CARTA DE UM VELHO A UM NOVO
Ramalho Ortigão
Meu jovem Camarada e Amigo
Pede-me V. um artigo para o seu jornal A Restauração. Esse pedido eu o agradeço e me apresso a satisfazê-lo porque o considero um testemunho de solidariedade e de simpatia prestado pela sua valorosa e combativa geração, que é a geração dos meus netos, à encanecida e aposentada geração a que eu pertenço.
A orientação mental da mocidade contemporânea comparada à orientação dos rapazes do meu tempo estabelece entre as nossas respetivas cerebrações uma diferença de nível que desloca o eixo do respeito da sociedade em que vivemos, obrigando a «elite» dos velhos a inclinar-se rendidamente à «elite» dos novos.
Em face da batalha de sentimentos e de ideias no conflito português dos nossos dias entendo que à ala dos veteranos cabe o dever marcial de apresentar as suas antigas armas a essa nova ala de namorados, que se não batem já pelo perecível prestígio da sua dama, mas pela beleza imortal da sua convicção, e batem-se não em combate fortuito, de torneio de gala, mas em pugnas regulares e sucessivas em que quotidianamente arriscam os seus interesses, a sua liberdade e a sua vida os redatores dos modernos jornais monárquicos e os de publicações periódicas de tão considerável importância filosófica e educativa como a Lusitânia, a Nação Portuguesa, Aqui d'El-Rei, os Cadernos de Mariotte, a Alma Portuguesa, a Crónica Política, a Entrevista, etc..
A incontestável superioridade dessa plêiade estudiosa consiste em ter admiravelmente pressentido a necessidade culminante da reeducação integral do povo português.
Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje o que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica, o que retalhou e fracionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objetivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles!».
Quanto é comovente e elucidativo comparar as nossas modernas instituições com o quadro da evolução da Terceira República Francesa ainda há pouco delineado por Paul Bourget, o eminente pensador de quem disse Anatole France: «Ele é o mais filósofo de todos nós».
«Como não cotejar - escrevia muito recentemente Bourget — o programa da Terceira República, idealizado por tantos patriotas sinceros, com o quadro da nossa presente decadência! Um Parlamento tão impotente como desonrado; costumes públicos dia a dia mais degradados; a perseguição religiosa alternativamente a mais brutal e hipócrita; um corpo de mestres envenenando as gerações novas, essa reserva viva do futuro, por meio de um ensino de demissão coletiva e de nefasta utopia; o exército sistematicamente corrompido pela política, humilhado em trabalhos de baixa polícia, enfraquecido pelo sobrelanço eleitoral, a ponto de que os chefes mais respeitados desapareceram para não serem cúmplices de um atentado contínuo contra a defesa nacional; a guerra social incessantemente prestes a rebentar em episódios sangrentos; a anarquia moral precedendo e anunciando a anarquia civil e administrativa, cujos pródromos são sensíveis por toda a parte... Enfim, para que prolongar este paralelo entre a República tal ela funciona, como não poderia deixar de funcionar, e a República tal como a sonharam os melhores dos nossos antepassados?».
Em Portugal somos hoje um povo medonhamente deseducado pela inepta pedagogia que nos intoxica desde o princípio do século XIX até aos nossos dias.
O Marquês de Pombal teve a previsão desta crise quando, por ocasião da expulsão dos jesuítas, ele procurou explicar que o aniquilamento da Companhia de Jesus não decapitaria a educação nacional, porque os eruditos padres da Congregação do Oratório substituiriam como educadores os jesuítas expulsos.
Com a influência intelectual dos oratorianos, introdutores do espírito criticante de Port Royal na renovação da mentalidade portuguesa, condisse realmente o advento de um dos mais brilhantes períodos da nossa erudição.
Vieram, porém, mais tarde os revolucionários liberais de 34, os quais condenaram, espoliaram e baniram os padres da Congregação do Oratório, como Pombal espoliara e banira os padres da Companhia de Jesus.
A obra liberal de 1834 - convém nunca a perder de vista - foi inteiramente semelhante à obra republicana de 1910. Nos homens dessas duas invasões é idêntico o espírito de violência, de anarquismo e de extorsão. Dá-se, todavia, entre uns e outros uma considerável diferença de capacidade.
Os de 34, de que faziam parte Herculano, Garrett e Castilho, eram espíritos oriundos da Academia da História, da Livraria das Necessidades e do Colégio de S. Roque.
Tinham tido por mestres ou por companheiros de estudo, homens tais como António Caetano de Sousa, o autor da História Genealógica; Barbosa Machado, o autor da Biblioteca Lusitana; Bluteau e os colaboradores do seu Vocabulário; Santa Rosa de Viterbo, o autor do Elucidário; João Pedro Ribeiro, o admirável erudito iniciador dos altos estudos da nossa história e precursor de Herculano; António Caetano do Amaral, o infatigável investigador da História da Lusitânia; D. Frei Caetano Brandão, seguramente o mais elevado espírito e a mais formosa alma que deitou o século XVIII em Portugal; o padre Cenáculo, o mais prodigioso semeador de bibliotecas; Luís António Verney, o autor do famoso Método de estudar; Félix de Avelar Brotero, o insigne naturalista; o polígrafo abade Correia da Serra; e outros que não menciono porque teria de reproduzir um copioso catálogo se quisesse dar mais completa ideia do que foi a cultura portuguesa nessa fase da nossa evolução literária.
Os novos revolucionários de 1910, com exceção honrosa dos que não sabem ler, não tiveram por decuriões senão os seus predecessores revolucionários liberais de 34. E daí para trás
- o que quer dizer daí para cima — nunca abriram um livro com medo da infeção clerical, porque todos eles acreditam com fetichístico ardor que o ‹clericalismo é o inimigo», segundo a fórmula célebre com que o príncipe de Bismarck conseguiu sugestionar Gambetta para irremediável desmembração moral da França.
Tal a razão por que os raros homens de letras que a nossa República conseguiu mobilizar dia-a-dia se desagregam da hoste refugiando-se no anacoretismo filosófico, enojados da crassa ignorância dos sarrafaçais a que o regime os emparelhou. Como Nietzsche perante a grosseira petulância da Alemanha depois da hegemonia que lhe conferiu a vitória de 1870, os desiludidos da República Portuguesa apetecem, como requeria Nietzsche, que se criem novos eremitérios onde os homens que pensam se enclausurem e se separem para todo o sempre dos homens que governam.
Atolados há mais de um século no mais funesto dos ilogismos políticos, esquecemo-nos de que a unidade nacional, a harmonia, a paz, a felicidade e a força de um povo não têm por base senão o rigoroso e exato cumprimento coletivo dos deveres do cidadão perante a inviolabilidade sagrada da família, que é a célula da sociedade; perante o culto da religião, que é a alma ancestral da comunidade; e perante o culto da bandeira, que é o símbolo da honra e da integridade da pátria. Em pleno século XX, muito depois de inteiramente refutada pela moderna crítica histórica a supersticiosa lenda da Revolução Francesa, revolucionamo-nos nós para o fim de abolir todos esses velhos deveres e de adotar como um evangelho novo a estafada, ensanguentada e enlameada «declaração dos direitos do homem», como se à frágil e efémera criatura humana fosse lícito invocar qualquer espécie de direitos perante as leis inexoráveis e eternas que implacavelmente regem toda a ordem universal! E para o fim de pormos em plena evidência essa ilusão retórica aclamamos uma sexta República Nova, dezenas de anos depois de sucessivamente abolidas as outras cinco, a cuja existência deu origem o extinto prestígio da Revolução e das quais nem sequer já sobrevivem os nomes.
Quem se lembra hoje do que foram a Batávica, a Cisalpina, a Ligúrica ou a Partenopeia? Quebramos estouvadamente o fio da nossa missão histórica. Desmoralizamo-nos, enxovalhamo-nos, desaportuguesamo-nos.
Pelos processos improvisados e caóticos em que vivemos sucessivamente nos desenraizamos do torrão paterno, desandando e retrocedendo da ordem ascendente e lógica de toda a evolução social, principiando por substituir o interesse da pátria pelo interesse do partido, depois o interesse do partido pelo interesse do grupo e por fim o interesse individual de cada um. É a marcha da dissolução, marcha rapidíssima para o aniquilamento, porque é inteiramente aplicável à vida social a lei biológica de que toda a decomposição orgânica dá origem a seres parasitários cuja função é acelerar e completar a decomposição.
Escrevo estas linhas em face da mais pavorosa onda de sangue e de lágrimas que parece encapelar-se das profundidades do desconhecido para subverter o mundo. Perante um descomunal conflito de violência e de força parece-me indubitável que o desfecho da atual conflagração europeia não poderá ser senão a refutação absoluta do dogma democrático da liberdade, da igualdade e da fraternidade humana. A lição final da guerra será na humanidade assim como o é na natureza o simples triunfo do que pode mais sobre o que pode menos.
Não nos precipitemos a amaldiçoar a brutalidade de um tal destino enquanto não refletirmos no que é realmente a força e de que natureza são os tão complexos elementos integrados nesse fenómeno global.
De quantos vícios e de quantas farroncas se compõe uma fraqueza? De quantas virtudes ignoradas e recônditas se constitui uma força humana?
Bem exíguo, bem frágil, bem desacompanhado e desconhecido do mundo era o pequeno Portugal que no espaço de cem anos, entre o século XV e o século XVI, se assenhoreou no globo de um império territorial e marítimo consideravelmente superior àquele a que aspira a hegemonia germânica dos nossos dias.
À ponta da espada Portugal submeteu nada menos de trinta e três reinos, a que ditou a lei e que tornou tributários do seu soberano; dilatou o domínio português às mais vastas regiões da África, da Ásia e da América, deixando ainda aos seus missionários e aos seus portadores da civilização através do mundo o tempo e a serenidade precisa para concomitantemente escreverem doze gramáticas e dezassete dicionários de línguas orientais, além de muitas dezenas de obras diversas, por meio das quais, antes de mais ninguém, ele ensinou à Europa a geografia física e a geografia política do Oriente e da África.
Porquê? Porque pelas virtudes guerreiras dos seus navegadores e dos seus soldados, pelo saber dos seus letrados e dos seus monges, pela disciplina do seu povo, pelo exemplo dos seus reis nos campos de batalha, a Portugal coube então o privilégio desse direito que tanto nos confrange quando exercido pelos outros - o direito da força.
Defenda-nos Deus por sua misericórdia da hora do perigo nacional em que tenhamos de perguntar onde estão os descendentes e os representantes dos antigos homens de Ourique, Aljubarrota, de Ceuta e de Diu.
Bem sei que nesse transe o atual Chefe do Estado será bastante competente para desembainhar a sua espada de guerra e de justiça, abotoar a sua casaca de comparecer, e proclamar às tropas que, através da batalha, no caminho do dever e da honra, elas sigam os oito reflexos do seu mavórcio e reluzente chapéu alto.
Presumo que S. Ex.ª é tão idoso como eu. Creio, porém, que esta circunstância em nada alterará o belo gesto patriótico que confiada-mente espero do seu valor. Quando a Pátria chame às armas os seus filhos que importa a idade! Não são os mais ou menos breves dias que cada um tem para existir o que a Pátria nos requer, é simplesmente a vida, a vida do indivíduo, que é da nação que o criou, assim como a seiva da árvore é da terra em que vive.
De cabelos brancos - ruços, como diz Azurara - eram todos os chefes militares da expedição a Ceuta. No conselho que D. João I reuniu em Torres Vedras para expor o seu plano de conquista, João Gomes da Silva, notando que todas as cabeças eram brancas, exclamou: «Quanto eu, Senhor, não sei a que diga senão - ruços além!» O que equivale a dizer: ‹Avante os velhos!»
E foi com esse entusiástico grito de guerra que se levantou o conselho.
Mais tarde, quando no Porto o Infante D. Henrique recebia os contingentes da expedição, os batalhões dos besteiros com os seus anadéis, as levas dos conselhos e as mesnadas dos fidalgos, apresentou-se-lhe, à frente dos seus homens, o meu conterrâneo Aires Gonçalves de Figueiredo, que então contava noventa anos de idade, e vestia as armas de ponto em branco, lança em punho, cota resplandecente ao sol, pluma do elmo ondulante ao vento.
Notando o infante a desproporção entre o cansaço dos seus dias e o esforço do seu ânimo, Aires Gonçalves respondeu:
- Sei bem que estou mais para morrer do que para batalhar, mas fui companheiro de armas de El-Rei vosso pai e as exéquias que para mim mais desejo são as de ter acabado combatendo ao seu lado.
Assim se passavam as coisas no tempo em que havia reis e vassalos, ricos-homens, cavaleiros, peões e besteiros, prelados e monges, mosteiros e solares, estradas com cruzeiros e igrejas com santos.
Não calculo bem como em análoga contingência as coisas passariam hoje ou como passarão sob a égide de um governo aperfeiçoado, em companhia dos seus senadores, dos seus deputados, dos seus ministros, dos seus livres-pensadores, dos seus pedreiros-livres e da sua formiga branca.
E com esta incerteza me recolho ao meu buraco — «in angello cum libello». Adeus, meu amigo. Lembre-me afetuosamente a todos os seus esforçados companheiros de luta, e a todos comunique o estreito e comovido abraço que lhe envia o seu dedicado confrade.
Cascais, 7 de Setembro de 1914
RAMALHO ORTIGÃO
[ negritos acrescentados ]