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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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A Voz do profeta

Hipólito Raposo
Neste seu primeiro artigo na revista Nação Portuguesa, em Abril de 1914, Hipólito Raposo aborda a utilização do nome de Alexandre Herculano para suportar diferentes ideologias políticas ao longo do tempo, em especial após se ter verificado a falência da Monarquia da Carta Constitucional. Herculano foi um crítico da representação através de partidos político-ideológicos, da "Democracia" - como se dizia na época -,  afirmando que esse tipo de regime repugna às nações ocidentais da Europa, educadas pelo catolicismo e por uma tradição monárquica representativa. Herculano defendeu que, para uma regeneração de Portugal, era essencial a restauração das suas instituições municipais e o chamado "voto de campanário". Hipólito Raposo sublinha aqui a importância de seguir os conselhos de Herculano na busca de soluções para a crise política nacional, destacando:  um forte poder central - que, na sua perspectiva, apenas o Rei podia exercer - , o reconhecimento da diferenciação regional e o restabelecimento dos foros concelhios. - J. M. Q.

"O estudo do município, nas origens dele, nas suas modificações, na sua significação como elemento político, deve ter para a geração atual subido valor histórico, e muito mais o terá algum dia, quando a experiência tiver demonstrado a necessidade de restaurar esse esquecido, mas indispensável elemento de toda a boa organização social." 
 
Herculano indicou-nos o caminho e é tempo de seguir-lhe os conselhos.

​-
​Hipólito Raposo

O nome de Alexandre Herculano tem servido há quase meio século, às mais repulsivas especulações.
 
Desde que a falência do Constitucionalismo entrou de revelar-se, pode dizer-se que a chamada propaganda intelectual da Democracia não deixou de invocar a autoridade do Historiador para fundamentar aspirações e fulminar a inconsciência dos políticos, após a vitória de 34.
​
Se através da sua obra algum mais curioso não lograva descobrir afirmações democráticas que fizessem dele um percursor, não faltou quem não dissesse que Herculano, se fosse vivo, estaria com eles...
 
E como o autor da História de Portugal já desfeito em pó no cemitério de Azoia ou no sarcófago de Belém, não poderia vingar-se dos especuladores, a afirmação passou à categoria de verdade corrente, como todas as tolices que se põem a circular pelo primeiro audacioso de má-fé.
 
Neste alvorecer ou neste crepúsculo do presente em que é dever de honra dar balanço a todos os valores para solução da crise política nacional, nada mais oportuno do que chamar a depor Alexandre Herculano.
 
Para os que o estudaram e para os que com ele tem explorado sem o ler, o seu nome vale uma consagração.
 
As suas deduções estão ainda de pé na estrutura geral, e querer compreender a nacionalidade portuguesa nos seus elementos orgânicos, equivale a um ato de fé na sua obra.
 
O primeiro capítulo da sua História escreveu-o a geração seguinte — Alberto Sampaio e Martins Sarmento, mas certo é que Herculano não poderia com probidade remontar além do século XII. Faltavam-lhe subsídios que só posteriormente se adquiriram e que ainda agora se estão reunindo com esforço.
 
Os motivos da sua convicção sobre a índole das raças povoadoras do nosso território, sobre a natureza e funcionamento das instituições sociais da Espanha, sobre as relações do individuo social com a diferenciação regional, todos os elementos de ordem jurídica, religiosa ou política que informaram a vida dos primeiros séculos da Monarquia - ficaram escrupulosamente documentados nas tábuas de bronze em que a História de Portugal foi escrita.
 
Agora que algumas consciências honestas procuram salvar a nobreza do seu espírito, em nome da verdade histórica, tão ultrajada nos comícios da praça e nos compêndios das escolas, o testemunho de Herculano tem especial interesse.
 
Ele demonstrará por nós àqueles filisteus liberalistas que a nossa atitude, definida entre a cegueira coletiva da hora presente, tem outra justificação que a da pose intelectual ante a liquidação do princípio parlamentar.
 
Não tivéssemos para escudar-nos os maiores cultores da ciência política contemporânea, os factos de assombrosa eloquência desde a queda do regime absoluto em Portugal, as lições da história e da tradição a confirmar e a justificar a nossa aspiração - bastariam os juízos de Alexandre Herculano para nos advertir do perigo e da mentira democrática.
 
A desconfiança na redenção pelos princípios de 89 com que se tem embalado a credulidade popular nas nações latinas da Europa, tem entrado em Portugal por algumas brochuras francesas, de há poucos anos ainda.
 
Para Herculano que escrevia há mais de meio século, o princípio democrático-republicano não teve sequer o valor teórico, abstrato, de que a propaganda se prevaleceu para o acreditar na lógica simplista do povo.
 
Assim formulou ele a condenação do dogma da igualdade que alguns republicanos já não querem reconhecer atualmente:
 
«As ideias democrático-republicanas tendem, pela sua índole, a apoucar o indivíduo e a engrandecer a sociedade, se é que eu as compreendo.
É por isto que, nas trevas do seu pensar, a democracia estende constantemente os braços para o fantasma irrealizável da igualdade social entre os homens, blasfemando da natureza que, impassível, os vai eternamente gerando física e intelectualmente desiguais.»
 
Sobre o valor prático, efetivo, dos mesmos princípios, tendo em que deve dar-se importância predominante, quando não exclusiva, aos resultados da experiência nos domínios da Política — que pensava Alexandre Herculano?
 
Ele o diz com iniludível clareza:
 
«Além disso, morro sem acreditar que as instituições democrático-republicanas convenham à velha Europa, sobretudo a estas sociedades meio-romanas, meio-germânicas na índole, celto-romanas na raça estanciam ao ocidente. Digo mais: duvido de que convenham à América a meridional, à América da gente latina.» (Alexandre Herculano, Cartas, vol. I, Carta a Oliveira Martins, pp. 208-210.)
………………………………..
«São justamente considerações desta ordem que vêm justificar a minha persuasão de que, independente do seu mérito, ou demérito absoluto, a democracia repugna às nações ocidentais da Europa educadas pelo catolicismo que, na pureza da sua índole, é o tipo da monarquia representativa. Seria preciso ignorar a imensa influência que as religiões têm no desenvolvimento intelectual e moral das grandes famílias humanas, na formação lenta da sua índole particular, para não perceber quão difícil é dar um caracter, não só novo, mas até oposto, ao seu organismo social e político.» (Idem, ibidem, p. 212)
 
As palavras que ficam transcritas, reveladoras de uma convicção profunda, não deixam dúvidas a ninguém: Herculano condena os princípios democráticos, nas razões que mais determinaram a sua generalização, e afirma que a democracia repugna às nações ocidentais da Europa.

Nada mais claro e terminante.
 
Acerca dos municípios, cuja história ele começou logicamente na dominação Romana, mas cuja existência remonta mais alto e se filia talvez no instinto político dos primitivos povos peninsulares, a opinião de Alexandre Herculano é a resposta de um oráculo.
 
Nós bem sabemos, quando aqui reclamamos a restituição da autonomia aos concelhos, que esta expressão não pode ter um valor histórico rigoroso.
 
Cumpre ter em vista, na restauração dos foros locais, as causas que levaram os municípios à decadência: não se trata de uma reposição que seria absurda, ao fim de quinhentos anos passados; convém fazer uma liquidação, por assim dizer, dos elementos e condições em que a vida municipal decorreu e aproveitar os valores, em harmonia com a ilustração do século.
 
Os foros modernos não poderiam, por exemplo, ofender a universalidade da jurisdição civil e criminal dos tribunais que as relações sociais, mais rápidas e intensas, necessariamente impuseram.
 
A diferenciação de concelho para concelho assentaria, além da diversidade de índole económica, nas posturas, tributação, costumes tradicionais locais e outros caracteres próprios.
 
Na sua visão do nosso destino, assim era o pensamento de Herculano:
 
«Causas diversas prepararam, durante os seculos XIV e XV, o estabelecimento das monarquias absolutas, que impediram o desenvolvimento lógico daquelas instituições (municípios) na verdade barbaras e incompletas, mas que, apesar da sua imperfeição e rudeza, continham os elementos do equilíbrio entre a desigualdade e a liberdade.
Longe de negar ou condenar com cólera infantil as diferenças de inteligência, de forca material e de riqueza entre os homens ou de tentar inutilmente destruí-las, a democracia da idade media, representante do princípio de liberdade, confessava-as, aceitava-as plenamente, aceitava-as até em demasia; mas, por isso mesmo, mostrava instintos admiráveis em organizar-se e premunir-se contra as tendências antiliberais dessas superioridades. Foram semelhantes instintos que produziram os concelhos ou comunas; esses refúgios dos foros a essas fortes associações de homem trabalho contra os poderosos, contra a manifestação violenta e absoluta do princípio da desigualdade, contra a anulação da liberdade das maiorias.
Em nosso entender, a historia dos concelhos é em Portugal, bem como no resto da Espanha, um estudo importante, uma lição altamente profícua para o futuro; porque estamos a intimamente persuadidos de que, depois de longo combate e de dolorosas experiências políticas, a Europa há de chegar a reconhecer que o único meio de destruir as dificuldades de situação que a afligem, de remover a opressão do capital sobre o trabalho, questão suprema a que todos a as outras nos parecem atualmente subordinadas, é o restaurar, em harmonia com a ilustração do século, as instituições municipais, aperfeiçoadas sim, mas acordes na sua índole, nos seus elementos com as da Idade Média. Sem elas, o predomínio do despotismo unitário, do patriciado do capital e da força inteligente, que sob o manto da monarquia mista, ou da democracia exclusiva e odienta, expressão absoluta do sentimento exagerado de liberdade, que ameaça devorar momentaneamente tudo, não são a nossos olhos senão formulas diversas de tirania, mais ou menos toleráveis, mais ou menos duradouras, mas incapazes de conciliar definitivamente as legitimas aspirações da liberdade e dignidade do homem em geral com a e superioridade indubitável e indestrutível daqueles que, pela riqueza, pela atividade, pela inteligência, pela força, enfim, são os representantes da lei perpetua da desigualdade social.» (História de Portugal, vol. III, pp. 226-227). 

No pensamento de Herculano, a questão social, cada vez mais agravada pela indisciplina das democracias, encontrava solução dentro do conceito amplo do municipalismo. Se bem que as reivindicações do operariado tenham assumido formas e aspetos que Alexandre Herculano não podia prever, a sistematização profissional que nós defendemos, integra-se na atividade económica do concelho ou, em mais ampla tendência, na circunscrição territorial da província. O sindicalismo agrário, fabril ou corporativo, sucedâneo lógico dos antigos mesteres da Idade-Média, as comissões de patronato, a assistência social, a beneficência das Misericórdias que o Constitucionalismo converteu em focos políticos, são elementos cujo dinamismo pode ser contido e disciplinado por normas de interesses locais ou regionais.
 
Aos que receiam pela nossa temeridade e que, ignorantes ou hipócritas, vão rejeitar as bases em que a nossa construção assenta com fundamento de que nenhum país a perfilhou - respondemos que em nenhum outro a instituição do município foi mais radicada do que na Espanha e que cada país deve procurar no seu passado os dados do seu problema.
 
Se o Constitucionalismo faliu tristemente e as tendências da República, na doutrina e nos factos, não fizeram senão agravar uma velha doença - que nos resta senão repudiar todas as importações de sistemas e ideias que contrariem a nossa índole ou favoreçam os nossos defeitos?
 
Se no passado alguma vez se manteve o equilíbrio entre o poder central e as organizações locais; se a equação dos interesses não permaneceu, procuremos as causas perturbadoras para lhes atribuir a anarquia e o tumulto que nos lançaram na presente crise.
 
Em poucas palavras pode enunciar-se a tendência do nosso intuito doutrinário: defesa da ditadura do poder central, reconhecimento da diferenciação regionalista e foros concelhios.
 
A Democracia, sob pena de se falsear, é a negação destes três elementos conjugados em que só é soberana a parte do povo que trabalha e chegou a adquirir a consciência do interesse da sua classe ou localidade.

Os condutores do povo sem profissão conhecida, os políticos de ofício, os aventureiros estariam na verdade deslocados e eram necessariamente repelidos por uma rigorosa eliminação.
 
O município e o poder pessoal de um Monarca - Caesar confueros, na conhecida expressão de um intelectual da monarquia francesa - são os elementos extremos de uma fórmula tradicional e progressiva. O valor de cada um deles e os dados subsidiários por que a fórmula se justifica e esclarece, serão deduzidos na doutrinação desta Revista [Nação Portuguesa - Revista de filosofia política], que a outro fim ela não vem a público.
 
E para terminar, peço ainda a Herculano algumas palavras que, se algum dia foram uma expansão de vidente, ja adquiriram hoje o valor de um lema de manifesta atualidade:
 
«Restaurada pelos instintos de liberdade e pelas conveniências da organização política, posto que alterada no meio das fases por que a Espanha passou, esta instituição, que, para nos servirmos da frase de um escritor moderno, parece ter saído diretamente das mãos de Deus, em parte nenhuma, talvez, durante a idade media, teve mais influencia no progresso da sociedade, foi mais enérgica e vivaz do que em Portugal.
Grandes destinos lhe estão porventura reservados no porvir: ao menos é dela que esperamos a regeneração do nosso país, quando de todo se rasgar o véu, já tão raro, das ilusões deste século. O estudo do município, nas origens dele, nas suas modificações, na sua significação como elemento político, deve ter para a geração atual subido valor histórico, e muito mais o terá algum dia, quando a experiência tiver demonstrado a necessidade de restaurar esse esquecido, mas indispensável elemento de toda a boa organização social.» (História de Portugal, vol. IV, p. 3-4)
 
Herculano indicou-nos o caminho e é tempo de seguir-lhe os conselhos.
 
Abril de 1914.
 
Hipólito Raposo.


[negritos acrescentados]

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Hipólito Raposo, 1885-1953
"A voz do profeta", Nação Portuguesa, nº 2, Maio de 1914, pp. 33-37.
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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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