa das grandes marchas civilizadoras!
Com a conquista de uns míseros regalas materiais, a ilusão sensualista do século cuida aproar a esse polo misterioso, para o qual, sem parar, se encaminham misteriosamente as solicitações insofismáveis da nossa realidade incomunicável. Esmorecer nos motivos poderosos que accionam a existência e lhe imprimem querer invencível. Animados por uma plebe ululante, com estrias de crime nas máscaras contraídas, apenas os sicofantas medram e engrossam, derrancando pela difusão de igualitarismos mentirosos as prodigiosas reservas da coesão colectiva. E no eclipse tremendo é uma sociedade que resvala para o pandemónio, é uma sociedade que anda já perto do coma final, a sociedade que não se identifica nem se autoriza com o bem reduzido grupo de figuras autónomas que porventura lhe reste.
Ora na crise máxima de um pobre povo que, desenraizado e desgravitado, já sem aferro centrípeto que o impeça de se desagregar, não sabe donde vem nem para onde irá, os obreiros da sentida reparação que um acordo profundo de espíritos e vontades já anuncia no horizonte – da reparação que se adivinha na atitude cismadora de uma corte de moços que avança em silêncio, aguardando sem impaciências a altura de intervir –, os obreiros tão mal estimados dessa reparação – os que lhe rasgaram os caboucos e carrearam a pedra para os alicerces – têm-se aquietado para o sono último obscurecidamente, como que num firme propósito, entre eles deliberado. Ontem, na riba adversa de Timor, Fonseca Cardoso – o antropólogo notabilíssimo que desvendou os enigmas entramados da etnogenia portuguesa –, há bem pouco ainda Sousa Costa Lobo, do qual com dificuldade se descortinara que fora ministro com José Dias, mas que nenhuma alusão se lembrou de reverenciar como o autor ilustre da História da Sociedade em Portugal no século XV; agora um modesto pioneiro, António Tomás Pires, que do seu cantinho, à sombra da Santa Sé do Hyssope, enriqueceu durante uma faina de anos as duas ou três publicações em que a intenção de Garrett correra a acolher-se desvirtuada nos arraiais literários pelas farândolas ultra-românticas – em que o exemplo austero de Herculano era quem presidia, com a candeia do eruditismo acesa pelas noites de vigília intérmina.
Pertencem eles à hoste valorosa que em largas batalhas de persistência e apostolismo, que em inventários amoráveis, tocados de carinho infinito, de solicitações extremosíssimas, andou defendendo de infiéis e renegados a vitalidade soberba do génio lusitanista, tantas vezes dado por interdito, tantas vezes tratado em público e raso como um enjeitado miserável, como um filho tristíssimo das ervas. E porque nunca se lhes sujou a boca com um solecismo tatuado de comício nem acolitaram o boticário de Rouen nas pitorescas peregrinações do chamado «Livre-Pensamento», perde-se-lhes, abafa-se-lhes a retirada no tumultuar de feira em que Sganarelos sem vergonha comprometem a dignidade do País com alquimias de casa-forte. La République n’a pas besoin de savants!– lá dizia Coffinhal l’Auvergnat despachando Lavoisier para a guilhotina. É, em verdade, um atavismo inexorável que, denunciado acremente desde o burro alegórico de Platão ao Culto da Incompetência do epiceno M. Faguet, determina, como uma tara familiar, a mentalidade aftosa da maioria das democracias.
La République n’a pas besoin de savants! – creio que seria também na mudez aviltante com que do desvairo da babilónia tresloucada se responsaram entre nós aqueles trabalhadores desinteressados o juízo oculto, íntimo, de quantos empavonados pedicuros, de quantas celebridades improvisadas se alçaram depressa, graças à farçada ignóbil do sufrágio, sem recuarem num rebate de escrúpulo diante das lisonjas e dos artifícios com que se ganham as multidões simplistas, com que os amadores de populismo reeditam para a cobiça ínfima das turbas o panem et circenses da decadência romana. A habilidade minuciosa do arrivista, a grandiloquência inflada dos verborreicos e o cálculo fino, de amplos recursos psicológicos, brasseurs d’affaires, suprem bem, com resultados mais concretos, os calmos processos selectivos, a insistência proba com que uma individualidade se procura contornar, com que uma aptidão se destrinça, se homogeniza e documenta. Então, na arrancada sôfrega para o Oiro e para o Mando, no total desbridamento das inibições afectivas, com a fórmula de Hobbes, descarnada, crua, actualizando-se em requintes pormenorizados de struggleforlifismo, para quê demorar um passo que pode equivaler a uma perda irremediável – para quê desperdiçar um gesto, um segundo ligeiro, um inclinar de cabeça, uma atenção de piedade, com os que se vão, de pálpebras cerradas, nos lábios cerrados o selo que não se quebra, impenetráveis, quase deificados, na sua augusta imobilidade? São empecilhos de menos a desatravancar-nos a carreira – um estorvo que se arreda do meio da arremetida atropelante. E o patriciado da mediocridade – como o incompadecido Proudhon sentenciava das composições democráticas com a respectiva procissão de curandeiros e denunciantes –, o patriciado da mediocridade resfolega, tripudia, assim encara na despedida derradeira os que do dom tão malbaratado da existência fizeram um alto exercício, souberam extrair uma acção fecunda, como a semente que cai à terra e germina logo. Ah!, mas para a geração que sobe, abraçada ao conservantismo positivista, à filosofia viril da Contra-Revolução, recuperando com o senso idealista de uma finalidade o gosto intensificador à disciplina moral, esses Mortos, que a minha pena comovidamente evocou, não tarda que avultem com muitos outros como os precursores do belo movimento de integralismo – de empenhada campanha restituidora, que há-de ficar marcando como uma data o dia que se aproxima!
I
Era no tempo em que o profissionalismo político se estatuíra por única regra de admissão social, quando em plena ideologia liberalista se recortava, como ponto de referência, o ventre bojudo do Pacheco soleníssimo das palinódias constitucionais. Não ia distante a cigarra de Anacreonte, pautando da olaia do velho Castilho a norma bailada do recrutamento governativo. O reformismo, na hipertrofia máxima, todo ancho, todo possuído, endireitando-se todo sob o prestígio transcendente da Lei, enfurecia-se a uniformizar num exaspero as diversidades próprias, as diferenças específicas da Raça, revolvendo-lhe as aquisições ancestrais, falseando-lhe com improvizações sem tacto o intuitivismo e as tendências. Campava o espírito exótico, somente o espírito exótico, uma vez aproado às areias do Mindelo com os paroxismos sentimentais, do «Coração-sensível» e desde logo senhor e dono dos nossos mal-aventurados destinos, contra as direcções evidentes da alma autóctone.
É que, em oposição ao provado feitio particularista do carácter nacional, as teorizações partidárias, os simetrismos administrativos, garrotavam na sua rigidez geométrica a admirável espontaneidade criadora dos nossos recursos nativos, os quais sem órgãos feiçoados a utilizá-los, depressa se amarfanhariam numa modorra carregada – na modorra que de longe vinha, trazida pela doirada embriaguês da vesânia ecuménica e que depois de teúda e manteúda pelas hirtas abstracções algébricas da ditadura pombalina, topava o último termo com os frasismos idílicos de 1830. A monarquia cartista, negação acabada, antípoda exactíssimo, do que na Realeza existe de dinâmico, de mantenedor e vivaz, é aonde deve buscar a causa primeira da sua falência estrondosa. Emaranhando-se em perplexas ideações unilateralistas, em sofismas habilidosos do trama complicado dos factos, não conseguiu incorporar-se na unidade histórica da consciência colectiva, fugiu de as similar os condicionalismos genesíacos do génio lusitanista, desprezando-os e molestando-os, de sorte que, colocada em conflito com as realidades seculares da nossa conformação hereditária, não fez senão aprofundar a cava hiante que de Quatrocentos para cá divorciava, com pequenas intermitências, os elementos dirigentes dos elementos produtores – a acção absorvente do Estado das direcções iniludíveis da nacionalidade.
Desnaturado o país por imiscuências perniciosas, pela varíola-doida do repentismo legislativo, adormentara-o uma espessa catalepsia – de entre a escuridão do sepulcro, Lázaro debalde ansiava pelo apelo que põe estremecimentos – pela alta palavra que desperta, que ressuscita. No crepúsculo inglório havia palpitações que se extinguiam sem uma repercussão, sem uma resposta, a insânia varrera o mais rudimentar instinto de duração e continuidade. E no nihilismo que engrossava, sufocante, corrosivo, um estranho mundo alvar – um mundo estranho de frivolidade e egotismo, operando à volta de si a rarefacção, atirava-se para a catástrofe insensivelmente –, para a hora da ira que já de além se destacava…
Acautelando a sequência orgânica que se suspendera quase, acudindo às nascentes-madres que se obstruíam, aos filões que se interceptavam, entrementes, um movimento imperceptível se pegava a desenhar com arqueólogos e folcloristas. O bom combate começava, começava-se a defesa sacratíssima dos lares e dos altares. Com a Revista Lusitana, a Portugália, a Tradição, constroem-se casas-fortes em que as tentativas isoladas se concentram e firmam posições. Martins Sarmento e Estácio da Veiga – um ao norte, outro ao sul – elaboram com nitidez e indefectibilidade a tese ocidentalista, revelando aos ânimos descoroçoados o possibilismo opulento do nosso substractum étnico, o alcance e a virtude das qualidades positivas da Raça. Santos Rocha apoderava-se igualmente da proto-história e em monumentais mongrafias detrinça-nos o quinhão esplêndido que à faixa atlântica coubera durante as civilizações primevas. Rocha Peixoto, esse, aferrar-se-á à investigação aturada da nossa morfologia social e com magníficos fragmentos sobre os resíduos comunalistas – sobre os nódulos embrionários dos agregados aborígenes, deixa-nos entrever o que seria a espantosa reabilitação do nosso fundo etológico, que a morte nos roubou, roubando-o prematuramente. Alberto Sampaio, com o estudo de certas formas populacionais – vilas do Norte e póvoas marítimas; Leite de Vasconcelos, com o exame detalhado e sábio do fenómeno religioso desde as mais remotas e embrenhadas afirmações da Raça e com os seus reputadíssimos ensaios de genealogia linguística a que não é alheia a notoriedade que lhe cabe por haver comunicado às esferas cultas o texto, julgado perdido, da Chanson de Sainte Foy d’Agen – esse velho pergaminho das origens provençalescas que pelo arcaico da tessitura nos aproxima da natividade literária do parler d’oc; e o malogrado Fonseca Cardoso, com o desenredo clarividente do nosso tipo antropológico, até então controvertido e anónimo, completam o inquérito pormenorizado das procedências, cedo robustecido num ponto ou noutro por especialistas dignos da mais rendida menção, como Ricardo Severo, conselheiro José Fortes, Abade de Tagilde, Henriques Pinheiro e Pe. Martins Capela.
Sem aludir aos valiosos trabalhos paleoetnológicos com que se honrou nos recintos científicos, honrando o bom nome nacional, já antes Nery Delgado, colaborando no alevantamento da Carta Geológica e enchendo-se de créditos justíssimos com aquele tão prestimoso como esquecido Relatório acerca da arborização geral do país, estabelecera as bases sensíveis de uma reparadora organização regionalista pela determinação rigorosa das bacias fluviais, significando-se em relativismos e cultura e clima, pelo exame directo e minucioso da natureza dos terrenos, vertendo-se nas respectivas diferenças de relevo e estrutura em inalienáveis individualidades demográficas. Gama Barros – o ensimesmado herdeiro de Herculano, o historiador formidável da nossa administração pública – assegurava-nos por sua banda a largueza possante, a armadura rijíssima dos quadros institucionais da Nação.
Teófilo ungira-nos com a entrevisão do mito demovedor de Esperança – admirável sobrevivência lírica do recuado atavismo ligúrico –, Teófilo que, qual menino entre as bruxas, ao dar consigo nas mãos endemoninhadas de uma populaça de escribas e amigos do povo, três vezes nos legaria, três vezes se negaria no político infeliz em que abortou, soldando-se para sempre a uma desencabrestada situação de energúmenos pouco mais que semi-analfabetos, em guerra aberta por inépcia congénita com os belos e sadios propósitos de federalismo concelhio, de restauradora remanescência fueirista, que alicerceavam, como pilares enterrando-se no coração das idades, as generosas soluções construtivas do isolado pensador. As modalidades inconversíveis do génio lusitanista informam efectivamente a síntese crítica de Teófilo que, talvez por lhes ter surpreendido as eficiências generativas, apontara à Sociologia como pedestal, como dado imediato e fecundo, não a Autoridade – o factor-Disciplina de Comte – mas a População, força viva, elemento másculo e renovador, raiz potente de todo o vaivém social. Ambos os agentes se presumem, não sobejam dúvidas, contudo o destaque atribuído por Teófilo ao determinismo rácico salienta-nos a feição peculiar, tónica, da considerável obra que nos lega. É certo que o prejuízo liberalista, avariando-lhe a regra mental pedida ao Positivismo, o não deixaria ascender à conclusão monárquica que se desprende, afinal, de quanto a sua pena postula. Porém, a História da Literatura Portuguesa, com uma existência excepcional a consagrar-se-lhe inteiramente, por cima dos passionalismos frequentes que a amesquinham, apesar da curteza sectária de tantíssimas apreciações, em contraste com o vencidismo romântico de Oliveira Martins, ergue-se como um arrancado grito de fé, como um inabalável acto de crença na individuação bem marcada, bem autónoma, da Nacionalidade, na formosa resistência afectiva da Grei – na sua capacidade energética de Sonho e Acção.
O eruditismo fornecia, pois, os motivos poderosos de uma reconfortante regenerescência colectiva. A par de canseiras abençoadas, como as que ficam ditas, Joaquim de Vasconcelos e Sousa Viterbo, em sucessivas contribuições pacientes, viabilizavam as probabilidades vitoriosas de uma magnífica tradição artística, iludida logo de infância pelos desvarios da miragem imperialista, pelo consequente despaísamento em que as lareiras se esvaíam, em que se esvaíam os vilares e na leva dos embarcadiços ia perdido o ambiente incitador da oficina, o estímulo do trabalho persistente e em comum. Teixeira de Aragão, em catálogos escrupulosos, fixara com recorte e notação exacta o desenvolvimento caprichoso da nossa numária. Luciano Cordeiro, em páginas comunicativas, metera-se a ilustrar, de envolta com as proezas insignes da Navegação, os dramas recônditos da emotividade nacional – uma princezinha que ao som de uma saga brumosa se morre a tiritar lá longe com saudades finais do sol, uma freira sumida que entre as duas obrigações da regra soube dizer em cinco cartas eternas a sua triste sorte de rapariga enganada. Dona Carolina Michaëlis e Adolfo Coelho marchavam na testa da faina emancipadora, como capatazes de comando. E com Gabriel Pereira, António Francisco Barata, Pe. Ataíde de Oliveira, Pereira Lopo, Albano Belino, Vieira Natividade, Pedro Fernandes Tomás e José da Silva Picão as irredutibilidades locais, as divergências mesológicas revestiam-se de um sentido novo, de uma nova actividade, qual era a de se protegerem e perpetuarem nos subsídios preciosíssimos que esses estudiosos, cujo nome deve andar sempre connosco, ofertavam com desvelo entranhado ao cômputo geral, ao apuro definitivo.
O bom combate seguia, seguia a defesa santíssima dos lares e altares. No mais apegado da refrega lá se encontrou António Tomás Pires, acautelando o romanceiro popular, o adagiário rústico, as variedades dialectais, surpreendendo e estabilizando nos usos e práticas que conseguia engavelar uma riqueza sem tacto de psiquismo e personalidade. É que uma colheita de milagre coroava o afã dedicado, em que os obreiros aumentavam, subiam, envoltos no iluminismo que nunca fraqueja. Pesquisadores de um património em desperdício, eles desenterravam da ruínaria vasta a urna-sagrada. O San-Graal de adoração aonde a alma da Pátria se refugiara confrangida, friorenta, mas intacta ainda. Com as fadigas enlevadas de quem demanda um tesouro, grão a grão, alqueire a alqueire, comovidamente, foram enceleirando a recolta prodigiosa. À hora em que o urbanismo sorvia as últimas economias regionais, em que as relatividades demográficas estertoravam, afogadas pelas generalizações algemantes dos políticos, acudia-se a garantir ao nativismo provincial, às unidades populacionais – células genesíacas de uma revivescência futura – o ethos que se lhes incaracterizava e diluía, acudia-se às manifestações múltiplas da sensibilidade colectiva, às preferências costumeiras deste ou daquele grupo, detendo-lhe os ritmos, a simbologia e o refraneiro, guardando-lhes pela etnografia e pelo folclore a diferença específica, a sua inconfundível razão de ser, reanimando-se, por conseguinte, o instinto proteiforme do agregado, que as normas rígidas da governação se obstinavam em estrangular.
A plêiade brilhante ingressava nos âmbitos da história com processos realistas, opondo aos subjectivismos deturpadores e às estridentes exposições folhetinescas com que a ciência oficial a exercia uma estimativa meticulosa dos dados impreteríveis, das quantidades inalienáveis em que o génio pertinaz da Raça se abastece e retempera. Não mais intelectualismos enregelantes, não mais mestiçagens aberrativas, infiltrações deprimentes! Os materiais jaziam acarretados – agora que se clarificassem e sistematizassem numa palpitante doutrina inspiradora. Ao lado das indicações experimentais da estatística, o conhecimento da nossa conformação psicológica e das correspondentes adições hereditárias dispunha os fundamentos de uma segura, de uma vitalizante cruzada a prol do comum e aproveitança da Terra – conforme a letra cândida da Ordenação. Fechado o interrogatório ansioso, fechados os depoimentos unânimes, por sobre o balanço positivo restava deduzir o íntimo fio inextinguível que lhe unificava as conclusões – a inata finalidade que as homogenizasse num todo orgânico – no impulso medular da obra a alevantar-se, da rota direita a escolher-se. E como expressão máxima da realidade pátria a Verdade Portuguesa se constituía, o integralismo lusitano se veio a corporizar como um método empírico de energia nacional.
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Portugal padecera uma suspensão profunda, um desvio de morte a meio do seu desenvolvimento normal. Quando a federação de behetrias e municípios – visceralmente as citânias do Norte e os ópidos do Sul – conduzidos à comunhão de um mesmo destino, de uma consciência una, pela acção meritória da Realeza, se elevava para o supremo consenso do povo, depois da prova magnífica que é a Era de Quatrocentos, a demência avassalante da Índia, a miragem faustosa da monarquia ecuménica, despaísa-nos, derranca-nos, atraiçoa-nos a índole e as direcções – de uma família agrícola que escrevera a sua alforria encostada à azinheira druídica com o torreão da comuna a encarnar-lhe a direitura desentranha-se de súbito não sei que multidão aos uivos, que desvairo de gentes doidas, embarcando-se, embarcando-se como uma leva maldita. A obsessão greco-romana dos humanistas completaria o mal, remataria a catástrofe. O enternecimento gótico que, como interpretação nossa, tão espiritualmente florira no Manuelino e nas tábuas de Nuno Gonçalves, aborta no cosmopolitismo nefasto da Renascença, o aparato latino contrafaz e garrota a espontaneidade fresca da Língua, os moldes clássicos artificializam a vida e os sentimentos, desde D. João de Castro empenhando as barbas em cópia servil a um varão de Plutarco à ficção erudita que atribui as nossas instituições concelhias – nada mais contraditório! – à introdução do direito do Império, ao estatuto jurídico do Lácio, vindo com a conquista.
A falha histórica da Nacionalidade, o divórcio entre a Nação e o Estado é então que aflora. A crença lírica do Encoberto, a certeza transfiguradora de uma suprema reparação nos dará virtude de resistir ao esfacelamento em que se apostam de uma parte as cobiças púnicas da Corte, da outra o moloquismo inquisitorial, contagiado de Castela. A dionisíaca religião da Esperança – esse maravilhoso atavismo ligúrico – vai ser um fermento de vitalidade, uma verónica singular, adoçando-nos o pranto, prometendo-nos dias melhores. Mas a incompreensão cerrara-se como uma noite de Inverno, e as duas tendências, a tendência da Nação e a tendência do Estado, nunca mais correriam concordes, nunca mais seriam recíprocas. A Feliz Aclamação diz ainda uma pausa – uma intermitência de saúde. É que a aparição messiânica do Desejado emoldurava-se nas fronteiras invadidas. E houve fôlego – e houve apego heróico à Terra e ao Sangue. Depois, crispações só de longe em longe, como para um despertar – a arremetida contra os franceses, a volta do Infante, depressa sufocadas na hostilidade ambiente, nos erros do momento. Os académicos do século XVIII, vernaculizando na erudição os calmos processos da Germânia que se ia refazendo pela destrinça das origens, e na economia e fisiocratismo bucólico do tempo, é que prepararam quase uma temperatura apta a facilitar a eclosão das seivas marasmadas da Grei. O injuriado governo da triste Dona Maria I, encolhido por calúnias sem nome à sombra da ditadura pombalina, foi, no apuro de contas, o trabalhar obscuro de um diligente e numeroso enxame. Desde essas tentativas cultas, inferindo dos cronicões a legitimidade dos nossos títulos de povo, à observação e ao registo, em dilatadas Memórias, das fontes possíveis da riqueza nacional, desde a saída de pensionistas para o estrangeiro a especializarem-se à custa da Coroa nos mais reputados gabinetes agronómicos e mineralógicos, tal como Fragoso de Sequeira, às medidas sensatas e impulsionantes com que se atendeu à marinha, dotando-a de vasos e de técnicos, e ao nobre intuito de assistência e educação que se exprimiu na Casa Pia, preparando-nos artistas como Domingos António de Sequeira, Paulino dos Reis, João de Aguiar – tudo afiança ao juízo sereno de quem estuda a história pátria sem critérios antecipados nem avarioses sectárias a actividade modesta e bem intencionada com que nos procurávamos ressarcir do esgotamento nervoso do reinado da Ópera mais dos linearismos empertigados da ênfase absolutista, aclimatada pelo Marquês. Mas os teóricos da Razão-Pura surgiram, surgiram as cavalgadas funestas do Império com as melancolias do «Coração-sensível» – e o desembargador Mouzinho da Silveira acaba a desnaturação do País a poder de improvizações legislativas.
De reformista em reformista, de geometrismo em geometrismo, assim da comédia-bufa da Liberdade, com pedantocratas oficiando em grande estilo e conselheiros vazios a dizer com a cabeça ora que sim, ora que não, se veio a parar à tragédia cómica que para aí se está representando. Os vícios da véspera agravaram-se com a divisão moral da gente portuguesa, uma sobrevivência arcaica ressuscitou o amor romanesco da República, herdado de Lamartine e Victor Hugo; em pleno descrédito do Parlamentarismo mais do que nunca as preocupações do Estado se consomem e extenuam em torno de um eixo tão falso como o sufrágio. Redobraram os simetrismos administrativos, acrescidos agora pelas panaceias do uso – com os recursos exíguos da mentalidade jacobina. Enjeita-se o Passado como um trapo velho que não se quer, professa-se como um dogma não sei que diabo de ateísmo, cor de burro quando foge, ataca-se a autoridade paternal, proibindo-se a entrega do ensino infantil a estabelecimentos confessionais, ameaça-se a família com a admissão do divórcio na amplitude maior, e com outros diplomas atabalhoados, de efeito retroactivo, entroniza-se a incompetência de braço dado com a delação. O erro gregário, dissolvendo de vez os últimos resíduos másculos da Nacionalidade, penetra no ânimo fácil das massas que, empolgadas pelas declamações convidativas dos meneurs, se cuidam já na estrada que leva à Jerusalém triunfante, se cuidam já a caminho da Idade de Oiro com a miséria desaparecida e a felicidade a sorrir-lhes em ágapes intermináveis, em falanstérios de fartura e paz regaladas. E dos boticários aos caixeiros aceitam-se como ideias de avanço e emancipação – para trás é que não se anda, tal é o enunciado! – os anacrónicos igualitarismos tão queridos da sensibilidade filantrópica do Contrato, o idílio gago dos Direitos do Homem interpreta-se na sua aplicação altanada ao nosso meio como um estádio mais, encurtando a jornada lentíssima para a Cidade Nova em que não haverá nem Deus nem Amo – em que só haverá irmãos com irmãos, agitando palmas, entoando hinos, como na visão reconciliatória das Escrituras. É, afinal, a quimera adoidada de Jean-Jacques – a quimera da Bondade-Natural, descrevendo todo um ciclo de perturbação e fanatismo. E com a sofolatria empachada de um semi-intelectualismo de pôr e tirar, eivado de prejuízos rábicos, com que os redentores se paramentam, semelhante instabilidade, abrindo pegos, como aventando galões, autoriza-se do conceito evolucionista de Darwin, sancionando pela doutrina das alterações sucessivas a ideologia perplexa, mal mastigada, do Progresso indefinido.
Nem num rasgo generoso, embora utópico, se apelou para as possibilidades nativas da Raça, não se pensou em interessar, nem por sombras, o instinto nacional no comum empreendimento de uma regeneração! Descaiu-se no revolucionarismo burguês, de tiradas grandiloquentes, nos limites acanhados da farmacopeia gaulesa. Agitou-se como um frenesim de energúmenos a superstição democrática à entrada de um período em que a Europa, cansada de devaneios aberrativos, se devolve às integrações autoritaristas em que o imperialismo desembaraça as asas possantes, e quando bem pouco viverá quem não vir talvez em França a República das fichas e dos judeus derrubada pela aspiração geral, identificando-se cada vez mais com a necessidade de uma restauração monárquica. E como irmã-gémea, como letra conjunta, ateia-se a escarlatina anti-religiosa na hora em que a filosofia se lança resolutamente na revoada espiritualista, desbaratando o racionalismo árido e mentiroso que lhe empecilhava a franqueza do vôo, e a literatura mundial a acompanha num assombroso movimento de tornada ao Catolicismo.
De facto, Roma desdobra hoje o gonfalão das caravanas que sobem, o réveil de l’Évangile apaixona a mocidade francesa que em plena Sorbonne vira as costas aos doutores da incredulidade e vai seguir as lições do católico Victor Delbos – ela, a mocidade fremente, que, partilhando-se entre o tradicionalismo positivista em que Charles Maurras se elevou à dignidade de preceptor de uma época, e a ofensiva económica de Georges Sorel, o apóstolo aspérrimo do sindicalismo, termina por se encontrar na plataforma vasta e segura que a Igreja lhe oferece. É que a Igreja, dizia Maurice Barrès na Câmara dos Deputados em Janeiro de 1911, «demeure ce que l’homme a trouvé de plus fort et de plus salubre pour y porter l’ordre. Seule aujourd’hui elle répond encore aux besoins profonds de ceux-là mêmes qui semblent les plus réfractaires à son paisible rayonnement».[1] Confirmando a justa definição do romancista querido da gente nova, sucessivas vitórias em países protestantes salientam de dia para dia o regresso dos povos ao rebanho amado de Cristo. Com efeito, o Catolicismo pela sábia e formidável disciplina consegue enfim dominar a vagabundagem idealista em que a secura agnóstica dera em florir, e assimilando ao presente os elementos mais valiosos das confissões reformadas que se pulverizam, abraça, envolve a Questão Social e equaciona-lhe as incógnitas em termos de solução. Olhe-se aos Círculos Operários do Conde de Mun, aos Sindicatos Cristãos, que na Alemanha barreiram o redemoinho socialista, aos Cavaleiros do Trabalho da América do Norte. Na América do Norte já o cardeal Gibbons dizia ao Paul Bourget do Outre-Mer que lá a esperança da Igreja estava toda nos operários; e ninguém ignora que na Bélgica a greve geral do último Abril redundou num triunfo enormíssimo para o sindicalismo cristão.
Simultaneamente rui a escola-laica em face das conclusões da criminalogia que desnudam um aumento desconforme de delinquência nos menores, inutiliza-se o divórcio com a reacção enérgica que, apoiada nos dados estatísticos, nos mostra com números redondos a percentagem desproporcionada de suicidas, assassinos e loucos que se evidencia entre os divorciados. E conduzida por Gustave Le Bon, esfarrapa a demopsicologia o prestígio intangível da Revolução, os dogmas igualitários morrem debaixo da análise fria da ciência, poque, desde as diversificações cranianas às exigências impreteríveis de hierarquia e especialização de funções, a Vida selecciona, diferencia – não homologa, não confunde, é aristocrática na sua íntima essência.
A democracia entra, pois, num crepúsculo rápido, de mais a mais com o alastramento da exaltação imperialista, em que os Estados Unidos com Roosevelt à frente se arregimentam de bandeira desfraldada, modificando no Novo Mundo a órbita da deliquescência pacifista, o domínio do liberalismo enfático e depressivo. Arrependem-se os países da América Latina de não terem optado por uma situação hereditária para que o desenvolvimento lhes não corresse entrecortado, anormal; com pronunciamentos que são o pão nosso de cada dia e presidentes depondo-se uns aos outros numa barafunda constante em que as ambições se não fartam nunca. Interpretando a opinião republicana da Noruega que, ao separar-se, preferiu sem hesitações a forma monárquica, [ Fridtjof ] Nansen é que instruiu com sobriedade e firmeza o processo dos regimes electivos. Nós escolhemos a monarquia – informava ele numa entrevista jornalística –, primeiro, porque não sendo a Noruega um país rico, nós queremos um governo económico e sabe-se como as repúblicas são dispendiosas; depois, nós queremos ser fortes, e a república só nos enfraqueceria perante a Suécia; finalmente, nós queremos ser livres e não desejamos, por isso, sofrer a tirania dos partidos. [*]
Em verdade, as repúblicas, colocadas à mercê do sufrágio, engendram clientelas cúpidas que para se aguentarem desviam ao Estado as suas vistas e os seus recursos em mira exclusiva à atracção do eleitorado. Assim o plutocratismo campa de grande nas situações chamadas democráticas pelos monopólios e contratos de favor com que se paga dos votos que lhe solicitam os mandarins entronizados – assim se compreende a crise financeira que o Brasil atravessa, assim se nos depara a chave de um Panamá e de tantíssimos escândalos mais que de vez em quando afloram nas regiões políticas das repúblicas contemporâneas. É tamanha a corrupção, a influência imoral que dimana dos sistemas electivos, que em França os diversos governos se escusam habilidosamente a reprimir o alcoolismo, que devasta as populações, com receio de desagradar a certas potências eleitorais, cultivando-se consequentemente um acréscimo assustador de criminalidade, de despovoamento e de mortandade infantil. Nos Estados Unidos então os rings, os bosses e a célebre «Machina» demonstram-nos a natureza patológica de um regime em que os eleitores se vendem, a ponto de haver companhias de seguros que se servem dos depósitos dos seus accionistas para ganharem eleições presidenciais, a ponto de as municipalidades se entregarem por bom preço aos negócios inconfessáveis de firmas poderosas no comércio e na indústria.
Concomitantemente – como Nansen observava – as repúblicas acham-se impossibilitadas por defeito ingénito de possuirem uma política exterior, de exercitarem um largo movimento de expansão diplomática. Já se não ignora que em França a Terceira República se deveu mais a Bismarck que à própria Assembleia Nacional, monárquica na maioria. Para impedir o alevantamento da vencida como futura potência internacional, Bismarck não se cansou de criar dificuldades à aclamação do Conde de Chambord, e ele mesmo, para dividir e debilitar, foi quem atirou Gambetta para o anti-clericalismo, roubando-o ao culto religioso da révanche. É a insuspeita Mme. Adam, agora convertida ao Catolicismo tão ruidosamente, o testemunho autorizadíssimo que no-lo assevera. E a deficiência orgânica da república para assegurar os direitos mundiais da França revela-se mais uma vez na atitude encolhida dos ministérios diante da partilha da Turquia, na queda de Delcassé a imposições de Berlim e na famosa resposta de Guilherme II a M. Étienne – «O que eu quero é que a França deixe de ser governada por meu tio Eduardo VII»; não se desconhece que deste modo falou o imperador alemão. O reconhecimento dessa incapacidade levou um político, M. Beaunier, a declarar na imprensa que era necessário optar entre o país e o regime, e Flourens – ministro dos Estrangeiros que estabeleceu as bases da aliança russa – mostrou-se mais decisivo, mais patriota, desde que semelhante convicção se lhe apoderou do espírito: filiou-se nas hostes monárquicas da Action française. Mas é do campo radical que o depoimento de maior sensação nos aparece. Faites une loi, sinon faites la paix,[2] se intitula um livro recente de Marcel Sembat, deputado socialista unificado.
Resta-nos verificar a Última razão de Nansen. O Estado não é senão o remate de uma federação, de organismos anteriores e espontâneos, como famílias, corporações, comunas e províncias. O sistema parlamentar, originando a centralização burocrática, não larga da mão a garantia de voto, que é a dependência absoluta para com as estações oficiais. De modo que, dirigindo-se ao indivíduo como portador de uma lista, como parcela de soberania delegando-se, desprende-o de todo o condicionalismo, figura-o como uma quantidade autónoma, valendo apenas por si, e não como um valor ligado a outros valores, como um interesse ligado a outros interesses. O indivíduo, despojado das instituições intermédias – municipais ou corporativas – que o prolongavam e sustinham, volve-se num pau-mandado, que o Estado diminui e escraviza, enredando-lhe as iniciativas, dificultando-lhe os passos, gerando por via disso a plebe faminta dos pretendentes e dos arrivistas que se vendem por pouco mais de nada a quem estiver de cima. E como nos regimes de sufrágio o Estado se confunde com o partido no poder, eis que ao interesse colectivo, já generalizado excessivamente pela abstracção dos relativismos demográficos, se sobrepõem os interesses particulares do clã dominante, constrangendo à matrícula no cadastro respectivo sempre que a nossa actividade se encontre subordinada à do Estado.
Eis como a democracia se inutiliza para o exprimentalismo sociológico, considerada com um morbo de esfacelo que a história em toda a banda assinala como o princípio do fim, se os povos se lhe abandonam à vesânia febril, se de desfrenação em desfrenação, se de rompimento em rompimento, se consente que ela corroa os fundamentos tradicionais da comunidade, as disciplinas seculares que a homogeneizaram e fizeram grande. E impotente para destrinçar e solver os instantes problemas da economia moderna, as inadiáveis reivindicações obreiras, sendo, como fica dito, um regime de sufrágio que por necessidade vital impede a mais rudimentar formação associativa desde que não se submeta às conveniências eleiçoeiras dos grupos, a democracia em França, seu berço de infância, amada casa paterna, morre entalada entre o doutrinarismo persuasivo da Action française e a ofensiva inexorável dos escritores do radicalismo económico. O Rei da dominadora Enquête de Charles Maurras tornou-se breve o agente fecundo da monarchie ouvrière do sindicado Georges Valois.
Sabe-se que o individualismo revolucionário gerou a tirania da Concorrência, deixando o operário ao arbítrio do patrão, desonerando a propriedade dos seus encargos seculares para com as populações, interditando o estatuto colectivo do trabalho, inventando as oligarquias plutocráticas mais a dureza férrea da Oferta-e-Procura. Enrichissez-vous! – tal era a fórmula de incitamento que Guizot e Thiers atiravam aos burgueses de 1830, como intérpretes do feudalismo financeiro que já vinha abrindo as asas, trazido pelo vento dos Imortais-Princípios, enquanto o proletário, criado e desprezado pelas ideologias dementes do Contrato Social, se destacava no horizonte – pobre valor avulso que perdera o senso e a força logo que, elo de uma cadeia, lhe haviam desfibrado o molde corporativo, se lhe anulara o espírito de classe com a extirpação das organizações profissionais. Na lógica da vesânia liberalista se encontra como desfecho coerente a negação da ideia de Pátria, pois se se declara o homem isento de responsabilidades para com as gerações, se se lhe ensina a sobreposição da vontade pessoal, atómica e caprichosa, às directrizes preexistentes do pensamento geral, das tendências comuns, que se nutrem mais das transmissões hereditárias de que do isolado e exíguo concurso de cada um! O denegrimento da tradição, a qual é para a sociedade o mesmo que para o indivíduo o determinismo ancestral, leva à rebeldia contra a família. Esvai-se o instinto e duração e continuidade. E no total desbridamento começa a entender-se por opressão e preconceito o que em essência constituía o impulsionante feixe inibitivo, as aquisições intensificadoras e selectivas que nos trabalham o ser e nos entregam o segredo das admiráveis marchas humanas sobre a terra; ao vento e à chuva, lutando desesperadamente com a hostilidade dos elementos e com o ignoramus et ignombimus de todo o sempre: a alucinação catastrófica se corporiza ao termo da paranóia libertária despido das regras que o diminuíam das considerações que o escravizavam, não tem, não tolera Pátria – é o homem igual a homem, bom por índole e por educação. O mito anarquista assim se concebe filho legítimo da quimera igualitária, soprando pelo naturalismo mórbido de Jean-Jacques; engrossando como a rã da fábula pelas explorações verbalistas dos salivosos declamadores de filantropismo.
Por outro lado, a unificação centralizadora do Estado burocrático, roubando a autonomia aos corpos locais e profissionais, raquitizando-nos a iniciativa e os estímulos, em vez de cidadãos prestantes e afanosos, promove o parasitismo público, faz de nós uns simples tutelados. Atinge-se uma hipertrofia estadual, tão grave e tão insanável, que, enfraquecendo aos poderes centrais a sua acção específica, como é a defesa nacional, o equilíbrio dos vários egoísmos colectivos, de que se enastra a vida de um país, como é a representação externa e a sensibilidade diplomática, os precipita adentro das esferas que lhe são alheias, os investe de uma gestão abusiva nos menores actos das várias entidades sociais, lhes confere um direito tirânico sobre os incontáveis particularismos da existência pública, rasoirando-os num critério de garrote, como se a riqueza pluralista dos factos coubesse adentro de uma norma hirta e unilateral. De onde deixar de haver Estado para haver tão-somente administrações, de onde o não haver cidadãos mas unicamente administrados. Nesta artificialização da realidade palpitante e quotidiana, um grande aparelho de providência se imagina na acção simétrica e rígida do Estado, incapaz por natureza de penetrar nos tecidos constitutivos dos diversos agrupamentos, cuja soma se concreciona no sentir geral – fisiologicamente inepta para acudir às solicitações miúdas dos relativismos demográficos e para obter a imprescindível equipolência das irreduzíveis modalidades regionais e demopsicológicas.
O socialismo se concretiza então em derivante directa, como doutrina envolvente e persuasiva, rematando o unitarismo, burocrático em que o espírito da Revolução se desentranhou, dando expressão definitiva ao consequente destino do Estado. Se a Igualdade se proclamara como um direito natural, a exigência colectivista não tende senão a acabar com os ricos e os pobres, em conformidade com o decálogo de 1793. De sorte que sobre as ruínas desacreditadas da democracia política, como elixires de prosperidade e ventura, dois milenarismos opostos, descendendo do mesmo tronco, se digladiam e entrechocam, procurando ambos a felicidade máxima do indivíduo, um pela sua inteira obediência ao preceito da colectividade, o outro pelo regresso primitivista à lei do instinto e da simpatividade cósmica.
O socialismo, porém, pactuando com os parlamentos e com os governos, nutrido em França pelo argentarismo hebraico, já arrebatado na Alemanha pela contagiosa aspiração imperialista, não passa hoje de uma ilusão desacreditada para com as hostes operárias, é uma panaceia em falência irremediável. Cedo se lhe adivinhou a índole fitícia, abstrusa: montando a mais descaroável demissão de iniciativa, asfixiava o estímulo privado, o ardor contente do trabalho pessoal, aquecido pela recompensa final da pose reduzia a sociedade a uma oficina soturna de seres uniformes, com o extermínio à improvização e à individualidade, defendendo-se do génio e da autonomia como nos defendemos dos nossos piores inimigos. Depois, tentativas como as da vidraria de Albi, como a do malogrado maire de Elbeuf e dos caminhos-de-ferro de Orleans, foram realizações que preveniram a tempo – com a extinção da impulsionante diligência, que advém ao homem, suscitado pela participação dos interesses, o socialismo seria em breve a quebra estrondosa do Estado, não falando do enfraquecimento em que lançaria o agregado perante as investidas dos vizinhos cobiçosos. E o que há de carnalidade exagerada na ofensiva colectivista sobeja em lirismo tumultuário na insânia libertária. São fanáticos às avessas em quem o gesto que descarregava os cilícios antigamente se vira agora para os outros, prégando a anulação debaixo de miragens convidativas, de delírios altos de criança tísica. Sustentam-se-lhes as idealizações de umas remanescências exacerbadas do «adolfismo» romântico, se não os quisermos relegar para a alçada da patologia. É ainda, no cabo, a terrível Bondade-Natural, a paranóia megalomânica do cidadão de Genebra. De resto, para os simplistas atraídos por diletantisrno ou por baixa superstição, o descalabro da «Colónia comunista» de Saint Germain-en-Laye parece-me representar um ensaio bem pouco convencedor!
A despeito das aparências anárquicas com que se manifesta – resultado inevitável da adversidade ambiente que o obriga a eriçar-se para se viabilizar –, só o sindicalismo corresponde a uma lei imperiosa da boa saúde social. No fundo é a força espontânea da diferenciação e da hierarquia actuando por dinâmica própria – é a competência técnica a metodizar-se, o trabalho sistematizando-se de novo. Toda a valorização colectiva que pense em ser sincera e queira perdurar tem que inserir a pronta satisfação de uma tal necessidade que é, intrinsecamente, um poderoso elemento de Ordem.
A sociedade inclina-se, por conseguinte, a fixar-se em quadros precisos e positivos, desembaraça-se da oscilação permanente em que a lançaram as utopias do progresso indefinido. O pragmatismo filosófico, apossando-se das direcções soberanas, obriga o momento a uma revisão global das nossas verdades fundamentais – não são já os conceptualismos inteiriçados e secos da desabusada especulação intelectiva, mas as aquisições formidáveis da experiência dos povos que se endireitam no horizonte, como uma regra segura de conduta unânime. Contra o desaforo cerebralista que abundantemente se empregou a desenhar esquemas de devenir social, Bergson convence-nos de que é uma crendice grosseira o admitir-se que o presente nos habilite a supor o que seja o futuro. E o critério vulgar de Evolução, implicando não sei quê de movediço, de inconstante, que se pedira outrora ao transformismo para com ele se justificarem quantos ilusionismos subversivos prejudicam sob pretextos redentores a subordinação necessária do indivíduo à colectividade, que o mesmo é que a do ser à espécie – esse critério correntio de evolução, passeado pelas tribunas dos comícios e pela boca dos do Livre-Pensamento, é arrastado, é impelido para uma total desfeita com a bancarrota estrondosíssima do darwinismo. As teorias biológicas do «meio-marítimo», com as quais se notabilizou René Quinton, criador de um nome ilustre nos anais da terapêutica, vieram asseverar-nos que o esforço aturado da Vida se empenha não em alcançar um quimérico aperfeiçoamento, mas em manter através de tudo, e absolutamente, a constância indefectível das suas origens, a inalterabilidade minuciosa do seu integralismo genético.
Bem fora de exprimir modificação, mudança, o sentido da Evolução resolve-se, pois, como um afinco homogéneo e continuado, assegurando por entre as vicissitudes as mais contrárias a integridade original daquele condicionalismo. Só o contingente varia, a essência permanece una e pura. Le devenir, avec son expression concrete dans le phénomène de l’évolution, n’apparait plus que comme un moyen pour un éternel présent – sintetiza a propósito Jules de Gaultier.[3]
A norma verificada nos laboratórios em relação ao facto biológico é norma confirmada pelo empirismo histórico quanto ao facto social. Da mesma maneira que a vida fisiológica se arruína e perde desde que cesse o conjunto de circunstâncias específicas em que se gerou, também a sociedade cai na anemia e no marasmo, revestindo-se dos prenúncios da desagregação irreparável, logo que se falseie o determinismo da temperatura e meio em que o ser colectivo se foi definindo e diversificando, logo que as energias mantenedoras se extravasem das formas hereditárias – filhas de um admirável, de um misterioso intuitivismo das gerações que nos precederam e que dentro de nós cimentam a razão primacial da nossa personalidade. É que na existência tudo se orbita, do ritmo dos astros às possibilidades do homem, colocado entre um berço e uma fossa. A liberdade não é outra coisa senão uma resignação gostosa da nossa parte ao anel fatal que nos encadeia – mundos e átomos –, uma aceitação desses limites que ninguém derruba e que só se vencem, obedecendo-lhes.
Assim um tradicionalismo científico se corporiza, assim a Contra-Revolução filosófica está em marcha. É um explodir de forças incoercíveis, largos tempos narcotizadas. Raças e almas retomam-se, ganham-se, acordando do sonambulismo degradante. Regressa-se a uma laboração interior intensíssima – com a súbita renascença católica é o enriquecimento moral, principalmente, que se procura atingir. O pragmatismo, elevando ao grau de experiência uma entranhada actividade religiosa, mostrou-se uma operação com que descobrir os infinitos recursos criacionistas do nosso eu subliminar. É o tipo frequentíssimo do Emancipado que, sinceramente persuadido, julgava a realizar uma antecipação da Cidade-Nova desde que se rompessem os vínculos do sangue e do leite, as molduras éticas e os respeitos estatuídos, substitui-o quase de repente o moço galhardo que vai com donaire ao seu dever, que da submissão e do sacrifício – da paixão toda ocidental de servir – sabe extrair a semente sagrada de um revivalismo de resgate que já se pressente, reparador e grande. São os rapazes franceses os portadores da flama divina, as avançadas ardorosas de uma páscoa universal. E quem não se alagará numa preamar de esperança, num ressumo vivificante de Primavera, com a leitura do extraordinário inquérito que dois deles, Alfred de Tarde e Henri Massis, conjugados debaixo do pseudónimo de Agathon,[4] efectuaram entre as populações universitárias, recolhendo-lhes a vibração entusiástica, o frémito do forte desejo gerador?!
É um explodir de forças incoercíveis, longo tempo narcotizadas – dizia eu. Raças e almas retomam-se, ganham-se, acordam do sonambulismo degradante. No destaque conferido pelas filosofias da intuição às potências insofismáveis do sentimento, desprendem-se os ritmos recônditos do homem, o vencidismo céptico envergonha-se do seu sorriso estéril, e o Sonho, disciplinado pelo Pensamento e pela Acção, empresta uma face nova à Europa que estremece, como que para conceber. É que corre de lado a lado um imprevisto movimento de nacionalidades. Ao misticismo hiperbólico da Humanidade opõe-se o misticismo mais tocante da Raça. Desiste-se da entrada triunfal na Jerusalém reconciliatória e cada pátria procura agora mas é ressarcir-se da insensibilidade aviltante com que os cosmopolitismos pacifistas lhe abastardaram a robustês e lhe diminuíram o carácter. Gesta Dei per Francos. E a velha divisa de Clóvis reapodera-se da consciência gaulesa, atribui-lhe outra vez o prestígio de uma alta escolha sobrenatural, de uma excepcional predestinação colectiva. Chantecler solta o alarme límpido, como um cristalino toque a unir – a donzela de Orleans que salvou a honra do Lis e a integridade da Terra, Jehanne, a boa lorena, a quem Deus sempre escuta, festeja-se nos altares e nas praças, como a madrinha amorável da França que se recupera. Apupam-se os internacionalismos oratórios de Jaurès, e a gente moça, queimando-se em cegueiras nobres de holocausto e devotação, reclama, exige a obrigatoriedade do serviço militar, sem se acobardar diante dos encargos brutos que para cima de si pesadamente recaem. É que das províncias algemadas Colette Baudoche acena, espera…
A Alemanha então aproveita as teologias étnicas do Conde de Gobineau e, intitulando-se a herdeira do espírito avassalador do Ária, eleva uma estátua ao destemido Roland da lenda, pela boca de Guilherme, cascado de ouro como Lohengrin, proclama a vocação germânica para o domínio do Orbe, a vocação que o Céu lhe assinala, que o futuro lhe promete. Nos próprios Estados Unidos a composição tão disparatada, tão antagónica, do pan-americanismo prospera como um ensaio de mística nacional, como uma aspiração calorosa da unidade rácica. Mahan convida o yankee ao império dos mares para salvação da família branca ante o perigo bárbaro que rumoreja no lento despertar de Gog e Magog. O dia de amanhã será o duelo tremendo do Ocidente contra o Oriente – a sina da civilização só à guerra, à guerra obstinada e sem tréguas, se pode entregar, para que não pareça abafada pelo crescer revolto dos formigueiros exóticos que entram a depertar do entorpecimento de séculos. O Japão apresta-se, no fundo da China impassível milhões e milhões de rapazes enchem os ecos e ginásios e das paradas com uma canção que é a mesma em todas as bocas: «Ó bárbaros da face branca, acreditais vós que os males da raça amarela hão-de durar sempre? Oh, quando é que virá a hora em que nós, conduzidos por chefes valorosos, iremos desfazer, como um pilão, a Europa e a América?»[5]
A ameaça nipónica já sobressalta, efectivamente, Brother Jonathan, a ponto de Mahan, um dos profetas do imperialismo norte-americano, prégar a franca expropriação das raças incompetentes, as quais pelo número enegrecem o futuro dos países cultos – das grandes-aristocracias étnicas a quem os destinos confiaram o alto facho iniciador. A aliança de Deus com o homem dá uma suprema serenidade convicta a este estranho misticismo da Acção. No seu testamento, Cecil Rhodes celebrava o concurso do Senhor no primado conferido ao povo inglês entre os demais. Guilherme II unge-se com a predilecção do Céu, o presidente Theodore Roosevelt na Vida intensa confessa o valor multiplicante da fé em páginas sóbrias de um deísmo elevado, e A.T. Mahan assevera que por muito que se haja errado, e embora se ache bem distante do seu modelo, «a civilização da moderna Europa cresceu à sombra da Cruz e o que nela há de melhor respira ainda o espírito do Crucificado». E é na reabilitação do sublime adentro do homem, corpo fonte magnífica de renovamento e superiorização, que esses iluminados professores de energia colocam a chave do drama das Nações – a incógnita do terrível problema em que se emaranha o porvir da nossa raça.
A cruzada civilizadora não terminará, não, pelo episódio bíblico das doze tribos reconciliadas. A guerra é a lei do progresso, não a guerra para expoliar e abater, mas a guerra para que não se apague a centelha que do mamífero anónimo da Criação arrancou o vertebrado consciente, portador de uma finalidade, missionário de uma ampla obra de conhecimento e de aferro selectivo. Joga-se a nossa sorte. E por mais que clamem os economistas, por mais que os filantropos gritem, na guerra está a salvação, o Imperialismo é a empolgante regra social de amanhã! Mesmo sem o pesadelo catastrófico das etnias inferiores, a guerra era inevitável, não se desarmava o imperialismo ovante em que o Velho e o Novo-Mundo se exaltam e rejuvenescem. Escreva embora Norman Angel a Grande ilusão com a alegoria da Paz estampando-se à frente sobre uma quadriga vitoriosa, cansem-se em debates doutorais as doutoralíssimas assembleias da Haya, a guerra vem, o Imperialismo não cede. A questão postula-se num dilema irrecusável para os povos densos e pletóricos. Ou o maltusianismo ou a expansão incompadecida, brutal. «Uma nação populosa, escreve o dr. Em. Reich, tem de estender o seu território ou restringir a sua progenitura. Sufocar a ambição imperialista é matar milhões de crianças.»
Do que pode uma revivescência de instintos históricos e de qualidades rácicas são os Balcãs, nos últimos acontecimentos, a prova mais que bastante. Vê-se que não há opressão alguma que abafe o sangue e a crença, vê-se quanto vale a comunhão efectiva de uma grei, amamentando no silêncio e na desgraça aquele impulso uno que a erguerá toda inflamada na contemplação radiosa de um passado que se quer recobrar. De como, pelo contrário, as querelas intestinas desagregam um povo, de como os humanitarismos dulçorosos do morbo democrático representam o caminho rápido para o suicídio, na Turquia se encontra um exemplo vibrante de actualidade. Ai dos menos aptos, ai dos que se atrasam ou adormecem! Pobres dos que se opiam com a estrofe perversa do pacifismo e da solidariedade universal! «Les chancelleries de Londres, de Berlin et de Washington sont et restent foncièrement hégéliennes ou darwiniennes: avis aux nations qui s’aviseraient d’être spencériennes ou tolstoïennes» – previne Jean Izoulet.[6]
Aviso às nações spencerianas ou tolstoianas, às que se abandonam à crendice aberrativa do progresso e da evolução com o falso senso do transformismo quimérico! Aviso que nos cabe a nós, que em tal atmosfera planetária nos lembramos de consentir uma república de processos antiquados, turbulenta, engurgitada de incompetência e raivas gregárias – uma república trágico-cómica, afilhada dos Imortais Princípios mais de quanta farrapada arcaica alimenta a mentalidade rudimentar do nosso ilotismo universitário, de quantos milénios incendidos aguçam o apetite das nossas multidões desorbitadas. Espreita-nos o unitarismo cúpido do leão de Castela, sonhando com a presa que uma monarquia lhe não largaria nunca. E enquanto se anula pela incapacidade ingénita das democracias para manterem política exterior o nosso vasto e rico património ultramarino, os Redentores revolvem debaixo para cima os fundamentos coesivos da comunidade, só se empregam em avivar as recalcadas taras de regressão e tumulto, em correr ao assalto da rijeza autóctone com os elementos visceralmente hostis à nossa conformação hereditária. «Malheur à qui remue le fond d’une nation!» – exclamava Rivarol, palpitando a açougagem tremenda do 93. «Ah! La plus grande bêtise!» – foi o comentário caseiro, por isso mesmo sincero, que em Gustave Le Bon produziu o nosso sectarismo laicizador. E os apriorismos reformistas em que o Constitucionalismo se desabusara, promovendo o retraímento e a inutilização dos recursos nativos da Raça, viram-se desmesuradamente excedidos pela desencabrestada improvização legislativa com que se pretendeu autorizar a vacuidade assombrosa, a caterva de sub-medíocres que de súbito se encabritara por sobre nós!
Com efeito, não houve extravagância na jurisprudência romântica, derivada da Declaração dos Direitos do Homem, nem na chamada economia liberal, que a pretextos de ressurgimento e emancipação se não corresse a mendigar às colecções respectivas, aos tratadistas corriqueiros. E num tempo em que a psicologia religiosa se estatuía com um corpo orientador e a história das religiões entrava como ciência autónoma nos mais reputados programas de ensino, nós assistíamos adentro dos âmbitos do Estado à sobrevivência pitoresca dos critérios voltaireanos em matéria confessional, a irreligiosidade afiançava-se como o índice de uma cultura desempoeirada e sólida, as actividades da governação consumiam-se, afadigadas, em perseguições hissopecas a padre-curas e a confrarias. É que uma psicologia inferior dominava, uma psicologia de mestiços, mordida de tatuagens impúdicas, cheia de esgares epilépticos! E com ela, cem anos atrazados de nosso tempo, nós reproduzíamos todo o sentimentalismo aparatoso a que se dirige o aviso de Jean Izoulet.
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Os desânimos que se alevantavam, com a derrotas sucessivas da monarquia cartista, soubera-os aproveitar o antigo partido republicano pela apropriação da ideia descentralizadora que lhe adviera de Henriques Nogueira e pela qual se inculcava como executor testamentário de Alexandre Herculano. Teófilo, por um lastimável desvio nas suas direcções postivistas, emprestara-lhe a autoridade profunda do enlevado nacionalismo que lhe aquecia a obra grandiosa, sem se recordar de que Auguste Comte sentencia um dia: «Depuis trente ans qui je tiens la plume philosophique j’ai toujours representé la souveraineté du peuple comme une mistification oppressive et l’égalité comme un ignoble mensonge.» A Teófilo guiava-o, porém, o preconceito individualista da Revolução, revestido das linhas incisivas do municipalismo característico da Grei, vertendo-se pela natureza democrática dos nossos núcleos concelhios numa federação amplíssima dessas pequenas repúblicas em um regime de sufrágio que reflectisse como todo a índole puritana e particularista das partes componentes. No cabo, a indicação sociológica exigia precisamente a força centrípeta da monarquia para hierarquizar e suster em coexistência orgânica as diversas realidades fueiristas de que se entretecia o consenso unânime da Nacionalidade. Tal é o erro de Teófilo que, em vez de admitir o relativismo das verdades políticas, praticava, em campo bem oposto, o culto das ideologias cosmopolitas, como se desprende claramente do conflito constante que se trava no pensamento dele, levado por uma banda a reconhecer as diversidades sensíveis do nosso determinismo colectivo, por outro, a submetê-las ao juízo antecipado do seu critério racionalista. Uma luzida corte de trabalhadores, como Rocha Peixoto e Ricardo Severo, se enredaria em engano idêntico por via do mesmo revivalismo costumeiro, da mesma aptidão comunalista. De modo que o apoio trazido ao oposicionismo anti-dinástico por tão fervorosos indagadores dos nossos pergaminhos de povo acabava por consagrá-lo campeão da causa nacional, para o que contribuiu também com a ideia descentralizadora o movimento patriótico de protesto que o Ultimatum provocara.
Ninguém se apercebera da falência do Cartismo; o prejuízo liberalengo reinava em mestre absoluto. O deboche político, o nepotismo, a conclusão, provenientes de um regime de sufrágio e clientelas, atribuíam-se em coro à deficiência da instituição monárquica. Injuriou-se a Coroa, tornaram-na cúmplice dos desastres que só ao parlamentarismo e ao atropelo dos partidos em boa consciência se deviam. Oliveira Martins diagnosticou o mal, viu-lhe o remédio numa solução autoritária. Mas Oliveira Martins, de olhos postos em Mommsen, encheu-se de germanofilismo, feria-o de insucesso a nenhuma confiança, o desprezo nihilista que as qualidades generativas da Raça lhe mereciam. Era, pois, mais um exotismo, que, contendo em si a perscrutação da doença, não acertara, afinal, com a idiossincrasia especialíssima com que havia de contar. A crença ingénua no progresso indefinido, um pouco a tolerância das névoas democráticas, avariavam a visão que o historiador se possuíra da crise. E quando semelhantes defeitos lhe não impedissem um triunfo aproximado, não lho consentiria jamais a craveira mental do ambiente, em que a superstição da liberdade criara raízes fundas e teimosas. A prova todos a tivémos quando essa alta figura incompreendida que foi El-Rei o Senhor D. Carlos se aborreceu um dia do papel passivo de monarca constitucional, acobertando como um ícone doirado a bulímia desaforada dos clãs, e se decidiu à árdua missão de encaminhar o País para uma outra existência de crédito e respeitabilidade. E se Oliveira Martins é o precursor vaiado da corrente que hoje empolga as aspirações do Portugal-Moço, o Mártir do Terreiro do Paço é a vítima imolada à inflexibilidade dos destinos para que ao movimento nascente o baptizasse uma aura trágica de sacrifício. Na pessoa do Rei espingardeado que à nossa pequenina terra conquistara uma situação internacional invejável, setenta anos de degradação colectiva se expiavam pela tempestade que de longe vinha, engrossando, engrossando com os frutos terríveis da corrosiva mentira constitucionalista!
No prefácio das Farpas, Eça fotografara a sociedade dissoluta em que se obliterara o senso aglutinador de um fim, em que as reservas coesivas da Grei, ou se marasmavam nas dormideiras refervidas dos programas ministeriais, ou as pervertia o convencionalismo amoral do figurino ultra-romântico. Na aridês negativista do meio, um Alexandre Herculano partia a pena, mais tarde Mouzinho suicidava-se. E aqueles que uma compleição de maior resistência ainda imunizava, ingressavam nas hostes republicanas como um acto de fé no futuro desesperado da Nação. A deficiência sintética de um Teófilo e com ele depois a dos estimáveis operários da Portugália conduziam à lamentável ilusão, que pela força do exemplo valia como um contágio. A fatalidade dos acontecimentos precipitava-nos para a revolução, ia-se direito numa desenfreada carreira à balbúrdia da Rotunda. Debalde Ramalho Ortigão, debalde Fialho de Almeida atingiam o polo positivo do conservantismo construtor, regressados da vagabundagem sentimental pelos acampamentos do frenesim igualitário. Cuspiam-lhes como a traidores, como um cortesão vendido se apostrofava Oliveira Martins defunto. Só um grande drama dominaria o delírio, o instinto de duração só um espasmo de catástrofe o podia acordar adentro de nós. Eis porque o Senhor D. Carlos morreu de pé, apontando-nos a estrada – eis porque eu bendigo a hora que nos trouxe a República!
Entretanto, a ânsia revivescente do génio lusitanista não afrouxara no esvoaçar hesitante, mas bem sentido, bem tocado de alento gerador. Parecia que soava o minuto de se desencadear à triste Silvaninha reclusa a alma de maravilha, de restituir à nossa unidade histórica o transviado calor original. Os dados para a admirável reparação já se encontravam apropriados na colheita larga dos eruditos que não se extenuavam nunca, que continuavam, agora e sempre, engavelando, enrilheirando. E era a hipótese tão controvertida de uma arte portuguesa que se aclarava em evidência vingadora com o esforço, mil vezes louvado, de José de Figueiredo e de José Queiró. António Arroio, na apologia da canção nacional, assegurava-nos da capacidade estética da Raça, reabilitando-lhe os escurecidos motivos musicais. Lino Neto reatava com aprumo a tradição brilhante dos nossos economistas – A questão agrária revelava-o um descendente da esplêndida linhagem de fisiocratas das Memórias da Academia –, na Questão Administrativa elevava um caloroso elogio aos quadros institucionais do nosso povo, o qual seguindo a sua direcção espontânea não só os soubera entretecer, como, desenvolvendo-se à franca com eles, os tornara condição essencial da vitalidade colectiva. E as palavras de Herculano acerca do município como garantia do futuro nacional, como célula genesíaca a que se havia de regressar para que seivas exangues rejuvenescessem, adquiriam sentido rigoroso e imperativo nas reduzidas esferas cultas.
Nas letras, Eça, já falecido, demitira a ironia incompadecida com que castigara a lustrina hipócrita da sociedade romântico-liberal, para se entregar, a alma distendida e o coração nas mãos, ao religiosismo amorável da gleba – Jacinto Galeão enraizava-se, Gonçalo Mendes Ramires descobria-se. E ao longo do depoimento crispado de Fialho – de Fialho, esse maltês de génio, em quem os borrões da luz canicular nas estepes nativas se convertiam em imorredoiras manchas de vida alucinada – toda uma cruzada de protectorado artístico, todo um ardoroso empenho de remoçamento pátrio se disseminava a punhados amplos.
Reconhecido, finalmente, o determinismo orgânico da Nacionalidade, legitimada a centelha divina que lhe presidirá à nascença, sem dúvida pertencia-nos a chave do dia seguinte, nada nos impediria agora de avançarmos com foiteza e êxito. As reticências centenárias ir-se-iam ressarcindo devagar, lentamente, aplanando-se os hiatos mortíferos, restabelecendo-se a reciprocidade das tendências múltiplas do agregado. Faltava a plenitude sintética, que somente nos adviria do impulso governativo, perdido ainda nos sofismas parlamentares, a braços embora com o espectro revolucionário. A saúde que pouco a pouco se devolvia às forças vivazes da Grei acabava também decerto por se apoderar dos recintos coordenadores do Estado, conduzindo-o à reconciliação com o molestado ethos lusitanista. E este, restituído ao seu meio específico, seria como que bafejado por um hálito de maravilha, entraria logo em plena florescência criadora.
Mas quê! A querela das palavras nefastas ensandecera-nos no estridor das quermesses públicas, o farisaísmo político empeçonhava o obscuro reelaborar das seivas que vinha antecedendo o belo renovo de Abril. O grande dever desertou-se, desertou-se criminosamente. E os erros acumulados durante a despreocupação doidivanas do carnaval cartista agravaram-se de súbito por uma recorrência fatal – uma tremenda expiação se descarregava sobre nós, nos apetecia para sacrifício aplacador. Portugal jamais se defendera de misturas alogénicas, se não nos guardassem as medidas purgatórias do Santo Ofício, a gente de cor, as etnias bastardas, entrariam na nossa composição em dosagem preponderante. Mesmo assim, nos subterrâneos do nosso atavismo, recalcadas pela repulsa sábia da higiene inquisitorial, dormitavam as influências desagregantes da mestiçagem nigerista, que a aventura ultramarina nos custara, mais a porca infecção hebraica, de que não escapáramos incólumes. Os ensinamentos da antropo-sociologia ajudam-nos a interpretar as falhas e os colapsos da Raça através de semelhante critério. E no convite encegueirado aos elementos hostis da coesão autóctone em que a República se afadiga para correr ao assalto da nossa unidade moral e afectiva, rotos os bridões seculares, postos num frangalho os rijos feixes inibitivos, a labe maldita aflorou da semi-sonolência que a neutralizava. Donde o estremecimento, que bem podia acordar Lázaro no sepulcro, despertar apenas nas escuras criptas ancestrais a essas velhas taras de regressão e tumulto!
II
Pois uma luzida irmandande de moços, uma irmandade de leais cavaleiros, ajuramentada sobre a hóstia e o cálix, torna agora a bênção dos seus, invoca as sombras tutelares, o espírito vigilante dos Antepassados, e abala para o bom combate «a prol do comum e aproveitança da terra». Desencantados das ideologias anacrónicas da Revolução, nós aceitamos gostosamente os limites intransponíveis da Vida, exaltarmo-nos, excedêmo-los pela lei libertadora do entusiasmo e do devotamento, e é subordinando-nos, sujeitando o nosso direito à nossa obrigação – todos acesos na paixão ocidental de servir, que nos ajuntamos em partida garbosa para desalgemar a alma reclusa da Raça que na triste Silvaninha do rimance, presa numa torre por ordem dos parentes, encontra o símbolo tocante. O Integralismo lusitano se corporiza, se define no desejo másculo que bebe o suco melhor dos nossos corações, como uma reparação do defeito histórico da Nacionalidade. É o apurar dos materiais carreados, o edifício que se começa – a alva que precede a manhã gloriosa da Ressurreição. Conduz-nos o pragmatismo admirável da Era que sobe, comunicando-nos o amor da Disciplina, a curiosidade enlevada das coisas supra-sensíveis. Um sexto-sentido nos reveste do dom que adivinha – filhos de uma grei de lavradores, espiritualiza-se em nós o gesto largo que se semeia, o impulso forte que desbrava. Marcha-nos à frente, como a estranha coluna de lume que através do deserto guiava a Israel, aquele arranco de vitalidade exasperada que de entre o estridor da derrota soube erguer nos areais de Alçácer essa confissão de indebelável persistência que é a crença lírica no Encoberto. O doce misticismo da Esperança nos ilumina, ilumina-nos a virtude rural de uma raça laboriosa que teve o segredo dos sentimentos simples e que pelo único poder do sangue se elevou à comunhão resistente de povo livre, ao consenso altivo de uma pátria que trazia as suas raízes soldadas às raízes da própria Eternidade.
Desde que nos metemos ao caminho por um acordo heróico de inteligências e vontades, seguiu sempre connosco a certeza de uma ressurgente consciência colectiva, atraiçoada no decurso da nossa romagem de Nação, primeiro pela miragem da monarquia ecuménica, depois pelos geometrismos dos teóricos da Razão-Pura, tão diversa, no cabo, da que para uso das cerimónias de gala se encerrava em tacanhos conceitos chauvinistas. Longamente pressentido, bem cedo o bater dela nos pôs empenhados em lhe surpreender o mistério. Ela nos ofereceria os alicerces para a demandada Verdade portuguesa, conforme a ela, abrangendo o problema numa visão unitária, se concretizaria a doutrina lusitanista, deduzida da nossa realidade inconfundível, do exame atento e carinhoso dos nossos relativismos insofismáveis, nunca de esquemas áridos e ossificantes, nunca de perigosas imiscuências, de falsos artigos de importação. Ia-se para isso às fontes-madres do génio rácico. Um vasto eruditismo se desenvolvera, embora truncado, embora de alcance diminuto; e quando a vida particularista se extinguia no sorvedoiro do urbanismo, graças ao esforço infatigável de meia dúzia de folcloristas e etnógrafos ilustres, a herança popular acautelava-se a bom recato numa colheita de milagre. Era aí, entre as cinzas do larário da Raça, que a flama divina crepitava; e nós a procurá-la fomos talvez um pouco Lúcio Castanheiro, gritando a cada canto, de dedo esticado para o ar, que se nos impunha o dever, caramba!, de reatar a cadeia tradicional interrompida.
De modo que a aspiração que de intróito se denunciara como um desejo de remoçamento literário desdobrava-se agora em vistas envolventes, atingia perspectivas inesperadas, intuitos mal apreendidos. Juntos, os subsídios pela dedicação de tantos e tantos obreiros obscuros, uma ampla e consoladora síntese se desprendia deles; ordená-la, clarificá-la, seria a nossa ambição, o cânone primeiro da nossa fé. Silenciosamente se trabalhava e connosco trabalhava a sede de revivescência em que as almas ardiam sem se consumir, tal como a sarça bíblica. Aqui e ali, por monte e vale, como que se lia um despertar vagaroso. Não nos iludira, não!, o palpite que em nós dissera uma promessa de triunfo! Como no início o entrevíramos, as tendências desencontradas da época pareciam inclinar-se com decidido rumo para uma conciliação positiva. A Verdade portuguesa criava formas e feições, fixava-se, em apuro de contas, no respeito pelos entranhados núcleos de existência local, pela complexa índole foraleira da Nacionalidade. Aceitar esse determinismo era, pois, ganhar uma possante moldura coordenadora, onde as forças extravazadas ou dormentes do agregado tornariam a refazer-se, a reconstituir-se, ao contacto do húmus seivoso que as produzira.
A posse de uma irrecusável Verdade portuguesa, imprimindo fisionomia e independência a um povo desnaturado e vendido, não traduzia para as ansiadas interrogações que nos suscitavam o refúgio de uma evocação, uma resignada saudade de contemplativas em derrota. Não! Representava antes um fecundo princípio de acção que fecundamente se ajustava com os últimos enunciados do pensamento contemporâneo, com os acertos unânimes de uma ciência escrupulosa e modesta, como é a ciência que, sacudindo os oiros hieráticos de que a haviam revestido idolatrias soberbas, com interesse se circunscreve à observação da multiplicidade objectiva, verificando o proteísmo riquíssimo dos factos, constatando as relações que os originam e entre si os aparentam, bem diferente dessa outra que, alcandorada em religião novíssima, depressa se desacreditou a improvisar finalidades, a inventar causas-primeiras, a esboçar não sei que divertidas sinopses de progresso e evolução, provocando todo um fetichismo seco, pomposamente acolitado a lexicografias arrevesadas.
Desfaz-se com o individualismo atrabiliário da filosofia racionalista o nefasto património da Revolução. E agora que vai pelo mundo um como que renascimento de Nacionalidades, em que cada unidade histórica inquire das precedências que a justificam e autorizam, olhemos nós à nossa jornada social suspensa, à opulência desperdiçada da nossa capacidade orgânica, e, desembaraçando-as de superfetações e artificialidades, recebamos-lhes a impulsão dinâmica, o fresco e fluente revivalismo. Há-de ser como que a anunciação de um Portugal-Maior – do Portugal que nós, rapazes, devemos apear da cruz, não para o conduzir à noite densa do sepulcro, mas para o levar à aleluia de um terceiro dia!
É devolver-nos a esse fio remoçador, restituir-nos à temperatura original. «De nada serve viver no absoluto, andar sonhando com futuras humanidades venturosas» – escreve Tancrède de Visan. «Mais vale utilizar até à plenitude os limites quotidianos da vida». Com espanto nós veremos então que as legítimas reivindicações do nosso tempo acham-se naturalmente compreendidas e satisfeitas apenas se orbitem e cultivem as energias específicas dos vários grupos sociais, apenas se reconheça ao grande ser colectivo a sua base pluralista, que o mesmo é que a sobreposição do composto ao valor disperso, da série ao indivíduo, sistematizando logo em moldes aptos as afanosas liberdades particuralistas – tudo quanto seja regionalismo, metodização profissional – revigoramento de famílias e classes –, enfim, numa síntese clara, o regresso à sequência tradicional, reabilitada estrondosamente pela bancarrota miserável das mistificações legislativas, convocando a juízo-final os parlamentos e as demais panaceias democráticas.
Estabelecida desta arte a equação fundamental em que assentaria o condicionalismo de uma possível regenerescência, exigia-se para a preparar um penetrante conhecimento da nossa formação hereditária, prevenida por uma cultura sem antecipações sectárias nem entorses pedagógicas. Felizmente o movimento lusitanista cedo pedira à história a sua primacial norma inspiradora, mas à história praticada com processos experimentalistas, deduzida das iniludíveis indicações naturais, do estudo directo dos fenómenos, do cômputo rigoroso das possibilidades generativas e das deficiências atrofiantes, de cujo concurso resultáramos como povo, nunca à história fiada por inteiriçados subjectivismos mutiladores, por interceptantes apreciações personalistas.
De feito, num rasgado intento de conciliação, animava-nos um Juízo da história bem diverso desse que a abastarda e raquitiza, encarando uma instituição ou uma época como um rígido conjunto geométrico, confinado no espaço e no tempo, com um estatismo inexorável a imobilizá-la em hirtas linhas cristalizadas. Perde-se assim a coerência íntima que concatena o desenvolvimento das sociedades, os vários ciclos da marcha de uma grei excluem-se fratricidamente em vez de se compenetrarem num sentido superior de duração e continuidade. Considera-se apenas o episódio em si num isolamento de lazareto, não se lhe surpreende a química recôndita de que deriva. O historiador não se coloca, por consequência, ao meio do período que analiza e julga, não lhe pergunta a raiz, examina-o mas é de fora; e, exorbitando o abuso intelectualista, avalia e joeira através de uma mentalidade de hoje as manifestações já estratificadas de um passado sincero, espontâneo, à sua hora, mas que vistas a distância deste modo se tornam inassimiláveis e mentirosas. Nascidas de uma soma de mentalidades menos complexas, com um grau inferior de percepção a colocá-las na ascendência remota da nossa, a lupa do criticismo só lhes falsifica o senso vivido, a correspondente lógica explicativa, não se lhes apanha nem a oportunidade genética nem o complicado jogo das relações que as governam. E a história, tratada ao capricho de cada qual, sugere-nos a lembrança de um todo fragmentado, contraditório, antagónico, nas suas diversas peças desmontadas. É a tal imparcialidade do historiador que, postas já as divergências irreduzíveis da psicologia individual, opera mas é obedecendo às paixões do momento, ao proveito das clientelas, aos prejuízos dominantes ou às simples simpatias pessoais.
Ora, bem pelo contrário, a história afugenta por completo a mais leve ideia estática, só dinamicamente se deve conceber e interpretar. À base de cada minuto social encontra-se sempre a Vida («No Começo era a Acção» –, lá filosofava o doutor Fausto), e a Vida outra coisa não é senão o movimento, senão uma ascensão incontida para a Verdade – para o equilíbrio criador das energias que a solicitam e impulsionam. Eis porque a consciência de que nos ufanamos não vai além do total de consciências que inspiraram em instantes sucessivos a longa caminhada humana, tão repulsivas, tão antitéticas se afigurem perante a nossa. Dentro delas, como num casulo encantado, se abrigava já o germe da valorização futura, definindo-se em intensidade e aquisições como se desenrola e acresce uma progressão geométrica. No energúmeno, engrossando com a feixotinha os fogaréus do Santo-Ofício, já M. Homais se desenhava violento, rectilíneo – o andar dos tempos tirou-lhe apenas na cegueira bruta do gesto o que lhe aumentou na compostura declamada dos solecismos.
Como na superfície mansa de um lago uma onda concêntrica comporta outra e é comportada por uma maior, é como se conjugam e compreendem na interioridade de uma aparência inconversível os estádios numerosos de que se entretece a história de uma raça. Há marasmas, há impulsos – no fundo devoluções ao ponto inicial para que se volte a avançar acentuando mais e melhor – de resto, a manobra mantenedora da existência produzindo a integridade da constância original. É que os factos subsistem, conservam-se os mesmos – o que se modifica, o que se amplia, é o conhecimento que os observa e interroga, subindo ininterruptamente por via de subsídios novos, pela lição sempre diligente da experiência. Por isso Torquemada, forneiro do seu semelhante, nos aparece de súbito justificado por Maurice du Fleury, preceptor amável de neurasténicos e homens de letras. É que o mundo sofreu o acesso histérico desde que foi mundo. Agora nem sempre o entendeu com idêntica suficiência, nem de maneira igual o debelou, consequentemente. Ontem a fogueira em nome de um espírito que tinha por garantia o bom concerto das potências sobrenaturais e que adivinhava a garra do Maligno nas torções indecorosas de um corpo espiralando-se em curvas doidas; hoje a douche em nome de uma moral que demitiu o Diabo e que deixa o debate dessas coisas aborrecidas para os doutores da Salpêtrière.
Assim D. João III, ao instalar a cúria inquisitorial, encarnara uma necessidade em que nós vibraríamos se vivêssemos antanho. Não é abordar um problema que eu reservo para estudo dilatado. Com as luzes da antropo-sociologia, contento-me em asseverar que o injuriado monarca se mostrou conforme ao sentir unânime – como o rei o reflectiu e exprimiu praticando um incalculável serviço à unidade moral da Pátria, à boa higiene da alma colectiva num país em que os escravos excediam infinitamente os indígenas e, porta aberta às perniciosas influências do morbo judengo e da corrosão huguenote, se achava exposto a resvalar com rapidez para a última das desagregações, atacado na rijeza estrutural por categorias étnicas e psíquicas tão adversas. A salubridade da Nação, restrita ainda ao autoritarismo confessional, impunha-lhe o procedimento que teve como chefe e como pai. Pombal é que é tragicamente ridículo – saibam-no lá os que lhe querem erguer uma estátua com os sinos das igrejas portuguesas! –, utilizando em ciclo diferente e com mentalidade diferente o sambenito e a carocha. Ficou-lhe, porém, soldada à memória como um ferrete de ignomínia a ironia cortante do Cavaleiro de Oliveira queimado em efígie de parceria com Malagrida. – «Nunca senti um frio tamanho como nesse dia!», galhofava ele de longe, em segurança.
Aprenda-se, portanto, a considerar na história o elemento vida porfiando num afinco dobrado por se manter e seleccionar, não se examinem factos de ontem com uma consciência de hoje – repito. Nenhum poder nos investe no direito de chamar ao pretório o tempo que passou só porque não se combina nem coincide com as normas que regem o nosso. Era grosseiro, estupidamente risível um semelhante critério, que dentro de si encerrava a negação de nós mesmos. Obtenha-se mas é o alto, o incorruptível conselho da história – verifiquem-se as regras inalteráveis que presidem ao desenvolvimento dos povos. E prevenidos com o aviso da experiência estejamos vacinados para encarar as crises que se reeditam, para receber os acontecimentos menos previstos, que na essência permanecem análogos, tal como o tipo zoológico através das modalidades avulsas da espécie. É este o processo único de se destrinçar o que há de legítimo e de vivaz no trama emaranhado das colectividades daquilo que por fictício ou vicioso as possa degradar ou oprimir.
Enjeitando, portanto, a visão periférica da história, tão correntia como nefasta, para nos possuirmos inteiramente de uma profunda visão central, a coordenação dos materiais fornecidos durante mais de vinte anos de inquérito erudito não tardou a viabilizar-se adento da síntese demandada, com tão escruploso espírito interpretativo por mestre de toda a hora. Sacudíramos antes de mais nada a poeira ideológica em que um século de abstracções desorganizadoras envolvera os nossos cérebros de universitarios ingénuos. E abdicando de vesânias universalistas, de abstrusos evolucionismos utópicos, sentindo-nos e auscultando-nos tão somente, breve chegámos por compreensão de nós próprios a uma plena atitude tradicionalista. Não nos arrastavam os ditames de Comte e Coulanges, nem os de Renan e Taine, que na nossa cultura em formação ainda não alcançáramos. Maurice Barrès mal o convivíamos, Bourget para nós não era senão o psicólogo encartado do boulevard Saint-Germain. Mas a ânsia que os havia atirado para uma viril solução conservadora, nós a padecíamos no desespero nihilista em que tudo à volta de nós abalava perdido. Sedentos de uma firmeza, porque não nascêramos nem para a renúncia nem para o negativismo, precisávamos de fé, precisávamos de finalidade, para que a nossa existência se enchesse de significado e germinasse, fecunda. E da tortura purgatória das incertezas o Integralismo Lusitano saiu como doutrina apaziguadora dos conflitos que em nós produzia a veemência de uma labareda que teimava em arder sem ambiente que a alimentasse. Perguntamo-nos face a face com a nossa realidade incomunicável, com a razão enigmática deste iluminismo que fora sempre em nós um acto permanente de crença. Na resposta obtida, a Verdade portuguesa se veio a consolidar, homogenizando tanto protesto nobre, tantíssimas vozes desirmanadas!
Concretizava-se ela no acatamento dedicado ao instinto particularista da Nação – no respeito pelos mergulhados núcleos de autonomia local, insisto. O regresso aos velhos quadros demográficos, como a Província e o Concelho, estatuiam, pois, o Regionalismo por imediata regra de acção governativa. Deitavam-se abaixo as panaceias provadas em resultados miseráveis. As sonoridades parlamentares pelas quais para cima de setenta anos de desvios e apriorismos se pautaram plataformas partidárias e Discursos-da-coroa mereciam-nos a nós, no agravamento repentino com que exacerbava a invasão verbalista da sub-mediocridade em triunfo, a denúncia inexorável, a acusação incompadecida, de quem não tolera mais um crime que todos reconhecem, mas que ninguém se atreve a desmascarar. O valor principal dos resíduos comunalistas reside na espontaneidade e amplitude deles perante a impotência dos recursos legislativos, incapazes de abranger e acompanhar a riqueza sem tacto dos factos sociais. São uma lição para aproveitar essas oito vergonhosas décadas de constitucionalismo estéril e de reformistas insignes. Eis porque, varrida a mais ténue esperança, em declarado culto da incompetência, de uma cruzada descentralizadora por parte dos bandos políticos, amesendados no comodismo de uma situação rendosa, a nossa campanha se estreava pelo repúdio absoluto do parlamentarismo em que o sistema nervoso da Raça se opiara por uso e abuso das dormideiras liberalengas, por uma longa insistência de imitações – e indiferença suicida.
A psicologia das multidões instruíra-nos acerca do valor das assembleias. E há-de concordar-se, de feito, que os parlamentos têm sido terrível agente de estagnação e imoralidade. Além de não curarem senão questiúnculas, que é o que mais importa ao perfeito funcionamento da máquina sufragista, prendem de pés e mãos os governos que, dotados de vontade e fins, se dispõem a realizar saneamentos ou renovações. Daí a frequência das ditaduras e a sua produtividade em comparação com a dos períodos ditos constitucionais. Há a acrescentar o perigo do improviso administrativo, tesoirando à toa a estrutura secular da sociedade, revolvendo-lhe as aquisições estratificadas, colocando-lhe o eixo de equilíbrio em instabilidade permanente. A cultura média sofre uma depressão gravísima desde que o frasismo oco, badalado, se afiança como um sólido motivo de preferência, desde que a prestidigitação oral alcança para a passividade das massas os foros de uma ciência certa, valendo por tudo o mais. E já se não fala na corrupção eleiçoeira – basta que se frise o sucesso dos menos idóneos, palradores e arrivistas, acamaradando numa borregada, cuja submissão até a Panúrgio faria inveja.
«Les théoriciens de la politique ne me semblent pas avoir assez observé que les institutions du libéralisme moderne exigent que le pouvoir appartienne à une aristocratie assez intelligente pour appeler dans son sein tous les hommes dont la capacité fait honneur au pays.»[7] Assim Georges Sorel, o agreste doutrinário do sindicalismo francês, resmunga do sofisma parlamentar. Mas não admira que as competências desertem diante da turbamulta dos inúteis e aventureiros que, agarrando-se à política como a uma carreira profissional, inventam a tirania anónima das clientelas, sugam as forças-vivas do Estado, enredando-o nas malhas implacáveis de uma voracidade sem limites. E pronta a antinomia aflora entre as solicitações complexas da alma colectiva e as escusas conveniências privadas da gente dos partidos. Em França o anti-semitismo não é senão a revolta sagrada, a indignação justíssima, dos elementos nativos do país contra a gestão absorvente dos banqueiros israelitas nas engrenagens da governança. O génio de uma pátria vê-se deste modo desgarrado na sua direcção, torcido nas suas opções, por blocos de natureza hereditária antagónica, por seitas exclusivistas e hostis que dividem e enfraquecem, pois que doutro modo não vingariam nunca. A tremenda questão Dreyfus descobriu a chaga, revelou o perigo. E, o mundo assistiu a uma repetição cruciantíssima da cena do Pretório: a França exposta às vaias públicas, a consciência comum enxovalhada pela reabilitação do traidor, empurrada a nação para a ignomínia no desprezo de uma verdade formidável, porque os Quatro-Estados-Confederados (Judeus, Maçons, Huguenotes e Metecos), ao sacrifício da própria situação, não hesitaram em escolher o do decoro nacional.
Depois os parlamentos em desembaraçada existência de mais de um século desacreditaram-se à farta. Excepção da Inglaterra, onde a instituição assegura um acontecimento normal na história da raça, ou se arrastam escorridamente com pachorras de nora à roda da xaropada anódina da abertura-das-cortes, ou então, em núpcias com a democracia, fomentam a loucura anti-religiosa, como um dever da Revolução – dessa Revolução que se amamentou durante largos tempos da glória imarcessível das guerras da Independência, mas que já agora ninguém salva da liquidação total – e dão-se a loas à Liberdade com trémulos na voz e solecismos de caixeiro.
Não guarda o integralismo lusitano mais ilusões e, lançado em luta aberta com a mentira parlamentarista pela persuasão forte da experiência, inscreve, todavia, no seu cartel a necessidade representativa em conformidade com a tradição social da Nação Portuguesa e com os melhores ditames do verdadeiro realismo político. Soberbo povo o nosso que, havendo tão somente por si um vivaz instinto, contando desde sempre apenas consigo, bem cedo soube satisfazer em expressão bastante, em prestantes molduras institucionais, as exigências mais miúdas de uma comunidade sóbria de lavradores, que o apego à gleba elevara ao consenso tácito da pátria – o apego extraordinário, que, traduzido em aptidão sedentária bem antes de se praticar a agricultura, nos confunde quase a remontada origem étnica com a densa origem geológica do belo torrão português! O Concelho com a correspondente organização localista; as Misericórdias e as Albergarias numa intenção pormenorizadíssima de assistência, como se demonstra nas diversas capelas erectas testamentariamente; os celeiros-comuns, os rebanhos-do-povo, as catitadas, os baldios e as aduas, como embriões económicos que uma expansão natural, a efectuar-se, teria desenvolvido a ponto de se evitar não só o esvaimento emigratório, mas ainda as ameaças surdas que os protestos da fome rouquejam em torno – todo esse magnífico património despedaçado e cuspido não consente que calemos na boca uma maldição incendida, intima implacavelmente a juízo-final os obreiros de má-fé que extraviaram o filão assombroso, os sôfregos desígnios malévolos das quadrilhas que nos saltaram ao caminho e nos puseram em leilão, como uma coisa sem dono!
O poder generativo do génio lusitanista, rematando a jornada de uma federação de behetrias e cividades, concluiu na Realeza como um fiel unificador. Obedecia à verificada lei histórica que leva todas as sociedades democráticas a fixarem-se sob uma integração monárquica – a única forma de rigoroso equilíbrio estadual – na iminência de serem tiranizadas por uma casta endurecida e prepotente, o que é a enfermidade congénita dos regimes de sufrágio, onde a impotência ordenadora se explica pela acefalia governativa, onde são sempre as facções que monopolizam a suprema esfera política, em oposição cerrada com o determinismo colectivo, com a energia orgânica dos vários egoísmos específicos de que se tece a boa saúde social. Conjugadas e homogeneizadas pela coesão centralista as diversidades características da Raça, a par da Realeza, detentora do Direito e sacerdotisa dele, uma plataforma se constituiu, como um consistório aberto às grandes vozes da Pátria – e com as Cortes-Gerais nós houvemos a Monarquia colaborando com as três Ordens ou Estados – essa Monarquia que tão gloriosamente se consorciou com as aspirações da Nacionalidade, com tanto acatamento a ouviu na hora da crise e com ela contou para as empresas maiores desta Grei assinalada…
Vai o liberalismo exótico com as utopias do desembargador Mouzinho da Silveira, aparece-nos a consagrar o trabalho de aturada desnacionalização que as importações absolutistas do Marquês empreenderam já em terreno predisposto pelo individualismo hipertrófico da Renascença mais pela vesânia doirada da monarquia ecuménica – pela doirada embriaguês do Quinto-Império. Anularam-se a golpes de pena as instituições seculares de um país e a golpes de pena, conforme o modelo gaulês, se imaginou ressarcir um povo chamado à comunhão de umas supostas ideias-redentoras por um exército em que os mercenários ocupavam os lugares de confiança e que banqueiros cúpidos haviam assoldado, cuidando só de arrecadar com crescido juro o capital em desembolso. Matámos o frade, mas inventámos o barão! – confessava Garrett, batendo a mãos ambas no peito. E com melancólicos e contratadores, com «leões» e homens do Pireu, o paridarismo profissional se engendrava à sombra da Carta – logo o divórcio entre a Nação e o Estado se agravou irreparavelmente por virtude das ideações cosmopolitas do 93. Não nos esqueçamos de que ao tocar as nossas costas a expedição constitucional, foram ingleses os primeiros a saltar à praia – hurrah por Doni Marii!, tal o brado que estoirou ao pisarem terra os marinheiros de Shaw e Hodges. O estrangeirismo tomava conta de nós – o pequeno episódio do desembarque não seria um símbolo que o acaso nos oferecia?
Com honestidade tentara a restauração bourbónica a experiência parlamentarista. Sabe-se como abortou o bem intencionado ensaio e de quantos benefícios para a França se não acompanhara a ditadura de M. de Villèle (1821-1828), criando-lhe um óptimo ambiente internacional, preparando-lhe a anexão da Argélia. O advento dos burgueses de Julho com um rei à bon marché – na ironia sangrenta de Balzac – colocou a sensibilidade romântica ao serviço da mítica Vontade-Nacional. Rousseau ressuscitava, diabo metido a monge, nas contemplações faustosas de René, e Lafayette com a monarquia representativa, a que se chamava a melhor das repúblicas, dedicara-se a descobrir o meio de conciliar o espírito montante da Revolução com o tradicionalismo vago, inconsistente, dos «ultras» irreduzíveis. Assim se inventava a perversão da Realeza, a anarquia legislativa, com tanta severidade condenada por Comte, via-se consagrada pelas barricadas de Paris, donde iria, com um vento de perturbação, acender faúlhas subversivas nos povos qualificados latinos, já debaixo da influência insistente das Lojas.
Encurralados no Porto, a alteração política sofrida pela França veio salvar da pior das desfeitas, como uma escápula feliz, os braços que de norte a sul tinham contra si Portugal em massa. Venceu o figurino estranho por causa das voltas imprevistas em que a diplomacia se embrulhou nos gabinetes europeus. E com serenidade nós concordamos agora que Évora-Monte marca não a entrada de uma era próspera, mas o epílogo prematuro e violento de uma sentida renovação colectiva em que o País, retalhado pelos grognants do Império, diminuído pelo efeito corrosivo da querela sucessorial, a que a moda liberalista emprestava atitudes melodramáticas, atributos teatrais de despotismo, não conseguia recolher os esperados frutos do movimento modesto, mas persistente, que desde os derradeiros anos do século anterior aquecia pelo esforço dos eruditos e de alguns estadistas penetrantes as seivas entorpecidas da Nação. Não fugiram ao pronúncio dos escritores legitimistas os desastres que nos aguardavam. Alto ergueram o aviso que se desprezou, desenrolando com poderoso e agudo exame, com uma rara observação destrinçadora as incapacidades e os vícios do abominável neologismo que se contrabandeara de envolta com as contemplações ambulatórias do Ermo. De feito, em José Agostinho de Macedo, em Faustino José da Madre de Deus, em José Acúrsio das Neves, no corregedor Gouveia Pinto, nós deparámos com o processo da ficção parlamentar instruído por uma vista tão minuciosa, por uma tão extraordinária amplitude de correlações e detalhes, como se o desencantamento de um exercício largamente provado lhes deferisse a incisão persuasiva, a lógica indebelável e certeira que distingue, por exemplo, um Charles Maurras, o qual se encontra bem antecipado por eles na fixação dos caracteres mórbidos das composições democráticas, desde a falha ingénita para se manter o prestígio exterior aos divisionismos partidaristas, de que resulta o enfraquecirnento dos liames sociais e o derivante abuso burocrático do Estado. A diferença vai apenas na terminologia, mais hesitante nos nossos preceptores, e na posição cronológica que fornece a Maurras o reforço demonstrativo dos acontecimentos que se encarregaram de justificar as apreensões daqueles nobilíssimos amigos da Ordem.
Formados talvez ao contacto do robusto pensamento reaccionário do conde Joseph de Maistre e do senhor de Bonald, com páginas que são um monumento de acuidade positivista, eles diagnosticaram a falência insanável da mentira que nos ganhara. Absolutismo entendiam-no como anti-parlamentarismo – e a índole corruptora da monarquia constitucional futuraram-na com um acerto tamanho e tão profundo que os torna não só doutores da corrente autoritarista que hoje se levanta em Portugal com a aspiração dos moços, mas ainda mestres ilustres da filosofia contra-revolucionária. Há em Faustino José da Madre de Deus uma passagem acerca da pessoa e ofício do Rei que, actualizada pelos ensinamentos consecutivos de cem anos de decepções e instabilidade, se revela como uma das mais perfeitas condensações doutrinárias de que tenho notícia.[8] Quero inserir aqui um depoimento de José Agostinho de Macedo, em quem reverencio, além de uma das mais contornadas figuras da nossa nobiliarquia literária, uma mentalidade singularmente adiantada, tão conforme eu a acho com os enunciados pragmatistas da consciência moderna.
«Parece que um Governo Representativo», escreve no número 2 de O Desengano,[9] «contenta os reis, e enganam-se os Povos. Quando nos vêm dizer que assim se coarta o Poder de um só, é para darem aos mesmos povos um centenar de tiranos. O irrisório Dogma, ou sofístico princípio da Soberania da Nação, que é a primeira das contradições, ou o primeiro dos absurdos, é também a primeira mola das revoluções. Em nome da Nação se cometem todos os atentados pela mesma Nação, e fica escrava dos facciosos a mesma que se acredita soberana no trono.» E com um retumbante acento profético o desembargador José Acúrsio das Neves, orando como procurador de Lisboa nas Cortes Gerais de 1828, continuará as palavras do padre. «Proclamadores sempiternos dos direitos do Povo, e da Representação Nacional, logo que o Povo manifesta os seus desejos por aclamações espontâneas, tratam de o sufocar, e sujeitar a seus caprichos. Logo que se cogita de reunir a legítima Representação Nacional, segundo as leis e usos da Monarquia, não há meio que não empreguem para obtar a esta reunião, como fizeram em 1820. Invocam hoje a Carta, como naquele tempo invocavam as Cortes, e afectaram chorar a perda das nossas antigas instituições, porque lhes servia de degrau para proclamarem amanhã a República, como então proclamaram a Soberania do Povo.»[10]
Anti-parlamentaristas, enquanto coordenavam as funções unificadoras da existência nacional na exclusiva entidade do Rei – e daí a designação de absolutismo que um traiçoeiro propósito depressa desvirtuou, inculcando-os como sicários de um regime terrorista de forcas e querer voluntarioso – os velhos teóricos da defunta Monarquia tradicional aceitavam, porém, a necessidade representativa adentro do estrito ponto concreto em que o empirismo sociológico a preceitua hoje – como delegação de interesses colectivos permanentes. Ontem os Concelhos e a Casa dos Vinte-e-Quatro, constituindo o braço dos povos por procuradores bastantes em quem as classes depunham um mandato imperativo que se zelava e cumpria. Assim na vindoira Monarquia orgânica com a representação regional e profissional (Municípios e Sindicatos), prestando concurso consultivo ao Chefe da Nação – ao Mestre do Trabalho, assistido dos seus conselhos técnicos, como outrora nos Três-Estados do Reino os braços da Nobreza e do Clero exprimindo ao Rei a opinião venerável, o sentir honrado e prudente.
Contra os critérios abstractos do novíssimo direito-público, aprendido nas exportações género Benjamim Constant, se erguiam, portanto, os escritores tradicionalistas, não por um estéril e encolhido misoneísmo, por uma baixa solicitação obscurantista, mas cheios de altivez intelectual, da donairosa higiene de espírito que apenas se contrai no convívio forte das letras clássicas – percebendo claro, definindo claro, num senso admirável de perscrutação e harmonia sinergética. Não os enredava em difusas, em perplexas ideologias a superstição vulgaríssima do Progresso, tão querida dos enciclopedistas e dos salões didácticos do século XVIII, não se transtornavam nos devaneios megalomânicos da Bondade-nativa e do primitivo Pacto – no plebeísmo aristocrático do valdevinos de Genebra –, antes os prevenia de deliquescências e ilusionismos infantis uma robusta e sadia concepção realista da sociedade e da política. Se os hábitos políticos, e mais arraigados profundamente pelo lapso dos tecidos, se tem convertido em natureza, sem fazer a esta extrema violência, não se podem mudar, ou destruir, para se adquirirem outros em todo o sentido contrários.[11] Eis um aforismo indiscutível de demopsicologia, a que uma redacção mais concentrada e mais acutângula atribuiria visos de Gustave Le Bon, mas que é simplesmente um período perdido de José Agostinho de Macedo.
Ora com uma noção tão objectiva da estrutura complicada das colectividades se combateu entre nós o exotismo invasor. Como um renovamento das inclinações fueiristas da Nacionalidade em guarda de há muito perante o estadismo garrotante da ditadura pombalina, a defensiva conservadora operava-se sob o fôlego animado da ressurgente vida provincial, para que o fisiocratismo dos nossos bons Académicos atraira as atenções aproveitáveis, as iniciativas capazes, combustionando-as em desejos de valorização em face das desgraças ininterruptas da Pátria. As grandes crises geram sempre consigo uma semente de resgate. E em Portugal a depredação do território pelas mangas rapaces do Corso – o inimigo em nossa casa, a fortuna pilhada, a família a monte – tinham-nos lavrado o pousio ignóbil em que jaziam as qualidades magníficas da Raça, em que a vontade se esmorecera e a coesão andava em farrapos. Eu creio que a quimera liberalista foi abraçada como um remédio debaixo dessa enormíssima ânsia fremente. A condição morbosa da dosagem é que nos atirou para um desvio fatal que, ao considerar-se agora no remate catastrófico das consequências levianamente acumuladas, só ressalta a autonomia incomparável da dúzia e meia de criaturas que se furtaram ao erro empolgante da sua época, gritando a calamidade tristíssima que se disfarçava em aparências generosas, firmando um aviso de entranhado arranco na renúncia sublime de quem se não torce nem emudece diante da vertigem que nada sustém e que não tarda a subverter tudo. E no desencadear dos incidentes posteriores, no descalabro total da corrosiva fórmula constitucionalista, no esbarrondamento acabado dos apriorismos gélidos em que a ópera-bufa da Liberdade se acastelava, mistificando e corrompendo, rendamos-lhes a dolorida homenagem dos que se transviaram, mas que voltam à estrada-direita, depois de cruel aprendizagem –saibamos ao menos confessar que os vencedores é que foram os vencidos!
Ah! A Liberdade estática e humanitarista de 33 palpita bem na inolvidável anedota do desembargador filantropo que uma noite, picado de naturalismos sentimentais, mandou soltar na arribana da herdade os bois da labuta, amarrados à manjedoura. Que os animais ruminassem livres de prisões e, livres, sem cabrestos nem argolas a molestarem-nos, se refizessem à larga sobre as camas de feno para a azáfama do dia seguinte no puxar custoso da lavoura. O enternecimento panteísta do condoído magistrado não demorou a ruir de espanto, quando daí a pouco, escorneados, embaraçados como nunca, os bois se enovelavam numa barafunda dos infernos com pernas partidas e olhos vazados.[12] Tal era a Liberdade das declamações solidaristas, dos idílios doidivanas de uma sensibilidade em hipertrofia! Saboreando-lhe as excelências, não houve bridão que se não rompesse, nem disciplina que se aguentasse intacta. Entrara-nos pela infiltração vagarosa daqueles terríveis papéis que os esbirros do Senhor-Intendente farejavam por toda a Lisboa, de nariz alçado e focinho esperto de perdigueiro. Certas inteligências alarmadas cedo a denunciaram como uma ameaça mortal à unidade centrípeta do País, à independência cívica de cada um. O ódio ao pedreiro-livre não traduziu nos desvairos do apostolismo corcunda um supurar de ancestralidades criminosas – alguma coisa como um excitado reaccionismo fisiológico o comunicava às camadas mais íntimas e mais orbitadas da população, lhes indiciava por um ardente palpite de febre divinatória a presença de um terrível elemento desagregador. No fundo, a razão inconsciente do aglomerado, couraçando-se, resistindo, como a França de agora, culta e desempoeirada, pregando em nome da antroposociologia e da comunhão afectiva dos nacionais a guerra santa, a guerra sem tréguas, contra o judeu.
Portugal ultramontano, comandado por frades e capitães de Ordenança, protegia-se pela violência no exagero doentio de um perigo que se pressente, que nos ronda a porta, que nos espreita da esquina. No tumultuar pitoresco das gentes em halali uma grei vibrava, no entanto – uma irrompente alma unânime fundia em cachoeiras de seiva o quietismo enregelado da Raça. A Nação voltara a reconhecer-se no Estado, tal como na hora formidável de Quatrocentos, A plebe ululava, sim – o despertar fazia-se com sanganeira e primitivismo sádicos. Também em 1384 a epopeia dos concelhos se tingira de excessos homicidas, com bispos precipitados do alto das torres, com letrados espapaçando-se nas lágeas da calçada. Vésperas rubras de uma matinada formosa, em que o espectro do castelhano era o motivo abençoado de um revivalismo de maravilha, de que ficaria memória nas tábuas de Nuno Gonçalves com pescadores e homens dos mesteres formando fundo ao panteão dinástico…
De novo, na roda dos tempos, o povo das vilas se alevantava depois de prolongado marasmo. Viva D. Miguel Absoluto! – estrugiam quanta bocas se contavam pelo Reino. E o príncipe-marialva caracolava pelos caminhos lustrosos de poeira e sol – as mães, dobrando o joelho reverente, mostravam-lhe os bambinos enfaixados, descobriam-se os velhos com o respeito altivo doutrora, quando à passagem da mula gualdrapada do Rei os de algum dia o saudavam com um Mantenha-vos Deus, Senhor! Viva D. Miguel Absoluto! – E o instinto colectivo esconjurava no brado uníssono o inimigo oculto, adiantando-se os peitos como para se unirem numa muralha cerrada. Parecia que o estrangeiro nos tocava as raias, que os franceses tornavam mais brutais, mais famintos. E vai talvez se não enganasse na suspeita impulsiva o bom povo das vilas que na sua rudeza sadia não se melancolizava nos solitarismos patéticos do «Coração-sensível», nem abalava para ribas alheias treslendo até à doidice as enfâses líricas do cidadão de Genebra! Ai de nós, não se enganava, não! O exotismo ia enredar-nos como um polvo insaciável, o Portugal-português embarcaria para o exílio com uma pequena mala coroada nessas mesmas praias em que, por dolorosa coincidência, Vasco da Gama cismara em menino e moço, olhando o mar infinito, sem limites. Se haviam sido ingleses os primeiros a pisar terra no Mindelo, se, ao castiço e bem soado Viva D. Miguel Absoluto!, responderá de lá um Hurrah por Doni Marii!, pois não seria um anúncio evidente – a predição do amanhã que se aproximava?
Assim a Liberdade nos sorria, moça de feira por mãos de soldados. Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar! – proclamava no Porto o Dador. E em virtude da Liberdade que pela força nos vinha, se a bem a não recebessemos – presente magnânimo dos deuses que nós, mortais, embrutecidos pela escravidão, estávamos tão longe de merecer! –, derrancavam-se os núcleos detentores da verdadeira energia nacional, corria-se ao ataque dos estratos centenários em que o génio pátrio se alicerçava, estabelecia-se o sufrágio por voto pessoal, enjeitando-se o antigo acerto que fixara a representação em bases pluralistas, logo de pronto. dissolviam-se, como indignos da Liberdade, os vastos quadros corporativos, abandonando o artífice inerme à dura lei do individualismo económico. O arrivismo suplantou a escalonação selectiva do regime decaído, em que todos se arrumavam no lugar próprio, montava-se o mecanismo administrativo com o recrutamento das clientelas-partidárias nos favores impúdicos do Estado. Asfixiou-se a iniciativa na dependência burocrática, subiram, subiram os gravames tributários. A Liberdade tudo devorava – devorava os filhos, como Saturno, devorava o País em peso, escorneado e manco, talqualmente os bois do desembargador, devorava-se a si mesma, transformada num enorme estômago sem tempero nem medida!
No fim de contas, «un pays n’est pas libre» – repara Babeau – «par cela qu’il ne paye pas d’impôt, car, à ce titre, il n’aurait pas de pays libre, mais un pays est libre lorsque le principe de l’impôt accepté, il le vote et en a le contrôle».[13] Não possuíam outro alcance nem outro mandato as passadas Cortes-Gerais, efectuando o equilíbrio dos egoísmos específicos das várias mancomunidades regionais e profissionais. Com todos os liberalismos apregoados não se insere nos fastos dos parlamentos uma página que valha a atitude de um João Mendes Cecioso, negando o aprazimento de Évora a uma derrama de D. Manuel sobre a colheita do trigo. «Eu, Senhor, com quinhentos cruzados que tenho de renda, não necessito das vossas mercês, e como vos conheço por justo, não temo as vossas ameaças! Fazei porém o que quiserdes, que eu não mudarei de ditame, nem deixarei de dizer sempre que quem vos dá esses conselhos, é inimigo da pátria, da honra, da consciência e da alma.» Foi como falou o desassombrado varão, o homem-bom, a quem Évora conferirá a garnacha de vereador. Com igual aprumo observaria mais tarde a D. Pedro II o Juiz-do-Povo, presidindo em Lisboa a uma deliberação da Casa dos Vinte-e-Quatro na qual o monarca se queria entremeter: «Esta Casa é de vinte e quatro, não cabem cá vinte e cinco!» Um tão nobre sentimento de autonomia manava em fonte directa da manutenção cuidadosa das classes adentro das órbitas referentes, do respeito social pelas liberdades particularistas em que se exprimiam os interesses reais e legítimos de cada agrupamento, fiando entre si o trama robustíssimo dos nossos recursos institucionais.
Mas os critérios abstractos do direito público adventício, preceituando que o deputado é mandatário não do círculo que o elege, mas da Nação em cujo nome legisla, surgiram a consagrar um princípio tão absurdo como pernicioso, que afasta e indetermina uma responsabilidade que é preciso estar bem viva, bem patente. Depressa se engendraram as simbioses partidárias e, com as arbitrariedades de um sufrágio desabusado, a corrupção e o compadrio de que elas se nutrem e engrossam. Tirou-se à representação o seu fundamento técnico ou territorial, e, em cortesias a uma ilusória soberania em que ninguém acreditava, os nepotismos e as conveniências intervieram com a bulímia insatisfeita na marcha dos negócios públicos. E num regime de centralização excessiva em que uma sombra ténue de município se galvanizava à força de decretos, e de mais decretos, de toda uma improvisada literatura legislativa, os donos da política se se lembravam que – afora o Terreiro do Paço, a assinatura régia e as cabalas de São Bento – existia um país narcotizado pelo abandono e pela inércia, era unicamente para aparelhar a máquina eleiçoeira logo que urgia arrancar ao cidadão alheado a chancela que mascarasse com alguma decência o desaforo das oligarquias. Para mais nada, de resto, Portugal servia! Tratado como um valdevinos que se enxota a pau da vizinhança, já nem podia mandar as que as da sua desgraça à presença dos Reis – pais e senhores. A penada de um teórico matara a representação nacional, pensando que a estatuía. E nunca mais, nunca mais os procuradores dos concelhos, letrados ou morgadetes, de beca ou espadim, declamariam rudes perante a solenidade da Coroa, numa ressonância bárbara de verdade e honradez, a defesa dos povos – o parecer da Nação!
A uma fidalguia rural espalhada por vales e montes e com deveres tradicionais para com as populações que uma moral própria lhe ditava, sucedera a atracção urbanista, deixando os campos a rendeiros ciosos que não conheciam as obrigações familiares dos senhorios. O despaísamento crescia com o arrivismo que a política, saindo dos recintos augustos do Estado para se baratear com o primeiro, inoculara corrosivamente na estrutura rija das classes médias. E quebrados os prestígios que o Passado transmitira, rotas as disciplinas sociais por esse furor negativista que é o sangue e a alma dos solavancos revolucionários por mais que se enfeitem com convidativas miragens de redenção, o povo que o é – aquele que produz e em quem reside a fibra que masculiniza uma nacionalidade, não o rebatalho patológico que acode pronto ao aceno dos agitadores – via-se de súbito maltratado, quase ignorado, por uma ficção que, evocando a sua soberania – Jesus Nazareno, Rei dos Judeus! – a coarctava com peias estrangulantes, com tutelas vexatórias, como nunca as padecera, sem um órgão ao menos que lhe traduzisse os desvios e os protestos.
De um sofisma outro sofisma nasceu. A mentira constitucional, pervertendo o exercício do sufrágio por ideologias mal assimiladas, deixou nas mãos dos chefes dos partidos a composição parlamentar. Mas no vácuo não se agia, carecia-se de votos para que os bandos se autorizassem. Concreção das necessidades de um meio – impossibilitado, porém, de se expandir normalmente –, no concelho aparceu então um cabeça que, arvorando-se em hífen, a troco das graças concedia os votos. Foi o cacique – o negregado cacique! Ora o cacique não passava, no cabo, de ser o representante nato da região. Aperreado, torcido, no desenvolvimento das tendências que condensava, com uma temperatura hostil a embaraçá-lo, apenas raquiticamente venceria, se vencesse. Venceu, afinal, como um tumor do Constitucionalismo – ele que no íntimo asseverava as possibilidades da Raça para a utilização de um verdadeiro sistema representativo. Desacreditou-se e desacreditaram-no. Mas só quem desconheça o viver das províncias – a paralisia que o inaniza, a insuficiência da autonomia municipal e o indiferentismo das altas esferas administrativas – é que impugnará ao cacique os méritos que teve e que ainda tem – porque não dizê-lo? – com o namoro vergonhoso que para aí se lhe anda fazendo.
Na serra, entre barrancos, vegetavam colónias de miséria, sem que uma picareta rasgasse até lá um acesso para as libertar. Vinham invernias que abalavam com pontes e sementeiras, dramatizava-se a fome em quadros sinistros, quando, com o trabalho que faltava, faltava a côdea dura, amassada a suor e lágrimas. Para que a justiça escutasse os que tinham sede dela, corriam-se léguas e léguas a corta-mato – os meirinhos comiam o dinheiro das viúvas e dos órfãos, o localismo acabaria por se extinguir, absorvido pela loba-sôfrega que é Lisboa. Portugal seria, pois, uma chainça pegada com feras e salteadores, se o cacique, apresentando os votos, não recolhesse a estrada, o médico, a escola, a dotação para acudir às crises – eu sei lá que mais! E quem é que dava a feixota da lenha, a geira para se lavrar, quem é que baptizava os filhos do pobre, compunha as questões, emprestava a semente?
Num país que resultara de uma soma de pequenos núcleos autonómicos, onde da primitiva a autoridade social por uma selecção cheia de tino encontrara forma nos chamados homens-bons, o cacique, sucessor do Morgado e do Capitão-Mor, documenta a ingénita disposição dos agregados populacionais para se resumirem em alguém que, encarnando as inibições e os poderes dispersos na massa, corporize a justiça, assegure o equilíbrio, seja o espelho das necessidades comuns, o seu ponderador e agente expressivo. Está na índole feminina da multidão, da noite contorcida da tribo foi assim que o chefe surgiu; é, pois, uma irreprimível pendência fisiológica que nada susta nem ninguém ilude. E obedecendo-lhe, o cacique, como cérebro da colectividade, detinha e aplicava o prudente arbítrio, o uso e o costume – toda a herança consuetudinária de uma região. O consenso tácito dos povos afiançava-lhe a idoneidade, a sua diferenciação, operando-se por uma concorrência de qualidades em relação ao meio, garantia-nos com o acerto instintivo da escolha as probabilidades representativas da Raça. Meditem no facto os nossos adoráveis sociólogos de caricatura e verão em tão reduzido exemplo que as sociedades, longe de se inclinarem para a desintegração autoritarista, tendem mas é para se hierarquizarem sob figuras que as signifiquem e coordenem.
Taine observou em referência à Inglaterra que, graças a essa representação natural, o parlamentarismo britânico escapara de se corromper pelo emprego vicioso do sufrágio. Henri Bordeaux levanta a opinião do filósofo em mais de uma novela reconfortante. E por toda a parte se vai regresando ao velho conceito territorial e técnico da representação. Só interesses é que se representam – a soberania do povo é um mito, como tantíssimos outros, em que já se não acredita. Consequentemente é fictícia, impostora, a natureza do sufrágio com o indivíduo por unidade sufragante. Nem o eleitor avulso nem as inscrições dos atrapalhados recenseamentos eleitorais se acham em circunstâncias de delegar poderes que correspondam a uma notação exacta do bem colectivo. Os cidadãos alinham-se abstractamente, como quantidades absolutas, idênticas entre si, num alheamento algébrico de quantos determinismos os distinguem e condicionam – o carácter arbitrário da divisão em círculos atribui uma aparência apenas formal a órbitas inexistentes, circunscritas ao acaso, sem outro propósito que o da confecção calculada do recheio parlamentar. É como o partidarismo se gera, inventando um serviço bem remunerado de adesões e imoralidade. E na posse dos elos do Estado pelo centralismo burocrático, confrange toda a actividade pública à matrícula no cadastro de uma clientela.
Donde o parasitismo, a alienação – da dignidade cívica, o escurecimento dos altos deveres nacionais pela sanha com que nos arregimentamos num bando e lhe seguimos as oscilações, submetendo-nos em tudo à sua arremetida atropelante para o poder. Porque, para se condenar os partidos, basta que todos eles se extenuam na conquista da governação. São a instabilidade, consequentemente, o passionalismo, a represália, as baixezas aliciadoras, pondo em conflito permanente, em permanente suspensão a continuidade e a firmeza, sem as quais não há direcções, no Estado – nem arranjo financeiro, nem política exterior.
Pois é da falsidade dos recrutamentos parlamentares, da empenhada desvirtuação representativa que a desgraça advém – já se não duvida com tão bem motivados diagnósticos. Por via de regra, os parlamentos concrecionam uma mentalidade em desacordo declarado com as solicitações da alma comum. Barrès num opúsculo célebre denunciou à França a interferência desabusada do elemento meridionalista na composição do Bloco, em desprezo, portanto, pela equipolência orgânica das províncias restantes. Os parlamentos incorrem, efectivamente, num tal desequilíbrio – originados como são pelos manejos sórdidos das facções, atraiçoam pelo artificialismo de que brotam a integridade e os sentimentos colectivos, a guarda que lhes cumpria pela manutenção do brio e das tradições nacionais. Quando os não inspira uma safada cultura ideológica com advogados e professores, afilhados da Razão-Pura mais do gagaísmo humanitário de Jean-Jacques, predomina neles o aventureiro e o pedantocrata que se vendem a qualquer e o que desejam é subir.
Ora o mal decepa-se pela raiz logo que a representação se exerça em termos concretos. Só se representam entidades possuidoras de consciência e de destino, como universidades e municípios, só se representam pessoas morais, como colégios técnicos, sindicatos de artífices ou de patrões, ou outros grandes núcleos de elaboração social, com capacidade para se conferir um mandato nas condições requeridas. É por grupos, por séries, não por cabeça, atomicamente, que o sufrágio se deve praticar. Adentro da área concelhia é que não haverá perigo de se universalizar debaixo de reservas prudentes e tão-somente em vista, ou ao município, ou à paróquia, não esquecendo que o voto se concede aí a cada fogo por intermédio do chefe respectivo, em atenção à base familiar do agregado. As classes, directamente tocadas, vigiarão assim o bom desempenho da fiscalização delegada. E porque o deputado, sendo o representante natural da região, ou o procurador bastante de um centro operário, agrícola ou escolar, defende concomitante nos interesses que lhe confiaram os seus próprios interesses, cessam os uniformismos dos programas, os partidos eliminam-se como uma superfectação de fácil esconjuro, reaparece o antigo critério de representação regional e professional, efectuando uma equação de egoísmos específicos como penhor suficiente da boa sinergia colectiva.
III
Já a ninguém escapa que a hora densa que se atravessa é pela crise de finalidade em que nos debatemos numa das horas tremendas que para nós têm soado. Mais do que nunca a insânia reformista se obstina em contrariar as aquisições seculares da Raça, lançando-nos os linearismos governativos numa reticência bem maior do que essa que o Constitucionalismo abriu no desenvolvimento natural da nossa curva histórica. Agora que a metafísica revolucionária se pulveriza perante os ensinamentos da psicologia e que os ditames do 93 se inscrevem como simples manifestações morbosas, é que certos resíduos de um racionalismo deformador, alimentados apenas pelo prestígio das grandes declamações, se alembraram de ensaiar o puro modelo jacobino na mísera e mesquinha república que para aí estrebucha, tomada pelo vácuo em que a deixaram as classes neutras do País mais o retraimento instintivo das populações enraízadas.
Não é que amostrasse direito à vida a monarquia de aprioristas e pedantocratas que caiu vítima da rarefacção que em torno de si provocara. Mas é que a república, chamada a reparar a falha histórica da Nacionalidade pela reconciliação dos elementos nativos da Grei com as supremas direcções do Estado, não passou da continuadora da ênfase pombalina e do desembargador Mouzinho da Silveira no derrancamento sistemático do País – na negação de toda a nossa realidade social. Farisaica, unilaterista, cavou mais fundo o divórcio insanável, fazendo depender de uma forma política sem coesão, desacreditadíssima pela experiência, coberta de repulsas pela sociologia, o ressurgimento de um povo que de outra coisa não cuidava senão de se expandir em conformidade consigo mesmo – com a sua entranhada índole foraleira.
Mas quê! O que havia de primário e desgarrado na mentalidade portuguesa – universitários empachados de cientificismo balofo, arengadores de má-morte ao alcance da patologia, inoculações regressivas em quem um atavismo inapaziguável erguia em conflito com as categorias morais da Raça – não se viu um mulato a promover processos de presos políticos?, não escreveu um canarim acerca da lei da Separação, gabando-lhe os altos efeitos emancipadores?, não secretaria um literato de cor o jornal que já foi órgão de governo? – tais eram as energias que viabilizavam e impeliam para um acto de violência as ondulações oposicionistas, tais os recursos que a república, proclamada, encontrou a recebê-la em primeira mão!
A folha de serviços valeu de pronto por um apuradíssimo critério de competência. A apetecida unidade moral da Nação não demorou a esbarrar com uma desabusada improvização legislativa como outra se não conheceu ainda neste mundo de Cristo! De dedo para o ar e com trémulos na voz enunciaram-se as esquisitices mais esdrúxulas da mística revolucionária, o profissional de humanitarismo pegou a fartar-se à contada mentira sufragista. E se o crime da Carta estivera outrora em ter desorbitadas camadas médias pelo gosto da política que o parlamentarismo lhes insuflara, a república, ignorando que toda a escolha de superiores por inferiores é, com o ser abominavelmente defeituosa, um agente terrível de fraqueza, desnaturou muito elemento útil adentro do âmbito próprio com a bebedeira do mando que pôs o país inteiro à mercê das Comissões Paroquiais.
Temos, pois, a República em Portugal, senhores – e poucos são já os que se comovem, como nossos pais tocados no fundo da província por um vago romancismo huguesco! Ela surgiu-nos em casa como uma carta inesperada, e o País aceitou-a, sem sobressalto nem hostilidade, com o bocejo de indiferença que é o mais que as querelas da governação lhe conseguem arrancar. Sebastianistas houve, no entanto – e ai de mim, nesse número eu me conto! – que a entenderam como o triunfo de certas possibilidades reveladas ao longo da nossa história, jamais como o neologismo despaisado que a aventura de um partido procurara aclimatar.
De facto, como já em 1640, diante das tibiezas de D. João IV, os nossos fidalgos haviam pensado numa solução electiva, conforme o modelo neerlandês, que se conhecia das guerras na Flandres – como a tradição das antigas Cortes-Gerais, alçando os reis ao trono em nome da vontade nacional, andava ainda na nossa memória, muitas facilidades entusiásticas no advento da República um remate lógico ao nosso desenvolvimento institucional. Citava-se a aclamação do Mestre de Avis pelos povos miúdos do Cronista, sem capitão e de ventres ao sol, mais a rebeldia constante dos velhos procuradores das vilas, falando firme e grosso à Coroa, como sinais insofismáveis da tendência espontânea da Nacionalidade para se inserir de baixo para cima num autêntico regime de sufrágio – da Nacionalidade que brotara ela própria da interpenetração instintiva de pequenos núcleos autonómicos –, de hierarquização electiva também, como as behetrias e os concelhos.
Por outro lado, a propaganda revolucionária envolvera o prestígio dinástico dos últimos descalabros financeiros, pintava-se o Bragança como o serventuário agachado dos Solípsos, maquinando na sombra protérvias sem termo, aguentando-se no sólio exclusivamente à custa de cedências vergonhosas sobre o nosso património ultramarino. E vai talvez que com a república os relaxados processos administrativos entrassem em moldes reabilitadores. Talvez a incerteza orçamental do Estado, denunciada tragicamente no tablado dos comícios, viesse encontrar o equilíbrio apetecido com o puritanismo severo de uma democracia integral. Talvez! E com o ser uma operação violenta a República afigurava-se-nos assim o único meio de irradiar as clientelas que o sistema constitucional engendrara e que demoravam um entrave obstinado a toda a tentativa de saneação e empreendimento.
Depois, inscrevendo como necessidade primeira de uma séria valorização nacional um regresso desafogado ao particularismo federativo da Raça, a república inculcava-se como abonada por uma justa compreensão das nossas preferências sociais. Não davam garantias os homens da acção directa, mas uma vez desflagrado o ambiente, energias e competências acudiram sem dúvida da obscuridade em que o arrivismo político as trazia degredadas – a ideologia barata dos agitadores ver-se-ia corrida num pronto pelas exigências coordenadoras do País que só robustos elementos construtivos podiam satisfazer.
Entrementes, agitava-se e continuava-se a agitar o espantalho clericalista, apontou-se a cumplicidade proveitosa do regime no analfabetismo das populações, no esvaimento emigratório. Prometeu-se pão para a boca, prometeram-se desonerações tributárias. O povo não pode nem deve pagar mais!... – E atrás da loa comiceira, uma bela manhã, expiando os apriorismos de mil e um reformistas, a Monarquia tombou, impotente diante da deserção que à sua volta operara a nefasta mentira constitucional.
A mudança do regime obteve-se sem abalo considerável. Tomou-se por adesão incondicional ou por pânico imobilizante o que em verdade não passava do amortecimento cultivado sistematicamente durante quase oitenta anos de ficção liberalenga – do amortecimento entranhadíssimo do País, o qual se assistira impassível à suplantação das instituições tradicionais, também da mesma forma não gastaria um passo para defender a situação que surgia. Esfusiaram logo os optimismos da nossa alma fácil, candidamente nos acreditámos em vésperas de levantar cabeça, como se a falha histórica da Nacionalidade, provocada organicamente pelas miragens do delírio ecuménico, levada ao rompimento agudo pelo romantismo parlamentar, que a Carta importara de envolta com a capa à melancólica e as emoções declamatórias do Ermo enluarado, se houvesse de ressarcir com cerrados compromissos de dogmatismo virado do avesso – como se os seculares motivos de divórcio não aparecessem acrescidos pela divisão moral da família portuguesa em campos irreconciliáveis, numa disputa fratricida de crenças e sentimentos.
A República nascia, pois, apressa pela natureza morbosa de todas as democracias. Sem a mais leve tentativa de integração nacionalista, logo de entrada se abandonou aos preconceitos deformadors do 93, como laicização, ruptura das disciplinas sociais, convite ao individualismo atrabiliário das ideologias jacobinas, etc. Contou apenas com o eleitorado que na oposição a deduzira – governo, abstraiu da colectividade, para só considerar os agrupamentos partidários. Tinha um programa inerte, rígido, como mero intelectualismo que era. Ligou-lhe o melhor do seu esforço, esquecendo-se de que a moda dos programas se ridicularizara, foi relegada há muito para o impasse da trapalhada inútil, a ponto de já em 1900 o Prince-Gamelle – herdeiro do trono de São Luís – asseverar numa carta que ficou célebre: «Un prince qui avait la prétention de régler d’avance serait peu de chose.»
Mas se a mentalidade que informava a república acreditava no poder da Razão para corrigir a sociedade! Sem olhar a que o estadista se não deve nunca desviar da verdade estatística, não reparando que as instituições se não transplantam de estaca de um país para outro, enveredou vertiginosamente por um carreiro de reformas hostis ao temperamento da Raça. Fechada num estreito unicismo sectário, a república não se apercebeu da multiplicidade complexa dos factos sociais. Nem por sonhos imaginou que havia uma vida subliminar a acatar na alma portuguesa – pôs-se em conflito com as aquisições hereditárias da Nacionalidade, confiando infantilmente no alcance regenerador da Lei, bem fora de saber que o direito debe exprimir a colectividade, nunca determiná-la!
Não conheço panaceia a que não se recorresse. Para de pronto esbarrarem com o statu quo ante das Chancelarias ressuscitaram-se as medidas anti-congreganistas de Pombal e Aguiar – e presumia de jurisconsulto o homem que as desenterrava das crestomatias jurídicas, onde dormiam bem descansadinhas, a fim de se aplicarem a uma ordem de coisas já tão diversificada, em afronta estulta a quantos pactos internacionais se relacionavam com um tão delicado problema. As primeiras semanas de república abonavam-se assim com uma vacuidade espantosa, com uma ausência descabeladíssima das noções mais rudimentares de prudência política e de tino diplomático. Em aquiescência às instâncias hidrófobas do democratismo militante, mensuravam-se padres jesuítas, abatiam-se insígnias heráldicas, cobria-se de chascos imundos a gloriosa bandeira, a cuja sombra a nossa história se fizera. Tratávamo-nos uns aos outros por cidadãos, o povo soberano mandava!
Mandava o povo soberano, mas os ídolos encavalitavam-se-lhe aos ombros, a sua vontade ilusória servia de escada para alcandorar ao mandarinato e às benesses chorudas da alta burocracia os tribunos habilidosos que habilidosamente o exploravam com retumbantes promessas de igualitarismo e desafogo. Mandava o povo soberano, mas quando vinha de jurar a Constituição de 22 e a plebe alfacinha com vivas à soberania popular se aturdia, ululante de triunfo, contra o coche magnífico em que a estranha figura burlesca se espapaçava, ventruda e enigmática, já D. João VI achara, em reservas maliciosas, que a boa soberania, coitada!, se queria andar tinha que andar a pé!
Sobre a suposta conquista de uma revolução de ópera-bufa o arrivismo mais desencabrestado se estatuira. E à maneira que o tempo girava e que os donos do Terreiro do Paço se iam ganhando da surpresa que os alçapremara às amesendações da governança, a sua capacidade negativa revelava-se de dia para dia, a olhos vistos, numa miséria vergonhosíssima. Estávamos em frente de um pasmoso, de um inacreditável anacronismo – aquela gente que, aparentando não sei que ímpetos remoçadores, se apoderara dos selos do Estado, na essência não passava das últimas e derrancadíssimas vergônteas do humanitarismo romântico que tornara possível um 93, mas que, volvido para mais de um século de experiência sociológica e num país exausto, quase insolúvel, como o nosso, só em tragi-comédia viria a concluir. Com efeito, o solavanco apenas descobriu cerebrações incompletas, materializadas numa obsessão de todas as horas, chusmas e chusmas de declamadores por falha de nascença, profissionais pitorescos do Livre-Pensamento e dos «Direitos do Homem». No cabo, esses tantos candidatos a estadistas de pulso firme e intuitos vastos significavam-se uns aos outros, coincidiam-se admiravelmente. Reles fonógrafos de quantos verbalismos se apanham a eito na oratória avulsa, acreditavam-se em nome de um progresso reivindicador, quando não eram mais que os resquícios patológicos da sentimentalidade filantrópica do valdevinos de Genebra, um arcaismo criminoso a querer exibir-se em atitudes de salvação e resgate numa era em que o morbo já se arrumara, diagnosticado e pronto, nos manuais de clínica geral.
Os mais ingénuos pretenderam reviver os Imortais Princípios, as hipérboles trovejadas da Convenção. Não se conhecia figurino melhor – não chegara até eles que as explorações arquivistas haviam acusado o elo emancipador de Danton como um serviço de perturbação e de desprestígio que o gabinete de Londres pagava a peso de oiro, nem que o velho Taine, da altura da sua serena imparcialidade, responsara inexoravelmente a Revolução como «une petite féodalité de brigands superposée à la France conquise». Lavrara-se a certidão de óbito do Passado, sequestravam-se bustos de rainha, desterravam óleos de frades. E tanto a chapa declamatória da França sans-culotte os obcecava, que eu não sei como não tivémos um segundo Javognes que «pouvait faire revivre l’ancienne simplicité républicaine» se não desse ao prazer de se passear pelas ruas vestido tal qual como Adão quando ainda a braços com a inocência primitiva, nem como se não ergueu alguma voz extática, a prometer que o homem, desembaraçado da servidão e em vésperas de vencer a miséria, atingiria uma estatura de sete pés e a idade de cento e quarenta anos «dont cent vingt d’exercice actif en amour», conforme Fourier.
Campava, pelo visto, uma crendice abjecta nesses ínfimos produtos da nossa desgraçada cultura escolar. E simbolizados pelo intelectual do Calhariz – pobre diabo de erotómano da letras com pontuadas invejosas de escriba sem sucesso, os poucos que primavam de espertos abasteciam-se de uns esparvoados resíduos racionalistas – ou de ridículos nominalismos universitários ou de inconfessáveis manhas tabelioas. Separava-os da nossa realidade para cima, e bem para cima, de um século de aquisições positivistas e de esbarrondamentos revolucionários. Títeres de feira, vingaram, porque se tratava de um triste país sonâmbulo, com as reservas coesivas em marasmo, com a sua finalidade já de há muito obliterada, senão aonde é que parariam agora com a caixa dos unguentos rançosos, com o engasgado de soldadores sertanejos?!
Em posturas amolentadas de resignado muçulmanismo; eis como Portugal os tolera e os leva a sério, opiando-se com a mentira estulta da Igualdade, indo-se atrás das tiradas tribunícias com que lhe exploram o sentimento e lhe ludibriam a fome. Ditoso, batendo as palmas, o povo-soberano abandona-se aos ilusionismos grosseiros do homo-publicus que se governa à custa da sua miséria e da sua candidez – e eu, num sorriso amargo, recordo-me daquela boa gente de Paris que imaginava os prussianos em fuga só à notícia de se ter proclamado a República – tal o condão sobrenatural de que se revestia para a ingenuidade das massas a virgem de gorro frígio e peitos soltos das iconografias baratas. «Ils non oserant plus venir, maintenant que nous l’avons!» – assim Sarcey ouvira a um operário, camarinhando suor e entusiasmo.[14] «Ils, c’étaient les Proussiens; nous l’avons, il voulait parler de la République.» No cabo, houve o cerco, a perda do território, a tremenda indemnização e, com o tripúdio das campanhas maçónicas na esfera suprema do Estado, a entrega da França ao estrangeiro do interior, o abastardamento dos brios nacionais através das enleantes utopias pacifistas, o descrédito do exército, a renúncia a toda a política externa, o suicídio da nacionalidade em face do teutão, roncando de novo.
É essa uma miragem de psicologia popular que se repete, afinal que reaparece sempre com as grandes comoções gregárias. Também connosco os reis, pávidos de susto, sentir-se-iam oscilar à rajada resgatadora que em Lisboa tumultuara – os povos da terra, opressos em gargalheiras centenárias, saudariam o canhão da Rotunda como o pronúncio de uma idade feliz que se aproximava. Ensinara-se-lhes outrora a estrada aquática para a Índia, hoje se lhes ensinava como se sabe azorragar o preconceito e a expoliação. E como ao artífice de Sarcey, depressa encurralado, padecendo inclemências nas agruras de um assédio penoso, o ídolo se lhe desfaria na impotência e no vazio, o que é que será do cidadão fremente de lealismo e confiança na hora em que vir a fronteira transposta e o Leão de Castela, dilatando a garra, sem que a República das taumaturgias orçamentais e do ressurgimento patriótico se lembre de arremedar o empolado gesto de ira com que repudia sete séculos de tradição e expulsa a bandeira gloriosa da Raça, condenando ao anonimato penitenciário aqueles raros, de uma só fé – e de um só parecer – que lá fora a mantêm de pé, dignamente?!
O juízo-final soará para a quadrilha de aventureiros e saltimbancos que desta arte abusam da menoridade das multidões. Todavia, enquanto se refastelam e o baixo apetite de domínio se satisfaz na orgia de um poder que é licença e malvadez, Portugal vai-se distraindo no orgulho pueril de que a Europa inteira, de olhos postos em nós, nos está aceitando uma lição de liberdade e bem colectivo. É que em fraseologia composta de boticário que transige com a época, para cá são ideias-avançadas os dantonismos sediços, as ideologias refervidas com que se decora a reduzida craveira mental dos grupos hoje preponderantes – advogadozinhos trapalhões nos quais a rábula vale pela lealdade nobre da inteligência que lhes falta, pitorescos Sganarelos de aldeia que se acharam de súbito com a mesa diante, emproados homúnculos sem nome que Esopo já devia conhecer quando se saiu com a fábula da rã que quis ser boi.
A superstição do Progresso arregimenta o nosso arrivismo letrado. Não há caixeiro-viajante que não esboce esquemas de evolução social, considerando a república apenas como um ponto de passagem para a felicidade sem lei e com amor gratuito, numa regalada vida à barba-longa, das catequeses libertárias, que é o remate certo de toda a jornada, ainda com uma pequena demora pelas alturas do socialismo. E o mais descoroçoante, o que marca uma deficiência insanável nas nossas possibilidades reconstrutivas, é que nas trincheiras conservadoras a república aceita-se como uma forma de governo superior, a democracia como um distante ideal a atingir-se.[15] A diferença vai somente em que o País se encontra longe de as merecer pelo atrazo que o escurece, pelo atraso que o deixou na incompreensão da monarquia constitucional, da obra magnânima da Carta!
Em Portugal não existe o que se possa chama uma verdadeira cultura. Existe unicamente como apanágio dos presumidos círculos orientadores um intelectualismo de ínfima extracção que intercepta a realidade dos factos com pobres conceitos anacrónicos – com tolas generalizações de primários empavonados. Acredita-se na virtude da Razão e na eficácia dos parlamentos. As vantagens da disciplina religiosa encaram-se por um restrito prisma de policiamento moral – a religião entende-se só como um freio, quando se não confinem em melancolias lamurientas, em evocações efeminadas dos tempos que passaram, as diminutas e bem apagadinhas palavras que à consciência católica deste país fidelíssimo têm arrancado os endemoninhados zelos laicizadores. Ignora-se a riqueza dinâmica da nossa herança institucional, conta-se exclusivamente com o improviso reformista como miragem salvadora, a repulsa acertada do instinto colectivo pelas teorizações constitucionalistas interpreta-se como uma falha irremível, como um sinal tristíssimo da incapacidade rácica. A valorização actual, cheia de reforços científicos, do princípio monárquico escapa-nos, como nos escapa a assombrosa revivescência espiritualista em que a inquietação da alma contemporânea começa a desabrochar. E a Questão-Obreira, que as democracias políticas por culpa de nascença são impotentes para solucionar, em vez de a equacionarem e de lhe imprimirem concisão e finalidade, afigura-se entre nós, a católicos e a monárquicos, pior e muito pior que a besta formidável do Apocalipse!
Com tão anémicos recursos, tão arredada do ardoroso movimiento organizador em que tenazmente se empenha o pragmatismo admirável da hora que soa, eu não estranho que a defensiva conservadora seja com tanta facilidade desbaratada pelos discursos anfigúricos da oligarquia jacobina. Pactua-se até com ela a ponto de no livro A situação política em Portugal,[16] tão escusado como morrinhento, se esperar com uma simpleza inacreditável que o patriotismo (!?) dos governantes, em face da crescente ameaça internacional, os conduza por plácido entendimento à restauração dinástica! Corporizar semelhante esperança é não contar nem com a psicologia do sectarismo nem com os claros avisos da História. «Nous ferons un cimetière de la France», bradava Carrier, «plutôt que de ne pas régénerer à notre manière». E em nossos dias o esfacelo pronto da Turquia e a reabilitação do traidor Dreyfus por imposições do federalismo financeiro dos judeus contra o decoro sagrado da Pátria nitidamente demonstram que a conivência maçónica não possui país, é internacional, é cosmopolita, só se determina pelos interesses inexoráveis do grémio. Por Deus, não cultivemos ilusões!
É essa mesma Maçonaria que assassinou Garcia Moreno nos degraus da catedral de Quito, que cobre de insultos a figura veneranda de Jehanne la Pucelle como símbolo que é da resistência indígena da França perante a investida huguenote, de mãos trocadas com as camarilhas do ghetto, e que em 1890 assegurava em concílio pleno que dentro de dez anos a França seria toda dela[17] – é essa mesma Maçonaria, manipuladora da aguatofana, operária de quantos crimes mandou atribuir por Taxil e Le Châtre ao prestígio venerando da Igreja – a Maçonaria das fichas, a que foi receber Junot a Sacavém, que apelou para a intervenção durante a ditadura franquista e que já intimou a venda do nosso património colonial, um oculto poder indebelável que corre ao ataque da integridade da Raça, lhe salta por cima da conformação hereditária, lhe desfibra os liames afectivos, lhe interrompe a unidade moral, impelindo-a para a morte – para uma morte ignóbil, sem epitáfio, toda enclavinhada no horror da própria degradação.
Se o livro do senhor Borges Grainha o não dissesse, se não o dissessem as arengas quotidianas dos vários doutores da lei, bastava o excelente estudo de Flavien Brenier[18] para nos convencermos de que Portugal é hoje um feudo dos Filhos da Viúva, uma presa que eles fincaram sofregamente e a que sofregamente se agarram. Expulsas as congregações, ainda resta uma – a do triângulo emblemático, senhora e dona dos nossos destinos; apostada no corrompimento do que ainda em nós sobreviva de autónomo e de nobilitante – escusa trabalhadora que, encoberta com a noite, é devastação e torpeza aonde quer que a deixem campar.
Veja-se em Maurice Barrès (Scènes et doctrines du nationalisme) e em Copin-Albancelli (La Bastille antimonarquique) o requisitório sem fim contra a potestade secreta que mina devagar, mas em segurança, as mais sólidas estratificações sociais para que triunfem em nome de Hiram os assassinos do Príncipe Imperial, de Rossi e de Syveton, para que os escombros de um mundo em cativeiro sejam o lombo submisso em que assentar o sólio futuro da grande Besta entronizada. Autores da Monita-secreta,[19] com cuja falsificação pretenderam abalar a única força organizada que têm topado pela frente, ao mesmo tempo que as investigações bibliográficas desvendam a vil insídia secular, os irmãos da Flor de Acácia não resistem ao espanto indignado com que se acolheu a publicidade das normas de 1822, dirigidas pela Alta-Venda às Lojas de Turim. Pois que a Maçonaria nos comanda e se ostenta por aí, de pendões desfraldados e insígnias às claras, é bom que se registem esses ditames de arripiar.
«... O essencial é isolar o homem da família, fazer-lhe perder os seus costumes. Ele é por natureza inclinado a eximir-se aos cuidados domésticos, a correr atrás dos gozos fáceis, dos prazeres proibidos. Gosta do convívio nos cafés, da ociosidade, dos divertimentos. Arrastai-o, prendei-o, cerque-se de importância; instile-se-lhe com cautela o aborrecimento pelos trabalhos obrigatórios e, por intermédio de semelhante estratagema, depois de se haver desligado de mulher e filhos, de se ter conduzido ao aborrecimento de todos os deveres, cultive-se-lhe o desejo de uma outra vida melhor. O homem é rebelde por nascimento. Atice-se-lhe até ao incêndio o instinto de rebelião – mas tome-se cuidado, não chegue o incêndio a declarar-se. É o começo da obra que nos cabe. E quando se esteja bem ciente do seu enfado pela família e pela religião (o enfado por uma trás consigo o enfado pela outra), arrisquem-se então algumas palavras que lhe despertem vontade de se ir filiar no loja próxima...»[20]
Com a inserção fragmentária de um tal documento eu não quero armar ao trágico, ressuscitando o velho aparato romanesco do terror com gentes mascaradas e um círculo de estiletes em torno. Agora o que saliento é a estreita índole farisaica da irmandade que nos desfruta, para a qual a Pátria nada é em face das conveniências internacionais da Ordem. Para quê formular, portanto, o voto de reconciliação e arrependimento, puerilmente concebido pelo autor de A situação política em Portugal? Já não escapa a ninguém por incontroversas demonstrações históricas que a Revolução Francesa foi o fruto largamente premeditado do conluio maçónico. Ora, «ce que constitue la république», dizia Robespierre, «c’est la destruction de tout ce qui lui est opposé». Uma sentença irrevogável se exprimia com o sanguinário homem da Virtude. É a sentença que pesa por sobre nós, porque se inscreve como um dogma nos decálogos infalíveis da seita.
Não nos diluamos, por isso, em estéreis expectativas de reconsideração e pesar sincero. Lembremo-nos de que às vésperas do 18-Brumário já a França do Directório, reparando à desagregação irreprimível em que se decompunha, tentava evitar o suicídio por todos os modos, correndo todas as hipóteses, desde o desfecho cesarista até à monarquia constitucional – mas a monarquia com um príncipe estrangeiro, à condição de ser reformado. Frente a frente com a evidência do erro, a obstinação facciosa mantinha-se ainda, preferindo antes entregar-se a um soberano adverso por feitio étnico e psíquico às realidades mais sensíveis da alma colectiva, que a devolver-se aos justos moldes tradicionais – à continuidade institucional interrompida. Não nos distraiam dúvidas, pois! Manejada por inconfessáveis desígnios, a cegueira gregarista caminhará por entre ruínas com apóstrofes redentoras na boca torcionada, há de aluir os fundamentos mais interroados da Nacionalidade, mas não abdica de suposta excelência dos seus mandamentos, não desiste do propósito de nos matar, salvando-se; ou de morrer, matando-nos!
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Longe de a aplanar, pertence-nos a nós, os brancos, acentuar, extremar quanto possível a inconversibilidade. Temos por nós o reaccionismo instintivo do agregado que, chocando-se de chofre com uma presença hostil, se foi retraindo sabiamente até deixá-la imobilizada no vácuo, condenada a expirar na rarefacção. Temos por nós – e é a maior das nossas forças! – o espírito da época que principia a renunciar, como quem acorda de um longo ludíbrio, aos subjectivismos fantasiosos da Revolução e do Progresso para se apossar de uma visão realista, concreta, da sociedade. É ganharmos a atitude desempenada, a actividade agressiva dos que se batem apresentando o dia de amanhã como abonador!
Eu sei que nos falta uma doutrina orgânica que nos reconcilie connosco mesmo e nos comunique fereza e aprumo galhardo. Ligados por um vago e inconsistente sentimentalismo à situação decaída, quantos não há entre nós outros que cedem à fraseologia tatuada da mentalidade dominante, convencendo-se de retardatários, de morcegos inimigos da luz, de esquálidas projecções regressivas de tanto pavor passado – segundo os epítetos obsequiosos dos pasquins em favor no público. Enfraquece-nos a aceitação teórica da forma republicana como ascenso máximo da morfologia social, e curvados a essa superioridade que não se discute, a nós próprios nos desbaratamos continuadamente, desgarrando-nos como valores dispersos, como quantidades passivas, que nenhuma ideia centrípeta aglutina e interpenetra na demanda de um grande alvo inspirador. A superstição evolucionista acaba a tarefa nefasta do negativismo romântico. Desajudados de uma síntese máscula que nos vivifique e atribua sentido, nós somos as vítimas das avariadas ideologias liberalengas com que se nos entortou a educação, cortando-nos a iniciativa e entenebrecendo-nos o juízo com antecipações deturpadoras do conhecimento e da realidade.
Eis porque vale a Verdade portuguesa e porque encontrá-la é para o minuto denso que se atravessa um rasgão clareando a nossa dúvida. Dum povo desnaturado, ignorando-se a si mesmo, em quem as clientelas verificaram sempre o perinde ac cadaver de Santo Inácio, pode despertar uma nação consciente, cheia de dignidade. É reanimar-lhe as mergulhadas células constitucionais, é tonificar-lhe o organismo depauperado pelo abandono e pela inércia, valorizando os resíduos comunitários, abundantes ainda, socorrendo-nos do particularismo institucional que caracteriza o génio da Raça. Só o espírito provincialista nos salvará, só o Regionalismo, como doutrina política, nos merece – desfalecidos como andamos – alguma crença, algum sacrifício. Olhemos para trás e nas horas pardas da Nacionalidade lá veremos o concelho aguentar no arcaboiço rijo os balanços da Pátria, ao sentir-lhe o contacto logo tomada de alento súbito, como aquele gigante da Fábula – a usada imagem! –, revigorizando-se nas desfeitas do combate com o bafo da Terra, sua mãe solícita.
É que a Nação não irrompera doutro lado senão da concordância espontânea das behetrias do Norte com as vilas do Sul, conduzidas ao sentimento colectivo de um mesmo fim por virtude do formidável princípio coordenador que é a Realeza em si. Estruturalmente aflorava da remanescência fecunda das cividades e dos ópidos da tradição romanista – tão ricos de recursos autonómicos, esses mergulhados núcleos de vida localista, como anteriores na sua agremiação cantonal às influências latinas que da parte de Roma não representam mais que o reconhecimento dos nossos já hierarquizados grupos urbanos para os indispensáveis efeitos fiscais e administrativos.
Devolver-nos à sequência tradicional interrompida, remoçar as profundas bases foraleiras da Nacionalidade é, pois, restituí-la ao seu inalienável meio vital, à constância indefectível do seu determinismo originário. Pelo arreigamento do homem à gleba, o município guardou através de vicissitudes implacáveis o dolicóide meão, de cabelos escuros, no qual se concrecionava o fundo antropológico da Grei, de ser absorvido alterado pelas truculentas imitações de todo o sempre. De uma federação de municípios, o País brotara – como que consagrando a ascendência modesta, de um castro a cavaleiro do Douro recebera o nome. Com a sobrevivência das instituições concelhias num pacto perpétuo de interesses permanentes, a que a Realeza, tornando-se o cérebro da colectividade, atribuíra as linhas imorredoiras de uma consciência una, o dolicóide meão, de cabelos, escuros, que persiste e se afiança ao longo da nossa jornada, mantendo na integridade das suas preferências a grande força mantenedora da Nacionalidade.
Assim, sabe-se hoje que uma espécie de humanidade pré-adâmica, alheia a quantos êxodos nos passearam ao depois o território, se revela o intróito dos tempos demorando pelas bacias do Tejo e do Sado, nua e afivelada ao solo, como se a encadeasse um cingido cordão umbilical de deslaçamento impossível, como se um estreito vínculo de sangue a apertasse ao torrão num aferro de criança que não larga nunca o flanco materno. De facto, o natal da recuada estirpe autóctone confunde-se com os acidentes geológicos de que resultou na estratificação definitiva o terreno amorável desta boa courela pátria. E os cortes de Mugem descobriram-nos o avô primitivo praticando o sedentarismo bem antes de conhecer a agricultura. Era uma tendência inata em que se manifestavam belamente as derivações carnais do remontado indígena, surdindo das entranhas possantes de Reia, olhos semi-abertos, os braços contraídos num esforço libertador – como na alegoria que encima um livro célebre do Sophus Müller.[21]
Da Terra viera, à Terra se encostava no ensaiar dos passos desabrochantes. A predilecção sedentária, estabilizando-o, lhe daria a inviolável pureza rácica por uma já formulada lei científica e graças à qual havia de perdurar intacto em face das pasmosas aluviões exóticas que por momentos o sobrepujariam. Pois em torno de um tão simples motivo étnico o segredo da nossa história se desenrola e gravita. Humanidade preliminar, depressa aprendeu consigo – na intimidade do seu instinto – a enterrar os seus mortos num vislumbre de restituição e renovamento. O enraízamento que de nascença a distingue é um germe abençoado que irá frutificar pelos séculos adiante em bastas colheitas de marvilha. Conservou-se-lhe a memória da virtude nativa – da índole doce e pacífica que não exercia a guerra nem se encarniçava em pegadas disputas sangrentas à porta de entrada das débeis alvas civilizadoras! Um minuto se conta – minuto em que centenas de anos se condensam – a cuja sombra a idílica Bondade Natural das morrinhentas utopias revolucionárias se aproximou do amplo quadro das realizações. É como que um eco fugidío das sumidas idades de oiro, recordadas nos depósitos religiosos dos povos – uma centelha cadente, pálida, da perdida beatitude paradisíaca, durando em ressonância moribunda nas transmissões ininterruptas da ancestralidade.
Retenha-se a essa humanidade preliminar o arreigamento extraordinário – a ingénita insistência que a radicara ao húmus de que brotara à sua imagem e semelhança. Por mim reputo-o como a diferença específica da longínqua família aborígene. Aí me acostumei a contemplar a minúscula célula primária – o exíguo ponto nodal de um futuro particularismo consuetudinário, de que as citânias minhotas estabeleceriam a expressão, ganhando de seguida na forma jurídica do município o remate definido de uma verdade equilibrando-se. É que a humanidade infantil de Mugem eu a reverencio como a distante elaboradora do admirável revivalismo lusitano, tantas miríadas de séculos volvidas ainda agora recuperador e vivaz! O apego filial ao rincão natalício que logo ao alvorecer do conhecimento a ilumina de uma como que mansíssima devoção naturalista viria a ser com os tempos que ascendessem o poderoso factor estático da sua resistência indebelável. Será o oculto ovo encantado, o esperma de prodígio, da invencível moldura comunalista, que parece gerada com a própria Terra no coração da própria Eternidade, tão direita, tão segura se nos desvenda em frente dos olhos, ora afirmando a folha de longos créditos em que o passado a afiançou, ora prometendo-nos nos desvairos e nas incertezas do presente a chave enigmática do dia que avança!
Num madrugar de altas coisas sem nome, a boa raça autóctone que não conhecia a guerra já enterrava os seus antes de praticar a agricultura – dissera eu. Defronte do ibero invasor que expunha os cadáveres à devastação das aves de rapina, o habitante da vertente atlântica da Península rendia-se ao culto da gleba, confiando ao mistério do grande ventre que o concebera os despojos mortuários dos que se iam andando na caminhada formidável. Um escrúpulo de sangue se entretecia – uma amanhecente inibição espiritual, com que se inutilizam os universitarismos instalados que só concedem ao espraiar lentíssimo da vaga asiática os dons semeadores da religiosidade. E porque os corpos se sepultavam debaixo do pavimento dos abrigos na crença simples de que o defunto continuava a viver e não se quereria arredar de ao pé da choupana com tanto custo alevantada, uma simpatia de lugar se entrançava, participando-se de uns para outros – a aptidão sedentária, descortinada em Mugem em pleno mesolítico, produzia-se espontaneamente como um ato já ensimesmado na constitucionalidade fisiológica.
Considerando, em tão ingénuo recorte, a velha grei aborígene, não é diversa a linhagem em que entroncam os fabulosos atlantes da Antiguidade, residindo em ribas clementes à margem do rio Oceano e de sempre bem famigerados pela hospitalidade piedosa com que acolhiam os estrangeiros. Mas as migrações tumultuárias assomariam com a arte das batalhas, escravizando na facilidade de uma inocência desapercebida o homem de Mugem que se enquadra nesse fundo arcaico, pelágico ou líbio-ligúrico, no qual o Mediterrâneo estava enconchado. Povos erráticos, turbulentos, os que advinham na sofreguidão de uma presa apetitosa. Hércules, abalarido para estas partes desgarradas na cobiça inapaziguável dos novilhos de Gerion, os simboliza magnificamente como personificação de uma irrompente força impetuosa a que nada escapa, a que tudo se verga. E é bem o dolicóide meão que ressalta do episódio corrente da expedição ao Jardim das Hespérides, quando o Titã aprisionando os pigmeus, ainda mais diminuídos pelo terror, os leva consigo embrulhados no seu manto de pele de leão, como uma trouxa cómoda que dependurasse da clava.
Deixou vestígios o tremendíssimo embate das turbas assoladoras com as benignas populações ocidentais, desfrutando já a sociabilidade calma de um ridente período agrícola. Ficaram na lenda as grangearias e os gados de Gerion em veigas feracíssimas à beira última da Terra. O filho de Alcmene, ardendo em desejos incontidos, embarcara-se para a depredação. E no mito célebre em que Hércules e Gerion batalham um com o outro durante três longos dias e três largas noites, palpita-se todo o drama que os evos ensombram nas dobras espessas: é o duelo inaudito da família autóctone com os flibusteiros marítimos que aparecem para a expoliar.
Ao cabo da luta exasperada, o lavrador mitológico caíu vencido – e Hércules o degolou de pronto, cravando-lhe a cabeça em sangue numa erguida torre que para padrão eterno fez erigir. Submetida como um animal de carga que um signo aziago destinara para o sacrifício, o clarear de vozes indistintas ensinava, porém, essa singela humanidade primitiva, tombada em desgraça, a extrair da derrota que a dividia e dizimava o segredo divino de uma energia que o aventureiro do mar, braquióide e truculento, não possuía nos recursos brutos das hostes cerradas – nem nos shamanismos propiciatórios dos feiticeiros e bailadores de que se acompanhava. Eis como a Esperança nasceu ao limiar das Idades, em revulsivo de uma raça esmagada, construindo-se miragens de reparação futura – a Esperança, inspirado estado de graça que renova em acessos de fúria heróica, a qual bem depressa se tornaria o poderoso fator dinâmico da intensa, da comovida alma lírica do Ocidente.
Hão-de sorrir compassivamente os olimpismos soberanos de ortodoxia científica. Não me impedem, contudo, de asseverar que, amalgamados com os mais inconciliáveis extratos alogénicos, algumas das apelidadas nações latinas manifestam na fisionomia e no temperamento um modo de ser especial e afim, que se volve inexplicável pela pretensa derivação romanista. É uma idiossincrasia sempre recalcada, mas sempre recidiva – uma diversidade inconfundível de ethos que à justa se poderá chamar génio atlântico, por via dos seus mergulhados atavismos oeste-europeus. Enterroa-se na primordial camada étnica que, catalogada debaixo da designação genérica de pelásgica ou líbio-ligúrica, de hora para hora se nos desvenda como portadora de uma flama sacratíssima que, se por uma banda floresce nos esplendores em conta da cultura micénica, a ela se deve por outro lado enternecida sabedoria druídica – não ao homem de Hallstat, vestido de ferro e de coma doirada, que a assimilaria mais tarde.
Em tão obscurecida como remontada genealogia se insere a estirpe autóctone – o Luso inderrubável. E a radicada persistência que por qualidade de origem, dando-lhe o gosto sedentário, a abroquelaria contra as desviscerações da rajada opressora, nós a veremos renascer no localismo institucional, que é o agente extático da perduralidade municipalista em que se entrama a estrutura rija do nosso pobre país. Um sentimento colectivo, como que irmão-gémeo das preferências cantonalistas que do aprumado beffroi flamengo às feras hermandades castelhanas, que das praias nostálgicas de Erin ao nativismo criador do génio lusitanista é uma insofismável realidade de séculos – um entranhando sentimento colectivo se desencadearia, unânime e aglutinador, à face do desastre, cara a cara com o perigo, nesses povos que, jornadeando de uma tacteante coesão comunitária, se elevaram ao tácito e espontâneo entendimento de uma consciência una. É a Esperança, tão iluminadamente adivinhada por Teófilo como a virtude-madre do carácter português. É a Esperança que, avantajando-se para nós nas linhas imorredoiras do mito sebástico, se mostra o traço vincante, o ar que imprime a parecença, das nacionalidades de interiorizado substractum aborígene, herdeiras do sagrado Génio Atlântico.
Filha da doçura ingénita daquela grei primeva que, apenas por si, dando unicamente largas ao seu natural, aprendera a enterrar os mortos, a Esperança encarna e perpetua o afinco heróico que, excedendo logo à infância do homem os moldes transitórios do nomadismo, soube transpor as ilimitadas impossibilidades individuais desde que se adjungiu à gleba e se coordenou em clã. Nasceu a Esperança da tenra, quase familiar, devoção campesina que adorava as nascentes e estabilizara as lareiras no respeito envolvente da Terra fértil e acolhedora. Era então a Esperança a ânsia com que na tetralogia hermética das Estações se aguardava a florida época transfiguradora, cuja invocação ritualista se mantém ainda nas cerimónias lustrais de Sábado-Santo, nos encantados motivos fálicos de Maio-moço, no culto imemorial do Solstício, transitando para os fastos cristãos, na água depuradora de São João Baptista, no madeiro festivo da noite do Menino.
Depois era já a Esperança no rude ensaiar dos esforços agrícolas o grão que se arremessava ao acaso – o desejo forte da colheita por vir, com as pupilas viradas aos astros, perscrutando a generosidade das chuvas; os almejados favores do sol radiante. A madrugadora comoção bucólica do Ocidental o ungira assim do sentimento íntimo da natureza, da sua vibração supra-sensível, à qual havia de pedir nos revezes da fortuna ao flagelo das hordas inimigas, a bebida que o imunizasse da desagregação e da morte. A Esperança que se vertera religionário no saudar contemplativo e agradecendo às Estações que se sucediam; umas recebendo a semente, as outras volvendo-a, multiplicada num prodígio de assombro – agora numa fase rudimentar de comunidade, a que presidia já um esboço tímido de adaptação agrária, a Esperança se confessava como certeza promissora de um amanhã para que se apela de entre os negrumes ásperos do instante que nos sufoca – tal como inescurecível espírito tutelar de uma raça em almoeda. É que por ela hão-de desatara a cadeia longuíssima das gerações, solidarizando o passado com o futuro através dos desalentos com que a ampulheta se corria!
Na continuidade dessa cadeia, das inesgotáveis fontes improvisadoras do ser, os Mortos diziam a firmeza do sangue que se apoia na Terra, extraindo da Terra o alento de que tanto se socorrera o Titã. Sobre os rios que vão em Babilónia, também Israel, disperso e confundido, perseverara incólume, a despeito de retaliações e enxovalhos, só à lembrança da pátria Sião com os chacais passeando-lhe as ruínas e o vidente de Anathot travejando-lhe nos escombros, mas resplandecendo, todavia, para as agruras do exílio como já coroada de glória na vinda resgatadora do Messias. Atrás da saraiva, da nortada, do frio, não deixa jamais de lucilar a alegria renascente das coisas! Atrás do açoite que seguia devastando e imolando, também se veria regressar a idílica tranquilidade antiga, a partilha amorável da recolta, a perturbada prática dos queridos usos diários! E assumindo a Esperança os calmos poderes aplacadores de uma divindade, os druidas a celebrariam num enfestoado altar à Virgini-pariturae, de quem sairia um Deus para os redimir – em ritmos solenes uma sibila cantábrica anunciaria aos seus em cativeiro um salvador no futuro.
Visionando libertações que nunca lhe chegam, da Esperança se alimenta a retalhada Irlanda, cheia das altas palavras de São Patrício errante pelas praias rumorosas na nostalgia do bardo gaélico. As giestas armoricanas todos os verões se infloram para o regresso de Artur. E as areias doiradas de Portugal sonham alto com a nau triunfante do Encoberto, lançando-lhes a âncora em cintilações de pedras finas. Oh, o condão misterioso de uma raça a quem as emboscadas e os marasmos não roubaram o ardoroso iluminismo, que é a pasmosa essência mística dos Santos e dos Heróis! Oh, a loucura sublime, que nas intermitências femininas da vontade, nos desmaios prolongados do querer, não se consta de eclipse que por demorado não esconjurasse em maior Primavera de seivas, não se sabe de abatimento final que não viesse a arroteá-lo em milagre estupendo de mocidade!
É na destrinça desse ancestralismo que eu localizo o nódulo embrionário da incompreendida crença sebastianista. Desde que se admita o valor social dos mitos, há que agradecer à capacidade messiânica do carácter português os infinitos recursos de que a nossa desvairada marcha, feita aos frangalhos, se socorre contra os tornozelos do caminho, contra os acidentes assassinos da longada. Sucessores do enraízamento orgânico, que tanto nos enriquecera os reservatórios hereditários, falimos, abortámos, tão depressa a viagem se nos torceu nas arrancadas estrebuchantes da epilepsia ecuménica.
Connosco medrara até então o panteísmo reconhecido dos grandes troncos da Raça, connosco subira a pertinácia rural da ascendência, já basada em robustas séries institucionais, já homogenizada no equilíbrio robusto da unidade concelhia – expressão jurídica e territorial do velho agregado gentilício, com o sangue por hífen apertado, com a cultura em comum por património consuetudinário. O município retém, de facto, o feitio agrícola do Ocidental, nutrindo-se das vagorosas aquisições de um ethosopulentíssimo que, em começo naquela inominada humanidade primitiva, nua e aferrada ao solo, se vai desenvolvendo e escalonando, através de agrupamentos gradualmente diferenciados, até se declarar como célula indestrutível de uma nacionalidade em gestação.
Das citânias pré-romanas que atalaiavam os cômoros desta Ophiusae frons dos enigmáticos périplos fenícios, nas quais as terras se distribuíam segundo o processo que se exemplifica com os Laceei da bacia duriense, às indómitas behetrias da Reconquista, da composição deliberadamente gremial, os fundamentos agrários do município rasgam-se a olhos plenos, sem controvérsia, na derivação das suas próprias magistraturas. Os vereadores denotam bem na etimologia do apelativo o destino primordial das funções que exerciam. Palavra desfiada de vara que o mesmo é que terra comum, com uma provada origem indo-árica, equivalendo na raiz a circunscrever, medir, os vereadores, como a filologia no-lo desvenda, eram na infância da instituição com que ao depois tanto se nobilitariam os encarregados da divisão periódica dos terrenos colectivos. Nos concelhos, em que à loucura desamortizadora haja escapado alguma coutada ou baldio, nós os iremos ainda encontrar designando os lotes, delimitando as courelas, presidindo ao sorteio numa recorrência atávica da sua dimanação longínqua.
Das tenteantes inclinações sedentárias do habitante mesolítico de Mugem se ascendera assim a um corpo social, tão afinado e representativo. Ei-lo aí ainda agora oferecendo aos vencidismos e aos desesperos de um crepúsculo que desce de largo os amplos quadros prestantes. Ei-lo ainda oferecendo o rijo trama institucional a que nós sem querer nos ajustamos, por virtude da trabalhosa e lenta incidência de uma grei primeva que, ao tempo em que nos criava como raça, nos criava a par e passo na estratificação dos hábitos essenciais uma como que regra de acção e assentimento em que as nossas necessidades de povo se combinariam, satisfazendo-se e interpretando-se. É que o sedentarismo, descortinado no vale do Tejo como norma inflexível de habitat, viera a consagrar-se em elemento poderoso de sociabilidade. A necrolatria depressa fortificou os agregados embrionários por uma severa organização pluralista em que a presença inolvidável dos que se sumiam subordinava o homem de um dia ao destino superior das gerações. Os mortos encadenavam os vivos numa permanência votiva – na crepitante exaltação animista que não cessou de nos falar ainda na mudez imponente dos megalitos com que o País se povoa de extremo a extremo. Por isso o laço carnal – o parentesco se discernia numa comunhão hierarquizada religiosamente sob um forte patriarcalismo unificador, donde havia de provir o conselho dos Anciãos, repartindo as geiras e aplicando o costume, como centro coesivo da forma rural da aldeia em que as tendências asseveradas em Mugem não demoraram a concrecionar-se. As invasões surdiriam, sim!, recalcando, espezinhando, mas já à hora em que as qualidades-madres da Raça se tinham interiorizado no sangue, insuflando-lhe um apego indebelável, uma entranhada resistência afectiva que nada extirparia – nem o ferro, nem o fogo!
O perplexo, o vago sentido de adoração bucólica que afeiçoara o Ocidental à terra, comunicando-lhe propensões de estabilidade na recolhida inumação dos Mortos, no culto melancólico dos astros nocturnos, assim se resolvia em actividade incansável, em química marulhante de energias. Eis porque a Esperança – factor dinâmico de uma etnia vivaz que se enchera de vigor e alcance pelo particularismo institucional, se materializa para nós na figura compensadora do Encoberto – para nós que, epígonos transviados de uma federação de pequenas autonomias, possuíamos nas veias, embora dormitando, o revivalismo indominável de toda uma Árvore-de-Vida que enrijara e crescera debaixo dessa atracção que não permite desfalecimentos nem renúncias covardes. Sempre precavidos contra desvairos centrífugos, contra apetites atropelantes, a história, que dentro de nós se deprava em sonambulismos de vergonha, os nossos Maiores a prepararam pela subordinação gostosa a uma finalidade concreta, a um alvo definido, que já trazia as suas raízes das citânias pré-romanas, distribuindo os frutos numa partilha de irmãos com irmãos, e sobe depois ao arrancos supremos da epopeia concelhia, como é aquele dos mesteirais elvenses, elevando a poder de fintas e sacrifícios um aqueduto que não faltasse aos de amanhã com a água, por cuja ausência se tisnava em horas de cerco a boa cidadela fronteiriça. É o gigantesco serviço aleatório que a ideia da Pátria nos inspira e no qual se decifra o segredo inextrincável das formidáveis marchas humanas depondo o precário bem de um minuto no altar soleníssimo em que se invoca o futuro.
Confinado nos limites familiares da riba patrum – das rumorosas pátrias minúsculas de que a outra –, a grande Madre, se enastra e abastece, o dolicóide meão, de cabelos escuros, pelo arreigamento inato que o fixa ao solo se acobertou das sobreposições adversas que o pretenderam atravessar e absorver, endireitando a índole fera em face do inimigo que lhe corria ao assalto da integridade nativa. É na reposição de um tal valor antropológico, sempre prejudicado, mas sempre renascente, que o senso íntimo da nossa existência de povo se apoia sem sombra de dúvida. Por que é que dos concelhos partiu a rude voz colectiva que deu a palavra que decide em 1384? Por que é que à gente dos Municípios coube desde o princípio o grito de salvação, o arremesso emancipador? É que no localismo agrário da Comuna a pureza étnica do indígena se garantira perduravelmente pelo afinco à gleba. Aí, de envolta, por consequência, o meio vital da Nação borbulhava incorrupto, pronto a reconstituir-lhe a indispensável temperatura orgânica.
Em cada citânia topou o legionário latino um baluarte que lhe consumia anos para o derrubar. O morador preferia a morte à escravidão, irmanava-se bem no ânimo inquebrantável a esses guerreiros cântabros que, crucificados pelos vencedores, vociferavam até finarem-se os seus cantos de combate – o seu desprezo épico pelo número infinito das mangas contrárias. São as cidades do Oeste que agitam a dominação muçulmana com sedições continuadas. As vilas da Reconquista, em acordo com as behetrias indómitas, ajudam o Rei a orbitar os elementos góticos que tentavam toldar a remanescência fecunda do dolicocéfalo aborígene no entretecimento dos quadros fundamentais da Nacionalidade. O reaccionismo rácico mantinha-se. Acastelado nas cividades primitivas, o habitante autóctone impedira a infiltração romanista, como se recusara a confraternizar com o celta loiro que, já aliado ao ibero vizinho, procurava impor-lhe a feição arrogante e despaísada de que resultaria a dureza imperialista do planalto castelhano. Na inconversibilidade dos dois temperamentos – um, sedentário e agricultor, o outro, errático e improdutivo – é que está a razão inalienável que separa de natureza as duas famílias peninsulares. Já Silius Italicus na Púnica acentua a eterna divortia que as irreconcilia. Pois nos Municípios, reduzindo o instinto vigilante da Grei, o sentimento da diferença toma relevo e expansão. Como barreirara o alastramento semita não consentindo que se espalhasse para além do Douro, entrecortando-lhe de estremecimentos rebeldes a ocupação superficial das povoações do Gharb. O Luso, ensimesmado e uno, reforça-se no seu particularismo comunitário contra os excessos da intromissão estrangeirista. Eis porque ao longo dessa caminhada o grito de aviso, a debelação do perigo, foi sempre aos concelhos que pertenceu.
Não nos esqueçamos de que a Nação dimanara desses enterroados núcleos de independência local. O embrião evidenciado em Mugem desenvolvera-se com todas as possibilidades contidas. Era o casulo afortunado de uma operosa actividade que em avançadas sucessivas, em sucessivas sínteses de acção e destino, da gens à cividade, da cividade à arimania, da arimania à Pátria, iria lentamente valorizando a índole pacífica e estacionária da nossa grei primeva que se arreigara ao chão materno, bem antes de conhecer a agricultura, como que por obediência a uma ordem íntima que podia mais do que ela. Por isso nunca o povo deixou de cantar em torno do pendão da Comuna, desde que se visse livre e a terra o fosse também.
A fim de se guardar da unha rapace da Clerezia e dos Barões, apoiara a Realeza em D. Afonso III – e a unidade política do País com consistência se estabelecera. 1384 é a epopeia da alma concelhia – na arraia-miúda das vilas, com os seus homens-bons por cabeceira, desperta o meão dolicóide em quem residia a fibra máscula da Nacionalidade. É o meão dolicóide, obtendo a correspondência da Nação com o Estado, a despeito das superfestações tumultuárias do ressumo címbrico que entrara com os cavaleiros leoneses, quem nos conduz à floração magnífica de Quatrocentos, ao máximo apogeu da unanimidade rácica. Mas a arrancada ecuménica anula-nos a coesão molecular, o carácter colectivo desagrega-se. A defesa da gleba ainda as Cortes-Gerais a ouviram pela boca rude dos procuradores concelhios – o alto infante das Sete-Partidas há-de querer evitar os presságios melancólicos do velho do Restelo. A fatalidade dos signos nada assegura, porém. A gafa nigerista suplantara-nos, suplantara-nos a infecção judenga, e embora o fundo antropológico teime em não se abandonar, o estrangeiro do interior desviscera-o, o oiro da Índia alucina-o, o cosmopolitismo humanista da Renascença acaba por desemoldurá-lo. Quando a Inquisição nos acode, é já fora do tempo. Perdêramos a estrada do império da Terra, trocando Marrocos, nosso indicado prolongamento, pela vesânia esplendorosa do Oriente. Dias virão em que as comendas as havemos de ganhar no Algarve! – declamara pensativo o conde do Redondo naquele conselho em que ficou assente a entrega das praças de África.
A moirama não nos veio, todavia, em ofensiva. Nós é que nos estrebuchos da decaída procurámos resgatar o erro funesto, voltando a afrontar o Crescente. Descuidaramo-nos demais. Ao piloto sem cartas nem roteiros que se atirava para a goela das ondas com a aspa sangrenta de Cristo nas velas enfunadas, sucedera-se o pirata abarrotando de mercancia e estofos ricos. Nos langores asiáticos viciara-se-nos a emotividade lírica, não passávamos já de um roldão de aventureiros jogando a vida mais pelo amor do saque de que pela insígnia sagrada que nos protegia as fileiras. O Paço cheirava a pimenta, o bom Sá lamuriava em tom de responso não sei que doloridas evocações a uma desprezada torre solarenga: «Nessa hora os olhos ergui / À casa antiga e à torre…», e da virtude sóbria dos lavradores da Comuna já nada restava. O município parasitava, na escassez de braços que o sustivessem; o esvaímento emigratório não havia poderes que lhe botassem mão. O Reino em peso embarcara-se para a pilhagem, para a feeria arrastadora dos metais de Golconda e das pedrarias de Visapur. Faminta dependência das partes roxas da Aurora, Portugal via-se coberto de escravos, ermo de naturais. Como a donzelinha das histórias, tudo em que tocasse se mudava logo em ouro. Os pardaus chegavam a Cabeceiras de Basto. No entanto a penúria escabujava bravia, as pestinências e as secas apeteciam-nos para vítima expiatória.
Enfraquecidos por desvarios sem conto, debalde tentámos arrepiar na carreira desordenada. As direcções espontâneas da Raça, contrafeitas, obliquadas pela demência faustosa em que abalávamos perdidos, não se possuíam já no equilíbrio singelo das horas primeiras. A hipertrofia egotética do Renascimento desnacionalizara-nos – e se alguma coisa nos intitulávamos ainda, não íamos além de um entreposto comercial cá «onde a terra acaba e o mar começa», aberto às influências desagregantes de uma feira universal, com mercadores acorridos dos quatro cantos da Europa. E a pequena Casa Lusitana, adivinhando a cerração que lhe carregava o futuro, debilitada até à medula pelo delírio imperialista, quis regressar a si própria, aos domínios senhoriais por tantos lustros desdenhados, à faina interrompida dos bons Maiores. Marrocos agitava-se diante de nós como uma pertença legítima, como uma chainça a desbravar. E não se imagine que foi a loucura maravilhosa de um moço que nos atirou para o requiem tremendo de Alcácer. O País inteiro é que se encarnava na cisma profunda desse mancebo virgem – o País inteiro o incitou à cavalhada trágica, todo aceso num grande arranco de reabilitação. Tal o perdulário desabusado que um dia se arremessa para o perigo, a fim de reparar na abnegação de um instante a estiagem dura de uma existência sem rumo!
Ao menos soubemos baquear! Tanto poderíamos voltar com os destinos fechados na nossa bagagem, como ficarmos em pilhas sobre a areia adusta, dando um frescor de vida com o sangue derramado à devastação da noite africana. Ficámos. Connosco ficou o lindo Galaaz que a lenda quer que se acolhesse a um ermitério áspero para que, purificado e invencível, de lá se partisse quando os sinais divinos se julgassem cumpridos. E pregando em Santa Maria de Belém, à face da eça armada na nave majestosa, Frei Miguel dos Santos bem dissera o impulso uníssono em que a empolgante epopeia da catástrofe se andara gerando na alma febril de Portugal. Camões e Diogo Bernardes lhe emprestaram incitamentos no decassílabo nobilíssimo da sua musa. Capelos e arnêses, letrados e fidalgos, charruas e rocas, todos à uma se identificaram na resolução truculenta de abalar, de transpor o mar do Estreito, e de novo retomarmos o broquel de fronteiriços da Cristandade. Diante do ataúde vazio, a declamação fúnebre do monge confessava a culpa geral, absolvia o rei desditoso da ruína da Nação. «Pois quem os matou?» – lastimava ele. «Matou-vos o bispo, matou-vos o clero, matou-vos o frade, matou-vos a freira, matou-vos o grande, matou-vos o baixo, matou-vos o povo, matei-vos eu, matámo-lo todos quantos somos!»
Eu não contarei o poema angustioso dos sessenta anos de cativeiro com o seu cortejo de visões promissoras, com a bigorna oculta do irridentismo trabalhando as almas, retemperando as vontades. É um claro-escuro de assombro em que a Esperança risca de relâmpagos energéticos o aparente marasmo da Grei. Ele são prenúncios nos astros, profecias na boca das velhas, nos roncos das vagas, no rumor dos ventos. Às praias lançava o Oceano seixos enigmáticos com a palavra Duque, Duque, insculpida. No túmulo de Afonso Henriques escutavam-se golpes rijos de montante que se experimenta, por cidades e campos giravam maluquinhos sem nome com dizeres misteriosos na fala entaramelada. Os videntes bíblicos confiavam-nos a chave do próximo resgate – Portugal, saudado antes do ser pelos varões ungidos das Escrituras, nas Escrituras encontrava a garantia inviolável da sua condição imortal. Oh, a fraude três vezes abençoada que falsifica as actas de Lamego, que redige o juramento de Afonso nos campos de Ourique! Oh, a ingrata fama enegrecedora de que se rodeia o caluniado Frei Bernardo de Brito! O sonho messiânico da Raça aquecia em ímpetos místicos o homem meão, que lhe fundamentava as raízes. E refeito agora do tresloucamento marítimo, quem na derrota soubera crer, crer inabalavelmente, não demorava que o visitasse um terceiro dia recuperador – a pompa florida de uma páscoa de graça.
A capacidade lírica do Luso rejuvenescia-o em motivos de persistência indebelável. Nos reservatórios afanosos do nosso subconsciente operava-se por alquimias estupendas o supremo mito aglutinador que seria vacina e licor da transfiguração. Jaz nas penumbras a vigília patriótica em que o sentido nacional se reencontrara durante o jugo castelhano. Desse formidável movimento, tão depressa desperdiçado na fatalidade histórica que nos subordinou às incertezas políticas do século XVII, ao injuriado beneditino da Monarquia Lusitana cabe a directoria espiritual: o profundo bafejo inspirador. Na tristeza humilhante da tribulação, o Cronista ateou entre os sossegos da crasta a lâmpada serena das meditações. E com o cálamo alastrando-se pelo pergaminho enrugado, dispõe a mais indestrutível apologética de um povo oprimido. Ao poderio tirânico dos Filipes, maltratando-nos com uma coisa ínfima, sem preço, respondem as dissertações monásticas do erudito nas quais a nossa dignidade cívica espezinhada vence os vexames do usurpador pela razão soberana de uma alta ascendência, embebendo-se nos troncos remotos por quem Deus obrou os maiores prodígios, desfiando a derivação daquelas ínclitas façanhas que marcam à Antiguidade as portas augustas dos tempos heróicos. Frei Bernardo de Brito reelabora as miragens cultas da Renascença. E com o maravilhoso cristão abraçado ao maravilhoso pagão – com Túbal, da estirpe de Noé, emparceirando ao lado de Lísias, nascido de Baco –, é o manifesto dos nossos direitos que ele grita à face da consciência clássica, é a protestação vigorosa do humanismo em eclipse que sabe afrontar as desgraças da Pátria, antepondo ao Leão de Castela com um título que é já um desafio – Monarquia Lusitana – as forças morais de um passado que com patriarcas e semi-deuses a sustentá-lo não consentiria que morrêssemos em opróbrio para aí assim.
Perto da minha vilória, a gente de Alter-Pedroso, suprimidas as suas franquias municipais, apresentaram-se diante do mestrado de Avis, a cuja jurisdição pertenciam, com lápides romanas erguidas, clamorando em vozes unânimes que já a vila existia antes de Cristo vir ao mundo, e tinha foros, e era notável. Pesaram as insólitas alegações no ânimo das magistraturas da Ordem. É que corria Quinhentos, quando André de Resende falsificava letreiros e os ia depois descobrir com grande aparato. O conceito homérico da história predominava – as mentalidades vazavam-se na visão restrita do mundo greco-latino. Pois o caso dos de Alter, restituidos às imunidades concelhias por virtude dos seus miliários ininteligíveis, é um episódio avulso que pelo conhecimento do meio nos ajuda a compreender o alcance social da obra de Frei Bernardo de Brito. Perante a Europa de antanho, para criar um estado de espírito, valeria tanto como uma nota diplomática das chancelarias hodiernas.
Reverencie-se esse ignorado professor de mística lusitanista! Por cima do parêntesis funesto estende as mãos a outro clérigo que, disciplinando o Sonho com a Acção, foi o obreiro infatigável do Portugal-Restaurado. A religião da Esperança tomou no Padre António Vieira um peito ardente de prosélito que a propagava nas agruras de uma guerra sem tréguas – que lhe escreveu o Evangelho no Clavis Prophetarum, ensinando para o ofício de Rei um lusíada de olhos melancólicos em quem a alma do Desejado parecia renascer. Mas a dureza dos fados não se aplacara ainda. E o príncipe D. Teodósio levava para a cova, no segredo de uma adolescência linda, o destino da coroa perdida em Alcácer-Kibir.
No entanto, a Esperança doirava-nos a incerteza sufocante com que a nossa pequenez se atrevia para os exércitos compactos da Espanha. Pasmado, o senhor de Ablancourt havia de escrever no caderno das suas memórias que em Portugal conseguia-se tudo por milagres e que por via disso nunca os apuros nos embaraçavam, por bem apertados que eles fossem. Como é que se admite, de feito, que sem dinheiro, sem searas, sem soldados, nós resistíssemos por vinte anos mais compridos que vinte séculos ao embate furioso do planalto castelhano, se não nos socorresse um íntimo poder, se o calor da fé sebastianista se não desencadeasse para nós numa cachoeira formidável de energias?! Unificava-nos o senso colectivo de uma predestinação – o município, reparado do esgotamento ecuménico, intervinha transbordante, seivoso, extraindo do substractum aborígene as reservas imunizadoras da Raça. O motivo étnico que preside aos momentos graves da Nacionalidade pronunciava-se com o afloramento do dolicóide meão – sedentário e pachorrento, mas cheio da fereza indómita da gleba. Eis porque as batalhas formidáveis da Feliz Aclamação se abastecem com a bravura anónima do pessoal das Ordenanças – eis porque a página inexcedível da evacuação de Olivença nos assevera a força indebelável do localismo, como qualidade primeira da nossa suficiência, como valioso meio vital em que a Nacionalidade mergulha sempre que elementos perniciosos lhe comprometam a saúde.
Anos rodaram. E com a marcha das ideias absolutas – sem dúvida o fruto pior do deboche individualista que a Renascença engendrara –, um precursor da Razão-Pura ensaiado pelo figurino exótico de Richelieu e Sully, pretende refundir o País a pena de pato, como reconstruíra a compasso Lisboa por terra. A decadência ruía-nos pavorosamente, porque, esquecidos os valores dirigentes de que Portugal se tornara grande pela virtude sóbria do seu comunitarismo, nós éramos agora porta aberta às influências estrangeiras: o cesarismo majestático do Rei-Sol caíra em plena histeria megalomânica com as naus do Quinto subindo Tejo arriba, grávidas do oiro brasílico – com o estonteamento da riqueza imprevista a desfibrar-nos de novo a estrutura arreigada ao torrão. O reinado da Ópera – no instantâneo admirável de Oliveira Martins – envolvia-nos numa atmosfera bizantina de prelaturas e basílicas. Rangiam sedas episcopais. Por sobre a Nação atónita, os carrilhões custosos desfaziam-se em chuva rara de sons. E o povo delirava o delírio do Rei – uma nevrose de opulência vestia de linhas barrocas o perfil rural da Pátria.
A loucura perdulária atingira as camadas mais íntimas do País que abalava em massa para a Lisboa sumptuosa da Patriarcal-Queimada e dos cantantes cruzados-novos. O cancro absenteista se inaugurava assim, abandonando-se o viver morno da província aos escravos e aos clientes. O Estado-metafísico – o Estado-Pessoa – ia descer dos medalhões joaninos para as realidades quotidianas de um centralismo estrangulante. De modo que, quando o Marquês montou a complicada máquina governativa, as tendências burocráticas estavam estabelecidas, reinava a congestão urbanista no agregado inerte, as pequenas iniciativas comunais jaziam na tutela miúda das togas esfíngicas do Desembargo.
Pombal aclimata o absolutismo teórico de que as cortes europeias corriam prenhes, por uma junta de capelos solenes manda declarar apócrifo o tratado do arcediago Vaz de Gouveia sobre os legítimos direitos da representação nacional. E abolindo portanto a tradição orgânica das Cortes-Gerais, formula o poder do rei como uma derivação hereditária, jamais como uma investidura dos diversos interesses colectivos, com fim à sua natural equipolência. Resultou no vácuo o estadismo abstracto do ministro omnipotente, para quem Portugal não passava do campo abrangido pelos vidros da sua luneta. Enfraquecida a mão de rédea que a sustinha, bem depressa se viu letra-morta a empertigada ditadura. Não fora além de um algebrismo simplista, jogando com intenções louváveis e de certa amplitude por vezes, mas esbarrondando-se inevitavelmente pelo hirto alheamento das condições do tempo e de espaço em que se encerrou num desprezo feroz de quantas advertências os factos lhe sugeriam. Molestado como nunca o ethos particularista da Raça, o País recolheu ao sonambulismo de sempre. Já agora era um castigo que o carregava, as forças condutoras obstinavam-se em não o reconhecer autónomo, de olhos cravados na modelagem estrangeirista. A Esperança esmorecera – do Município ninguém sabia.
Redobrara o amortecimento – o divórcio insanável já se não reparava. O final do século tumefazia-se de inchaços de catástrofe. O ambiente pesava, como em Maio quando as trovoadas andam para estalar. A loucura da Rainha estampa-se em nota sinistra nesse fundo de receios inexplicáveis, de desconfianças recíprocas. De França vinham rumores inquietantes, como um ruído surdo de sismo longínquo. Entrementes, Lord Beckford discorreria dos serenins de Queluz e da imundície de Lisboa. E o Senhor-Intendente franzia o sobrolho, puxava pela caixa de rapé e revolvia as lojas dos livros de baixo para cima por causa de uns temíveis papéis que entravam no Reino às escondidas…
Impõe-nos a justiça que uma reabilitação se faça. É que na tortura inominada em que o reinado da Senhora Dona Maria I se confrange, as preocupações fisiocráticas de uma dúzia e meia de eruditos guiaram os cuidados cultos e a atenção das esferas superiores para o exame minucioso e amorável das nossas qualidades de povo. São testemunho bastante as Memórias da Academia. A economia portuguesa estuda-se ali entranhadamente à claridade dos critérios contemporâneos, em que uma linhagem notável de homens públicos se exercita num aprendizado tenaz para a tarefa de bem governar. A lavoura, as marinhas, a pesca, a indústria, a zootecnia, merecem reflexões judiciosíssimas que ainda agora constituem fonte importante de consulta. O bispo Azeredo Coutinho inquire do comércio de Portugal com as colónias, estuda-lhe as vantagens, pondera o futuro marítimo da Nacionalidade. As nossas águas minerais retêm os cuidados e o empenho das estações supremas. Funda-se a Casa Pia, donde brotará, com magníficos propósitos de assistência, um viçoso viveiro de artistas laureados. Domingos António de Sequeira, recolhido por Pina Manique entre a vadiagem alfacinha, é lá que recebe o primeiro afeiçoamento estético. Os viajantes ingleses pasmaram das explorações agrícolas dos frades de Alcobaça. Os serviços judiciais regularizar-se-iam pela extinção das magistraturas privilegiadas. 1793 é uma data sem parelha nos nossos fastos navais. Organiza-se o Conselho do Almirantado, cria-se uma marinha de guerra que vai acreditar-nos nas expedições mediterrânicas contra a Primeira República. As letras vicejam, como não sucedera durante o principado do Marquês que as atarantava com miradas hostis. O arcebispo Cenáculo inicia no castro da Cola interessantes trabalhos arqueológicos, enriquece Évora com uma biblioteca importante. E é ainda a actividade douta dos amigos do duque de Lafões, que dissipa as miragens greco-latinas que nos empecilhavam a exacta compreensão das origens históricas, com João Pedro Ribeiro e António Caetano do Amaral por mentores. Félix de Avelar Brotero classifica a flora lusitana, o doutor José Manuel Ribeiro Vieira de Castro publica o Discurso a favor das ciências no governo monárquico, erige-se a Estrela e institui-se a Academia de Belas-Artes.
Pois numa enlevada temperatura de nacionalismo, como era essa que se andava preparando, o génio lusitanista, amimado, reconhecido, não demoraria a expandir-se em fecundo rejuvenescimento. Os modestos núcleos de existência local começavam a atrair as meditações. O absentismo increpa-se como um mal endémico a esconjurar-se e é já a obrigação territorial de residência que os nossos economistas alvitram como barreira segura a levantar-lhe. A demografia e a higiene destacam-se de entre os assuntos desenvolvidos com proficiência e desvelo. Na literatura militar assinala-se o Ensaio de Gomes Freire. E tamanha consciência a nossa sociedade adquiria de si mesma, que num sentido másculo da sua constituição não se intimida em face das irrompentes ideologias revolucionárias, antes lhes opõe toda uma doutrina positivista de alarme e de defesa. Pesa-se com razões de experiência e de lógica o valor dos regimes – o conceito intelectualista do indivíduo puro de Rousseau embarga-se com as relatividades seculares em que cada país se exprime. Assim, como um repositório dos melhores argumentos da hora, António Caetano do Amaral traduz a Monarquia de Peñalosa y Zúñiga (1798), e não tarda que se vulgarize também A voz da natureza sobre a origem dos governos – apologética francesa em que se reconhece o dedo de Bonald.
Mais uma vez a alma colectiva procurava recuperar-se no restauro das nossas instituições tradicionais. Acentuava-se uma corrente fortíssima contra o estadismo olímpico introduzido pelo Marquês, visceralmente inadaptável tanto à índole benigna da nossa Realeza, como às predilecções foraleiras da Raça. Falava-se já em convocação de Cortes – na necessidade de devolver à administração concelhia a gerência dos diversos interesses populacionais, incomportáveis na norma unilateralista do governo central. O Príncipe Regente mandara examinar os antigos forais do Reino no louvável intento de os amoldar às solicitações presentes. O Município reanimava-se. Pela reforma do giro dos correios e pela fixação dos salários judiciais, os povos sentiam-se contemplados por medidas práticas, de alvo imediato. Iria a Nação reconciliar-se enfim com o Estado, inserir-se o dolicóide de estatura meã, o descendente do homem de Mugem, nos quadros supremos da coordenação política, nas direcções decisivas da Pátria? O motivo étnico da nossa história reaparecia. A reposição do fundo antropológico da Grei, sequestrado pelas imiscuências exóticas, não se anularia desta feita sob a fatalidade costumada? Ai – mas se em Seiscentos a formidável renovação se perdera por um desvio que ainda hoje se não perscruta bem, o ressarcimento tentado pelo fisiocratismo do século seguinte cedo o amarfanharia a avariose subjectivista que de França se nos contaminara! É que, cedo a galopada napoleónica nos deixaria suspensos de um hiato em que toda a comunhão nacional não foi demasiada para correr o inimigo.
Contudo vibrou-se – ao Município coube o arranco irridentista. A Terra falou à Raça quando a águia imperial arredondava o vôo para descer por sobre as nossas cabeças. A arremetida epopaica contra os franceses encheu-se da voz da gleba espezinhada na viuvez de uma relha que a desposasse. As vilas armam-se em massa – juízes de fora alternam com meliantes, capitães-mores com guardadores de gado. Portugal inteiro é uma guerrinha a monte. Quem não tem caçadeira empunha uma roçadoira, uma foice. Quem não possui boldrié nem partazana, perfila-se com um pico, com um chuço, até com o espeto doméstico. Os bandos abalam. As mulheres, com trouxas ao alto e os filhos dependurados das saias, seguem-nos, deixando os casais a arder, levando as bestas à frente. Abala-se para a guerra-santa, para a guerra sem tréguas nem quartel. Junto ao cruzeiro da póvoa clamaram-se os adeuses à geira que fica, ao campanário que se abandona. E daí por diante, à curva dos carninhos, na quebrada da serra, só há lobos bravios que não poupam o vencido, nem se aterram com o desfile da invasão.
O frade agita o Crucifixo que lampejara sempre na tristura do seu sacrifício ao sol cruento das nossas lutas emancipadoras. Nos recessos obscuros do sangue, o mesmo impulso unificava os corações num baler concorde. O localismo – o enraízamento, o amor ao torro, vasado em expressão palpável de vizinhança e parentesco – intervinha, magnífico de ira, nos destinos da comunidade. Da federação das várias autonomias foraleiras num grande agregado moral e político, a que a Realeza conferira uma inteligência permanente, como cérebro fixo da colectividade, é que outrora a Pátria surgira, consagrando a minuciosa feição pluralista do nosso ethos. O Município, alcançando a pureza rácica do substractum aborígene pela retenção do autóctone ao solo, como meio vital da Nacionalidade, dirá nos momentos duros do perigo a nossa resistência fisiológica às ameaças graves da desagregação. A desagregação revela-se-nos ao longo da caminhada portuguesa como a presença absorvente de uma etnia contrária. Em 1384 são os resíduos címbricos, aduzidos pela Reconquista, que, tumultuando o equilíbrio saudável do organismo, pretendem sobrepor-lhe a cerrada moldura unitarista do planalto castelhano. Fechado na agremiação espontânea do concelho, o Luso toca a rebate, derriba os alcaides por Dona Beatriz e de ventres ao sol, sem montada nem bacinete, é um ciclo esplendoroso que ele inaugura na charneca extática dos Atoleiros, trazendo para a claridade dos tempos o desbarate da flor vistosa da cavalaria ao choque áspero com a bisonha peonagem das vilas e herdades, arrebanhada a esmo pela mulinha do Condestabre.
O instinto municipal que nos salvara da retaliação coroa um Rei, marca uma outra idade, e atribui à dinastia que irrompe o prestígio e a seiva de que a admirável era de Quatrocentos se alimenta. São os procuradores concelhios, que à morte de D. Duarte elevam o Infante das Sete-Partidas à regência na prevenção do espectro estrangeirista, disfarçando-se sob a fraqueza voluntariosa da rainha viúva. Ainda os bons delegados hão-de bradar em Cortes os abusos dos poderosos, o desprezo da gleba, o esvaímento dos campos, o mal da Renascença, deslocando para Roma no séquito dos bispos e dos letrados as mais grossas rendas nacionais – toda a loucura trágica do Oriente. E depois, debaixo das janelas do paço em Almeirim, quando o purpurado régio agonizava na imbecilidade da sua caquexia, serão também os escolhidos dos concelhos que, desafogando o sentir das populações, lhe irão ritmar os soluços da morte com as arestas implacáveis de um epigrama de condenação.
Viva el-rei D. Henrique
no inferno muitos anos,
pois deixou em testamento
Portugal aos Castelhanos.
Vox populi... – E no eclipse abafante no município, como num laboratório afanoso de reservas, a dividida alma comum se retempera para a manhã gloriosa da Ressurreição. A Esperança lhe acalenta as sonolências de princesa encantada, que a pouco e pouco vai despertando do malefício rogado por alguma fada rancorosa. Sonha-se alto com o Encoberto – o sapateiro de Trancoso ilumina os desfalecimentos da Grei.
Saia, saia esse Infante,
bem andante!
Seu nome é Dom João!
Correlheam o Pendão
e o Guião,
poderoso e triunfante.
Correm estremeções coléricos nas cidades do Sul – os indícios dos signos combinam-se para uma hora propícia. Évora toca as matinas da Restauração – o enigmático Manuelinho comanda em chefe oculto, mas obedecido. Não se susta já a maré que enche, que enche arrastadoramente.
O Conde Duque emprega o derradeiro golpe com a abalada dos fidalgos para a Catalunha. Presidiam-se de castelhanos as fortalezas do Reino. Miguel de Vasconcelos domina. Todavia, «Segundo o firmal assenta, / já se passa o de quarenta», e foi num instante enquanto se desceu à sala do trono e se pôs um rei em lugar de outro.
Ao Município pertence em rasgos de renúncia lacónica o melhor quinhão da guerra que estoira de pronto. As povoações entrincheiram-se, oferecem os filhos e os recursos – com a terra em pousio, sem colheita que baste nem sossego que refaça, durante vinte anos de sobressalto e sacrifício, é a Comuna que ampara na luta rija o corpo retaçado da Pátria. Falem as cidadelas do meu Alentejo, tantas vezes entradas, tantas vezes revoltadas! Fale Veiros, defendendo-se até às últimas do exército de D. João de Áustria que, não havendo aonde fartar a fúria asselvajada, corta as orelhas a vivos e a mortos para desforra sanguinária! Em Elvas os doentes erguem-se do catre e lançam-se para as muralhas partilhando do entusiasmo do combate que se lhes encarniça em torno. Juromenha voa pelos ares com os padres e os escolares da universidade eborense, que a estavam guarnecendo. E ocupada Olivença pelo duque de São Germano, evacuam-na de seguida os nobres a mais gente de teres. Para evitar o despovoamento, o general espanhol atira um bando, concedendo a fazenda dos que se retiram àqueles que permanecessem. E – oh, a assombrosa lição! –, o povo da vila que, se ficara, fora na impossibilidade penosa de se transferir, abandonava logo em massa, sem mais demoras, ofendido na honradez dos seus sentimentos pelo pregão tentador do inimigo, que assim lhe pretendia mercadejar a fidelidade.
A agnação apertada das pequenas pátrias solidariza-se numa grande alma comum. O céu batalhava por nós – em Elvas vira-se Santo António na linha mais arriscada do fogo. Se Deus o quer!, murmurava Filipe, vencido, ao conhecer da derrota de Carracena em Montes Claros. E ao final, sobre o termo de pazes, os concelhos que por si, pelo fôlego entranhado, do Luso inassimilável, tinham sido a lareira nunca exausta da flama libertadora, reunidos agora em Cortes, pela boca rude dos procuradores pronunciariam em 1668 a sentença definitiva – o epitáfio inolvidável de uma repelida fusão. Bem vigorosamente se afirmaria nessa assembleia solene, vibrando na lembrança de uma luta sobre-humana por serem de séculos imemoriais tão opostos os ânimos, e tão diversos os intuitos de uma e outra nação, que era impossível unirem-se em tempo algum sem total ruína da nação portuguesa.
Ora a intervenção do espírito municipal nas crises máximas da Nacionalidade, tão soberanamente asseverado ao longo dos torcegões que nos acidentaram a marcha, produzia-se com o mesmo calor, com a mesma certeza de vitória, à face das tropelias de Junot – diante das hostes endemoninhadas do Corso, adversário do Altar e do Ceptro, de pacto feito com o Diabo para a destruição da ordem cristã. Ao apelo travejado do púlpito, amotinavam-se aldeias, Portugal não passava de uma leva enorme, aglutinando-se, afivelando-se para esmagar os franceses. O iluminismo da Raça, manando em cordas líricas do subconsciente colectivo, aquecia a estagnada indiferença de mais de cem anos sáfaros, de estiagem áspera para as profundas emoções criadoras. E se a existência não é senão um persistente afinco mantenedor das condições específicas que a geraram, mais uma vez há que reconhecer no localismo inato da Nacionalidade o seu inviolável meio vital. De facto, são as vilas que escorçam a resistência, constituindo juntas que hão-de tornar-se os mais prestantes pontos de apoio do exército em operações. Ganhou renome a junta de Campo Maior, que foi o centro da insurreição alto-alentejana. De maneira que ao concelho, como em 1384, com em 1640, a custódia do território se confiava, o remoto sedentarismo, descortinado em Mugem, pelo arreigamento do homem ao torrão natalício, desenvolvera-se pelas idades fora como a garantia indefectível desta pátria de lavradores.
Expulso o invasor, a militança briosa que o varrera até Toulouse enreda-se em maioria no trama crescente das Lojas e, quando de regresso ao país redimido, podia efectivar o perseguimento da renovação sentida que se suspendera com a guerra, volve-se num agente prestigioso da insídia maçónica, torna-se portadora das importações liberalengas, dos filosismos enfáticos da doença romântica. As palavras nefastas entram a perverter as realidades – a ausência excessiva do Rei e a intromissão incontinente de Beresford nas coisas da governança manobram-se como armas de propaganda eficaz. O «Coração-sensível» declama de mistura com os solilóquios patéticos do Ermo os subjectivismos simplistas do Contrato. E os casacos de briche promovem a revolução de 24 de Agosto em terreno já habilidosamente preparado pela infiltração vagarosa dos tais «papéis» que os esbirros do Senhor Intendente farejavam por Lisboa inteira.
Há a distinguir nesse acto de 20 o impulso que nos desembaraça do protectorado britânico e a ruidosa eclosão das mal digeridas leituras de quantos ideólogos de ruimpeste transpunham as fronteiras com endereço às cabecinhas fáceis do tempo. O que a experiência altanada da primeira Constituinte representou para o País, meio possuído ainda da fibra heróica da guerra-santa, traduz-se rapidamente na revolta imediata que sanciona por toda a parte a Vilafrancada. Não é esta um movimento contra-revolucionário de uma camarilha em desgraça. É a vontade iniludível de um povo que se afirma cansado já de tanta oratória caduca, desgravitado por tanto reformismo de encomenda, muito cheio de si para se deixar ir na cantiga opiada das sereias...
Não me esquece nunca o Auto de restituição do poder monárquico independente a el-rei D. João VI, que eu descobri no arquivo de uma municipalidade sertaneja. Ponto perdido no mapa, com justiças pela Ordenação e vereadores de letras-grossas, o intuitivismo da boa temperatura social descobre-se com um tamanho recorte no singelo documento, que a mim não me passa jamais a impressão provocada pelo adjectivo formidável com que a par de incontáveis erros de ortografia e de pitorescos desmaios de sintaxe, o escriba obscuro do concelho alude oficialmente à constituição. Chama-lhe desorganizadora, não pela destrinça crítica que o emprego de um semelhante vocábulo abonaria, mas por virtude daquele íntimo e seguro juízo que nas voltas miúdas da vida avalia das pessoas que afligem os outros pelo reboliço que lhes vai de portas adentro.
É a sensibilidade de vila-e-termo a afiançar-se mais uma vez como célula fundamental da Nacionalidade – o labor autónomo das modestas pátrias locais, dando pela soma global das suas energias em exercício a suficiência fisiológica do agregado em que se interpenetram e conjugam. A perturbação do organismo coincide aí com a perturbação de cada uma dessas minúsculas actividades, de cuja química inalterável se tece a saúde do grande dado social. Não é como nas composições despoticamente centralizadas, em que a congestão oprime os cimos e a atonia envilece as extremidades. Eis porque nos regimes de largo desafogo administrativo a noção do bem comum, resultando do equilíbrio próspero dos diversos interesses regionais e profissionais, se concretiza num sentido embrionário do que seja em si a justa equação dos negócios públicos. Como um cérebro, a Realeza encarrega-se de lhe encarnar em forma palpável o rude instinto de Pátria que assim se manifesta. Já não acontece o mesmo em sistemas de estadismo apertado. O livre-jogo das diferentes mancomunidades populacionais constrangido sempre no desenvolvimento natural das suas inclinações, curvando-se a uma tutela impiedosa em que os poderes supremos se arrogam direitos que lhes não pertencem, descai depressa no embotamento e na atrofia. Dissipa-se o senso coesivo de um destino único, não se é mais que um pau-mandado pelos beleguins das facções em domínio. Por isso a Liberdade das maiúsculas pomposas, dos extâses retóricos, é inimiga nata das franquias locais e da metodização do trabalho – como Saturno devora os filhos, enquanto os filhos a não destronem e arremessem para o exílio, para um exílio bem distante e bem acautelado, aonde não faça mal nem dano, nem haja ramo de figueira nem alminha cristã, como na rogação contra as trovoadas.
IV
Já se compreende por que é que o País se reconheceu unanimemente e com alvoroço no golpe de 1823. O desvario ideológico dos vintistas molestara-lhe a sério os hábitos hereditários – em nenhuma conta se ponderara a conformação histórica de um povo a quem os apuros dolorosos da luta pela independência restituira a rijeza obliterada do carácter. Dentro em breve nós íamo-nos convulsionar numa tremenda crise de paixões e ódio: Portugal, lançando-se atrás da galopada do príncipe em rebelião, emprazava para um embate próximo as utopias avassaladoras do valdevinos de Genebra. Seria o duelo tremendo de sete séculos de tradição bem individualizada, valendo como um determinismo inalienável, com a generosidade quimérica de uma imaginação em hipertrofia, que, no séquito de frases arrebatantes de que se acompanhava, trazia consigo um hálito mortífero de dizimação e bastardamento.
O Rei, entrementes, devolvera-se do Brasil ao seu querido «canapé da Europa», cuja visão amorável lhe liquefazia em emoções de saudade a forçada ausência por entre paisagens exóticas e gentes confusas. Corre-lhe difamada por um espesso borrão de baixas graçolas a figura indecisa, mas estranhamente angustiosa. Pobre monarca! Repartido pelas desgraças domésticas e pelos terrores políticos, com mãe varrida a oprimi-lo no espectáculo triste da mais amarfanhante das demências, com a ameaça contínua dos clubes secretos a alongar-se-lhe por sobre a cabeça como uma sombra má, ele é um símbolo que se deve respeitar na fatalidade insatisfeita que não lhe consente um minuto de paz. Ele é o símbolo da época que expira, cheia de espanto, trémula de interrogações, com todas as firmezas abaladas, estrugindo-lhe em roda um como que desabar de Dia-de-Juízo, de catástrofe universal. Colocado no conflito de dois ciclos que se chocam impetuosamente – um, irrompendo em dramas imprevistos, com testas coroadas pendentes do cadafalso e bispos apóstatas cuspindo nos cibórios; o outro, desmoronando-se num pânico de velhice que nem já sabe gritar por socorro, o que é que se queria em D. João VI senão o reflexo contraditório de uma era de transições – senão a criatura espavorida por tanto sobressalto, por tanta inquietação, abatendo-se por cima da sua pachorra de burguês timorato como uma poeirada de ruína e morte? O Rei chorava por vezes, a sós com o seu criado de quarto, sem que os lábios se lhe descerrassem num desabafo explicativo. Um receio trágico lhe minava a combalida existência, talvez o receio do veneno, que o veio a prostrar, ao que parece, depois daquela merenda que se fora comer a Belém. No entanto, ele é a encolhida voz do bom-senso, soando a custo na leviandade estridente que o circunda. Momentos hão-de chegar em que a diligência e a honradez que de alma e coração ele empregou para suster a carreira desaustinada em que o País se adiantava para o abismo – momentos hão-de chegar em que, posta no destaque merecido pela história que se escreve sem prevenções nem caprichos, emoldurarão em magoadas linhas de verdade essa caricatura sectária com que se costuma deprimir o mais desditoso dos Braganças. A reabilitação já principiou – e principiou pelo Brasil. Oliveira Lima, o ilustre diplomata que acaba de trocar os brilhos da sua situação superior por uma desassombrada profissão de fé monárquica, levanta em dois volumes a injúria caluniosa, ressuscitando da longa intriga de quase um século os impulsos magnânimos do rei ridicularizado – a prudência e o tino com que curava dos encargos árduos do seu ofício espinhosíssimo. A nós nos cabe o resgate completo. E ganhar opinião acerca do período mais enegrecido da nossa vida de povo é instruir, como se torna urgente, o longo processo da mentira constitucionalista, para que o sofisma não volte a desviar os espíritos da regenerescência em que nos vamos soerguendo – para que nunca mais as tendências da Raça se desviem e percam nas generalizações algébricas dos parlamentos e dos partidos!
Quer um longo descrédito estabelecer que a Vilafrancada, com o movimento que origina até 1828, é a regressão mais grosseira e mais odiosa ao puro absolutismo do quero, posso e mando – como se semelhante absolutismo não o representasse unicamente a pessoa do Marquês, com o poder pleno, certo e absoluto de que se autorizam sempre as medidas josefinas. Pombal, em quem a desconjuntada mentalidade que nos tutela reverencia o doutor supremo da soberania popular, foi entre nós o precursor do Estado Moderno – centralista e abusivo – disfarçando-se então na omnipotência dos reis, cobrindo-se agora de manto de seda com o anonimato das clientelas. Um dos motivos – saibam quantos o louvaminham em círios de entrudada laica –, um dos motivos porque expulsou os jesuítas está precisamente em serem os padres da Companhia os teóricos da doutrina do pacto primitivo entre os povos e os seus dinastas – em rejuvenescerem os princípios da sociologia tomista sobre os excessos do tirano e os direitos dos súbditos.
Pois os jesuítas rodaram para a rua por propagadores de máximas subversivas e, não contente com isso, o Marquês mandou declarar apócrifo o tratado do civilista Vaz de Gouveia, de que se inspirara o auto das Cortes de 1641 e no qual se consagrava o interesse da Nação como base primacial da soberania do Monarca.
[1] Discours pour les Églises, por Maurice Barrès, da Academia francesa e deputado de Paris.
[2] Eugéne Figuiére, éditeur, Paris, 1913.
[3] La Dépendance de la Morale et l’indépendance des Moeurs, Paris, Mercure de France, 1907.
[4] Les jeunes gens d’aujourd’hui, Paris, Librairie Plon, 1913.
[5] Lord Cromer, L’impérialisme ancien et moderne, trad. francesa, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1910.
[6] Introdução ao livro de A.T. Mahan, traduzido para francês: Le salut de la race blanche et l’empire des mers, Paris, Flammarion.
[7] La Révolution dreyfusienne, Paris, Marcel Rivière, 1911.
[8] Os Povos e os Reis, Lisboa, 1825, pp. 62-67.
[9] O Desengano, periódico político e moral, Lisboa, 1830.
[10] Autos de abertura e preposição nas Cortes de Lisboa em 23 de Junho de 1828, Lisboa, Impressão Régia, 1828, pp. 26-27.
[11] O Desengano, n.º 2.
[12] Episódio ocorrido com o dr. Luís Manuel de Évora Macedo, avô materno do falecido poeta senhor Conde de Monsaraz.
[13] A. Babeau, La Province sous l’ancien régime, Paris, Librairie Didier.
[14] Le siége de Paris, Collection Nelson.
[15] Conhecem-se as já agora correntias declarações do senhor dr. José de Arruela. Está a Monarquia servida enquanto o pedantocratismo lhe imprimir directrizes!
[16] É seu autor um antigo Deputado às cortes da Monarquia que não tem coragem de dizer quem diabo seja.
[17] «Dans dix ans d’ici, la franc-maçonnerie aura emporté le morceau, et personne ne bougera plus en France en dehors de nous.» André Godard, Le tocsin national, Librairie Académique.
[18] La Franc-maçonnerie en Portugal. Revue anti-maçonnique, números de Novembro de 1910 a Maio de 1911. Há a acrescentar as revelações do intemerato jornal A Nação.
[19] Paul Bernard, Les instructions secrètes des jésuites, Paris, Bloud.
[20] André Godard, Le tocsin national.
[21] L’Europe Préhistorique, Paris, Lamarre.
(*) Nota desta edição: No Parlamento da Noruega, foi defendida a monarquia como uma força unificadora ("En samlende kraft"), tendo o primeiro-ministro Michelsen argumentado: "A questão não é se somos republicanos ou monárquicos em teoria, mas sim o que a Noruega precisa para se manter unida e segura frente ao mundo neste momento crítico."
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