"Pola Lei e pola Grei" - Divisa de D. João II adoptada pelo Integralismo Lusitano.
Raça = Grei, sinónimo de povo, sociedade, nação; Grei é um conceito jurídico que define um todo uno, idêntico na composição e no destino.
"O Valor da Raça" = "O Valor da Grei"
| antónio_sardinha_-__o_valor_da_raça_-_1915.pdf |
Da raça à Grei: leitura de uma obra de transição
Este ensaio propõe uma leitura de O Valor da Raça como obra de passagem no pensamento de António Sardinha: ainda marcada pelo vocabulário étnico herdado de Teófilo Braga, mas já orientada para uma concepção jurídica, institucional e espiritual da nacionalidade. A interpretação aqui apresentada mostra que o centro do livro não reside na raça tomada como fundamento exclusivo, mas na Grei como conceito político de matriz tomista, na aliança entre o Rei e os Municípios e na progressiva substituição do naturalismo étnico por uma teoria da nacionalidade que o próprio Sardinha projectaria refundir sob outro título.
I. Livro de circunstância, livro de fundação
O Valor da Raça é uma obra de passagem. O seu vocabulário permanece ainda preso ao nacionalismo étnico herdado de Teófilo Braga; a doutrina que nele se vai formando já não o está. Ao longo das suas páginas, o fundamento da nacionalidade desloca-se para a Grei entendida como conceito jurídico, para a aliança entre o Rei e os Municípios e para uma concepção espiritual da comunidade portuguesa. A dificuldade da obra não reside apenas no título: reside sobretudo na tensão entre a linguagem que Sardinha recebeu e a doutrina que ali começava a formular.
Foi escrito entre Setembro e Outubro de 1914 — data que o próprio volume regista no remate — e publicado no ano seguinte. Não nasceu como tratado doutrinário, mas como dissertação de concurso ao professorado universitário, num momento em que António Sardinha procurava ordenar sistematicamente as razões do Integralismo Lusitano e fazê-las comparecer, como escreve no capítulo I, «no campo sereno da ciência» (p. XXIX).
Estas duas circunstâncias explicam quase tudo quanto no livro é forte e quase tudo quanto nele é vulnerável. Obra de intenção académica, vê-se obrigada a ostentar aparato erudito e a cobrir um arco vastíssimo, da paleontologia humana à história das instituições; sendo, ao mesmo tempo, a primeira exposição sistemática da doutrina de um movimento de ideias políticas nascido apenas dezoito meses antes.
A pressa ficou gravada no próprio impresso. A errata do volume adverte que «a precipitação com que este livro foi impresso fez com que escapassem à revisão alguns erros», e o autor repetiria em privado, pela vida fora, idêntica queixa. António Sardinha tinha então vinte e sete anos.
II. O ponto de partida: Teófilo Braga e a Portugália
Antes de 1913, o jovem republicano António Sardinha entendia a nação portuguesa como realidade fundada num critério étnico, moral e social, em consonância com Teófilo Braga e com os homens da revista Portugália (1899-1908).
A tese de Teófilo, exposta em A Pátria Portuguesa. O Território e a Raça (Porto, 1894), fazia assentar a autonomia da nacionalidade em condições naturais, a que chamava factores estáticos: o território e a raça. Existiria no ocidente peninsular um «tipo nacional» — o luso —, distinto dos demais povos por uma tendência acentuada para a associação local ou municipal.
Os homens da Portugália, sob o mote «pola Grei», propunham-se estudar a nação como organismo étnico de vida própria. Não lhes interessavam «as manifestações eruditas das ciências, artes, letras e indústrias», mas aquilo a que chamavam o substractum da nacionalidade: o que nela houvesse de primitivo e original, desde as suas origens mais remotas.
Sardinha trocara correspondência com Teófilo no tempo de Coimbra e admirava-o. A dívida não se apaga com a conversão: em 1914 apresenta-o ainda, nas páginas da Nação Portuguesa, como «Mestre da Contra-Revolução»; e, no próprio Valor da Raça, declara avançar «nas passadas de Teófilo Braga» — com uma reserva a que se voltará adiante.
III. A conversão de 1913 e o problema que ela levanta
Em 1913, Sardinha anuncia aos amigos de Coimbra a sua conversão ao ideário monárquico. Em Abril de 1914 surge, no lançamento da Nação Portuguesa, entre os fundadores do Integralismo Lusitano.
O leitor de 1915 que encontrasse nos escaparates um livro intitulado O Valor da Raça podia legitimamente interrogar-se sobre o modo como o autor conciliaria a adesão recente a um ideário de natureza essencialmente institucional com os elementos de diferenciação étnica em que assentava o critério político herdado de Teófilo.
A resposta encontra-se no primeiro parágrafo do livro, e é nela que se decide o sentido de tudo quanto se segue:
«A ideia de Raça entre nós é em Frei Bernardo de Brito que aparece pela primeira vez. A concepção jurídica de um todo uno, idêntico na composição e no destino, já se definira, no entanto, com D. João II. É o conceito político de Grei que, nascido da sociologia tomista por derivação do De regimine principum, se alenta soberanamente nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular.» (p. I)
Desde a abertura, portanto, a Grei deixa de funcionar como mera designação orgânica da comunidade — no sentido em que a Portugália a mobilizara — para passar a nomear um conceito jurídico de inspiração tomista: um todo politicamente ordenado, definido pela composição e pelo destino comum.
Quem iniciar a leitura pela palavra do título, e não por esta frase inaugural, lerá o livro inteiro às avessas.
IV. A tese, tal como o autor a enunciou
A formulação mais límpida do propósito não se encontra no livro, mas numa carta a Luís de Almeida Braga:
«Na dissertação tu verás como eu utilizo os dados da pré-história e do eruditismo moderno na elaboração de uma síntese que seja o nosso ponto de apoio. A VERDADE PORTUGUESA tem um factor estático — o localismo, o município — outro dinâmico — a resistência lírica da Raça, traduzida na concepção reparadora do mito sebástico. Ora eu procuro traçar o desenvolvimento destes dois insofismáveis agentes da autêntica consciência nacional desde a nossa remota ancestralidade.»
O binómio conserva a forma do de Teófilo, mas já não o seu conteúdo. Onde Teófilo colocava, como factores estáticos, o território e a raça, Sardinha coloca o localismo e o município; e acrescenta-lhes um factor dinâmico que em Teófilo não existia: a Esperança, concretizada no mito sebástico.
O livro condensa a tese numa fórmula que a resume por inteiro:
«A Esperança é o factor dinâmico da civilização atlântica, como a Comuna é o seu invariável elemento estático.» (p. 117)
São dois termos correlativos, e separá-los é desfigurar o livro. Foi esse, como se verá, um dos procedimentos centrais da polémica de 1917.
V. A deslocação do étnico para o institucional
A tese progride numa direcção única, e é essa direcção que importa fixar.
Sardinha recua à pré-história e situa o «íntimo segredo da história portuguesa» no «dolicóide meão, de cabelos escuros e preferências sedentárias» (p. I). Das simpatias sedentárias do habitante típico de Mugem, escreve, «se extrai, em verdade, o germe do qual a Pátria Portuguesa se veio a formar» (p. IV). Poucas páginas adiante, porém, o eixo desloca-se:
«A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predilecção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria.» (p. VII)
E a nação só se dá por plenamente formada quando surge a instituição real:
«Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado. Conseguido o agente centrípeto, sem o qual tombaria depressa na mais deplorável das desagregações, o País decide-se com galhardia para a grande obra da sua coesão e do seu enrobustecimento.» (p. V)
À pergunta sobre o modo como se formou a nação, o livro responde pela aliança entre o Rei e os Municípios: «São as behetrias do norte e os "castelos-velhos" do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês» (p. II). À pergunta sobre o momento em que a nacionalidade aparece formada, responde que tal sucede em Quatrocentos, com a dinastia de Avis, «nessa admirável hora em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular».
Nenhuma das duas respostas é de natureza étnica. Ambas são institucionais.
A matriz doutrinária é expressamente declarada, e é tomista. O núcleo argumentativo do capítulo I, entre as pp. XII e XIV, passa pela teoria das «ordens» do Estado, ressuscitada da constituição política de Aristóteles e transmitida ao pensamento culto da Europa pelas máximas vulgarizadas no De regimine principum; pelo critério da «utilidade colectiva»; pelo carácter paternal da monarquia portuguesa, fixado no «Pastor não mercenário» com que os lavradores em Cortes trataram Afonso V; e pela Respublica Christiana como vínculo espiritual das nacionalidades adolescentes.
A crítica ao parlamentarismo, que encerra o capítulo, tem genealogia igualmente declarada e igualmente não étnica: Georges Sorel e, com ele, Georges Valois e Édouard Berth, com a hipótese da Realeza-Operária e do Príncipe como mestre supremo do Trabalho (p. XVII).
VI. O que ainda não fora abandonado
Uma conversão profunda não se faz de um dia para o outro, e a honestidade desta edição exige que se assinale aquilo que no livro permanece do ponto de partida.
Sardinha não abandonara ainda, em 1915, a noção de que teria existido um substractum, simultaneamente étnico e institucional, a preparar durante séculos a federação dos núcleos autonómicos de que viria a sair a unidade portuguesa. Os capítulos II a IV, dedicados ao Homo Europaeus, ao génio ocidental e à Atlântida, sustentam uma antropogeografia que o autor mais tarde reputaria excessiva. E há a formulação da p. 109, tantas vezes citada fora de contexto, em que se estabelece «como motivo único da nossa história, repito, um valor de ordem exclusivamente étnica» — afirmação que, no original, vem circunscrita às batalhas da Aclamação e ao papel dos Municípios, e que, subtraída a essa condição, muda de natureza.
O próprio autor o reconheceu. Luís Chaves testemunhou, à entrada da década de 1930, que «muitas vezes António Sardinha se me queixou» de que o livro «se ressentiu da precipitação com que foi feito» (Política, n.º 10, 10 de Janeiro de 1930, p. 38). Pelas suas anotações percebe-se que a insatisfação incidia sobretudo nos capítulos pré-históricos — «O génio ocidental» e «O espírito da Atlântida» —, que deveriam ter sido mais conjecturais do que afirmativos, e nas passagens da teoria da nacionalidade que ligavam o português ao Homo Atlanticus do baixo vale do Tejo. Do volume dirá o Conde d’Aurora que era «demasiado pesado de erudição e ainda nos alvores do seu desprendimento dos mestres burocratas e admiradores dos falsos deuses».
Invocar as simpatias sedentárias do dolicóide meão para firmar as bases do municipalismo era levar longe de mais o nacionalismo étnico de Teófilo Braga. Sardinha acabaria por o entender assim.
Em A Aliança Peninsular (Porto, 1924) e nos últimos ensaios da Nação Portuguesa, anunciou que projectava refundir o livro sob outro título: Teoria da Nacionalidade. Não chegou a fazê-lo. A mudança de título é, por si só, uma interpretação da obra.
VII. A recepção interna
A primeira reacção veio de dentro. Sob a rubrica «Bibliografia», a Nação Portuguesa de Junho de 1915, n.º 8, saudava a obra em termos que haveriam de fazer fortuna:
«A nova geração intelectual tem neste livro um idearium patriótico. O Valor da Raça não interessa só a quem se dedica a estudos históricos, mas a todo o português que o queira ser digna e conscienciosamente.»
A fórmula fixava, no interior do movimento, o valor programático atribuído ao livro. Dois anos depois, Mariotte havia de a inverter: o elogio doméstico transformou-se em peça de acusação, e O Valor da Raça em «Alcorão rácico do novo nacionalismo».
VIII. O primeiro ataque de vulto: Mariotte, 1917
O primeiro ataque de vulto partiu de um monárquico maurrasiano: o Padre Amadeu de Vasconcelos, que assinava Mariotte, em O Nacionalismo Racico do Integralismo Lusitano (Lisboa, edição do autor, 1917, 75 pp.).
Como observei em Filhos de Ramires (2004), a importância do opúsculo não reside apenas na polémica imediata, mas no futuro das imputações que ali se fixam: germanofilia política, fichtismo rácico, imitação dissimulada da Action Française e menoridade intelectual dos integralistas. Delas se alimentará, por décadas, a literatura de combate ao movimento.
Mariotte era um dos divulgadores destacados das ideias da Action Française em Portugal. Fora convidado a colaborar na primeira série da Nação Portuguesa, mas incompatibilizou-se pouco depois com os integralistas e não chegou a publicar colaboração alguma. O opúsculo reúne dois artigos datados de Paris, de 19 e 26 de Março de 1917, e um terceiro capítulo intitulado «Charlatães e traidores». A tese é dupla: O Valor da Raça seria um nacionalismo rácico mal disfarçado, na linha de Fichte, e o seu autor um germanófilo — imputação de particular gravidade quando Portugal já se encontrava em guerra com a Alemanha.
O confronto sistemático entre o opúsculo e o impresso de 1915, que acompanha esta edição, permite fixar o que ali se passa. Retêm-se aqui apenas os pontos decisivos para a leitura do livro.
A matriz tomista é omitida. Mariotte não menciona uma única vez o De regimine principum, nem a teoria das «ordens» do Estado, nem o conceito de Grei tal como o livro o define na sua primeira frase. Combate uma obra de antropologia rácica que teria de ser outra para o ser.
O papel da Instituição Real é omitido. A frase que fecha a demonstração das origens — «Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado» — não é citada nem discutida. Sem ela, o livro parece fazer derivar a nação da etnia; com ela, fá-la derivar do pacto entre a Coroa e os Concelhos.
O binómio é desfeito. Mariotte cita a Esperança como «factor dynamico da civilisação atlantica» e suprime a oração seguinte, que estabelece a Comuna como o seu invariável elemento estático. O que era esquema de dois termos passa a profissão de misticismo.
A acusação de germanofilia não se sustenta. Assenta, por um lado, na elisão da premissa teológica do passo incriminado — elisão que se demonstra pelo confronto das duas transcrições que o próprio Mariotte faz do mesmo texto, uma na folha de rosto e outra na sua p. 12. Assenta, por outro lado, na fusão indevida de Sardinha com o autor de um artigo germanófilo publicado no mesmo número da revista em que Sardinha assinara «A apologia da guerra» — autor que Mariotte declara não ser integralista, e que a indicação do próprio Mariotte permite identificar como Alfredo Pimenta. Ora, no artigo de Sardinha, a guerra é lida pela chave de Santo Agostinho e de Joseph de Maistre, como expiação e castigo, e remata-se: «louvada seja a guerra que matou a Revolução!» Não é germanofilia: é providencialismo contra-revolucionário — e o autor declara-se francófilo na própria frase que Mariotte cita.
A acusação de ocultar a influência de Maurras é improcedente. O facto em que assenta é exacto: o nome de Maurras não ocorre uma única vez no livro. A inferência, porém, não decorre. A premissa de que as páginas em causa são maurrasianas nunca chega a ser demonstrada, e a genealogia declarada por Sardinha é outra, estando expressa no texto: Sorel, Valois e Berth precisamente nas páginas que Mariotte diz maurrasianas; Comte, Le Play, Taine, Fustel de Coulanges e Le Bon no restante livro. Sardinha demarcara-se cedo da «farmacopeia gaulesa», e a recusa da filiação maurrasiana fora impressa em 1914 no órgão do movimento. Mariotte cita esse passo — para dele extrair, paradoxalmente, o motivo da dissimulação que pretende provar.
IX. Um episódio exemplar: as eterna divortia
Há no livro uma citação que esta edição não pode deixar passar em silêncio. Vale simultaneamente como advertência ao leitor e como retrato do autor.
Quatro vezes — nas pp. XIX, 51, 147 e 167 — invoca Sardinha Sílio Itálico e as eterna divortia da Púnica para provar que a diferença entre lusitanos e iberos remontaria ao primeiro século da nossa era. Não se trata de ornamento: é argumento de peso e sustenta a tese do separatismo originário. Recebera-o de Teófilo Braga e não o verificou. Anos mais tarde, ao fazê-lo, escreveu:
«Teófilo afirma algures que a diferença entre portugueses e castelhanos vinha de tão remotas origens, que já no primeiro século da nossa era o poeta Silius Italicus alude às eterna divortia que dividiam Lusitanos e Celtiberos. Nada mais sorridente, com efeito! Mas se consultarmos o poema de Silius Italicus nós damos lá, realmente, com as eterna divortia, mas é com as eterna divortia que os Pirenéus estabelecem entre Iberos e Celtas, nunca com as eterna divortia que separavam Iberos e Lusitanos.» («O velho Teófilo»)
E acrescentou, a propósito do mestre que admirara: «Teófilo é um deformador consciente de quanto lhe não aproveita ao seu sectarismo, não hesitando na deturpação de um texto ou na sua falsa interpretação, quando assim convenha ao intuito disfarçado que o encaminha.»
Três conclusões se retiram do episódio. O livro contém, repetida quatro vezes, uma citação viciada na origem. O seu autor foi vítima da deturpação, não seu agente. E foi ele próprio quem a denunciou, nos termos exactos — mutilação e truncatura de fontes, falsa interpretação, desprezo pela verdade — em que hoje se descreveria a falsificação documental.
É esse o padrão por que o livro pede para ser lido — e por que devem ser julgados aqueles que o leram.
X. O ponto de chegada
O movimento que O Valor da Raça inicia — a substituição das razões de ordem étnica por razões de ordem jurídica, institucional e, sobretudo, espiritual — não se completa em 1915, nem sequer nele começa plenamente. Faz-se entre incertezas, hesitações e insatisfações. Antes de publicar o livro, Sardinha inutilizara aquele que deveria ter sido o seu primeiro volume, O Sentido Nacional duma Existência (1913), desenterrado em 1969 por Eurico Gama.
Completa-se sete anos depois. Ao relançar a Nação Portuguesa, regressado do exílio em Espanha, o seu nacionalismo surge já liberto de qualquer resquício de fundamento naturalista:
«Uma nacionalidade é sobretudo uma alma, um valor espiritual, um génio.» («Porque voltámos», Julho de 1922)
Entre a primeira frase de 1915 — a Grei como conceito jurídico de origem tomista — e esta de 1922 corre uma linha recta. O Valor da Raça situa-se no seu começo, não no seu termo; e aquilo que nele sobrevive do nacionalismo étnico de Teófilo Braga é resíduo do ponto de partida, não substância da tese.
Ler o livro pelo título é lê-lo contra a sua própria arquitectura. Lê-lo pela primeira frase, e pelo que dele veio a dizer o autor, é lê-lo como ele é: obra de transição, precipitada, carregada de erudição, e que o próprio autor quis um dia reescrever sob outro nome.
XI. Nota sobre esta edição
O texto é reproduzido com a paginação do impresso de 1915 assinalada entre parênteses rectos.
O volume apresenta duas séries de paginação, o que explica a descrição catalográfica de XXX + 175 + [4] p. O capítulo I, A verdade portuguesa. Programa de uma geração, não é prefácio: é o primeiro capítulo, paginado em romanos, pp. I-XXX. A partir do capítulo II abre-se a numeração árabe, sendo cada capítulo precedido de duas folhas — frontispício e algarismo — que contam na paginação. Daí a distribuição: cap. II, texto nas pp. 3-28; cap. III, 31-68; cap. IV, 71-102; cap. V, 105-134; cap. VI, 137-175.
Desfazer a confusão entre o capítulo I e um prefácio tem consequências decisivas para a leitura. É nele que se estabelece a matriz tomista do conceito de Grei; é nele que se afirma o papel da Realeza na formação da nacionalidade; e é no seu fecho, na p. XXX, que surge a única menção de Fichte em todo o livro — feita a propósito de Stein e de Mommsen, como exemplo de historiadores que precederam os políticos, e rematada pela observação irónica de que, quando Fichte proclamava a superioridade universal do génio germânico, havia em Berlim um governador francês.
31 de Agosto de 2026
José Manuel Quintas
I. Livro de circunstância, livro de fundação
O Valor da Raça é uma obra de passagem. O seu vocabulário permanece ainda preso ao nacionalismo étnico herdado de Teófilo Braga; a doutrina que nele se vai formando já não o está. Ao longo das suas páginas, o fundamento da nacionalidade desloca-se para a Grei entendida como conceito jurídico, para a aliança entre o Rei e os Municípios e para uma concepção espiritual da comunidade portuguesa. A dificuldade da obra não reside apenas no título: reside sobretudo na tensão entre a linguagem que Sardinha recebeu e a doutrina que ali começava a formular.
Foi escrito entre Setembro e Outubro de 1914 — data que o próprio volume regista no remate — e publicado no ano seguinte. Não nasceu como tratado doutrinário, mas como dissertação de concurso ao professorado universitário, num momento em que António Sardinha procurava ordenar sistematicamente as razões do Integralismo Lusitano e fazê-las comparecer, como escreve no capítulo I, «no campo sereno da ciência» (p. XXIX).
Estas duas circunstâncias explicam quase tudo quanto no livro é forte e quase tudo quanto nele é vulnerável. Obra de intenção académica, vê-se obrigada a ostentar aparato erudito e a cobrir um arco vastíssimo, da paleontologia humana à história das instituições; sendo, ao mesmo tempo, a primeira exposição sistemática da doutrina de um movimento de ideias políticas nascido apenas dezoito meses antes.
A pressa ficou gravada no próprio impresso. A errata do volume adverte que «a precipitação com que este livro foi impresso fez com que escapassem à revisão alguns erros», e o autor repetiria em privado, pela vida fora, idêntica queixa. António Sardinha tinha então vinte e sete anos.
II. O ponto de partida: Teófilo Braga e a Portugália
Antes de 1913, o jovem republicano António Sardinha entendia a nação portuguesa como realidade fundada num critério étnico, moral e social, em consonância com Teófilo Braga e com os homens da revista Portugália (1899-1908).
A tese de Teófilo, exposta em A Pátria Portuguesa. O Território e a Raça (Porto, 1894), fazia assentar a autonomia da nacionalidade em condições naturais, a que chamava factores estáticos: o território e a raça. Existiria no ocidente peninsular um «tipo nacional» — o luso —, distinto dos demais povos por uma tendência acentuada para a associação local ou municipal.
Os homens da Portugália, sob o mote «pola Grei», propunham-se estudar a nação como organismo étnico de vida própria. Não lhes interessavam «as manifestações eruditas das ciências, artes, letras e indústrias», mas aquilo a que chamavam o substractum da nacionalidade: o que nela houvesse de primitivo e original, desde as suas origens mais remotas.
Sardinha trocara correspondência com Teófilo no tempo de Coimbra e admirava-o. A dívida não se apaga com a conversão: em 1914 apresenta-o ainda, nas páginas da Nação Portuguesa, como «Mestre da Contra-Revolução»; e, no próprio Valor da Raça, declara avançar «nas passadas de Teófilo Braga» — com uma reserva a que se voltará adiante.
III. A conversão de 1913 e o problema que ela levanta
Em 1913, Sardinha anuncia aos amigos de Coimbra a sua conversão ao ideário monárquico. Em Abril de 1914 surge, no lançamento da Nação Portuguesa, entre os fundadores do Integralismo Lusitano.
O leitor de 1915 que encontrasse nos escaparates um livro intitulado O Valor da Raça podia legitimamente interrogar-se sobre o modo como o autor conciliaria a adesão recente a um ideário de natureza essencialmente institucional com os elementos de diferenciação étnica em que assentava o critério político herdado de Teófilo.
A resposta encontra-se no primeiro parágrafo do livro, e é nela que se decide o sentido de tudo quanto se segue:
«A ideia de Raça entre nós é em Frei Bernardo de Brito que aparece pela primeira vez. A concepção jurídica de um todo uno, idêntico na composição e no destino, já se definira, no entanto, com D. João II. É o conceito político de Grei que, nascido da sociologia tomista por derivação do De regimine principum, se alenta soberanamente nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular.» (p. I)
Desde a abertura, portanto, a Grei deixa de funcionar como mera designação orgânica da comunidade — no sentido em que a Portugália a mobilizara — para passar a nomear um conceito jurídico de inspiração tomista: um todo politicamente ordenado, definido pela composição e pelo destino comum.
Quem iniciar a leitura pela palavra do título, e não por esta frase inaugural, lerá o livro inteiro às avessas.
IV. A tese, tal como o autor a enunciou
A formulação mais límpida do propósito não se encontra no livro, mas numa carta a Luís de Almeida Braga:
«Na dissertação tu verás como eu utilizo os dados da pré-história e do eruditismo moderno na elaboração de uma síntese que seja o nosso ponto de apoio. A VERDADE PORTUGUESA tem um factor estático — o localismo, o município — outro dinâmico — a resistência lírica da Raça, traduzida na concepção reparadora do mito sebástico. Ora eu procuro traçar o desenvolvimento destes dois insofismáveis agentes da autêntica consciência nacional desde a nossa remota ancestralidade.»
O binómio conserva a forma do de Teófilo, mas já não o seu conteúdo. Onde Teófilo colocava, como factores estáticos, o território e a raça, Sardinha coloca o localismo e o município; e acrescenta-lhes um factor dinâmico que em Teófilo não existia: a Esperança, concretizada no mito sebástico.
O livro condensa a tese numa fórmula que a resume por inteiro:
«A Esperança é o factor dinâmico da civilização atlântica, como a Comuna é o seu invariável elemento estático.» (p. 117)
São dois termos correlativos, e separá-los é desfigurar o livro. Foi esse, como se verá, um dos procedimentos centrais da polémica de 1917.
V. A deslocação do étnico para o institucional
A tese progride numa direcção única, e é essa direcção que importa fixar.
Sardinha recua à pré-história e situa o «íntimo segredo da história portuguesa» no «dolicóide meão, de cabelos escuros e preferências sedentárias» (p. I). Das simpatias sedentárias do habitante típico de Mugem, escreve, «se extrai, em verdade, o germe do qual a Pátria Portuguesa se veio a formar» (p. IV). Poucas páginas adiante, porém, o eixo desloca-se:
«A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predilecção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria.» (p. VII)
E a nação só se dá por plenamente formada quando surge a instituição real:
«Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado. Conseguido o agente centrípeto, sem o qual tombaria depressa na mais deplorável das desagregações, o País decide-se com galhardia para a grande obra da sua coesão e do seu enrobustecimento.» (p. V)
À pergunta sobre o modo como se formou a nação, o livro responde pela aliança entre o Rei e os Municípios: «São as behetrias do norte e os "castelos-velhos" do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês» (p. II). À pergunta sobre o momento em que a nacionalidade aparece formada, responde que tal sucede em Quatrocentos, com a dinastia de Avis, «nessa admirável hora em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular».
Nenhuma das duas respostas é de natureza étnica. Ambas são institucionais.
A matriz doutrinária é expressamente declarada, e é tomista. O núcleo argumentativo do capítulo I, entre as pp. XII e XIV, passa pela teoria das «ordens» do Estado, ressuscitada da constituição política de Aristóteles e transmitida ao pensamento culto da Europa pelas máximas vulgarizadas no De regimine principum; pelo critério da «utilidade colectiva»; pelo carácter paternal da monarquia portuguesa, fixado no «Pastor não mercenário» com que os lavradores em Cortes trataram Afonso V; e pela Respublica Christiana como vínculo espiritual das nacionalidades adolescentes.
A crítica ao parlamentarismo, que encerra o capítulo, tem genealogia igualmente declarada e igualmente não étnica: Georges Sorel e, com ele, Georges Valois e Édouard Berth, com a hipótese da Realeza-Operária e do Príncipe como mestre supremo do Trabalho (p. XVII).
VI. O que ainda não fora abandonado
Uma conversão profunda não se faz de um dia para o outro, e a honestidade desta edição exige que se assinale aquilo que no livro permanece do ponto de partida.
Sardinha não abandonara ainda, em 1915, a noção de que teria existido um substractum, simultaneamente étnico e institucional, a preparar durante séculos a federação dos núcleos autonómicos de que viria a sair a unidade portuguesa. Os capítulos II a IV, dedicados ao Homo Europaeus, ao génio ocidental e à Atlântida, sustentam uma antropogeografia que o autor mais tarde reputaria excessiva. E há a formulação da p. 109, tantas vezes citada fora de contexto, em que se estabelece «como motivo único da nossa história, repito, um valor de ordem exclusivamente étnica» — afirmação que, no original, vem circunscrita às batalhas da Aclamação e ao papel dos Municípios, e que, subtraída a essa condição, muda de natureza.
O próprio autor o reconheceu. Luís Chaves testemunhou, à entrada da década de 1930, que «muitas vezes António Sardinha se me queixou» de que o livro «se ressentiu da precipitação com que foi feito» (Política, n.º 10, 10 de Janeiro de 1930, p. 38). Pelas suas anotações percebe-se que a insatisfação incidia sobretudo nos capítulos pré-históricos — «O génio ocidental» e «O espírito da Atlântida» —, que deveriam ter sido mais conjecturais do que afirmativos, e nas passagens da teoria da nacionalidade que ligavam o português ao Homo Atlanticus do baixo vale do Tejo. Do volume dirá o Conde d’Aurora que era «demasiado pesado de erudição e ainda nos alvores do seu desprendimento dos mestres burocratas e admiradores dos falsos deuses».
Invocar as simpatias sedentárias do dolicóide meão para firmar as bases do municipalismo era levar longe de mais o nacionalismo étnico de Teófilo Braga. Sardinha acabaria por o entender assim.
Em A Aliança Peninsular (Porto, 1924) e nos últimos ensaios da Nação Portuguesa, anunciou que projectava refundir o livro sob outro título: Teoria da Nacionalidade. Não chegou a fazê-lo. A mudança de título é, por si só, uma interpretação da obra.
VII. A recepção interna
A primeira reacção veio de dentro. Sob a rubrica «Bibliografia», a Nação Portuguesa de Junho de 1915, n.º 8, saudava a obra em termos que haveriam de fazer fortuna:
«A nova geração intelectual tem neste livro um idearium patriótico. O Valor da Raça não interessa só a quem se dedica a estudos históricos, mas a todo o português que o queira ser digna e conscienciosamente.»
A fórmula fixava, no interior do movimento, o valor programático atribuído ao livro. Dois anos depois, Mariotte havia de a inverter: o elogio doméstico transformou-se em peça de acusação, e O Valor da Raça em «Alcorão rácico do novo nacionalismo».
VIII. O primeiro ataque de vulto: Mariotte, 1917
O primeiro ataque de vulto partiu de um monárquico maurrasiano: o Padre Amadeu de Vasconcelos, que assinava Mariotte, em O Nacionalismo Racico do Integralismo Lusitano (Lisboa, edição do autor, 1917, 75 pp.).
Como observei em Filhos de Ramires (2004), a importância do opúsculo não reside apenas na polémica imediata, mas no futuro das imputações que ali se fixam: germanofilia política, fichtismo rácico, imitação dissimulada da Action Française e menoridade intelectual dos integralistas. Delas se alimentará, por décadas, a literatura de combate ao movimento.
Mariotte era um dos divulgadores destacados das ideias da Action Française em Portugal. Fora convidado a colaborar na primeira série da Nação Portuguesa, mas incompatibilizou-se pouco depois com os integralistas e não chegou a publicar colaboração alguma. O opúsculo reúne dois artigos datados de Paris, de 19 e 26 de Março de 1917, e um terceiro capítulo intitulado «Charlatães e traidores». A tese é dupla: O Valor da Raça seria um nacionalismo rácico mal disfarçado, na linha de Fichte, e o seu autor um germanófilo — imputação de particular gravidade quando Portugal já se encontrava em guerra com a Alemanha.
O confronto sistemático entre o opúsculo e o impresso de 1915, que acompanha esta edição, permite fixar o que ali se passa. Retêm-se aqui apenas os pontos decisivos para a leitura do livro.
A matriz tomista é omitida. Mariotte não menciona uma única vez o De regimine principum, nem a teoria das «ordens» do Estado, nem o conceito de Grei tal como o livro o define na sua primeira frase. Combate uma obra de antropologia rácica que teria de ser outra para o ser.
O papel da Instituição Real é omitido. A frase que fecha a demonstração das origens — «Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado» — não é citada nem discutida. Sem ela, o livro parece fazer derivar a nação da etnia; com ela, fá-la derivar do pacto entre a Coroa e os Concelhos.
O binómio é desfeito. Mariotte cita a Esperança como «factor dynamico da civilisação atlantica» e suprime a oração seguinte, que estabelece a Comuna como o seu invariável elemento estático. O que era esquema de dois termos passa a profissão de misticismo.
A acusação de germanofilia não se sustenta. Assenta, por um lado, na elisão da premissa teológica do passo incriminado — elisão que se demonstra pelo confronto das duas transcrições que o próprio Mariotte faz do mesmo texto, uma na folha de rosto e outra na sua p. 12. Assenta, por outro lado, na fusão indevida de Sardinha com o autor de um artigo germanófilo publicado no mesmo número da revista em que Sardinha assinara «A apologia da guerra» — autor que Mariotte declara não ser integralista, e que a indicação do próprio Mariotte permite identificar como Alfredo Pimenta. Ora, no artigo de Sardinha, a guerra é lida pela chave de Santo Agostinho e de Joseph de Maistre, como expiação e castigo, e remata-se: «louvada seja a guerra que matou a Revolução!» Não é germanofilia: é providencialismo contra-revolucionário — e o autor declara-se francófilo na própria frase que Mariotte cita.
A acusação de ocultar a influência de Maurras é improcedente. O facto em que assenta é exacto: o nome de Maurras não ocorre uma única vez no livro. A inferência, porém, não decorre. A premissa de que as páginas em causa são maurrasianas nunca chega a ser demonstrada, e a genealogia declarada por Sardinha é outra, estando expressa no texto: Sorel, Valois e Berth precisamente nas páginas que Mariotte diz maurrasianas; Comte, Le Play, Taine, Fustel de Coulanges e Le Bon no restante livro. Sardinha demarcara-se cedo da «farmacopeia gaulesa», e a recusa da filiação maurrasiana fora impressa em 1914 no órgão do movimento. Mariotte cita esse passo — para dele extrair, paradoxalmente, o motivo da dissimulação que pretende provar.
IX. Um episódio exemplar: as eterna divortia
Há no livro uma citação que esta edição não pode deixar passar em silêncio. Vale simultaneamente como advertência ao leitor e como retrato do autor.
Quatro vezes — nas pp. XIX, 51, 147 e 167 — invoca Sardinha Sílio Itálico e as eterna divortia da Púnica para provar que a diferença entre lusitanos e iberos remontaria ao primeiro século da nossa era. Não se trata de ornamento: é argumento de peso e sustenta a tese do separatismo originário. Recebera-o de Teófilo Braga e não o verificou. Anos mais tarde, ao fazê-lo, escreveu:
«Teófilo afirma algures que a diferença entre portugueses e castelhanos vinha de tão remotas origens, que já no primeiro século da nossa era o poeta Silius Italicus alude às eterna divortia que dividiam Lusitanos e Celtiberos. Nada mais sorridente, com efeito! Mas se consultarmos o poema de Silius Italicus nós damos lá, realmente, com as eterna divortia, mas é com as eterna divortia que os Pirenéus estabelecem entre Iberos e Celtas, nunca com as eterna divortia que separavam Iberos e Lusitanos.» («O velho Teófilo»)
E acrescentou, a propósito do mestre que admirara: «Teófilo é um deformador consciente de quanto lhe não aproveita ao seu sectarismo, não hesitando na deturpação de um texto ou na sua falsa interpretação, quando assim convenha ao intuito disfarçado que o encaminha.»
Três conclusões se retiram do episódio. O livro contém, repetida quatro vezes, uma citação viciada na origem. O seu autor foi vítima da deturpação, não seu agente. E foi ele próprio quem a denunciou, nos termos exactos — mutilação e truncatura de fontes, falsa interpretação, desprezo pela verdade — em que hoje se descreveria a falsificação documental.
É esse o padrão por que o livro pede para ser lido — e por que devem ser julgados aqueles que o leram.
X. O ponto de chegada
O movimento que O Valor da Raça inicia — a substituição das razões de ordem étnica por razões de ordem jurídica, institucional e, sobretudo, espiritual — não se completa em 1915, nem sequer nele começa plenamente. Faz-se entre incertezas, hesitações e insatisfações. Antes de publicar o livro, Sardinha inutilizara aquele que deveria ter sido o seu primeiro volume, O Sentido Nacional duma Existência (1913), desenterrado em 1969 por Eurico Gama.
Completa-se sete anos depois. Ao relançar a Nação Portuguesa, regressado do exílio em Espanha, o seu nacionalismo surge já liberto de qualquer resquício de fundamento naturalista:
«Uma nacionalidade é sobretudo uma alma, um valor espiritual, um génio.» («Porque voltámos», Julho de 1922)
Entre a primeira frase de 1915 — a Grei como conceito jurídico de origem tomista — e esta de 1922 corre uma linha recta. O Valor da Raça situa-se no seu começo, não no seu termo; e aquilo que nele sobrevive do nacionalismo étnico de Teófilo Braga é resíduo do ponto de partida, não substância da tese.
Ler o livro pelo título é lê-lo contra a sua própria arquitectura. Lê-lo pela primeira frase, e pelo que dele veio a dizer o autor, é lê-lo como ele é: obra de transição, precipitada, carregada de erudição, e que o próprio autor quis um dia reescrever sob outro nome.
XI. Nota sobre esta edição
O texto é reproduzido com a paginação do impresso de 1915 assinalada entre parênteses rectos.
O volume apresenta duas séries de paginação, o que explica a descrição catalográfica de XXX + 175 + [4] p. O capítulo I, A verdade portuguesa. Programa de uma geração, não é prefácio: é o primeiro capítulo, paginado em romanos, pp. I-XXX. A partir do capítulo II abre-se a numeração árabe, sendo cada capítulo precedido de duas folhas — frontispício e algarismo — que contam na paginação. Daí a distribuição: cap. II, texto nas pp. 3-28; cap. III, 31-68; cap. IV, 71-102; cap. V, 105-134; cap. VI, 137-175.
Desfazer a confusão entre o capítulo I e um prefácio tem consequências decisivas para a leitura. É nele que se estabelece a matriz tomista do conceito de Grei; é nele que se afirma o papel da Realeza na formação da nacionalidade; e é no seu fecho, na p. XXX, que surge a única menção de Fichte em todo o livro — feita a propósito de Stein e de Mommsen, como exemplo de historiadores que precederam os políticos, e rematada pela observação irónica de que, quando Fichte proclamava a superioridade universal do génio germânico, havia em Berlim um governador francês.
31 de Agosto de 2026
José Manuel Quintas
*
Acerca da relação da sua tese com as teses de Oliveira Martins e Teófilo Braga, escreveu António Sardinha:
...reivindicando para a Realeza o papel decisivo que ela exerceu na formação da Nacionalidade, eu estou longe de me subordinar aos subjetivismos perniciosos de Oliveira Martins. O profundo iluminado da Vida de Nun’Álvares, através da sua tão querida teoria do Acaso, considerava-nos apenas como uma pátria inventada pela cobiça esperta de meia dúzia de aventureiros coroados. Bem opostamente, eu avanço nas passadas de Teófilo Braga, mas só naquela parte em que Teófilo defende as qualidades formosíssimas do Luso e inventaria as aptidões ancestrais que já do fundo dos séculos nos fadavam para povo livre e glorioso. Não somos um improviso das circunstâncias, desgarrados da incorporação no maciço castelhano por favor de ninguém. Dentro de nós, nas penumbras da nossa avoenga, reside com a própria razão de ser da nossa personalidade, a razão inviolável do separatismo que sempre nos individualizou. Já na Punica o poeta Silius Italicus assinala a eterna divortia que dividia Iberos e Lusitanos. É do sentimento constante de uma diferença que o Instinto de Pátria se origina. Pelos merecimentos inatos da Raça nós ganhámos a dignidade de país independente. Os nossos Reis, erguendo-se à testa dos nossos recursos nativos e coordenando-os por meio da sequência sucessória duma família, é que nos conferiram a duração e a continuidade, sem as quais é positivo que ficaríamos em metade do caminho.
(...)
Compreende-se assim o significado que eu atribuo à missão histórica da Monarquia. Em referência à aliança das beetrias e dos ópidos, da qual a Pátria resultou, o seu valor não é outro que o daquele poder centrípeto que numa maré longa de pragmatismos e verificações, como é a atual, os próprios sindicalistas lhe estão reconhecendo. A função específica da Realeza para com as primitivas mancomunidades agrárias, equacionando-as e fazendo-as convergir para um mesmo destino, corresponde, com efeito, à regra de equilíbrio e isocronia que a ofensiva económica hodierna acaba de descobrir nesse órgão insubstituível de ponderação social que é o Rei.
(...)
Se um dia Portugal tornar a ser Portugal, com os heróis afonsinos que libertaram o solo e estabeleceram a Grei, teremos de reverenciar não só os letrados e os demais burgueses de Quatrocentos que ultimaram a fábrica robusta da Nacionalidade. Ao lado deles, emparceirando com os nossos epónimos mais veneráveis, figurarão, por justiça dos vindoiros, os obreiros iluminados da Revista Lusitana e da Portugalia. Alcemos os corações ao alto! Não é um povo moribundo o povo que sente por si o testemunho de Estácio da Veiga, de Martins Sarmento, de Rocha Peixoto, de António Tomás Pires, de Santos Rocha, de Fonseca Cardoso, — para não falar senão naqueles que a morte nos arrepanhou. Os materiais encontram-se carreados com desvelo e com canseiras. Cabe agora à geração que sobe traçar o plano, meter o esforço à santa cruzada do resgate! Cumpre-nos, por um encargo indeclinável, congraçar numa síntese positivista os subsídios trazidos dos quatro cantos da esfera. A Verdade portuguesa aparecerá assim como um sistema prático de cura aos que já não creem no soerguimento da Pátria. É como que um breviário do que seja em esboço a doutrina nacionalista da hora futura que eu procuro realizar aqui, num exame rápido dos seus artigos fundamentais. Escolhendo este assunto para uma dissertação oficial, o meu desejo é ver discutidas no campo sereno da ciência as razões medulares do Integralismo Lusitano. Condensam-se num feixe minguado de páginas os resultados incontestáveis de tanto lustro de pesquizas e interrogações. O momento de afirmar chegou. Com a atenção poisada em monografias do mais variado eruditismo, eu pregunto se não soa o instante de se destrinçar o fio que entrelaça no pendor das mesmas conclusões a obra de um Teófilo Braga com a de um Adolfo Coelho, — por exemplo —, tão antagónicas que se nos manifestam as suas posturas de escola e de especialização? Leite de Vasconcelos, Henrique da Gama Barros, e Sousa Costa Lobo completam Herculano, retificam Oliveira Martins. Passou a fase negativa em que a corrosão liberalenga alastrava pavorosamente por cima dos nossos motivos de crer e de querer. Com o inventário efetuado com tanto amor por folcloristas e arqueólogos, a ninguém é já lícito desconfiar se somos um povo, se temos direito de sê-lo.
Entraram no eclipse mortal as ideologias anacrónicas da Revolução, herdeiras desse nefasto «livre-exame» que, introduzido no Ocidente pelos doutores da Enciclopédia, se traduz na rutura de todos os laços morais e sociais em que a coletividade se repousa. A que assistimos nós no espetáculo imprevisto que a Europa nos oferece, convertida quase de banda a banda num vasto campo de batalha? É à apologia da utópica ordem internacionalista dos pregadores da Nação-Humanidade? É à apoteose final da emancipação humana, abrindo os braços por cima da Cidade-Futura, em que não se apontaria nem deuses nem senhores? Oh, como que por encanto, o filantropismo romântico pulveriza-se por entre a poeira das mil e uma ficções com que o século se apostou em confessar a impotência do seu cerrado orgulho materialista!
(O Valor da Raça - Introdução a uma campanha nacional. Lisboa, 1915, págs. 119-120).
...reivindicando para a Realeza o papel decisivo que ela exerceu na formação da Nacionalidade, eu estou longe de me subordinar aos subjetivismos perniciosos de Oliveira Martins. O profundo iluminado da Vida de Nun’Álvares, através da sua tão querida teoria do Acaso, considerava-nos apenas como uma pátria inventada pela cobiça esperta de meia dúzia de aventureiros coroados. Bem opostamente, eu avanço nas passadas de Teófilo Braga, mas só naquela parte em que Teófilo defende as qualidades formosíssimas do Luso e inventaria as aptidões ancestrais que já do fundo dos séculos nos fadavam para povo livre e glorioso. Não somos um improviso das circunstâncias, desgarrados da incorporação no maciço castelhano por favor de ninguém. Dentro de nós, nas penumbras da nossa avoenga, reside com a própria razão de ser da nossa personalidade, a razão inviolável do separatismo que sempre nos individualizou. Já na Punica o poeta Silius Italicus assinala a eterna divortia que dividia Iberos e Lusitanos. É do sentimento constante de uma diferença que o Instinto de Pátria se origina. Pelos merecimentos inatos da Raça nós ganhámos a dignidade de país independente. Os nossos Reis, erguendo-se à testa dos nossos recursos nativos e coordenando-os por meio da sequência sucessória duma família, é que nos conferiram a duração e a continuidade, sem as quais é positivo que ficaríamos em metade do caminho.
(...)
Compreende-se assim o significado que eu atribuo à missão histórica da Monarquia. Em referência à aliança das beetrias e dos ópidos, da qual a Pátria resultou, o seu valor não é outro que o daquele poder centrípeto que numa maré longa de pragmatismos e verificações, como é a atual, os próprios sindicalistas lhe estão reconhecendo. A função específica da Realeza para com as primitivas mancomunidades agrárias, equacionando-as e fazendo-as convergir para um mesmo destino, corresponde, com efeito, à regra de equilíbrio e isocronia que a ofensiva económica hodierna acaba de descobrir nesse órgão insubstituível de ponderação social que é o Rei.
(...)
Se um dia Portugal tornar a ser Portugal, com os heróis afonsinos que libertaram o solo e estabeleceram a Grei, teremos de reverenciar não só os letrados e os demais burgueses de Quatrocentos que ultimaram a fábrica robusta da Nacionalidade. Ao lado deles, emparceirando com os nossos epónimos mais veneráveis, figurarão, por justiça dos vindoiros, os obreiros iluminados da Revista Lusitana e da Portugalia. Alcemos os corações ao alto! Não é um povo moribundo o povo que sente por si o testemunho de Estácio da Veiga, de Martins Sarmento, de Rocha Peixoto, de António Tomás Pires, de Santos Rocha, de Fonseca Cardoso, — para não falar senão naqueles que a morte nos arrepanhou. Os materiais encontram-se carreados com desvelo e com canseiras. Cabe agora à geração que sobe traçar o plano, meter o esforço à santa cruzada do resgate! Cumpre-nos, por um encargo indeclinável, congraçar numa síntese positivista os subsídios trazidos dos quatro cantos da esfera. A Verdade portuguesa aparecerá assim como um sistema prático de cura aos que já não creem no soerguimento da Pátria. É como que um breviário do que seja em esboço a doutrina nacionalista da hora futura que eu procuro realizar aqui, num exame rápido dos seus artigos fundamentais. Escolhendo este assunto para uma dissertação oficial, o meu desejo é ver discutidas no campo sereno da ciência as razões medulares do Integralismo Lusitano. Condensam-se num feixe minguado de páginas os resultados incontestáveis de tanto lustro de pesquizas e interrogações. O momento de afirmar chegou. Com a atenção poisada em monografias do mais variado eruditismo, eu pregunto se não soa o instante de se destrinçar o fio que entrelaça no pendor das mesmas conclusões a obra de um Teófilo Braga com a de um Adolfo Coelho, — por exemplo —, tão antagónicas que se nos manifestam as suas posturas de escola e de especialização? Leite de Vasconcelos, Henrique da Gama Barros, e Sousa Costa Lobo completam Herculano, retificam Oliveira Martins. Passou a fase negativa em que a corrosão liberalenga alastrava pavorosamente por cima dos nossos motivos de crer e de querer. Com o inventário efetuado com tanto amor por folcloristas e arqueólogos, a ninguém é já lícito desconfiar se somos um povo, se temos direito de sê-lo.
Entraram no eclipse mortal as ideologias anacrónicas da Revolução, herdeiras desse nefasto «livre-exame» que, introduzido no Ocidente pelos doutores da Enciclopédia, se traduz na rutura de todos os laços morais e sociais em que a coletividade se repousa. A que assistimos nós no espetáculo imprevisto que a Europa nos oferece, convertida quase de banda a banda num vasto campo de batalha? É à apologia da utópica ordem internacionalista dos pregadores da Nação-Humanidade? É à apoteose final da emancipação humana, abrindo os braços por cima da Cidade-Futura, em que não se apontaria nem deuses nem senhores? Oh, como que por encanto, o filantropismo romântico pulveriza-se por entre a poeira das mil e uma ficções com que o século se apostou em confessar a impotência do seu cerrado orgulho materialista!
(O Valor da Raça - Introdução a uma campanha nacional. Lisboa, 1915, págs. 119-120).
[Sob o título "Bibliografia", in Nação Portuguesa, nº 8, Junho de 1915 ] :
O Valor da Raça por António Sardinha. - O nosso querido amigo António Sardinha, tão conhecido dos leitores desta Revista, acaba de tomar lugar entre os pensadores mais profundos e os mais cultos historiadores da nossa raça e da nossa terra. Uma penetrante psicologia, acompanhada de um minucioso estudo dos textos, permitiu-lhe esclarecer, nos menores detalhes, as origens da Nacionalidade.
Alma de poeta e penetração de historiador, o seu entusiasmo não apaga a sua clarividência, nem a paixão esbate a lucidez do pensamento. Naquela sobriété enflamée de que fala Jules Lemaître, António Sardinha dá neste livro um magnífico exemplo de independência e consciência, fazendo tábua rasa de tudo o que, antes dele, tinha sido publicado sobre os grandes movimentos da vida nacional.
Para os portugueses de hoje, O Valor da Raça é um livro de eloquência e de moral. Se é certo que há na história, como em todas as ciências morais, uma parte de objetivismo e uma parte de incerteza, é precisamente essa parte de objetivismo que a torna viva e cheia de comoções.
Depois, por sua banda, a incerteza é a mais e mais contida nos limites que a investigação metódica vai estreitando, e termina por ser unicamente um conjunto de conhecimentos positivos, de que a moral e a política possam tirar vantagem.
A maneira como António Sardinha compreende a História, abre largas margens à interpretação de conhecimentos do passado, à filosofia e a arte. Pelo seu estilo, colorido e intenso, este livro é também uma obra literária de um singular saber. O seu interesse é maior ainda do que, pelo título, podia esperar-se. A Raça não é aqui um pretexto para elaborar certas reflexões, mais ou menos interessantes, sempre acidentais, mas o motivo para acordar aqueles capitais problemas históricos, de cuja solução sairá um mais profundo conhecimento do espírito lusitano.
A nova geração intelectual tem neste livro um idearium patriótico. O Valor da Raça não interessa só a quem se dedica a estudos históricos, mas a todo o português que o queira ser digna e conscienciosamente.
O Valor da Raça por António Sardinha. - O nosso querido amigo António Sardinha, tão conhecido dos leitores desta Revista, acaba de tomar lugar entre os pensadores mais profundos e os mais cultos historiadores da nossa raça e da nossa terra. Uma penetrante psicologia, acompanhada de um minucioso estudo dos textos, permitiu-lhe esclarecer, nos menores detalhes, as origens da Nacionalidade.
Alma de poeta e penetração de historiador, o seu entusiasmo não apaga a sua clarividência, nem a paixão esbate a lucidez do pensamento. Naquela sobriété enflamée de que fala Jules Lemaître, António Sardinha dá neste livro um magnífico exemplo de independência e consciência, fazendo tábua rasa de tudo o que, antes dele, tinha sido publicado sobre os grandes movimentos da vida nacional.
Para os portugueses de hoje, O Valor da Raça é um livro de eloquência e de moral. Se é certo que há na história, como em todas as ciências morais, uma parte de objetivismo e uma parte de incerteza, é precisamente essa parte de objetivismo que a torna viva e cheia de comoções.
Depois, por sua banda, a incerteza é a mais e mais contida nos limites que a investigação metódica vai estreitando, e termina por ser unicamente um conjunto de conhecimentos positivos, de que a moral e a política possam tirar vantagem.
A maneira como António Sardinha compreende a História, abre largas margens à interpretação de conhecimentos do passado, à filosofia e a arte. Pelo seu estilo, colorido e intenso, este livro é também uma obra literária de um singular saber. O seu interesse é maior ainda do que, pelo título, podia esperar-se. A Raça não é aqui um pretexto para elaborar certas reflexões, mais ou menos interessantes, sempre acidentais, mas o motivo para acordar aqueles capitais problemas históricos, de cuja solução sairá um mais profundo conhecimento do espírito lusitano.
A nova geração intelectual tem neste livro um idearium patriótico. O Valor da Raça não interessa só a quem se dedica a estudos históricos, mas a todo o português que o queira ser digna e conscienciosamente.
Em síntese, segundo António Sardinha,
1. Como é que se FORMOU a nação portuguesa?
Através de uma aliança entre o Rei e os Municípios: "São as beetrias do Norte e os «castelos-velhos» do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês."
2. Quando é que está FORMADA a nação portuguesa?
No século XIV, ao iniciar-se a Dinastia de Avis: "nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular".
1. Como é que se FORMOU a nação portuguesa?
Através de uma aliança entre o Rei e os Municípios: "São as beetrias do Norte e os «castelos-velhos» do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês."
2. Quando é que está FORMADA a nação portuguesa?
No século XIV, ao iniciar-se a Dinastia de Avis: "nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular".
Entraram no eclipse mortal as ideologias anacrónicas da Revolução, herdeiras desse nefasto «livre-exame» que, introduzido no Ocidente pelos doutores da Enciclopédia, se traduz na ruptura de todos os laços morais e sociais em que a colectividade se repousa. A que assistimos nós no espectáculo imprevisto que a Europa nos oferece, convertida quase de banda a banda num vasto campo de batalha? É à apologia da utópica ordem internacionalista dos pregadores da Nação-Humanidade? É à apoteose final da emancipação humana, abrindo os braços por cima da Cidade-Futura, em que não se apontaria nem deuses nem senhores? Oh, como que por encanto, o filantropismo romântico pulveriza-se por entre a poeira das mil e uma ficções com que o século se apostou em confessar a impotência do seu cerrado orgulho materialista!
O Valor da Raça - Introdução a uma campanha nacional. Lisboa, 1915, págs. 119-120.
| 1915 - António Sardinha- O Valor da Raça - Introdução a uma Campanha Nacional (livro) |
António Sardinha, O Valor da Raça (1915)
Transcrição em ortografia actualizada, com a paginação do impresso restituída. Os marcadores [p. N] assinalam o início de cada página do original.
a Ana Júlia, minha Mulher
«J’écris à la lueur de deux vérités eternelles: la religion, la monarchie, deux necessités que les événements contemporains proclament, et vers lesquelles tout écrivain de bon sens doit essayer de notre pays.»
Balzac, Prefácio de La Comédie humaine
[I] A verdade portuguesa. Programa de uma geração[p. I] A ideia de Raça entre nós é em Frei Bernardo de Brito que aparece pela primeira vez. A concepção jurídica de um todo uno, idêntico na composição e no destino, já se definira, no entanto, com D. João II. É o conceito político de Grei que, nascido da sociologia tomista por derivação do De regimine principum, se alenta soberanamente nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular.
A coincidência dos nossos elementos nativos com as direcções concentradoras da Coroa obtivera-se enfim, depois da prova magnífica que fora a jacquerie dos Concelhos, erguendo voz pelo Mestre contra o pendão de Dona Beatriz. Não há que duvidar já agora de que o íntimo segredo da história portuguesa consiste num inabalável motivo de ordem étnica. É o dolicóide meão, de cabelos escuros e preferências sedentárias, quem fundamenta as raízes da Pátria, e no desenrolar dos acidentes desorganizadores surge sempre, à boca do perigo, a pronunciar a palavra de salvação. A integridade desse [p. II] valor antropológico retém consigo, na guarda da sua pureza, todo o esforço que preside aos dramas formidáveis da nossa independência.
Efectivamente, as mancomunidades agrícolas que, comportando as aptidões localistas do nosso homem primogénito, vieram a concluir na forma social do Município, conservaram pela fixidez à terra, limpos de toda a mistura abastardante, os recursos infinitos da nossa árvore ancestral. Passaram as invasões tumultuando como uma enchente que emparelhe montes e vales. Mas o gosto decidido pelo arraigamento, prendendo ao solo com vínculos centenários os indivíduos e as agremiações, com o conceder-lhes uma resistência que nada vencia, transmitia-lhes a mais poderosa das impermeabilidades. Eclipses demoradas interromperam a plenitude autóctone – irrecusavelmente. Dormitando, porém, o que pareceria uma derrota mortal, um fim sem remédio, não era no fundo senão a economia da duração, trabalhando com afinco pelo restauro das energias perdidas.
Do sedentarismo característico do Luso partiria assim, como de uma virtude de maravilha, o início de quantas afirmações de vontade e heroísmo lhe conferiram a existência livre de povo. São as behetrias do norte e os «castelos-velhos» do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês. As hostes comunais intervêm sempre lá onde [p. III] o guião sobranceiro da autonomia corra o perigo de tombar nas mãos do vizinho cobiçoso. Em Ourique mostram-se-nos assentando os alicerces à Nação. São as vilas de 1384, pondo o Mestre por nosso regedor e alçando mais tarde o Regente à defesa comprometida do Reino. E já se não fala na Feliz-Aclamação com as ordenanças bisonhas dos Municípios escrevendo a epopeia ignorada de uma guerra de vinte e oito anos – nem nas juntas concelhias do século passado, alevantando Portugal em peso contra a presença dos Franceses. O motivo de ordem étnica em que reside o segredo íntimo da nossa história comprova-se abundantemente. É que nos moldes particularistas da Raça remanescia, como um substractum inalienável, à força hereditária do Luso, guerrilhando por uma reposição desafogada e fecunda, como outrora nas gargantas do Hermínio, ao som da buzina de Viriato.
Se não admitirmos uma lenta preparação atávica que desde muito de atrás nos andasse elaborando como uma realidade social que se basta a si própria, não se compreende pela doutrina simplista do Acaso que, varrido o islamita até às orlas do mar do Algarve e expulso o barão novigótico para o planalto castelhano, se alevantasse de súbito da gleba libertada uma pátria cheia de vigor, vibrando toda de cima abaixo no sentimento de uma mesma finalidade. É que vínhamos de longe – dos alvores dessa gente primitiva que nas bacias do Tejo e do Sado se revelou bem cedo, enterrando os mortos e [p. IV] já com cabana armada, quando nem prenúncios havia ainda da prática da agricultura.
Das simpatias sedentárias do habitante típico de Mugem se extrai, em verdade, o germe do qual a Pátria Portuguesa se veio a formar. O culto dos Mortos, originando uma colectividade apoiada no traço do sangue, depressa ascendeu o nosso homem antigo ao quadro rudimentar de aldeia, garantido por um patrocínio religioso que se traduzia certamente no modelo patriarcal. Chega de seguida a profissão agrícola. O enraizamento espontâneo do aborígene intensifica-se. E já fortalecido pela comunidade do parentesco, acaba de se organizar pela comunidade do solo. São conhecidas as bases agrárias das nossas citânias. As citânias marcam o estádio imediato ao vicus arcaico em que o embrião de Mugem, crescendo sempre, pretende atingir uma expansão maior das suas possibilidades naturais.
A esta fase de isolamento ainda, sucedem-se as federações temporárias de cividades com determinante na ocupação romana. Aparecem assim as arimanias, ou germanias, de índole estritamente guerreira, e, como a etimologia ensina, recebendo do estatuto de vizinhança a sua razão principal. Uma vez instalado o pesado aparelho administrativo do Lácio, a interpenetração episódica das citânias ganha permanência pacífica.
Os moradores insulados dos nossos vilares proto-históricos sobem então a um grau [p. V] de sociabilidade mais completa. Atraídos agora à ribeira, os conventi publici vicinorum do dominador imprimem-lhes um apertado espírito de convivência – entra a criar para eles outras proporções o sentido comum da colectividade. Entrementes, as tendências características da Raça radicavam-se num vasto sistema institucional. Cortam-nos o torrão, primeiro, as tropeladas do dolicocéfalo loiro, raptor orbis – no dia seguinte, as aluviões compactas dos filhos de Agar. Não esmorece, todavia, o génio pertinaz do Luso. E quando com a Reconquista as camadas indígenas da Península obtêm um farto minuto de respiração, as behetrias mostram-se como o tecido estrutural da Nacionalidade nascente. A Pátria Portuguesa resulta depois do entendimento instintivo desses pequenos núcleos populacionais que, trazidos a uma compreensão mais larga da existência por unânimes necessidades de defesa, lograram equilibrar em acordo perpétuo as ligas ou pactos militares da antevéspera, quando o rumor das legiões inimigas crescia do vale para os castros atalaiados lá ao alto.
Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado. Conseguido o agente centrípeto, sem o qual tombaria depressa na mais deplorável das desagregações, o País decide-se com galhardia para a grande obra da sua coesão e do seu enrobustecimento. O Altar e o Trono são as duas formidáveis disciplinas que o hão-de aguentar intacto nos trabalhos [p. VI] custosos para uma maioridade que ninguém lhe reconhecia e que ainda agora, perdidas ambas num turbilhão de insensatez criminosa, não passa de uma condescendência precária perante a dura lei imperialista de uma época que já não embarca nas baixas fantasias da superstição democrática.
A constituição das Pátrias é, com efeito, em toda a banda o sinal poderoso de quanto vale dinâmica e estaticamente o factor-Autoridade. Quem medita os nossos antecedentes de povo e desvenda bem os laboriosos prelúdios de que brotamos, impressiona-se decerto com as mil e uma tentativas do Luso para se estabilizar numa expressão colectiva mais franca e mais sólida que o cantonalismo primevo. Já vimos que, quando o romano irrompe, se experimentam as germanias, como uma aliança de cividades que transpõem o estreito aro comunal e apelam para as relações de vizinhança, a fim de oferecerem ao invasor uma barreira mais duradoira e melhor erguida. No entanto, dependentes de chefes eleitos e como tais transitórios, as germanias ficam-se em ensaios preliminares que uma peleja desfaz ou que uma dissidência prejudica. Só a hereditariedade serviria ao agrupamento, de maneira a elevá-lo ao consenso tácito da Pátria.
Desde que um agregado encontra uma linhagem que incarne no seu interesse privado, como interesse do conjunto, os interesses das partes componentes, só nessa altura pode considerar-se protegido contra [p. VII] as surpresas do futuro, sem receio que o enfraqueçam, ou os desvios da fortuna, ou as reticências da hesitação. Existe um fim – não falta a certeza dos meios com que procurá-lo. É só correr-se em harmonia com as inclinações fundamentais e coordená-las em vista ao alvo desejado. A prosperidade e a saúde do novo ser social despontam sem tardança, com as promessas brilhantes da glória e o exercício superior dos dotes da vontade. É a ocasião em que se manifesta uma regra espiritual, simultaneamente coercitiva e arrebatadora, que, conformando a mentalidade própria das circunstâncias, lhe concede aquela vocação mística que torna os povos senhores dos seus destinos, e como que donos do terreno que pisam.
Eis porque a Cruz e a Espada são os admiráveis sustentáculos da nossa independência, alcançada a poder de tantíssimo sangue. Nós morreríamos nos torcicolos da longada, se o concurso dessas duas forças tradicionais nos não ajudasse a estabelecer o nosso lugarzinho ao sol – se, entregues apenas à espontaneidade do génio da Raça, nos não reguardassem de embuscadas e de inadvertências, de um lado, a ambição pessoal dos nossos Príncipes, do outro, os ditames vindos de trás-os-montes – da claridade augustíssima de Roma.
A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predilecção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria. Mas a [p. VIII]liberdade só se efectiva quando ponderada pela Autoridade. Sem um valor de acentuado conteúdo concentrador, jamais se viabilizaria a perequação dos nossos diversos egoísmos institucionais, de cujo entrelaçamento os tecidos nervosos da Nacionalidade se haviam fiado. É um exemplo que convence o abandono da Itália aos excessos da tendência comunalista. A unidade só tarde se conseguiu, porque as querelas comerciais e políticas das diferentes cidades preponderantes não quiseram submeter-se à fiscalização de uma dinastia que as neutralizasse debaixo do seu governo.
Aonde é que se descobrem demonstrações de vigor que sobrepujem as que a Lusitânia afirmou durante o duelo tremendo com as tropas do Lácio? Contudo, digam-me, apesar de os analistas latinos qualificarem de magnis gravibusque bellis a resistência assombrosa das nossas citânias, se se ultrapassou a fase recuada de exclusivismo em que as populações se isolavam umas das outras – se porventura um outro sentido maior de existência colectiva se anunciara às massas armadas, descidas dos outeiros fortificados para o combate em fileiras sob o comando de cabecilhas, que as mais das vezes não eram dos maiorais da gens? Não lhes assistia a função homogeneizadora de uma enérgica magistratura hereditária. Não nos causa por isso estranheza que a Guerra dos Ladrões, que tamanhos embaraços provocou a Roma consular, descaísse quase no total [p. IX] aniquilamento desta fera ninhada de batalhadores.
Eu bem sei que no declinar da idade antiga os elementos de que proviemos como povo não possuíam ainda a consistência suficiente para merecerem a emancipação. Confinados no mais fechado particularismo, foram exactamente as pugnas sobre-humanas a que Roma os confrangeu que despertaram neles como que a percepção de horizontes novos, revelando-lhes o carácter sagrado de uma causa que, sendo de uns, se amostrava de todos, no fim de contas. Tinham que ser vencidos para que não regressassem ao período anterior de desconfiança, com brigas constantes de limites e psicologia ínfima de tribo. Sujeitos a uma cerrada uniformidade demográfica pelo apertado sistema tributário do Império, pelas exigências miúdas do censo o Império obrigava a uma comunicação quotidiana as relações, cada vez mais estreitas, dos que se haviam visto coagidos a trocar a coroa amuralhada dos montes pelo assento tranquilo e produtivo das veigas. Quando essa rede cortical se rompeu e o génio oculto do Luso voltou a aflorar, a unificação consumara-se. Agora só importava entrar-se na demanda difícil da alforia. As simpatias sedentárias da Raça, vazadas já na forma social do Município, traçavam os alicerces inabaláveis da Pátria. Alçando-se à suprema judicatura por via de um mandato explícito das nossas mancomunidades agrárias, a Realeza aparece a encarnar o agente político, sem o qual o equilíbrio [p. X] da colectividade se volveria impossível. De outra maneira, a fragmentação teria de ser um acontecimento de todos os dias.
Libertos da presença de um fulcro imóvel que assegurasse a duração e a continuidade, os apetites centrífugos das diversas iniciativas comunais poriam dentro de breve a saúde do grupo num estado revolto de decomposição. Eis porque a ditadura instalada ao alto protege sempre em justos termos a coexistência desafogada das outras partes do organismo. Por antagónicos que pareçam, entende-se já que o Rei e os Concelhos são factores que se correspondem e acabam de completar. Senão – se desfiarmos os olhos ao arrepio dos séculos, que vemos nós desde que as liberdades se encontraram com a Autoridade? O engrandecimento do poder real acompanhar-se inalteravelmente do exercício pleno das franquias municipais.
Os municípios exprimiam as tendências ingénitas da Raça. Não caímos em erro se os classificarmos entre nós como formações absolutamente naturais. Por um processus associativo, frequentíssimo no mundo biológico, uma células pegaram a juntar-se às outras. E por força das circunstâncias do Meio e da Etnia, Portugal se constituiu como soma normal de tantas parcelas pequenas, em tudo idênticas e concordes. Até o nome lhe adveio de um castro a cavaleiro do Douro, para que em nada padecesse dúvida a sua genealogia de terra livre.
Derivado de uma federação de reduzidos [p. XI] núcleos independentes, em que as behetrias de Reconquista se compunham com os ópidos da ocupação romana, é uma cividade modesta que o baptiza, consagrando-lhe como madrinha a entranhada estrutura particularista. À sombra da azinheira votiva do Luso, estipula-se ao depois a aliança das gentes anónimas, que se custodiavam de vexames e algaradas pela reciprocidade do estatuto da vizinhança, com a pessoa solene do Príncipe, que, de arnês reluzente e ginete escarvando, velaria pelos fracos e oprimidos, guardando do inimigo os Altares e os Lares, os Berços e os Sepulcros. Os forais acusam a base contratual da Monarquia Portuguesa, que não é uma monarquia firmada na ideia germânica da posse, mas uma magistratura respeitável, em que o Rei não é um soberano que se reverencie de recuas sobre uma paisagem de forcas avergando como latadas, mas simplesmente um cabeça em que todos, grosso e miúdo, se reconhecem à uma.
Se o conceito de posse – de desfruto territorial – decidisse da feição peculiar da nossa Realeza, o predomínio seria mas era conferido aos próceres que, pares do monarca, haviam de primar em amos despóticos, sorvendo sofregamente o suor das populações soldadas à gleba. Engendrava-se um governo de casta, de índole feudal e militante, em que um ferrenho juízo aristocrático da sociedade cavaria diferenças fundas de campo para campo. Supunha-se deste modo uma situação primeira de guerra em [p. XII] que os naturais tivessem subsistido à derrota, mas como ilotas miseráveis que, se possuem préstimo, é só o de bestas de carga.
Bem pelo contrário, o carácter paternal da nossa Monarquia acha-se definido no significativo apelo que é o «Aqui del-Rei!» da tradição. «Pastor não mercenário» – chamariam os lavradores em cortes a Afonso V. Na frase acidental de um «capítulo» de Quatrocentos gravava-se para todo o sempre, não só a fisionomia própria das dinastias nacionais, mas discernia-se ainda o que sejam em verdade a amplitude e os recursos do princípio monárquico em si.
Não se ignora a verificadíssima lei sociológica que depõe na subida de um césar a melhoria sensível das classes espezinhadas. Os regimes electivos – ou consulares, como em Roma, ou mesmo vitalícios, como na Polónia – geram inevitavelmente a monopolização do poder nas mãos de uma oligarquia que promove a instabilidade nas direcções do Estado e conduz a uma regência perpétua de clientelas, derrubando-se umas às outras, na tarefa insana das Danaides da fábula. Já assim não acontece com as composições ditatoriais ou hereditárias. Evitam por qualidade de nascença a intromissão abusiva das castas e são as operárias zelosas da verdadeira capacidade civil do povo. Com a queda da república romana, é o patriciado que tomba entre os clamores irados da plebe. O Príncipe, que o substitui, acompanha-se de um respiro largo nas camadas [p. XIII] obscuras da população, contida no mais duro desprezo pelas regalias demasiadas com que a nobilitas se isentava. O pretenso sistema democrático da Grécia clássica resolve-se, no cabo, num morgadio de felizes que se apoiava na escravatura, com o retórico declamando no agoras, à custa do seu semelhante, todo torcido para a courela alheia, no calvário sem nome de a amanhar e fazer produzir. O título de cidadão restringia-se tanto quanto possível. E só quando os Tiranos se estreiam com um novo ciclo é que essa cinta de ferro se vence, atraindo ao seio da Cidade muitos esforços secularmente repudiados.
Sempre as batalhas da economia antiga terminaram pela vitória do ditador, cujo advento restituía ao agregado aquela justa harmonia já tão desejada pelo apólogo de Menénio Agripa. Repetem-se no decurso das idades as normas inflexíveis com que a história se governa. E ao longo do demorado período mediévico nós presenciamos o aparecimento das monarquias ocidentais com motivo predominante nas Comunas. É que as Comunas viam, sem hesitações, no poder real uma força que as defendia das tropelias do suserano e estabelecia ao mesmo tempo limites que lhes facultavam o desenvolvimento da sua actividade legítima. Manifesta-se aqui, com influências bem patentes, a teoria das «ordens» do Estado que, ressuscitada da constituição política de Aristóteles, São Tomás vai impor ao pensamento culto da Europa através das máximas vulgarizadas [p. XIV] no De regimine principum. O critério da «utilidade colectiva» ilumina a claríssima concepção, em que a euritmia dos edifícios helénicos distribui pelas partes do corpo social um senso notável de proporção e medida. O Rei não é mais o prócere dos próceres que arrecada o tributo e arrebanha os vassalos como gado. Os povos pertencem já a uma pátria moral que não conhece fronteiras e dentro da qual os malados valem tanto como os senhores.
É a ideia confraternizadora da Respublica Christiana que, difundida pela admirável criação teocrática da Igreja, promove laços de natureza espiritual que despertam nas nacionalidades adolescentes o sentido de um destino superior de que todos, pequenos e grandes, participam. A própria nobreza guerreira, nutrindo-se da turbulência gótica, deixa amaciar o seu germanismo depresa pelos propósitos solidaristas da Cavalaria. É a hora em que o Ocidente atinge a mocidade franca. Estuam-lhe nas veias as mais generosas seivas. A inquietação do génio ilumina-lhe a pupila sonhadora. E não sei que enlevo de subir lhe perfuma o coração, abrindo nos vôos da Catedral como uma flor magnífica das alturas.
Renascem hoje em dia os mesmos fundamentos reparadores da Realeza. Mais uma vez se confirma a inalterabilidade das leis históricas. Com os exemplos eloquentíssimos que o sindicalismo francês nos oferece e [p. XV] com o espectáculo que pega a destrinçar-se desse borrão confuso que é o bravio industrialismo yankee, já não sobejam dúvidas de que a salubrificação da economia produtora só se alcança por intermédio de um forte vínculo hereditário que não se socorra dos benefícios de uma classe, como nas democracias políticas em que os partidos põem e dispõem com feitores discricionários, mas que careça da colaboração diligente de todas as classes, a fim de durar e ser capaz de algum proveito.
A finança moderna, com o seu cortejo de consequências desastrosas, reedita as incertezas e as torturas de outrora, quando o feudalismo campava em açambarcador do género humano. Tão torvas que as condições passadas se nos apresentem debaixo de um tal aspecto, ao menos sustente-se em abono da verdade que o antigo adscrito seguia sempre, de transmissão em trans missão, a geira de terra a que andava ligado. Não tinha voto, nem o cumprimentavam em maré de eleições, como detentor de uma molécula de soberania. Mas, perpetuamente fixo ao solo em que nascera, o pobre servo da gleba, transitando de proprietário em proprietário, era – concordemos –, no relativismo da sua negra situação, bem mais venturoso do que o obreiro contemporâneo, porque não lhe faltava nem o tecto nem a subsistência.
Em combate desigual com a Máquina que o vence em toda a linha, eis o que não acontece com o operário do nosso tempo [p. XVI]que, vítima da tumefacção capitalista, ou se sujeita como um invertebrado inerte aos caprichos sem regra da Oferta-e-Procura, ou então marcha direito para a utopia revolucionária, com a inteligência elementaríssima mordida de milénios subversivos. Explorado pela gula nunca farta do oiro cosmopolita, quando não entretido pelos humanitarismos salivosos da miragem internacionalista, ele é eternamente, na oficina ou na barricada, a matéria bruta que se coloca como degrau de ascensão, ou para as delícias da confiança bancária, ou para os triunfos sórdidos dos agitadores profissionais. Falharam e continuam falhando as prestidigitações habilidosas dos arautos da Democracia. E o produtor, dando pelo ludíbrio, já entra a perceber que só nos quadros corporativos é que há-de achar a armadura vindoira dos seus interesses atropelados.
Derrota-se enfim o individualismo económico, filho dos Direitos do Homem e fonte perene de deperecimento e expoliação. Corrigidas as aparências anárquicas que aqui e além o acidentam ainda, o sindicalismo, sendo por todo o lado o regresso a uma sábia metodização do Trabalho, levanta-se de ora avante em face do futuro como uma norma enérgica de Disciplina e Competência. Consagra a diferenciação profissional e atribui autonomia aos vários agrupamentos técnicos. Por isso já não se esquiva a proclamar a necessidade de um permanente traço de coesão que ao centro assegure a [p. XVII] equipolência pacífica das diversas organizações sindicais. Cai-se deste modo na reabilitação estrondosa da Monarquia.
São da leitura corrente os formidáveis estudos filosóficos de Georges Sorel. Pois com Georges Valois e Edouard Berth a penetração sintética do ilustre doutrinário atinge as culminâncias do mais acabado espírito construtivo. A hipótese da Realeza-Operária, com o Príncipe mestre supremo do Trabalho, desceu já das controvérsias serenas dos intelectuais para os programas da acção imediata. Falido o equívoco liberalista em cem anos de prova abundante, é à ordem tradicional que se volta, não como uma devolução obscurantista em que prevaleçam misoneísmos inferiores de atrofia, mas como um acto de aceitação consciente para com a velha experiência das gerações extintas, que guarda com ela a chave misteriosa do nosso determinismo pessoal e colectivo.
Tão extraordinário que se revele este passeio pelos arraiais da sociologia, eu não o dispensava para varrer de pronto certos preconceitos dogmáticos com que se contradizem entre nós as virtudes evidentíssimas do princípio hereditário. Não só lhe recusam os respeitos que lhe devemos como agente primacial da formação da Nacionalidade, mas vai-se até ao ponto de se invocar o municipalismo característico da Raça como a condenação sem apelo dos regimes monárquicos em geral.
Eu [p. XVIII] não desejo desencadear, embora de baixo de um mero prisma científico, as susceptibilidades excessivas da psicologia dominante. O que não posso, todavia, consentir é que corra em julgado a sentença sectária que atira um risco de desprezo por cima da obra grandiosa dos nossos Reis – enquanto foram reis. Será talvez um assomo de coragem mental reconhecer a divindade dos deuses, quando os deuses caíram na desgraça. Será! Mas parece-me que não fica mal à minha mocidade ser desassombrada e sincera.
É bom advertir, contudo, que, reivindicando para a Realeza o papel decisivo que ela exerceu na formação da Nacionalidade, eu estou longe de me subordinar aos subjectivismos perniciosos de Oliveira Martins. O profundo iluminado da Vida de Nun’Álvares, através da sua tão querida teoria do Acaso, considerava-nos apenas como uma pátria inventada pela cobiça esperta de meia dúzia de aventureiros coroados. Bem opostamente, eu avanço nas passadas de Teófilo Braga, mas só naquela parte em que Teófilo defende as qualidades formosíssimas do Luso e inventaria as aptidões ancestrais que já do fundo dos séculos nos fadavam para povo livre e glorioso. Não somos um improviso das circunstâncias, desgarrados da incorporação no maciço castelhano por favor de ninguém. Dentro de nós, nas penumbras da nossa avoenga, reside, com a própira razão de ser da nossa personalidade, a razão inviolável do separatismo que sempre nos [p. XIX] individualizou. Já na Púnica o poeta Silius Italicus assinala a eterna divortia que dividia Iberos e Lusitanos. É do sentimento constante de uma diferença que o Instinto de Pátria se origina. Pelos merecimentos inatos da Raça nós ganhámos a dignidade de país independente. Os nossos Reis, erguendo-se à testa dos nossos recursos nativos e coordenando-os por meio da sequência sucessorial de uma família, é que nos conferiram a duração e a continuidade, sem as quais é positivo que ficaríamos em metade do caminho.
Compreende-se assim o significado que eu atribuo à missão histórica da Monarquia. Em referência à aliança das behetrias e dos ópidos, da qual a Pátria resultou, o seu valor não é outro que o daquele poder centrípeto que numa maré longa de pragmatismos e verificações, como é a actual, os próprios sindicalistas lhe estão reconhecendo. A função específica da Realeza para com as primitivas mancomunidades agrárias, equacionando-as e fazendo-as convergir para um mesmo destino, corresponde, com efeito, à regra de equilíbrio e isocronia que a ofensiva económica hodierna acaba de descobrir nesse órgão insubstituível de ponderação social que é o Rei.
De anacronismo desacreditado pelas fantasias desimpedidas do Progresso-Indefinido, eis que assume o viço invencível das coisas imortais. A nevrose atrabiliária da Revolução provocou angustiosos problemas que, longe de os solucionar, cada vez os [p. XX]agrava mais no prosseguimento da sua curva fatal. Como ontem, durante a carregada elaboração mediévica, a Monarquia oferece-nos a riqueza ilimitada dos seus recursos naturais. Ela é uma criação realista da sociedade, marca a saúde dos povos e mantém-nos em boa higiene política. Um pre conceito escusado! – eu sei que é a resposta de M. Bouteiller, vertido para vernáculo em quantos perus enrufados gaguejam para aí a cartilha decadente dos Direitos-do-Homem. Mas seja então um preconceito! Não nos esqueçamos, porém, que já Taine categorizava o preconceito como uma espécie de razão cujas razões se ignoram.
O negativismo étnico e a superstição da Liberdade são nesta pobre terra, desassistida da mais rudimentar cultura, os polos falsíssimos entre os quais se desdobra e toma posturas a inteligência indígena. A visão da nossa história entorta-se em prevenções rancorosas e em miragens inimigas que desvirtuam os grandes rumos da alma colectiva. «As nações perdem-se mais pelo erro do que pelo vício» – escrevia Le Play à boca dos desastres de 1870. Nós sofremos um tratamento errado que, a persistir, nos arremessará sem remédio para uma vala ignóbil em que até os epitáfios hão-de ser um sarcasmo. Surpreendidos pelas abstracções brilhantes do Humanismo, a febre egotética da Renascença empurrou-nos para a [p. XXI] tragédia da Índia, cheios de megalomanias esplendorosas. Quisemo-nos regenerar mais tarde – é verdade. Mas os areais de Alcácer, que não puderam tornar-se a porta aberta para uma existência direita, ensinaram-nos ao menos a temperar na expiação as cordas líricas do nosso génio adormecido. Seguiram-se colapsos, houve intermitências de vigor. E vai que talvez viéssemos a alevantar cabeça se o romantismo gaulês nos não salteasse em toda a fúria da sua desorganização do Sentimento.
Tutelados por incríveis quimeras exóticas, hoje desconhecemo-nos. Somos tal como o sonâmbulo que anda, mas automaticamente. No vazio absoluto em que um dia démos connosco, ao cabo de nos desbaratarmos atrás de mentiras doiradas e de cantigas pérfidas de sereia, entrou-nos até à medula dos ossos o vencidismo dos inúteis, que era o primeiro passo para a anulação cobarde dos suicidas. A série de desastres em que a pouco e pouco se nos foi definhando a virilidade, oh, nós não a denunciamos como o fruto maldito das importações estrangeiristas que intimamente nos dessoravam e dessoram o sangue! Antes a levamos à conta da nossa incapacidade de povo, fadado – dizíamos – mais para se conduzir em rebanho, que para empunhar nas mãos desajeitadas o báculo erecto de pastor. Já sem a esperança do Encoberto, a caravela lusitana ia-se ao fundo. Nas solidões do Mar-Tormentório só as almas-de-mestre lhe haviam de responsar a agonia, esquecido [p. XXII] nos hortejos de Enxabregas o bom São Frei Pedro Gonçalves de momentos melhores e de mais fortuna.
Tenta-se na crise presente uma séria valorização nacional. Apenas pela volta ao fio interrompido da Tradição se atalhará o despenho acelerado para o abismo. Tradição importa, não um ponto imóvel no Passado, não um enclausuramento em formas obsoletas e cristalizadas, mas sim a obediência consciente àquele determinismo de Raça e Meio que, gerado por inflexíveis condições históricas e físicas, não se aliena de nós sem se alienar conjuntamente a raiz da nossa própria personalidade.
Uma nacionalidade é um facto biológico, ao qual os caracteres hereditários, fixados pela recorrência atávica das gerações para o tipo único que as conforma, reveste de linhas que são tão suas, como é minha a disposição particular e incomunicável que a mim me imprimem os meus antecedentes familiares. Pensar em destruir esses caracteres, começando por ser uma revolta estulta contra as inalteráveis leis da ancestralidade, termina irreparavelmente na inutilização de quanto somos e de quanto queremos. O indivíduo só se explica como elo de uma cadeia que nunca se desata. A história, con siderada em globo, é a assembleia geral dos Defuntos e dos Nascituros. Nós não representamos adentro dela senão uma minoria insignificante, quase imperceptível. É na idealização do homem abstracto, tão abstracto como a Razão-Pura, que o erro metafísico [p. XXIII] do 93 se fortalece e ateima. Declara-nos libertos dos múltiplos vínculos de ordem moral e material que nos subordinam ao preceito provado dos Avós. E, de desfrenação em desfrenação, tesourados os laços colectivos da Comuna e da Oficina, chega-se ao ponto agudo de romper com a Família e com a Pátria. O libertário, colocado adentro do sofisma, é assim bem mais coerente com ele de que os democratas encartados da Soberania Popular.
Eu não compreendo o patriotismo da Revolução. Pátria vem de terra patrum, implica o reconhecimento dos valores afectivos institucionais do Passado. Não sendo um crente, Fustel de Coulanges mandava, contudo, no seu testamento que o enterrassem segundo os ritos da Igreja Católica. «Je désire un Service conforme à l’usage des Français, c’est à-dire un service à l’église. Je ne suis, à la vérité, ni pratiquant, ni croyant; mais je dois me souvenir que je suis né dans la religion catholique et que ceux qui m’ont précédé dans la vie étaient aussi catholiques. Le patriotisme exige que si l’on ne pense pas comme les ancêtres, on respecte au moins ce qu’ils ont pensé.»(1) Eis como se nos descobre a contornadíssima figura do autor de La Cité Antique nas suas disposições finais.
Também um dos nomes mais cotados do materialismo francês, o neurologista Jules Soury, declarando-se ateu irremível, confessava-se ao mesmo tempo católico e [p. XXIV] tradicionalista. Durante a existência, em nós nada há que não se transforme ou que não se renove. Somente os neurónios se conservam inalteráveis, do nascimento até ao óbito. Pois nos neurónios reside, como depósito das sensações estratificadas na ascendência, o motivo basilar da ideia de Pátria, que não é, consequentemente, uma ideia de convenção que se robusteça nos conceitos jurídicos da sociedade, mas antes uma realidade tão viva, tão palpitante em nós, como a nossa própria realidade. Sustentando esta razão fisiológica do patriotismo, Jules Soury batia-se pelas regalias civis da Igreja Católica em França, como guardiã secular da cultura autóctone. No aceso do processo Dreyfus lá o vimos a desmascarar o trama semita e pondo toda a sua indignação contra as cabalas sem honra que reabilitaram o Traidor.
Tem fundamentos parecidos o patriotismo revolucionário de ontem e de hoje? Oriundo do Homem impossível da célebre declaração de 89, considera as nacionalidades como um simples arranjo de interesses garantidos pela lei. São como que um estádio de transição, em que a divergência de fronteiras e o instinto de raça se hão-de apagar num quadro mais amplo e mais generoso, como é o da Nação-Humanidade. Não é outra a doutrina ortodoxa dos Imortais-Princípios. Há bem pouco ainda um político português, de ridículo e cordial recorte, assim o asseverava no ministério do Interior a pretos que o tinham procurado para protestar não sei contra quê e porquê. E regeu a [p. XXV] criatura uma cadeira de antropologia na Universidade de Coimbra!
Entende-se, pois, porque os libertários são, sem favor, mais sinceros e mais coerentes do que os governamentais paridos pelo solitarismo idílico de Jean-Jacques. Eles é que observam com pureza a verdadeira essência da liberdade teórica, advinda com as contemplações naturalistas do Ermo. Descendem em linha recta do nefasto espírito-de-análise, desse barbarismo sem nome nem dignidade que foi a vitória dos ideais protestantes sobre o claro entendimento do Ocidente. Vítimas de um conflito inapaziguável, julgam lutar, lutar, até às últimas, pela sua emancipação de bestas de carga. No apuro de contas, é contra si que lutam, é contra si que enclavinham as mãos torcionadas, porque na demência que os seduz e avassala, é contra a regra natural de sempre que nós os vemos alevantar, de raivas na boca e os olhos em sangue, bramindo como endemoninhados. Auguste Comte é que soltou um veredictuminexorável. «Insurreição do indivíduo contra a espécie» – exclamava o vidente da Rue Monsieur-le-Prince quando era preciso marcar com um ferro em brasa a balbúrdia sinistra da Revolução.
A causa aguda do nosso eclipse mortal deriva, sem dúvida, das máximas negativas com que a Enciclopédia superexcitou uma época de imaginação e melancolia. Vagarosamente nos ressarcíramos das feridas abertas pelo delírio ecuménico da Conquista. A Feliz-Aclamação, depois do aprendizado [p. XXVI] magnífico com que nos exercitaram sessenta anos de cativeiro, soubera-nos restituir os prodigiosos recursos do Luso. Mas aproximava-se a era das interrogações intelectualistas com Descartes por corifeu. O Discurso do Método chegaria a toda a parte, transportando para as categorias psicológicas dos países ocidentais o ácido corrosivo do «livre exame». O estadismo enfático do século XVIII apossava-se das direcções supremas da governança. À pluralidade riquíssima dos costumes e das instituições sobrepõe-se uma inteiriçada construção geométrica, em que a espontaneidade social se amarfanha e morre sufocada. O vento tumultuário do Contrato provoca a erupção da catástrofe. Descobre-se o Luar, amam-se as ruínas fingidas. E em seguida a um espasmo ideológico em que vai abaixo a Pátria Portuguesa no desaforado empenho com que lhe refazem o arcaboiço e lhe derrubam os suportes, as flutuações e as névoas tomam conta de nós. É um lento soçobrar de naufrágio nas águas podres de um pântano, com uma expressão alvar de indiferença estereotipando-se em cinismo.
Oh!, mas nem tudo se perdeu nas jornadas de 1830 com Mouzinho da Silveira aluindo as paredes mestras da Nacionalidade à força de reformismos e mais reformismos. O «Coração-sensível» traiu-nos nos seus entusiasmos de melodrama. A Carta eu a tenho como uma pregoeira de impudor, leiloando a casa dos vivos, enquanto não punha em praça o palmo e meio de chão [p. XXVII] onde os mortos jaziam. No embuste constitucionalista continha-se, de corpo e alma, a paranóia de tragicomédia que hoje nos leva desarvorados como uma nave sem rumo. O que nos aguarda ao termo da doida correria? Ausculte-se o sentir de Portugal num apelo decidido às energias que porventura escapassem intactas! Lancemos um grito de fé que congregue para a grande batalha todas as criaturas de Boa-Vontade! Não têm número os preconceitos que nos estorvam um gesto, que nos depõem em aposentação, convencidos de que o requiem final não demora aí. Mas se uma claridade súbita nos desembaraçar a estrada e nos conferir o esvaído dom de uma finalidade que nos aglutine na demanda do mesmo destino, esta apagada e vil tristeza há-de ser como a bruma fácil de Setembro esfarrapando-se pelas alturas, ao contacto de aragem.
Nem tudo se perdeu nas jornadas fatais de 1830 – dizia eu. É que, se o carnaval permanente dos políticos prostituía o decoro colectivo, reduzindo os mais nobres estímulos cívicos a formulários despidos de senso, uma legião de trabalhadores fervorosos não deixara, no entretanto, de arrecadar da lareira obstruída da Raça as desperdiçadas riquezas do nosso tesouro tradicional. A ignorância do Povo – bendita essa ignorância! –, resistindo à esponja uniformizadora dos improvisos administrativos, mantivera consigo, nos recessos mais interditos do seu subconsciente, o sinal divino do génio lusitanista. Vendida pelos bazares [p. XXVIII] torpes da Regeneração, em que Pacheco campava de braço dado com Acácio, a Pátria era como uma escrava anónima, neta de Santos e de Reis, cuja árvore de costado se houvesse perdido no desabar do prestígio antigo. Então, no afastamento fecundo das províncias que o urbanismo principiava a despaísar, é que os folcloristas e os arqueólogos, pelas seroadas intérminas do bom saber, acudiram, de ânimo contente e dedicação enlevada, ao património em almoeda. Se um dia Portugal tornar a ser Portugal, com os heróis afonsinos que libertaram o solo e estabeleceram a Grei, teremos que reverenciar não só os letrados e os demais burguêses de Quatrocentos que ultimaram a fábrica robusta da Nacionalidade. Ao lado deles, emparceirando com os nossos epónimos mais veneráveis, figurarão, por justiça dos vindoiros, os obreiros iluminados da Revista Lusitana e da Portugália. Alcemos os corações ao alto! Não é um povo moribundo o povo que sente por si o testemunho de Estácio da Veiga, de Martins Sarmento, de Rocha Peixoto, de António Tomás Pires, de Santos Rocha, de Fonseca Cardoso – para não falar senão naqueles que a morte nos arrepanhou. Os materiais encontram-se carreados com desvelo e com canseiras. Cabe agora à geração que sobe traçar o plano, meter o esforço à santa cruzada do resgate! Cumpre-nos, por um encargo indeclinável, congraçar numa síntese positivista os subsídios trazidos dos quatro cantos da esfera. A Verdade portuguesa aparecerá [p. XXIX] assim como um sistema prático de cura aos que já não crêem no soerguimento da Pátria.
É como que um breviário do que seja em esboço a doutrina nacionalista da hora futura que eu procuro realizar aqui, num exame rápido dos seus artigos fundamentais. Escolhendo este assunto para uma dissertação oficial, o meu desejo é ver discutidas no campo sereno da ciência as razões medulares do Integralismo Lusitano. Condensam-se num feixe minguado de páginas os resultados incontestáveis de tanto lustro de pesquisas e interrogações. O momento de afirmar chegou. Com a atenção poisada em monografias do mais variado eruditismo, eu pergunto se não soa o instante de se destrinçar o fio que entrelaça no pendor das mesmas conclusões a obra de um Teófilo Braga com a de um Adolfo Coelho – por exemplo –, tão antagónicas que se nos manifestam as suas posturas de escola e de especialização? Leite de Vasconcelos, Henrique da Gama Barros, e Sousa Costa Lobo completam Herculano, rectificam Oliveira Martins. Passou a fase negativa em que a corrosão liberalenga alastrava pavorosamente por cima dos nossos motivos de crer e de querer. Com o inventário efectuado com tanto amor por folcloristas e arqueólogos, a ninguém é já lícito desconfiar se somos um povo, se temos direito de sê-lo.
Denunciem-se os pessimismos e os ludíbrios que nos colocaram à margem do coma derradeiro. Pelo espírito histórico [p. XXX]rejuvenescido, restituamos à Nacionalidade adormentada o seu inviolável «meio-vital». Com Stein e Mommsen se formou a Alemanha moderna. O historiador antecedeu o político. Que nos importam os negrumes deste minuto pesado, com o estrangeiro do interior mandando entre nós? Quando Fichte proclamava nos seus discursos à nação alemã a superioridade universal do génio germânico, havia em Berlim um governador francês.
[p. 1 e 2] ### [II] A hipótese do Homo-Europaeus
[p. 3] A população portuguesa é no seu fundo antropológico reputada como a mais homogénea de toda a Europa. O tipo autóctone pertence ao grupo dito de Beaumes-Chaudes e encontra entre nós o exemplo mais completo no homem chamado de Mugem.(2)
O homem chamado de Mugem é o dolicóide meão, moreno e mesorrínico, que predomina ainda com maior ou menor pureza nas regiões insuladas da montanha. Identifica-se genericamente com o padrão mediterrâneo ou arábico (Homo-mediterraneus ou homo-arabicus) e filia-se nesse recuado mundo étnico que, desenrolando-se sobretudo à volta das zonas marítimas, se veio a revelar como possuidor de uma alta capacidade de cultura através da brilhante civilização egeana. São os pelasgos da tradição imemorial, óptimos fundadores de cidades, com um assinalado génio pacífico e construtor. Congregados numa vasta irmandade que tomava quase as costas atlânticas e rompia pelo Estreito adentro, cedo conheceram a navegação e o comércio, conquanto as suas preferências fossem sedentárias e agrícolas. É ao Levante, em Creta principalmente, que atingem o apogeu da influência, chegando a determinar as grandes direcções religiosas e artísticas do Oriente dominador.
[p. 4] Uma revolução se consuma assim nos âmbitos serenos da ciência. A miragem asiática desfalece de hora para hora; e o centro irradiador dos primeiros passos da humanidade é para os nossos lados que se desloca – para a misteriosa Ophiusa dos périplos fenícios. Perante os resultados concludentes da investigação arqueológica, a marcha do Sol, com efeito, não governa mais o rumo dos êxodos antigos. Não foi do Nascente maravilhoso que as ideias e as Formas, ainda na infância, partiram com vagares processionais com rumo às desvairadas ribas para onde Eurcpa fugiu, cavalgando o touro sagrado. É antes sobre o Atlântico que nós temos de procurar um dos mais ricos larários da Terra em expectação. Vão-se abaixo as impertinências monogénicas e atrás delas abala todo o aparato teórico com que mais de meio século de presunções e apriorismos se entreteve a improvisar origens. Está bem apeado de altar-mor dos Povos o majestoso Pamir com os seus rios sagrados banhando-lhe as faldas em adoração. O Ex Oriente lux! da velha invocação teúrgica já o não saúda como o berço místico das gerações ajoelhadas. Filhos dos deuses, gente eleita para o supremo ofício de iniciadores, os Árias já se não têm por descidos dos planaltos augustos – nem o Cáucaso, venerado como ninho paterno da família branca, se estiliza mais para a nossa contemplação com as linhas enigmáticas de lugar privilegiado. O alvião esfrangalhou o mito. A filologia não se condoeu e desfê-lo de uma vez.
Sabe-se hoje que as sucessivas civilizações europeias foram até à época da Téne(3) de pura extracção indígena. Uma forte cultura neolítica se desenvolveria em leque, segundo Salomon Reinach, com eixo de apoio na Europa central ou nórdica.(4) Desse ponto, problemático por enquanto, se despediriam para a periferia os admiráveis embriões que vieram depois a adquirir suficiência própria, mal raiou o [p. 5] conhecimento dos metais. Imaginou-se por largos tempos que a religiosidade, a agricultura e a indústria não passavam de importações comunicadas da Ásia por formidáveis massas humanas, marchando lentamente para a ocupação do Orbe. Porém, o vaso classificado de Furfooz,(5) de atestada precedência quaternária, invalida a peregrina hipótese sem mais embargo nem apelação.
As sepulturas do Solutré, por outro lado, mostram-nos o culto dos mortos exercido já com intensidade na transição mesolítica do Ocidente. Não resiste à mesma contraprova a opinião, longamente professada, de que os animais domésticos seriam introduzidos aqui por bandos exóticos. É que o cavalo e o boi não representam uma espécie zoológica localizada em qualquer rincão favorecido da Ásia. Achavam-se espalhados no estado selvagem por todo o nosso continente. E a sua domesticidade, como a do cão, do porco e dos outros animais congéneres, abona-se à farta pelos restos recolhidos em bastantes estações pré-históricas, garantidas pelos mais rigorosos caracteres de autoctonia.(6)
Mas onde o desbarate é ruidoso é no campo da linguística. Demite-se o sânscrito da dignidade de língua-mãe, apurando-se que o lituano é bem mais anterior nas embaraçadas genealogias idiomáticas.(7) Comparadas as diversas línguas europeias com essa respeitável sobrevivência, vê-se que lhe guardaram com aproximação a morfologia e a fonética, sem que demostrem parentesco mais velho com a língua suposta dos Árias. A crítica encarniça-se deveras em denunciar o equívoco. À queda do sânscrito segue-se a dos Vedas e a do Avesta como literatura inicial da humanidade. As mitografias engenhosas de Max Müller esboroam-se irremediavelmente. E nós ficámos sabendo por [p. 6] trabalhos notabilíssimos que o Ramayana não ascende talvez a 1000 anos antes de Cristo.(8)
Criaram-se ilusões sobre a remota antiguidade da escrita indiana. Pois actualmente apenas se considera como uma derivação dos alfabetos grego e arménio, de data posterior a Alexandre Magno. É também a data do Avesta, depositário dos tesoiros teogónicos do Turan. Coincide a sua aparição com a renascença persa operada sob os Sassânidas três séculos depois de Cristo, sendo o livro sagrado da religião contemporânea dos Acménides. Penetram-no elementos morais e filosóficos, devidos a um contacto evidente com o judaísmo e com o belo espírito neoplatónico. A redação é em çerad, idioma morto, de exclusivo emprego sacerdotal.(9)
Igual proveniência asiática se quis atribuir à metalurgia. Fixou-se em Malaca e em Banca a sede de importantes jazigos minerais que alimentariam a Europa durante os alvores do metal. Mais uma ficção que se pulveriza, batida pela realidade crescente! A Península, opulenta de cobre, prelimina o esplendor do período bronzífero. É às Cassitérides que as naves rudimentares dos Atlantes vão buscar o estanho necessário ao fabrico do bronze. Propulsores de uma ampla faina mercantil que em nada se agradece às parcas transmissões semitas, os Albiões pesquisam e traficam ali uma espantosa abundância de minério. O movimento de exportação efectua-se para o sudoeste de Espanha – para Tartessus –, com roteiros assentes, bordejando as costas, e para o âmago da Europa pelas estradas fluviais do Ródano, Danúbio e Reno. A civilização de bronze sobe por isso entre nós a um ciclo bem mais afastado que o da chegada das [p. 7] vanguardas fenícias ao Mar de Norte ou Mar Crónio no século XII a.C.(10)
O mobiliário recolhido nas cidades lacustres da Suíça permite-nos recuar mais longe. Um povo que utilizava o bronze e dispunha de uma marinha apreciável já se estabelecera na Sicília anteriormente à guerra de Tróia – na Sicília dos Cíclopes e dos Listrigões da criação homérica. A civilização do bronze reveste-se, pelo exposto, de inteira autonomia no Ocidente. Instrumentos exumados no Egipto e na Caldeia denunciaram pela análise química uma proporção inalterável de nove partes de cobre para uma parte de estanho. É a liga que se observa com regularidade nos objectos desenterrados em toda a latitude oeste-europeia.(11) Não se pense, por conseguinte, na aclimatação da metalurgia. Cobre havia-o no Egipto, mas o navegador tírio atravessa precisamente o Estreito para obter o estanho que não se encontrava nas paragens levantinas.
Intima-se a cruz gamada ou suástica para se documentar a dimanação oriental dos artefactos metálicos da nossa cultura arcaica. No fim de contas, os mais antigos exemplares do tetracelo não atingem para lá do século XIX a.C. Descobriram-se em Hissarlik, não sendo o suástica mais idoso na Índia que a ocupação macedónica – ao que parece. Nos cortes realizados em estações da Assíria não se lhe apanharam rastos. Só num baixo-relevo de Ibriz se ostenta como insignia nas vestes de um personagem que é a olhos visto completamente estranho à civilização babilónica.(12)
Ao mesmo tempo, a passagem da indústria da pedra para o uso dos metais é afiançada nas explorações arqueológicas do Ocidente como um acontecimento normal que não oferece reticências nem saltos bruscos. Numerosos são os dólmenes em que [p. 8] as duas idades, uma no declínio, a outra apenas amanhecendo, coexistem em igual abundância de despojos. Enquanto se admitiu que ao neolítico sucedera imediatamente o período do bronze, a miragem orientalista pôde prevalecer em senhora absoluta. Pressentida, porém, pelo nosso Estácio da Veiga, a época do cobre afirma-se hoje como um termo indubitável de transição. À Península, povoada desde o fundo da pré-história por um enxame numeroso e diligente, coube uma actividade de destaque nesses prelúdios longínquos da civilização.
É que o homem da idade da pedra, dolicocéfalo e autóctone, foi portador de uma cultura brilhante. As ilhas do Atlântico já então se viam habitadas. A navegação aqui é infinitamente mais velha que as decantadas empresas náuticas dos mercadores de Sídon e Tiro. Cita-se Furti como a primeira feitoria fenícia nas Espanhas. Ora, quando os flibusteiros de Canaã atravessam as Colunas, os seus périplos instruem-se com os esclarecimentos dos marítimos indígenas, familiarizados de sempre com a via aquática que levava direito às Cassitérides. Mais arrojadas que as outras raças do Levante mediterrânico, as gentes manhosas da Fenícia arriscaram-se até às plagas de mistério em que a mitologia instalara o Orco terrível. Empurrava-as já o génio cosmopolita do vendilhão que mais tarde iria pelo Universo fora propagando as seduções do Bezerro-de-Oiro. Mas ao transpor os limites máximos do mundo conhecido, em vez de se defrontarem com os monstros marinhos da Fábula, atalaiando de noite e dia o rio Oceano, por cujas ribas desoladas os Manes se arrastariam aos ais, é com uma civilização assombrosa que se encontram cara a cara na sua ganância solerte de andadores de bons negócios.
De cá haviam de levar o alfabeto, que no Ocidente se evidencia em inscrições que sobem provavelmente aos últimos adeuses do neolítico.(13) [p. 9] De cá transportaram cultos e ritualismos, costumes e práticas sociais. Um apertado isolamento nos envolvia. Cuidadosamente o conservaram os nossos descobridores de acaso. Falhos de capacidade inventiva, como todo o semita, valia-lhes a inexcedível força de assimilação que caracteriza as imaginações sensíveis.
Mergulhados no silêncio e na sombra, nós continuámos a trabalhar para eles. E são eles que, apossando-se das conquistas naturais do nosso engenho, figuram perante os textos clássicos como os criadores de quantos dons de indústria e de sociabilidade a profunda alma atlântica ensinou às compactas massas humanas do período do bronze. Eis como se concebeu o demorado preconceito fenício que tanto vicia a bela mentalidade de Herculano e obliqua em perspectivas erróneas as conclusões do insigne Martins Sarmento, sem dúvida um dos grandes anunciadores da moderna corrente ocidentalista.
Pergunta-se agora: desfalcada dos atributos sobranceiros de dogma a excessiva preocupação monogénica de tantos e quantos doutrinários, a que é que se reduz o arianismo teórico – houve ou não houve, com efeito, um grupo étnico, mais dotado que os outros, detentor de faculdades mais agudas de percepção, ao qual estivesse reservado, como um presente celeste, a chave das primeiras marchas civilizadoras do homem?
Um problema de intrincada disputa se relaciona com tão legítima interrogação. Não são alheias a ele as mil e uma querelas que se desenrolam em torno da concepção evolucionista da Vida. Eu não quero chamar para as fronteiras acanhadas do presente inventário o debate de um semelhante assunto. Nem os elementos de que disponho me ajudam de modo a equacioná-lo com a requerida idoneidade científica. Não exorbito, contudo, se asseverar que a impossibilidade física do avô terciário é hoje recebida quase unanimemente como uma certeza entre as certezas. O achado de Dubois em Trinil não [p. 10] salvou do descrédito a fantasia romanesca do Precursor. Baldaram-se as fadigas apostólicas de Haeckel, tão depressa se lhe surpreendeu a falsificação das suas famosas fotografias embriogénicas. O pobre doutor de Iena, do alto do seu pontificado monista, viu-se compelido a declarações que lhe comprometeram para todo o sempre a reputação de cientista honesto. «Depois de uma aventura tão esmagadora, decerto que me considero inexoravelmente desprestigiado», confessava ele em 29 de Dezembro de 1908 no Volkzeitung, de Berlim. «Mas eu consolava-me se ao meu lado se assentassem no banco dos réus centenas e centenas de cúmplices que, biólogos afamados, cheios da confiança geral, usam e abusam dos mesmos processos.»(14)
O transformismo sofreu com a exautoração do patriarca um golpe mortal. Não admitindo para a origem da existência senão um tipo rudimentar de vida, provido, no entanto, de poderosas energias elaboradoras, abandonou-se à hipótese quimérica de um progresso indefinido, por virtude do qual os minerais passariam a vegetais, os vegetais a animais, rompendo estes pela monera acima e concluindo no homem ao fim de vinte e quatro estádios, assinalados sem maior cerimónia pelo professor alemão. Caía-se na geração espontânea – o que se pretendia era negar a evidência de um supremo acto criador. Tinham corrido mundo as descobertas sensacionais de Pasteur. Dominados, entrementes, pela obsessão materialista, três sábios categorizados, Pouchet, Joly e Musset, sustentaram que a experiência os conduzira a resultados contrários aos do seu ilustre compatriota. Durante um momento M. Homais respirou com alívio. Sol de pouca dura foi a alegria farisaica do boticário de Rouen! Um testemunho insuspeito surgia dentro em pouco da parte de Tyndall, cujas tendências antiespiritualistas se não desconheciam. Adepto das [p. 11] teorias novas em princípio, Tyndall acabou por confirmar as leis biológicas que Pasteur formulara, chegando à verificação delas por processos diferentes. «Não há na ciência experimental nada de mais positivo» – asseverava ele mais tarde em acto de contrição.(15)
Depoimentos de peso deram em se ajuntar uns aos outros. A paleontologia pela boca de Banco, director do Instituto Geológico de Berlim, veio dizer que não se conheciam antepassados ao homem, pois nunca seria possível atribuir a ascendência de todos os organismos vivos a um tronco único. Por outra banda, Charles Richet sustentava em público e raso que entre o primeiro dos macacos e o último dos homens se abria um fosso que ninguém transpunha. E Huxley, que se alcunhara de bulldog do transformismo, renegou-o depois numa conversão estrondosíssima.
Com Huxley é que aconteceu a deliciosa aventura do Bathybius. Era o Bathybius uma espécie de muco amorfo, agarrado às profundidades do mar, que pela sua natureza primordial e viscosa podia muito bem ser um produto espontâneo do protoplasma. Huxley fez alarde com a descoberta e dedicou-a a Haeckel, seu amigo, qui en avait grand besoin – ilucida a ironia mansa de alguém. Pois, transitados onze anos – o Bathybius alarmara o pensamento científico por volta de 1868 – o próprio Huxley assistia em 1879 a um congresso de sábios, reunido em Sheffield. No discurso de abertura, o presidente alude intusiasticamente ao Bathybius. Huxley, mal o ouve, pede logo a palavra. E é Huxley, pai do Bathybius, introdutor na biologia de uma monera tão alcovitada – é Huxley, diante de assembleia suspensa de pasmo, que conta com frouxos de riso a história divertidíssima da sua descoberta. Ai de nós, o Bathybyus não ia além de um pobre precipitado gelatinoso do sulfato de [p. 12] cal com alguma matéria orgânica à mistura!(16) Submetido ao exame do microscópio, revelou-se como uma mucosidade expelida por certos zoófitos quando os roçam os engenhos de pesca. Assim o observou Milne-Edwards nos seus estudos oceanográficos. No que viera a parar a glória do monismo! Já se lhe procurara até um ascendente. Das entranhas do Mar-Árctico se arrancara nada mais, nada menos, do que o Proto-Bathybius!
Georges Sorel tinha razão quando classificou as curiosas hipóteses evolucionistas de Haeckel & Cia. como contos mitológicos iguais àqueles que faziam as delícias dos antigos serões aristocráticos. «As consequências do alvoroço provocado por estes contos modernos, anota o filósofo, são de importância, porque os seus leitores convencem-se de que podem resolver-se todas as dificuldades que a vida diária nos oferece, da mesma maneira por que se resolvem todas as que existem na cosmologia. Provém daí a confiança insensata na deliberação das pessoas instruídas e que é uma das bases ideológicas da superstição do Estado contemporâneo.»(17)
Eis como o ludíbrio racionalista se socorre dos abusos derivados da doutrina de Darwin. A ela pediu a utopia revolucionária a justificação dos mais dementados gregarismos, tentando explicar o conceito milenarista da Cidade-Futura pelo sentido biológico da Evolução segundo o princípio do aperfeiçoamento ideal para que os seres tendem indefinidamente, através de alterações consecutivas e incessantes. A instabilidade arvorara-se em segura regra científica e sociológica. Não houve invenção subversiva que não se autorizasse com a nomenclatura pomposa do transformismo. Gerou-se a crendice baixa do Progresso que os caixeiros-viajantes ostentam pelos botequins em [p. 13] luxos intelectuais de ínfima marca. As chamadas «ideias-avançadas» ganharam foros respeitáveis, graças a legiões e legiões de primários alimentados de uma palavrosa cultura oficial. Eu não insisto no rosário de desastres a que as sentenças dogmáticas da Evolução arrastaram o período histórico que a guerra presente sepulta com duas pazadas e meia de terra na vala mortuária das coisas sem nome. Basta que assinale a emenda por que está passando o critério correntio de Evolução com as descobertas sensacionais de René Quinton.
«Evolução» já não significa «mudança», «modificação», mas antes «permanência, «fixidês». Toda a manobra afincada da Vida se empenha em manter integralmente as condições específicas da sua génese. É o princípio designado por lei da constância original dos seres. Réné Quinton, definindo-o, ensina-nos que o homem é um animal dos trópicos, não subsistindo senão no estado natural nas vizinhanças do Equador. «Son habit, sous les latitudes plus hautes», declara ele, «est secondaire et tout à fait artificielle ne le mantient que grâce à des vêtements protecteurs qui ménagent son rayonnement et à l’usage du feu, par lequel il élève la température du milieu ambiant. Comme les végétaux des tropiques qu’il cultive industrieusement, l’Homme sous nos latitudes et plus de dix mois de l’année ne vit qu’en ‘serre chaude’.»(18) Para os que dobram o joelho em frente do fetichismo aparatoso do Progresso, a ciência aparece-lhes de súbito a informá-los – oh, que desapontamento! – que só por uma deficiência fisiológica o homo-sapiens se viu na necessidade de apurar o instinto e de suprir por tentativas dolorosas contra as exigências constantes do mínimo-esforço essa falha irreparável que dentro de nós deu sinal de si, logo que o resfriamento do globo entrou a prejudicar o equilíbrio térmico das nossas funções vitais.
Prova-se, afinal, que o Progresso reside na razão inversa da viabilidade física dos seres. [p. 14] Aonde é que se refugia assim, com um desacato tamanho, o nosso orgulho de emancipados, mirando-se e remirando-se numa civilização de aranhiços de aço, tão ancho, tão gordo de vaidade, que até parecia ter a Deus em casa, debaixo do travesseiro? Eu oiço desfalecer a voz papuda do Pinto Porto – «Quem não admirará as conquistas deste século? –, no fonógrafo destemperadíssimo de Jacinto Galião. Mas, em recompensa, desembaraçado o pensa mento de materialismos sectários, uma nova claridade nos comunica o verdadeiro senso do mundo, rasgando perspectivas inéditas à inteligência, quando exercida como meio de conhecimento, nunca como sacerdotisa suprema que oficie de De omni re scibili.
O homo-sapiens desce de pronto para homo-faber. A luta contra nós mesmos – a luta inapaziguável contra as seduções da menor fadiga – leva-nos a batalhar duramente, à chuva e ao sol, de noite e dia – «Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto», manda a palavra divina –, para que obtenhamos da hostilidade da natureza a permissão custosíssima de prevalecer. O fundo optimista das pregações democráticas, com os paroxismos líricos do cidadão de Genebra proclamando a bondade nativa do homem, não é senão o vapor de um sonho tonto com que se procuram sobredoirar as imposições draconianas do streuggle. Bem pelo contrário, baseada na deficiência dos nossos recursos, a guerra é o motivo primacial da Vida, envolvendo, com um empenhado trabalho selecionista, a defesa sanitária de nós próprios contra os apetites rebeldes que – sereias a amolentar-nos – a cada hora nos convidam a não agir. Por isso o conteúdo pessimista das religiões, preceituando a inibição como regra mais aceitável de melhoria moral, não só se combina com o propósito conservador da Espécie, como serve, da única forma perdurável e eficaz, a valorização crescente do vertebrado anónimo que, pela ideia da renúncia e do ascetismo, se possuiu de uma finalidade e pôde com ela vencer as sombras da sua noite inferior.
[p. 15] As directrizes projetadas pelas conclusões de René Quinton, modificando o sentido caprichoso da Evolução, acabaram por desvanecer a fantasia de Mortillet que inferira dos sílices de Thenay e de Ota a presença de um indivíduo que se inclinava de simpatia para os lagos e já obtinha o fogo pela percussão da pederneira. Seria o Precursor, destinado tão somente a «ennuyer les cures». Na distribuição graciosa do seu inventor, coube-nos um – o Anthropopithecus-Ribeiroi, em homenagem ao general Carlos Ribeiro que andara pelos vales do Tejo arrepanhando bocados de rocha, com indícios de corte intencional. Trata-se de uma novela como tantas outras! E é com indignada veemência que o ilustre Lapparent acentua que uma criatura que fazia como Mortillet profissão de ciência positiva não recuava em «créer un nom de genre pour désigner un animal dont il n’existait pas le moindre vestige».(19)
Parecida, só a história alegre dos eolitos. Teve aplausos e foi moda, na Bélgica sobretudo, a corrente sábia que se entreteve a prefaciar o período paleolítico como essa nova idade pré-histórica. Travaram-se pelejas, tremeu Tróia. Mas, no grosso da contenda, quando as bibliotecas se pejavam de doutoralíssimas dissertações e Bizâncio ressuscitava nos domínios da arqueologia, salta de chofre a notícia da fabricação espontânea dos misteriosos calhaus em que se pretendia descortinar os traços mal ensaiados de uma indústria mais rudimentar que a da pedra lascada. É uma anedota muito comprida, que me desviaria do meu roteiro, se a contasse.
Basta saber-se que a questão morreu estrangulada em apartes de facécia, ao divulgar-se a notícia de que sílices como os eolitos famigerados do arqueólogo Rutot se produziam numa oficina de ci mento em Guerville, onde os estratos de pedra deixados por assimilar dentro das cubas tomavam exactamente as mesmas formas e a mesma [p. 16] configuração. «Or ce que l’appareil de Querville acomplit en vingt neuf heures, grâce à la rapide rolation de là herse, les rivières quaternaires l’ont fait aussi pour leur compte, plus lentement, sans doute, mais en se repprenant à bien des fois.»(20)
Pois o falado e refalado homem fóssil abala como os eolitos, toma por caminho igual. O mâchoire celebérrimo do Moulin-Quignon sumiu-se já das reflexões científicas, e não tardará talvez que a antiguidade das raças ditas de Cannstatt e de Neandertal transite de generalização exagerada para os limites mais comezinhos de uma observação incompleta. Não se compreende com rigor que, dos restos de um crânio apenas e do exame circunscrito de um esqueleto que circunstâncias ignoradas podiam ter inumado em jazimentos arcaicos, se deduzisse toda a reconstituição de um tipo étnico que, a avaliar pelos pormenores descritivos em que os especialistas se extenuam, era como que uma realidade de hoje em dia, passeando por aí ao sol claro, ombro a ombro connosco.
Correm a tal respeito as apreciações mais divergentes. Mas a maioria propende a classificar como duvidosas essas peças osteológicas e encará-las como pertencentes a tempos menos recuados. Só em 1835, cento e trinta e cinco anos depois de ser achado, é que o crânio de Cannstatt recebe a primeira alusão. Discorrendo acerca dos fósseis mamelóides do Wurtemberg, Jaeger refere àquela data que num museu de Stuttgart se encontravam uns fragmentos de crânio, recolhidos, segundo indicação local, de mistura com uns vasos antigos no ano de 1700. Nada se conhecia já então das condições do depósito. Que subsídios de crédito habilitavam, portanto, a ciência a emitir um juízo seguro, quando decorrera mais de um século sobre o aparecimento de tão minguadas provas, para que se edificasse com elas uma certeza antropológica como a que se inculca no homem qualificado de Cannstatt?
[p. 17] É análogo o caso do esqueleto de Neandertal, consagrado com ruído pela escola de Mortillet como parente próximo dos grandes antropóides do terciário. Treparia ainda pelas árvores com a maior ligeireza, como parecia demonstrá-lo a sua conformação óssea. Não faltaram nem croquis nem notas de habitat – numa imaginação pródiga de romance-folhetim. No cabo, esmiuçadas as circunstâncias da proveniência, em seguida a memórias e memórias que guarneceriam uma livraria inteira, apura-se que ninguém estudou in situ o esqueleto de Neandertal, nem tão-pouco se procedeu a uma séria análise petrográfica da caverna em que fora desenterrado.(21)
Reduzido assim a proporções cada vez mais infelizes, com a desonra crescente do homem fóssil, o Precursor foi descaindo de dia para dia num ridículo inexorável. Primara por momentos nas mentalidades obstinadas. Desfalecido, porém, o clamor do sucesso, diminuíra-se, diminuía-se ao ponto de não ser dentro de breve senão uma grossa caricatura simiesca, de regresso ao simples mito – ao vago nebuloso de uns tantos cérebros, de onde jamais devera ter saído. Agora René Qninton termina a exploração. Debruçado no laboratório e à face dos dados fornecidos pela anatomia comparada, não só nos ensina, contra os dogmas correntios do transformismo, que o homem não é o verdadeiro termo da escala dos Vertebrados, como também nos revela que os Voláteis são orgânica e cronologicamente posteriores aos Mamíferos – em contraposição com as ideias ministradas pelo saber oficial.
Enquadrado na ordem dos Primatas, há mesmo Mamíferos mais recentes que o homem. São os Carnívoros e os Unguladas.(22) É, como se vê, o fim do devenir insaciável que, partindo da monera embrionária, apenas se considera consumado ao atingirem-se as linhas luminosas do entendimento. Com [p. 18] uma genealogia exclusivamente sua, o homem não coroa, pelo exposto, o esbracejar frondoso das linhagens zoológicas. É um ser procurando manter, como todos os seres, a respectiva constância original. Fixou-se. E desde que se fixou, foi uma espécie, não sendo mais que a perpetuidade de um tipo que se reproduz indefinidamente. Os orgulhos racionalistas, apontando-o como uma vitória das forças cegas da matéria, concedem-lhe, entretanto, não sei que virtudes geradoras de moral e de destino, que permanecem inexplicáveis sem a admissão de um quantum de mistério que M. Homais se enfurece a negar.
Como crente e em nome da cultura que tenho buscado para o meu espírito, eu aceito a concepção religiosa. Não é um refúgio cómodo nem uma desculpa hipócrita. Ignoramus et ignorabimus! – mais do que nunca exclama o sábio honesto. Não é pela inteligência que o homem se compreende e se justifica. A inteligência, unilateral e rígida, unicamente concebe o que é visível e geométrico.(23) O homo-sapiens não passa de homo-faber. Se enumera triunfos, é apenas no campo da mecânica. Anterior à inteligência e mais duradoiro de que ela, há um universo marulhante em que vivemos mergulhados e com o qual comunicamos, não pela razão – pela restrita e impotente razão, que é, na imagem perfeita dalguém, uma triste ilhota estéril assomando de um oceano profundíssimo, mas sim pelo nosso intuitivismo, que é para nós como que um admirável sexto-sentido. A biologia estabelece que a inteligência não é em relação ao homem um elemento classificador.(24) Contudo, não se utiliza de outro elemento a ciência materialista para instalar o homem como criador de si mesmo ao alto das incontáveis séries animais. Oh, vaidade das vaidades! Que sabemos nós – que é que nós somos?
«Aucun zoologiste ne se permettrait de [p. 19] faire servir à la classification des Carnivores ou des Proboscidiens, parmi les Vertébrés, l’intéligence spéciale dont témoigne le Chien ou l’Eléphant»(25) – declara René Quinton. Depois, segundo os bons doutores da matéria omnipotente e eterna – mais um subjectivismo que se esfarrapa pela penetração genial de Gustavo Le Bon!(26) –a inteligência não nasceria senão de uma acumulação de hábitos e experiências sobrepostas, tornadas estáveis à custa de se repetirem longamente. Amanha-se a teoria dos tabus, ou escrúpulos, para se explicar a afloração do raciocínio nos filhos bisonhos do antropóide terciário. Sejamos corajosos e sinceros! O escrúpulo, importando uma interdição sexual que, por economia de sensações, resultasse em proveito do encéfalo, não envolve consigo um acto de reflexão superior que, bem contra as vozes mais baixas do homem, então ainda bravio e engrunhido, ajudasse o Espírito a sobrepujar a Besta?
Ora, se o homem não passa em zoologia de um primata que está longe de encarnar em si a convergência do mundo animal; se a Vida, por um alto esforço celular, se mantém, e não se transforma; se a matéria se pulveriza e desfaz, não persistindo interminavelmente, como dantes se queria em pontificalismos aparatosos que já não podem nada – como é que se percebem desse modo os fenómenos psíquicos, tão ricos de amplitude e profundeza, se a inteligência é só um património de impressões accionando por automatismo quase? – Como é que a mera colaboração de acaso – do condicional e precário, eu, se viria a equilibrar no sentimento unânime de finalidade que de tudo se desprende e em tudo se constata?
O Universo-Máquina alui-se – não resiste às verificações pragmatistas do formidável ciclo que assim se inicia. E à maneira que a mistificação se atraiçoa e que para lá das assomadas mais próximas [p. 20] se adivinham as promessas de uma síntese formidável, eu não me envergonho de invocar uma passagem notável de Bourget, que é bem a epígrafe do livro selado em que se acha escrito o futuro das gerações presentes. «J’ai voulu ainsi vous faire toucher du doigt l’identité entre la loi de l’Église et la loi de la réalité, entre l’enseignement de l’expérience et de la Révelation. Dans son effort pour durer, la nature sociale aboutit précisément à la règle dont la religion a fait un dogme.» Eis como, no romance Un divorce,(27) se exprime o Père Éuvrard, defendendo do direito caprichoso de cada um o interesse sagrado da sociedade, que se apoia todo ele no constrangimento e na disciplina.
Com René Quinton por corifeu, as modernas doutrinas biológicas conferem a essa identidade a mais enérgica das confirmações. Às origens da Vida, o espírito de Deus flutuava sobre as águas – reza a letra da Bíblia. Não nos demonstra hoje René Quinton que a Vida surgiu do mar, que o meio marinho é a condição essencial do aparecimento de todo o ser vivo? É a mesma relação que existe entre o pessimismo teológico do dogma da Queda e a natureza negativa do Progresso. «Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto!» – dispõe a palavra divina. E o homem luta, luta sem tréguas nem clemência, para que a fome o não prostre, para que as cidades se alevantem, e a terra produza com fartura. A condenação ao trabalho representa como que uma culpa de nascença que não se compadece com a surdina tentadora da inércia, que é o encanto mais delicioso da nossa carne, sempre inclinada a clamar o Non serviam! simbólico da Rebeldia.
Não nos elucida René Quinton em outro campo que o homem, animal dos trópicos, tende a suprir artificialmente a descida de temperatura que o obriga a permanecer, fora daquela zona, como que em estufa durante a maior parte do ano? No Equador, onde se expande no estado natural, é exactamente aonde se conserva refractário às grandes forças [p. 21] civilizadoras. De sorte que a índole negativa do Progresso, coincidindo com as recordações místicas de uma queda primitiva, as quais são o património de todas as religiões, documenta-nos com uma evidência bem palpável a identidade, assinalada por Paul Bourget, entre o ditame que a natureza se cria e o verdadeiro sentido do Dogma.
Em harmonia com semelhante critério filosófico e para lhe concretizar o alcance, busquemos agora o natal remoto da primeira cultura humana. São os Árias os intitulados «povos-iniciadores». Transferido o berço dessa raça eleita das pregas recônditas do Hindou-Koueh para as longitudes ocidentais, em que jardim de maravilha, em que partida enigmática da esfera, a iluminada gente brotaria?
Rodeados de atributos excepcionais, os Árias instruem hoje as apologéticas pangermanistas como uns escolhidos de Deus para o desbravamento do Orbe. São como que de uma humanidade de previlégio, com sua costela olímpica. Os entusiasmos sonoros do conde de Gobineau, de H.S. Chamberlain e de Ludwig Woltmann os revestem farisaicamente do exclusivismo do génio, não deixando que lhes saia das mãos o erguido facho de resgate que sempre tem presidido às marchas decisivas da História.
Emoldurado no ambiente e na etnia, o Ária vem a corresponder – crê-se – ao Homo-Europaeus de Linneu, albus, argutus, inventor.(28) O temperamento linfático que lhe é peculiar, bem como a descoloração de epiderme que trouxe a família qualificada de caucásica a um grau vizinho do albinismo, indiciam a presença de um meio húmido e obscuro, com brumas constantes a invalidarem a acção química dos raios solares. Os textos clássicos apontam-lhe como sua a cor loira dos cabelos, o que parece ser também uma degenerescência derivada de [p. 22] circunstâncias especiais de luz. De braço dado com a geologia, intentam as investigações etnogénicas localizar o país originário do Homo-Europaeus. Pressuposta uma certa influência física, sem a qual os caracteres antropológicos do Ária não se definiriam assim, é para as bandas do Báltico que os olhos se voltam – para um extenso trato de terreno, na actualidade coberto pelas águas e que no quartenário seria o único recanto do nosso continente em que aquele determinismo mesológico se verificava.(29) Razão tinha o velho Jornandes em chamar à Terra dos Godos, ao sul da Escandinávia, vagina nationum, officina gentium. É a região denominada de Latham,(30) em homenagem ao sábio do mesmo nome, que tanto se empenhou em esclarecer a origem dos Árias.
Era um clima afável e marítimo, sem invernos prolongados nem estios que molestassem. A proximidade da corrente-do-Golfo predispô-lo-ia a uma temperatura média que, aparentada com o frio, servia de estímulo às aptidões embrionárias do indígena. Por isso Vacher de Lapouge cataloga o Homo-Europaeus como homem do Golf-Stream, significando-nos por intermédio de um satisfatório processo de indagação que em nenhum outro ambiente se facilitaria o linfatismo orgânico que, característica nova nos primatas superiores, individualiza inconfundivelmente o Ária, raptor orbis.
Espavorido o habitante de Latham por acidentes geognósticos tremendíssimos – e aqui se verifica a lembrança unânime de uma catástrofe preliminar que todas as religiões guardaram consigo –, foi já mais para o centro da Europa que os balbúcios da civilização ariana entraram a pronunciar-se. É a área geográfica a que se ajusta o lituano e rigorosamente a mesma em que subsistem as coisas vegetais e animais que constituem apelativos nas raízes arcaicas das línguas euro-índicas. É este um argumento, fornecido pela filologia, com o qual [p. 23] se desbaratam as construções gratuitas da miragem orientalista. De facto, muitos dos vocábulos, de reputada extracção árica, referentes a espécies botânicas e zoológicas, correspondem a realidades que a Ásia não conhecia antes de o homem loiro lá chegar.
Também os subsídios linguísticos nos ajudam a restabelecer a fase social que o Ária atingira ao tomar o caminho dos grandes êxodos. Não se trabalhavam os metais, nem o nome se lhes sabia. De modo que a difusão emigratória é mais remota que os alvores da metalurgia. A agricultura mal pegava a exercer-se. Mas ignorava-se ainda a cultura do trigo, cujo pé espigado os artistas do período magdaleniano figuravam já em copiosos desenhos. A marcha do Ária para a Ásia seria pelas estepes que correm a entestar com o Cáspio. Penetraria ele como conquistador nos escondidos plainos do Irão em pleno rumorejar de massas autóctones, de índole subalterna e passiva. Nos Vedas conserva-se memória da diferença de castas que o ocupante manteve, defendendo-se sempre de misturas perigosas. Subjugando pela guerra as populações aborígenes, o Ária é apelidado de «branco» e de «puro» na literatura sacerdotal da Índia e da Pérsia, enquanto as tribos escravizadas se tratam ali de «negras», «imundas» e «inimigas».(31)
Como etnia superior, o H.-Europaeus descobre-nos já – linfático e semi-albíneo – uma deficiência fisiológica que corrobora o conceito negativo de Progresso, desfiado dos ensinamentos de René Quinton. Animal dos trópicos, ou de uma zona equivalente à dos trópicos, desequilibrando-se a integridade térmica da sua constância original, cedo a precisão coagiria o habitante de Latham a suprir artificialmente, por um emprego calculado de energias, o decréscimo sensível de calor que o punha de repente debaixo de um céu brumoso, a braços com a humidade. Temos já um resfriamento que envolve a formação [p. 24] de uma ideia pessimista, avultada de sucesso em sucesso pelos terríveis espasmos que engoliriam ao Ária a região de nascimento.
Em combate com a lei imperiosa do mínimo-esforço, à maneira que se vencia, vencendo as dificuldades naturais que lhe impediam a expansão, o homem loiro ia-se capacitando da dureza de um poder indominável que exigia o sofrimento e que só pelo sofrimento gostava de se ver abrandado. A noção do sacrifício impôs-se-lhe ao espírito rudimentar, ganhando germe nessas mentalidades infantis a virtude virilizadora da renúncia. Um sistema de inibições se entretecia, hierarquizado e joeirado devagar pelos cultos desabrochantes. A religiosidade é um dom inerente ao género humano. Nasceu com ele, não marca um fenómeno que lhe seja posterior. Apenas M. Homais persiste na contumácia de Voltaire, denunciando a impostura dos padres na essência de cada rito. Os aforismos da psicologia moderna, graças à «terceira experiência» de William James, resgatam dos adjectivos estultos de certos pensadores de barraca de feira um tão profundo e tão intenso elemento de actividade interior. Se não se contasse como um agente espontâneo e insubstituível dos valores morais do nosso eu – alterações de personalidade, presença súbita de reservas ocultas, nunca presentidas até aí – todas as modalidades infinitas do mundo psíquico, em que é que elas se volveriam perante a verificação quotidiana que as acusa incessantemente, e incessantemente as atribui à alquimia indecifrável da nossa elaboração subliminar?
As depressões barométricas haviam de acordar no indivíduo de Latham uma sensação aspérrima de diferença, a qual, retardando-lhe como animal o desenvolvimento dos apetites sexuais, lhe enriqueceria por derivante imediata o ainda restrito património encefálico. À tarefa seleccionadora da natureza juntava-se o uso do escrúpulo, dimanado da compreensão trágica da Existência. E porque a constância original dos seres ordenava a combustão externa, para que com a perda do seu [p. 25] calor específico não deperecessem gradualmente, é na batalha bravia contra os conflitos do meio que o homem branco – o homem iniciador, o filho dos deuses – se educa e se exercita, a fim de merecer um dia, lá mais para diante, as claridades augustas do génio. A raça menos favorecida pelo ambiente é desta sorte aquela que jornadeia à cabeça das demais. Segundo as conclusões de René Quinton, o Progresso está assim na razão inversa da nossa facilidade vital.
Adão em hebraico quer dizer «vermelho». Pela pigmentação acentuada, os homens primogénitos eram avermelhados. Só as influências mesológicas dariam a cor clara à família escolhida por efeito de um semi-albinismo. O fim da idade de oiro – da esvaída beatitude idílica, em que a Espécie se sentira acarinhada por um clima propício – é com os tumultos geológicos que preparam o quaternário o fundo real do dogma da Queda. Exposta a paridade da interpretação agnóstica com o pensamente teológico da Bíblia, eu vejo e admiro no conceito pessimista dos ideais cristãos a alegoria vigorosa do drama da Vida – desse drama em que nós nos enclavinhamos num duelo permanente connosco mesmos, sempre numa vigília aguerrida contra os acenos convidativos da inércia que, dormitando nas criptas infimas do ser, só trabalha pela nossa desagregação irremediável.
As conquistas do positivismo, que do nome seja digno, empenham-se hoje na restauração planetária dos respeitos devidos a enormidade da regra que preside ao papel coordenador da Igreja, nossa Mãe. «L’avenir aux plus chastes!»(32)– promete em judeu incarniçado, Salomon Reinach, como que o sous-Renan(33) do criticismo hodierno, quando pega no antropóide terciário e o conduz através de suposições gratuitas, de tabu em tabu, de interdição em interdição, até à plenitude do homem nos factos erguidos [p. 26]da consciência. É o romance divertidíssimo do transformismo, rondando por circunlóquios enviezados que nem os corredores de um labirinto, só para não se inclinar em face do Mistério e ter que confessar a supremacia do acto criador, bem patente nos seus sinais invencíveis de obra de Deus.
Pontífice da idolatria orgulhosa do homo-sapiens, Salomon Reinach aceita com mais alegria uma intervenção estúpida do acaso que o influxo assombroso dessa altíssima Inteligência que governa o universo e lhe confere uma finalidade mais ampla que o destino pessoal do homem. E – ó insânia de cegos que têm olhos e não vêem! – o simulacro babilónico, de pés de barro e testa de oiro, o homem sapiens, que tanto desvanece o escriba virulento do Orpheus, se é bímano e não quadrúpede, se anda erecto e não dobrado, não é porque uma vontade geradora o determinasse, mas porque – riamos com a peregrina hipótese! – a um bando de símios errantes numa floresta, ardendo ela subitamente, lhes faltaria de chofre o apoio hereditário das árvores. A maioria não conseguiria sobreviver talvez à inopinada mudança de regime. Porém, os que lograssem vingar, rompendo o passo por si próprios – aqui caio, além me levanto –, preparariam o advento do homo-sapiens. Eu que não acredito no homo-sapiens e o encaro unicamente como um pobre homo-faber, sorrio-me com gosto da engraçada historieta. Bem observa Georges Sorel que as invenções engenhosas do transformismo fazem à gente minutos deliciosos, tal como as fábulas antigamente!
Manda, no entanto, a honestidade advertir que Salomon Reinach não se responsabiliza pela desencabrestada fantasia. Debita-a com prudência à conta de outrém, acrescentando que, apesar de tudo, a modificação material do meio não provocaria no antropóide as aflorações conscientes do entendimento. «L’évolution, la révolution, pourrait-on-dire, a du venir du dedans, non du dehors.»(34) As coisas jogariam [p. 27] certas, se admitíssemos o relegado critério eclesiástico da Revelação – apressa-se a prevenir o arqueólogo encartado do museu de Saint-Germain, não fôssemos nós desfiar das suas palavras o reconhecimento de qualquer força sobrenatural por parte de um primário de tão vasta nomeada.
Cientificamente enviável a solução da Igreja, o proeminente sous-Renan acrescenta que é ao tabu que se recorre – ao tabu, fundamento naturalista das religiões, ao tabu, que o obriga a reabilitar o ascetismo místico, desde que confia a chave do futuro aos que souberem ser mais castos. Mas quem formulou o tabu? Como é que o escrúpulo, adicionando-se ao escrúpulo, veio a estabelecer-se num código moral, em oposição cerradíssima com os impulsos animais do sexo? Como é que o sacrifício, a renúncia, a inibição, nos levaram à destrinça do Bem e do Mal? Como é que o Espírito derrotou a Besta? Como é que contra as imposições da lei do mínimo-esforço, nós agimos interminavelmente, se as vantagens alcançadas no ascender custoso para a inteligência valem como tantas outras deserções ao império bruto do nosso instinto?
Doutor em cepticismos galantes, Renan, o mestre querido, ainda assim não se esquivava a asseverar num precioso minuto de sinceridade que a religião é um produto do homem saudável e que o homem encontra-se tanto mais no verdadeiro quanto ele é mais religioso e mais seguro de um destino imortal.(35) Eis o segredo das acidentadas peregrinações humanas, ascensionando, subindo, depurando-se, sempre de olhos pregados num alvo posto para além dos nossos horizontes diários. A religiosidade é, pois, um método eficaz de obediência – uma escola única da vontade, em cuja lição constante as raças melhores dotadas se formaram. O homem branco ganhou a dianteira aos seus irmãos [p. 28] de origem, porque aprendeu a limitar-se, porque um defeito da natureza o suscitou para a compreensão unânime de que, para existir e triunfar, é necessário lutar e submeter-se. Oh, Paul Bourget atinava com uma sentença eterna ao escrever que «la nature sociale aboutit précisément à la règle dont la religion a fait un dogme»!
[p. 29 e 30] ### [[p. 31] III] O génio ocidental
Analisada no campo das presunções mais aceitáveis a hipótese teórica do aparecimento de uma primeira cultura, cabe agora preocupar-nos com o lugar que à autoctonia portuguesa pertenceu nesse amanhecer distante das civilizações. Caracteriza-se ela, como já se disse, pelo tipo etiquetado de Beaumes-Chaudes, que é o dolicóide meão, mesorrínico e de cabelos escuros, no qual alguns pretendem apurar uma proveniência do homem chamado de Neandertal. Não é, portanto, sinónimo antropólogico do Homo-Europaeus que, de alta estatura, cabelos loiros, leptorrínico, e mesato-dolicóide, se exemplifica pelo padrão dos Reihengraber segundo Hölder.(36)
Dimanado do littus saxonicum, o H.-Europaeus coincide entre nós com os intróitos da idade do ferro, povoando os cemitérios proto-históricos de Cascais, já da era luso-romana.(37) O H.-Europaeus penetraria aqui em som de guerra, principalmente no século V, com o espraiar da onda gótica. É o celta da história que, em quantidades diminutas e turbilhonantes, acabou por se transfundir nas camadas aborígenes, quando não se dizimasse em embates fratricidas.
Postas em confronto as duas realidades étnicas, convém já acentuar a virtude primacial do dolicóide meão. É ela a inteireza pasmosa que o [p. 32] mantém, homogéneo e puro, através de quantas invasões lhe passearam o solo natal. Subordinado por densas massas assoladoras, resistiu-lhes sempre com sete fôlegos, graças à sua extraordinária aptidão sedentária. Por via dessa qualidade, o nosso autóctone, que era de índole pacífica e produtora, não demorou a afivelar-se socialmente na forma comunitária de aldeia. Não busquemos em introduções exóticas a entranhada tradição municipalista da raça. O indígena que no decurso do mesolítico se nos revela em Mugem,(38) praticando o sedentarismo antes de conhecer a agricultura, trazia consigo o sémen da Pátria na propensão inata para a fixidez à terra.
Mas que dolicóide seria então o nosso, que emaranhadas genealogias lhe ditavam a nascença?
Eu não acredito no Precursor. Eis porque, com a exautoração absoluta do indivíduo de Thenay, eu não me socorro dos achados de Carlos Ribeiro em Ota, nem tento indireitar a ideação manquejante do Homo-Simius Ribeirensis. No entanto, jornadeando ao arrepio dos ciclos geológicos, um facto há – e singularíssimo facto! – que parece ter merecido as atenções conjuntas da paleontogia nacional. É que o habitante primogénito do nosso torrão descobre-se-nos contemporâneo das profundas comoções físicas, de que resultariam na expressão definitiva os terrenos estruturais das bacias do Tejo e Sado.
Ricardo Severo saúda por tronco recuado da Grei uma espécie de humanidade pré-adâmica, agarrada ao humus ainda fresco, de cujo íntimo brotaria como um produto nato.(39) A utopia evolucionista perturba a inteligência do obreiro ferveroso da Portugália. Porém, é certo que a Península, bem cedo um habitat convidativo, havia de resguardar no seu seio bastantes elementos da Vida que aqui e além soçobrava com a série de [p. 33] cataclismos de que a consolidação do quartenário se acompanhou. O arqueólogo dinamarquês Soplius Muller fala-nos, com efeito, de uma humanidade, nua e aferrada ao solo, que nas regiões acolhedoras do sul europeu marca o início da pré-história.(40) Outra não pode ser senão a humanidade pré-adâmica de Ricardo Severo e Paula e Oliveira. É uma variante da tese do senhor João Bonança – o exclusivismo monogénico transplantado para as orlas do rio Oceano. Tão sorridente que a teoria se me afigure, eu limito-me a considerá-la unicamente como um excesso de simplificação científica. Assim, recebo apenas por exacta a versão que nos reconstitui com materiais positivos o homem arcaico de Mugem durante o interregno mesolítico.
Sustentava-se o bom antepassado da pesca e da caça, sem jamais se desviar do seu lugar de assistência. Com a simpatia sedentária, a inumação dos mortos mostra-se um dos traços mais definidos da sua maneira de ser. Não os consumia na chama, como ao depois com a vinda dos ritos incineratórios; nem os abandonava à devastação das aves de rapina, como o Ibero vizinho. Enterrava-os somente, dando largos a um profundo instinto de adoração naturalista. Suscitado por um tão forte motivo de arredamento, não é para admirar que por sobre as sepulturas ancestrais firmasse o fundo da cabana e acendesse a fornalha vigilante. O «fogo», como centro da existência em comum, ateava-se em cima do «logo», onde os defuntos repousavam. O sangue manifestava-se, a lento e lento se descobria. As virtudes de apego que enlaçavam o pequeno dolicóide à courela natal desenvolviam-se em princípio fecundo de sociabilidade por meio do costume funerário.
Como nas horas mais cheias da história, a solidariedade entre vivos e mortos presidia à formação dos alicerces da Pátria. É que a [p. 34] necrolatria, estatuindo-se em apertada norma religiosa, ganhava para o grupo, débil ainda, uma robusta regra colectiva que, hierarquizada sob a chefia espiritual dos anciãos, reunia a todos e a tudo nos laços afectivos da mesma origem.
O conhecimento da agricultura acabou de organizar as preferências localistas da gente do Mugem. O solo, que a prendia a si com poderes hereditários, lhe dava agora uma razão maior e mais concreta de comunidade. Intensificados os vínculos desabrochantes do parentesco, uma outra ordem de relações se gerava. Gerava-se a vizinhança com um pacto minucioso de confraternização que na djemâa(41) berbere encontra a sobrevivência aproximada. É dessa minúscula célula, engrossando devagar e procurando levar ao máximo os recursos contidos no germe, que o Concelho há-de surgir mais tarde e com ele os fundamentos inalienáveis de Portugal.
Emoldura-se antropologicamente o nosso autóctone no ramo étnico designado por mediterranense ou arábico. Confunde-se no deslindar das suas atravessadas linhagens com o vasto formigueiro humano que enconchava o Mediterrâneo num apanhado que ia da costa europeia à costa africana. Trata-se do substractum líbio-ligúrico(42) que floresceu nas maravilhas da arte egenética e o qual, identificado com os pelasgos das reminiscências clássicas, por toda a banda se evidencia como um povo construtor, de índole pachorrenta e comunitária. Quando o Ária avança – o Ária que, devolvido da Ásia, corria a lançar na estupefacção e no saque o brilhantismo da velha cultura ocidental, é uma poeirada de morte que cai em plena actividade do homem meão – eixo da grande raça sociológica de que nos fala Hesíodo, segundo os fragmentos de Éforo.(43)
[p. 35] Conforme essa antiga fonte etnográfica, a Europa estava distribuída pelos Hiperbóreos ao setentrião, pelos Lígures ao poente, e ao sul pelos Etíopes. Os Hiperbóreos são os Citas, envoltos no lençol dos nevões eternos e batendo-se com grifos temíveis durante noites que duram como meses. Os Lígures acham-se em Diodoro Sículo denominados por Atlantes e ocupavam a estensa faixa que se desenrola ao longo do Oceano desde as praias do Mar do Norte até às raízes do Atlas.(44) Os Etíopes, adiantando-se para o meio-dia, propagariam ao Egipto e à Caldeia a melhor parte da sua civilização, enquanto se metiam pela Líbia adentro em núcleos aguerridos e numerosos. Tal era o ensombrado mundo líbio-ligúrico que se elevou com o período bronzífero à posse de uma alta civilização unitária.
Obreiro de canais e alevantador de cidades, praticava também a navegação. E cingido em povoados defensivos, as citânias e as antas, que coroam muitos cabeços do país, são entre nós a amostra de quanto o pequeno dolicóide valeu como portador de um grau sensível de cultura. O comércio do estanho e do âmbar, rasgando-lhe esteiras tanto terrestres como marítimas, o enlaçou numa estreita federação de interesses com os outros povos atlânticos, seus afins. É dele, como vimos, a instituição espontânea das mancomunidades agrárias. Pelo sentimento naturalista que o fixava à terra, depressa ascende às crepitações inspiradoras do animismo. É quase seguro que seria o inventor da palavra escrita. A mulher de Elche proclama a forma expressiva do Ocidente naqueles tempos que crescem para além do mais puro arcaísmo clássico.(45) A idade do ferro com os homens loiros de Hallstatt, de porte desempenado e coma flutuante, esmagaria esse admirável florescimento do dolicocéfalo [p. 36] médio, tão bom trabalhador dos campos como lavrador intrépido das águas.
Não escapara aos antigos a identidade de certas manifestações sociais dos Lusitanos com a dos Gregos da época helénica. Estrabão regista o moregreco que na Lusitânia se observava, e afirma paralelamente que se conservavam por cá recordações muito vivas das expedições do ciclo homérico.(46) Por outro lado, os cortes de Schliemann na Tróada salientaram as palpitantes anologias da cerâmica que lá se desenterrou com os despojos retirados das jazidas pré-históricas do oeste europeu. Os tipos industriais irmanam-se numa e noutra zona, desde a configuração dos vasos aos ornatos preferidos. Também as nossas grutas artificiais de Palmela repetem a linha arquitectónica das de Chipre e Creta, reproduzida em Pianosa e na Sicília. Os processos de construção equiparam-se. A abóboda de silhares divergentes da necrópole algarvia de Algalar é uma lembrança perfeita das abóbodas empregadas nas Cícladas e até em Babilónia. Briteiros e Sabroso revelaram-nos por seu turno fragmentos decorativos que são outros tantos trechos como os descobertos em Micenas e Tirinto. E não falamos do mobiliário avulso, principalmente nos simulacros frequentíssimos do ídolo neolítico, conhecido por Deusa dos túmulos, que é um traço importante do parentesco que ligava de perto a nossa civilização autóctone à civilização esplendorosa do Mediterrâneo levantino.(47)
Já Timeu se impressionara com a toponímia ocidental, e, encostado a ela, sustentaria como verdadeiro o vago rumor que atribuíra desde sempre a escápula dos Argonautas a uma aberta achada no Ponto-Euxino para o Mar do Norte, de onde os flibusteiros regressariam enfiando o [p. 37] Mediterrâneo pelas Colunas de Hércules. Nas colónias espalhadas ao longo da costa oceânica estava para Timeu a chave do enigma. Tácito, Plutarco, e Amiano Marcelino preocupam-se igualmente com esses gregos – prisci – do oeste-europeu. No testemunho de Justino, os galaicos presumiam de uma pomposa ascendência helénica. Não esqueçamos de que Estrabão, jornadeando entre os Lusitanos, lhes definira os usos civis e domésticos pelo moregreco. A semelhança étnica e social manifestava-se de tal maneira que Plínio não hesita em considerar as populações peninsulares como graecorum seboles omniun.
Os Venetos da Armórica tinham-se para com os do Adriático como provindos do mesmo tronco. Muitos dos viajantes romanos referem-se à existência de inscrições com caracteres gregos na Ligúria do Báltico. Tanto na Inglaterra – ubi stannii origo – como na Hibérnia fronteira, diziam esses testemunhos que havia Gregos barbarizados.
«Barbarizados» – segundo os autores clássicos, cheios do conceito político de Cidade e dominados pela ideia de que os povos ocidentais descendiam de êxodos destacados da Grécia-Mãe. Fazia-o supor a similitude dos costumes e das instituições. E com a demanda mítica do Velo-de-Oiro se explicava a dispersão, conduzindo a distância, em que se encontravam para com a metrópole os habitantes das ribeiras do Atlântico, ao estado de obscurecimento e de ruína que a miragem erudita classificava de barbárie.
É conveniente já acentuar que as empresas náuticas do Jónios são mais que posteriores aos episódios marítimos de que a Odisseia se compõe. A Odisseia não é por isso senão uma adaptação genial de quantas lendas corriam nos tesouros poéticos do Ocidente, em memória das navegações arrojadas do pequeno dolicóide. A prova é que Estrabão surpreendera em muitas tradições orais dos italiotas e turdetanos uma concordância extraordinária com certos passos homéricos. Ainda agora no nosso romanceiro se averiguam vestígios [p. 38] bem individualizados do ciclo que gerou a imortal rapsódia. Ele é a Bela-Infanta, com o marido de volta depois de riscos impossíveis de acreditar, e com a fidelidade da esposa posta em prova difícil. Ele é a Nau-Catrineta, com os mil horrores de uma tragédia sem nome, em que a antropofagia figura no cortejo sinistro da fome. No romance da Donzela na fonte subsiste nos tópicos fundamentais o quadro amorável de Nausica. A Galharda transmontana lembra-nos a feiticeria perversa de Circe; e o D. Marcos, do meu Alentejo, o encontro com o leal Eumeu.(48) Em Trás-os-Montes, a Bela Infanta entoa-se como se fora a continuação da Nau-Catrineta.(49) E na lenda bretã do Purgatório de São Patrício guardou-se o eco duradoiro da subida de Ulisses ao Orco terrível para que os manes da mãe lhe ditassem o rumo a seguir.
Há assim uma conformidade de sentimentos e temas líricos que da lareira da nossa infância às lareiras da Grécia contemporânea nos demonstra como é idêntico o substractum étnico sobre o qual o Ocidente se repousa.
Já na antiguidade gozavam fama os pios Hiperbóreos por enviarem de longe, das vizinhanças da Ursa gelada, as suas ofertas aos santuários famosos da Hélade. Os mitos astrais, com origem na trucidação de Helius e no suicídio de Selene, tiveram o berço na foz do Eridano, que tanto pode ser o Pó como o Reno.
Era para o Poente que demorava o império misterioso de Uranus. Bom será recordar a este respeito o que se contava nas extintas cosmogonias. A Uranus sucedera Hiperion, de quem nasceram Apoio e Phebe (Helius e Selene). Despedaçado um, morta de desespero a outra, os Titãs, filhos do casamento de Uranus com Titeia, apossaram-se-lhes da herança. Por partilha, Saturno e Atlas ficaram governando o Ocidente. Nas orlas de [p. 39] Espanha, entre os Cinetos e os Cempses, adorava-se a Saturno. O Crom-Cuachdas superstições câmbricas indica-nos a persistência cultual do velho deus. Na Irlanda representavam-no num grande monolito, ao qual se usava consagrar crianças em sacrifício, como vítimas mais apreciadas. Num bosque proximo a Tartessus é que os Titãs se teriam batido com os deuses, sucessores de Saturno. Os Graïci e os Seloï, que constituíam o nebuloso fundo arcaico das gentes ocidentais, praticavam a religião melancólica do marido de Cibele. Num recanto interdito do Mar do Norte se refugiou o deus destronado mais os cortesãos que o acompanharam na desgraça. De onde o chamar-se ao Mar do Norte, Mar Crónio. Também se apontavam as Canárias como o lugar da reclusão de Saturno. É a fábula deslocando-se ao longo da costa, sempre poisada no mar, mas pretendendo ajeitar-se à posição geográfica das diferentes estações humanas estabelecidas por aí abaixo.
Quando nos textos greco-romanos se alude ao povo de Saturno, compreende-se já porque se alude à imensa família apartada para as margens do rio Oceano que, sem princípio nem fim, abraçava contra si a Terra inteira. Toda essa participação do pequeno dolicóide nas mesmas crenças e no mesmo sentido de existência, certifica-nos bem da unidade de raça e alma em que o Ocidente se andava preparando para as conquistas maiores da História.
«Ainda que os filólogos entendam que o idioma céltico se prende mais com o latim do que com o grego», escreve MacNeill, «as antigas tradições irlandesas fazem-nos contemplar uma linhagem de deuses que, pelo número, pela variedade, pelo realismo dos seus atributos, pela abundância das lendas e da poesia que os celebram, se parece muito mais com os habitantes do Olimpo helénico de que com as divindades incolores, e quase despidas de vida, do culto formalista dos romanos».(50) Já César [p. 40] chamara Dis-Pater à potestade suprema que os druidas invocavam como fonte de todos os seres.
Dis-Pater recorda a etimologia sânscrita de Júpiter, Dyaus-pitar, em germânico Ziu. Confirma-se assim a teogonia que Diodoro Sículo desenvolve quando se ocupa dos Atlantes. O panteão grego repete a dramatização mitológica que o historiador nos transmitiu, desde a morte cruenta de Helius à dor de Selene, precipitando-se de uma torre. Conquanto o Dyaus-pitar dos Árias queira significar nas raízes euro-índicas a claridade, o dia, o Dis-Pater do druidismo representa o movimento cronológico da noite – é o Uranus que no céu védico equivale a Varuna, o deus sombrio. No cabo, a antítese é apenas aparente, pois se resolve por uma diferença de contagem na marcha do tempo, subsistindo, invariável, o mesmo tema de adoração. Júpiter, trazido do Oriente pelas avançadas do homem loiro, substitui como protector das hordas invasoras a divindade reinante entre a raça avassalada.
Uns, saídos do Nascente, ao sol-nascente veneravam como princípio universal de criação. Morando os outros a Poente, era o sol caindo no mistério da noite que se impunha aos arrebatamentos religiosos do profundo génio naturalista que sempre distinguiu o dolicóide meão. Mas, divergentes os valores rituais, os atributos sagrados permanecem, todavia, intrinsecamente intactos. É uma simples subrogação deles o que se opera com o triunfo do dolicocéfalo de alto porte. De resto, no mito de Saturno fugindo à revolta dos filhos, palpita bem a alegoria dessa ondulação de povos inimigos, sobrepondo-se em tribos guerreiras e erráticas ao pelasgo pacífico e sedentário.
O folclore reconstitui-nos poderosamente a afinidade mental e psíquica do grande viveiro que se insulava para as extremidades do Mar e da Terra – no belo dizer dos poemas de Homero. Obcecada com os planaltos esfíngicos do Irão, a miragem sabia só agora nos consente que o tomemos em conta e se procure por aí a incógnita de tão contravertido problema. Não cabe nos meus limites o exame [p. 41] comparativo do adagiário e dos motivos poéticos que todos os anos ressuscitam na lembrança das festas solsticiais, no desvario fálico de Maio-Moço, nas cantigas friorentas das Janeiras. Belofronte e a Quimera, Hércules e a Hidra, revivem com modalidades interessantes de particularismo regional na história da nossa honradíssima porca de Murça, no combate de Cuchulain com uma fera marinha, no urso de Berne, morto pelo duque de Zaehriengen. O imposto exigido pelo Minotauro aos atenienses perpetua-se no cavalheirismo de Tristão desembaraçando Cornualhes do Morhut de Irlanda que viera pelo pagamento do foro anual em rapazes e raparigas. Na Canção do Figueiral, Groesto Ansures reincarna Teseu. E com o conto peninsular do Tributo das cem donzelas é o mesmo elemento épico a perdurar na elaboração da sociedade neogótiea. São traços que mais uma vez indicam a identidade da raça de que Éforo nos dá notícia, socorrendo-se de Hesíodo. Para quê insistir, portanto, no rosário infindável de depoimentos que crescem de hora para hora com os vagares enlevados do eruditismo?
Deixou-se dito que as influências irradiadas da Grécia não são bastantes para nos entregarem o caminho de uma solução. Se alguém pretende manobrar com elas, é ainda a utopia culta que os humanistas beberam na convivência das letras antigas, mas que hoje não tem por si nem as luzes da tradição, nem as rectificações da arqueologia. Os gregos só aportaram definitivamente à Península com a erecção de Ampurias no século XI a.C., e a primeira colónia que assentaram na Itália não sobe para além das vésperas da Idade do Ferro. Abandonando-se à sua sorte, um comerciante do Arquipélago arribou a Tartessus na foz do Bétis (Guadalquivir). No regresso levaria aos compatriotas a nova das terras descobertas. É, pelo menos, a lição de Heródoto quando narra o naufrágio [p. 42] de Colaeus de Samos.(51) Depois, seguir-se-iam os Fócios de «Massília» (Marselha) que, abordando a Tartessus, tornaram aos lares, não obstante as palavras e os presentes de Argantonius, maioral da cidade, que os convidou a ficar.
Bem sei que Estrabão e Pompeu entroncam as populações ocidentais na dispersão dos guerreiros, após a empresa de Tróia. Ulisses fundaria Lisboa, avançando para as costas da Gália a propiciar os Manes numa caverna do litoral. Apontava-se até nas Espanhas uma povoação com o nome de Odisseia. Mas aqui é já o domínio da ficção, subordinada ao preconceito homérico. Com o andamento do estudo e das investigações, hoje nem a epopeia do divino aéde se localiza debaixo do céu luminoso da Hélada.
Com a prioridade sustentada da Argonáutica, a análise das fontes de Homero mostra-nos uma inspiração frequente desse outro ciclo nos errores penados pelo mais subtil dos gregos sobre as ondas do mar salgado. A Anaphe da demanda do Velo-de-Oiro coincide à maravilha na redacção de Apolónio com a Ogígia acolhedora, em que Calipso oferece ao herói o licor interdito da Perfeição. Simultaneamente, a geografia do Mediterrâneo quase que se ignora durante todo o emocionante drama marítimo. Nem o Egipto nem a costa da Líbia se entrevistam lá, muito embora numa referência vaga, numa alusão desmaiada. É sempre o Oceano sem fim, com Poseidon enfurecido, agitando o tridente. São sempre as plagas adversas, com a nave correndo desarvorada por entre perigos de morto, sem mais recebimento que o dos Listrigões e dos Cíclopes, semi-homens da fábula com falas duras como latridos.
Ora se a Odisseia se ressente do texto primitivo da Argonáutica, esta é, pelos trabalhos memoráveis de Martins Sarmento, nada mais que a adaptação de uma lenda atlântica, reproduzida em périplos [p. 43] fenícios, aos horizontes contraditórios do Levante mediterrânico. De modo que, desbaratada por métodos positivistas a miragem helénica, é para um período anterior, mais embrulhado na espessura dos séculos, que no presente as atenções se dirigem, na ânsia de lhe arrancarem o segredo do continente enigmático para onde a Virgem de Tebas abalou, cavalgando através das águas o toiro enamorado. Assim, ao preconceito grego, sucede o preconceito semita. Os mercadores de Tiro passam a conduzir por largas décadas o facho resgatador da civilização. Como corifeu dessa atitude científica, destaca-se Victor Bérard, para quem a Odisseia se reputa como um roteiro fenício, emoldurado à viva força numa topografia falsíssima. É ainda o defeito intelectualista que interceptou a visão aproximada que o ilustre Martins Sarmento se construirá do incompreendido mundo ocidental. Mas a ilusão desfaz-se de pronto, desde que se fixa o século XII antes da nossa era como a data do aparecimento das embarcações fenícias nas Cassitérides. Então já a Inglaterra atingira a plenitude da indústria bronzífera, com notáveis centros mineiros, remetendo os seus produtos para o interior da Europa pelas vias fluviais do Reno, Ródano e Danúbio; e para o sudoeste da Espanha pela travessia continuada dos mares.
Da chegada dos tírios à região insular do estanho encontram-se personificações míticas nas lutas de Álbion e Darcinus contra Melkart – o ardiloso hércules cananeu. De um episódio secundário da Argonáutica deduz-se bem a anterioridade da nossa civilização do bronze. É naquela passagem em que Fineu diz aos navegadores que não lhes hão de faltar nem guias nem informações na sua rota para Ea. A ligação da dinastia de Aétes – conforme Apolónio – com Phryxo, exilado de Orcomenos, consolida-nos a hipótese de uma apertada convivência entre os povos da concha mediterrânica e os seus parentes da entrada do Mar Crónio.
A escápula dos Argonautas pelos rios da Europa Central, a indicação do neto do rei Aétes, segundo [p. 44] a restituição magnífica de Martins Sarmento, acaba de nos convencer do amplíssimo trato geográfico preenchido pelo pequeno dolicóide do oeste-europeu. A narrativa simbólica justifica a distribuição étnica das tábuas de Eforo, ao mesmo tempo que nos revela para lá do ciclo presidido pelo génio fenício um outro ciclo mais recuado e mais espontâneo, que não é senão o período bronzífero, de natureza exclusivamente autóctone. Achamo-nos face a face com a actividade extraordinária do pequeno dolicóide, o qual, abrangendo na sua expansão o Mediterrâneo, cada vez se reverencia mais como portador de uma floração artística que em Micenas tem o crepúsculo doirado. É a raça neolítica a que o eminente Sergi atribui uma proveniência africana, dividindo-a em quatro ramificações – os iberos na Península, os lígures em França e na Itália, os pelasgos na Grécia e na Ásia Menor, finalmente, os líbios na Berbéria e no vale do Nilo.
Não se confunda a dolicocefalia do H.-Mediterranensis com a do H.-Europaeus, de quem pode muito bem ser primo direito, não lhe devendo, no entanto, senão assolações e hecatombes. Valores rácicos inassimiláveis – um, individualista e truculento, apaixonando-se todo pelo comando e pela presa, o outro, comunitário e produtivo, sempre agarrado à terra e ao grupo, é entre ambos que os dramas mais intensos da História se têm desenrolado tanto ontem como na hora actual. O H.-Europaeus, ao deixar as regiões natais, encaminhara-se para a Ásia pelas portadas fáceis do Cáspio. São êxodos que se sepultam na escuridão por enquanto. O Ária histórico manifesta-se no Ocidente a partir do século XII a.C., com os Aqueus que tombam de chofre sobre a sociedade egeana. Um segundo galão se lhes seguiria com os Dórios do século XI, sobrepondo-se aos Aqueus e acabando de destruir a cultura brilhante de Micenas. Da reelaboração dos elementos subvertidos resultaria mais tarde a Hélada clássica no esplendor dos seus traços imortais.
Mas o compatriota de Minos, vencido numa [p. 45] catástrofe tremenda, em que tudo – raça e civilização – se perdeu, a que antiguidade recuada remontaria? Navegador e industrial tão depressa se declara a idade de bronze, iniciada por ele, é inútil repetir que em nada se mostra tributário do homem loiro, dimanando da Ásia em tumultos de conquista. Possuía uma língua sua, como se deduz das inscrições de Praisos,(52) que não se resolvem por intermédio dos dialectos qualificados de euro-índicos, e às quais parece corresponder um idioma próprio, donde se comunicariam ao grego e ao latim certos vocábulos em que não transparece uma sombra que seja de derivação oriental. São sobretudo nomes de metais e de plantas, cuja existência se verifica unicamente entre os povos do Mediterrâneo. É o que acontece, por exemplo, com a palavra «vinho», que presupõe um protótipo egeano, accionando diversamente nas gentes exóticas advindas de longe, ou com o contágio lento do semita, ou com o avanço belicoso do H.-Europaeus. Também sucede que o Ária não conhecia o vinho antes de se aproximar do Mediterrâneo. A sua bebida usual era o hidromel, que se designava pelo mesmo termo com que se exprimia o mel. Depois, com o altear do grego, é que se transferiu para o vinho o vocábulo que primitivamente se aplicava ao mel.(53)
Aos depoimentos da filologia ajuntam-se com vigor as afirmações dos antropólogos no sentido de nos apontar entre o habitante do Egeu um fundo autóctone dolicóide e de porte médio. A braquicefalia, que porventura lá se observa, começou a traduzir-se numa época mais baixa que a arcaica, e sempre na proporção das misturas étnicas, atraídas de largo pelo viço de uma civilização tão cheia de recursos e de apetites como era essa de Creta.(54) E quando a ciência nos enumera os caracteres [p. 46] somáticos do contemporâneo de Minos, é bem o nosso aborígene que nós achamos diante. Pele trigueira, cabelos negros e corredios, talhe regular – eis como os depósitos osteológicos e os despojos picturais nos reconstituem o natural do Arquipélago, confinado, sem mescla ainda, na integridade do seu meio social e físico. É, pois, o H.-Mediterranensis em plena autonomia e no desenvolvimento das suas melhores aptidões. Pergunta-se agora se seria ele indígena, como o irmão da vertente atlântica da Península, ou só partiria destas bandas, com o alastramento progressivo da raça.
Historiemos. O neolítico, tão individualizado pelo ídolo feminino, peculiar ao Ocidente, viu a entrada em Creta dos ascendentes mais garantidos da genealogia egenética, talvez oriundos do litoral da Líbia, ou quem sabe se descidos da Tessália e da Trácia com os pelasgos nevoentos da tradição. Não olvidemos a tese em que Salomon Reinach estabelece como eixo das primeiras civilizações continentais um ponto indeterminado no centro da Europa, de onde o impulso se irradiou para a periferia, tomando a forma de um leque que se abre. Sendo assim, não nos repugna que os núcleos destacados da Líbia para as ilhas do Arquipélago se aliassem aí com outros bandos afins, brotados da intimidade dos Balcãs em procura de climas mais favoráveis. Quando a idade do cobre se evidencia, a unidade está consumada, não só pelo invariável substractum dolicocéfalo, mas conjuntamente pela convergência de todas as virtudes colectivas para uma cultura uniforme e robustíssima. São as alvas do legendário governo de Minos – o rei justiceiro, que resume em si o apogeu do período cretense, formidável na terra e senhor de tudo no mar.
Com a supremacia de Creta entrelaça-se o problema difícil do alfabeto, reputado pelos lugares-comuns da ciência como invenção dos fenícios. É uma questão obscura sobre a qual se não emitem juízos concludentes. Todavia, sem um alfabeto mais velho, pai dos diferentes silabários conhecidos na [p. 47] Antiguidade, não se interpretam nem se explicam os numerosíssimos letreiros votivos com que a Península tem enriquecido a epigrafia pré-histórica. Recorde-se a obra de Estácio da Veiga. No iluminismo com que o malogrado arqueólogo algarvio se abandona às mais tentadoras soluções, há hoje que respeitar verdadeiros estados-de-graça. Com base em documentos desenterrados na sua província, Estácio da Veiga entendia que todos os sistemas gráficos existentes precediam de um único sistema gráfico peninsular, já constituído na última fase da idade da pedra. É cedo demais para se ir dar aonde Estácio da Veiga deu consigo. Mas isso não invalida o penetrante espírito de previsão que, ao longo de compactas monografias, faz de Estácio da Veiga um insureccionado fogoso contra os abusos racionalistas do seu tempo e o sagra como um precursor dos mais altos.
Em abono das generalizações entusiásticas de Estácio da Veiga, ninguém ignora que o Ocidente neolítico atingiu por vezes notabilíssimos momentos criadores. Atestam-no os petroglifos do Alvão, tão profundamente comentados por Ricardo Severo.(55) Ainda que nos fins da idade da pedra não estivesse ordenado nenhum alfabeto, não nos restam dúvidas acerca do conhecimento e do emprego de sinais alfabetiformes que já então andavam preparando o amanhecer do verbo escrito. Os materiais obtidos naquela necrópole transmontana habilitam-nos a colocar a questão em condições de justo equilíbrio. Os neolíticos praticavam a epigrafia com emblemas variáveis, umas vezes ideográficos, outras vezes já fonéticos, deixando-nos adivinhar as formas alfabéticas do ciclo egeano. De sorte que o alfabeto, que foi pai de todos os mais alfabetos, pode considerar-se como expresso no silabário dito cretense, que seria um apuro dessas rudimentares e parciais tentativas, mais simbólicas que paleográficas.
[p. 48] É mais um reforço de alcance incalculável para a crescente síntese ocidentalista. A formação do alfabeto neste trecho escurecido da esfera denota a homogeneidade de raça e de civilização que tanto distinguiria o florescimento ao H.-Mediterranensis. O seu feitio sedentário é um indício psicológico de que só ele reunia as circunstâncias necessárias para se criar um agente tão poderoso de sociabilidade. Nunca o Ária, raptor orbis, o engendraria, preocupando-se mais em espoliar e escravizar do que em arranjar raízes e construir povoados. Detentor da produção do estanho, sem o qual não se fabricava o bronze, o mundo oeste-europeu, significado pelo pequeno dolicóide, espraiava-se desde as orlas do Mediterrâneo às ribas húmidas do Mar do Norte, contornando a Península pelos litorais do Atlântico acima. Ora toda essa extensão geográfica principia a ser farta em achados epigráficos de alta valia. Dos caracteres rúnicos aos gravados rupestres das Canárias, um mesmo facto se desprende e verifica. É a unidade étnica e social do primitivo «povo de Saturno».
Já víramos como a deslocação sucessiva do lugar oculto em que o deus se refugiara importava ao largo da linha, oceânica, correndo do Báltico às Afortunadas, uma referência insofismável às diversas latitudes em que o dolicóide meão estacionava, sempre perto do mar, olhando sempre o poente. Não é outra a direcção que leva a faixa europeia assinalada pela presença dos dólmenes. Desce ela das paragens setentrionais, com começo nas embocaduras do Báltico, e vai até às cabeceiras da África, para onde avança no rumo do Mediterrâneo, como que a indicar o roteiro seguido pelas vanguardas do nosso dolicocéfalo quando transpusera as ondas para ganhar as ilhas levantinas. Encontramo-nos – mais uma vez se prova – em frente de uma civilização pré-árica, para a qual se não consegue sentido, se nos ativermos aos critérios exclusivistas da sabedoria oficial, servida muito embora por capacidades como Maspero e Lenormant. Tardias foram, com efeito, as aquisições [p. 49] recebidas da Ásia, e se algum benefício a cultura oeste-europeia lhes deve é o intercâmbio de sensações e ideias que Creta representa, elevando as possibilidades nativas do H.-Mediterranensis à plenitude máxima pelo contacto diário com civilizações rivais e também brilhantes, como a egípcia e a assírio-babilónica. Em pouco se computa, porém, o alcance das sugestões alheias, quando se ponderam as influências idas da Europa com os deuses e os ritos, com o alfabeto e os metais. De tutelados volvêmo-nos em preceptores. E se rememorarmos o testemunho de Estrabão ao falar das reminiscências que se recolhiam na Bética sobre a civilização turdetana, velha de mais de seis mil anos, com leis escritas e uma literatura copiosa, reconstitui-se com a ajuda do viajante clássico todo o vigor e toda a laboração dessa numerosa colmeia de povos transitados para a posterioridade nos pelasgos míticos que trabalhavam o solo e erigiam as cidades. Ao mesmo tempo levanta-se uma ponta do mistério com o desbarato da celtomania cientista. O druidismo passa a filiar-se no fundo autóctone do oeste-europeu, não tendo o homem loiro, de grande espada de ferro, feito outra coisa senão assimilá-lo das populações aborígenes.
Aos Pictos da Irlanda se atribui com uma profunda comoção bucólica a posse dos íntimos segredos religiosos, por cuja virtude os padres gauleses prepararam na Antiguidade o desenvolvimento dos seus altos ditames morais.(56) É a extraordinária crepitação animista que cedo ensinou o Ocidental a enterrar os mortos, como que no vislumbre de uma ressurreição futura. Por cima da fossa familiar com mais segurança se acendia depois a fogueira dos vivos. Através desse acto de fé na força invisível do Sangue, realizava-se a solidariedade do indivíduo com as gerações – conforme os bons mandamentos de Auguste Comte. Ao limiar das idades, o intuitivismo assombroso de uma raça na infância [p. 50] encontrava assim para bordão das suas caminhadas a prática inconsciente do conselho que, miríades de anos volvidos, o patriarca do Positivismo atiraria como regra aos tumultos gregários desta época histórica no eclipse.
Laboratório incansável de energias, a índole pachorrenta do pequeno dolicóide deixou aos vindoiros a meditação de uma experiência tão abonada como é a sua. Dotado de raras qualidades de apego, o Ocidental teve o condão dos enternecimentos poéticos. A natureza o fadou com a brandura resistente dos povos agrícolas. Não exercia a guerra como sedentário que era. Brotara do chão como um produto nato, como um produto nato ao chão se afivelara, sem nunca desenlaçar o cordão umbilical. É representativo o caso do nosso indígena, descobrindo-se em Mugem pescador e caçador, mas já com hábitos fixos, quando o ciclo cerealífero vinha distante ainda. Tome-se a revelação do vale do Tejo como tipo geral do nosso homem arcaico. A necrolatria, professada por ele, ascende-o depressa a uma concepção espiritual superior, «Sidhi» ou «Aes Sidhe» – «os habitantes da colina» – é como em velho irlandês se chamam os deuses.(57) Muitos autores supuseram que os galaicos não reconheciam o princípio divino porque não possuíam nem templos nem imagens. Entretanto, rodeavam um determinado monte de apertadas interdições religiosas, temendo-o como a um deus. É a lembrança dos «Ais Sidhe» da tradição câmbrica. Também na Lusitânia havia mais de um mons-sacer, cuja memória subsistiu na toponímia corrente de Monsanto.(58) O culto das fragas e dos cumes, tão definido na Bíblia, é sempre o prenúncio de um monoteísmo em embrião. Não seria um monoteísmo em nascimento aquele alvoroço contemplativo que em noites de luar atraía os cântabros para fora de casa e os punha a dançar em honra de um deus desconhecido?
[p. 51] Tal era a concepção espiritual que o aferro instintivo ao solo conferia ao pequeno dolicóide. Raça agricultora, pelo culto dos astros nocturnos, elevou de bem nova os olhos ao infinito, sentindo o estremecimento do maravilhoso roçar-lhe a alma cândida de gente primitiva. Impressiona-nos o religiosismo com que o homem meão saudava as potências ocultas da Natureza, não as receando nunca como potestades custosas de aplacar, mas tendo-as antes como génios tutelares, companheiros de todas as horas da vida.
As nascentes, as montanhas, as ribeiras, mereceram-lhe o enlevo das criaturas simples, piedosas e bem famigeradas, como na Antiguidade foram os Atlantes. «Serra da Estrela», «Serra da Lua» são ecos aflorando ao de cima dos séculos. Na Armórica, Bromo presidia às águas termais. É o Bermânico, de «aburbulhar», que se reverencia nas lápides votivas de Vizela, postas a salvo, felizmente. Recordemo-nos da adjuração de Don Diogo Ordóñez diante dos Muros de Zamora num dos poemas do ciclo do Cid. «Eu desafio os de Zamora, tanto os grandes como os pequenos. Eu desafio tanto o vivo como o morto, tanto o que nasceu como o que está para nascer. Eu desafio a água que os da Zamora bebem, a lã que eles vestem. Eu desafio tudo e todos, desde as árvores da floresta até aos seixos do rio!» É um episódio da epopeia castelhana que contrasta com a sanganeira que a inflama de raivas vermelhas e que não se combina nada com a truculência ingénita do elemento ibérico.
O ibero expunha os seus mortos à devastação das aves de rapina. O dolicóide da faixa oceânica da Península depositava-os no seio da terra. Eis uma diferença que distingue de sempre, e para sempre, o génio dos dois povos, e que é bem a razão da eterna divortia em que ambos se perfilam irredutivelmente em face um do outro. A epopeia castelhana, cortada da mesma ferocidade grandiosa que entregava os defuntos ao bico dos abutres, é a prova do conflito de moral e sentimentos que nos separa dos nossos vizinhos. Por isso o desafio de [p. 52] Don Diogo Ordóñez, acusando o misticismo lírico do Ocidental, deve tomar-se ali como a manifestação de uma psicologia estranha à medula do poema e à violência que o sacode. O ethos castelhanista, alimentando-se do temperamento errático do ibero, tão parente do celta que acabou por se fundir com ele, só reconheceria as divindades da carnagem, em cuja invocação há sempre uma vítima a saciar-lhes a fúria nunca farta.
O individualismo cioso das castas predomina nas composições aristócraticas de que Castela é o paradigma vivo. A ideia de comunidade afectiva que ressalta na provocação de Zamora é-lhe alheia por estrutura e condições de meio. Só haveria aí de exacto a posição de Don Diogo Ordóñez, isolado em frente de todas as forças visíveis e invisíveis que ele enumera e desafia. É o traço próprio do iberismo épico. O resto não é mais de que uma influência poética e social do espírito do Ocidente a prevalecer nesse trecho soberano das crestomatias espanholas. Só o Ocidente se colocava assim a meio da natureza e se fazia um todo uno com ela. É mais ou menos a lenda do Leinster que se repete, com o Sol e o Vento convocados a testemunho.(59)
Um dos aspectos mais característicos dessa vasta sociedade pré-árica, que no Ocidente se expandira, é com a compreensão sentimental da natureza, como fica dito, o lirismo exaltado da Esperança.
O segredo das Estações iniciou o pequeno dolicóide no renovo da terra e na volta das quadras bonançosas. Não se tratava de uma grei dispersa em tomadias bélicas, com os descampados sem limite por terreno de carreira. Família comunitária, o gosto do enraízamento transmitia-se sucessorialmente através das gerações, como o património mais querido do grupo. Sem inclinação para a terra, jamais a sabedoria druídica se concebera com o [p. 53] seu convívio das plantas e das estrelas. É no alargamento dos costumes agrários que reside o germe primário da Esperança. A semente que se deitava ao chão renasceria mais tarde, com o regresso dos dias maiores, na festa da colheita que se partilhava em comum. Quem aprendia a guardar a maré propícia dos trigos, aprendia em ocasião de mortes e invasões a confiar no instante futuro em que o desfogo perdido havia de tornar.
Não é um torvelinho de nómadas, marchando ao acaso, que pode experimentar o estado psíquico de que a Esperança se sustenta. Com a Esperança é que o homem meão se defende quando o guerreiro de coma loira desponta, levando tudo a ferro e a fogo, como para facilitar o triunfo da civilização de Halstatt que chega com ele. Como em seguida às chuvas e às geadas, vinha inalteravelmente o desabrocho macio da relva e as aves protectoras, desaparecidas, assomavam de novo ao horizonte, oh, decerto que o turbilhão devastador se sumiria numa aberta mais feliz e as populações, tratadas em rebanho, voltariam a ser as senhoras de sua casa e dos seus destinos! O autóctone recobraria a dignidade perdida. As aras e as lareiras não sofreriam mais o respiro oprimido do escravo, regando com suor de sangue, para benefício dos outros, o torrão da courela natal. É que, por mais que a noite dure, o dia avança-lhe sempre no encalço. Atrás do temporal que se esfrangalha por cima das nossas cabeças, a serenidade idílica perturbada, cedo ou tarde, estará de regresso, como a Primavera que se adianta com passo firme no caminho rasgado pelo vigor do Inverno.
Tal é a dinâmica da Esperança que, nascida e criada entre raças propensas à agricultura, traduz um acto de confiança no futuro, só admissível quando o homem se submete ao eterno preceito da hereditariedade. Nós não valemos por nós – conforme a nefanda mentira igualitária. Nós valemos apenas como elo de passagem de uma cadeia interminável que, se se desatar, nos deixa ao acaso como um valor avulso, a que o préstimo faltasse de súbito. [p. 54] Enterrando os seus mortos, não os abandonando nem ao pasto das feras, nem à língua épica da chama, o Ocidental realizou essa solidariedade, preconizada por Comte, em que defuntos e vivos se conjugam e identificam como um corpo único que a mesma alma inspira.
Não é a insurreição do indivíduo contra a Espécie – na sentença memorável do filósofo –, com o capricho pessoal governando em mestre absoluto. O frenesim de casa-de-orates que se indumenta com as anacrónicas místicas revolucionárias não passa de uma recorrência mórbida dos países de entramada estrutura tradicionalista, referente a um estádio anterior de formação que o Ocidente só passageiramente conheceu. Pois é agora a fonte de toda a indisciplina de morte que lhe solavanca os alicerces e lhe rasga bocas enormes no rijo arcaboiço secular. A cura resolve-se no respeito da ordem antiga, cujas razões de vida se confundem com as razões da nossa própria personalidade. Atravessa-se uma crise de consciência social em que a consulta ao reservatório dormente das nossas energias só se alcançará por meio de uma observância miúda de quanto se encerra no determinismo orgânico de cada povo.
Não é já o figurino da Nação-Humanidade, agitando palmas e entoando hossanas diante dos muros da Jerusalém vindoira, a finalidade que atrai o apuro melhor das gerações que sobem. Morre num in-pace de ignomínia a tola utopia internacionalista, com pontífices de avental e trolha oficiando em grande rito. A regra mental que predispõe na actualidade as inteligências não se socorre dos Imortais-Princípios, nem das sociologias contemplativas de Jean-Jacques. A demopsicologia tomou à sua conta os Direitos-do-Homem. E se os desnudasse como um embuste, poupar-nos-ia ao menos a vergonha de se ter acreditado numa peça retórica em que predomina mais o ilogismo de um doente com febre de que os intuitos generosos de uma experiência política. São as entradas de uma era nova. A corrente pragmatista [p. 55] subordina os cérebros, aproando-os a uma síntese reconciliadora. Desfaz-se em retalhos a farraparia ideológica do racionalismo oco e trascendente, em que o claro pensamento ocidental se abastardou, tão depressa se viu contaminado pela avariose do livre-exame. Nós, os das margens do Atlântico, somos as vítimas do espírito-de-análise e da cantiga mágica da Liberdade – de quanta abstrusão metafísica nos veio lá dos recantos tristonhos da Germânia!
Dada a ferrenha índole de casta, nela, qual o homem loiro, de alta estatura, se mantivera sempre em banda dominadora, o individualismo nunca seria para ele senão um motivo de reforço – um convite à sua maior expansão, ao exercício aristocrático da vontade. Supondo-se de uma carne previlegiada, o homem loiro, no entanto, não excedia as barreiras da existência. Como todo o guerreiro, era eminentemente religioso. Aceitava a camaradagem dos perigos e da conquista, entrelaçando vínculos com os companheiros de armas e de arremesso – seus pares e seus irmãos. De maneira que no cultivo constante dos apetites de presa e de comando é que o individualismo histórico se baseia, tão diferente do individualismo filantrópico da Revolução, como é diferente a literatura máscula de um conde de Gobineau ou de um H.S. Chamberlain das apóstrofes redentoristas de qualquer profissional da Salvação-Pública ou dos Estados-Unidos do Universo.
Caindo em cheio na feição particularista e comunitária do Ocidente, o individualismo do H.-Europaeus foi aqui, aonde não havia nem raças vencidas nem raças vencedoras, mas uma forte unidade tecida sobre o laço do parentesco e não no da força, um apelo dirigido a quantos defeitos atávicos jaziam em sonolência, graças ao vigor das nossas disciplinas tradicionais. O duelo tremendo que nesta hora de interrogações dizima a Europa não é mais que o embate decisivo do mesmo individualismo, encarnando o seu aspecto genuíno a Alemanha imperialista, enquanto a França lhe [p. 56] padece as consequências de uma assimilação negativa. Não se substitui ao passado de uma raça o passado de outra raça. Tão bastas que sejam as pilhas de cadáveres, expiando de pupila parada para os astros um desvario de mais de cem anos, por muitos horrores que desabem ainda por cima de nós, já se não duvida que, sendo etnias, e não políticas, em confronto, é o dia de juízo que soa para a quimera de asas de morcego, mas de sorrisos amaviosos de fada, a cuja voz de promessa se abandonaram os países de estreita composição afectiva, em que a hierarquia repousava apenas num frágil suporte de natureza espiritual.
Logo que a análise desmedida aluiu sem remédio essas razões inatas de crer e de agir, foi-se de pronto a garantia da alma colectiva. Cada cabeça, cada destino. A divergência, como um térmite, ficou-se a roer as seguranças ancestrais da sociedade. Obliteraram-se com as paixões de momento as directrizes elaboradoras do génio e da civilização. A história, tão rica de sentido pela certeza de um fim, mudou-se depressa, nos torcicolos em que a arrastaram pela poeira das veredas escuras, numa história de ocasiões perdidas. Manda o acaso que é quem pode. O burro de Platão avança do fundo das idades para se instalar como nosso senhor e dono, em nome da Soberania do Povo. Acena-se ao gregarismo desvairado com a visão de uma ordem por vir, em que não há-de haver nem deuses nem chefes. É com as roupagens fantasmagóricas da superstição do Progresso que se opera o mais nefasto recuo que se conhece nas marchas crescentes da Besta para as altas cumiadas do Espírito. Prevalecem assim os demónios encerrados na cripta da nossa noite inferior. Com a demência que empola as massas e lhes confere o voto de primazia, só se declamam direitos, quando o que só existe são deveres. É a terrível lei psicológica do esforço-mínimo que nos segreda o ópio das suas tentações. É toda a podridão sem nome de um baixo ideal optimista a derribar, a [p. 57] um por um, os socalcos necessários às gradações da Espécie na subida vagarosa para a selecção e para o entendimento.
Calcule-se, porém, a distância que vai do germano utilizando o individualismo como um revigorizador de energias de classe e de pátria, ao ocidental, mordido da epilepsia jacobina, precipitando-se no desmentido de si próprio, tal como aqueles pensadores que acabam por se suicidar, depois de terem reduzido a menos que pó, no furor da análise, os sentimentos e as ideias, a intuição e a inteligência. A guerra presente é a prova infalível. O germano intensifica a sua tradição, invoca-a como um incentivo à plenitude máxima do herói, reclama-se de Deus e unge-se com um primado teológico assombroso sobre os demais povos da terra. É a autoridade, brotando do temperamento educado numa aprendizagem tenaz. É o Número e a Medida. É a Proporção e o Peso que, nascidos com o claro instinto do Ocidente, se transferiram, todavia, pelo valor de um conceito pessimista da Vida, para etnias nebulosas que se fizeram superiores, porque nunca viam o sol e o terreno lhes fugia continuamente debaixo dos pés.
O individualismo importa, por isso, para o alemão, numa confinação exclusivista de grupo, o hábito hereditário de quem, em luta com tudo e com todos, se acostumou de há muito a contar apenas consigo. Impelido da região de origem por espantosos acidentes geognósticos, eis como o homem loiro, à busca de espaço vago por céus inclementes e territórios inóspitos, se ganhou para o egoísmo soberano de pátria, vindo a alcançá-la, afinal, quase no ponto remoto da partida. A peregrinação milenária pelas longadas da esfera deu-lhe ousadia, pulso seguro, ímpeto avassalador. Já não acontece o mesmo ao dolicóide meão que, apossando-se da qualidade madre do homem loiro, a manejou como um instrumento de derrocada.
O individualismo entre o germano vale no seu significado social como a individualidade de uma raça e [p. 58] de uma pátria que apertadamente se unem, para apertadamente se consolidarem. Guilherme saúda-se como herdeiro do Ária, raptor orbis. E é convencido da vocação sobrenatural do homem loiro para o comando do Mundo que ele põe em armas a nação alemã, a qual lhe responde ao apelo como um eco uníssono. Nós, os ocidentais, representantes de uma cultura cem vezes mais brilhante, senhores de uma mais larga e desbravadora missão histórica, rejeitamos, pelo contrário, o património de ideal e de disciplina com que os povos se virilizam e conseguem sustentar-se no maior grau de elevação. É pela estafada excelência dos princípios, é pelo sediço gagaísmo lírico da Revolução, que nos alinhamos agora em combate, deglutindo mal e apressadamente a prosa pacifista que o agitador ainda na véspera nos transmitira em fartas explosões de saliva.
Eu não me entremeto a examinar esse poderoso factor energético que é a guerra em si. Limito-me tão-somente ao registo de um estado mórbido da nossa idiossincrasia de latinos – passe a designação menos própria. Toda a doença deriva de ter o ocidental visto apenas o Homem com maiúscula alegórica – o homem abstracto, ou an-histórico de Sorel – aonde o germano vira o homem, sim, mas o homem loiro, o celta truculento, o indivíduo típico da sua grei. É uma diferença tão pequena que leva de um lado à paranóia cosmopolita do mito libertário, e do outro ao método de ginástica étnica e social, que é o pangermanismo das páginas frementes de Chamberlain e de Ludwig Woltmann.
Assim, enquanto uns, vendo-se a si, era para os tesoiros inesgotáveis do passado que eles recorriam, servindo-se da infinidade de forças que moram no subconsciente de uma colectividade, nós outros corríamos como doidos para o fim dos fins, na mais covarde das abdicações. A grande palavra soltou-a Comte, quando capitulou de rebeldia do Ser contra a Espécie essa nevrose de perdição. [p. 59] Defrontando-se na hora actual, os dois individualismos, no íntimo, são uma e a mesma coisa. As consequências é que são diversas.
Para bem do Ocidente, o germano será vencido pelo vizinho da estepe, com relâmpagos devastadores no olhar coalhado como leite. Como ao declinar da idade antiga, o bárbaro vence os inimigos de Roma debaixo da sedução que irradia da metrópole. Mas, das gentes e gentes que o Império enquadrava em legião, um rumor sinistro se desprendia e tomava corpo, entretanto. Roma, descuidada, gozava os festins de Trimalcion. Ele eram vinhos espumando em cráteras preciosas. Ele eram molhos de requinte com pérolas dissolvidas. Aos ouvidos do soldado obediente à insígnia lupercal chegavam os rumores do banquete. A ânsia das mesmas coisas saborosas e a fome das mesmas carnações de preço entraram a trabalhar-lhe o apetite de animal refreado. Deu atenção à voz que o desafiava. E quando os diques do Reno se romperam, a púrpura de César cedeu à Coroa de Ferro, com gauleses e gaiatas capitulando diante do irmão de coma doirada, flutuando ao vento das batalhas. Ora não vá repetir-se a história, com Paris atraindo as cobiças do eslavo aliado, que de instante para instante, se a sorte o bafeja demais, se pode tornar num braço potente, pesando na balança como a espada de Breno!
Tão escusada que pareça a diversão, cabia ela, contudo, neste estudo em que se procura reconstituir o significado do que seja, em verdade, a raça portuguesa – se a raça portuguesa existe, em desmentido vigoroso ao negativismo de Oliveira Martins. Existe – é uma certeza que se coloca como um dogma. O que interessa agora é surpreender-lhe a capacidade criadora e as mais virtudes que nos caracterizam como povo livre por obra da Etnia e do Meio, nunca pelo acaso das circunstâncias políticas e sociais.
Entronca o nosso autóctone no recuado fundo líbio-ligúrico, em que o H.-Mediterranensis figura [p. 60] como padrão antropológico. O Lusitano, longe de ser uma pretensão heráldica dos humanistas de Quinhentos, como Alexandre Herculano quisera num dia de mau-humor, é antes um dos ramos mais dotados da velha família de Saturno. Como todo o Ocidental, a sua índole comunitária, elevando-o pelas mancomunidades agrícolas à forma jurídica do Município, concluíu por achar na Pátria a completa expressão colectiva, tão cedo o Rei lhe aparece, operando o equilíbrio das behetrias do Norte com os ópidos do Sul.
Trazia consigo, no seu determinismo, esse tácito consenso do todo com as partes que gera as nacionalidades e que é para os períodos agudos que hajam de entrecortá-las a garantia indefectível da continuidade e da duração. Como elementos estáticos, possuía os vínculos de parentesco e vizinhança que lhe tinham vindo da propensão inata do indígena de Mugem para se soldar à terra e estabelecer a fornalha dos vivos em cima da sepultura dos mortos. Como elementos dinâmicos, concedia-lhe faculdades de resistência afectiva, que é a mais forte de todas, o naturalismo próprio do Ocidente, que na Esperança ganhava um facto dionisíaco, tão amplo como o arrebatamento que alevantou a Catedral, tão invencível como o sonho activo que conduziu as Descobertas.
A Esperança é ainda o mesmo sonho activo extraindo da derrota a afirmação de uma vida que não se rende, o grito de uma força que persiste e confia na hora que lhe há-de chegar. Não é um muçulmanismo em delírios de febre, nem uma sensibilidade histérica, perdendo-se em fantasias de impossível. O mito, ensina Georges Sorel, é uma criação da vontade colectiva, em que se condensam as tendências mais fortes de uma época ou de um povo. Não se irmane com a utopia, que não passa de um excesso de imaginação perdendo-se no vago do capricho pessoal. Pois a Esperança guarda dentro dela o profundo génio que concebe os mitos. Sentimento que envolve a colaboração do Tempo e do Espaço, não surgiria senão entre as raças que, enraízadas [p. 61] com apego rijo, se projectavam para além dos horizontes individuais, a fim de se reconhecerem numa forma mais prolongada de existência.
Curioso é notar que a Esperança se materializa sempre em promessas de libertação lá onde se evidencia um movimento de acentuado espírito comunalista. Eu já não falo do nosso Desejado, entrevisto por vilas e aldeias na vigília admirável que prepara a ressurreição dos Concelhos durante a epopeia da Aclamação. Só recordo o Encoberto que se manifesta em Castela com as hermandades ou germanias do século XVI. Anteriormente, no século XII, já na Valónia, com o celebre arquidiácono de Liège, se revelara um «Homem-Predestinado». São factos que nos demonstram como a Esperança, elemento dinâmico da grande alma lírica do Ocidente, corresponde a uma dada modalidade social e histórica que é a Comuna, ou o Município.
A Comuna, ou o Município, derivam da tendência agrária das antigas populações, organizando a partilha do solo e a distribuição da colheita em sistema institucional. Por sua vez, a Esperança confirma o génio sedentário e agrícola que, em relação a um lugar, descobriu com a periodicidade dos fenómenos astrais a volta das estações e o segredo das sementes. Identifica-se a proveniência de ambos os elementos. E assim como um, transposta a fase do particularismo vicinal, se achou num acordo perpétuo de interesses que, pelo regime federativo, o conduziria à noção de Pátria, também o outro, excedendo os limites estreitos de uma emoção bucólica, se tornou perante a lição pessimista das coisas num como que dom de harmonia, tão regular e tão reparador, como o sol subindo e descendo na fita larga dos signos.
Este sentimento unânime da Esperança é mais um traço inolvidável do Ocidente. Da Esperança se nutre a Hibérnia dolorida. Por Artur adormecido aguardam os giestais armoricanos, enfestoando-se todas as primaveras. E já em horas idas uma sibila cantábrica prometera à sua raça [p. 62] em opressão um salvador no futuro.(60) É bem claro o temperamento idealista do pequeno dolicóide que abrangia – não se esqueça nunca –, todo o trato geográfico do litoral atlântico, desde as bocadas do Mar do Norte às faldas em regaço do Atlas. Não é outra a direcção que a linha dos dólmenes pontua, sugerindo a marcha de um povo que avançasse em rumo descendente, como a arqueologia já pretendeu sustentar. Portador de uma cultura pré-árica, não são nunca demais os subsídios que deponham acerca da homogeneidade dessa cultura, quando ainda se não esfarraparam por completo as variadas concepções que a miragem asiática suscitou, nem vão desfeitos os enunciados do arianismo dogmático de Gobineau e Lapouge.
Admitiu-se aqui a hipótese aristocrática do H.-Europaeus unicamente para o efeito de se estudarem as condições do nascimento de uma primeira civilização. São motivos teóricos que subsistem para como o H.-Mediterranensis que, embora não tenha costela doirada nas linhagens da antropo-sociologia, é, sem dúvida, o valor étnico a que se deve a mais recuada impulsão civilizadora. O homem loiro andava na vagabundagem dos caminhos sem fim, mal assomara então às gargantas do Hindu-Kuch – e já o dolicóide meão do neolítico, construtor e sociável, se dotava com uma escrita em ideogramas, que bem depressa, pelo desenrolar das necessidades, se resumiria em inquestionáveis sinais alfabetiformes. A arte da pedra polida é no oeste-europeu assombrosa de graça e de intenção, como, de pronto, para se citar um exemplo, se prova com as pinturas murais de Altamira. Os depósitos recolhidos na necrópole transmontana do Alvão denunciam com o admirável sentido naturalista do nosso autóctone a riqueza de conhecimentos que ele já utilizava num recesso ínvio da montanha. Pelas declarações da etnogenia, de mãos trocadas com o positivismo arqueológico, não é ao [p. 63] Ária, cuja encarnação aproximada, em realidade, se verifica no H.-Europaeus, que nós podemos atribuir a autoria de uma cultura tão cheia de independência e cunho fisionómico. Conhecido que o pequeno dolicóide é que a transmite por toda a parte, lá desde as praias da Irlanda às paragens doces de Creta, não se me afigura também com entrada a debatidíssima solução turaniana.
Os Árias já nós vimos que, transitados de um ponto setentrional do nosso continente para as misteriosas vastidões da Ásia, só a partir do século XIII a.C. é que se adiantam com as primeiras migrações. Sabe-se igualmente que até ao período da Téne toda a civilização manifestada na Europa é rigorosamente aborígene. Invalidam-se por si mesmas as impertinências intelectuais que porventura pretendam endireitar ainda a miragem orientalista no seu desabamento final.
O Ária toca a cultura do pequeno dolicóide quando se avizinha do Egeu. As máscaras de oiro de Micenas revelam o conquistador, mas a arte é toda ela indígena. Se nesse entreposto do Levante, assim facilitado às influências asiáticas, o homem loiro se não acusa mais cedo em contacto com a cultura do Ocidente, como é que ele alcançaria as distantes ribas do Atlântico, onde de antemão com o período bronzífero e os Albiões mercadejando o estanho nas Cassitérides, a metalurgia atingira um desenvolvimento notabilíssimo? A opinião de Salomon Reinach, fixando no centro da Europa um foco do qual a civilização ocidental irradiaria como um leque abrindo-se, eu bem sei que nos implica uma resposta imediata. Duas correntes análogas iriam divergindo do eixo para as extremidades. E enquanto uma se comunica aos imensos relevos que correm direitos ao planalto do Irão, a outra, caminho do Oceano, pousaria pela linha-de-costa abaixo até investir o Estreito. As relatividades de ambiente haviam de cavar ao depois distinções irredutíveis. E quando mais tarde os dois ramos se perfilassem em frente um do outro, com a acção do Tempo e [p. 64] a química do Meio, eles não seriam senão estrangeiros em face de estrangeiros.
Desta sorte, a cultura dita oeste-europeia penetraria entre nós pelo norte da Península, na descida dos povos para zonas mais amoráveis. Tal é o juízo em que o insigne Martins Sarmento assenta o seu ligurismo, que se abastece doutrinariamente de uma imaginária proveniência ariana. A Martins Sarmento nós temos obrigação de venerá-lo como um espírito eleito que adivinhou toda a revolução científica que anda deslocando para o nosso Ocidente, onde ficava a maravilhosa Tharsis da passagem de Ezequias, o berço de milagre que a fantasia dos sábios teimou em instalar nas dobras enigmáticas do Pamir. Todavia, por muito que o tra balhador formidável da Citânia se adiantasse na reconstituição dos textos primitivos da Ora Marítima e da Argonáutica, pela posição da época e das teorias preponderantes, Martins Sarmento não se pôde eximir a certas ideias feitas.
A uma linha da verdade, houve ficções eruditas que lhe interceptaram a plenitude da visão. Creta não se desentranhara ainda na opulência sem conto das suas riquezas. Apenas Micenas se conhecia. E bem sensacional é aquele estudo no primeiro fascículo da Portugália em que Martins Sarmento compara com os achados de Schliemann no Levante alguns fragmentos arquitectónicos de Briteiros e Sabroso. A afinidade, porém, é para ele mais um indício do Ária iniciador, derramando pelas cercanias da Ásia-Menor os profundos dons do seu génio e dirigindo-se de seguida ao seio dos Hiperbóreos e dos Cimérios na árdua faina de missionário dos povos. O avanço – como se supusera – não se teria produzido pelo Mediterrâneo, sempre à vista de terra, com ilhas de permeio promovendo a facilidade da rota. Parando um momento na faixa convidativa do extremo oriente europeu, o Ária enfiaria antes pelo Danúbio numa lenta ascenção; e, aproveitando-se do Reno, iria pela acessível navegação fluvial dar consigo no Mar do Norte. [p. 65]Eis como se prepara a floração abundante do período bronzífero, segundo Martins Sarmento, que assinala à chegada dos Árias os últimos arrancos da pedra polida.
Nem Martins Sarmento dispunha dos materiais fornecidos pela filologia comparada, quanto à naturalidade europeia do homem loiro, nem quanto à data recentíssima dos hinos védicos. Insulado no outeiro da Citânia, ele resulta por isso bem mais admirável quando pela simples interpretação dos textos clássicos se apercebe desse caminho interior que as migrações tomariam. O erro esteve apenas na inversão dos dados do problema. Uma grei atlântica é que desceria para o oriente mediterrânico pelas estradas fluviais do Reno e do Danúbio. Nunca um povo asiático rompera por elas acima.
Mais uma vez se insiste em que os Árias históricos apontam nas orlas da Grécia com os Aqueus que no século XIII a.C. tinham submetido por completo o mundo egeano. O segundo arremesso pularia no século XI com os Dórios, sobrepondo-se aos Aqueus que haviam assimilado os benefícios da cultura encontrada, como se observou na necrópole de Micenas, em que a arte é indígena, mas os corpos reais de evidente origem estrangeira. Os Aqueus, provindo dos Balcãs para o Peloponeso, engolfaram-se na guerra de Tróia e são os obreiros arrojados do ciclo cantado por Homero. Sucedem-lhes os Dórios, que os dizimam, em cumprimento da sina que leva o H.-Europaeus a exterminar-se sempre em brigas fratricidas. O bronze definha-se. É o Dípilon que surge com as armas de ferro. Ora a mais antiga estação do ferro hoje exumada, a que se reconstitui como tipo, é a de Hallstatt, na Alta-Áustria, que os arqueólogos classificam como do século VIII a.C. É a primeira civilização do do ferro com o celta amanhecendo para os destinos da Europa. A civilização da Téne é já de outra fase mais próxima com que se prelimina o aparecimento dos gauleses e o cerco de Roma por Breno.
Anteriormente às datas estabelecidas, não se [p. 66] conhece manifestação nenhuma do dolicocéfalo linfático e de talhe elevado adentro do continente europeu. Pairaria então pelas alturas do Irão (Airyânam em avéstico), donde tiraria o nome. Só numa época mais baixa que a época do bronze se afirma como conquistador, subordinando o dolicóide de Minos e reduzindo à escravidão o pelasgo diligente. É provavelmente pela Tessália que penetra na Grécia. E, concentrado aí, distribui-se em seguida para a pilhagem das indústrias florescentes do homem meão, assomando logo para a história os bandos que desabam sobre a cultura faustosa do Mediterrâneo. Os ramos que se dirigem para o lado oposto só tarde é que se entremostram em Hallstatt, sumidos como andaram durante bastas centenas de anos por pântanos e desfiladeiros, em que o sol tardava e as montanhas faziam mais sombra que a noite.(61)
Aonde é que fica, pois, o extremo império de Saturno – que consaguinidade prende, porventura, as gentes trabalhadores do Ocidente ao truculento invasor indo-europeu que, se marca uma nova idade nas indústrias em adolescência, é para utilizar logo o ferro como agente mais rápido de extermínio? As fábricas Krupp e a catedral de Reims não são de agora – creia-se. Estavam pressentidas na catástrofe que submergiu a cultura egeana ao peso de uma massa empenachada, de feras qualidades aristocráticas, sim, mas que não via mais que o seu apetite de presa e de comando, guardando-se já do contágio dos povos melhores dotados pelo exclusivismo áspero de casta. Como é que nós, [p. 67] ocidentais, nos admiramos da brutalidade que incendeia Louvaina, se em Guilherme, quando se unge com as predilecções do céu e avoca a si a herança universal do Ária, ressurge toda a violência do indivíduo loiro ao chocar-se como o meão de cabelos escuros, a quem ainda por cima manda chamar besta de carga pelos fariseus da antropo-sociologia?! Oh, acreditem que a história é periódica, que ela se repete nos seus episódios mais miúdos!
No drama que hoje se desenrola sobre a terra fremente da França é o eterno duelo étnico do H.-Europaeus com o H.-Mediterranensisque palpita fundamentalmente. É a lâmina abrutada de Breno. É a rebeldia sacrílega de Lutero. É o cerco de Paris em 71, artilhando as estufas do Muséum e pondo em risco as colecções do Louvre. É, enfim, a raiva surda de uma raça que nunca soube o que era pensar com claridade nem sentir com transparência! É o cangirão de cerveja ao lado do sorriso da Gioconda. Pergunto eu, por isso, que solidariedade de passado, ou de destino, nos há de acamaradar, como se fôssemos irmãos com irmãos, se é a carne da nossa carne que o não deixa, se é a nossa alma em perigo que o não consente?!
Não! É bem outra, com outro alcance mais nobre, a nossa psicologia. O divórcio irreparável vem da raiz dos séculos. Já Hércules, ao atravessar o país dos pigmeus, os arrepanhava aos punhados, levando-os consigo dentro do seu manto de pele de leão. É como se simboliza na expedição alegórica ao Jardim das Hespérides o embate do Ária com o pequeno dolicóide. Hespérides, de Divaspara, quer dizer «extremidade do dia», ou «sítio onde o dia acaba». A alusão não pode ser mais aberta. Nas maravilhas desse horto encantado adivinha-se o esplendor sem par da civilização do bronze no Ocidente, que é, com efeito, o ponto onde o sol desaparece. O pigmeu identifica-se com o nosso homem meão, enquanto Hércules, personificação da força, é o mito que esconde as arremetidas do H.-Europaeus.
H.-Europaeus – homem por excelência, [p. 68] o apelidam os teólogos do pangermanismo – bebendo das nobiliarquias rácicas de Gobineau e erguendo a classificação de Linneu em artigo de fé. H.-Mediterranensis se etiqueta o habitante da zona atlântica numa condescendência desdenhosa, em que vai como que um sorriso de patrono para o pobre liberto de há pouco. Mas, detentor de uma cultura pré-árica, já sabedora do segredo dos metais e do governo dos astros, que obséquio dos deuses conferiria ao pequeno dolicóide a centelha do génio, sem que o varão eleito das escrituras antropológicas lhe impusesse sobre a cabeça o sinal da iniciação?
[p. 69 e 70] ### [IV] O espírito da Atlântida
[p. 71] Importa, na realidade, desvendar agora as origens do indígena do Ocidente que deu tão grandes provas do seu génio criador. Comece-se por não se aceitar a classificação de H.-Mediterranensis por menos exacta. Se não se lhe quiser aplicar a de H.-Europaeus, que em justiça lhe cabe, emende-se aquela que o designa pela de H.-Atlanticus. É certo que foi no mar do Arquipélago que o ramo dito líbio-ligúrico atingiu a maior expressão social e artística. Considere-se, porém, a razão decisiva do seu habitat e das condições especiais do meio que o gerou. Parece-me que é o critério a ponderar-se. E não se obtempere que o elemento-Civilização caracteriza com mais vigor. Mesmo perfilhando semelhante critério, a emenda teria de se manter.
Do Atlântico, ou bordejando para o Estreito e seguindo a costa de África, ou entranhando-se pelas vias fluviais do interior da Europa – de uma maneira, ou de outra, o impulso inicial irradia de um único foco oceânico. Não me adianto a emitir a minha opinião. Limito-me por ora a recordar as tendências que há para fixar num ciclo marítimo, estranho ao Mediterrâneo, tanto a lenda como a poesia dos Errores de Ulisses. Os gregos do Dípilon, arrebatados pelas situações patéticas da grande guerra a que acabavam de assistir, acomodariam aos horizontes da Hélada os resíduos de alguma epopeia oral, recolhida por mareantes em navegação longínqua.
Eu frisei a circunstância de na Odisseia o mar [p. 72] ser sempre o mar imenso, o mar infinito, quando não é assim o Egeu todo pontuado de ilhas ridentes, com o Egipto perto e as ribas doces da Ásia de fácil abordamento. É um facto que realça a inspiração atlântica do Nostos. Repare-se que, localizado ele no declinar resplendente de Micenas, as moradas descritas no poema não guardam a sumptuosidade da casa típica dos Átridas. A habitação de Ulisses é mais uma cabana nórdica, tal como no-la sugerem as sagas medievais, de que o palácio de um rei, como o requinte egeano os sabia erigir. Também as sepulturas de Homero não são as sepulturas célebres do Dípilon. No Dípilon, e segundo as exumações de Schliemann, os mortos, incinerados ou não, depositavam-se em vastas câmaras funerárias, as mais das vezes escavadas na rocha. Em Homero é o tumulus, ou a nossa vulgaríssima mamoa, que se alevanta em monumento sobre os restos mortais de Patroclo e de Elpenor.(62)
Um outro aspecto que convém não olvidar é a fisionomia colectiva da gente da Odisseia. Trata-se bem à farta de um povo agrícola, utilizando até já o ferro, enquanto na Ilíada se revela uma sociedade militar confinada ainda na pura civilização do bronze. O facto de figurar o ferro na Odisseia não invalida em nada a hipótese em exposição. Na arqueologia há quem se incline a admitir que em dadas regiões o ferro sucedeu imediatamente à pedra polida, não sendo por isso o celta de Hallstatt nem o guerreiro do Dípilon os propagadores do novo mineral. No Egipto, a reconhecerem-se as descobertas de Flinders Petrie, o neolítico concluiria sem saltos bruscos na pura idade do ferro. Sustentam alguns etnógrafos que o trabalho do ferro foi introduzido no Mediterrâneo, não pelas mangas irrompentes do Ária, mas pelos próprios negros que o praticavam de longos tempos. Assim, sem se lhe alterar a cor primitiva, nem destituir de [p. 73] legitimidade a base ocidentalista do Nostos, o ferro, na Odisseia, ou representa um conhecimento posterior dos rapsodos que o aclimataram, tanto mais que só figura ali em motivos de comparação literária, ou é então mais uma reminiscência autêntica do velho mundo ocidental.(63)
Eu me explico. O pequeno dolicóide individualiza-se, sem dúvida, pelo florescimento das indústrias do bronze. Mas desde que recentes descobertas nos indicam o ferro como comunicado às zonas mediterrânicas pelos negros da África, não custa a conceber que o habitante da margem atlântica igualmente o conhecesse, visto que, pelas reconstituições topográficas de Martins Sarmento sobre o fundo original da Argonáutica, a navegação no Ocidente haveria descido até às alturas do Bojador nessa hora atrasada da história.
Paralelamente, o cunho primitivo da casa micénica, tal como a representam as urnas funerárias recolhidas em Creta e se reconstitui nas edificações da nossa Citânia, acusa-nos pelo telhado em cone um clima pluvioso, pertencente a outras latitudes que não as do Mar-Egeu.(64)
Coisa interessante é reparar também que os gregos do poema de Homero não são ictiófagos. Pois em Micenas e em Tirinto, nas terramares da Itália e nos assentos de cozinha do cabeço da Arruda, embora não contemporâneos, mas dependentes da mesma camada étnica, também a ictiofagia se não verifica. Um escrúpulo religioso se entremostra aqui, bem natural em populações que praticavam a marinha, e que é mais um reforço para se mostrar a profunda unidade social a que o homem meão ascendera.(65)
Outra prova da expansão fecundíssima dessa grande raça, ainda que dominado pelo celtismo arqueológico, já Arbois de Jubainville a enuciara no seu notável estudo, La civilisation des celtes et [p. 74] celle de l’épopée homérique. A religião com um deus supremo, acompanhado de antropomorfismo, com o Orbis alius, com os números propícios e os números fatídicos, etc., é entre os povos da Grécia, segundo Homero, a religião professada cá nesta parte pelos habitantes da Gália. É idêntica a composição da família, com a monogamia, com as concubinas, com o poder paternal, com o poder das mulheres, com o direito do senhor. Idênticos são os costumes guerreiros, como idêntica é a sociedade com os bardos correspondendo aos aédes, com os veletes (videntes) lembrando os vates helénicos.(66) Juntem-se os subsídios trazidos pela filologia e logo o quadro de raças traçado por Hesíodo atinge um relevo intenso, com o seu apertado parentesco bem às claras.
Diefenbach conta que uma dama do país de Gales entendeu em Argel com a ajuda do gaélico o dialecto de um kábila do interior.(67) Salomon Reinach, confirmando a não-ictiofagia do pequeno dolicóide, assevera, através da miragem ariana, que, com efeito, nas línguas chamadas indoeuropeias, faltam palavras de proveniência comum para mencionar os peixes comestíveis, enquanto que o vocábulo com que se exprime a ostra tem em todas elas a mesma derivação. É bom acrescentar que, se os despojos culinários de Micenas e Tirinto como os das terramares da Itália e dos kiökkenmöddinger da Arruda, nos revelam uma interdição alimentar para com o peixe, no entanto, as conchas de molusco são frequentes entre o amontado de restos examinados pela curiosidade sábia.
A linguística está de acordo com os resultados de observação directa. É de singular valia para a nossa tese a sua afirmação de que as línguas qualificadas ‘arianas’ não nos podem explicar, nem na forma mais arcaica, a afinidade de certas [p. 75] expressões toponímicas que se constatam aqui e além – na Itália e na Ásia Menor. É aquele reparo de Salomon Reinach acerca do sufixo românico itta, em francês ette. Este sufixo encontra-se nos nomes de algumas cidades pelásgicas como Baretta, Trigletta, Larissa (Laritsa), Argissa (Argitsa), etc., que, debaixo de uma pronúncia helenizada, não contam origem que os justifique nos mais velhos documentos linguísticos do mundo Ária.(68)
A arquitectura e as artes decorativas corroboram a similitude estatuída pela filologia. Assim, os nossos dólmenes e as construções ciclópicas são sem dúvida nenhuma vestígios de um mesmo povo edificador. Os ídolos femininos que se têm desenterrado nos monumentos megalíticos da Bretanha e nas paredes internas das grutas funerárias de Boury e Uzés, nós os reconhecemos na cerâmica primeva de Tróia e de Chipre. Também um dos elementos primaciais da ornamentação micénica – «les fers à cheval concentriques» – se nos mostraram nos despojos apurados em Gavrinis, no Morbihan, e em Newgrange, na Irlanda. É o sistema ornamental que antecede no Ocidente a invasão do estilo geométrico, caracterizador do Dípilon.
Sem me alargar mais num inventário que nunca acabaria, eu considero o delicocéfalo meão investido na posse de uma brilhante cultura, como é a que em resumo fica exposta. Verificada a impossibilidade da sua proveniência árica, ver-nos-emos nós constrangidos a aceitar a solução turaniana, que se pretende deduzir de uma imigração braquicéfala, remontando ao neolítico? É uma variante, mais recuada e menos sustentável, do monogenismo asiático. Descai hoje perante os postulados da antropologia e não são as indicações da pré-história que lhe fornecem aprumo dorsal. Começa logo por não ser exacta a extracção teórica que se atribui ao braquióide, rotulado no campo científico pelo apelativo de H.-Alpinus. É o parvus, agilis, timidus, da classificação de Linneu. Opõem-no ao [p. 76] homem loiro e de alto talhe. E, conforme Mortillet e Topinard, seria o portador da acha polida e dos animais domésticos, introduzindo ainda entre nós o trigo e as árvores frutíferas. Nada se esboroa, porém, com mais facilidade, como essa ideação doutrinária, conferindo ao braquióide, que é o lígure de Teófilo,(69) o monopólio cerrado das civilizações.
Nem ele é exclusivamente de derivação exótica, pois já na transição do mesolítico os kiökkenmöddinger da Arruda e as cavernas de Corbières lhe assinalaram a coexistência com o nosso dolicocéfalo. Não é por isso o pioneiro da acha polida, nem se lhe deve a iniciação do período agrícola, visto que em certas explorações pirenáicas o trigo se mostra cultivado desde o quinto interglaciário, quando ainda não bruxuleavam nem os alvores do neolítico. É o que acontece com as árvores de fruto, reputadas como advindas da Ásia. Quanto aos animais domésticos, não se ignora já que aqueles que não sejam indígenas da Europa entroncam em linhas zoológicas africanas, em contacto fácil com o nosso continente por meio do istmo que, roto, deu lugar ao estreito de Gibraltar. E sobre a acha de pedra, basta dizer-se que na Ásia é que ela é precisamente tardia e rara. Vacher de Lapouge aponta-lhe a África como berço, alegando que é aonde se lhe segue a evolução com mais nitidez, desde o tipo embrionário do ciclo acheuleneano à peça definitiva que marca a plenitude do neolítico.(70)
É o H.-Alpinus de cabeça globulosa, estatura abaixo da média, moreno e mesorrínico. Exemplifica-se pela qualificação de raça de Grenelle. Deniker adjectiva-a de cevenola, por quanto na região das Cevennes é que se acantonam os seus representantes mais lídimos. Estabelece-se-lhe uma linhagem mongolóide, com apertadas ligações eslavas ou fínicas. [p. 77] Em Portugal preparou o cruzamento mesaticéfalo que se destrinça na nossa composição antropológica. Não é, contudo, como factor étnico, de uma influência tão decisiva, como se depreende do ligurismo sustentado pelo insigne Martins Sarmento e ao depois por toda a obra de Teófilo. Predominou mais na hereditariedade espanhola, misturando-se com a possível transfusão shumero-acadeana em que se filia, com base ou não, a ascendência do ibero.
A qualificação de H.-Alpinus veio-lhe do maciço helvético, por lá preponderar, a partir da Idade-Média. Nota-se-lhe uma tendência inata para habitar as altitudes, quando o H.-Europaeus «dédaigne les régions pauvres et inégales» – pontifica o curioso senhor de Lapouge. É falsa a ligação que o procura aproximar do H.-Scythicus, ou tártaro braquicéfalo. O grau de braquicefalia da gente chamada de Grenelle excede os mais pronunciados índices braquióides que entre os mongóis se acusam. A sobrevivência de caracteres porventura comuns explicam-se por dosagens casuais, nunca por alianças com um êxodo de pura fonte chinesa, metendo as raízes nas penumbras do tempo. O nosso H.-Priscus, esse seria primo carnal do esquimó, que por via da cor se aparenta com algumas bifurcações da família amarela. No entanto, não generalizemos a semelhança de maneira a ter-se como assente uma identidade de tronco entre o braquicéfalo europeu e o braquicéfalo asiático.
Tappeiner especializou-se no estudo do assunto. Assim, no exame de 929 crânios e de 8200 pessoas vivas, não achou entre a gente das Cevennes um único exemplar que recordasse remanescências mongolóides. É ele que sustenta que a raça amarela não é braquicéfala. O verdadeiro H.-Asiaticus, de cabelos e olhos pretos, com uma estatura que não cresce para além da média, é invariavelmente dolicóide. De modo que em 700 milhões de amarelos nem num quarto aproximado se denunciara a braquicefalia. Pode mesmo assegurar-se que na Europa a percentagem é incomparavelmente maior, [p. 78] testemunhando tanto lá como cá uma mistura de elementos intrusos.(71)
A história, acompanhando as marchas da antropologia, concede ao problema um aspecto terminante, desde que nos declara que o aparecimento do braquicéfalo amarelo nos plainos centrais da Ásia não é anterior à nossa era. As investigações realizadas da Rússia ao Turquestão, abrangendo a Caucásia e a Sibéria ocidental, não produziram um só crânio mongolóide que seja mais velho de que as invasões dos Hunos, Tártaros ou Turcos. Os braquicéfalos da Ásia-Menor é que são chegados ao nosso, ao que parece. Topinard via neles alpinos demorados na sua migração para oeste. Era a idade feliz da miragem orientalista. E a designação de celto-eslavo que se apõe a esta espécie antropológica remonta às horas primeiras da etnogenia. Broca opinava que um povo braquicéfalo saíra do cruzamento de uma primitiva aluvião dolicocéfala com autóctones braquióides. São as celtas da fábula arqueológica, interceptando a clarividência crítica dos eruditos em duelos tão famosos nos anais do bom saber, como as guerras encarniçadas do Alecrim com a Mangerona.
Claro que modernamente o celta é o homem loiro contemporâneo da espada de ferro, não valendo senão como um sinónimo do Ária conquistador, ao contrário do que se supunha nas apostas subjectivistas dos sábios em que ora figurava de lígure, confundido com o substractum aborígene, ora o tinham como um povo estranho, instalando-se no Ocidente pela ocupação. Martins Sarmento, para esclarecer as posições do seu ligurismo, alvitrou a diferença entre o celta da história, que é o H.-Europaeus, e o celta da arqueologia, encarnado no lígure para o insigne vimaranense, mas que, quanto a mim, é o H.-Mediterranensis, ou, mais justamente, Atlanticus.
O recuo operado pelos trabalhos de Martins Sarmento nas datas da nossa formação étnica levou Teófilo Braga a perscrutar a admirável cultura [p. 79] pré-árica, a que o Ocidente ascendera. Atribuíu-a, no entanto, ao alastramento do braquicéfalo com hipotéticas genealogias asiáticas. De um imaginário confronto do Ária na Bactriana com um povo inimigo, nasceu o nome de turaniano dado a esse povo. Derivara-se do Turan, título de uma grande extensão geográfica, por meio da qual a sabedoria avéstica iniciava a entrada do ano com a subida no Zodíaco da constelação do Taurus. É como considera Teófilo a nossa civilização arcaica, entroncando-a no património religioso do Irão.(72)
Já aqui se disse como o Avesta se transportou da alta pristinidade em que o haviam colocado para uma data que pouco mais subida será que o império de Alexandre Magno. É certo que o Touro subsiste entre as práticas rituais do H.-Atlanticus como um totem veneradíssimo. Na Península, desde a noite dos séculos, que a sua efígie anda gravada em moedas. Na heráldica portuguesa, as armas de algumas povoações conservam um touro como emblema nobiliárquico, em reminiscência inconsciente do antigo culto. Há ainda, como prova, os berrões transmontanos. Mas a tradição mais viva é a da festa popular de São Marcos, celebrada, que eu saiba, em Alter do Chão e em Santo António das Areias, no distrito de Portalegre.
O animal com que aquele Evangelista se simboliza é o Leão. A São Lucas é que o touro cabe. Todavia, São Marcos tem-se no Alentejo como padroeiro de boiadas e de boieiros, sendo honrado com um novilho no dia da sua festa pela devoção dos mordomos. Conduzido por eles, o novilho entra na igreja – «Entra, Marcos! Entra, Marcos!», diz a irmandade e secunda o levita –, e depois de abençoado pelo padre, canta-se-lhe o Evangelho nos cornos. Recordemos que São Marcos se festeja a 25 de Abril. A 20 marca a astronomia o ingresso do Sol em Taurus. Não haverá na insólita atribuição do boi àquele Evangelista um vestígio mítico do [p. 80]culto totémico do Touro? Eu penso que sim, acrescendo que, de mais a mais, conforme o Lunário Perpétuo, o Touro como signo tem poder sobre Estremoz, Elvas, Vila Viçosa e Portalegre. É ou não é um traçado gráfico da zona em que o curioso resíduo cultual conseguiu aturar?
Não nos esqueçamos de que o Touro era adorado como totem entre os eginetas. O Minotauro, encerrado no palácio do Labirinto (de Labrijs, dupla acha), soberanamente o demonstra. O rapto de Europa por Zeus, que se transformara em touro, é outro indício não menos apreciável. De maneira que, estreitamente ligado à civilização bronzífera que tem como condutor o dolicóide meão, o signo do Taurus não constituiria importação do braquicéfalo reputado como imigrante. Carecemos de deslocar no tempo e no espaço a génese dessa cultura notabilíssima. E não é aos planaltos do Oriente que nós iremos descobrir-lhe a natividade. Para mim, o H.-Mediterranensis, que já agora não designarei senão por H.-Atlanticus, não é mais que um sobrevivo da Atlântida submersa.
Não se ignora a memória guardada em Platão acerca do legendário continente que o mar teria engolido. Sólon a houvera recebido dos padres egípcios que traziam o facto registado nos seus livros herméticos. Segundo a narrativa clássica, um povo dotado de incomensurável poder marítimo apareceria das bandas do Estreito em avançadas belicosas sobre o Egipto. São as chamadas nações do Mar que enchem de referências misteriosas a história dos países orientais. Batalhas porfiadas se travaram. E Atenas susteve com esforço incrível o espraiar da onda assoladora, crescendo sem cessar. Partia ela de uma ilha formidável que existia em frente do Estreito e a qual parecia bem maior que a África e Ásia juntas. Mas uma vez um tremor de terra, acompanhado de furiosas inundações, fez sumir em pouco mais de uma noite a orgulhosa Atlântida que o Oceano encobriu para todo o sempre.
É ainda Platão, no diálogo intitulado Crítias, quem nos dá a descrição da famosa ilha. Crítias [p. 81] fala. Sócrates, Timeu e Hermócrates escutam-no. «Como nos ensina a tradição egípcia» – conta o filósofo –, «uma guerra geral se declarou há nove mil anos entre os povos que estavam para cá das Colunas de Hércules e os que viviam do lado de além. Duma parte, Atenas; da outra, os reis da Atlântida. Já dissemos que esta ilha seria maior de que a Ásia e África juntas, mas que foi submergida devido a um tremor de terra. No sítio onde ela existia apenas se encontra um lodo que estaca a navegação e torna o mar impraticável.» E Crítias continuou desenvolvendo a fábula dos padres egípcios sobre a formação do império atlântico. A Atlântida coubera em partilhas a Neptuno, o qual a dividira por dez filhos que tivera de uma mortal. A raça atlântica nascera numa planície perto do Oceano, protegida por um círculo de montanhas que a deixava só aberta ao vento amável do sul. Mais tarde, na planície ergueu-se uma cidade majestosa, com palácios e templos edificados a pedra de três cores – preta, branca e vermelha – que se extraía do próprio seio da ilha, rica em toda a espécie de minério.
Nem só em Platão ficou memória desse enigmático continente desaparecido. Amiano Marcelino chama-lhe Insula Europeo Orbe spatiosior. Tertuliano, Marcelus ou Fílon perpetuaram a continuidade da tradição. E se por muito tempo ela se considerou apenas como um simples conto de eru ditos, a geologia hodierna caminha a passadas largas para nos reconstituir o trato marítimo corres pondente à famosa ilha afundida. Já está provada a identidade da estrutura herciniana da Alemanha, compreendida do Danúbio ao Reno e do Eslter ao Mar do Norte, com a estrutura dos montes Alleghany que são a coluna espinal das costas setentrionais da América.(73) A semelhança da flora [p. 82] miocénica da Europa Central com a flora actual da América do Norte, região do Leste, leva os naturalistas a proclamar a existência do continente atlântico. O zoólogo Hamy observa que há certos insectos comuns à América Oriental e à Europa-Ocidental. O facto é confirmado pelo estudo dos fósseis. E por sua banda as cartas batimétricas do Atlântico ajudam-nos a determinar a orla do misterioso continente submerso. A Madeira, os Açores, as Canárias, o arquipélago de Cabo Verde, as Antilhas e a Terra Nova, sem aludir a ilhéus e a baixios, pontuam os seus restos culminantes. É como que um dorso enormíssimo que das Antilhas ao plâteau télépathique, marchando na direcção leste-oeste, nos não consente hesitações nenhumas acerca da verdade da Atlântida.
As sondagens marítimas auxiliam a ressurreição. O chamado «mar do sargaço» que Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral atravessaram, corroborando as narrativas clássicas de Heródoto e de Estrabão, é o sinal claríssimo do cataclismo que abismaria a Atlântida, tornando o Oceano difícil aos navegadores antigos. A vegetação espessa que enleava as quilhas, engrossando a água em termos de ser impossível de se cortar, denota bem um fundo próximo de terra, com recursos ainda suficientes para alimentar um florescimento de algas tamanhas e tão robustas. Era o lodo da catástrofe elaborado em humus criador.
A configuração da Atlântida seria aproximadamente a da Áustria com numerosos arquipélagos fazendo-lhe guarda de honra. Há também quem a represente como um longuíssimo istmo, estendondo-se das vizinhanças do Canadá até quase à base dos Pirenéus. Tocava na Terra Nova e nos Açores. Abrangeria também a Flórida e as Afortunadas. O golfo de Cádis incorpora-se numa oval de afundimento que um distinto geólogo português, o capitão de engenharia Pereira de Sousa, designa por afundimento em oval lusitano-hispano-marroquino, [p. 83] supondo que aí mergulhara uma parte da Atlântida.(74)
O professor francês Louis Gentil, em 1909, notava numa viagem de exploração pela costa de Marro cos que os alicerces terciários do Atlas se embebiam no Atlântico(75) entre o cabo Rir e a fortaleza de Agadir, para se soerguerem mais adiante nas ilhas Canárias. «Autrement dit», escreve ele, «il y a ennoyage des plissements de l’Atlas sous l’Ocean, entre la côte sudmarrocaine et l’archipel espagnol.» O botânico Pitard descobria depois na Grande Canária e na Ilha do Ferro abundantes depósitos cretácicos que testemunhavam, com efeito, o prolongamento do Atlas pelas Afortunadas do mito.
Esse afundamento oceânico cortou bruscamente a meseta marroquina e é no sentido em que ela corria que o arquipélago da Madeira se eleva. «Embora não tenham sido ainda encontradas no Arquipélago da Madeira, como o foram no dos Açores, Cabo Verde e Canárias, rochas antigas que indicam o embasamento sobre o qual os vulcões edificaram essas ilhas, é preciso notar que a Ilha do Porto Santo é constituída principalmente por depósitos terciários, como também existem sobre a Meseta marroquina.» Quer K. Mayer que os depósitos terciários verificados na Madeira, à excepção de uma diminuta camada mais recente, se filiem no Helvético, que é o primeiro andar do Mediterrâneo de Suess. É de 410 metros a altitude que atinge na Madeira. Berkeley Cotter, por vários fósseis de Porto Santo, aceita aquele período geológico, não excluindo, em todo o caso, a possibilidade de que uma maioria sensível de tais depósitos se classifique pelo Tortoniano, ou seja o andar superior do sistema miocénico. Berkeley Cotter, segundo o senhor Pereira de Sousa, descreve-nos alguns subfósseis marinhos das «praias levantadas» de Porto Santo, reputando-os como quaternários ou [p. 84] recentes. «Por conseguinte», deduz Pereira de Sousa, «a quem na deficiência de preparação científica me vou encostando, embora os Arquipélagos das Canárias e da Madeira estejam já na orla com que limito o afundimento em oval lusitano-hispânico-marroquino, bem visível numa carta hipsométrica, podem bem considerar-se os seus vulcões como consequências deste afundimento, e os outros terrenos como restos da região que se afundou.»
«Apresentam-se as ilhas Canárias», prosegue o senhor Pereira de Sousa, «dispostas aproximadamente em arco côncavo para o N. de modo a limitar a oval. Este facto e a disposição também em arco côncavo das ilhas de Cabo Verde tinha sugerido a Michel Levy – o sábio que mostrou a importância dos afundimentos em oval e lhe deu este nome – a ideia de que estes arquipélagos deviam fazer parte de afundimentos desta natureza». E acrescenta: «De facto, não se compreende que, aparecendo estes afundimentos no Mediterrâneo e no Mar das Antilhas, entre estas ilhas e as montanhas da Venezuela, e que mergulhando as cordilheiras do sistema alpino da costa Ocidental da Europa e da África no Atlântico, devendo prolongar-se depois submarinamente até às Antilhas, como têm mostrado os geólogos modernos, que os afundimentos em oval não continuem também entre a Europa e a América.»(76)
A Meseta marroquina com boas razões se reputa como formada de vestígios do horst ou korstes que se precipitou no referido afundimento. Os afundimentos em oval «explicam-se como resultantes do afundimento de áreas de sobreelevação, que foram em parte contornadas por desabamentos mais modernos, que se inclinam às vezes em sentido contrário, formando então no seu conjunto uma dobra em leque, cuja parte interior, constituindo o fecho de abóbada, se afundou».
Foi o fenómeno que sucedera a Este do estreito de Gibraltar. «A Cordilheira Bética e o Rif marroquino [p. 85] moldaram-se em torno de um maciço antigo que depois, afundando-se, deu origem a esta parte do Mediterrâneo Ocidental, onde se encontram profundidades de 2000 metros e na costa as erupções vulcânicas do Cabo de Gata em Espanha, e de Tiffarouine e de Dellys na Argélia.» Mais ou menos se desenha o processus natural do afundimento em que a Atlântida se sepultaria. A comoção que engoliu consigo o berço provável do H.-Atlanticus deixou, ao que parece, traços bem fortes na nossa serra do Caldeirão. Uma deslocação importante trouxe-lhe a meio do Culm um afloramento notável de Triásico. E não é só no Mediterrâneo que se rasgam fossas profundas. A 200 km O.-SO. do Cabo de São Vicente existe o banco de Corringe separando duas cavas de 5000 metros de profundidade. Hoje admite-se que o Cabo de São Vicente se dilataria muitíssimo mais no rumo SO. Também entre a Madeira e o litoral marroquino se constata outra fossa de 4498 metros. São outros tantos sinais de uma inquestionável alteração geológica. Preocupam-se os sábios com a idade rigorosa em que ela teria lugar. Que fale com a sua competência o senhor Pereira de Sousa. «Este afundimento formou-se provavelmente por parcelas mais ou menos em relação com as vicissitudes por que passou a comunicação entre o Oceano Atlântico e o Mediterrâneo. Este problema acha-se evidentemente também ligado à determinação da época em que teria sucedido o retalhamento do continente, a que pertenceram as diferentes ilhas do Atlântico Ocidental e cujos fenómenos eruptivos, ainda recentes, testemunham as fracturas que produziram o desaparecimento desse vasto continente.»
«A presença do Helveciano e Tortoniano no arquipélago da Madeira indica-nos que esta parte do afundimento lusitano-hispano-marroquino se deu depois do Vindoboniano, isto é, depois de estar fechado o estreito nord-bético ou andaluz, e de ter começado a funcionar o estreito sud-rifenho. Deu-se talvez este afundimento como consequência da elevação do estreito nord-bético que desde o fim [p. 86] do Miocénico inferior deixou de servir de comunicação entre o Atlântico e o Mediterrâneo.»(77) Foi durante o Plaisanciano que se escindiu o estreito de Gibraltar, datando a separação das Canárias do continente africano já do quaternário, segundo o professor Gentil.
Tão acidentadas operações geognósticas denotam bem a instabilidade dos embasamentos sobre os quais a Atlântida repousaria. Por isso o espantoso cataclismo estava na ordem dos acontecimentos físicos que andaram preparando a face definitiva da Europa histórica. Jogando apenas com as luzes da sua especialidade, ao senhor Pereira de Sousa não repugna a ideia da existência da Atlântida como continente habitado. «O sr. Berkeley Cotter, como ficou dito, encontrou nas praias levantadas da Ilha do Porto Santo algumas espécies marinhas que considerou quaternárias, mas não indicou a divisão do Quaternário a que pertencem. Portanto nessa época já se tinha formado o arquipélago da Madeira; mas é bem provável que essas praias não datem da aurora do Quaternário e que o homem já tenha assistido ao desaparecimento de uma das terras mais privilegiadas do mundo, pela amenidade do clima e pela riqueza do seu solo, como a lenda atribui à Atlântida.»(78) E na sua monografia – Ideia geral dos efeitos do megasismo de 1755 em Portugal – sustenta a interessantíssima tese de que o terremoto que deitou Lisboa abaixo no século XVIII «foi ainda o despertar desses movimentos verticais que originaram o afundimento lusitano-hispano-marroquino e, talvez, os últimos arrancos de uma parte da Atlântida já então sepultada nas entranhas do mar».
As informações da geologia juntam-se aos etnógrafos na sua faina de vasculhação comparativa. São singulares de parentesco as características dos indígenas das Canárias com as dos primitivos mexicanos e peruvianos. Lá declarava Montezuma aos espanhóis [p. 87] que os seus antepassados tinham vindo de um país maravilhoso situado ao oriente. Chamava-se esse país de encanto Aztlun e em todas as inscrições era designado pelo hieróglifo com que se representava a água. De Aztlan a Atlântida, a fonética dirá a distância que vai.(79) E nem só na tradição hermética dos padres egípcios a recordação do misterioso continente se retivera. As teogonias gangéticas rezam que Atlas, filho de Uranus, inventara a esfera e formulara as primeiras leis astronómicas, reinando entre o povo dos Atlantes. Esta reminiscência da sabedoria bramânica pode aproximar-se das linhagens míticas conservadas por Diodoro Sículo acerca dos Atlantes, com Uranus e Titeia por tronco dos seus reis. Martins Sarmento publicou a tal respeito um estudo curioso na Revista de Ciências Naturais e Sociais, onde asseverava que «os Atlantes de Diodoro não têm nada a ver com os habitantes da famosa Atlântida, de que nos falam Platão, Teopompo e outros, e que um cataclismo teria devorado». Pelo contrário, «eram os povos estabelecidos pelas costas do Atlântico – esclarece o ilustre arqueólogo – desde o Mar do Norte ao Atlas e que para o nosso historiador tinham uma existência tão verdadeira, como qualquer povo seu contemporâneo».
Se Martins Sarmento vivesse, com certeza que emendaria o texto transcrito, passando a encarar nos Atlantes de Diodoro os náufragos salvos da tremenda cátastrofe, de que se guardaram ecos duradoiros na memória dos índios da América. Efectivamente, o «império de Xibalba», dominando por longas terras e de uma vez engolido de súbito pelas águas, era o tema de mais de uma narrativa entre os naturais da América do Centro quando os espanhóis ali chegaram. Uma prova valiosa se nos depara no livro Esperanza de Israel, do rabino português Menasseh Ben Israel.(80) Foi ele originado pela relação [p. 88] de um outro judeu, António de Montezinos, que, viajando pela América nos princípios do século XVII, de lá voltou com a nova de haver tribos hebraicas entre os indígenas. Messaneh Ben Israel desenvolve a notícia trazida pelo seu irmão de sangue e, com apoio em todos os elementos teológicos e históricos de que a ciência talmúdica dispunha, sustenta a origem israelita dos americanos. Passando em revista os conhecimentos um tanto fabulosos da geografia antiga, Ben Israel, embora não acredite muito na Atlântida, fornece-nos um aparato de erudição clássica que testemunha bem como a lembrança da navegação do Oceano em outras idades andava ligada à habitabilidade da América com ilhas grandes como continentes, servindo de ponte através os mares.
Não se referirá à Atlântida legendária a Ilha de Oiro do nosso ciclo marítimo? Lá é que ficava a nobre cidade de Antília. De lá viria o Encoberto na manhã sagrada das profecias. Não é inútil reparar que se o Encoberto é a figura da Esperança – factor dinâmico da alma colectiva do Ocidente, a «ilha-empoada» é sempre um dos traços fundamentais da criação messiânica. Não estará aqui mais um sinal identificador do nascimento do H.-Atlanticus, apelando para o Desejado na hora da fraqueza e vendo o remédio acenar-lhe de um ponto enigmático que flutua à flor das ondas e se some com os cerraceiros? É a lembrança poética do primitivo berço perdido. Já Artur dormia em Avalon, a ilha florida dos bardos. Numa ilha que é a um tempo purgatório e paraíso, El-Rei D. Sebastião aguarda que se cumpram o ano e o dia das promessas de Deus. Sabe-se o valor dos Mitos, como a filosofia hoje os interpreta, vendo neles materializações da vontade de uma raça. Com o «Tratado das Ilhas Novas»,(81) com o célebre memorial de Frei João da Trindade a D. João IV, Antília, ou a ilha das Sete-[p. 89] Cidades, é a preocupação activa de um povo de descobridores. Dois religiosos franciscanos, Frei António de Jesus e Frei Francisco dos Mártires, jurariam in verbo sacerdotis em como a tinham aportado na fúria de um temporal.(82) Corria então 1668. E já dois séculos antes as frotas partiam à cata de Antília, com cartas régias de doação que autorizavam o feliz que topasse a eterna Afortunada, a prover em nome de El-Rei de Portugal os oficiais da câmara daquela mui nobre cidade; Antília mostra-se deste modo o pensamento constante da Era das Navegações, como fora durante a alta Idade-Média a ilha de São Brandão, um dos taumaturgos mais queridos da Irlanda.
É notável que aonde a Comuna se manifesta como agente estático das populações, igualmente se manifesta o Encoberto como miragem de reparação final. Constitui a principal linha fisionómica do génio ocidental, ou atlântico. A Ilha-Incógnita é inevitável na tessitura da lenda messianista, como um lugar interdito em que se esconde, contra a sua própria vontade, o salvador que o futuro nos reserva. Ou seja Artur, ou seja Sobastiano, é o mito de Saturno repetido, com o refúgio de expiação num recanto oceânico a poente e sempre a certeza do regresso triunfal. «Rei do Cabo-Poente» – apelida Bandarra o nosso Desejado. Não será a prevalência da fábula aprendida nas teogonias de Diodoro, as quais nos apontam o marido de Cibele acolhido a um exílio no meio das águas, de que tornará para conduzir a sua grei à vitória?
Eu julgo que sim. Tanto como julgo que a Ilha-Desconhecida, transmitindo-se aos tesouros poéticos do Ocidente, é, de Saturno a D. Sebastião, com termos de passagem em São Brandão, em Merlim e no rei Artur, nada mais que a recordação simbólica da Atlântida original – fonte de toda a esperança, motivo de todo o pasmo. Essa [p. 90] atracção sistemática para uma terra a ocidente não me leva a supor hipótese diversa, muito mais agora que a batimetria nos ajuda com vigor a presumi-lo. Foi impulsionados por um alvo tão problemático que nós alcançámos o Lavrador e os Corte-Reais se desgarraram, um atrás dos outros, para a goela nunca farta do Polo. Nos Açores a «Ilha-Nova», que aparecia e desaparecia, era uma obsessão. Armavam-se, para a surpreenderem, navios sobre navios. Os tempos de Pombal viram a última tentativa com D. Antão de Almada por governador-geral do arquipélago.
Da sobrevivência do facto nas tradições orais derivou talvez a descoberta da América, conhecida a demora que Cristóvão Colombo teve na Madeira. O que eu contemplo em tudo isto é a perpetuidade de uma crença unânime em regiões insulares a oeste. Sobe do fundo da nossa história e possui raízes nas raízes da Raça. Pela religião irridentista do Encoberto, a certeza na existência da «Ilha de Bruma» pertence ao património místico e afectivo do H.-Atlanticus. É mais um índice da vasta conformidade espiritual e idealista que distingue o pequeno dolicóide e tão fortemente o individualiza.
Adaptando-se às condições da época e do meio, a fé na Antília das crónicas navais de Quatrocentos importa uma consideração de peso a favor da Atlântida. As gerações haviam alegorizado para as gerações o boato que até elas chegara embrulhado nas reticências do imemorial. Invoque-se o argumento de que a Ilha-Encoberta é em todo o Ocidente um símbolo de viveza palpitante. A unidade étnica revela-se de pronto. E não nos oferece uma elucidação luminosa aquele passo da lenda que dá Antília como povoada por gente fugida das Espanhas por causa da chegada dos moiros? Uma nau das nossas aproaria de certa vez a essas praias de prodígio. Acudiram logo os da cidade a perguntarem em português antigo se os moiros ainda cá estavam. Se a afinidade se mostra patente na língua e na origem – para que insistir no fundo de verdade que a lenda guarda consigo?
Ou [p. 91] subvertida por uma assombrosa erupção vulcânica, derivada de uma maior intensidade na atracção solar, ou vítima do soerguimento dos Alpes e das cordilheiras americanas, senão da inclinação da eclíptica promovendo o desequilíbrio da massa ígnea que o globo encerra no ventre, a Atlântida existiu – e existiu como senhora das águas e dominadora dos povos.(83) Fábulas, arqueologia, pesquisas geológicas, trabalhos comparados de etnografia – tudo converge para o proclamar soberanamente. E a tão elevado grau de cultura subira o estranho continente afogado, que o inglês Newberry conseguiu demonstrar que os Atlantes não só conheciam e praticavam os metais, mas – oh, feeria das Mil e uma Noites! – até se serviam de nafta para se iluminarem, como o indicam os velhos poços escavados nas zonas petrolíferas da América do Norte.(84) Não demorará que subsídios categóricos acabem de solucionar as interrogações que porventura impendam ainda sobre uma questão tão emaranhada. O que é já absolutamente insofismável é a reconstituição da Atlântida, segundo os esclarecimentos batimétricos. Coleccionem-se agora os demais depoimentos produzidos. E respondam se não nos achamos em face de uma evidência bem contornada, toda ela cheia de linhas poderosas?
Impossibilitada a origem ariana da civilização conduzida pelo pequeno dolicóide, não é a suposta precedência asiática do braquicéfalo que a viabiliza, como houve ensejo já de se examinar. Qual o berço então de uma cultura que se nos apresenta como autóctone rodeada desde o início das idades das circunstâncias que só a autonomia do génio confere? Temos que aceitar um ponto incerto ao ocidente, em frente do Estreito, donde burbulhavam as famigeradas «nações do Mar» que em séculos atrazados se alçaram contra o Egipto. A localização do desterro de Saturno no seio do Oceano é pelo patrocínio que concede aos povos nomeados como [p. 92] súbditos do deus, um outro elemento para se ponderar deveras. E pois que, segundo os textos egípcios, entre os «invasores do Mar» figuravam os Tursha e os Shardana, respectivamente Etruscos e Sardos, não receemos de cair em erro demasiado quando por semelhante rasto se procure restaurar a esfera de acção de toda a pujantíssima cultura atlântica.(85) E se não vem da Ásia como mais que demonstrado se acha, se nem o Ária a semeia nem o braquióide a inspira, digam-me os senhores que impulso irradiador lhe atribuir?!
Já se destacou o forte cunho marítimo e agrícola que a caracteriza. Igualmente, pelos depoimentos da arqueologia, se conhece a ascendência oceânica da civilização egenética. Então para onde apelar – que princípio de vida teremos nós de lhe estabelecer? Não nos viremos para o Cáucaso em recurso último. Os despojos aí desenterrados não são mais que filhos de tipos arcaicos, só até agora descobertos nas bandas ocidentais da Europa. Nada nas antiguidades do Cáucaso dá a impressão de que tivesse sido o ponto de partida de um movimento para oeste – assevera Salomon Reinach.(86) Bem ao contrário, tudo se combina para identificar a cordilheira sagrada, onde Prometeu eternamente expia o seu sacrilégio, como uma estação terminal de correntes, cujo ponto de partida é na Europa que se deve perguntar.
O H.-Mediterranensis volve-se, pois, em H.-Atlanticus. As circunstâncias da sua natividade, sem me arrogar orgulhos racionalistas de primário, eu as encaro como mais ou menos compreendidas na hipótese já aqui tratada sobre a natureza negativa do Progresso. As considerações formuladas a propósito da antropo-sociologia e do primado de eleição de que ela reveste o H.-Europaeus, são para mim tão aplicáveis à região de Latham, sepulta pelo Báltico, como à Atlântida devorada pelo nosso [p. 93] Oceano. O facto subsiste, a teoria é a mesma. A Atlântida, antes dos ares se aclararem, podia muito bem pela permanência das névoas e pela amenidade das estações, sem estios exagerados nem invernos rigorosos, comportar em si o meio refreador dos instintos do seu natural. Esse ambiente seria causa de um certo linfatismo, o qual, sem ser excessivo como no grande dolicóide, levasse contudo o indígena a diferir da pigmentação primitiva que se mantém nos peles-vermelhas da América, talvez do outro lado do mar representantes degenerados de uma perdida raça iniciadora. Recordêmo-nos apenas de que Adão em hebraico significa vermelho.
Mas dimanados propriamente da Atlântida, ou gentes de ribas vizinhas que lhe recebessem o contágio lustral, como é que se explicará agora a aparição dos pelasgos na Ásia Menor, provindos do interior, se até hoje as primeiras avançadas do H.-Mediterranensis para o Levante se reputam como efectuadas pelos eginetas? Como é que, por outro aspecto, nós, os do Ocidente, possuíramos o monopólio do âmbar, se os túmulos da quinta dinastia acusam a presença dessa espécie entre os egípcios? Há que aceitar, quanto aos pelasgos, um segundo caminho para a expansão do H.-Mediterranensis que não é o do Estreito e do norte de África. E, pelo que respeita à nossa influência na cultura do Egipto, recuar até muito largo as datas aproximadas que a arqueologia oficial usa de presumir.
Flinders Petrie destrinçou bem o contacto em que o Egipto esteve desde remota pristinidade com as populaçõas egeanas, «qui, venues de l’ouest, exerçaient leur domination sur les îles de l’Archipel, ses rives occidentales et orientales, peut-être aussi sur cette partie de l’Afrique du Nord qui est devenue plus tard la Barbarie», aclara ainda Salomon Reinach.(87) Por outra banda, como que em contradita, uma colónia de pelasgos se transferira da [p. 94] Troada para a Etrúria, sendo já aqui assinaladas as parecenças flagrantíssimas da cerâmica ocidental com os destroços de olaria obtidos naquelas paragens do Levante.(88) Nas tradições câmbricas prevalecem ainda os vestígios de uma migração guiada por Hu-Gadarn, oriundo do país de Haf, que é onde agora está Constantinopla – elucida um velho motivo poético.
De todo este vaivém de êxodos, deduzidos de um tronco comum, mas marchando desordenadamente a modo que uns contra os outros, não se desprenderá ante o embargo mais cerrado à tentativa de síntese em que eu desejo equacionar os valores genéticos da nossa civilização autóctone? É como que uma cloaca-gentium, desenvolvendo-se para a direita e para a esquerda, para o sul e para o norte, sem que aflore de entre a embrulhada rumorejante dessa feira de tribos a extremidade salvadora do novelo de Ariadne. E não sorriam de boa citação mitológica! Já que se discorre de Creta e dos povos que conviveram o Minotauro, ela tão da praxe, como Estrabão é inevitável para quem se ocupe da Península!
Será assim, em verdade, uma confusão babilónica, se julgarmos de rápido, só pelas aparências. Segurem-se, porém, em sólida determinação os factos que se revelam mais antagónicos e acreditem que a incógnita não tarda a resolver-se, cheia de limpidez da água pura. Ora vejamos um pouco. Está assente que os pelasgos constituíram a cama da arcaica da civilização proto-histórica na Grécia. Com eles os Frígios, os Leleges e os Cários fecundam com sobreposições de cultura e etnia a Ásia-Menor, onde, na frase de Maspero, os povos do mundo antigo se deram todos rendez-vous. Adventícios em Canaã, os filisteus entroncam nos egeanos, pertencem ao vasto viveiro ocidental. E a Bíblia que os tem como idos das «Ilhas do Mar», da terra longínqua de Tharsis. Com Tharsis se identifica [p. 95] Tartessus na Península. Mas a expressão carece de se generalizar. Tharsis seria mais que um empório comercial. Era uma larga e misteriosa zona em que os metais abundavam.
A denominação de «filisteu» (plishti) achega-se à de pelasgo – repara o insuspeitíssimo Maspero,(89) e denuncia, em referência a Israel, a promanação estrangeira desse povo. Os próprios textos hebraicos os designam muitas vezes como Crethi, traduzindo a persuasão que os olhava como saídos do Egeu com Creta por metrópole. Também os fazem vir de Caphtor (Juizes, II-IX), que é uma palavra correspondente a Kupros, de Chipre. Correlacionam-se, portanto, os filisteus com a irradiação formidável do pequeno dolicóide no período bronzífero, tanto mais que Estêvão de Bizâncio afirma peremptoriamente que Gaza não passava de uma colónia cretense.(90) «Os monumentos egípcios confirmam esta hipótese e são eles que nos apontam a data da emigração – corrobora Maspero. Os filisteus pertenciam aos povos que assaltaram o Egipto durante o governo de Ramsés III. Derrotados pelo rei, submeteram-se ao seu serviço, concedendo-se-lhes a permissão de ocuparem a costa meridional da Síria. Mas os Frígios, os Carios, os Leleges – toda a compacta massa humana que se enovelava às portas da Ásia, quem eram, donde é que vinham, se nenhuma consanguinidade os ligava nem às genealogias semitas, nem à família irrompente dos Árias?
Os Frígios, ou Brígios, enraizados ao norte da Macedónia, trocariam a bacia do Strymon pelas cercanias da Ásia. Na região delimitada pelo Sangários e pelo Meandro fundaram de seguida sobre os pendentes ocidentais da planura asiática a nação da Frígia, que cedo se notabilizou pela sua índole agrária e trabalhadora.(91) É o habitat que se [p. 96] atribui unanimemente aos pelasgos da Grécia, ramificação da mesma árvore. Possuíam um alfabeto e a língua que falavam regia-se já pela maioria das leis fonéticas que informaram o grego ao depois. As origens agrícolas de uma tal civilização manifestam-se na fábula de Gordion, seu primeiro chefe, o qual em princípio não se teria visto senão dono de duas juntas de bois. De Gordion e da deusa Cibele nasceu Midas, herói fundador de mais de uma cidade e que é a personificação do génio frígio.
Conta-se que entre os Frígios se punia de morte quem matasse um boi ou quem destruísse um utensílio de lavoura. Aqui nos surge outra vez o boi como divindade totémica. Não é só em Creta, donde os Frígios em nada participariam, afastados do mar por outras tribos, que o boi se venera por conseguinte. Nem tão-pouco apenas nas desgarradas partes da terra que ficava sobranceira ao Atlântico. Também a Frígia adorava o boi, e tão religiosamente, que o nó górdio foi atado numa canga de boi. Não sendo inútil para o nosso estudo que se sublinhe a coincidência de terem os Frígios descido do norte da Macedónia, com a montanha do Taurus por vizinhança eminente. A Frígia se soterrou debaixo das assolações aqueanas, prevalecendo, no entanto, o carro triunfal de Midas com o famoso nó górdio a testemunhar a glória imperecível de uma raça defunta. Alexandre Magno cortou-o com a espada. E tudo mais se desfez em poeira desde então, não se apurando na actualidade lá onde fora Frígia mais que umas frustes antiguidades da época romana.
Filiam-se hoje em idêntico fundo pelágico os Hititas (ou Khati), que com arte sua e escrita alfabetiforme tantas preocupações despertaram nos âmbitos científicos. A proveniência lídia dos Hititas descai à falta de razões mais persuasivas que os resultados extraídos dos recentes cortes arqueológicos. Os Hititas são os Hicsos da dominação do Egipto. Escorreriam como os frígios dos Balcãs, precisamente pela ponta em que a Europa se toca com a Ásia. Um dos motivos identificadores da [p. 97] derivação europeia dos Hititas é a fíbula que aparece num baixo relevo de Ibriz, quando nem o Egipto, nem a Assíria, nem a Fenícia conheceram a fíbula antes da idade helénica. Ora a fíbula era natural do vale do Danúbio, e cá estamos nós, com tão valioso indício, de novo em frente dos Balcãs como ventre fecundo de quantos povos jorraram às entradas da História sobre o apetitoso levante mediterrânico. Oiçamos Salomon Reinach a semelhante respeito. «En l’état actuel de nos connaissances on ne peut même pas affirmer que la Jibule soit une invention des tribus grecques pendant leur séjour, au nord de la presqu’île des Balkans; peut-être faudrait-il en chercher l’origine plus loin vers l’ouest. La Jibule se trouve, en effet, bien que rarement, dans les couches supérieures des terramares et dans les stations lacustres des l’âge du bronze».(92) Eis o que sustenta o conservador do museu de Saint-Germain, autoridade tanto para merecer em assuntos de arqueologia, como para a repelirmos quando o seu costado judengo se põe a pontificar do Catolicismo em ar de sous-Renan.
Ao lado da fíbula que no Oriente pela primeira vez se revela em Ibriz, no interior da Ásia Menor, pela primeira vez se revela também a cruz em gama ou tetracelo. «Or, de la croix gammée, comme de la jibule, inconnues également à la Babylonie et à l’Égypte» – conclui Salomon Reinach –, «c’est en Europe seulement que l’origine peut être cherchée.»(93)
Recapitulemos nesta altura as bases do ocidentalismo de Martins-Sarmento. Para o nosso ilustre arqueólogo, localizadas as Cassitérides na Grã-Bretanha, antes de elas serem alcançadas pelas naves fenícias, já o tráfico do estanho de lá se operava para o âmago da Europa pelas vias fluviais do Reno e do Danúbio. Martins Sarmento julgava que esse caminho fora descoberto por uma imigração proto-árica subindo por ali acima até às costas do Mar do Norte. Varrida, porém, a [p. 98] miragem ariana com relação ao Ocidente e aceite a natureza oeste-europeia da cultura do bronze, a verdade desvenda-se-nos de súbito desde que se inverta o rumo do suposto êxodo. A emigração seria do pequeno dolicóide, que não só alcançou o Oriente enfiando pelo Mediterrâneo, mas que encontraria para lá uma segunda estrada através dos trilhos custosos dos Balcãs. É dos Balcãs que pelasgos e frígios surgem – os sinais e as indústrias, levados par eles, são os sinais e as indústrias do nosso Ocidente na hora máxima da actividade do homem-meão. Os pelasgos secam pântanos, rasgam canais, assentam povoações. Distinguem-se, portanto, pela capacidade agrária e construtiva. A façanha que mais os enobrece é desbaratar as florestas e limpar as impenetráveis matas virgens. Pois na tradição irlandesa menciona-se com orgulho o corte dos bosques como uma das proezas gloriosas da velha raça autóctone.(94) É mais um vínculo de parentesco. Já muitos outros se desferiram aqui. Eu não quero dispensar, todavia, a claridade que do culto da cegonha e do emprego do suástica incide vingadoramente sobre o problema.
Salomon Reinach insinua que o tetracelo com o aspecto aviforme que assume em certos vasos de Hissarlik pode muito bem significar uma estilização esquemática da cegonha. A cegonha na Troada honrar-se-ia como um pássaro protector, porque, segundo o testemunho de Schliemann, a planície ilíaca tornava-se inabitável por causa das cobras, se as cegonhas na Primavera as não devastassem. Expressivo é o mito de Antígona, a irmã amorável de Príamo. Presunçosa da sua bela cabeleira, Antígona não hesitava em compará-la à de Hera. Irritada, a deusa transformou-lhe as tranças em serpentes. Por compaixão, o Olimpo transformaria de seguida a donzela em cegonha para se ver livre dos répteis. Os Penestes da Tessália, de genuína extração pelágica, achar-se-iam na necessidade de fugirem também das serpentes, se as cegonhas não viessem em [p. 99] seu auxílio. Prestavam-lhe por isso honras divinas, proibindo que as matassem sob penas severíssimas.(95)
O culto da cegonha alastrou-se em práticas registadas no folclore pela Suíça, pela Holanda, pela Espanha. Nós sabemos como a cegonha se venera em Portugal, chamando-se-lhe «galinha de Nosso Senhor» e havendo-se por ave de bom agoiro. As antigas posturas municipais andavam cheias de interdições a seu respeito; e eram por vezes os magistrados do concelho quem lhes acautelava o poiso durante os largos meses da ausência.(96) O singular é que a tradição atribuída aos habitantes da Tessália se encontra em Martins Sarmento na Ora marítima com referência à velha Ophiuses frons dos périplos fenícios. Segundo o texto de Rufus Festus Avienus, Ophiusa vem de serpente. E é o caso que os oestrymnios, povos indígenas desta faixa atlântica, teriam de se retirar diante de uma invasão de cobras, deixando a terra vaga.(97)
É a cegonha, pelo exposto, um totem pelágico, designando-se em grego cegonhas e pelasgos com a mesma palavra. Pela naturalidade ocidental do tetracelo, em que se vê uma figuração ideogramática da cegonha, mais um argumento se invoca a favor da origem oeste-europeia desse primitivo fundo étnico. Lembrêmo-nos agora da lição de Plínio que considera o estanho revelado ao Oriente por um personagem alegórico, de nome Midacritus. Quem é esse Midacritus que iria às Cassitérides buscar o metal precioso? Querem-no identificar com Melkart ou Melicertes, o truculento Hércules tírio. Mas Salomon Reinach, valendo-se de dois passos clássicos – um das Fábulas de Higino, o outro das Variarum de Cassiodoro –, propõe a emenda opinada já em 1685 pelo jesuíta Hardouin para o Midacritus dos [p. 100] textos de Plínio.(98) É ela Midas Phryx em vez de Midacritus.
Eis que uma brusca mas profunda claridade nos alumia – Midas, o herói frígio, aparece-nos de súbito como o introdutor do estanho entre os seus. Sabida a unidade étnica e social do pelasgo com o pequeno dolicóide, de nada mais necessitamos para rematar a nossa tese.(99) Os frígios, comandados pela personagem mítica de Midas, não escorreriam apenas do íntimo dos Balcãs. Viriam das margens do Mar do Norte pelas vias fluviais do interior da Europa, ao contrário da imigração proto-árica que Martins Sarmento imaginara avançando pelo Danúbio e pelo Reno. O boato conservado por Plínio é um vestígio ténue de uma longa tradição abafada no alastramento das miragens do ciclo homérico. Possui-se, no entanto, um facto concreto que confirma todas as deduções tiradas da sobrevivência aqui e além dos mesmos tótemes e dos mesmos ritos, com o parentesco mais apertado a traduzir-se na similitude dos mesmos costumes e das mesmas instituições. Assim já se compreende que o bando de pelasgos, estabelecido na Ásia Menor e depois transitado à Itália, se reconhecesse como parente chegado aos naturais da Etrúria. As relações de consanguinidade que esses diversos núcleos populacionais alardeavam entre si enraízam-se desta forma num tronco comum que não pode ser senão a velha raça sociológica, de que nos falam em Éforo as lembranças de Hesíodo.
O H.-Atlanticus preside como chefe à árvore genealógica. É ele que, irrompendo pelo Estreito, assoma no esplendor sem par da arte egeana. É ele que, contornando o Oceano, se entranha pelos rios navegáveis e vai levar aos entrepostos propícios do Levante as riquezas profundas que o seu génio arrancara aos ciúmes da terra.
A autonomia [p. 101] duma cultura europeia indígena está patente. Mas não é na Europa Central, desdobrando-se em leque, conforme Salomon Reinach, que lhe devemos procurar o foco impulsor. É sobre o Ocidente num ponto mais ou menos próximo das águas, como que a recordar-nos a Atlântida submersa. Envolvendo o continente num demorado abraço, dois caminhos lhe marcam o andamento vagaroso. Um, é o caminho do mar pelas Colunas de Hércules adentro e as costas sempre à mão, sem se perderem de vista. É o outro o caminho do interior, com os grandes rios por condutores, tentando a sorte nos acasos do rumo. Lá em baixo os êxodos se encontrariam ao bafo benéfico da Ásia magnificente, mais perto das regiões de privilégio em que os deuses residem e são venturosos. Como que um contágio divino lhes concederia então os favores supremos da glória nas altas criações da Cultura.
Ao contacto de ribas exóticas com outras civilizações rivalizando, o H.-Atlanticus assentava o seu lugar de padrinho dos povos, de iniciador da História. É Micenas – é Homero. Antes fora a civilização da acha com o palácio de Cnossos, fora a talassocracia do Egeu, o domínio do Egipto, o protectorado das nações anónimas que na Troada se davam rendez-vous, descidas do lado de lá da montanha. A catástrofe avizinhava-se, todavia. Bem depressa as naves aventureiras haviam de perder o segredo das estrelas e para a banda do Oceano sem fim não seria mais que uma neblina imensa pairando por cima do ignorado viveiro em que toda a origem ficava. O Ária surgia brandindo a pua de ferro e com a basta coma loira desfraldada em penacho.
No embate sinistro das hordas e hordas crescendo, as ruínas amontoaram-se nas ruínas – dissolveram-se os traços comuns da convivência. Com os seus ornatos geométricos e frios, o Dípilon esmaga a gracilidade abundante do período bronzífero. Só há poeira de morte, sinais fresquíssimos de devastação. O H.-Atlanticus, submetido como um escravo, sua e espera. Quando de novo a hora [p. 102] lhe chegue, as nacionalidades modernas hão-de agradecer-lhe o elemento mais fecundo da sua composição. Ele renascerá no arrojo máximo da Catedral – será a vibração dançando nos ares o ritmo sempre moço das ondas.
Aceitando em Roma a regra que condensa e que ilumina, a Idade-Média enche-se do sonho milenário que ele guardou consigo, nos séculos tristes da opressão. É o claro-escuro que imortaliza o poema de Dante. É a Imitação de Cristo. É São Francisco de Assis. É a epopeia rumorosa das Comunas e das Descobertas. É a Cruz e a Espada, traçando o edifício admirável da ordem antiga, com a família à base por alicerce invencível e o Rei ao alto, como artesão robustíssimo em que a fábrica assombrosa da sociedade se rematava. Em luta sem tréguas nem fôlego, o tormento da linha limitada o aprisionaria na Renascença com a mentira das formas racionalistas. A mentira da Inteligência lhe cresta o dinamismo poderoso dos sentimentos com esse bafo da morte que foi com a Reforma a dialéctica de um monge despeitado. Sofistas e ideólogos o enterrarão a mãos ambas com os lirismos estultos da grande paranóia colectiva da Revolução. Na guerra que hoje se trava não é somente contra a hegemonia do Ária, raptor orbis, que o Ocidente em peso se alevanta. É também contra o despotismo sem freio das névoas que lhe obstruíram o pensamento, toldando-lhe a excelsa claridade que executou a abóbada e afilou a ogiva.
Irá o H.-Atlanticus ressuscitar? Oh, o dia que vem a virgem gaélica o espreita da praia, com o alaúde suspenso, para que aos primeiros anúncios do arrebol os dormentes da sua raça oiçam no sono de pedra quebrarem-se os prazos fatais da Encantação.
[p. 103 e 104] ### [V] A [p. 105] teoria da nacionalidade
É, pois, do H.-Atlanticus que deriva o substractum aborígene da população portuguesa. Ele é bem constituído pelo dolicóide meão, de crânio longo, cabelos escuros, cor morena e altura média.
Dois subtipos poderemos ainda considerar nesse primitivo fundo autóctone. Um é o indivíduo já descrito como indígena. O outro é uma variante posterior, denotando um acréscimo sensível de porte, em virtude de cruzamentos prováveis com bifurcações da família de La Vezère, também dita de Cro-Magnon. A elevação de estatura ter-se-ia produzido já em pleno mesolítico pelo advento do habitante estudado em Grimaldi e que é o troglodita da costa mediterrânica de Baoussé-Roussé.
É com semelhante aliança que o nosso dolicóide, revelado em Mugem, se manifesta e atura ao longo dos trabalhos preparatórios da Nacionalidade como o seu elemento mais fecundo e mais pertinaz. Será a homogeneidade étnica do Lusitano o motivo principal da nossa história. Surgido no vale do Tejo quase de envolta com os últimos arrumos geológicos da região, eis que se nos mostra desde bem funda idade como portador de decididas preferências sedentárias. Antes de praticar a agricultura, já se fixa e já enterra os seus Mortos.
São um sinal de apreço a este respeito os despojos recolhidos em Ota e nos cabeços da Arruda. Provam-nos o instinto de forte enraízamento que distingue o nosso antepassado. É essa virtude nata que, levando-o a achar a necrolatria como forma de coesão religiosa e social, imprime um carácter [p. 106] de persistência notável aos núcleos de população em que a Pátria fundamenta os alicerces. Não se trata como nos povos erráticos de um conjunto casual de cabeças com a força primando e o indivíduo sendo como que a razão primacial do grupo. Não. Trata-se antes de um tecido larguíssimo de indivíduos que só valem como elos de uma cadeia que nunca se desata. Com filiação espontânea no parentesco e no culto dos Mortos, o agregado define-se e hierarquiza-se gradualmente, à maneira que as suas necessidades vão desabrochando e se cria o empenho, cada vez maior, de satisfazê-las. Assim se compreende a índole comunitária do Ocidental. É uma raça que se agarra ao torrão e, conforme as simpatias naturais do seu habitat, se prepara instituições harmónicas que a sirvam e prolonguem no espaço é no tempo.
Uma fereza invencível se comunica por intermédio desse arraigamento tão entranhado. Não se explica de outro modo a resistência localista do Luso que, atalaiado nas citânias da proto-história, barreira a ocupação romana em magnis gravibusque bellis – confessam os analistas latinos. Reparemos ao depois que através do domínio sarraceno são as fortalezas do oeste da Península que acidentam o desfruto do invasor com insurreições continuadas. É o moiro Razis quem o conta. Vale, por conseguinte, o depoimento, quando mais não seja, pela insuspeição da testemunha.
Mais tarde, sabe-se como na formação da Nacionalidade é o aferro particularista do Luso que intervém e decide da nossa sorte como agente poderoso e quase único. Na hora em que as behetrias da Reconquista se elevam à consciência de um acordo de interesses permanentes com os ópidos recém-tomados do Sul, a Pátria está constituída. A Realeza vai ser o órgão essencial de convergência e duração por largos séculos procurado. Sozinho, na sua pequenês, o Luso, sem uma instituição hereditária que o organizasse, não se acobertaria das eventualidades da posição geográfica, mal podendo esconjurar a dispersão de todos os dias e sair-se intacto [p. 107]das cobiças nunca fartas do vizinho de ao pé da porta. Desde que o egoísmo privado de uma dinastia aparece a exercer em proveito próprio o encargo supremo da neutralização interna e da defesa exterior, a estabilidade ganhou-se – só restava andar agora o caminho, de colaboração com as vozes íntimas do génio colectivo.
Um dos prejuízos inimigos da alma portuguesa é, sem dúvida, o negativismo de raça professado pelos nossos escritores. Têm-nos – Teófilo aparte – como um desmembramento fortuito do planalto castelhano. Não nos reconhecem nem capacidade política nem independência fisiológica que justifiquem o separatismo e que o autorizem à face das circunstâncias geográficas da Península. Oliveira Martins ficou pesando sobre nós com a sua nefasta teoria do Acaso. Uma doutrina suicida, em conflito com a verdade, nos dirige nos âmbitos da ciência oficial. É só para a maior desnacionalização que se tende, inculcando-se o diagnóstico de Oliveira Martins como a explicação de quantos desaires nos entrecortam a viagem de povo com falências e falências sem remédio. Bem descurado, o estudo das nossas origens é que é imperioso desenvolver-se e opô-lo com energia aos falsos critérios que nos levam para o fundo irreparavelmente.
É obedecendo a esse conceito nihilista da Nacionalidade que a governação opera há quase cem anos o mais inconcebível trabalho de abastardamento e atrofia de que há memória em país que se diga na posse de si mesmo. Tutela-nos o estrangeiro do interior. São as mais descabeladas quimeras exóticas que deturpam a visão da realidade pátria com ideologias saídas de outra conformação psicológica, com outros determinismos de ambiente e hereditariedade a regê-las. Primeiro foi com o individualismo dissolvente da Renascença a bebedeira doirada da Índia. O modelo greco-romano viciou-nos o entendimento. Do aparato filológico dos humanistas ao gesto oratório de D. João de Castro, empenhando as barbas em cópia servil a um varão de Plutarco, é sempre uma [p. 108] noção artificial da existência que nos apaixona e transvia. Toda a época se acha contida em mestre André de Resende falsificando inscrições latinas e indo com grande estrondo descobri-las ao depois.
O egocentrismo excessivo da virtú desbaratou-nos mortalmente. Deixámo-nos aos bocados por entre as entradas fumarentas das cidadelas do Malabar. Por lá nos ficou, à sombra mole dos palmeirais, a genuína, a verdadeira Pátria – aquela Pátria rural de Quatrocentos, que se gerara no respeito dos nossos limites e pelo exercício das virtudes sóbrias da Grei. A nação histórica cedera com a força da ancestralidade e das preferências centenárias à turba cartaginesa que só o oiro atraía com todos os seus cortejos de dissolução e depravamento. Envergonhava-nos já a pobreza primitiva, cujo orgulho, mantido como um título nobiliárquico, obrigava ainda D. Manuel I a censurar o conde de Vimioso por sua mulher se vestir de veludo, «Porque o veludo, conde, é para quem é!»
Moradores em casas pardas, os nossos avós, santamente grossos, mal nos reconheceriam na feira cosmopolita que tornara, de facto, Lisboa na cidade das muitas e desvairadas gentes do Cronista. Mas o pior seria que, com a loucura das ideias abstractas que a Renascença nos contagiara, empurrando-nos para o esquecimento das qualidades nativas do Luso, a aventura ultramarina nos ia custar caríssima por causa da mistura com outras etnias, todas elas inferiores e de verificado efeito corrosivo. É um problema de debate complicado que importa consigo a reabilitação do Santo-Ofício e que eu não posso trazer para aqui, pelo desvio imenso a que me constrangeria. Registo apenas o acontecimento, que reputo como uma das razões principais da nossa decadência. É que cada país assenta num inviolável «meio-vital», o qual consiste no equilíbrio constante das condições especiais de que o agregado brotou, valendo a alteração delas pela queda insanável do organismo. A passo lento, [p. 109] o olvido do nosso «meio-vital» estreia-se com a data funesta de Quinhentos e com a porca infecção nigerista por agente fortíssimo dessa falha. Meditemos-lhe bem as consequências e seja o nosso cuidado aprender nos resultados colhidos o perigo que representa para um povo o esquecimento do seu passado e dos seus costumes.
Quisemos ainda por vezes alevantar cabeça. As prodigiosas reservas da Raça viram-se provadas na guerra tremenda com a Espanha, em que nós, sem dinheiro nem socorros, nos eternizamos num duelo que faz emudecer de pasmo a própria Antiguidade nas suas passagens clássicas de heroísmo e de renúncia. Eu não entendo as batalhas formidandas da Aclamação, em que os Municípios soltam a palavra que salva, sem estabelecer como motivo único da nossa história, repito, um valor de ordem exclusivamente étnica.
Já as citânias haviam brigado com as tropas disciplinadas de Roma. Já o árabe se vira a braços com as revoltas incessantes das populações do oeste da Península. Não se ignoram as bases foraleiras da Nacionalidade, nem como no admirável período afonsino o território se dilata in partibus infidelium, graças ao apego dos vilares livres que armam a hoste, e a sustentam, e a engrossam. Quando um elemento estranho, advindo de Castela na comitiva do Borgonhês, pretende sobrepujar a Nação nascente, são os concelhos e as póvoas – é o terceiro-estado quem rodeia o Rei e o anima na luta contra a arrogância dos donatários e das prelaturas. Nas isenções jurisdicionais dos fidalgos renascia um antagonismo já conhecido do autóctone. Imperialista, devastador, no barão novigótico acordava o Ária, raptor orbis, seu avô muito chegado. Enquanto nos homens-bons da Comuna o dolicóide meão se perpetuava pachorrento e sedentário, no cavaleiro que bofava de bom sangue leonês ressurgia, efectivamente, o atavismo do dolicocéfalo linfático, de alto talhe e cabeleira loira. Do confronto violento das duas etnias, sai a reposição das forças naturais da Nacionalidade adentro dos moldes [p. 110] tecidos pela larga experiência das gerações. Em vez de um acumulado de senhores e servos, dizimando-se em intermináveis brigas privadas, nós temos então, pelo triunfo do habitante indígena, a Pátria apoiada nas mancomunidades agrárias da Raça, com o município por expressão jurídica e social de uma irmandade que se nutre da terra e que não pratica outra nobreza que não seja a da selecção pelo trabalho e pela valentia.
O leonês pensava em introduzir o conceito germânico da sociedade com a população dividida em previlegiados que monopolizm a guerra e o solo, e em colonos que tratam da gleba e se traficam como coisas. Andava, porém, vivíssimo o sentimento de um mesmo tronco. Sucede assim em todos os povos de uma aferrada estrutura comunitária. O infanção leonês queria prevalecer pelo direito de conquista. O Luso prevalecia pelo direito do sangue. No embate contraditório dos dois princípios reside não só a chave das perturbações intestinas que agitam a primeira dinastia, mas é, agora e sempre, a eterna divortia de Sílius Italicus reavivando-se e confirmando-se.
Trazido do cimo das cividades para a ribeira, o antigo dolicóide acabou por se afazer a essa estação que o romano dominador lhe impusera. Com a cultura cerealífera em escala progressiva, a freguesia irrompe consagrando a sede das várias explorações agrícolas. O ilustre Alberto Sampaio ressuscita o lapso tão ensombrado que, por sobre a ocupação latina, prepara os intróitos da Nacionalidade. Na extraordinária monografia, As vilas do norte de Portugal, nós assistimos à formação e ao desenvolvimento da propriedade. Lá se verifica o afervorado sentido localista do Luso. Pelo favor das colheitas e com um carácter afectivo de patriarcalismo, uma espécie de aristocracia se corporiza e adquire recorte fisionómico. São os domini, que funcionam em detentores do direito, aplicando os usos e discernindo as contendas nos bancos toscos da fonte. Dos domini vão derivar os maiorais da behetria que, à sombra da azinheira simbólica [p. 111] da Raça, assinam as cartas de foral com o Príncipe eleito para seu regedor vitalício.
Nascidos do seio da população e investindo-se de prestígio pelo consenso tácito das massas, os domini não predominam por mercê de situações de regalia. Traduzem a aptidão espontânea dos agregados para destacarem de si figuras que os signifiquem e encaminhem em justiça. Na véspera haviam sido os magnates da Citânia. Iam ser no dia seguinte os vereadores do Concelho. Essa magistratura pacífica é o estofo medular da Era de Quatrocentos. Encontra-se nas tábuas de Nuno Gonçalves, alinhando-se como fundo da dinastia exposta. Porque encarnava todas as virtudes simples de uma família de lavradores, nela se encerrou a consciência da Grei. Com ela Afonso III consolida o Estado. É por ela ainda que as Cortes-Gerais se enchem da ressonância honesta dos seus pareceres avisados.
Guiando as vilas pelo prudente arbítrio, tornado herança consuetudinária, os domini deram, como já dissemos, os homens-bons da governança. O conceito político de república (de res publica), cedo o tiveram como autoridades sociais, condensadoras das preferências do agrupamento e seus órgãos naturais. É em trinta infanções, companheiros do conde D. Henrique, que o Livro Velho das linhagens do Reino entronca toda a nossa ramaria nobiliárquica. Pois com os domini rurais se chocaram os aventureiros da Reconquista, debatendo mais uma vez a eterna querela do pequeno dolicóide, construtor e produtivo, tal como o antepassado pelasgo, com o roncante homem loiro que só se regala em poeiradas e ruínarias. O barão neogótico, reçumando a costela címbrica, teimou em se impor, esquecidos os fundamentos pactuais da monarquia. Para isso ilaqueia o Rei com exigências duras de casta. Debilita-lho e circunscreve-lhe a ação, pretendendo arvorá-lo em chefe de bando, quando o carácter da Realeza ocidental é um carácter moderadíssimo de paternidade. É a altura em que as póvoas foraleiras erguem o Rei ao exercício forte da sua prerrogativa, vendo na Coroa uma judicatura do bem-[p. 112] comum que não se dobra nem se corrompe. O motivo étnico, em que a nossa história repousa, não deixara de se pronunciar pela boca dos homens-bons do Município. O pequeno dolicóide, robustecendo as instituições coordenadoras da liaça, não era somente o cavaleiro leonês que ele enquadrava. Vencia a ânsia espoliadora do H.-Europaeus, conferindo a primazia ao elemento fecundo de que a Nacionalidade dimanara.
Nós vamos verificar a influência decisiva desse motivo étnico na disputa que se desencadeia com a morte de D. Fernando. São os Concelhos que soltam a voz pelo Mestre. É a gente das vilas, de «ventres ao sol» e «sem capitão», quem lhe alimenta a causa, ou já batendo-se nos Atoleiros em brava peonagem, ou já escalando as alcáçovas da fronteira e pondo de lá para fora os alcaides vendidos. O pequeno dolicóide manifestava-se. Quem desfralda o gonfalão de Dona Beatriz é o resíduo feudal que não se subjugara de todo pelo movimento unânime das mancomunidades em redor de D. Afonso III. Expulsam-no agora definitivamente as iras da arraia-miúda mais as arengas dos procuradores concelhios. As qualidades históricas da Nação temperam-se numa prova esplêndida em que os recursos espontâneos da Raça informam as vistas concordantes do Estado. E é assim que a floração magnífica de Quatrocentos se inaugura.
Com a tragédia da Índia e com o grande desvairo do Renascimento obliteram-se as direcções ancestrais. Esvai-se-nos no estridor da quermesse o mais rudimentar sentido de continuidade e de coerência. Detenha-se este reparo singelíssimo: enquanto Quatrocentos brilha, o sinal inconfundível do génio da Pátria conferem-lho as Cortes-Gerais, indubitavelmente. Quem vibra, quem palpita, nessas vigorosas assembleias? A alma dos Concelhos – o pequeno dolicóide, que é no desafogo das suas energias criadoras o infatigável obreiro da saúde e do viço de Portugal. Abatem-se, entretanto, ao longo do delírio ecuménico que nos empurra a avassalar o Mundo, as nossas [p. 113] mais íntimas predilecções localistas. Abala ribeira abaixo com a enxurrada dos pardaus e das especiarias o enraízamento rústico de outrora. O oiro cobre-nos como numa chuva de feeria. Todavia, há fome, porque os campos abandonam-se no exaspero da miragem asiática. Não se conseguem braços que arroteiem a courela natal em desprezo. As lareiras dispersam-se, emudecem os teares. Portugal é como uma caravela enorme que desprende a âncora e se atira para as goelas abertas do Tormentório com uma sereia rindo-lhe à proa não sei que promessas loucas de perdição. Tomam as pestes conta de nós e levam o resto. As naves voltam da Índia – as que voltam! – carregadinhas de metais preciosos. Mas, com tanto dinheiro retinindo numa ressonância de maravilha, o trigo importa-se e o pão custa-nos como o mais raro dos manjares.
No tumulto do cosmopolitismo, tudo nos consome a febre alta em que estamos ardendo. Manda-se um elefante à Itália. Rafael introduzirá variações inéditas nos seus temas de artista, impressionado pelo espectáculo do animal com que a corte púnica de Lisboa presenteia o Papa. Sabem-nos o nome de cor aquém e além-mar em África. Os reis da Cristandade e o Solimão da Turquia têm-nos inveja. Só na quintarola da Tapada o bom Sá resmunga versos aziagos contra o despaísamento. É a comoção bucólica da terra desamparada que lhe dita a carta ao senhor de Basto.
Afundáramo-nos demais quando pensámos em nos salvar. A quimera tresloucante do Império do Mundo arrastar-nos-á a extremos que nem com o esgotamento se atingem. A depressão nervosa da Raça tentou terreplanar-se com cruzamentos ignóbeis, com alianças sem dignidade. O vasão emigratório que pusera Portugal a bordo como um só homem, contrabalançou-se com a mais deplorável das soluções – a escravatura. A arrancada marítima não nos valera unicamente a aquisição de vícios dissolventes, contraídos ao contacto morno de outros climas, com serralhos debaixo dos olhos e apetites de doença queimando-nos como uma brasa. [p. 114] Importou-nos também a mistura com gente de cor que se negociava em mercados rendosos e por meio de cujo concurso procurámos acudir à crise do trabalho na metrópole. Entrava connosco a gafa dos povos conquistadores. E o gordo Garcia de Resende, zombeteando nos momos do Paço, mas com um surdo presentimento a roê-lo lá dentro, não se esquivaria a clamar num acento de clara profecia:
Vimos muito espalhar
>
Portugueses no viver
>
Brasil, ilhas povoar,
>
e às Índias ir morar,
>
natureza lhe esquecer:
>
vemos no Reino meter
>
tantos cativos crescer,
>
e irem se os naturais,
>
que se assim for, serão mais
>
eles que nós, a meu ver.
Toldou-se, desgraçadamente, o aprumo nativo da Grei. A pureza da Raça, que bem se pode estabelecer como a razão principal de todo o nosso engrandecimento, viu-se de pronto infeccionada pelas mestiçagens mais contraditórias, as quais não demoraram a comprometer a estabilidade do espírito colectivo. Não se interpretam através de critério diferente os desfalecimentos mortais que pegam a esfacelar-nos desde então. Não sejamos injustos, denegando ao Santo-Ofício os resultados incalculáveis das suas medidas purgatórias. Mas a cerrada higiene étnica dos formidáveis Inquisidores, se salvou a Pátria de ser escalada pelo estrangeiro do interior, não nos guardou a tempo da corrosiva labe nigerista. Embora reprimida nas catacumbas ínfimas da nossa hereditariedade, essa velha tara do Luso não se faz muito convidada para assomar em tropelias subversivas, quando – como, por exemplo, no momento que corre – se lhe oferece o ensejo de sobrepujar as disciplinas sociais que ainda a contêm em respeito. Não se sorriam as inteligências cépticas, nem M. Homais arregale as [p. 115] pupilas, imaginando-me a soldo dos Jesuítas! Hoje a antropo-sociologia acha-se de posse de leis científicas que nos ajudam a uma compreensão aproximada do que foram como instrumentos de defesa sanitária as tremendas cúrias inquisitoriais.
Não me gastarei com reflexões de efeito concludente, como as que se nos suscitam com a situação política de Castela ao encerrar-se o século XV. Se os reis católicos não dispusessem de um forte agente repressivo, não duvidemos de que marranos e conversos marchariam com a unidade nacional, fomentando a desavença contínua e abrindo as portas ao adversário marroquino tão cedo a oportunidade se lhes deparasse. É uma concepção um tanto dura da história – é certo. Mas os povos não se governam com filantropismos adocicados, nem as asperezas da vida se deixam amaciar pelas perspectivas solidaristas de dúzia e meia de declamadores!
Com base nas promessas de Jehovah, os judeus não se consorciam com as filhas dos gentios.(100) Engendra-se deste modo um imperialismo étnico que concede a Israel pela integridade da Raça o domínio absoluto sobre as nações em decadência. Ninguém desconfia dos propósitos liberais das cortes de Cádis, que em Espanha aboliram o Santo-Ofício. Pois, abolindo-o, não hesitaram em afirmar que os judeus tinham formado um Estado no Estado. O que seria de nós se a Inquisição nos não valesse? A não ser que desaparecesse a Pátria, mas que se salvassem os Princípios!
Do pouco escrúpulo em nos aparentarmos com ligações asiáticas e africanas deriva o nosso desfalecimento em linha recta. Não se justifica nem se compreende de outra maneira a dissolução entre nós de toda a ideia colectiva. Vacher de Lapouge não se ilude no diagnóstico que os nossos males lhe merecem. Trata-se de um empobrecimento de raça, com efeito. «Le motif véritable de cette [p. 116] décadence» – escreve ele no seu volume Les selections sociales – «c’est qu’un si petit État ne pouvait indéfiniment dépenser l’élite de sa race sans l’épuiser, et que l’introduction des esclaves nègres avait altéré le sang de toutes les classes. Cest l’oligandrie qui a fuit la fin du Portugal, comme autrefois celle de la Phénicie, et plus tard celle de la Hollande: j’entends l’épuisement des eugéniques, car dans les destinées d’un peuple les masses ne comptent guére».(101)
Com a corrupção das virtudes da Grei perdeu-se o sentimento da mesma origem, que é a razão afectiva de uma sociedade histórica. Desorbitados do determinismo inalienável da avoenga, romperam-se-nos as agarras centrípetas. Como um rebanho de atravessados, não fomos em breve senão uma balbúrdia de criaturas sem regra nem norte. Quatrocentos fechara-se ainda com um testemunho assombroso do nosso admirável espírito comunitário. Refiro-me à instituição das Misericórdias pela rainha Dona Leonor. Com o seu ódio profissional à Igreja e à Realeza, é Teófilo quem no-lo diz, rendido numa homenagem que fica bem ao velho professor, por um equívoco da sua cultura extraviado, já agora para sempre, nos arraiais caducos da caduca democracia. «Foi esta dama excelsa (a rainha D. Leonor) a promotora dos trabalhos da Imprensa em Portugal, e à sua iniciativa se deveu a criação das Misericórdias, em que a assistência tomou um carácter público de confraternidade, em que o próprio rei se inscrevia como irmão, em vez dos Hospícios que serviam somente as classes isoladas pelos costumes separatistas medievais».(102) Nos dispêndios afanosos da Navegação o Lusismo não esmorecera, como se vê. Só a vesânia faustosa do Oriente o deixaria nos arrancos últimos, entregue apenas aos recursos líricos da Esperança.
A cavalhada heróica, que nos sepulta com violas e cruzes nos areais sedentos de Alcácer, não [p. 117] é, como de ordinário se pensa, uma arremetida de manicómio, com um megalómano presidindo de alto aos destinos do país. «Tempo haverá em que as comendas se ganharão nas costas do Algarve» – declamara trágico o conde do Redondo naquele conselho em que se deliberou largar ao moiro as praças de África. Nós quisemos retomar a inclinação natural da Nacionalidade – emendar o desvio sofrido nas consequências legítimas das Descobertas, que seriam em vez de nevrose altanada da Índia a nossa expansão gradual por Marrocos afora. Queríamos regressar aos quadros justos do nosso determinismo orgânico, depois do esfalfamento que por lá nos gastara debaixo de céus alucinados, com cortejos de opulência fazendo-nos bailar a imaginação. Não nos estava, porém, guardado um hino de triunfo. Um requiem enorme, desmedido, abafou na imensidade da noite adusta do deserto a agonia de Portugal inteiro. Cá ficavam os velhos e as crianças. Das lágrimas da orfandade com as lástimas da viuvez, a Esperança renasceria, proclamando a resistência invencível do Luso.
Já se conhece a Esperança como uma emoção soberana que amamenta mitos e evita a morte aos povos que a convivem. É como que a alma-mater das nações particularistas que subiram pelo vínculo do parentesco à consciência mais larga de Pátria. Pois a Esperança, emprestando linhas soberanas à febre a cem graus da derrota, vitaliza na personificação fabulosa do Encoberto a vigília superexcitada do génio lusitanista. Oliveira Martins não acreditava em nós – não acreditava em si. No entanto, pasmado diante dessa poderosa defesa mística que é o sonho poético do Desejado, não se negava a venerá-lo como a prova póstuma da Nacionalidade.
O instinto localista do Luso é o alicerce indestrutível do nosso municipalismo. Eu já assinalei a estreita ligação da Esperança com as predilecções sedentárias do Ocidente. A Esperança é o factor dinâmico da civilização atlântica, como a Comuna é o seu invariável elemento estático. 1384 é para nós [p. 118] a epopeia dos Concelhos. Com as vilas que se erguem, agitadas pelo populacho das vinhas, de ventres ao sol e sem capitão, remexe-se o fundo antropológico da Grei e o pequeno dolicóide assoma na rijeza indebelável da sua autoctonia. São os municípios que expulsam os castelhanos. Mas, para isso, que sentido superior afivela em hostes cerradas a arraia tumultuária dos povoados fronteiriços? É sem dúvida nenhuma a vocação sobrenatural que ilumina o esforço do Condestabre e alevanta no berço o menino de Évora aclamando o mestre de Avis com a vozinha tenra de quem falava pela primeira vez. É como que a certeza unânime de um milagre que funde numa vontade as vontades mais frouxas e as congloba num só querer durante o mais apertado da luta, sem que a descrença na vitória as salteie.
Georges Sorel achou a significação social dos mitos, que considera como imagens de reparação actuando energicamente nas massas por força da finalidade que lhes confere. A Esperança é assim, na verdade. Elevando-nos aos lances inacreditáveis de valentia e sacrifício com que se prelimina Quatrocentos, é ela que nos ajuda a suportar os naufrágios da desfeita, graças ao destino imortal que de novo nos inspira. Está por estudar psicologicamente a hora espessa da opressão. Com o florescimento do messianismo, é o «meio-vital» da Nacionalidade que se recupera. Os Concelhos vão pronunciar na guerra que se avizinha a palavra que decide e nos redime. Por que é que aos Concelhos pertence sempre na maré da crise esse papel de resgate?
É ainda o motivo étnico da nossa história que se verifica. A Comuna é a sobrevivência puríssima das nossas velhas mancomunidades agrárias, nas quais o Luso exprimiu a sua índole particularista e produtora. O aferro à terra – demonstra-o a etnologia – guarda a integridade nativa das populações. Ninguém ignora o que valem as raças homogéneas. Se a ruína da Pátria nos viera de cruzamentos depressivos, pelo localismo recobraríamos o vigor perdido logo que os núcleos intactos por [p. 119] via do enraízamento se desenvolvessem e prolifetassem. Eis o que sucede em seguida à modorra demorada em que as loucuras do Oriente nos mergulharam. As medidas purgatórias do Santo Ofício, mantendo em comedimento o assalto das etnias hostis, protegeriam o renovo das camadas indígenas. Como nas populações presas ao solo o remoçamento se facilitaria mais rapidamente pela proximidade em que se encontravam do tipo médio da Raça, já se compreende porque é que o Concelho fala, porque é o que o Concelho conduz hoje como ontem os lentos prelúdios da regenerescência. A Citânia despertava nas lembranças do mundo atávico. E nós vemos que enquanto Évora canta em 1637 as matinas da Restauração, a Esperança acompanha o movimento concelhio, promovendo a extraordinária mentalidade que falsifica as actas de Almacave mais o juramento de Afonso Henriques. Não se incomodem as inteligências incrédulas que um racionalismo palavroso ossifica! Para mim, segundo os ditames pragmatistas da minha cultura, a fé nacional que se tece em volta da Visão de Ourique é o documento representativo não só de quanto pode o valor dos mitos, como ainda de que os povos que vivem e são grandes não são os que mais discutem, mas sim os que mais crêem.
A guerra presente corrobora-o bem – se de depoimentos por acaso precisássemos. Entraram no eclipse mortal as ideologias anacrónicas da Revolução, herdeiras desse nefasto «livre-exame» que, introduzido no Ocidente pelos doutores da Enciclopédia, se traduz na ruptura de todos os laços morais e sociais em que a colectividade se repousa. A que assistimos nós no espectáculo imprevisto que a Europa nos oferece, convertida quase de banda a banda num vasto campo de batalha? É à apologia da utópica ordem internacionalista dos prégadores da Nação-Humanidade? É à apoteose final da emancipação humana, abrindo os braços por cima da Cidade-Futura, em que não se apontaria nem deuses nem senhores? Oh, como que por encanto, o filantropismo romântico pulveriza-se por entre a [p. 120] poeira das mil e uma ficções com que o século se apostou em confessar a impotência do seu cerrado orgulho materialista!
Do embate fratricida o que sai mais vivo que nunca é o instinto eterno de Pátria, servido pela realidade invencível de Raça. Não teremos ao fim as Doze-Tribos, de palmas erguidas, entoando em coro festivos hossanas, defronte dos muros da Jerusalém reconciliatória. A mentira pacifista desaba na recrudescência inevitável da Autoridade. E o que se conclui de tudo é que uma nação não é, como queria a vesânia revolucionária, um mero arranjo de interesses garantidos por lei. É antes uma verdade biológica, fundamentando-se na razão de ser de cada um dos seus naturais. As fronteiras não materializam assim convenções gratuitas que um sopro mais forte de cultura inutilizará. São precisamente a resultante de dois agentes – a Etnia e o Meio – operando em convergência, de mãos trocadas com o Tempo e com o Espaço.
A guerra presente denuncia-nos este estado geral de consciências. E nós assistimos à ressurreição das mais entranhadas místicas nacionalistas, de envolta com o regresso às forças vivas da Tradição. Guilherme II reelabora em proveito do pangermanismo as teologias rácicas do conde de Gobineau. Com Woltmann e Chamberlain promove-se a hegemonia teórica do homem loiro, sagrando-o como o único apto para o comando supremo do Orbe. Com o inimigo pela frente, Alberto I da Bélgica proclama às suas tropas, feras de defenderem a honra colectiva, e lembra-lhes que já Júlio César declarava serem os belgas os mais bravos entre os gauleses. A independência da Polónia anuncia-se. Já se nos entremostra a maioridade da Irlanda. O próprio esfacelo do império austríaco abona bem a profundeza desta corrente de nacionalismos que transforma a face remoçada da Europa. Envilecida por cem anos de baixas práticas jacobinas, a França de São Luís renova-se com todo o impulso de um segundo baptismo, arvorando a Donzela de Orleans como símbolo tocante da autonomia da gleba. [p. 121] O irridentismo italiano volta a aquecer em frémitos de juventude a região tridentina subjugada. E que exemplo admirável não nos chega dos Balcãs com o ressurgir viçoso em que se agitam povos tidos até há bem pouco como restos obsoletos de um passado que não torna? Será por acaso a plenitude do espírito gregário que se atinge? Serão os Imortais-Princípios que marcham para a Jemmapes definitiva, rasgando os intróitos de um outro ciclo maior para a humanidade? Oh, nada mais irreconciliável que a ideia de Pátria com a ideia de Revolução!
Um sentimento de predestinação histórica, como que a posse de um destino invencível, eis o que se manifesta no actual conflito europeu da parte de cada uma das nações beligerantes. Gesta Dei per Francos! – repetem os rapazes do inquérito de Agathon, batendo-se à doida com o tudesco, tal como outrora nas jornadas gloriosas do petulante galo francês. Gesta Dei per Francos! – e o primado espiritual da Gália, cabeça da civilização latina, ressuscita na divisa sobranceira da mocidade que, quase toda ela católica e monárquica, nos assegura que a França dos Direitos do Homem fica morta no congresso próximo das Pazes.
Nos liberi sumus, Rex noster liber est et manus nostrae nos liberaverunt! – gritavam os portugueses antigos, segundo o texto apócrifo de Almacave. Era a mesma intuição de uma finalidade, sem a qual as nações se dividem e tombam desfeitas, esmorecendo aos bocados ao longo da sua caminhada. O «milagre» de Ourique valeu assim, para as veladas dolorosas do cativeiro, como a alta certeza de que não se perderia a causa que tinha o Senhor por padrinho. Preparam-se os fundamentos afectivos da alma nacional, ungindo-nos de uma preferência mística em que transparece, bem vigorosa, a unanimidade do fim que nos conduz. Alexandre Herculano não mediu o alcance da questão, tomando o «milagre» como uma fraude piedosa de monges, quando constituía o aspecto positivo da religião [p. 122] sebastianista, que como mito não é mais nem menos de que a expressão patética da vitalidade de um país em desgraça.
É esse um dos traços inconfundíveis do valor da Raça. Desacreditado por parvenus da história literária,(103) Frei Bernardo de Brito, professor de integralismo lusitano, é a tal respeito uma vítima cuja reabilitação se nos impõe. D. João II erguera-se pelos ensinamentos do De regimine principum à compreensão da Grei como um conjunto jurídico, dentro do qual o Rei e as Classes se combinam e interpenetram como membros que são de um todo uno e concorde. O avanço social das nossas luzes governativas é Frei Bernardo de Brito que o completa, utilizando as criações eruditas de Anio de Viterbo, Antonio de Nebrija, Florián de Ocampo, e de tantos outros nomes do humanismo. Com apoio nas passagens mitológicas da Antiguidade, Frei Bernardo de Brito introduz entre nós, ao lado do conceito político de Grei, o conceito relativista de Raça. A nossa defensiva perante o unitarismo sôfrego de Castela assume então uma fisionomia inédita. Penetra na inteligência culta o orgulho de uma diferença que traz as suas raízes de Túbal, da estirpe de Noé, e de Lísias, filho de Baco. A Renascença revivera o prestígio doirado da fábula, em que ficara memória, embora alegorizada, dos velhos êxodos asiáticos. Frei Bernardo de Brito transpõe para vernáculo as boas ficções clássicas. É rica de significação, por exemplo, a luta de Gerião com Hércules. Hércules partira-se para estas bandas, atraído pela fama dos gados e lavoiras de Gerião. Frei Bernardo de Brito, lembrando-se, sob a cogula austera da regra, daqueles tempos em que se aventurava nas rimas galantes da Sílvia de Lizardo, narra-nos em saboroso estilo a briga que tiveram os dois contendores durante três dias e três noites, sem descansar. Gerião acabou por cair vencido, cortando-lhe o titã a cabeça que encravou [p. 123] numa torre por ele elevada para padrão. Nós adivinhamos agora no embate dos dois gigantes a personificação legendária da guerra travada pelos flibusteiros de Canaã com o corpulento homem loiro, dominador entre nós. Hoje sentimos o encanto da alegoria e é um belo tema de arte que se recorda à pena amável de algum contista, se por felicidade nossa o tivermos!
Eis porque a Monarquia Lusitana surgiu como um pregão eterno de independência à face da usurpação sinistra dos Filipes. Os contemporâneos do cronista cisterciense, recebendo à letra as invenções do maravilhoso pagão que em Frei Bernardo de Brito se aliava ao maravilhoso cristão, lançaram-se nessa cruzada tão extraordinária como desconhecida, que é o acto libertador de 1640.
Nos tratadistas, que o justificam, é o factor-Raça que se deduz como motivo primacial da restauração portuguesa. Claro que não se palpitavam ainda as conquistas do positivismo moderno, instituindo como ciência certa a antropologia. Mas nas linhas embrulhadas do mito, Lísias, pai dos Lusitanos, não é o herói semideus de quem os espanhóis desfiam a ascendência remota. Por detrás da fábula já nós sabemos a realidade que se escondia. E assim não nos surpreende que João Pinto Ribeiro derive os direitos da Pátria à sua autonomia inclusivamente dos profetas bíblicos, com citações escrupulosas dos respectivos versículos.
A Visão de Esdras é uma peça-mestra nas locubrações entusiásticas do Portugal-Restaurado. Conclui-se daqui que, se por um lado a Nacionalidade se socorria de iluminismos sentimentais, por outro lado atinava com as bases milenárias em que os alicerces lhe assentavam. Devolvíamo-nos à linha suspensa da nossa hereditariedade. Connosco se andara gestando um florescimento que en nada destoaria do de Quatrocentos. Notabiliza-se o predomínio dado pelos escritores de Seiscentos ao espírito municipalista na conformação da nossa existência livre de povo. É lá que as behetrias começam [p. 124] a figurar como autoras de um acordo de interesses permanentes de que Portugal derivaria.
Como no período de desfalecimento mortal que a Alemanha do romantismo padeceu com a invasão napoleónica e os consequentes estragos de uma guerra sem quartel, é o cultivo da história que dirige a geração de 1640 e a atira para a empresa gigantesca da Feliz-Aclamação. A Índia desorganizara-nos. Tentaram os Filipes acabar com o resto. O Lusismo surge na oportunidade, esboçando a teoria da Pátria Portuguesa. O «milagre» de Ourique consagra em vínculos de promessa divina a fé que a Nação deve possuir no seu futuro imortal. É a presença inspiradora de uma vocação colectiva, em que o pequeno dolicóide reaparece na persistência indebelável do seu ethos comunitário.
De facto, no vigor dos sacrifícios que o nosso irridentismo nos custa, são ainda os Concelhos que aguentam a defesa nacional, já sujeitando-se a uma verdadeira chuva de tributos, já aparelhando em tropas regulares os soldados bisonhos da Ordenança. Constitui uma página assombrosa de quanto vale o localismo, como elemento decisivo da nossa história, a evacuação de Olivença em 1646. O duque de São Germano entrara a vila, deixando em princípio aos habitantes a faculdade de se retirarem se não quisessem reconhecer o senhorio espanhol. Saem logo os fidalgos e a mais gente de teres. A fim de acudir ao abandono da praça que se esvaziava, o general ocupador manda transferir por um pregão para aqueles que ficassem a fazenda dos que se iam abalando. Imediatamente, como uma só pessoa num só movimento, todos os moradores de Olivença, ricos e pobres, a deixam sem hesitação, retorquindo assim à vil proposta com que se lhe experimentava a lealdade. Era, como se infere, a posse de uma mesma consciência, imprimindo fim e a solidariedade ao país inteiro. E quando mais tarde, com o imperialismo ibérico de Oliveira Martins, ou com a ficção federativa do programa de Badajoz – ao qual Teófilo aderiu sacrificando aos propósitos partidários o alto sentido lusitanista que [p. 125] lhe alumia a obra –, quando então se proclama a necessidade vindoira de se fundirem as duas pátrias para que a ambas fosse viável alguma missão de apreço no jogo das relações europeias, oh, como se retraíra sensivelmente o conhecimento da Nacionalidade, para sermos nós agora que marchavamos de encontro à cobiça nunca saciada do leão de Castela!
Perdera-se o senso da diferença que as miragens eruditas de Frei Bernardo de Brito haviam desenvolvido, insuflando na ideia de Grei a ideia de Raça. Tão grande preponderância tivera na disposição comum a literatura lusista da época, que em 1668 as Cortes-Gerais, congregradas para celebrarem a paz, declaravam solenemente, à face de Deus e dos homens, que «por serem, de séculos imemoriais tão opostos os ânimos, e tão diversos os intuitos de uma e outra nação, era impossível unirem-se em tempo algum sem total ruína da nação portuguesa». Correram os anos sobre os anos. E as práticas negativistas do sofisma monárquico constitucional formulariam parecer contrário, olhando-nos apenas como um bocado de terra que o acaso subtraíra a uma natural incorporação no maciço geral da Ibéria. É a ciência oficial quem no-lo ensina, ainda com Oliveira Martins por corifeu. Jazia esquecido o voto vibrante dos Três-Estados de 1668!
O trabalho demorado da desnacionalização viera ganhando terreno com o andamento de causas várias entre as quais sobreleva, sem dúvida, o mal ideológico do século XVIII. Por uma fatalidade, cuja origem se não apura bem, o esforço formidável da geração de Seiscentos perdera-se nas encruzilhadas de uma decadência a que não é estranha a divulgação do racionalismo na sua dupla forma política e pedagógica. Ninguém ignora os efeitos funestíssimos do «livre-exame», que é para os motivos inexplicáveis da existência como a mó do moinho moendo e remoendo. O grão reduzido a farinha, ai de nós, nunca mais espiga e nem para semente serve! – lastimava-se Amiel. As [p. 126] estatísticas fornecem-nos, na realidade, uma percentagem de suicídios entre os protestantes que não se verifica entre as populações católicas. São os frutos do terrível «espírito de análise», que foi um germe de morte para o brilhante pensamento ocidental. Deu começo à árida superstição do Progresso. Com os revisionismos especulativos de Descartes derranca-nos as certezas íntimas, deixa-nos como uma tábua-rasa. Eu já asseverei que não são os povos que mais discutem os povos que mais vivem. São antes os que mais acreditam e melhor sabem obedecer. A discussão engendra o vício intelectualista que matou Bizâncio com os maometanos cavalgando-lhe já as muralhas e ajuda as assembleias vistosas engalfinhadas em Blanchernes no debate subtil dos atributos da Hipostase.
Pois com o Discurso do Método e o regalismo doutrinário da jurisprudência josefina a mentalidade reformada apossa-se de nós. Os Padres do Oratório são os portadores dos novos processos. Por toda a Europa de estrutura católica vai um filosofismo de ênfase que rompe direito para os abusos iconoclastas da Enciclopédia. As teorias absolutistas que desvirtuaram a natureza benigna da nossa Monarquia denunciam a marca luterana com o excesso governativo de que rodeiam o Príncipe.
O Príncipe já não é o titular de uma magistratura de sã consciência. É, à maneira germânica, um césar baroco que consubstancia em si a espontaneidade elaboradora da sociedade. Definham-se assim os relativismos demográficos e regionais em que o génio atlântico vasava uma das suas feições mais profundas. Esteriliza-se a acção comunal numa insaciável hipertrofia administrativa. É vão o trabalho anterior da Tradição. As Pátrias nada as exprime já senão o poder majestático que as representa.
Pesa por cima dos povos um artificialismo tão rígido, tão inerte, como a mais inteiriçada das construções geométricas. A Razão-Pura anuncia-se e com ela já vem de jornada a Bondade-Natural do valdevinos de Genebra. A psicologia huguenote continua a vingar por vagorosas infiltrações sobre o [p. 127] Ocidente. A Revolução, que estala em breve como uma apocalipse de sangue e barbárie, é filha legítima desse individualismo exagerado que o livre-exame traz consigo.
A Revolução, preconizando o homem-abstracto, o absoluto-homem, envolve a negativa de Pátria, porque anula no entusiasmo das suas generalizações a fama incansável do Tempo e do Espaço por cuja obra se promove a diferenciação das fronteiras e o instinto bem vivo de raça. Os linearismos ditatoriais do Marquês acusam entre nós o ingresso das teorias enfáticas que os tratadistas do século XVIII andaram divulgando numa apologia cerrada do Estado metafísico e todo-poderoso. O Discurso do Método empolga-nos com as sentenças de um frade barbadinho. São expulsos os Jesuítas como monarcómacos e sequazes dos republicanos, por partilharem os ditames da sociologia de São Tomás contra as exorbitâncias da concentração monárquica.(104) O ensaio de Igreja Lusitana que nesse momento se efectua com o teólogo António Pereira de Figueiredo, o presbítero Francisco José da Serra Xavier e o doutíssimo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, é mais uma prova da adaptação entre nós das ideias estrangeiras, bebidas no febronismo e nos publicistas do movimento galicano. Dos Concelhos já se não inquiria senão para se abolirem as Cortes Gerais com a célebre declaração de apócrifo em que o Desembargo do Paço condenou o livro do arcediago Francisco Vaz de Gouveia, que tanto influira doutrinariamente na acta dos Três-Estados do Reino em 1641. O pequeno dolicóide não intervinha já nas direcções da governança, sequestrada como estava a iniciativa municipalista. O particularismo institucional da Grei desvanecera-se. Dormia amordaçado o motivo étnico que dirige a nossa história na hora aguda da crise.
Só imperavam agora os reformismos importados com a cópia servil das realezas de bota-abaixo, que [p. 128] lá fora se personificavam em Catarina da Rússia, Frederico da Prússia e José da Áustria. A obra demolidora não demora a rematar-se com o espasmo lírico do Contrato social. Abatidas as modalidades de Meio e Etnia, em que as nações se concretizam fisiologicamente, o homem de Jean-Jacques aparece na cauda de quantos naturalismos idílicos os salões da época se apressaram em decorar e aplaudir. Raynal e Volney atraem as inteligências, desnorteadas pelas utopias contemporâneas. De olhos em alvo, descobre-se o luar. Amam-se as ruínas fingidas. E só o Ermo enamora a alma, espalhando o gozo nos sentidos em contemplação.
Portugal padece cedo a avariose da sensibilidade. O Marquês preparara-lhe o advento, aclimatando em tudo os mais indigestos receituários da formacopeia gaulesa. Revolvem-se sem tacto os fundamentos estruturais da comunidade. A um país de arraigada índole agrícola quis vestir-se-lhe por força o arrevesado molde industrialista. As consequências foram duras e incalculáveis. Quebrados os liames em que o grupo se apoiava e robustecia, bem depressa nos vimos alheios ao nosso determinismo orgânico, desgravitados como uma massa informe de átomos, a que nenhum aferro centrípeto já segura. Substituíra-se ao passado da Pátria a invenção exótica de meia duzia de plumitivos discorrendo com todo o simplismo sobre quartos de papel em branco.
Portugal afigurava-se para a luneta pombalina como a Lisboa do terremoto caída no chão. Bastaram os compassos para a erguer. E assim o pulso que a readificara poria de pé, viçoso, próspero, o Reino que se desconjuntava como uma nau velhíssima da carreira das Índias. O caso é que quanto mais nos procuravam remédio, mais a gente se afundava na cura estrangeirista, em que costumes e leis se levavam cerces, tal como se nunca houvessem existido. Desagarrados do solo, gasta a fisionomia centenária da Nacionalidade em inovações de ida-e-volta, a queda entre nós dos livros franceses, que os esbirros do Senhor-Intendente farejavam, [p. 129] solertes, remexendo a capital de baixo para cima, não fizeram mais que atear o fogo latente. Por muito antagónica que pareça, no seu autoritarismo impertigado, a ditadura de Pombal abrira as portas ao estado de espírito de que a Revolução se iria valer.
O reinado seguinte, apesar das calúnias que o enegrecem, empenha-se ainda em atalhar o mal que avança, pelo regresso à continuidade histórica da nossa sociedade. Merecem referência agradecida os fisiocratas da Academia pela séria investigação das riquezas naturais do País, a que se devotaram com alma. Preocupa-os um plano económico consciente, em que são acompanhados pelos importantes estudos que as origens da Pátria provocam aos seus camaradas da secção da literatura. É, sem dúvida, uma trégua das circunstâncias inexoráveis que durante o século nos tinham hostilizado constantemente, agravando cada vez mais o divórcio da Nação com o Estado. Mas, como a visita da saúde, seria bem passageira, por desgraça nossa! E nem a polícia apertada de Pina Manique nos defenderia do contágio insalubre que se exalava de França, embora dispusesse da muralha da China para nos resguardar.
Diante de mim abre-se O Filósofo Solitário, impresso em Lisboa na Régia Oficina Tipográfica no ano de 1786 com licença da Real Mesa Censória. Sem que uma palavra suspeita de revolta se escreva ali, não se carece, todavia, de segundo depoimento para nos convencermos das grossas névoas mentais que perturbavam as camadas cultas do Reino, aptas a abraçarem com cegueira a rebeldia declamatória que Paris nos enviava com os figurinos em voga. Fale por mim uma transcrição de O Filósofo Solitário. É do prólogo que rompe deste modo, dirigindo-se «aos Filósofos que vivem na sociedade»: «Todo o Mundo julga que a sociedade é a bem-aventurança da terra. Que engano! Se vós estais por esta máxima, sois Entusiastas. Os Filósofos não devem adoptar os axiomas do povo. Quem busca as causas naturais dos efeitos naturais, deve habitar nos montes; porque a Natureza falia por uma boca na [p. 130]solidão, e por outra nos povoados.» Desde que a sociedade se condenava como inimiga do desenvolvimento individual e O Filósofo Solitário corria de mão em mão com licença do Paço, não nos admiremos de que a tentativa de Lusismo do reinado de D. Maria I se abafasse rapidamente na incubação do trama que os clubes secretos já preparavam.
Ainda nos apercebemos do perigo quando o oiro inglês, subornando a Danton, atirava para a guilhotina metade da França pelo braço da outra metade. Empreende-se o combate sistemático das ideias revolucionárias, com a Dissertação a favor da Monarquia, do marquês de Penalva, e com a versão para vernáculo do livro A Monarquia, de Peñalosa y Zúñiga, pelo erudito António Caetano do Amaral. Vulgarizam-se depois os enunciados do conde de Maistre e do senhor de Bonald. O doutor Vieira de Castro escreve o seu Discurso a favor das ciências no governo monárquico. Porém, Junot já atravessava os Pirenéus à frente do exército da Gironda. Cá dentro desenrolara raízes o internacionalismo maçónico, o qual via com olhos de gosto o avanço da invasão. Com o auxílio das Lojas cria adeptos o «partido dos franceses» que pediu um rei a Napoleão. Não podendo resistir à coligação traiçoeira da Espanha com Bonaparte, o Príncipe-Regente, salvando-se na prudente retirada para o Brasil, salvou-nos da vergonha sem nome de um monarca de improviso. A saída de D. João VI foi não só o resultado de um acordo diplomático com a Inglaterra, mas a prova plena da capacidade política do infeliz Bragança. Caído em poder de Junot, arrancava-se-lhe certamente pela coacção a mesma renúncia de direitos que em Bayona se extorquiu a Carlos IV. Transportando para o lado de lá do mar o pavilhão independente da Pátria, D. João VI manteve de pé o princípio dinástico como o penhor mais inviolável da nossa autonomia.
Entretanto, o fogo da insurreição acende-se. E dividido Portugal entre os sequazes do liberalismo nascente, que reverenciavam em Junot como que o precursor de uma nova ordem de coisas, e a grande [p. 131] maioria da Nação que forcejava por sair intacta nos seus costumes e nas suas crenças da enorme ameaça que sentia sobre a cabeça, é então ainda, como nas alvas longínquas de Ourique, como nas guerrilhas pelo Mestre, como na briga exasperada da Aclamação, o motivo étnico da nossa história que se pronuncia e nos resgata. Quem é que fomenta a revolta, lhe busca recursos, a promove e a generaliza? São as vilas da província constituindo-se em juntas e armando-se todas em peso com caçadeiras e picos. Juízes-de-fora ombreiam com meliantes, frades gorduchos com foreiros miseráveis, morgados com pobretões, e o Reino em massa – adolescentes e velhos, mulheres e bambinos – abala caminho da serra, de trouxa à cabeça, para saltear nas gargantas ínvias o inimigo que passa. O localismo, acusando a pertinácia da Raça, manifestava-se com assombrosa energia. Mais uma vez estavam patentes as reservas do Luso na sua tradicional persistência. Era o «meio-vital» da Nacionalidade que se reconstituía à face da desagregação inevitável. Voltava-se ao nosso determinismo orgâgico. A história de um povo é sempre a soma em que se apura a experiência das gerações transactas. Os Mortos falavam agora no gesto de defesa em que os vivos se crispavam. O Portugal histórico possuía-se de novo na certeza de uma finalidade. É que o Luso reaparecera com a intervenção do pequeno dolicóide, conservado em pureza por virtude das instituições particularistas da Grei.
O espaço que corre desde a expulsão das hostes do Corso ao triunfo definitivo da liberdade teórica dos códigos em 34, é a luta afincada da nossa autoctonia contra as inovações hostis trazidas pelo vento da invasão. Com Alorna e Gomes Freire, bem escuro se nos descobre o papel dos oficiais portugueses que seguiram a fortuna de Napoleão. Diante de Almeida, quando vieram com Massena, o supliciado de 1817 mais o antipático Martins Pamplona, que D. João VI doiraria com o condado de Subserra, convidaram abertamente à traição os soldados da praça que se mantinham com honra no seu [p. 132] dever. Em que redundam, afinal, os chamados ‘mártires da Pátria’ consagrados pelo facciosismo maçónico, do qual foram servidores bem empenhados! Pois, desgraçadamente, outros como eles subverteriam os alicerces da sociedade tradicional. E a querela que se abre entre D. Miguel e D. Pedro por causa da sucessão ao trono vago não é mais que um incidente explorado com habilidade pelos grandes dignitários do triângulo simbólico.
Os filantropismos salivosos dos regeneradores de 24 de Agosto não sofismaram, todavia, o despertar da consciência colectiva. A Nação nessa altura cheia de carácter, recuperada a normalidade do seu temperamento, repele sem hesitações o emplasto constitucionalista que se lhe pretende aplicar, conforme o modelo oferecido pelas Constituintes espanholas de 1812. Até hoje tem-se figurado o arranco de reacção que se desenrola da Vilafrancada ao epílogo prematuro de Évora-Monte como um lampejo exasperado de quantas preferências inferiores regiam as nossas populações. E a mentira dos compêndios, servindo o ódio sem tréguas dos partidos. Inculca-se como o regresso a um absolutismo tirânico de melodrama a linda manifestação de espírito concelhio que se coroa com a reunião das Cortes-Gerais em 1828. Bem opostamente, D. Miguel significava o protesto da Raça contra as aclimatações centralistas do Marquês. Tornava-se à representação das classes com os procuradores das vilas e os delegados dos mesteres. Era com a especificação regional, expressa nos Municípios, a diferenciação técnica que nas Corporações se efectuava.
A base pluralista da comunidade consagrava-se assim na índole instauradora da acção miguelina, antecipada pela formidável lei de 4 de junho de 1824. Com o ser a herança gloriosa da Grei, ajustava-se esse programa político com os ditames da sociologia tomista, renascida mais tarde na síntese de Auguste Comte. As calúnias e as insídias do sectarismo é que transtornaram a compreensão de uma era em que Portugal tentava reconciliar a espontaneidade [p. 133] dos elementos nacionais com as directrizes supremas do Estado. Figura-se o digníssimo Príncipe exilado como um monstro resfolegando crime pelas narinas dilatadas gostosamente para a hecatombe. Eu não sou legitimista, não só por atmosfera de família, mas por considerar o critério da Legitimidade como escusado na questão portuguesa, em que apenas o interesse geral deve predominar. Contudo, não me esquivo a reconhecer a identidade que havia entre o monarca deposto pelos efeitos da Quádrupla-Aliança e o País que lhe queria como à carne da sua carne. D. Miguel, erguido pelo génio vibrante do Luso às cumeadas de herói-salvador, traduz o embate das antigas liberdades – bem concretas e bem vigorosas, em que as relações múltiplas do agrupamento se encarnavam e satisfaziam – com o liberalismo metafísico da Revolução Francesa, alheio a toda a realidade ambiente, preocupado apenas com o homem abstracto de Jean-Jacques Rousseau. E não se recorte em cores carregadas de quinto-acto trágico o apostolismo intolerante do Portugal-Corcunda! D. Miguel, embarcando em Sines vestido de pano de Portalegre, porque não vestia senão de fazendas nossas, é, com a pequena mala de roupa que o acompanhava, uma imagem extraordinária para se reter. Corriam-no as vilas dos vencedores, é certo. Mas com ele abalava a alma das vilas que o estremecera tão entranhadamente como outrora ao Mestre, quando o Castelhano atravessava as fronteiras. E se o sentimento da Pátria atinge ainda por momentos o calor excepcional das grandes horas de um povo, é pela Patuleia, ao pensar-se que o Proscrito regressaria. E regressava, se não fosse o general Concha à frente de uns tantos mil espanhóis.
Pergunta-se: que sentido comportava consigo a vitória de D. Miguel? Comportava a solução própria da Raça ao conflito aberto pelos paroxismos, a prevalência dos hábitos seculares da [p. 134] Nacionalidade contra os juízos geométricos da cartilha gaulesa. Seria, pois, a reposição do Lusismo adentro daqueles moldes que durante um aprendizado de centenas de anos o nosso génio para si mesmo criara. Nada mais.
[p. 135 e 136] ### [[p. 137] VI] Integralismo Lusitano
Eu sei que os arautos da falida ideologia democrática, da qual o nosso Constitucionalismo não era mais que o primeiro ensaio – eu sei que me obtemperarão com a eterna estrofe do Progresso-Indefinido. Mas, pelo amor de Deus – se a exclamação se me consente! –, o senso científico da Evolução encontra-se hoje modificado pelas observações experimentais de René Quinton. Em vez de se interpretar como a suscitação incessante dos seres para um aperfeiçoamento que se mede pela distância que vai da monera ao homem, a Evolução, perdido o seu conteúdo arbitrário e fantasioso, passa doravante a designar tão-somente uma aturada manobra de permanência. Não mais o devenir interminável de que tanto se utilizaram os padroeiros da utopia libertária, mas sim o respeito integral pelas condições primitivas da génese. A Vida é. E como é, procura perdurar, conservando com afinco a sua constância original. Tão cedo esse equilíbrio se modifique, assim se provoca um desarranjo cujas consequências são de total aniquilamento. Evoluciona-se, é facto, mas em limites traçados, com órbita restrita e fins expressos. Coloque-se um embrião. Evolucionar é desenvolver à plenitude todas as possibilidades que dentro dele se contêm. Não se alienam nem a precedências que o confor maram, nem as condições de espaço e de tempo que o determinam. Res eudem modo conservantur quo generantur. «As coisas conservam-se pelos mesmos motivos por que foram geradas» – já era a divisa profunda de Rivarol.
[p. 138] Considere-se o relativismo como a norma que governa a pluralidade inapreciável dos seres. Nunca se pretenda obter uma unidade quimérica, que teria como ponto de partida um ovo único, prolongando-se sempre em linha recta e instalando sempre no futuro o exercício das funções superiores da Vida que são imediatas e invariavelmente as mesmas. Eis os corolários que se desprendem da emenda apresentada por René Quinton aos monismos imaginosos do pobre doutor Haeckel. A superstição racionalista enchia a boca com as escalas embriogénicas desfiadas pelo insigne mistificador de Iena. E trasladando-as com um enfurecido exclusivismo para o campo dos fenómenos sociais, deitou-se a justificar assanhadamente quantas paranóias se têm concebido em glosa à Bondade-Natural do onanista idílico do Emílio.
O Progresso, que se inventara em religião omnipotente, descai nas proporções ridículas de um fetiche desengonçado. O Progresso não é outra coisa senão o triunfo da Inteligência que, exígua e rectilínea, apenas apreende o descontínuo na sua faina excessiva de análise. São os sólidos que melhor percebe. Por isso é na Mecânica que se revela com sucesso, porque é aí que se sente mais à vontade a sua qualidade específica. Quando se deseje transplantar para o que pertence à esfera do subconsciente e do complexo, aborta desde logo numa derrocada estrondosa. A base da razão, confinando-se apenas no que o cérebro apanha e concatena, é forçosamente deformadora e unilateralista, levando a essa impotência céptica do querer que hoje se intitula renanismo. Efectivamente, o sofista amável de L’Abbesse de Jouarre declarava com frequência que se Napoleão fora tão crítico como ele não daria nunca o golpe do Brumário.
O prestígio trascendente da lei é nas sociedades contemporâneas o resultado de uma tal hipertrofia de pensamento. Em vez de ser a colectividade que inspira o direito, é o direito que a antecede e governa despoticamente. Inventa-se assim o apriorismo rígido de tantos insignes reformadores. «La stabilité sociale [p. 139] a disparue depuis que l’homme s’est proclamé législateur», escreve o publicista Coquille. «Les anciens avaient remarqué que le grand nombre de lois est un signe de décadence. Plurimae leges, pessima respublica. Les lois remplacent les moeurs; elles substituent au frein intérieur de la conscience une répression extérieur. Leur multiplicité est donc un signe de décadence.»(105)
Com o disfarce do Estado as conveniências privadas dos bandos é que prevalecem por detrás do chavão da legalidade, visto que o agregado deixa de ser um organismo, dirigido por normas inalteráveis, para se tornar um autómato, de direcção arbitrária. O sofisma constitucional importa deste modo a sobreposição de uma política simplista de princípios a uma política positiva de factos. «La constitution d’un peuple est toujours coutumière» – oiçamos ainda Coquille –, «et plus elle est coutumière, plus elle est naturelle. Quandd les lois, au lien de s’attacher aux choses de police et de sécurité publique, prétendent régler la religion, la famille et la propriété, elles les ébranlent. Ces trois choses fleurissent surtout en l’absence des lois parce qu’elles vivent d’elles-mêmes et se défendent toutes seules. La nature, qui agit par le temps, les fortifie et les enracine. La coutume est une plante que croit lentement, disait lord Chatam.»(106) Já se entende porque é que D. Miguel valeu entre nós como a expressão do génio da Raça em guarda contra os abusos sem nome da ideologia gaulesa.
Houve durante a Convenção um matemático, não sei se Condorcet, que asseverava que uma lei, em sendo boa, é tão boa em toda a parte como em toda parte são certos os dados de um axioma de geometria. Na linguagem científica da época era o enunciado de tirania espantosa do Homem alegórico da Revolução. Desprezavam-se os particularismos de existência e de destino em que os grupos sociais se definem, para se lhes aplicar à força, se não a bem, a secura hirta de uma regra uniforme e absoluta. «Não [p. 140]me obrigueis a empregar as armas para vos libertar!» – já lá dizia no Porto a proclamação célebre do Dador.
No cabo, não é a suposta excelência das ideias que torna os povos felizes. É antes o respeito dos hábitos em que a alma colectiva estratificou as suas seguranças ancestrais. Ensina-o hoje a demopsicologia pela pena incisiva de Gustave Le Bon. Já Taine e Fustel de Coulanges o tinham previsto. É que não se substitui ao passado de uma pátria o passado de outra pátria, tal como nos indivíduos se não pode volver em nada a soma das respectivas aquisições atávicas. O parlamentarismo doutrinário que, com a vista no figurino inglês, se revelou ao conflito romântico como único meio de se reconciliarem os decálogos do Noventa-e-Três com as direcções do Antigo-Regime, se porventura desempenhara para com a Inglaterra um papel importante de coordenação social, é que nascera além da Mancha como uma criação própria do génio britânico. Transferido indistintamente para fronteiras alheias, seria, sem dúvida, um agente demorado de perturbação. Foram os resultados que colhemos dos entusiasmos diplomáticos de Palmela pela política um tanto escusa do gabinete Cauning. Desorganizou-se o meio-vital da Nacionalidade, sujeita a uma maré cheia de inovações. E o pior é que se atribuíram à insuficiência colectiva, e não à qualidade do erro que se nos impunha, os desastres intermináveis da recentíssima ordem de coisas.
Eis o espírito de toda a nossa falida experiência liberalista. Não só se inutilizou o renascimento viçoso de 28, como se caiu depressa em opiniões suicidas – no deixa-lá-andar tão característico das situações parlamentares. Portugal desaparecia como uma realidade autónoma, preparada do fundo das idades pela acção convergente do Meio e da Etnia. Passava a justificar-se apenas pela forma de governo que o distinguia no concerto vasto das Nações. Inaugura-se assim a nefasta teoria do Acaso, que em Oliveira Martins recebe a verdadeira consagração, apesar de Oliveira Martins ter [p. 141] palpitado no Portugal Contemporâneo a índole negativa do sistema que nos administrava como se administra uma roça de pretos. O País, atrás da ficção cartista, era apenas um pretexto de circunstância, legitimando pela burla ignóbil do sufrágio a cupidez desaforada das clientelas.
«Governar é aguentar-se no poder» – ditara o cinismo estanhado de Guizot aos burgueses da monarquia à bon marché, segundo o sarcasmo doloroso de Balzac. Não praticámos nós conselho diverso. Cada partido queria o Rei para seu uso, na frase definitiva de Wenceslau de Lima. Ilaqueado pelas imposições dos bandos, o Rei via-se bem um «mestre-de cerimónias», como a si mesmo se chamara Casimire Périer ao demitir-se. No descrédito sucessivo de todas as mezinhices alvitradas, pediu-se aos homens a responsabilidade que só pertencia às ideias. Daí o resvalar-se no indiferentismo dogmático em formas políticas, quando não se abraçava a ínfima crendice que inculca os regimes electivos como superiores aos regimes hereditários. Enfiávamos por uma senda inclinada que daria connosco aonde agora estamos – a um passo do abismo irreparável. E ao inventariarmos as perdas sem conto dos dias gordos da Liberdade, nós reconhecemos que a única palavra construtiva que se escuta ao longo da quermesse doidivanas em que Pacheco, de braço dado com Acácio, seguia agarrado à sobrecasaca de Fontes, não é da Carta que ela se solta, não é o Terreiro do Paço que a pronuncia, todo debruçado para a obra mais rendosa de burocratizar o País, de cima a baixo. Ergue-a Alexandre Herculano, clamando no deserto pelo municipalismo patrimonial da Grei. Com ambas as mãos no peito, Garrett já gemera um contrito mea culpa pelos calores reformistas da sua aventura de emigrado. Mas é mais forte o brado profético do ermita de Val-de-Lobos que se foi plantar oliveiras na esterilidade sáfara em que o meio o sufocava.
Solicitado por duas tendências contraditórias, a renúncia de Herculano é um exemplo para [p. 142] se guardar connosco demoradamente. Nos livros que nos legou, lê-se o ímpeto demolidor de Mme. Staël e de Benjamin Constant, transportando para as categorias mentais da Nacionalidade o criticismo pernicioso da inteligência protestante. Verte-se esse aspecto inferior do seu aturado esforço em polémicas avinagradas e em análises que crestam como um ácido. Tracemos uma nota explicativa à margem do Eurico e da História da Inquisição. Compreender-se-á melhor a divergência que irreconcilia o autor de páginas tão mesquinhas com a pena inolvidável que ressurge o viver afonsino dos Concelhos e se bate com galhardia ao longo dos Opúsculos «a prol do comum e aproveitança da Terra» – nos dizeres da velha Ordenação. A falta de uma síntese que lhe apaziguasse as brigas da consciência com a razão documenta-se à maravilha nos panfletos de A Voz do Profeta. Suscitado de uma banda pelos subjectivismos artificiais da roda literária, advinda das ribas de França na bagagem do exílio, cedendo por outro lado aos ditames da sua profunda visão de historiador, Alexandre Herculano divide-se, desencontra-se, não se estabiliza, já defendendo o frade de Santa Cruz e as monjas de Lorvão, já alinhando indignações em brasa contra o alastramento do espírito ultramontano. Aonde o pensador reformado se suicida, Alexandre Hercuano retira-se, pela qualidade positiva do seu ser, que é o amor ocidentalista à courela, o qual o não deixa sossobrar no desabamento da ilusão porque arriscara a vida e padecera as agruras do desterro. Era cedo, muito cedo ainda, para vencer em si o prejuízo liberalista e julgar-se a ele mesmo com um regresso puro e simples às instituições tradicionais da Raça.
A apologia do nosso particularismo municipal fica, no entanto, como um testamento notável que o acredita para nós como um mestre a venerar-se. Lamenta-se como uma vítima da mentira sem honra que nos ganhara, envolta em grandes prometimentos de redenção. Tomaram-no como um visionário os profissionais do Mando, espécie de [p. 143] verborreicos encartados para quem a sonoridade das aparências bastava e de sobejo. O pedantocratismo arrematava-nos na feira pública da Regeneração para nos derrancar os restos da antiga energia. No pânico de naufrágio em que tudo se afundava, são de Herculano as únicas agarras que se oferecem à desconjuntadíssima caravela lusitana. O estudo do município, nas origens dele, nas suas modificações, na sua significação como elemento político, proclama aos vindoiros, deve ter para a geração actual subido valor histórico, e muito mais o terá algum dia, quando a experiência tiver demonstrado a necessidade de restaurar esse esquecido mas indispensável elemento de toda a boa organização social».
Criaram-se equívocos à roda de um sonho tão belo. E se o milenarismo dementado da República se gerou entre nós, foi porque intrusamente se apossou dos conselhos finais de Alexandre Herculano. Em nome da Raça e por via do seu característico municipalismo, os desastres consecutivos da Monarquia-Constitucional deram lugar à vitória dos ideais democráticos. Com Henriques Nogueira se documenta o falso esforço tradicionalista que procurava aclimatar aos nossos limites a solução cosmopolita dos Imortais Princípios. Tempos felizes de apostolado, em que a psicologia das multidões se não conhecia, nem o estrangeiro do interior tomara conta de nós!
Entrementes, Oliveira Martins revelara-se. E nós não nos alargaremos sobre o nihilismo de contágio que lhe escapa de quanto escreve e evoca com o poder diabólico de um médium. Também ele quis achar por fim amarras que o sustivessem e nos sustivessem. Viu a doença, mas errou-lhe o tratamento. Apela para a monarquia de «poder pessoal» que é a Realeza pura de Quatrocentos devolvida ao que constitui o conteúdo próprio da função monárquica. Porém, em lugar de se socorrer do instinto foraleiro do Portugal autóctone, consagrando as miúdas iniciativas locais e técnicas, abandona-se, atacado de germanofilismo, à demência fantasiosa do Império-Ibérico. Só pela reabilitação do [p. 144] elemento lusista nos salvaríamos, se nos viessem a horas os ímpetos salvadores! Ai de nós, Oliveira Martins não acreditava na Raça! Na sua descrença levou consigo uma oportunidade da fortuna para levantarmos cabeça, e com aprumo, desta feita. Meu Deus, se na literatura, se na governação, se no alto mundo, a fina flor do nosso País se arregimentara nos Vencidos da Vida, se o diletantismo reinava em árbitro supremo, como é que nós venceríamos a ladeira, se não tínhamos uma élite que nos suscitasse para o ressurgimento, se a geração em destaque se repartia entre as hipérboles trovejadas por Hugo na musa torpe de Juuqueiro, e a última pochade naturalista, recomendada por Mariano Pina, alto-comissário das nossas letras em Paris?!
Existia Teófilo, sim, trabalhando como um beneditino, fechado no seu casulo de iluminado, ardendo todo na missão sacerdotal de atrair a um baptismo novo a esperança esquecida do Luso. Percebera-se da importância capital da factor-Raça. E, com vislumbres de vidente, o que Teófilo mais fervorosamente procurava era a nossa independência étnica, contra o Acaso teórico de Oliveira Martins, o qual contemplava em nós um produto apenas das ambições dos nossos Príncipes. Teófilo subia mais longe, profundando o negrume das Origens, para ressuscitar na Lusitânia dos Antigos, segundo o Estrabão da referência do estilo, a vasta actividade de um povo embrionário que ascendera devagar as jornadas custosas para a autonomia. Deixava de ser a Lusitânia uma alusão pedantesca dos humanistas de Quinhentos, conforme pretendera Alexandre Herculano. Volvia-se numa realidade tão viva, tão plena, como a carne da nossa carne, como o sangue do nosso sangue.
Esta é a significação da obra de Teófilo, que fica, todavia – digo eu algures –, como uma enorme pirâmide sem vértice. Falta-lhe a síntese, o justo remate, de que Teófilo se incapacitara por causa do preconceito republicano que lhe obliquava a retina. Conhecem-se as divergências [p. 145] irreconciliáveis de Teófilo com Oliveira Martins. Contudo, sem que se pense que eu cultivo o paradoxo, Oliveira Martins e Teófilo completam-se. Pedimos ao crítico das Modernas ideias na literatura portuguesa o sentido afirmativo em que toma a Raça, e, indo solicitar ao místico da Vida de Nun’Álvares o dia de juízo a que convocou todo o período desorganizador da ideologia cartista, teremos a visão da Nacionalidade contornada sem reticências, como que a preludiar os propósitos sadios que animam hoje a geração que avança, de olhos pregados na Portugália.
Enquanto Teófilo se encerrava no remanso do gabinete e vinha por lampejos divinatórios ao encontro do Lusismo, desenrolara-se cá fora a cruzada amorável dos folcloristas e dos arqueólogos. Eu acabo de mencionar a Portugália. Citarei a Revista Lusitana, sem esquecer a Tradição e o Arqueólogo Português. Como Rocha Peixoto, Ricardo Severo, António Tomás Pires, Santos Rocha e tantos outros cavaleiros de resgate, radicava-se o movimento iniciado por Estácio da Veiga ao sul e Martins Sarmento ao norte. No momento em que o urbanismo enrolava o País no abraço sufocante dos seus mil e um tentáculos, são essas criaturas de boa-vontade que surgem, de enxada em punho, a arrecadar os despojos dispersos da nossa herança tradicional. Na sinagoga de São Bento o pedantocrata traía-nos ignobilmente. Com o êxodo dos campos arrefeciam as lareiras da província. Perdera-se na nossa sociedade o sentimento unânime de um fim. Nas sessões de gala o chauvinismo oficial é que falava às vezes das chacinas com que andáramos ensanguentando o Malabar, como se a terra da Pátria não possuísse outro título de glória fora dos anais da conquista asiática, recortados em piratarias e vergonhas sem perdão. Ressuscitava-se também a pá de Aljubarrota mais a sanha exasperada do alferes da bandeira na desfeita de Toro. Quando chegava o Primeiro de Dezembro, além do Te-Deum na Sé com sermão repisado [p. 146] sobre as páginas sabidas de Rebelo da Silva – «O dia primeiro de Dezembro amanhecera puro e alegre...» –, saía inevitavelmente, como guloseima para a patriotice, aquele dramalhão imenso em que D. Filipa de Vilhena arma os filhos pouco mais que infantes e os remete com bravura para a degola. Não tinha outro grau a consciência colectiva. Obliterara-se a grandeza do espírito concelhio, que os repetidos códigos administrativos empurravam para o estrebucho derradeiro. Favor nos fazia a Espanha em nos consentir ministério em Lisboa, comum simulacro de exército, bravateando os bigodes para as meninas cismadoras das cidadezinhas do interior!
Nós próprios atávamos a grilheta com as mãos vencidas. Esvaído o instinto de solidariedade em que os povos se apoiam, não havia ideia cívica nem comunhão afectiva por cujo meio se retemperasse o reservatório de energias que se chama a alma de uma raça. São os Mortos que lhe alimentam a química incessante. Subtraídos pela adaptação desabusada de uma quimera estrangeira à riqueza sem conto do nosso determinismo orgânico, aceitava-se que nos esfarelássemos aos poucos, como um punhado de átomos que se extraviaram de toda a força centrípeta.
Aqui está o ambiente em que os obreiros três vezes abençoados da nossa redenção moirejavam de noite e dia, sem um desalento nem um cansaço. A etnografia confirmava as inculcas da pré-história. Juntavam-se os informes antropológicos à seara recolhida no adagiário e no cancioneiro. Os materiais acumulados subiam cada vez mais. A construção competia à camada que sucedesse a esses homens de boa-vontade nos destinos obscurecidos da gleba. Jaziam alisadas as pedras, rasgados os caboucos. Não se precisava senão de avivar os antigos alicerces – de seguir o traçado do solar destruído da Grei. Haviam-no posto a descoberto folcloristas e arqueólogos. E com pujança vingadora o Luso surgia das locubrações eruditas como um valor inassimilável e vivaz. Louvores a Deus que já [p. 147] vozes de eleição nos diziam povo desde o princípio! Não nos desgarrara o acaso da incorporação natural no planalto castelhano. Fôra o Luso – fôra o pequeno dolicóide, de sempre inconfundível com o ibero, a ponto de Silius Italicus na Púnica lhe assinalar já a eterna divortia!
A reabilitação da Raça obrigava à reabilitação das instituições em que o génio dela secularmente se exprimira. Curioso é mencionar agora um fenómeno interessante da psicologia do tempo. Os homens da Portugália e da Revista Lusitana declaravam-se em maioria republicanos. Ia em semelhante atitude o protesto do seu nacionalismo contra os atropelos quotidianos em que o sofisma constitucional ludibriava as direcções mais queridas do País. Regidos pelo tropeço intelectualista do Progresso-Indefinido, aclamavam a República como uma forma de governo superior e como a mais conforme à aptidão comunitária do nosso arreigado sentimento concelhio. Apaixonara-os o caso esporádico da Suíça, na qual, em lugar de uma sobrevivência arcaica justificada pelo regime cantonalista que a montanha impõe, se apostavam em reverenciar, de coração entusiasmado, um tipo perfeito de governo – o mais perfeito dos modelos sociais. Não podendo, por ser cedo ainda, sobreporem-se à época que lhes imprimira feição mental, explica-se bem que não se libertassem das prevenções revolucionárias, de modo a ganharem aquela plenitude de vistas que lhes ensinaria a encarar a Monarquia não só como um sistema político mais racional e mais lógico, mas ainda como o único agente possível do federalismo municipal que tanto lhes sabia merecer. É deles que deriva o equívoco nacionalista que em torno da República se teceu, preparando-lhe as caminhadas dificultosas. Não se carece de mais nada para se medir o vácuo em que Portugal se insensibilizava, transviado de toda a doutrina guiadora.
Quando os elementos positivos assim se dis persavam atrás de névoas sem valia, já se imagina como as camadas restantes, ou se degradavam no [p. 148] obscurecimento, ou seguiam direitas à desnacionalização, desajudadas de uma regra que as mantivesse na posse inspiradora de um destino. Sofriam-se as consequências da péssima aventura liberal. Na ficção desmascarada da Carta o que existia em essência não passava do disfarce de quantos teorismos Benjamin Constant e Jeremias Bentham tinham inventado para vulgarizarem mundo além os mandamentos da cartilha parlamentarista. A inteligência protestante, repito, assenhoreava-se de nós. Não se substitui ao determinismo de uma raça a formação hereditária de outro povo. Essa imprudência experimentámo-la nós, abrindo os braços à metafísica estouvada do Contrato. O «livre-exame» caía-nos em cima – dentro de pouco oscilavam as certezas tradicionais de Nacionalidade. De aonde a sensação de catástrofe em que Portugal se oprimia, porque, em desprezo pelo temperamento inviolável da Grei e sem respeito pelas aquisições da cultura autóctone, se escravizava a Pátria com a tutela de uma utopia sem eira nem beira, vagabunda de todas as estradas, pior que o bafo da peste que anda de noite e caminha às cegas. Administrados como uma fazenda arrendada de que se extrai o proveito, sem se cuidar da conservação, não admira que rodássemos para a vala comum numa morte miserável, a que não se consagraria nem o luxo modesto de um epitáfio.
Pois o mal que nos roía, a hoste sincera da Portugália – em que Rocha Peixoto assumira posições de arauto – o considerava, não como uma endemia própria de tal liberdade dos Imortais-Princípios, mas como o resultado dos raros resíduos autoritários que o Trono porventura entre nós representava. Entende-se já porque Ricardo Severo, no opúsculo As origens da nacionalidade portuguesa, se enche de pasmo por Oliveira Martins reclamar uma monarquia de «poder-pessoal», para acudir à crise em que a Pátria parecia perder-se. É que o embuste democrático fizera escurecer o significado às coisas. Ignorava-se a função específica da Realeza, mostrando-se em toda a parte como um ponderador de classes, [p. 149] ao passo que as situações de sufrágio correspondem inalteravelmente ao predomínio cerrado de uma casta. Por que é que as suseranias feudais se insurreccionavam a cada instante, procurando abater o prestígio monárquico, e as Comunas acudiam de pronto para o manterem com vigor?
Em Roma a república é aristocrática, detendo-se o mando na esfera exclusiva do patriciado, que é quem monopoliza os cargos e usufrui o ager. O Príncipe assoma, trazido aos ombros da plebe. O cesarismo é, como primeiro passo para a chefia hereditária, de natureza meramente popular. O mesmo acontece na actualidade com as chamadas democracias políticas. Ontem seriam os barões mediévicos, utilizando sofregamente a gleba mais o suor do adscrito miserável. São hoje os barões da Finança com o plutocratismo comendo as pequenas iniciativas privadas e abandonando o artífice à dureza da Oferta-e-Procura, como um animal que se explora sem escrúpulos.
A Realeza se instituiu em tempos pela liga das vilas livres para que, soberana a todos os interesses e confundido o interesse do seu interesse com o interesse geral do grupo, se aplanassem as desproporções sociais pela redução ao âmbito próprio da actividade de cada um dos vários egoísmos colectivos, de que o agregado se compunha. Debilitadas pelo defeito de nascença que as coloca à mercê de quem dispuzer de mais votos, podem as democracias hodiernas limitar os excessos do individualismo económico, constrangendo a um justo entendimento o Capital e a Produção?
Não, evidentemente.
São elucidativos os escândalos norte-americanos com os trusts dirigindo o parlamento por intermédio da camarilha secreta dos bosses, a ponto de o presidente Woodrow Wilson não achar resolução a um problema tão angustioso, senão apelando para o poder-pessoal pelo exercício forte da prerrogativa de veto que a Constituição reconhece ao chefe do Estado. Para se meditar é o caso sabido da França. O alcoolismo devasta as populações, fornecendo à [p. 150] delinquência e aos manicómios um número assustador de clientes. Solicitam-se medidas repressivas, reclama-se a intervenção enérgica dos poderes públicos. Pois para não se desgostarem certas potências eleitorais, tudo continua na mesma, para maior glória da Terceira República, bem na agonia, coitada!
Já em 1891 o governo de Washington se conservava silencioso perante a verdadeira guerra privada que se desenvolvera entre os grevistas das fundições de Homestead e os detectives Pinkerton, às ordens do senhor Carnegie, patrão todo-poderoso. O proletariado apercebe-se enfim do ilusionismo que o ludibria. A tendência autoritária dos sindicalistas franceses é bastante conhecida através da hipótese da Monarchie-Ouvrière, servida com tanto brilho por Georges Valois. É um dos mais incisivos doutrinários da economia radical, Edouard Berth, que no livro recentíssimo, Les méfaits des intellectuels, aceita francamente a solução monárquica, como único meio de expulsar das órbitas do Trabalho a gestão importuna e opressiva do Estado democrático. Foi a Revolução que gerou a moderna questão operária por abolir as corporações de artes e ofícios, em que o artífice se resguardava dos caprichos ferozes da Concorrência. O liberalismo tornou-o simplesmente um «cidadão». Por via da mentira declamatória do voto, derrancou-lhe as antigas molduras de defesa, insuflando-lhe o gosto desorganizador da paixão partidária. As consequências viram-se no desaforo crescente do feudalismo industrial. Não podem os regimes, apoiados na urna, realizar a apetecida equação social. Enfraquecidos pela sua fisiologia inferior, estão sempre nas mãos das grandes oligarquias financeiras e políticas, como já se disse. Na definição célebre de outro doutrinário sindicalista, Georges Sorel, são governos de classe contra as classes.
Não acontece já assim aos sistemas fixos, com a hereditariedade por fulcro resistente. O Rei não necessita dos votos de ninguém. O egoísmo dele coincide naturalmente com a utilidade colectiva. [p. 151] Por isso é que é soberano, visto representar em si a soberania dos diversos interesses em que o grupo se soma. A interpenetração pacífica e ordeira das classes atinge-se deste modo com normalidade, sem prevalências de castas, nem exclusivismos de classe. Mas será possível obter-se semelhante identificação nos governos parlamentares – ou mistos, ou democráticos? Decerto que não. O parlamentarismo, além de criar a instabilidade nas direcções superiores do Estado, traduz sempre o predomínio das conveniências de um bando sobre as conveniências sagradas do todo.
Ora eram as conclusões vigorosas da revisão pragmatista, a que se sujeitou de entrada o século corrente, que as boas vontades da Portugália e da Revista Lusitana, ignoravam. Não as esclareciam nem os ensinos fortes de um Le Bon, estabelecendo a demopsicologia como uma ciência certa, nem a verificação triunfante dos enunciados e reflexões do grande Le Play. Filhos do doirado diletantismo da era que findava na mais abominável das impotências edificadoras, se não gritaram um acto de fé que enchesse céus e terra, foram no entanto os anúncios de uma outra idade, em que a posse de um destino comum havia de restituir à dispersão das iniciativas o segredo obliterado da consciência da Pátria.
Na hora espessa da incerteza, é lá – a matéria-prima com tanto amor arrecadada – que nós, os rapazes desta geração, nos dirigimos, soltando um clamor unânime de esperança. Somos educados pelos mestres do pensamento culto no repúdio terminante das ideologias gregaristas. Toma-nos o respeito enlevado da Disciplina. E, encostados ao reconhecimento dos limites invencíveis que nos determinam, nós repelimos a Liberdade de maiúscula solene, para reabilitarmos as velhas liberdades de algum dia, em que a Região se bastava organicamente e a Profissão zelava com honra o seu proveito e a sua autonomia. Oh, as intituladas ideias avançadas, com o serem um luxo ensebado de [p. 152] caixeiro-viajante, são, meu Deus, o pior e o mais nefasto dos arcaísmos! Denunciêmo-las como um regresso à barbárie, mais ainda – como a volta à noite ínfima das origens. Temos por nós o positivismo da época que, sem prevenções sectárias nem atitudes antecipadas de escola, orienta hoje as luzes da inteligência como uma regra segura de acção. Reaccionários? Riamos a risada franca dos heróis, levantando do erro das massas a significação elevada da palavra. Reacionários – sim, e com desassombro!
Reaccionários, interpretando o reaccionismo biológico de um agregado que sofre a violação insensata das condições primordiais da sua existência. Esclarecem-nos contra os ataques pomposos da superstição racionalista, de uma parte, a crítica imortal de Bergson ao mecanicismo filosófico da Vida, da outra parte, os postulados definidos por René Quinton à face da mais minuciosa observação experimental. É o facto que nos inspira, unicamente o facto. Conduz-nos não a suposta excelência dos Princípios. É o inventário das realidades ambientes o motivo que intimamente nos delibera. Somos tradicionalistas. Mas ser tradicionalista não é encerrar-nos na contemplação saudosa do Passado. É antes reconhecer a contínua sucessão dinâmica em que a história se coordena entre si, efectuando a solidariedade dos Mortos com os Vivos, segundo a visão admirável dos melhores conceitos de Augusto Comte.
«Evolução» exprime «permanência». É a permanência que nós procuramos obter pela plenitude dada aos recursos contidos dentro do nosso determinismo. «Le devenir, avec son expression concrète dans le phénomène de l’évolution», declara Jules de Gaultier, «n’apparait plus que comme un moyen pour un éternel présent».(107) Entenda-se a diferença que vai do misoneísmo que retarda e obscurece à nossa compreensão prática da sociedade. Não é a placidez da água [p. 153] morta de um pântano que nós ambicionamos como mira final. As leis psicológicas do desenvolvimento dos povos assentam a variabilidade na estabilidade como senão primário de todo o bem. É à variabilidade na estabilidade que nós tendemos.
Como o indivíduo adulto no pleno desabrocho dos seus préstimos não cresce para além dos termos já traçados no embrião de que proveio, o mesmo ocorre com as nações, com as raças, com os povos. Zaratustra tirava a sua virtude da resignação heróica com que se submetia às restrições indomináveis da Existência. Aquele que se falseia e improvisa na demanda de quiméricos humanitarismos tomba na fraqueza ou na morte. O super-homem é o que melhor se sujeita para melhor se possuir. As forças da natureza não se comandam senão obedecendo-lhes. Eis o segredo do olimpismo soberano de um Goethe. É a harmonia da precária trajectória pessoal com a marcha invariável das almas e das coisas. A própria manobra da Vida conservando-se nos leva consigo, nos facilita a jornada. Erguer-nos em contradição connosco é um conflito eterno que nada amacia. Por que é que os governos revolucionários se fartam de encher as cadeias, de povoar os presídios, sem nunca derrotarem a hostilidade incoercível em que terminam por ser suplantados?
É que a resistência passiva que os abafa como uma máquina pneumática operando o vazio, não parte do querer circunscrito a um grupo mais ou menos numeroso de indivíduos – não é um plano de combate, delineado e assente em grémios oposicionistas. O espírito conservador não se nutre do descontentamento dos vivos. É o exército invencível dos Mortos que o perpetua e sustenta numa revivescência que nenhum despotismo da terra sufocará. São governos contra a natureza os governos revolucionários. Esbarram a cada hora no escolho em que hão-de naufragar, mais hoje mais amanhã, porque se apostam em julgar num materialismo grosseiro que são os corpos e não as almas – a alma-mater de uma Pátria – que combatem contra eles o combate surdo que não conhece nem tréguas [p. 154] nem compaixão. Ah, o Príncipe Perfeito, esgrimindo com os espectros nos forros do seu palácio, é bem o símbolo dessa loucura sem nome!
Portadores que somos do futuro de Portugal, assim nós olhamos os complexos problemas que rodeiam a salvação comum de uma série angustiosa de interrogações. Primeiro que o mais, é preciso que a Nacionalidade se sinta dona dos seus destinos com uma filosofia que a explique e a robusteça. Exposto, o Integralismo Lusitano aparece como a escola da vindoira consciência colectiva. As instituições de um país são a criação do seu génio. Tal é o mandamento a arvorar como primacial artigo da nossa fé. Segue-se-lhe o Valor da Raça como razão indiscutível de existência. Tão depressa se apaguem dos nossos olhos as duas verdades que estabelecemos, nem brio haverá para morrermos ao menos dignamente, cobrindo o rosto com a ponta da toga. Senhores de uma síntese tranquilizadora, a que concorreram com os subsídios de um honesto eruditismo, como é o dos nossos arqueólogos e folcloristas, as luzes mais insuspeitas da cultura hodierna, nós achamo-nos no nosso tempo, reconciliados com o que é natural e humano em sangue português.
O mal descende do esquecimento a que nos votámos, desprezivelmente. Já Simão Machado dizia na Comédia Alfeia que, mandando um ricaço pintar os costumes de quantas nações havia, o artista encarregado da obra «Pôs ao Português despido / Nas mãos uma peça de pano». Explicava de seguida o escritor, num remate conceituoso: «Em fim, que por natureza / E constelação do clima, / Esta nação portuguesa / O nada estrangeiro estima, / O muito dos seus despreza.»
[p. 155] É um traço anedótico que se presta a profunda meditação. Não vale com um motivo de cepticismo para os que o professam em abundância sobre a sorte e os merecimentos do País. Tome-se antes como um indício da larga desnacionalização provocada pela insânia das camadas dirigentes, em divórcio absoluto com a espontaneidade autóctone desde a hora nefasta da Renascença. Mas já não há direito para se consentir o equívoco! Bem alto elevámos o nosso brado pela civilização. Humanistas, demo-los doutíssimos ao intercâmbio intelectual de Quinhentos. Não nos ficáramos atrás dos outros povos europeus nos alvores do primeiro Renascimento. Santo António e Pedro Juliano, mais tarde João XXI, são luminares do pensamento mediévico. Sempre a nossa contribuição mundial excedeu a pequenês do nosso cantinho. Caímos em desgraça. Foi a cedência vergonhosa diante da invasão cosmopolita.
No entanto, não somos uma pátria morta, arrastando pelo poder da inércia a subsistência precaríssima dos seres subalternos. O que dormimos é o sono secular do Encoberto. Mas quando há lampejos de vida na nossa modorra, a Raça descobre-se magnífica, como que inspirada por um fim imortal. Falem as campanhas da Aclamação, fale a guerra santa contra os Franceses – que fale o Portugal concelhio de 1828! A nossa homogeneidade étnica nos dá a virtude indebelável da resistência. É o pequeno dolicóide, sobrevivo da Atlântida, criador da arte egeana, que nos reservatórios incansáveis da energia pátria elabora sem cessar o grande espírito de que o Luso se mostra condutor à hora espessa da crise. Voltemos à continuidade tradicional interrompida. E de pronto, com a reconstituição do seu meio próprio, a alma suprema da comunidade há-de ser connosco!
Não é um exagero literário a importância que eu confiro ao factor antropológico. Nem se suponha que uma raça homogénea significa para mim o rigor de uma raça pura. Eu considero aqui a raça no sentido histórico, embora com uma renovação constante desse tipo formado pelas circunstâncias do [p. 156] espaço e do tempo, que é o Lusitano – ou seja, o dolicocéfalo meão. Com as imiscuências posteriores, os caracteres somáticos podiam sofrer e sofreram alteração, efectivamente. Mas o que representava o conteúdo psíquico do nosso homem aborígene prevaleceu acima de tudo, imprimindo-nos a unidade moral e afectiva, sem a qual a Pátria nunca a veríamos possível.
Corra-se em escorço a jornada da Nacionalidade. Mais uma vez, num esquema breve, se demonstrará a natureza do nosso determinismo. É em Mugem que o mais remontado avô dos portugueses se manifesta com evidência, afiançando-nos um sedentarismo instintivo que já se praticava com aferro, ainda a agricultura se não sabia bem aonde vinha. Eu não aludo à hipótese tentadora que nos contorna o habitante arcaico dos vales do Tejo e Sado, surgindo do solo, como produto nato, mal teriam cessado as comoções geognósticas que estabilizaram aquela parte do nosso território. Assim quase que nasceria o torrão amorável de Portugal de envolta com a criatura que o havia de povoar e de lhe ganhar um nome. É bela, sem dúvida, a teoria, toda cheia das melhores sugestões para o ocidentalismo apenas na infância. Não a utilizamos, contudo. Aceitem-se tão-somente as pesquisas do malogrado Paula e Oliveira quando nos informa da aptidão sedentária do íncola mesolítico de Mugem.
«No alvor do conhecimento e por essa sociabilidade pacífica que o sedentarismo facilmente engendrava – consinta-se que eu me transcreva(108) – depressa o avô recuado enterrou os seus mortos. Enterrando-os, mais um vínculo o prendia e o fixava. É que a inumação antecede entre nós os ritos incineratórios, de proveniência estranha, e toma-se como um dos sinais específicos das arredadas gentes que para estas partes se insulavam. Sobre o depósito mortuário assentaria a lareira dos vivos: o fogo, [p. 157] que veio a consagrar-se como sinónimo de família, e se acendia em cima do loguo, em que os antepassados repousavam. O encadeamento das gerações pela subordinação dos sobreviventes ao culto ancestral manifesta-se de entrada. A necrolatria, eregindo os dólmenes e tornando-se a regra espiritual de uma colectividade em início, ao tempo em que promovia a coesão autoritária, dava simultaneamente o sentimento de uma mesma promanação. Pelo oculto poder do sangue a unidade gentilícia se entrançava. O direito de cidade e o equilíbrio da comunidade vieram de seguida, por via do contacto quotidiano em que o elementar instinto de vizinhança se fora acordando.
» Aferrada ao chão que lhe engolia os filhos depois de os haver gerado, a raça de Mugem – assim etiquetada hoje nos recintos científicos –, com o desenrolar das solicitações vitais, não se entregou à pastorícia própria tão-somente dos grupos turbulentos e erráticos. O atavismo, que a acolchetava ao solo fecundo donde brotara, a aquecia na religiosidade branda das coisas naturais – bem cedo lhe conferiu a pendência para o ruralismo produtivo e amorável da gleba. Como derivante, as comunidades agrárias se entreteceram, originando o nódulo populacional que o romano nomeará vicas e que era um modo de ser inerente ao H.-Atlanticus, como se comprova, por exemplo, pela djemâa berbere, de aproximada organização igualitária, mas centralizada sob uma forte chefia religiosa. A nossa aldeia paleo-histórica, deduzida da longínqua faculdade sedentária que os cortes da bacia do Tejo e Sado nos participaram, apoiando-se na colectivização da terra para os efeitos da cultura, possuía idêntico hífen hierárquico em virtude da norma teocrática que a necrolatria necessariamente lhe impunha.
» O regulamento interno do grupo pode abonar-se, em referência à azáfama e à colheita, com a notação conservada nos viajantes clássicos acerca dos vaccei que habitavam a concha do Douro. Todos os anos se partilhava o solo arável, sendo [p. 158] distribuído em quinhões iguais o produto da racolta. É o processo certamente usado nos demais aglomerados agrícolas que, na subida diferenciadora para outro estádio, alcançam a forma urbana nas citânias ou cividades que pegaram a erriçar os cômoros do norte aí pelos intróitos da proto-história.» «Assim – continuo eu –, cada citânia constitui o centro de uma mancomunidade agrária com o laço gentilício por fivelão. Asseverava as predilecções localistas da estirpe autóctone e, pelo particularismo incisivo que a exprimia, cada citânia importava uma unidade populacional, um populus. Quantas cividades, quantos populi – contariam os romanos ao depois. A autoridade acabou por se resumir num maioral – o Carnal das inscrições de Briteiros, assistido por uma ordem de anciãos, ou notáveis, como se infere dos toscos assentos de pedra que lá se exumaram na casa-tipo. E desta maneira afirmado o sedentarismo ingénito do nosso indígena primevo, acompanhando o desenvolvimento da agricultura, atingia as linhas rudimentares de um cantonalismo autonómico em que se adivinha já o embrião da pátria vindoira.
» No conselho dos magnates, deliberando sobre usos, repartição do agro, contendas pessoais, etc., insere-se, na verdade, o germo valiosíssimo de que provém o Município. Daí, por uma ascensão maior, já em mais larga esfera de sociabilidade, derivariam essas antigas Cortes-Gerais da Monarquia tradicional da Raça, cooperando com o Rei na marcha e na direcção dos mais graves negócios públicos. O Rei é já palpitado pela célula autoritária que é o Camal de Briteiros.» E quem se recorda do folheto notabilíssimo de Rocha Peixoto – Survivances du régime communautaire en Portugal,(109) não se esqueceu decerto dos «homens-do-acordo» e dos «seis-da-fala», que nas freguesias de além-Douro presidem à divisão em lotes do terreno comum. É uma reminiscência preciosa que [p. 159] nos entremostra as origens agrárias do Município. A Pátria não é senão o alargamento da região que por si já representava uma liga de concelhos, mais ou menos ensaiada nos medianidos de algum dia. Pois os homens do acordo tanto são os ascendentes dos magistrados camarários, administrando justiça a vila e termo na sua qualidade de homens-bons, como os dos velhos procuradores dos povos, respondendo às consultas do Rei com o parecer honrado da Nação. Vêm do mesmo tronco, são parentes chegados. É sempre a aptidão sedent ria de Mugem, crescendo para a plenitude máxima dos seus préstimos e ensinando-nos paralelamente o sentido rigoroso da Evolução.
Os fundamentos foraleiros da Nacionalidade ainda nós os verificamos, sem recorrer a códices nem a cronicões, nos vestígios consuetudinários da gente da Montanha. A Portugália publicou alguns diplomas de paróquias do Gerês em que se regulam de séculos as práticas empregadas na partilha dos pastos e das geiras.(110) Ora, conquanto os eruditismos oficiais entendam as mais das vezes o Município como uma deixa de Roma, é aí que nós, tendo como um artigo de fé a existência de uma civilização lusitanista, lhe perguntamos as entranhadas raízes, que, se fossem de importação, jamais pegariam tão bem na parte mais íntima e mais incomunicável da Grei. Vem em nosso socorro o ilustre publicista espanhol D. Joaquín Costa. Ainda que dominado pelo preconceito ariano, é um testemunho invencível o que nos fornece no seu livro El Colectivismo Agrario en España. Segundo a filologia, a palavra vereador é derivada de vara, terra comum, com uma ascendência indo-europeia, que o sânscrito acusa no termo vor e que se repete nas línguas e dialectos afins, como Where em neerlandês, Were em alemão, Vara em asturiano.
» De modo que o vocábulo espanhol de que estou tratando», resume D. Joaquín Costa, «denotaria o campo no sentido de cercado e vedado, ou de [p. 160] couto, que cada um toma ad libitum, como em Aragão, ou que lhe era designado, conforme um método regular, pelo conselho ou pelos seus delegados, como entre os Waceos.» Claro que a suposta precedência euro-índica se volve pelas rectificações da arqueologia em atlântica, ou oeste-europeia. E com os nossos vereadores, repartindo em sessão os farrapos de coutadas ou baldios que houvessem por ventura escapado à insânia desamortizadora, nós vemos repetir-se o costume milenário do pequeno dolicóide – como outrora em Briteiros o Carnal, rodeados dos próceres, presidia à partilha do agro. Não se precisa mais para se patentearem como filhas do feitio rural da Raça as nossas instituições municipais que tão bem nos interpretaram sempre o génio.
Circunscrevera-se de princípio o localismo ferrenho do autóctone ao aro limitado da citânia. Gastava-se em rixas sangrentas de vizinhos, quando o romano assomou. As exigências da defesa obrigam-no então a uma tentativa séria de federalismo guerreiro. Saem dos apertos do momento as arimanias ou germanias, que são ligas ou tratados de cividades limítrofes para o efeito de se unirem na expulsão do inimigo. A citânia transborda-se. Atinge uma fase imediata o germe de Mugem. Já há chefes militares que de gens para gens deliberam em soberanos, embora com um evidente carácter temporário. O Carnal não é já só um juiz eleito. É também um cabecilha empenachado que dispõe por si de todas as resoluções e ordena, sem consulta dos notáveis, a marcha da batalha e a sorte do populus. A célula autoritária transpusera o círculo primitivo, igualmente a caminho da sua maior amplitude.
Vencido o Lusitano, Roma o constrangeria a um entendimento permanente de relações, fazendo-o obedecer ao pesado aparelho administrativo e fiscal com que a ocupação careceu de se organizar. Consagra-se pelas necessidades tributárias o núcleo espontâneo da citânia no magistrado do Império que se lhe coloca à frente. E como destaca da massa geral dos submetidos uma classe em quem [p. 161] deposita o governo local, nos compita e nos conventi pablici vicinorum define juridicamente o Município, o qual não era, pelo visto, um mimo dos estatutos do Lácio, mas uma criação natural da nossa alma colectiva.
Sabe-se já que são esses centros vivazes de população que não permitem ao sarraceno que passe para lá do Douro e lhe acidentam o domínio nas cidades do oeste com rebeliões constantes. Resguardando-se de misturas que lhe comprometeriam a homogeneidade, o Luso, confundido com os despojos das invasões, reanima-se, ressurge intacto, onde a Reconquista aparece a restabelecer os moldes próprios da Raça. Pelo poder das sociedades agrárias em que por índole se emoldurava, resistira ao flagelo bárbaro, ganhara força perante o arremesso devastador da onda gótica. Dá-lhe essa força o alastramento da religião cristã que encontra no feitio íntimo do indígena um terreno bem preparado. O conceito germânico da autoridade baseava-se na posse, constituia-o um princípio de ordem meramente territorial. Permanecendo em «banda», o homem loiro usurpador não pôde desfibrar as raízes invencíveis do autóctone. Nos esforços empenhados para uma expoliação completa é que a Igreja se alevanta nos concílios toledanos a defender o direito sagrado da terra. O carácter belicoso da monarquia goda abranda-se. Deixa-se então penetrar pelas altas influências morais em que se adivinham já os fundamentos futuros da concepção política de São Tomás. «E se alguns deles for cruel contra os seus povos, por braveza e por cobiça ou por avareza sejam excomungados.»
A palavra eclesiástica protege as agremiações indígenas da Península contra a sapata de ferro do bárbaro conquistador. São essas mesmas agremiações que impossibilitam a vitória do feudalismo entre nós. O feudalismo teve lá fora uma vasta missão de carácter social. É ele que organiza as nacionalidades surgidas dos escombros do mundo romano. Mas o motivo que assim o torna um agente de coordenação colectiva é a razão porque [p. 162] em Portugal não pôde nunca vingar. A sociedade aqui estava naturalmente formada. As behetrias representam o tecido estrutural da Pátria que vai erguer-se tão depressa elejam um príncipe como seu regedor vitalício. A tentativa do barão leonês aborta por isso nos seus propósitos de arrogância senhorial, porque, em vez de um meio disperso e enfraquecido, há já um povo com existência sua, traduzido em órgãos conformes à natureza histórica da Raça.
É no Minho que lateja a lareira anónima da Pátria. O cavaleiro neogótico arremete furiosamente, embrulha moiros e cristãos, quer campar em dono de todos e de tudo. Chega a altura em que o embrião de Mugem se exterioriza nas feições definitivas. Do sedentarismo apreciado no vale do Tejo à citânia de além-Douro, das cividades da proto-história às arimanias, significadas em Viriato, das arimanias ao Reino, passando pelo Município, pela vila e pela behetria, eis como Portugal irrompe para a vida, tirado das entranhas do próprio solo, se é certa a hipótese sorridente que envolve nos negrumes da mesma origem o território da Pátria e o seu habitante primeiro!
Completa a gestação trabalhosa do organismo, o Carnal de Briteiros e o Viriato da Guerra dos Ladrões atingem simultaneamente a expressão última e decisiva. O Rei descobre-se como magistrado perpétuo, de juro e herdade, das behetrias reunidas em assembleia para o aclamarem. Os foros paroquiais do Gerês entremostram-nos a índole pactual da nossa Monarquia. O que ali se consigna para os filhotes da freguesia consigna-se nos forais mediévicos em relação a uma esfera maior e mais complexa de sociablidade. A formação política do País opera-se assim, federativamente, de baixo para cima. É o pequeno dolicóide que o leva com pachorra, de grau em grau, até às cumeadas de uma consciência una. O H.-Atlanticus afiança-se ainda uma vez mais como portador da sua energia construtiva. O localismo que o enxadrezara outrora em aldeia sob o intenso laço moral [p. 163] que é o culto dos Mortos, comportava consigo todas as qualidades afloradas depois. A citânia era uma criação do nosso dolicocéfalo. Uma associação de cividades constituiu a behetria, que é o estádio seguinte, com fundamento na comunidade amigável da terra. Pois, mais ou menos figurada a citânia na djemâa berbere, não se encontra lá a behetria na anaia e no cof...? São sempre os restos da admirável civilização ocidental, sumida entre ruínas com o advento do indivíduo loiro de Hallstatt.
Compreende-se agora como o particularismo concelhio é por toda a nossa história o «meio-vital» da Nacionalidade. Vale para nós como o melhor dos seus vasos constitucionais. É o elemento estático que a mantém de pé e lhe prepara as reservas com que Portugal se socorre à hora da crise. Busquemos o correspondente factor dinâmico. É na Raça que ele se nos depara. Dissera eu que, encarecendo o valor do Luso, não me subalternizava, no entanto, à miragem antropológica de um tipo puro, embora tenha como condição primordial da Pátria a nossa homogeneidade étnica. Sem dúvida que nos atravessaram mesclas contraditórias. Até o desfalecimento de um País que canta o Fado e se afunda aos poucos, como os bailarins da lenda de pavor, numa córea sem fim, eu o atribuo à grande dosagem de nigerismo que nos avaria as veias. Mas porque fomos Pátria, é porque possuíamos alma colectiva, na qual se estratificaram os nossos motivos de viver, como que dispostos em roda de um forte núcleo gerador. O Lusismo é esse núcleo originário que inspira os nossos oito séculos de portugueses, que são outros tantos séculos de Esperança. Enquanto o Luso dominou as direcções das camadas superiores, a Nação tirou-se de dentro de si, dirigindo-se por sua conta. A desgraça começa quando se olvidam as determinantes do substractum ancestral.
Já fica dito que na nossa população, além do fundo autóctone, representado pelo dolicóide de Mugem, se apuram braquicéfalos pertencentes à costela alpina, dolicocéfalos da estirpe dos [p. 164] Reihengruber, e aqui e acolá sensíveis manchas semitas, de aquisição variada, tanto pelo que respeita à época como às fontes. Contudo, na antropologia do nosso continente, a gente portuguesa acusa-se como a mais conforme nos seus caracteres somáticos, que, reduzidos ao padrão dominante, são os do indígena de Mugem, com as alterações introduzidas no talhe pelo troglodita de La Vezére. Verifica-se, pois, fisicamente a homogeneidade significativa da Raça. E por muitos que sejam os cruzamentos e as mestiçagens padecidas, não nos admiremos de que o Luso permanecesse intacto. Os mais antigos túmulos do Egipto, velhos de sete mil anos e mais, revelam-nos nos despojos osteológicos que contêm a presença de uma etnia que é nas suas variações a étnia de ainda agora.(111) Em França pode subir-se até ao período solutreano sem que se nos apresentem etnias diversas das que figuram na tábua genealógica do francês contemporâneo. «Les hérédités contradictoires», explica Vacher de Lapouge, «sont en lutte dans chaque élément de l’organisme, jusqu’au moment où celui-ci prend sa forme définitive, et où le choix de l’influence ancestrale est fait pour chaque cellule.»(112) A característica fisiológica subsiste trabalhando para se restaurar tão cedo se lhe ofereça a ocasião propícia. «Cette occasion résulte facilemente de ce fait physiologigue que les combinaisons théoriquement possibles des éléments héréditaires sont presque infinies, mais que celles comportant un équilibre compatible avec la vie ne sont pas très nombreuses».(113) É Vacher de Lapouge que continua. E Sutton estabelece-nos a fórmula das combinações realizadas em cada célula aproximadamente pelos cromossomas. Sendo eles no homem em número de 24, a diferença das origens e das posições autoriza-nos a presumir 16.777.216 possibilidades.
Prosigamos com Vacher de Lapouge. «Pendant toute la période de prolifération cellulaire, depuis l’oeuf [p. 165] fécondé jusqu’à la production de la dernière cellule de l’organisme, l’option se fait, à chaque fois, au bénéfice d’une combinaison sur près de dix sept millions. Il semblerait que l’on dut arriver à une telle pulvérisation des races que leur mélange peut-être du premier coup homogène, et les individus indiscernables. Il n’en est rien, et sur le nombre infiniment grand des germes, il n’en survit que quelques-uns, dans lesquels se sont réalisées les conditions d’équilibre les plus favorables. Ces conditions d’équilibre, dont la meilleure est la normale d’une race fixée, sont l’objet à chaque génération d’une nouvelle sélection, jusqu’au retour final...» [Ao longo de todo o período de proliferação celular, desde o óvulo fecundado até à produção da última célula do organismo, a opção é feita, de cada vez, em benefício de uma combinação entre quase dezassete milhões. Parece que se deve ter chegado a uma tal pulverização das raças que a sua mistura pode ser homogénea à primeira vista, e os indivíduos indistinguíveis. Este não é o caso, e, do número infinitamente grande de germes, apenas alguns sobrevivem, nos quais as condições de equilíbrio mais favoráveis foram alcançadas. Estas condições de equilíbrio, a melhor das quais é a normal de uma dada raça, são objecto de uma nova selecção a cada geração, até ao regresso final...Ora o retour final de Vacher de Lapouge é o regresso a um tipo primitivo e único, de seguida à neutralização de quantos atavismos hereditários nos perturbem.(114)
Por um tão complicado fenómeno biológico nós percebemos enfim como é que as raças aturam e não se extinguem. É a incessante química renovadora em que o Luso se retempera. Funciona com mais alcance nos centros naturais de população que o Município significa, porque é aí, pelo secular enraízamento ao solo, que as influências contraditórias da hereditariedade são menos fortes e menos pesadas. Explica-se deste modo a razão étnica em que a história portuguesa se repousa. É acreditarmos nela, erguendo-a como o artigo principal da nossa fé de povo. Olhemos atrás – à enormidade do caminho andado. É o milagre da nossa pequenês recebendo uma luz imprevista. Nunca mais o negativismo dos outros se extenuará em nos cortar a torto e a direito, como sobre um cadáver hospitalar. Restituído à colectividade o senso da sua vocação, um novo horizonte, todo ensoalhado, se nos rasga para além daquele que hoje nos custa como um pesadelo. Eu lembro que a Alemanha moderna agradece o que é à cruzada de um Stein e de um Mommsen. Ao historiador em Portugal pertence a chefia do ressurgimento – mas ao historiador que tenha feito exame de consciência e que [p. 166] não procure extrair do Passado a lição que serve apenas às conveniências sectárias dos bandos. Praticar-se assim a história é acender a guerra civil – lá dizia o ilustre Fustel de Coulanges. É precisamente de reconciliação que nós necessitamos. E jamais ela se obterá, se a ideia da Pátria não sobrepujar, no contorno viril da sua fisionomia centenária, as prevenções e os equívocos que nos dividem e trazem de noite e dia num conflito que é sincero em muitas boas-vontades – mal aproveitadas, infelizmente.
Estamos de posse de uma civilização, da civilização lusitana. Já não há direito para se perguntar se somos uma raça, quais são os nossos títulos de independência. Descem eles do íntimo das idades. Não foi o Acaso que nos confeccionou de afogadilho, como que para acudir à pressa da encomenda. Não nos cabe, por consequência, a sorte inglória dos que nasceram enjeitados e se abastecem à custa das ocasiões perdidas. Temos um alvo. Para lá se chegar, nós, e só nós, é que rompemos a estrada.
Em frente de Castela alcemos como o pavilhão mais belo do nosso separatismo a disposição de natureza que levava, de um lado, os Lusitanos a permanecerem inassimiláveis, e, do outro, os Iberos a confundirem-se com os Celtas, depois de combates preliminares. Enquanto o nosso dolicóide enterra os seus mortos, o Ibero abandona os dele à devastação das aves de rapina. Ora aqui está um traço psicológico que nos distingue uns dos outros para sempre. O Ibero, descendente de massas ambulantes, nutre-se da pastorícia e vai arrebanhando o que pode durante a passagem. Se alguma coisa se conta na Espanha que se aparente ao Lusitano é o enigma basco. Também os Cântabros resistem pelo lirismo da Esperança. Houve uma sibila que lhes prometeu um salvador no futuro. Pregados na cruz pelos inimigos vencedores, insultavam-nos com fereza até morrer, entoando em coro os seus hinos de guerra. É a fidestradicional dos Lusitanos que acompanhavam na morte os chefes [p. 167] jurados. Tudo mais o que a Ibéria nos manifesta em face da Lusitânia é a diferença, o antagonismo. Silius Italicus soube assignalá-lo com a eterna divortia da Púnica. «A actividade comercial entre os povos do sudoeste da Hespanha e a Inglaterra, que o périplo do século VI acentua (Avieno, Ora Marítima, 118-14), contrasta singularmente com a ausência quase completa de relações entre os pri meiros e os povos da costa oriental da península – repara Martins Sarmento. Dir-se-ia que a gente das duas regiões nem se entende, nem se quer entender.(115)
É sempre a mesma irredutibilidade que a filologia por outra parte nos confessa, aduzindo à nossa causa um depoimento interessantíssimo. O português e o espanhol têm, cada um de seu modo, uma aversão arreigada por certas combinações de vogais e consoantes. «Esta diversidade fonético-acústica é baseada sobre uma diversidade fisiológica» – declara Schleicher, citado por Teófilo.(116) É que, enquanto nós entroncamos no H.-Atlanticus, recolhendo dessa linhagem a prova magnífica de uma cultura que subiu ao assombro nas ribas azulinas do Egeu, o Ibero vinha de filiações desencontradas, difíceis de se interpenetrarem num carácter uniforme e autónomo. Sem dúvida que o braquicéfalo etiquetado presentemente por H.-Alpinus ocupa uma situação de destaque na árvore-de-geração dos nossos vizinhos. Mas contemos com mais ainda. E são as possíveis transfusões asiáticas que lhes adviriam do shumero-acadiano imigrante.
Por várias que sejam as etimologias da palavra ibero, eu aceito como a mais harmónica com as indicações da arqueologia aquela que A. de Paniagua nos aponta: «i, artigo aglutinador, e bar, br, que em sânscrito exprime tanto como amercadejar andando».(117) Ibero era, portanto, o mesmo que «[p. 168] vendedor vagabundo», o que nos recorda o shamanismo traficante de amuletos, tão próprio do acad, com os seus gosto teocráticos apanhados na Caldeia, de onde proviera. Estrabão menciona uma Ibéria junto do Cáucaso. Pelas portelas setentrionais da Europa penetraria o êxodo em que a Índia dravidiana se fez talvez representar com influência.
O turbilhão atrairia no trajecto a massa hiperbórea, ou cítica, que morava perto da Ursa, nas altas regiões geladas. Num cortejo de bruxos, o misterioso invasor se adiantara com demoras sacerdotais até junto das gargantas pirenaicas. Topando na viagem os rebanhos pacíficos do braquióide alpino, conferiu-lhes pela unidade religiosa a discipina social que lhes faltava. E quando penetram na Península vêm em tom hostil, submetendo – quem sabe? – outras populações, do mesmo tronco que o H.-Atlanticus. A Ibéria do Cáucaso é uma lembrança viva das tribos dessa migração que por lá estacionariam. E com a chegada do indivíduo de cabeça globulosa relaciona-se provavelmente a reminiscência conservada nos textos antigos acerca de um povo fugido de Espanha – os Sicanos –, que se estabeleceria na Sicília.(118) Não será o indício da deslocação provocada nas camadas aborígenes pelo aparecimento do Ibero?
Ao Ibero se ajuntaria um outro êxodo, vindo pela costa de África, com caminhada larga pelo sul do Egipto. Com esse êxodo, saído também da Mesopotâmia, se prende sem sombras de engano a tradição, conservada em Salústio acerca da fundação de Utica e mesmo de Cartago. Assenta-se numa era inverificável – o duodécimo século antes de Cristo. O que, porém, é certo é que numerosos grupos semitas se precipitaram em tempos remotos na imensidade da Líbia, crescendo ao depois para as Sirtes e tomando poiso na Bizancena. Inspirada em fontes judaicas, a mentalidade dos primeiros tempos cristãos pretendeu ver num tal aglomerado de gentes errantes os cananeus expulsos [p. 169] da Terra da Promissão por Israel vitorioso. Segundo Maspero, o analista Procópio testemunha que na Numídia, junto a uma grande fonte, se encontravam duas estelas de pedra com uma inscrição fenícia que rezava: «Nós somos os que fugiram de Josué, filho de Nané.»(119)
É este outro ramo que, passado à Península, contribuiu com decisão para elevar o braquicéfalo ocupador às condições de força absorvente. As simpatias de ambos os elementos pela confusão étnica confirma-se mais recentemente pela aliança dos Iberos e dos Celtas, dando lugar à nação celtibérica. O homem loiro de Hallstatt transmitiu-lhe falhas de temperamento que, adicionadas ao substractum acadeano, não consentiram nunca ao génio espanhol outra feição que não fosse a do misticismo excessivo e terrífico, ou então a do alucinado impulso imperialista que esgota e é sempre um arremesso negativo, escurecendo lastimavelmente na loucura do bom cavaleiro manchego. Faltam ao nosso vizinho o senso da Medida e o amor da Proporção que tanto individualizam no pendor oceânico o pequeno dolicóide, em nada parecido, em tudo divergente.
Em vesânias de domínio se perpetua o castelhanismo, seco e unilateralista, tão duro, tão áspero como o planalto em que montou a sua tenda. Comparem-se os nossos heróis da Índia com a brutalidade dos Cortezes e dos Pizarros. A aventura ultramarina divide bem a psicologia dos dois povos, já tão divididos pela disposição natural que entre os Lusitanos enterrava os mortos e que entre os Iberos os abandonava às aves de rapina. «E prima ainda», observa o escritor brasileiro Pereira da Silva, «uma distinção notável entre as duas nações conquistadoras: se aparece entre os Portugueses um Maciel Parente ou Pedro Coelho, que praticam arbitrariedades contra os Brasis do Norte, castiga-os a Coroa, e não passam eles de uma quase imperceptível excepção na ordem dos chefes [p. 170]portugueses; enquanto que inventam os Castelhanos os mais descomunais suplícios para se alagarem no sangue dos Americanos, e extinguir-lhes a raça, não lhes bastando as caçadas por meio de cães de fila, e o extermínio no meio e fora dos combates. Diversa é a história da conquista do Brasil, das colónias do Peru, da Colômbia, do México, do Chile, e de Guatemala, onde quase nenhum efeito produziram as fulminações de Las Casas.»(120)
O sentimento da realidade é a linha preponderante da nossa idiossincrasia. O castelhano padece, pelo contrário, da hipertrofia sem remissão de D. Quixote. A este o cura teve de lhe queimar a livraria. Projectava no mundo exterior os delírios da sua imaginação em febre. Nós não lemos ainda tanto que houvéssemos de tresler! Tirante o caso desse retórico impenitente que foi D. João de Castro, os aventureiros da Índia falam da honra e beijam a cruz da espada no meio das piratarias, mas não discursam, não se procuram modelos – praguejam antes, descompostos como marujos, tal como António da Silveira no cerco de Diu. Então os nossos santos, como são bem outros dos santos castelhanos! Santo António prega, ensina, reforma, converte – pertence à Igreja Militante, é o São Paulo do franciscanismo nascente. São João de Deus ordena hospícios, cura doentes, recolhe desvalidos. No apostolado há D. Frei Bartolomeu dos Mártires, há o padre Anchieta, há o beato João de Brito. Lá mais largo, que figura de vontade não fôra São Dâmaso bracarense! É activo o nosso misticismo, ao passo que o de Espanha, com espíritos excelsos, como Santa Teresa, São João da Cruz, João de Ávila, Frei Luís de León – é mais interior, é mais ascese, mais castelo-da-alma, com o êxtase por pão de alimento. Exceptuam-se, é facto, os grandes santos jesuítas, Santo Inácio de Loyola e São [p. 171] Francisco Xavier. Mas o costado vasconço não lhes daria mais de atlântico que de ibérico?
Outro predicado distingue em absoluto o Luso do Ibero. É a amorosidade do temperamento, crescendo tanto para as exaltações messiânicas da Esperança, como para as delicadezas emocionais da Saudade, que é a gran coyta do coraçon, em que os nossos cancioneiros florescem ainda agora como na hora primeira. «O ideal poético do castelhano medieval vivia menos de finezas líricas, do que da guerra e da religião:
«Ferid los, cavalleros, por amor de caridad!
>
Yo só Rui Diaz, el Cid campeador de Biuar!»
>
«Todos fieren enel az do está Pero Vermuez.
>
Trezientas lanças son, todas tienên pendones ;
>
Senos Moros matáron, todos de sefíos colpes ;
>
Ala tornada que fazen otros tantos son.
>
Veriedes tantas lanças premer alçar,
>
Tanta adagara foradar passar,
>
Tanta loriga falssa desmanchar,
>
Tantos pendones blancos salir vermeios em sangre,
>
Tantos buenos cavallos sin sus duenos andar.
>
Los Moros laman Mafomat, & los Christianos Santi Yagu(e).
>
Cayen en ura poco de lugar Moros muertos mil & (ccc ya).
«Como se vê no Poema del Cid, fazem perfeito contraste com este arranco de épica ferocidade as branduras de um trovador galleco-português apaixonado:
Quando vos vi, fremosa mia senhor,
>
logo vos soube tan gran ben querer,
>
que non cuidei que ouvesse poder,
>
per nulha ren, de vos querer melhor;
>
e ora já direi-vos que mi aven:
>
cada dia vos quero maior bem!
É Leite de Vasconcelos, nas Lições de Filologia Portuguesa,(121) que salienta uma diferencial tão decisiva. Não desprezemos a semelhante respeito a teoria que localiza em regiões marítimas do Ocidente a origem do ciclo poético de que brotou a Odisseia. Os pontos primordiais da rapsódia homérica [p. 172] andam tocados na boca do povo pela Nau-Catrineta e pela Bela-Infanta. Pois, tão discutida, com tanta querela erudita a emaranhá-la pedantescamente, o berço da poesia provençalesca fixa-se actualmente no noroeste da Península. Escravos oriundos de áquem e além Minho influiriam na literatura dos árabes de Córdova com o património lírico que fecundara antes a claridade sem par do gemo helénico. Pela penetração do elemento islamita no sul da França se geraria a brilhante cultura trovadoresca que, para comprovar a derivação, se alia ao desabrochamento do espírito municipal naquelas bandas.(122) Mais uma vez o amor à terra se traduz no Ocidente pelo amor do ritmo. É sempre o pequeno dolicóide afirmando a sua profunda capacidade criadora. E a tese que invoco da filiação do provençalismo nos recursos emotivos da alma galaico-lusitana atesta em público e raso, como ninguém, a mentira que cinge a raça portuguesa a um anonimato desprezível, considerando-a como um rebanho humilhado de ilotas.
Não descorajemos por isso! Mora connosco desde o começo a força de uma pátria e o poder invencível de uma tradição. O tremendo eclipse que pesa sobre nós, tal como a tremenda noite Cathulada da Fábula, não é senão o castigo que nos pertence sofrer pelo abandono a que largámos o que era nosso e com tanto custo o ganháramos, tão depressa nos chamaram da margem com qualquer improviso de contrabando. No momento em que os reformismos de Mouzinho da Silveira repeliam por inúteis as instituições características do País, Lafayette propunha entre os seus a adopção do nosso regime concelhio. As consequêcias do desvio padecido medem-se bem pelos poucos passos a que estamos de um precipício sem remédio. Para sermos povo, o Lusitanismo nos ensina que não precisamos de pedir licença à Espanha. Para nos governarmos em harmonia com a nossa natureza, não [p. 173] são as panaceias dos mil e um profissionais da Salvação-Pública que nos hão-de conceder a finalidade obliterada e sem a qual escusado é pensarmos em seguir caminho. Uma outra mentalidade, felizmente, acorda para o mundo, já farto de subjectivismos subversivos, que, inculcando-se como redentores da velha dor humana, só a aumentaram e exacerbaram, roubando-nos ainda por cima os infinitos reforços morais da alma rijíssima de antigamente. Mostra-nos bem a mudança que vai nos tempos o inquérito aberto por Agathon entre a população escolar francesa, com depoimentos dos nomes literários mais recentes. Les jeunes gens d’aujourd’hui, confessando-nos uma mocidade nobremente limpa de gafas ideológicas, é um livro que fica marcando o formidável ciclo de ordem que ora se estreia.(123)
O culto da Disciplina cativa a juventude. São os melhores ditames do positivismo que a atiram para a Fé e para a Pátria. Não é de fórmulas negativas que a existência se abastece. Sem crer não se pode querer! A este estado de espírito das gerações que sobem se refere Gustave Le Bon no volume La vie des vérités, acabado quase de publicar. «L’évolution de la jeunesse» – comenta o ilustre sociólogo – «est fort sensible. Ayant vu la patrie traverser des heures très sombres et les ruines matérielles et morales s’accumuler chaque jour, comprennant vers quels abîmes conduisaient les négateurs et les destructeurs, elle s’écarte d’eux et réclame d’autres maîtres. Aux métaphysiciens stériles, elle oppose les réalités, la vie et la nécessité de l’action. Sortie des livres, elle regarde le monde. L’observation des peuples qui s’étaignent lui montre quelles irrémédiables décadences engendrent l’affaissement des caractères et les chimériques tentatives de bouleversements sociaux.»(124)
Nós, os da ala portuguesa recém-chegada, somos singularmente fotografados nas linhas transcritas. Num punhado de palavras, como esse, se [p. 174] conglobam os motivos íntimos do nosso conservantismo, todo ele feito de experiência histórica. Os destinos ameaçados da courela querida da Pátria dependem do grau de consciência colectiva a que nos saibamos elevar. Dissolvida, sem resíduos de valor sensível, a ideia da Nacionalidade carece de se reelaborar com fundamentos apoiados na razão inviolável de nós mesmos, que é o nosso determinismo. Insiste-se mais uma vez que não é a excelência abstracta dos Princípios a norma que mais seguramente nos convém. Com modéstia resignamos os vôos descompassados da Utopia, para nos restringirmos às indicações do ambiente familiar que nos conformou. Não descendemos dos Direitos-do-Homem. Somos apenas inteligências esclarecidas pelas páginas da Portugália.
Só as certezas conseguirão indireitar-nos para uma existência cheia de dignidade e de significação. A certeza da Raça interessa-nos mais que nenhuma outra. Ninguém se mete a andar sem ter confiança em si. Se não acreditamos em nós como povo, não serão as oratórias engasgadas dos tribunos a cifra mágica que nos há-de emprestar o sopro de milagre que fez levantar o paralítico. Foram mais funestas de que se julga as consequências do cepticismo de Oliveira Martins. A cobiça unilateralista do vizinho cita-lhe passagens inteiras para se autorizar. Em nossa casa, os vencidos e os inúteis, para escusarem a sua impotência, glosam-na com grandes ares, aconselhando-nos o suicídio. Ah, as criaturas sorvadas, de aparência brunida, mas com farelo lá dentro, tal como os frutos que Chateaubriand apanhou nas ribeiras do Mar do Sal! No entanto, a flama arde direita e intacta no coração da mocidade. O dia de amanhã estará connosco – connosco que sentimos nas veias a revivescência admirável do Luso que desfalece, mas que nunca se rende. Misticismo? Sim, misticismo – misticismo étnico, misticismo histórico, como o que convulsionou os Balcãs, como aquele que do germano incompleto e dispersivo extraiu a obra incomensurável de Bismarck!
[p. 175] Teófilo, preocupado com o valor da Raça, substituiu um dia ao elemento Autoridade da síntese sociológica de Comte o elemento População. No cabo, População e Autoridade, como os Concelhos e o Rei, são partes de um todo que se sinonimizam e identificam – a primeira à raiz, a segunda ao alto. Da parcialidade em que Teófilo encarou o problema, sem que uma visão mais vasta lho figurasse em conjunto, nasceu o equívoco que é a causa da divisão enfurecida em que Portugal se confrange e degladia. A nós, pelo contrário, foi a População quem nos levou ao encontro da Autoridade.
Em nome do Luso se praticam os maiores atentados à integridade do património que o Luso nos ganhou. Pois em nome do Luso eu não sei, para terminar, de palavras mais exactas que as de Teófilo n’A Pátria Portuguesa. «Neste templo do sentimento da Pátria portuguesa», escreve, «vê-se claro que os vendilhões levam o descaro até se apoderarem do azorrague com que deveriam ser expulsos. O tempo não está para dispender energias em resultados negativos. Quem tiver consciência do dever oriente os seus esforços pelo sentimento da Pátria.»(125)
Seja assim, mas com outro sentido – com o verdadeiro, e ficará tudo certo!
Setembro-Outubro, 1914.
Índice
A Verdade Portuguesa
A hipótese do Homo-Europaeus
O génio ocidental
O espírito da Atlântida
A Teoria da Nacionalidade
Integralismo Lusitano
[ ERRATA
A precipitação com que este livro foi impresso fez com que escapassem à revisão alguns erros de menor importância. São todos da natureza daqueles de que o nosso bom D. Francisco Manoel de Melo dizia que o leitor por si mesmo os castigava. Valendo-nos desse padrinho, não nos cumpre senão deixar lealmente o aviso. ]
Notas de António Sardinha
1. Paul Guiraud, Fustel de Coulanges, Paris, Hachette, 1895, p. 266.
2. Fonseca Cardoso, «Antropologia portuguesa», in Notas sobre Portugal, vol. I, Lisboa, 1908, pp. 70-72. Ricardo Severo, Origens da nacionalidade portuguesa, Lisboa, 1912, pp. 29-32.
3. «Le mirage oriental», in Chroniques d’Orient, deuxième série, Paris, 1896, pp. 535-536.
4. Obr. e vol. cit., p. 565.
5. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., p. 518.
6. Obr. e vol. cit., pp. 516 e 521.
7. Obr. e vol. cit., p. 511.
8. Obr. e vol. cit., pp. 512 e 513.
9. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., pp. 512 e 513.
10. Vid. toda a obra de Martins Sarmento, principalmente: «Ora Marítima, Os Argonautas e A arte micénica no noroeste de Hispania», in vol. I da Portugália. Aos trabalhos de Martins Sarmento me encosto quando não documente as afirmações que haja de fazer.
11. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., p. 533, e Le Hon, L’homme fossile, citado a p. 22, nota, do livro Estúdios sobre la época céltica en Galicia, por D. Leandro de Saralegui y Medina, 3.ª edição, Ferrol, 1894.
12. Salomon Reinach, obr. cit., pp. 529.
13. Estácio da Veiga, Antiguidades monumentais do Algarve, t. IV, cap. VII; e Ricardo Severo, Origens da nacionalidade portuguesa, pp. 26 e 27.
14. Charles Hevraud, La France de demain. Celle qu’on nous offre. Celle qu’il nous faut, Paris, Librairie Académique Perrin, 1911, pp. 352-361.
15. Charles Heyrand, obr. cit.
16. Cardeal Manning, Les raisons de ma croyance, notas do tradutor E. Peltiei, huitième édition, Bloud & Cie., 1913, pp. 48 a 51.
17. Les illusions du progrés, Paris, Marcel Rivière, deuxième édition, pp. 50.
18. L’eau du mer, milieu organique, deuxième édition, Paris, Masson, 1912, p. 435.
19. A. de Lapparent, Les silex taillés et l’ancienneté de l’Homme, Paris, Bloud, 1909, p. 22.
20. A. de Lapparent, obr. cit., p. 50.
21. Vid. a obra citada de Lapparent, pp. 55-71.
22. René Quinton, obr. e pp. cit.
23. René Gilluin, La philosophie de M. Henri Bergson, Paris, Grasset, 1912.
24. René Quinton, obr. cit.
25. René Quinton, obr. cit., p. 436.
26. Gustave Le Bon, La naissance et l’evanuissement de la Matière, Paris, Mercure, 1908.
27. Paris, Librairie Plon.
28. Vacher de Lapouge, L’Aryen. Son rôle social, Paris, Fontemoing, 1899.
29. Vacher de Lapouge, obr. cit.
30. Vacher de Lapouge, obr. cit.
31. A. de Paniagua, Les origines celtiques, Paris, Dujarric, 1909, p. 4.
32. Cultes, Mythes et Religions, deuxième edition, tomo 3, cap. XXI, Paris, Leroux, 1913, pp. 338-342.
33. R.P. Don Besse, Les religions laïques, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1913, pp. 38-45.
34. Obr., tom. e cap. cit.
35. «La Religion est un produit de l’homme normal, et l’homme est plus dans le vrai quand il est plus religieux et plus assuré d’une destinée infinite.»
36. Fonseca Cardoso, in Notas sobre Portugal.
37. Idem.
38. Comunicações da Comissão dos Trabalhos Geológicos de Portugal, Tomo II, Fase 1, 1888-1889.
39. Origens da Nacionalidade Portuguesa, p. 16.
40. L’Europe Préhistorique, tradução de Emmanuel Phillipot, Paris, Lamarre.
41. António de Matos Cid, A gente portuguesa, Coimbra, 1904, p. 30.
42. A.J. Reinach, nota ao estudo La question d’Homère, de A. Van Gennep, Paris, Mercure de France, 1909.
43. Teófilo Braga, História da Literatura Portuguesa, I. Idade-Média, Porto, 1909, p. 14.
44. Diodoro da Sicília, Bibliothéque historique. Edição Ferd. Hoefer. Tomo I, p. 242 e seguintes. Paris, Hachette, 1912. Martins Sarmento,«Os Atlantes de Diodoro Sículo», in volume 1 da Revista de ciências naturais e sociais, Porto, 1890.
45. Pierre Paris, Essai sur fart et l’industrie de l’Espagne primitive, Paris, Leroux, 1904.
46. Geographie de Strabon, trad. Amadée Tardieu, volume l, livro III, Paris, Hachette, 1909.
47. António dos Santos Rocha, Materiais para o estudo de idade do cobre em Portugal, Figueira da Foz, 1911, pp. 11 e seguintes.
48. Teófilo Braga, Romanceiro geral português, volume III, notas, Lisboa, 1909.
49. D. Carolina Michaëlis, in Revista Lusitana, ano II, p. 237.
50. «La religion des Celtes», capítulo do livro Christus, de Joseph Huby, Paris, 1913, p. 412.
51. Heródoto, Histoires, livro IV, 4, 152, tradução de P. Huguet, Paris, Hachette, 1913.
52. René Dussaud, Les civilisations pré-helléniques dans le bassin de la Mer Égée, deuxième édition Paris, Paul Geuthner, 1914, p. 437.
53. René Dussaud, obr. cit., p. 439.
54. René Dussaud, obr. cit., p. 447.
55. «Comentário ao espólio dos dolméns do concelho de Vila Pouca de Aguiar», vol. I da Portugália.
56. Joseph Huby, Christus, manuel d’histoire des religions, Paris, Beauchesne, 1913, p. 436.
57. Joseph Huby, obr. cit., pp. 415.
58. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 103.
59. Joseph Huby, obr. cit., p. 416.
60. Suetónio, «Galba», IX, Oeuvres, tradução de la Harpe, Paris, Garnier, 1893.
61. Claro que eu considero apenas a linha teórica das migrações do homem loiro. Nem todos os desse ramo antropológico se passaram à Ásia. Inúmeros bandos ficariam em vagabundagem pelo norte europeu. Eis porque a tradição faz descer os Celtas do país dos Hiperbóreos. Segundo Amiano Marcelino (XI, 9), teriam vindo ab insulis extremis et tractibus transrhenanis. Já Jornandes chamava à Terra dos Godos, no sul da Escandinávia, vagina nationum, officina gentium. Dos núcleos que permaneceram na Europa tiraram reforço ao depois as assolações arianas, vindas do Oriente.
62. A. Van Gennep, La question d’Homère, Paris, Mercure, 1909, pp. 27-32.
63. A. Van Gennep, obr. e p. cit.
64. Salomon Reinach, Le mirage oriental, p. 159, na 2.ª série do livro Chroniques d’Orient.
65. Salomon Reinach, vol. e p. cit.
66. Cours de littérature celtique, Tomo IV, Paris, Fontemoing, 1899.
67. Episódio referido por Martins Sarmento em mais de uma monografia.
68. Salomon Reinach, obr. cit., p. 554.
69. História de literatura portuguesa, I. Idade-Média, p. 21.
70. L’Aryen. Son rôle social, p. 21.
71. Vacher de Lapouge, obr. cit., pp. 16-23.
72. História da Literatura Portuguesa, I, Idade-Média, p. 14.
73. I.M. Pereira de Lima, Iberos e Bascos, Paris-Lisboa, Livraria Aillaud, 1902, pp. 49-75. Pierre Termier, L’Atlantide. Revue Scientifique, n.º de 11 de Janeiro de 1913.
74. Ideia geral dos efeitos do megasismo de 1755 em Portugal, Lisboa, 1914, p. 14.
75. Le Maroc physique, p. 20.
76. Obr. cit., pp. 19-20.
77. Obr. cit., p. 29.
78. Obr. cit., pp. 30-31.
79. Pereira de Lima, obr. e p. cit.
80. Publicado em Amsterdam em 1680 e reproduzido em 1881 em Madrid por edição limitada de Santiago Pérez Junquera.
81. De Francisco de Sousa, ano de 1570. Edição limitada, feita em Ponta Delgada no ano de 1884. Prefácio de João Teixeira Soares de Sousa.
82. Bernardino José de Sena Freitas, Memória histórica sobre o intentado descobrimento de uma suposta ilha ao norte da Terceira, Lisboa, Imprensa Nacional, 1845.
83. Pereira de Lima, obr. e pp. cit.
84. Pereira de Lima, obr. e pp. cit.
85. Salomon Reinach, Chroniques d’Orient, p. 554.
86. Salomon Reinach, obr. cit., p. 527.
87. Salomon Reinach, obr. cit., p. 532.
88. É a migração personificada na fuga de Eneias.
89. Histoire ancienne des peuples de l’Orient, onzième édition revue, Paris, Hachette, 1912, pp. 368-376.
90. Obr. e p. cit.
91. Maspero, obr. cit., p. 285 e seguintes.
92. Salomon Reinach, obr. cit., p. 156.
93. Idem, p. 552.
94. Joseph Huby, Christus, p. 408.
95. Salomon Reinach, «Oiseaux et svastikas», in Cultes, mythes et religions, tom. II, p. 234-249.
96. Anedoctas de Elvas, coligidas pelo corregedor Mendonça, p. 9, Elvas, 1913.
97. Ora marítima, versos 154-157, ed. Martins Sarmento, l.ª edição, p. 74.
98. Salomon Reinach, obr. cit., tomo III, cap. XX, pp. 332-337.
99. Salomon Reinach, obr. cit., tom. I, cap. XII, pp. 146-156.
100. Vacher de Lapouge, Râce et milieu social. Essais d’Antropo-sociologie, Paris, Marcel Rivière, 1909, p. XX.
101. Paris, Fontemoing, 1896, p. 71.
102. História da Literatura Portuguesa, II, Renascença, Porto, Livraria Chardron, 1914, p. 45.
103. Mendes dos Remédios e tantos fazedores de compêndios oficiais.
104. Vid. Divisão duodécima na Dedução cronológica e analítica.
105. Georges Deherme, Le pouvoir sociale des femmes, Paris, Perrin, 1914, p. 2.
106. Georges Deherme, obr. cit., p. 50.
107. La dépendance de la Morale et l’indépendance des Moeurs, Paris, Mercure de France, 1907, p. 270.
108. Teófilo, «Mestre da Contra-Revolução», parte II. Estudo em publicação na revista de filosofia política Nação Portuguesa.
109. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1908. Separata dos Anaiss da Academia Politécnica do Porto.
110. Tomo II, pp. 459-472. Estudo de Tude M. de Sousa.
111. Vacher de Lapouge, Race et milieu social, p. XIII.
112. Obr. cit., p. XIII.
113. Obr. cit., p. XIII.
114. Obr. e p. cit.
115. Os Argonautas, Porto, 1887, p. 223.
116. História da Literatura Portuguesa, I. Idade Média, p. 62.
117. Les origines celtiques, p. 16.
118. Martins Sarmento, Les lusitaniens, Lisboa, 1880, p. 29, nota.
119. Histore ancienne des temples de l’Orient, p. 374.
120. Os varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais, Paris, 1859. Transcrição de L.A. Palmeirim a p. 28, do livro Portugal e os seus detractores, Lisboa, 1877.
121. Lisboa, Livraria Clássica Editora, pp. 105-106.
122. Discursos leídos ante la Real Academia Española en la recepción pública del señor D. Julián Ribera y Tarragó, Marid, 1912.
123. Paris, Librairie Plon, 1913.
124. Paris, Flammarion, 1914, p. 2.
125. Porto, Chardon, 1894.
Transcrição em ortografia actualizada, com a paginação do impresso restituída. Os marcadores [p. N] assinalam o início de cada página do original.
a Ana Júlia, minha Mulher
«J’écris à la lueur de deux vérités eternelles: la religion, la monarchie, deux necessités que les événements contemporains proclament, et vers lesquelles tout écrivain de bon sens doit essayer de notre pays.»
Balzac, Prefácio de La Comédie humaine
[I] A verdade portuguesa. Programa de uma geração[p. I] A ideia de Raça entre nós é em Frei Bernardo de Brito que aparece pela primeira vez. A concepção jurídica de um todo uno, idêntico na composição e no destino, já se definira, no entanto, com D. João II. É o conceito político de Grei que, nascido da sociologia tomista por derivação do De regimine principum, se alenta soberanamente nessa admirável hora de Quatrocentos em que o coração da Nacionalidade bate sereno e regular.
A coincidência dos nossos elementos nativos com as direcções concentradoras da Coroa obtivera-se enfim, depois da prova magnífica que fora a jacquerie dos Concelhos, erguendo voz pelo Mestre contra o pendão de Dona Beatriz. Não há que duvidar já agora de que o íntimo segredo da história portuguesa consiste num inabalável motivo de ordem étnica. É o dolicóide meão, de cabelos escuros e preferências sedentárias, quem fundamenta as raízes da Pátria, e no desenrolar dos acidentes desorganizadores surge sempre, à boca do perigo, a pronunciar a palavra de salvação. A integridade desse [p. II] valor antropológico retém consigo, na guarda da sua pureza, todo o esforço que preside aos dramas formidáveis da nossa independência.
Efectivamente, as mancomunidades agrícolas que, comportando as aptidões localistas do nosso homem primogénito, vieram a concluir na forma social do Município, conservaram pela fixidez à terra, limpos de toda a mistura abastardante, os recursos infinitos da nossa árvore ancestral. Passaram as invasões tumultuando como uma enchente que emparelhe montes e vales. Mas o gosto decidido pelo arraigamento, prendendo ao solo com vínculos centenários os indivíduos e as agremiações, com o conceder-lhes uma resistência que nada vencia, transmitia-lhes a mais poderosa das impermeabilidades. Eclipses demoradas interromperam a plenitude autóctone – irrecusavelmente. Dormitando, porém, o que pareceria uma derrota mortal, um fim sem remédio, não era no fundo senão a economia da duração, trabalhando com afinco pelo restauro das energias perdidas.
Do sedentarismo característico do Luso partiria assim, como de uma virtude de maravilha, o início de quantas afirmações de vontade e heroísmo lhe conferiram a existência livre de povo. São as behetrias do norte e os «castelos-velhos» do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo moiro e pelo leonês. As hostes comunais intervêm sempre lá onde [p. III] o guião sobranceiro da autonomia corra o perigo de tombar nas mãos do vizinho cobiçoso. Em Ourique mostram-se-nos assentando os alicerces à Nação. São as vilas de 1384, pondo o Mestre por nosso regedor e alçando mais tarde o Regente à defesa comprometida do Reino. E já se não fala na Feliz-Aclamação com as ordenanças bisonhas dos Municípios escrevendo a epopeia ignorada de uma guerra de vinte e oito anos – nem nas juntas concelhias do século passado, alevantando Portugal em peso contra a presença dos Franceses. O motivo de ordem étnica em que reside o segredo íntimo da nossa história comprova-se abundantemente. É que nos moldes particularistas da Raça remanescia, como um substractum inalienável, à força hereditária do Luso, guerrilhando por uma reposição desafogada e fecunda, como outrora nas gargantas do Hermínio, ao som da buzina de Viriato.
Se não admitirmos uma lenta preparação atávica que desde muito de atrás nos andasse elaborando como uma realidade social que se basta a si própria, não se compreende pela doutrina simplista do Acaso que, varrido o islamita até às orlas do mar do Algarve e expulso o barão novigótico para o planalto castelhano, se alevantasse de súbito da gleba libertada uma pátria cheia de vigor, vibrando toda de cima abaixo no sentimento de uma mesma finalidade. É que vínhamos de longe – dos alvores dessa gente primitiva que nas bacias do Tejo e do Sado se revelou bem cedo, enterrando os mortos e [p. IV] já com cabana armada, quando nem prenúncios havia ainda da prática da agricultura.
Das simpatias sedentárias do habitante típico de Mugem se extrai, em verdade, o germe do qual a Pátria Portuguesa se veio a formar. O culto dos Mortos, originando uma colectividade apoiada no traço do sangue, depressa ascendeu o nosso homem antigo ao quadro rudimentar de aldeia, garantido por um patrocínio religioso que se traduzia certamente no modelo patriarcal. Chega de seguida a profissão agrícola. O enraizamento espontâneo do aborígene intensifica-se. E já fortalecido pela comunidade do parentesco, acaba de se organizar pela comunidade do solo. São conhecidas as bases agrárias das nossas citânias. As citânias marcam o estádio imediato ao vicus arcaico em que o embrião de Mugem, crescendo sempre, pretende atingir uma expansão maior das suas possibilidades naturais.
A esta fase de isolamento ainda, sucedem-se as federações temporárias de cividades com determinante na ocupação romana. Aparecem assim as arimanias, ou germanias, de índole estritamente guerreira, e, como a etimologia ensina, recebendo do estatuto de vizinhança a sua razão principal. Uma vez instalado o pesado aparelho administrativo do Lácio, a interpenetração episódica das citânias ganha permanência pacífica.
Os moradores insulados dos nossos vilares proto-históricos sobem então a um grau [p. V] de sociabilidade mais completa. Atraídos agora à ribeira, os conventi publici vicinorum do dominador imprimem-lhes um apertado espírito de convivência – entra a criar para eles outras proporções o sentido comum da colectividade. Entrementes, as tendências características da Raça radicavam-se num vasto sistema institucional. Cortam-nos o torrão, primeiro, as tropeladas do dolicocéfalo loiro, raptor orbis – no dia seguinte, as aluviões compactas dos filhos de Agar. Não esmorece, todavia, o génio pertinaz do Luso. E quando com a Reconquista as camadas indígenas da Península obtêm um farto minuto de respiração, as behetrias mostram-se como o tecido estrutural da Nacionalidade nascente. A Pátria Portuguesa resulta depois do entendimento instintivo desses pequenos núcleos populacionais que, trazidos a uma compreensão mais larga da existência por unânimes necessidades de defesa, lograram equilibrar em acordo perpétuo as ligas ou pactos militares da antevéspera, quando o rumor das legiões inimigas crescia do vale para os castros atalaiados lá ao alto.
Logo que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se formado. Conseguido o agente centrípeto, sem o qual tombaria depressa na mais deplorável das desagregações, o País decide-se com galhardia para a grande obra da sua coesão e do seu enrobustecimento. O Altar e o Trono são as duas formidáveis disciplinas que o hão-de aguentar intacto nos trabalhos [p. VI] custosos para uma maioridade que ninguém lhe reconhecia e que ainda agora, perdidas ambas num turbilhão de insensatez criminosa, não passa de uma condescendência precária perante a dura lei imperialista de uma época que já não embarca nas baixas fantasias da superstição democrática.
A constituição das Pátrias é, com efeito, em toda a banda o sinal poderoso de quanto vale dinâmica e estaticamente o factor-Autoridade. Quem medita os nossos antecedentes de povo e desvenda bem os laboriosos prelúdios de que brotamos, impressiona-se decerto com as mil e uma tentativas do Luso para se estabilizar numa expressão colectiva mais franca e mais sólida que o cantonalismo primevo. Já vimos que, quando o romano irrompe, se experimentam as germanias, como uma aliança de cividades que transpõem o estreito aro comunal e apelam para as relações de vizinhança, a fim de oferecerem ao invasor uma barreira mais duradoira e melhor erguida. No entanto, dependentes de chefes eleitos e como tais transitórios, as germanias ficam-se em ensaios preliminares que uma peleja desfaz ou que uma dissidência prejudica. Só a hereditariedade serviria ao agrupamento, de maneira a elevá-lo ao consenso tácito da Pátria.
Desde que um agregado encontra uma linhagem que incarne no seu interesse privado, como interesse do conjunto, os interesses das partes componentes, só nessa altura pode considerar-se protegido contra [p. VII] as surpresas do futuro, sem receio que o enfraqueçam, ou os desvios da fortuna, ou as reticências da hesitação. Existe um fim – não falta a certeza dos meios com que procurá-lo. É só correr-se em harmonia com as inclinações fundamentais e coordená-las em vista ao alvo desejado. A prosperidade e a saúde do novo ser social despontam sem tardança, com as promessas brilhantes da glória e o exercício superior dos dotes da vontade. É a ocasião em que se manifesta uma regra espiritual, simultaneamente coercitiva e arrebatadora, que, conformando a mentalidade própria das circunstâncias, lhe concede aquela vocação mística que torna os povos senhores dos seus destinos, e como que donos do terreno que pisam.
Eis porque a Cruz e a Espada são os admiráveis sustentáculos da nossa independência, alcançada a poder de tantíssimo sangue. Nós morreríamos nos torcicolos da longada, se o concurso dessas duas forças tradicionais nos não ajudasse a estabelecer o nosso lugarzinho ao sol – se, entregues apenas à espontaneidade do génio da Raça, nos não reguardassem de embuscadas e de inadvertências, de um lado, a ambição pessoal dos nossos Príncipes, do outro, os ditames vindos de trás-os-montes – da claridade augustíssima de Roma.
A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predilecção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria. Mas a [p. VIII]liberdade só se efectiva quando ponderada pela Autoridade. Sem um valor de acentuado conteúdo concentrador, jamais se viabilizaria a perequação dos nossos diversos egoísmos institucionais, de cujo entrelaçamento os tecidos nervosos da Nacionalidade se haviam fiado. É um exemplo que convence o abandono da Itália aos excessos da tendência comunalista. A unidade só tarde se conseguiu, porque as querelas comerciais e políticas das diferentes cidades preponderantes não quiseram submeter-se à fiscalização de uma dinastia que as neutralizasse debaixo do seu governo.
Aonde é que se descobrem demonstrações de vigor que sobrepujem as que a Lusitânia afirmou durante o duelo tremendo com as tropas do Lácio? Contudo, digam-me, apesar de os analistas latinos qualificarem de magnis gravibusque bellis a resistência assombrosa das nossas citânias, se se ultrapassou a fase recuada de exclusivismo em que as populações se isolavam umas das outras – se porventura um outro sentido maior de existência colectiva se anunciara às massas armadas, descidas dos outeiros fortificados para o combate em fileiras sob o comando de cabecilhas, que as mais das vezes não eram dos maiorais da gens? Não lhes assistia a função homogeneizadora de uma enérgica magistratura hereditária. Não nos causa por isso estranheza que a Guerra dos Ladrões, que tamanhos embaraços provocou a Roma consular, descaísse quase no total [p. IX] aniquilamento desta fera ninhada de batalhadores.
Eu bem sei que no declinar da idade antiga os elementos de que proviemos como povo não possuíam ainda a consistência suficiente para merecerem a emancipação. Confinados no mais fechado particularismo, foram exactamente as pugnas sobre-humanas a que Roma os confrangeu que despertaram neles como que a percepção de horizontes novos, revelando-lhes o carácter sagrado de uma causa que, sendo de uns, se amostrava de todos, no fim de contas. Tinham que ser vencidos para que não regressassem ao período anterior de desconfiança, com brigas constantes de limites e psicologia ínfima de tribo. Sujeitos a uma cerrada uniformidade demográfica pelo apertado sistema tributário do Império, pelas exigências miúdas do censo o Império obrigava a uma comunicação quotidiana as relações, cada vez mais estreitas, dos que se haviam visto coagidos a trocar a coroa amuralhada dos montes pelo assento tranquilo e produtivo das veigas. Quando essa rede cortical se rompeu e o génio oculto do Luso voltou a aflorar, a unificação consumara-se. Agora só importava entrar-se na demanda difícil da alforia. As simpatias sedentárias da Raça, vazadas já na forma social do Município, traçavam os alicerces inabaláveis da Pátria. Alçando-se à suprema judicatura por via de um mandato explícito das nossas mancomunidades agrárias, a Realeza aparece a encarnar o agente político, sem o qual o equilíbrio [p. X] da colectividade se volveria impossível. De outra maneira, a fragmentação teria de ser um acontecimento de todos os dias.
Libertos da presença de um fulcro imóvel que assegurasse a duração e a continuidade, os apetites centrífugos das diversas iniciativas comunais poriam dentro de breve a saúde do grupo num estado revolto de decomposição. Eis porque a ditadura instalada ao alto protege sempre em justos termos a coexistência desafogada das outras partes do organismo. Por antagónicos que pareçam, entende-se já que o Rei e os Concelhos são factores que se correspondem e acabam de completar. Senão – se desfiarmos os olhos ao arrepio dos séculos, que vemos nós desde que as liberdades se encontraram com a Autoridade? O engrandecimento do poder real acompanhar-se inalteravelmente do exercício pleno das franquias municipais.
Os municípios exprimiam as tendências ingénitas da Raça. Não caímos em erro se os classificarmos entre nós como formações absolutamente naturais. Por um processus associativo, frequentíssimo no mundo biológico, uma células pegaram a juntar-se às outras. E por força das circunstâncias do Meio e da Etnia, Portugal se constituiu como soma normal de tantas parcelas pequenas, em tudo idênticas e concordes. Até o nome lhe adveio de um castro a cavaleiro do Douro, para que em nada padecesse dúvida a sua genealogia de terra livre.
Derivado de uma federação de reduzidos [p. XI] núcleos independentes, em que as behetrias de Reconquista se compunham com os ópidos da ocupação romana, é uma cividade modesta que o baptiza, consagrando-lhe como madrinha a entranhada estrutura particularista. À sombra da azinheira votiva do Luso, estipula-se ao depois a aliança das gentes anónimas, que se custodiavam de vexames e algaradas pela reciprocidade do estatuto da vizinhança, com a pessoa solene do Príncipe, que, de arnês reluzente e ginete escarvando, velaria pelos fracos e oprimidos, guardando do inimigo os Altares e os Lares, os Berços e os Sepulcros. Os forais acusam a base contratual da Monarquia Portuguesa, que não é uma monarquia firmada na ideia germânica da posse, mas uma magistratura respeitável, em que o Rei não é um soberano que se reverencie de recuas sobre uma paisagem de forcas avergando como latadas, mas simplesmente um cabeça em que todos, grosso e miúdo, se reconhecem à uma.
Se o conceito de posse – de desfruto territorial – decidisse da feição peculiar da nossa Realeza, o predomínio seria mas era conferido aos próceres que, pares do monarca, haviam de primar em amos despóticos, sorvendo sofregamente o suor das populações soldadas à gleba. Engendrava-se um governo de casta, de índole feudal e militante, em que um ferrenho juízo aristocrático da sociedade cavaria diferenças fundas de campo para campo. Supunha-se deste modo uma situação primeira de guerra em [p. XII] que os naturais tivessem subsistido à derrota, mas como ilotas miseráveis que, se possuem préstimo, é só o de bestas de carga.
Bem pelo contrário, o carácter paternal da nossa Monarquia acha-se definido no significativo apelo que é o «Aqui del-Rei!» da tradição. «Pastor não mercenário» – chamariam os lavradores em cortes a Afonso V. Na frase acidental de um «capítulo» de Quatrocentos gravava-se para todo o sempre, não só a fisionomia própria das dinastias nacionais, mas discernia-se ainda o que sejam em verdade a amplitude e os recursos do princípio monárquico em si.
Não se ignora a verificadíssima lei sociológica que depõe na subida de um césar a melhoria sensível das classes espezinhadas. Os regimes electivos – ou consulares, como em Roma, ou mesmo vitalícios, como na Polónia – geram inevitavelmente a monopolização do poder nas mãos de uma oligarquia que promove a instabilidade nas direcções do Estado e conduz a uma regência perpétua de clientelas, derrubando-se umas às outras, na tarefa insana das Danaides da fábula. Já assim não acontece com as composições ditatoriais ou hereditárias. Evitam por qualidade de nascença a intromissão abusiva das castas e são as operárias zelosas da verdadeira capacidade civil do povo. Com a queda da república romana, é o patriciado que tomba entre os clamores irados da plebe. O Príncipe, que o substitui, acompanha-se de um respiro largo nas camadas [p. XIII] obscuras da população, contida no mais duro desprezo pelas regalias demasiadas com que a nobilitas se isentava. O pretenso sistema democrático da Grécia clássica resolve-se, no cabo, num morgadio de felizes que se apoiava na escravatura, com o retórico declamando no agoras, à custa do seu semelhante, todo torcido para a courela alheia, no calvário sem nome de a amanhar e fazer produzir. O título de cidadão restringia-se tanto quanto possível. E só quando os Tiranos se estreiam com um novo ciclo é que essa cinta de ferro se vence, atraindo ao seio da Cidade muitos esforços secularmente repudiados.
Sempre as batalhas da economia antiga terminaram pela vitória do ditador, cujo advento restituía ao agregado aquela justa harmonia já tão desejada pelo apólogo de Menénio Agripa. Repetem-se no decurso das idades as normas inflexíveis com que a história se governa. E ao longo do demorado período mediévico nós presenciamos o aparecimento das monarquias ocidentais com motivo predominante nas Comunas. É que as Comunas viam, sem hesitações, no poder real uma força que as defendia das tropelias do suserano e estabelecia ao mesmo tempo limites que lhes facultavam o desenvolvimento da sua actividade legítima. Manifesta-se aqui, com influências bem patentes, a teoria das «ordens» do Estado que, ressuscitada da constituição política de Aristóteles, São Tomás vai impor ao pensamento culto da Europa através das máximas vulgarizadas [p. XIV] no De regimine principum. O critério da «utilidade colectiva» ilumina a claríssima concepção, em que a euritmia dos edifícios helénicos distribui pelas partes do corpo social um senso notável de proporção e medida. O Rei não é mais o prócere dos próceres que arrecada o tributo e arrebanha os vassalos como gado. Os povos pertencem já a uma pátria moral que não conhece fronteiras e dentro da qual os malados valem tanto como os senhores.
É a ideia confraternizadora da Respublica Christiana que, difundida pela admirável criação teocrática da Igreja, promove laços de natureza espiritual que despertam nas nacionalidades adolescentes o sentido de um destino superior de que todos, pequenos e grandes, participam. A própria nobreza guerreira, nutrindo-se da turbulência gótica, deixa amaciar o seu germanismo depresa pelos propósitos solidaristas da Cavalaria. É a hora em que o Ocidente atinge a mocidade franca. Estuam-lhe nas veias as mais generosas seivas. A inquietação do génio ilumina-lhe a pupila sonhadora. E não sei que enlevo de subir lhe perfuma o coração, abrindo nos vôos da Catedral como uma flor magnífica das alturas.
Renascem hoje em dia os mesmos fundamentos reparadores da Realeza. Mais uma vez se confirma a inalterabilidade das leis históricas. Com os exemplos eloquentíssimos que o sindicalismo francês nos oferece e [p. XV] com o espectáculo que pega a destrinçar-se desse borrão confuso que é o bravio industrialismo yankee, já não sobejam dúvidas de que a salubrificação da economia produtora só se alcança por intermédio de um forte vínculo hereditário que não se socorra dos benefícios de uma classe, como nas democracias políticas em que os partidos põem e dispõem com feitores discricionários, mas que careça da colaboração diligente de todas as classes, a fim de durar e ser capaz de algum proveito.
A finança moderna, com o seu cortejo de consequências desastrosas, reedita as incertezas e as torturas de outrora, quando o feudalismo campava em açambarcador do género humano. Tão torvas que as condições passadas se nos apresentem debaixo de um tal aspecto, ao menos sustente-se em abono da verdade que o antigo adscrito seguia sempre, de transmissão em trans missão, a geira de terra a que andava ligado. Não tinha voto, nem o cumprimentavam em maré de eleições, como detentor de uma molécula de soberania. Mas, perpetuamente fixo ao solo em que nascera, o pobre servo da gleba, transitando de proprietário em proprietário, era – concordemos –, no relativismo da sua negra situação, bem mais venturoso do que o obreiro contemporâneo, porque não lhe faltava nem o tecto nem a subsistência.
Em combate desigual com a Máquina que o vence em toda a linha, eis o que não acontece com o operário do nosso tempo [p. XVI]que, vítima da tumefacção capitalista, ou se sujeita como um invertebrado inerte aos caprichos sem regra da Oferta-e-Procura, ou então marcha direito para a utopia revolucionária, com a inteligência elementaríssima mordida de milénios subversivos. Explorado pela gula nunca farta do oiro cosmopolita, quando não entretido pelos humanitarismos salivosos da miragem internacionalista, ele é eternamente, na oficina ou na barricada, a matéria bruta que se coloca como degrau de ascensão, ou para as delícias da confiança bancária, ou para os triunfos sórdidos dos agitadores profissionais. Falharam e continuam falhando as prestidigitações habilidosas dos arautos da Democracia. E o produtor, dando pelo ludíbrio, já entra a perceber que só nos quadros corporativos é que há-de achar a armadura vindoira dos seus interesses atropelados.
Derrota-se enfim o individualismo económico, filho dos Direitos do Homem e fonte perene de deperecimento e expoliação. Corrigidas as aparências anárquicas que aqui e além o acidentam ainda, o sindicalismo, sendo por todo o lado o regresso a uma sábia metodização do Trabalho, levanta-se de ora avante em face do futuro como uma norma enérgica de Disciplina e Competência. Consagra a diferenciação profissional e atribui autonomia aos vários agrupamentos técnicos. Por isso já não se esquiva a proclamar a necessidade de um permanente traço de coesão que ao centro assegure a [p. XVII] equipolência pacífica das diversas organizações sindicais. Cai-se deste modo na reabilitação estrondosa da Monarquia.
São da leitura corrente os formidáveis estudos filosóficos de Georges Sorel. Pois com Georges Valois e Edouard Berth a penetração sintética do ilustre doutrinário atinge as culminâncias do mais acabado espírito construtivo. A hipótese da Realeza-Operária, com o Príncipe mestre supremo do Trabalho, desceu já das controvérsias serenas dos intelectuais para os programas da acção imediata. Falido o equívoco liberalista em cem anos de prova abundante, é à ordem tradicional que se volta, não como uma devolução obscurantista em que prevaleçam misoneísmos inferiores de atrofia, mas como um acto de aceitação consciente para com a velha experiência das gerações extintas, que guarda com ela a chave misteriosa do nosso determinismo pessoal e colectivo.
Tão extraordinário que se revele este passeio pelos arraiais da sociologia, eu não o dispensava para varrer de pronto certos preconceitos dogmáticos com que se contradizem entre nós as virtudes evidentíssimas do princípio hereditário. Não só lhe recusam os respeitos que lhe devemos como agente primacial da formação da Nacionalidade, mas vai-se até ao ponto de se invocar o municipalismo característico da Raça como a condenação sem apelo dos regimes monárquicos em geral.
Eu [p. XVIII] não desejo desencadear, embora de baixo de um mero prisma científico, as susceptibilidades excessivas da psicologia dominante. O que não posso, todavia, consentir é que corra em julgado a sentença sectária que atira um risco de desprezo por cima da obra grandiosa dos nossos Reis – enquanto foram reis. Será talvez um assomo de coragem mental reconhecer a divindade dos deuses, quando os deuses caíram na desgraça. Será! Mas parece-me que não fica mal à minha mocidade ser desassombrada e sincera.
É bom advertir, contudo, que, reivindicando para a Realeza o papel decisivo que ela exerceu na formação da Nacionalidade, eu estou longe de me subordinar aos subjectivismos perniciosos de Oliveira Martins. O profundo iluminado da Vida de Nun’Álvares, através da sua tão querida teoria do Acaso, considerava-nos apenas como uma pátria inventada pela cobiça esperta de meia dúzia de aventureiros coroados. Bem opostamente, eu avanço nas passadas de Teófilo Braga, mas só naquela parte em que Teófilo defende as qualidades formosíssimas do Luso e inventaria as aptidões ancestrais que já do fundo dos séculos nos fadavam para povo livre e glorioso. Não somos um improviso das circunstâncias, desgarrados da incorporação no maciço castelhano por favor de ninguém. Dentro de nós, nas penumbras da nossa avoenga, reside, com a própira razão de ser da nossa personalidade, a razão inviolável do separatismo que sempre nos [p. XIX] individualizou. Já na Púnica o poeta Silius Italicus assinala a eterna divortia que dividia Iberos e Lusitanos. É do sentimento constante de uma diferença que o Instinto de Pátria se origina. Pelos merecimentos inatos da Raça nós ganhámos a dignidade de país independente. Os nossos Reis, erguendo-se à testa dos nossos recursos nativos e coordenando-os por meio da sequência sucessorial de uma família, é que nos conferiram a duração e a continuidade, sem as quais é positivo que ficaríamos em metade do caminho.
Compreende-se assim o significado que eu atribuo à missão histórica da Monarquia. Em referência à aliança das behetrias e dos ópidos, da qual a Pátria resultou, o seu valor não é outro que o daquele poder centrípeto que numa maré longa de pragmatismos e verificações, como é a actual, os próprios sindicalistas lhe estão reconhecendo. A função específica da Realeza para com as primitivas mancomunidades agrárias, equacionando-as e fazendo-as convergir para um mesmo destino, corresponde, com efeito, à regra de equilíbrio e isocronia que a ofensiva económica hodierna acaba de descobrir nesse órgão insubstituível de ponderação social que é o Rei.
De anacronismo desacreditado pelas fantasias desimpedidas do Progresso-Indefinido, eis que assume o viço invencível das coisas imortais. A nevrose atrabiliária da Revolução provocou angustiosos problemas que, longe de os solucionar, cada vez os [p. XX]agrava mais no prosseguimento da sua curva fatal. Como ontem, durante a carregada elaboração mediévica, a Monarquia oferece-nos a riqueza ilimitada dos seus recursos naturais. Ela é uma criação realista da sociedade, marca a saúde dos povos e mantém-nos em boa higiene política. Um pre conceito escusado! – eu sei que é a resposta de M. Bouteiller, vertido para vernáculo em quantos perus enrufados gaguejam para aí a cartilha decadente dos Direitos-do-Homem. Mas seja então um preconceito! Não nos esqueçamos, porém, que já Taine categorizava o preconceito como uma espécie de razão cujas razões se ignoram.
O negativismo étnico e a superstição da Liberdade são nesta pobre terra, desassistida da mais rudimentar cultura, os polos falsíssimos entre os quais se desdobra e toma posturas a inteligência indígena. A visão da nossa história entorta-se em prevenções rancorosas e em miragens inimigas que desvirtuam os grandes rumos da alma colectiva. «As nações perdem-se mais pelo erro do que pelo vício» – escrevia Le Play à boca dos desastres de 1870. Nós sofremos um tratamento errado que, a persistir, nos arremessará sem remédio para uma vala ignóbil em que até os epitáfios hão-de ser um sarcasmo. Surpreendidos pelas abstracções brilhantes do Humanismo, a febre egotética da Renascença empurrou-nos para a [p. XXI] tragédia da Índia, cheios de megalomanias esplendorosas. Quisemo-nos regenerar mais tarde – é verdade. Mas os areais de Alcácer, que não puderam tornar-se a porta aberta para uma existência direita, ensinaram-nos ao menos a temperar na expiação as cordas líricas do nosso génio adormecido. Seguiram-se colapsos, houve intermitências de vigor. E vai que talvez viéssemos a alevantar cabeça se o romantismo gaulês nos não salteasse em toda a fúria da sua desorganização do Sentimento.
Tutelados por incríveis quimeras exóticas, hoje desconhecemo-nos. Somos tal como o sonâmbulo que anda, mas automaticamente. No vazio absoluto em que um dia démos connosco, ao cabo de nos desbaratarmos atrás de mentiras doiradas e de cantigas pérfidas de sereia, entrou-nos até à medula dos ossos o vencidismo dos inúteis, que era o primeiro passo para a anulação cobarde dos suicidas. A série de desastres em que a pouco e pouco se nos foi definhando a virilidade, oh, nós não a denunciamos como o fruto maldito das importações estrangeiristas que intimamente nos dessoravam e dessoram o sangue! Antes a levamos à conta da nossa incapacidade de povo, fadado – dizíamos – mais para se conduzir em rebanho, que para empunhar nas mãos desajeitadas o báculo erecto de pastor. Já sem a esperança do Encoberto, a caravela lusitana ia-se ao fundo. Nas solidões do Mar-Tormentório só as almas-de-mestre lhe haviam de responsar a agonia, esquecido [p. XXII] nos hortejos de Enxabregas o bom São Frei Pedro Gonçalves de momentos melhores e de mais fortuna.
Tenta-se na crise presente uma séria valorização nacional. Apenas pela volta ao fio interrompido da Tradição se atalhará o despenho acelerado para o abismo. Tradição importa, não um ponto imóvel no Passado, não um enclausuramento em formas obsoletas e cristalizadas, mas sim a obediência consciente àquele determinismo de Raça e Meio que, gerado por inflexíveis condições históricas e físicas, não se aliena de nós sem se alienar conjuntamente a raiz da nossa própria personalidade.
Uma nacionalidade é um facto biológico, ao qual os caracteres hereditários, fixados pela recorrência atávica das gerações para o tipo único que as conforma, reveste de linhas que são tão suas, como é minha a disposição particular e incomunicável que a mim me imprimem os meus antecedentes familiares. Pensar em destruir esses caracteres, começando por ser uma revolta estulta contra as inalteráveis leis da ancestralidade, termina irreparavelmente na inutilização de quanto somos e de quanto queremos. O indivíduo só se explica como elo de uma cadeia que nunca se desata. A história, con siderada em globo, é a assembleia geral dos Defuntos e dos Nascituros. Nós não representamos adentro dela senão uma minoria insignificante, quase imperceptível. É na idealização do homem abstracto, tão abstracto como a Razão-Pura, que o erro metafísico [p. XXIII] do 93 se fortalece e ateima. Declara-nos libertos dos múltiplos vínculos de ordem moral e material que nos subordinam ao preceito provado dos Avós. E, de desfrenação em desfrenação, tesourados os laços colectivos da Comuna e da Oficina, chega-se ao ponto agudo de romper com a Família e com a Pátria. O libertário, colocado adentro do sofisma, é assim bem mais coerente com ele de que os democratas encartados da Soberania Popular.
Eu não compreendo o patriotismo da Revolução. Pátria vem de terra patrum, implica o reconhecimento dos valores afectivos institucionais do Passado. Não sendo um crente, Fustel de Coulanges mandava, contudo, no seu testamento que o enterrassem segundo os ritos da Igreja Católica. «Je désire un Service conforme à l’usage des Français, c’est à-dire un service à l’église. Je ne suis, à la vérité, ni pratiquant, ni croyant; mais je dois me souvenir que je suis né dans la religion catholique et que ceux qui m’ont précédé dans la vie étaient aussi catholiques. Le patriotisme exige que si l’on ne pense pas comme les ancêtres, on respecte au moins ce qu’ils ont pensé.»(1) Eis como se nos descobre a contornadíssima figura do autor de La Cité Antique nas suas disposições finais.
Também um dos nomes mais cotados do materialismo francês, o neurologista Jules Soury, declarando-se ateu irremível, confessava-se ao mesmo tempo católico e [p. XXIV] tradicionalista. Durante a existência, em nós nada há que não se transforme ou que não se renove. Somente os neurónios se conservam inalteráveis, do nascimento até ao óbito. Pois nos neurónios reside, como depósito das sensações estratificadas na ascendência, o motivo basilar da ideia de Pátria, que não é, consequentemente, uma ideia de convenção que se robusteça nos conceitos jurídicos da sociedade, mas antes uma realidade tão viva, tão palpitante em nós, como a nossa própria realidade. Sustentando esta razão fisiológica do patriotismo, Jules Soury batia-se pelas regalias civis da Igreja Católica em França, como guardiã secular da cultura autóctone. No aceso do processo Dreyfus lá o vimos a desmascarar o trama semita e pondo toda a sua indignação contra as cabalas sem honra que reabilitaram o Traidor.
Tem fundamentos parecidos o patriotismo revolucionário de ontem e de hoje? Oriundo do Homem impossível da célebre declaração de 89, considera as nacionalidades como um simples arranjo de interesses garantidos pela lei. São como que um estádio de transição, em que a divergência de fronteiras e o instinto de raça se hão-de apagar num quadro mais amplo e mais generoso, como é o da Nação-Humanidade. Não é outra a doutrina ortodoxa dos Imortais-Princípios. Há bem pouco ainda um político português, de ridículo e cordial recorte, assim o asseverava no ministério do Interior a pretos que o tinham procurado para protestar não sei contra quê e porquê. E regeu a [p. XXV] criatura uma cadeira de antropologia na Universidade de Coimbra!
Entende-se, pois, porque os libertários são, sem favor, mais sinceros e mais coerentes do que os governamentais paridos pelo solitarismo idílico de Jean-Jacques. Eles é que observam com pureza a verdadeira essência da liberdade teórica, advinda com as contemplações naturalistas do Ermo. Descendem em linha recta do nefasto espírito-de-análise, desse barbarismo sem nome nem dignidade que foi a vitória dos ideais protestantes sobre o claro entendimento do Ocidente. Vítimas de um conflito inapaziguável, julgam lutar, lutar, até às últimas, pela sua emancipação de bestas de carga. No apuro de contas, é contra si que lutam, é contra si que enclavinham as mãos torcionadas, porque na demência que os seduz e avassala, é contra a regra natural de sempre que nós os vemos alevantar, de raivas na boca e os olhos em sangue, bramindo como endemoninhados. Auguste Comte é que soltou um veredictuminexorável. «Insurreição do indivíduo contra a espécie» – exclamava o vidente da Rue Monsieur-le-Prince quando era preciso marcar com um ferro em brasa a balbúrdia sinistra da Revolução.
A causa aguda do nosso eclipse mortal deriva, sem dúvida, das máximas negativas com que a Enciclopédia superexcitou uma época de imaginação e melancolia. Vagarosamente nos ressarcíramos das feridas abertas pelo delírio ecuménico da Conquista. A Feliz-Aclamação, depois do aprendizado [p. XXVI] magnífico com que nos exercitaram sessenta anos de cativeiro, soubera-nos restituir os prodigiosos recursos do Luso. Mas aproximava-se a era das interrogações intelectualistas com Descartes por corifeu. O Discurso do Método chegaria a toda a parte, transportando para as categorias psicológicas dos países ocidentais o ácido corrosivo do «livre exame». O estadismo enfático do século XVIII apossava-se das direcções supremas da governança. À pluralidade riquíssima dos costumes e das instituições sobrepõe-se uma inteiriçada construção geométrica, em que a espontaneidade social se amarfanha e morre sufocada. O vento tumultuário do Contrato provoca a erupção da catástrofe. Descobre-se o Luar, amam-se as ruínas fingidas. E em seguida a um espasmo ideológico em que vai abaixo a Pátria Portuguesa no desaforado empenho com que lhe refazem o arcaboiço e lhe derrubam os suportes, as flutuações e as névoas tomam conta de nós. É um lento soçobrar de naufrágio nas águas podres de um pântano, com uma expressão alvar de indiferença estereotipando-se em cinismo.
Oh!, mas nem tudo se perdeu nas jornadas de 1830 com Mouzinho da Silveira aluindo as paredes mestras da Nacionalidade à força de reformismos e mais reformismos. O «Coração-sensível» traiu-nos nos seus entusiasmos de melodrama. A Carta eu a tenho como uma pregoeira de impudor, leiloando a casa dos vivos, enquanto não punha em praça o palmo e meio de chão [p. XXVII] onde os mortos jaziam. No embuste constitucionalista continha-se, de corpo e alma, a paranóia de tragicomédia que hoje nos leva desarvorados como uma nave sem rumo. O que nos aguarda ao termo da doida correria? Ausculte-se o sentir de Portugal num apelo decidido às energias que porventura escapassem intactas! Lancemos um grito de fé que congregue para a grande batalha todas as criaturas de Boa-Vontade! Não têm número os preconceitos que nos estorvam um gesto, que nos depõem em aposentação, convencidos de que o requiem final não demora aí. Mas se uma claridade súbita nos desembaraçar a estrada e nos conferir o esvaído dom de uma finalidade que nos aglutine na demanda do mesmo destino, esta apagada e vil tristeza há-de ser como a bruma fácil de Setembro esfarrapando-se pelas alturas, ao contacto de aragem.
Nem tudo se perdeu nas jornadas fatais de 1830 – dizia eu. É que, se o carnaval permanente dos políticos prostituía o decoro colectivo, reduzindo os mais nobres estímulos cívicos a formulários despidos de senso, uma legião de trabalhadores fervorosos não deixara, no entretanto, de arrecadar da lareira obstruída da Raça as desperdiçadas riquezas do nosso tesouro tradicional. A ignorância do Povo – bendita essa ignorância! –, resistindo à esponja uniformizadora dos improvisos administrativos, mantivera consigo, nos recessos mais interditos do seu subconsciente, o sinal divino do génio lusitanista. Vendida pelos bazares [p. XXVIII] torpes da Regeneração, em que Pacheco campava de braço dado com Acácio, a Pátria era como uma escrava anónima, neta de Santos e de Reis, cuja árvore de costado se houvesse perdido no desabar do prestígio antigo. Então, no afastamento fecundo das províncias que o urbanismo principiava a despaísar, é que os folcloristas e os arqueólogos, pelas seroadas intérminas do bom saber, acudiram, de ânimo contente e dedicação enlevada, ao património em almoeda. Se um dia Portugal tornar a ser Portugal, com os heróis afonsinos que libertaram o solo e estabeleceram a Grei, teremos que reverenciar não só os letrados e os demais burguêses de Quatrocentos que ultimaram a fábrica robusta da Nacionalidade. Ao lado deles, emparceirando com os nossos epónimos mais veneráveis, figurarão, por justiça dos vindoiros, os obreiros iluminados da Revista Lusitana e da Portugália. Alcemos os corações ao alto! Não é um povo moribundo o povo que sente por si o testemunho de Estácio da Veiga, de Martins Sarmento, de Rocha Peixoto, de António Tomás Pires, de Santos Rocha, de Fonseca Cardoso – para não falar senão naqueles que a morte nos arrepanhou. Os materiais encontram-se carreados com desvelo e com canseiras. Cabe agora à geração que sobe traçar o plano, meter o esforço à santa cruzada do resgate! Cumpre-nos, por um encargo indeclinável, congraçar numa síntese positivista os subsídios trazidos dos quatro cantos da esfera. A Verdade portuguesa aparecerá [p. XXIX] assim como um sistema prático de cura aos que já não crêem no soerguimento da Pátria.
É como que um breviário do que seja em esboço a doutrina nacionalista da hora futura que eu procuro realizar aqui, num exame rápido dos seus artigos fundamentais. Escolhendo este assunto para uma dissertação oficial, o meu desejo é ver discutidas no campo sereno da ciência as razões medulares do Integralismo Lusitano. Condensam-se num feixe minguado de páginas os resultados incontestáveis de tanto lustro de pesquisas e interrogações. O momento de afirmar chegou. Com a atenção poisada em monografias do mais variado eruditismo, eu pergunto se não soa o instante de se destrinçar o fio que entrelaça no pendor das mesmas conclusões a obra de um Teófilo Braga com a de um Adolfo Coelho – por exemplo –, tão antagónicas que se nos manifestam as suas posturas de escola e de especialização? Leite de Vasconcelos, Henrique da Gama Barros, e Sousa Costa Lobo completam Herculano, rectificam Oliveira Martins. Passou a fase negativa em que a corrosão liberalenga alastrava pavorosamente por cima dos nossos motivos de crer e de querer. Com o inventário efectuado com tanto amor por folcloristas e arqueólogos, a ninguém é já lícito desconfiar se somos um povo, se temos direito de sê-lo.
Denunciem-se os pessimismos e os ludíbrios que nos colocaram à margem do coma derradeiro. Pelo espírito histórico [p. XXX]rejuvenescido, restituamos à Nacionalidade adormentada o seu inviolável «meio-vital». Com Stein e Mommsen se formou a Alemanha moderna. O historiador antecedeu o político. Que nos importam os negrumes deste minuto pesado, com o estrangeiro do interior mandando entre nós? Quando Fichte proclamava nos seus discursos à nação alemã a superioridade universal do génio germânico, havia em Berlim um governador francês.
[p. 1 e 2] ### [II] A hipótese do Homo-Europaeus
[p. 3] A população portuguesa é no seu fundo antropológico reputada como a mais homogénea de toda a Europa. O tipo autóctone pertence ao grupo dito de Beaumes-Chaudes e encontra entre nós o exemplo mais completo no homem chamado de Mugem.(2)
O homem chamado de Mugem é o dolicóide meão, moreno e mesorrínico, que predomina ainda com maior ou menor pureza nas regiões insuladas da montanha. Identifica-se genericamente com o padrão mediterrâneo ou arábico (Homo-mediterraneus ou homo-arabicus) e filia-se nesse recuado mundo étnico que, desenrolando-se sobretudo à volta das zonas marítimas, se veio a revelar como possuidor de uma alta capacidade de cultura através da brilhante civilização egeana. São os pelasgos da tradição imemorial, óptimos fundadores de cidades, com um assinalado génio pacífico e construtor. Congregados numa vasta irmandade que tomava quase as costas atlânticas e rompia pelo Estreito adentro, cedo conheceram a navegação e o comércio, conquanto as suas preferências fossem sedentárias e agrícolas. É ao Levante, em Creta principalmente, que atingem o apogeu da influência, chegando a determinar as grandes direcções religiosas e artísticas do Oriente dominador.
[p. 4] Uma revolução se consuma assim nos âmbitos serenos da ciência. A miragem asiática desfalece de hora para hora; e o centro irradiador dos primeiros passos da humanidade é para os nossos lados que se desloca – para a misteriosa Ophiusa dos périplos fenícios. Perante os resultados concludentes da investigação arqueológica, a marcha do Sol, com efeito, não governa mais o rumo dos êxodos antigos. Não foi do Nascente maravilhoso que as ideias e as Formas, ainda na infância, partiram com vagares processionais com rumo às desvairadas ribas para onde Eurcpa fugiu, cavalgando o touro sagrado. É antes sobre o Atlântico que nós temos de procurar um dos mais ricos larários da Terra em expectação. Vão-se abaixo as impertinências monogénicas e atrás delas abala todo o aparato teórico com que mais de meio século de presunções e apriorismos se entreteve a improvisar origens. Está bem apeado de altar-mor dos Povos o majestoso Pamir com os seus rios sagrados banhando-lhe as faldas em adoração. O Ex Oriente lux! da velha invocação teúrgica já o não saúda como o berço místico das gerações ajoelhadas. Filhos dos deuses, gente eleita para o supremo ofício de iniciadores, os Árias já se não têm por descidos dos planaltos augustos – nem o Cáucaso, venerado como ninho paterno da família branca, se estiliza mais para a nossa contemplação com as linhas enigmáticas de lugar privilegiado. O alvião esfrangalhou o mito. A filologia não se condoeu e desfê-lo de uma vez.
Sabe-se hoje que as sucessivas civilizações europeias foram até à época da Téne(3) de pura extracção indígena. Uma forte cultura neolítica se desenvolveria em leque, segundo Salomon Reinach, com eixo de apoio na Europa central ou nórdica.(4) Desse ponto, problemático por enquanto, se despediriam para a periferia os admiráveis embriões que vieram depois a adquirir suficiência própria, mal raiou o [p. 5] conhecimento dos metais. Imaginou-se por largos tempos que a religiosidade, a agricultura e a indústria não passavam de importações comunicadas da Ásia por formidáveis massas humanas, marchando lentamente para a ocupação do Orbe. Porém, o vaso classificado de Furfooz,(5) de atestada precedência quaternária, invalida a peregrina hipótese sem mais embargo nem apelação.
As sepulturas do Solutré, por outro lado, mostram-nos o culto dos mortos exercido já com intensidade na transição mesolítica do Ocidente. Não resiste à mesma contraprova a opinião, longamente professada, de que os animais domésticos seriam introduzidos aqui por bandos exóticos. É que o cavalo e o boi não representam uma espécie zoológica localizada em qualquer rincão favorecido da Ásia. Achavam-se espalhados no estado selvagem por todo o nosso continente. E a sua domesticidade, como a do cão, do porco e dos outros animais congéneres, abona-se à farta pelos restos recolhidos em bastantes estações pré-históricas, garantidas pelos mais rigorosos caracteres de autoctonia.(6)
Mas onde o desbarate é ruidoso é no campo da linguística. Demite-se o sânscrito da dignidade de língua-mãe, apurando-se que o lituano é bem mais anterior nas embaraçadas genealogias idiomáticas.(7) Comparadas as diversas línguas europeias com essa respeitável sobrevivência, vê-se que lhe guardaram com aproximação a morfologia e a fonética, sem que demostrem parentesco mais velho com a língua suposta dos Árias. A crítica encarniça-se deveras em denunciar o equívoco. À queda do sânscrito segue-se a dos Vedas e a do Avesta como literatura inicial da humanidade. As mitografias engenhosas de Max Müller esboroam-se irremediavelmente. E nós ficámos sabendo por [p. 6] trabalhos notabilíssimos que o Ramayana não ascende talvez a 1000 anos antes de Cristo.(8)
Criaram-se ilusões sobre a remota antiguidade da escrita indiana. Pois actualmente apenas se considera como uma derivação dos alfabetos grego e arménio, de data posterior a Alexandre Magno. É também a data do Avesta, depositário dos tesoiros teogónicos do Turan. Coincide a sua aparição com a renascença persa operada sob os Sassânidas três séculos depois de Cristo, sendo o livro sagrado da religião contemporânea dos Acménides. Penetram-no elementos morais e filosóficos, devidos a um contacto evidente com o judaísmo e com o belo espírito neoplatónico. A redação é em çerad, idioma morto, de exclusivo emprego sacerdotal.(9)
Igual proveniência asiática se quis atribuir à metalurgia. Fixou-se em Malaca e em Banca a sede de importantes jazigos minerais que alimentariam a Europa durante os alvores do metal. Mais uma ficção que se pulveriza, batida pela realidade crescente! A Península, opulenta de cobre, prelimina o esplendor do período bronzífero. É às Cassitérides que as naves rudimentares dos Atlantes vão buscar o estanho necessário ao fabrico do bronze. Propulsores de uma ampla faina mercantil que em nada se agradece às parcas transmissões semitas, os Albiões pesquisam e traficam ali uma espantosa abundância de minério. O movimento de exportação efectua-se para o sudoeste de Espanha – para Tartessus –, com roteiros assentes, bordejando as costas, e para o âmago da Europa pelas estradas fluviais do Ródano, Danúbio e Reno. A civilização de bronze sobe por isso entre nós a um ciclo bem mais afastado que o da chegada das [p. 7] vanguardas fenícias ao Mar de Norte ou Mar Crónio no século XII a.C.(10)
O mobiliário recolhido nas cidades lacustres da Suíça permite-nos recuar mais longe. Um povo que utilizava o bronze e dispunha de uma marinha apreciável já se estabelecera na Sicília anteriormente à guerra de Tróia – na Sicília dos Cíclopes e dos Listrigões da criação homérica. A civilização do bronze reveste-se, pelo exposto, de inteira autonomia no Ocidente. Instrumentos exumados no Egipto e na Caldeia denunciaram pela análise química uma proporção inalterável de nove partes de cobre para uma parte de estanho. É a liga que se observa com regularidade nos objectos desenterrados em toda a latitude oeste-europeia.(11) Não se pense, por conseguinte, na aclimatação da metalurgia. Cobre havia-o no Egipto, mas o navegador tírio atravessa precisamente o Estreito para obter o estanho que não se encontrava nas paragens levantinas.
Intima-se a cruz gamada ou suástica para se documentar a dimanação oriental dos artefactos metálicos da nossa cultura arcaica. No fim de contas, os mais antigos exemplares do tetracelo não atingem para lá do século XIX a.C. Descobriram-se em Hissarlik, não sendo o suástica mais idoso na Índia que a ocupação macedónica – ao que parece. Nos cortes realizados em estações da Assíria não se lhe apanharam rastos. Só num baixo-relevo de Ibriz se ostenta como insignia nas vestes de um personagem que é a olhos visto completamente estranho à civilização babilónica.(12)
Ao mesmo tempo, a passagem da indústria da pedra para o uso dos metais é afiançada nas explorações arqueológicas do Ocidente como um acontecimento normal que não oferece reticências nem saltos bruscos. Numerosos são os dólmenes em que [p. 8] as duas idades, uma no declínio, a outra apenas amanhecendo, coexistem em igual abundância de despojos. Enquanto se admitiu que ao neolítico sucedera imediatamente o período do bronze, a miragem orientalista pôde prevalecer em senhora absoluta. Pressentida, porém, pelo nosso Estácio da Veiga, a época do cobre afirma-se hoje como um termo indubitável de transição. À Península, povoada desde o fundo da pré-história por um enxame numeroso e diligente, coube uma actividade de destaque nesses prelúdios longínquos da civilização.
É que o homem da idade da pedra, dolicocéfalo e autóctone, foi portador de uma cultura brilhante. As ilhas do Atlântico já então se viam habitadas. A navegação aqui é infinitamente mais velha que as decantadas empresas náuticas dos mercadores de Sídon e Tiro. Cita-se Furti como a primeira feitoria fenícia nas Espanhas. Ora, quando os flibusteiros de Canaã atravessam as Colunas, os seus périplos instruem-se com os esclarecimentos dos marítimos indígenas, familiarizados de sempre com a via aquática que levava direito às Cassitérides. Mais arrojadas que as outras raças do Levante mediterrânico, as gentes manhosas da Fenícia arriscaram-se até às plagas de mistério em que a mitologia instalara o Orco terrível. Empurrava-as já o génio cosmopolita do vendilhão que mais tarde iria pelo Universo fora propagando as seduções do Bezerro-de-Oiro. Mas ao transpor os limites máximos do mundo conhecido, em vez de se defrontarem com os monstros marinhos da Fábula, atalaiando de noite e dia o rio Oceano, por cujas ribas desoladas os Manes se arrastariam aos ais, é com uma civilização assombrosa que se encontram cara a cara na sua ganância solerte de andadores de bons negócios.
De cá haviam de levar o alfabeto, que no Ocidente se evidencia em inscrições que sobem provavelmente aos últimos adeuses do neolítico.(13) [p. 9] De cá transportaram cultos e ritualismos, costumes e práticas sociais. Um apertado isolamento nos envolvia. Cuidadosamente o conservaram os nossos descobridores de acaso. Falhos de capacidade inventiva, como todo o semita, valia-lhes a inexcedível força de assimilação que caracteriza as imaginações sensíveis.
Mergulhados no silêncio e na sombra, nós continuámos a trabalhar para eles. E são eles que, apossando-se das conquistas naturais do nosso engenho, figuram perante os textos clássicos como os criadores de quantos dons de indústria e de sociabilidade a profunda alma atlântica ensinou às compactas massas humanas do período do bronze. Eis como se concebeu o demorado preconceito fenício que tanto vicia a bela mentalidade de Herculano e obliqua em perspectivas erróneas as conclusões do insigne Martins Sarmento, sem dúvida um dos grandes anunciadores da moderna corrente ocidentalista.
Pergunta-se agora: desfalcada dos atributos sobranceiros de dogma a excessiva preocupação monogénica de tantos e quantos doutrinários, a que é que se reduz o arianismo teórico – houve ou não houve, com efeito, um grupo étnico, mais dotado que os outros, detentor de faculdades mais agudas de percepção, ao qual estivesse reservado, como um presente celeste, a chave das primeiras marchas civilizadoras do homem?
Um problema de intrincada disputa se relaciona com tão legítima interrogação. Não são alheias a ele as mil e uma querelas que se desenrolam em torno da concepção evolucionista da Vida. Eu não quero chamar para as fronteiras acanhadas do presente inventário o debate de um semelhante assunto. Nem os elementos de que disponho me ajudam de modo a equacioná-lo com a requerida idoneidade científica. Não exorbito, contudo, se asseverar que a impossibilidade física do avô terciário é hoje recebida quase unanimemente como uma certeza entre as certezas. O achado de Dubois em Trinil não [p. 10] salvou do descrédito a fantasia romanesca do Precursor. Baldaram-se as fadigas apostólicas de Haeckel, tão depressa se lhe surpreendeu a falsificação das suas famosas fotografias embriogénicas. O pobre doutor de Iena, do alto do seu pontificado monista, viu-se compelido a declarações que lhe comprometeram para todo o sempre a reputação de cientista honesto. «Depois de uma aventura tão esmagadora, decerto que me considero inexoravelmente desprestigiado», confessava ele em 29 de Dezembro de 1908 no Volkzeitung, de Berlim. «Mas eu consolava-me se ao meu lado se assentassem no banco dos réus centenas e centenas de cúmplices que, biólogos afamados, cheios da confiança geral, usam e abusam dos mesmos processos.»(14)
O transformismo sofreu com a exautoração do patriarca um golpe mortal. Não admitindo para a origem da existência senão um tipo rudimentar de vida, provido, no entanto, de poderosas energias elaboradoras, abandonou-se à hipótese quimérica de um progresso indefinido, por virtude do qual os minerais passariam a vegetais, os vegetais a animais, rompendo estes pela monera acima e concluindo no homem ao fim de vinte e quatro estádios, assinalados sem maior cerimónia pelo professor alemão. Caía-se na geração espontânea – o que se pretendia era negar a evidência de um supremo acto criador. Tinham corrido mundo as descobertas sensacionais de Pasteur. Dominados, entrementes, pela obsessão materialista, três sábios categorizados, Pouchet, Joly e Musset, sustentaram que a experiência os conduzira a resultados contrários aos do seu ilustre compatriota. Durante um momento M. Homais respirou com alívio. Sol de pouca dura foi a alegria farisaica do boticário de Rouen! Um testemunho insuspeito surgia dentro em pouco da parte de Tyndall, cujas tendências antiespiritualistas se não desconheciam. Adepto das [p. 11] teorias novas em princípio, Tyndall acabou por confirmar as leis biológicas que Pasteur formulara, chegando à verificação delas por processos diferentes. «Não há na ciência experimental nada de mais positivo» – asseverava ele mais tarde em acto de contrição.(15)
Depoimentos de peso deram em se ajuntar uns aos outros. A paleontologia pela boca de Banco, director do Instituto Geológico de Berlim, veio dizer que não se conheciam antepassados ao homem, pois nunca seria possível atribuir a ascendência de todos os organismos vivos a um tronco único. Por outra banda, Charles Richet sustentava em público e raso que entre o primeiro dos macacos e o último dos homens se abria um fosso que ninguém transpunha. E Huxley, que se alcunhara de bulldog do transformismo, renegou-o depois numa conversão estrondosíssima.
Com Huxley é que aconteceu a deliciosa aventura do Bathybius. Era o Bathybius uma espécie de muco amorfo, agarrado às profundidades do mar, que pela sua natureza primordial e viscosa podia muito bem ser um produto espontâneo do protoplasma. Huxley fez alarde com a descoberta e dedicou-a a Haeckel, seu amigo, qui en avait grand besoin – ilucida a ironia mansa de alguém. Pois, transitados onze anos – o Bathybius alarmara o pensamento científico por volta de 1868 – o próprio Huxley assistia em 1879 a um congresso de sábios, reunido em Sheffield. No discurso de abertura, o presidente alude intusiasticamente ao Bathybius. Huxley, mal o ouve, pede logo a palavra. E é Huxley, pai do Bathybius, introdutor na biologia de uma monera tão alcovitada – é Huxley, diante de assembleia suspensa de pasmo, que conta com frouxos de riso a história divertidíssima da sua descoberta. Ai de nós, o Bathybyus não ia além de um pobre precipitado gelatinoso do sulfato de [p. 12] cal com alguma matéria orgânica à mistura!(16) Submetido ao exame do microscópio, revelou-se como uma mucosidade expelida por certos zoófitos quando os roçam os engenhos de pesca. Assim o observou Milne-Edwards nos seus estudos oceanográficos. No que viera a parar a glória do monismo! Já se lhe procurara até um ascendente. Das entranhas do Mar-Árctico se arrancara nada mais, nada menos, do que o Proto-Bathybius!
Georges Sorel tinha razão quando classificou as curiosas hipóteses evolucionistas de Haeckel & Cia. como contos mitológicos iguais àqueles que faziam as delícias dos antigos serões aristocráticos. «As consequências do alvoroço provocado por estes contos modernos, anota o filósofo, são de importância, porque os seus leitores convencem-se de que podem resolver-se todas as dificuldades que a vida diária nos oferece, da mesma maneira por que se resolvem todas as que existem na cosmologia. Provém daí a confiança insensata na deliberação das pessoas instruídas e que é uma das bases ideológicas da superstição do Estado contemporâneo.»(17)
Eis como o ludíbrio racionalista se socorre dos abusos derivados da doutrina de Darwin. A ela pediu a utopia revolucionária a justificação dos mais dementados gregarismos, tentando explicar o conceito milenarista da Cidade-Futura pelo sentido biológico da Evolução segundo o princípio do aperfeiçoamento ideal para que os seres tendem indefinidamente, através de alterações consecutivas e incessantes. A instabilidade arvorara-se em segura regra científica e sociológica. Não houve invenção subversiva que não se autorizasse com a nomenclatura pomposa do transformismo. Gerou-se a crendice baixa do Progresso que os caixeiros-viajantes ostentam pelos botequins em [p. 13] luxos intelectuais de ínfima marca. As chamadas «ideias-avançadas» ganharam foros respeitáveis, graças a legiões e legiões de primários alimentados de uma palavrosa cultura oficial. Eu não insisto no rosário de desastres a que as sentenças dogmáticas da Evolução arrastaram o período histórico que a guerra presente sepulta com duas pazadas e meia de terra na vala mortuária das coisas sem nome. Basta que assinale a emenda por que está passando o critério correntio de Evolução com as descobertas sensacionais de René Quinton.
«Evolução» já não significa «mudança», «modificação», mas antes «permanência, «fixidês». Toda a manobra afincada da Vida se empenha em manter integralmente as condições específicas da sua génese. É o princípio designado por lei da constância original dos seres. Réné Quinton, definindo-o, ensina-nos que o homem é um animal dos trópicos, não subsistindo senão no estado natural nas vizinhanças do Equador. «Son habit, sous les latitudes plus hautes», declara ele, «est secondaire et tout à fait artificielle ne le mantient que grâce à des vêtements protecteurs qui ménagent son rayonnement et à l’usage du feu, par lequel il élève la température du milieu ambiant. Comme les végétaux des tropiques qu’il cultive industrieusement, l’Homme sous nos latitudes et plus de dix mois de l’année ne vit qu’en ‘serre chaude’.»(18) Para os que dobram o joelho em frente do fetichismo aparatoso do Progresso, a ciência aparece-lhes de súbito a informá-los – oh, que desapontamento! – que só por uma deficiência fisiológica o homo-sapiens se viu na necessidade de apurar o instinto e de suprir por tentativas dolorosas contra as exigências constantes do mínimo-esforço essa falha irreparável que dentro de nós deu sinal de si, logo que o resfriamento do globo entrou a prejudicar o equilíbrio térmico das nossas funções vitais.
Prova-se, afinal, que o Progresso reside na razão inversa da viabilidade física dos seres. [p. 14] Aonde é que se refugia assim, com um desacato tamanho, o nosso orgulho de emancipados, mirando-se e remirando-se numa civilização de aranhiços de aço, tão ancho, tão gordo de vaidade, que até parecia ter a Deus em casa, debaixo do travesseiro? Eu oiço desfalecer a voz papuda do Pinto Porto – «Quem não admirará as conquistas deste século? –, no fonógrafo destemperadíssimo de Jacinto Galião. Mas, em recompensa, desembaraçado o pensa mento de materialismos sectários, uma nova claridade nos comunica o verdadeiro senso do mundo, rasgando perspectivas inéditas à inteligência, quando exercida como meio de conhecimento, nunca como sacerdotisa suprema que oficie de De omni re scibili.
O homo-sapiens desce de pronto para homo-faber. A luta contra nós mesmos – a luta inapaziguável contra as seduções da menor fadiga – leva-nos a batalhar duramente, à chuva e ao sol, de noite e dia – «Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto», manda a palavra divina –, para que obtenhamos da hostilidade da natureza a permissão custosíssima de prevalecer. O fundo optimista das pregações democráticas, com os paroxismos líricos do cidadão de Genebra proclamando a bondade nativa do homem, não é senão o vapor de um sonho tonto com que se procuram sobredoirar as imposições draconianas do streuggle. Bem pelo contrário, baseada na deficiência dos nossos recursos, a guerra é o motivo primacial da Vida, envolvendo, com um empenhado trabalho selecionista, a defesa sanitária de nós próprios contra os apetites rebeldes que – sereias a amolentar-nos – a cada hora nos convidam a não agir. Por isso o conteúdo pessimista das religiões, preceituando a inibição como regra mais aceitável de melhoria moral, não só se combina com o propósito conservador da Espécie, como serve, da única forma perdurável e eficaz, a valorização crescente do vertebrado anónimo que, pela ideia da renúncia e do ascetismo, se possuiu de uma finalidade e pôde com ela vencer as sombras da sua noite inferior.
[p. 15] As directrizes projetadas pelas conclusões de René Quinton, modificando o sentido caprichoso da Evolução, acabaram por desvanecer a fantasia de Mortillet que inferira dos sílices de Thenay e de Ota a presença de um indivíduo que se inclinava de simpatia para os lagos e já obtinha o fogo pela percussão da pederneira. Seria o Precursor, destinado tão somente a «ennuyer les cures». Na distribuição graciosa do seu inventor, coube-nos um – o Anthropopithecus-Ribeiroi, em homenagem ao general Carlos Ribeiro que andara pelos vales do Tejo arrepanhando bocados de rocha, com indícios de corte intencional. Trata-se de uma novela como tantas outras! E é com indignada veemência que o ilustre Lapparent acentua que uma criatura que fazia como Mortillet profissão de ciência positiva não recuava em «créer un nom de genre pour désigner un animal dont il n’existait pas le moindre vestige».(19)
Parecida, só a história alegre dos eolitos. Teve aplausos e foi moda, na Bélgica sobretudo, a corrente sábia que se entreteve a prefaciar o período paleolítico como essa nova idade pré-histórica. Travaram-se pelejas, tremeu Tróia. Mas, no grosso da contenda, quando as bibliotecas se pejavam de doutoralíssimas dissertações e Bizâncio ressuscitava nos domínios da arqueologia, salta de chofre a notícia da fabricação espontânea dos misteriosos calhaus em que se pretendia descortinar os traços mal ensaiados de uma indústria mais rudimentar que a da pedra lascada. É uma anedota muito comprida, que me desviaria do meu roteiro, se a contasse.
Basta saber-se que a questão morreu estrangulada em apartes de facécia, ao divulgar-se a notícia de que sílices como os eolitos famigerados do arqueólogo Rutot se produziam numa oficina de ci mento em Guerville, onde os estratos de pedra deixados por assimilar dentro das cubas tomavam exactamente as mesmas formas e a mesma [p. 16] configuração. «Or ce que l’appareil de Querville acomplit en vingt neuf heures, grâce à la rapide rolation de là herse, les rivières quaternaires l’ont fait aussi pour leur compte, plus lentement, sans doute, mais en se repprenant à bien des fois.»(20)
Pois o falado e refalado homem fóssil abala como os eolitos, toma por caminho igual. O mâchoire celebérrimo do Moulin-Quignon sumiu-se já das reflexões científicas, e não tardará talvez que a antiguidade das raças ditas de Cannstatt e de Neandertal transite de generalização exagerada para os limites mais comezinhos de uma observação incompleta. Não se compreende com rigor que, dos restos de um crânio apenas e do exame circunscrito de um esqueleto que circunstâncias ignoradas podiam ter inumado em jazimentos arcaicos, se deduzisse toda a reconstituição de um tipo étnico que, a avaliar pelos pormenores descritivos em que os especialistas se extenuam, era como que uma realidade de hoje em dia, passeando por aí ao sol claro, ombro a ombro connosco.
Correm a tal respeito as apreciações mais divergentes. Mas a maioria propende a classificar como duvidosas essas peças osteológicas e encará-las como pertencentes a tempos menos recuados. Só em 1835, cento e trinta e cinco anos depois de ser achado, é que o crânio de Cannstatt recebe a primeira alusão. Discorrendo acerca dos fósseis mamelóides do Wurtemberg, Jaeger refere àquela data que num museu de Stuttgart se encontravam uns fragmentos de crânio, recolhidos, segundo indicação local, de mistura com uns vasos antigos no ano de 1700. Nada se conhecia já então das condições do depósito. Que subsídios de crédito habilitavam, portanto, a ciência a emitir um juízo seguro, quando decorrera mais de um século sobre o aparecimento de tão minguadas provas, para que se edificasse com elas uma certeza antropológica como a que se inculca no homem qualificado de Cannstatt?
[p. 17] É análogo o caso do esqueleto de Neandertal, consagrado com ruído pela escola de Mortillet como parente próximo dos grandes antropóides do terciário. Treparia ainda pelas árvores com a maior ligeireza, como parecia demonstrá-lo a sua conformação óssea. Não faltaram nem croquis nem notas de habitat – numa imaginação pródiga de romance-folhetim. No cabo, esmiuçadas as circunstâncias da proveniência, em seguida a memórias e memórias que guarneceriam uma livraria inteira, apura-se que ninguém estudou in situ o esqueleto de Neandertal, nem tão-pouco se procedeu a uma séria análise petrográfica da caverna em que fora desenterrado.(21)
Reduzido assim a proporções cada vez mais infelizes, com a desonra crescente do homem fóssil, o Precursor foi descaindo de dia para dia num ridículo inexorável. Primara por momentos nas mentalidades obstinadas. Desfalecido, porém, o clamor do sucesso, diminuíra-se, diminuía-se ao ponto de não ser dentro de breve senão uma grossa caricatura simiesca, de regresso ao simples mito – ao vago nebuloso de uns tantos cérebros, de onde jamais devera ter saído. Agora René Qninton termina a exploração. Debruçado no laboratório e à face dos dados fornecidos pela anatomia comparada, não só nos ensina, contra os dogmas correntios do transformismo, que o homem não é o verdadeiro termo da escala dos Vertebrados, como também nos revela que os Voláteis são orgânica e cronologicamente posteriores aos Mamíferos – em contraposição com as ideias ministradas pelo saber oficial.
Enquadrado na ordem dos Primatas, há mesmo Mamíferos mais recentes que o homem. São os Carnívoros e os Unguladas.(22) É, como se vê, o fim do devenir insaciável que, partindo da monera embrionária, apenas se considera consumado ao atingirem-se as linhas luminosas do entendimento. Com [p. 18] uma genealogia exclusivamente sua, o homem não coroa, pelo exposto, o esbracejar frondoso das linhagens zoológicas. É um ser procurando manter, como todos os seres, a respectiva constância original. Fixou-se. E desde que se fixou, foi uma espécie, não sendo mais que a perpetuidade de um tipo que se reproduz indefinidamente. Os orgulhos racionalistas, apontando-o como uma vitória das forças cegas da matéria, concedem-lhe, entretanto, não sei que virtudes geradoras de moral e de destino, que permanecem inexplicáveis sem a admissão de um quantum de mistério que M. Homais se enfurece a negar.
Como crente e em nome da cultura que tenho buscado para o meu espírito, eu aceito a concepção religiosa. Não é um refúgio cómodo nem uma desculpa hipócrita. Ignoramus et ignorabimus! – mais do que nunca exclama o sábio honesto. Não é pela inteligência que o homem se compreende e se justifica. A inteligência, unilateral e rígida, unicamente concebe o que é visível e geométrico.(23) O homo-sapiens não passa de homo-faber. Se enumera triunfos, é apenas no campo da mecânica. Anterior à inteligência e mais duradoiro de que ela, há um universo marulhante em que vivemos mergulhados e com o qual comunicamos, não pela razão – pela restrita e impotente razão, que é, na imagem perfeita dalguém, uma triste ilhota estéril assomando de um oceano profundíssimo, mas sim pelo nosso intuitivismo, que é para nós como que um admirável sexto-sentido. A biologia estabelece que a inteligência não é em relação ao homem um elemento classificador.(24) Contudo, não se utiliza de outro elemento a ciência materialista para instalar o homem como criador de si mesmo ao alto das incontáveis séries animais. Oh, vaidade das vaidades! Que sabemos nós – que é que nós somos?
«Aucun zoologiste ne se permettrait de [p. 19] faire servir à la classification des Carnivores ou des Proboscidiens, parmi les Vertébrés, l’intéligence spéciale dont témoigne le Chien ou l’Eléphant»(25) – declara René Quinton. Depois, segundo os bons doutores da matéria omnipotente e eterna – mais um subjectivismo que se esfarrapa pela penetração genial de Gustavo Le Bon!(26) –a inteligência não nasceria senão de uma acumulação de hábitos e experiências sobrepostas, tornadas estáveis à custa de se repetirem longamente. Amanha-se a teoria dos tabus, ou escrúpulos, para se explicar a afloração do raciocínio nos filhos bisonhos do antropóide terciário. Sejamos corajosos e sinceros! O escrúpulo, importando uma interdição sexual que, por economia de sensações, resultasse em proveito do encéfalo, não envolve consigo um acto de reflexão superior que, bem contra as vozes mais baixas do homem, então ainda bravio e engrunhido, ajudasse o Espírito a sobrepujar a Besta?
Ora, se o homem não passa em zoologia de um primata que está longe de encarnar em si a convergência do mundo animal; se a Vida, por um alto esforço celular, se mantém, e não se transforma; se a matéria se pulveriza e desfaz, não persistindo interminavelmente, como dantes se queria em pontificalismos aparatosos que já não podem nada – como é que se percebem desse modo os fenómenos psíquicos, tão ricos de amplitude e profundeza, se a inteligência é só um património de impressões accionando por automatismo quase? – Como é que a mera colaboração de acaso – do condicional e precário, eu, se viria a equilibrar no sentimento unânime de finalidade que de tudo se desprende e em tudo se constata?
O Universo-Máquina alui-se – não resiste às verificações pragmatistas do formidável ciclo que assim se inicia. E à maneira que a mistificação se atraiçoa e que para lá das assomadas mais próximas [p. 20] se adivinham as promessas de uma síntese formidável, eu não me envergonho de invocar uma passagem notável de Bourget, que é bem a epígrafe do livro selado em que se acha escrito o futuro das gerações presentes. «J’ai voulu ainsi vous faire toucher du doigt l’identité entre la loi de l’Église et la loi de la réalité, entre l’enseignement de l’expérience et de la Révelation. Dans son effort pour durer, la nature sociale aboutit précisément à la règle dont la religion a fait un dogme.» Eis como, no romance Un divorce,(27) se exprime o Père Éuvrard, defendendo do direito caprichoso de cada um o interesse sagrado da sociedade, que se apoia todo ele no constrangimento e na disciplina.
Com René Quinton por corifeu, as modernas doutrinas biológicas conferem a essa identidade a mais enérgica das confirmações. Às origens da Vida, o espírito de Deus flutuava sobre as águas – reza a letra da Bíblia. Não nos demonstra hoje René Quinton que a Vida surgiu do mar, que o meio marinho é a condição essencial do aparecimento de todo o ser vivo? É a mesma relação que existe entre o pessimismo teológico do dogma da Queda e a natureza negativa do Progresso. «Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto!» – dispõe a palavra divina. E o homem luta, luta sem tréguas nem clemência, para que a fome o não prostre, para que as cidades se alevantem, e a terra produza com fartura. A condenação ao trabalho representa como que uma culpa de nascença que não se compadece com a surdina tentadora da inércia, que é o encanto mais delicioso da nossa carne, sempre inclinada a clamar o Non serviam! simbólico da Rebeldia.
Não nos elucida René Quinton em outro campo que o homem, animal dos trópicos, tende a suprir artificialmente a descida de temperatura que o obriga a permanecer, fora daquela zona, como que em estufa durante a maior parte do ano? No Equador, onde se expande no estado natural, é exactamente aonde se conserva refractário às grandes forças [p. 21] civilizadoras. De sorte que a índole negativa do Progresso, coincidindo com as recordações místicas de uma queda primitiva, as quais são o património de todas as religiões, documenta-nos com uma evidência bem palpável a identidade, assinalada por Paul Bourget, entre o ditame que a natureza se cria e o verdadeiro sentido do Dogma.
Em harmonia com semelhante critério filosófico e para lhe concretizar o alcance, busquemos agora o natal remoto da primeira cultura humana. São os Árias os intitulados «povos-iniciadores». Transferido o berço dessa raça eleita das pregas recônditas do Hindou-Koueh para as longitudes ocidentais, em que jardim de maravilha, em que partida enigmática da esfera, a iluminada gente brotaria?
Rodeados de atributos excepcionais, os Árias instruem hoje as apologéticas pangermanistas como uns escolhidos de Deus para o desbravamento do Orbe. São como que de uma humanidade de previlégio, com sua costela olímpica. Os entusiasmos sonoros do conde de Gobineau, de H.S. Chamberlain e de Ludwig Woltmann os revestem farisaicamente do exclusivismo do génio, não deixando que lhes saia das mãos o erguido facho de resgate que sempre tem presidido às marchas decisivas da História.
Emoldurado no ambiente e na etnia, o Ária vem a corresponder – crê-se – ao Homo-Europaeus de Linneu, albus, argutus, inventor.(28) O temperamento linfático que lhe é peculiar, bem como a descoloração de epiderme que trouxe a família qualificada de caucásica a um grau vizinho do albinismo, indiciam a presença de um meio húmido e obscuro, com brumas constantes a invalidarem a acção química dos raios solares. Os textos clássicos apontam-lhe como sua a cor loira dos cabelos, o que parece ser também uma degenerescência derivada de [p. 22] circunstâncias especiais de luz. De braço dado com a geologia, intentam as investigações etnogénicas localizar o país originário do Homo-Europaeus. Pressuposta uma certa influência física, sem a qual os caracteres antropológicos do Ária não se definiriam assim, é para as bandas do Báltico que os olhos se voltam – para um extenso trato de terreno, na actualidade coberto pelas águas e que no quartenário seria o único recanto do nosso continente em que aquele determinismo mesológico se verificava.(29) Razão tinha o velho Jornandes em chamar à Terra dos Godos, ao sul da Escandinávia, vagina nationum, officina gentium. É a região denominada de Latham,(30) em homenagem ao sábio do mesmo nome, que tanto se empenhou em esclarecer a origem dos Árias.
Era um clima afável e marítimo, sem invernos prolongados nem estios que molestassem. A proximidade da corrente-do-Golfo predispô-lo-ia a uma temperatura média que, aparentada com o frio, servia de estímulo às aptidões embrionárias do indígena. Por isso Vacher de Lapouge cataloga o Homo-Europaeus como homem do Golf-Stream, significando-nos por intermédio de um satisfatório processo de indagação que em nenhum outro ambiente se facilitaria o linfatismo orgânico que, característica nova nos primatas superiores, individualiza inconfundivelmente o Ária, raptor orbis.
Espavorido o habitante de Latham por acidentes geognósticos tremendíssimos – e aqui se verifica a lembrança unânime de uma catástrofe preliminar que todas as religiões guardaram consigo –, foi já mais para o centro da Europa que os balbúcios da civilização ariana entraram a pronunciar-se. É a área geográfica a que se ajusta o lituano e rigorosamente a mesma em que subsistem as coisas vegetais e animais que constituem apelativos nas raízes arcaicas das línguas euro-índicas. É este um argumento, fornecido pela filologia, com o qual [p. 23] se desbaratam as construções gratuitas da miragem orientalista. De facto, muitos dos vocábulos, de reputada extracção árica, referentes a espécies botânicas e zoológicas, correspondem a realidades que a Ásia não conhecia antes de o homem loiro lá chegar.
Também os subsídios linguísticos nos ajudam a restabelecer a fase social que o Ária atingira ao tomar o caminho dos grandes êxodos. Não se trabalhavam os metais, nem o nome se lhes sabia. De modo que a difusão emigratória é mais remota que os alvores da metalurgia. A agricultura mal pegava a exercer-se. Mas ignorava-se ainda a cultura do trigo, cujo pé espigado os artistas do período magdaleniano figuravam já em copiosos desenhos. A marcha do Ária para a Ásia seria pelas estepes que correm a entestar com o Cáspio. Penetraria ele como conquistador nos escondidos plainos do Irão em pleno rumorejar de massas autóctones, de índole subalterna e passiva. Nos Vedas conserva-se memória da diferença de castas que o ocupante manteve, defendendo-se sempre de misturas perigosas. Subjugando pela guerra as populações aborígenes, o Ária é apelidado de «branco» e de «puro» na literatura sacerdotal da Índia e da Pérsia, enquanto as tribos escravizadas se tratam ali de «negras», «imundas» e «inimigas».(31)
Como etnia superior, o H.-Europaeus descobre-nos já – linfático e semi-albíneo – uma deficiência fisiológica que corrobora o conceito negativo de Progresso, desfiado dos ensinamentos de René Quinton. Animal dos trópicos, ou de uma zona equivalente à dos trópicos, desequilibrando-se a integridade térmica da sua constância original, cedo a precisão coagiria o habitante de Latham a suprir artificialmente, por um emprego calculado de energias, o decréscimo sensível de calor que o punha de repente debaixo de um céu brumoso, a braços com a humidade. Temos já um resfriamento que envolve a formação [p. 24] de uma ideia pessimista, avultada de sucesso em sucesso pelos terríveis espasmos que engoliriam ao Ária a região de nascimento.
Em combate com a lei imperiosa do mínimo-esforço, à maneira que se vencia, vencendo as dificuldades naturais que lhe impediam a expansão, o homem loiro ia-se capacitando da dureza de um poder indominável que exigia o sofrimento e que só pelo sofrimento gostava de se ver abrandado. A noção do sacrifício impôs-se-lhe ao espírito rudimentar, ganhando germe nessas mentalidades infantis a virtude virilizadora da renúncia. Um sistema de inibições se entretecia, hierarquizado e joeirado devagar pelos cultos desabrochantes. A religiosidade é um dom inerente ao género humano. Nasceu com ele, não marca um fenómeno que lhe seja posterior. Apenas M. Homais persiste na contumácia de Voltaire, denunciando a impostura dos padres na essência de cada rito. Os aforismos da psicologia moderna, graças à «terceira experiência» de William James, resgatam dos adjectivos estultos de certos pensadores de barraca de feira um tão profundo e tão intenso elemento de actividade interior. Se não se contasse como um agente espontâneo e insubstituível dos valores morais do nosso eu – alterações de personalidade, presença súbita de reservas ocultas, nunca presentidas até aí – todas as modalidades infinitas do mundo psíquico, em que é que elas se volveriam perante a verificação quotidiana que as acusa incessantemente, e incessantemente as atribui à alquimia indecifrável da nossa elaboração subliminar?
As depressões barométricas haviam de acordar no indivíduo de Latham uma sensação aspérrima de diferença, a qual, retardando-lhe como animal o desenvolvimento dos apetites sexuais, lhe enriqueceria por derivante imediata o ainda restrito património encefálico. À tarefa seleccionadora da natureza juntava-se o uso do escrúpulo, dimanado da compreensão trágica da Existência. E porque a constância original dos seres ordenava a combustão externa, para que com a perda do seu [p. 25] calor específico não deperecessem gradualmente, é na batalha bravia contra os conflitos do meio que o homem branco – o homem iniciador, o filho dos deuses – se educa e se exercita, a fim de merecer um dia, lá mais para diante, as claridades augustas do génio. A raça menos favorecida pelo ambiente é desta sorte aquela que jornadeia à cabeça das demais. Segundo as conclusões de René Quinton, o Progresso está assim na razão inversa da nossa facilidade vital.
Adão em hebraico quer dizer «vermelho». Pela pigmentação acentuada, os homens primogénitos eram avermelhados. Só as influências mesológicas dariam a cor clara à família escolhida por efeito de um semi-albinismo. O fim da idade de oiro – da esvaída beatitude idílica, em que a Espécie se sentira acarinhada por um clima propício – é com os tumultos geológicos que preparam o quaternário o fundo real do dogma da Queda. Exposta a paridade da interpretação agnóstica com o pensamente teológico da Bíblia, eu vejo e admiro no conceito pessimista dos ideais cristãos a alegoria vigorosa do drama da Vida – desse drama em que nós nos enclavinhamos num duelo permanente connosco mesmos, sempre numa vigília aguerrida contra os acenos convidativos da inércia que, dormitando nas criptas infimas do ser, só trabalha pela nossa desagregação irremediável.
As conquistas do positivismo, que do nome seja digno, empenham-se hoje na restauração planetária dos respeitos devidos a enormidade da regra que preside ao papel coordenador da Igreja, nossa Mãe. «L’avenir aux plus chastes!»(32)– promete em judeu incarniçado, Salomon Reinach, como que o sous-Renan(33) do criticismo hodierno, quando pega no antropóide terciário e o conduz através de suposições gratuitas, de tabu em tabu, de interdição em interdição, até à plenitude do homem nos factos erguidos [p. 26]da consciência. É o romance divertidíssimo do transformismo, rondando por circunlóquios enviezados que nem os corredores de um labirinto, só para não se inclinar em face do Mistério e ter que confessar a supremacia do acto criador, bem patente nos seus sinais invencíveis de obra de Deus.
Pontífice da idolatria orgulhosa do homo-sapiens, Salomon Reinach aceita com mais alegria uma intervenção estúpida do acaso que o influxo assombroso dessa altíssima Inteligência que governa o universo e lhe confere uma finalidade mais ampla que o destino pessoal do homem. E – ó insânia de cegos que têm olhos e não vêem! – o simulacro babilónico, de pés de barro e testa de oiro, o homem sapiens, que tanto desvanece o escriba virulento do Orpheus, se é bímano e não quadrúpede, se anda erecto e não dobrado, não é porque uma vontade geradora o determinasse, mas porque – riamos com a peregrina hipótese! – a um bando de símios errantes numa floresta, ardendo ela subitamente, lhes faltaria de chofre o apoio hereditário das árvores. A maioria não conseguiria sobreviver talvez à inopinada mudança de regime. Porém, os que lograssem vingar, rompendo o passo por si próprios – aqui caio, além me levanto –, preparariam o advento do homo-sapiens. Eu que não acredito no homo-sapiens e o encaro unicamente como um pobre homo-faber, sorrio-me com gosto da engraçada historieta. Bem observa Georges Sorel que as invenções engenhosas do transformismo fazem à gente minutos deliciosos, tal como as fábulas antigamente!
Manda, no entanto, a honestidade advertir que Salomon Reinach não se responsabiliza pela desencabrestada fantasia. Debita-a com prudência à conta de outrém, acrescentando que, apesar de tudo, a modificação material do meio não provocaria no antropóide as aflorações conscientes do entendimento. «L’évolution, la révolution, pourrait-on-dire, a du venir du dedans, non du dehors.»(34) As coisas jogariam [p. 27] certas, se admitíssemos o relegado critério eclesiástico da Revelação – apressa-se a prevenir o arqueólogo encartado do museu de Saint-Germain, não fôssemos nós desfiar das suas palavras o reconhecimento de qualquer força sobrenatural por parte de um primário de tão vasta nomeada.
Cientificamente enviável a solução da Igreja, o proeminente sous-Renan acrescenta que é ao tabu que se recorre – ao tabu, fundamento naturalista das religiões, ao tabu, que o obriga a reabilitar o ascetismo místico, desde que confia a chave do futuro aos que souberem ser mais castos. Mas quem formulou o tabu? Como é que o escrúpulo, adicionando-se ao escrúpulo, veio a estabelecer-se num código moral, em oposição cerradíssima com os impulsos animais do sexo? Como é que o sacrifício, a renúncia, a inibição, nos levaram à destrinça do Bem e do Mal? Como é que o Espírito derrotou a Besta? Como é que contra as imposições da lei do mínimo-esforço, nós agimos interminavelmente, se as vantagens alcançadas no ascender custoso para a inteligência valem como tantas outras deserções ao império bruto do nosso instinto?
Doutor em cepticismos galantes, Renan, o mestre querido, ainda assim não se esquivava a asseverar num precioso minuto de sinceridade que a religião é um produto do homem saudável e que o homem encontra-se tanto mais no verdadeiro quanto ele é mais religioso e mais seguro de um destino imortal.(35) Eis o segredo das acidentadas peregrinações humanas, ascensionando, subindo, depurando-se, sempre de olhos pregados num alvo posto para além dos nossos horizontes diários. A religiosidade é, pois, um método eficaz de obediência – uma escola única da vontade, em cuja lição constante as raças melhores dotadas se formaram. O homem branco ganhou a dianteira aos seus irmãos [p. 28] de origem, porque aprendeu a limitar-se, porque um defeito da natureza o suscitou para a compreensão unânime de que, para existir e triunfar, é necessário lutar e submeter-se. Oh, Paul Bourget atinava com uma sentença eterna ao escrever que «la nature sociale aboutit précisément à la règle dont la religion a fait un dogme»!
[p. 29 e 30] ### [[p. 31] III] O génio ocidental
Analisada no campo das presunções mais aceitáveis a hipótese teórica do aparecimento de uma primeira cultura, cabe agora preocupar-nos com o lugar que à autoctonia portuguesa pertenceu nesse amanhecer distante das civilizações. Caracteriza-se ela, como já se disse, pelo tipo etiquetado de Beaumes-Chaudes, que é o dolicóide meão, mesorrínico e de cabelos escuros, no qual alguns pretendem apurar uma proveniência do homem chamado de Neandertal. Não é, portanto, sinónimo antropólogico do Homo-Europaeus que, de alta estatura, cabelos loiros, leptorrínico, e mesato-dolicóide, se exemplifica pelo padrão dos Reihengraber segundo Hölder.(36)
Dimanado do littus saxonicum, o H.-Europaeus coincide entre nós com os intróitos da idade do ferro, povoando os cemitérios proto-históricos de Cascais, já da era luso-romana.(37) O H.-Europaeus penetraria aqui em som de guerra, principalmente no século V, com o espraiar da onda gótica. É o celta da história que, em quantidades diminutas e turbilhonantes, acabou por se transfundir nas camadas aborígenes, quando não se dizimasse em embates fratricidas.
Postas em confronto as duas realidades étnicas, convém já acentuar a virtude primacial do dolicóide meão. É ela a inteireza pasmosa que o [p. 32] mantém, homogéneo e puro, através de quantas invasões lhe passearam o solo natal. Subordinado por densas massas assoladoras, resistiu-lhes sempre com sete fôlegos, graças à sua extraordinária aptidão sedentária. Por via dessa qualidade, o nosso autóctone, que era de índole pacífica e produtora, não demorou a afivelar-se socialmente na forma comunitária de aldeia. Não busquemos em introduções exóticas a entranhada tradição municipalista da raça. O indígena que no decurso do mesolítico se nos revela em Mugem,(38) praticando o sedentarismo antes de conhecer a agricultura, trazia consigo o sémen da Pátria na propensão inata para a fixidez à terra.
Mas que dolicóide seria então o nosso, que emaranhadas genealogias lhe ditavam a nascença?
Eu não acredito no Precursor. Eis porque, com a exautoração absoluta do indivíduo de Thenay, eu não me socorro dos achados de Carlos Ribeiro em Ota, nem tento indireitar a ideação manquejante do Homo-Simius Ribeirensis. No entanto, jornadeando ao arrepio dos ciclos geológicos, um facto há – e singularíssimo facto! – que parece ter merecido as atenções conjuntas da paleontogia nacional. É que o habitante primogénito do nosso torrão descobre-se-nos contemporâneo das profundas comoções físicas, de que resultariam na expressão definitiva os terrenos estruturais das bacias do Tejo e Sado.
Ricardo Severo saúda por tronco recuado da Grei uma espécie de humanidade pré-adâmica, agarrada ao humus ainda fresco, de cujo íntimo brotaria como um produto nato.(39) A utopia evolucionista perturba a inteligência do obreiro ferveroso da Portugália. Porém, é certo que a Península, bem cedo um habitat convidativo, havia de resguardar no seu seio bastantes elementos da Vida que aqui e além soçobrava com a série de [p. 33] cataclismos de que a consolidação do quartenário se acompanhou. O arqueólogo dinamarquês Soplius Muller fala-nos, com efeito, de uma humanidade, nua e aferrada ao solo, que nas regiões acolhedoras do sul europeu marca o início da pré-história.(40) Outra não pode ser senão a humanidade pré-adâmica de Ricardo Severo e Paula e Oliveira. É uma variante da tese do senhor João Bonança – o exclusivismo monogénico transplantado para as orlas do rio Oceano. Tão sorridente que a teoria se me afigure, eu limito-me a considerá-la unicamente como um excesso de simplificação científica. Assim, recebo apenas por exacta a versão que nos reconstitui com materiais positivos o homem arcaico de Mugem durante o interregno mesolítico.
Sustentava-se o bom antepassado da pesca e da caça, sem jamais se desviar do seu lugar de assistência. Com a simpatia sedentária, a inumação dos mortos mostra-se um dos traços mais definidos da sua maneira de ser. Não os consumia na chama, como ao depois com a vinda dos ritos incineratórios; nem os abandonava à devastação das aves de rapina, como o Ibero vizinho. Enterrava-os somente, dando largos a um profundo instinto de adoração naturalista. Suscitado por um tão forte motivo de arredamento, não é para admirar que por sobre as sepulturas ancestrais firmasse o fundo da cabana e acendesse a fornalha vigilante. O «fogo», como centro da existência em comum, ateava-se em cima do «logo», onde os defuntos repousavam. O sangue manifestava-se, a lento e lento se descobria. As virtudes de apego que enlaçavam o pequeno dolicóide à courela natal desenvolviam-se em princípio fecundo de sociabilidade por meio do costume funerário.
Como nas horas mais cheias da história, a solidariedade entre vivos e mortos presidia à formação dos alicerces da Pátria. É que a [p. 34] necrolatria, estatuindo-se em apertada norma religiosa, ganhava para o grupo, débil ainda, uma robusta regra colectiva que, hierarquizada sob a chefia espiritual dos anciãos, reunia a todos e a tudo nos laços afectivos da mesma origem.
O conhecimento da agricultura acabou de organizar as preferências localistas da gente do Mugem. O solo, que a prendia a si com poderes hereditários, lhe dava agora uma razão maior e mais concreta de comunidade. Intensificados os vínculos desabrochantes do parentesco, uma outra ordem de relações se gerava. Gerava-se a vizinhança com um pacto minucioso de confraternização que na djemâa(41) berbere encontra a sobrevivência aproximada. É dessa minúscula célula, engrossando devagar e procurando levar ao máximo os recursos contidos no germe, que o Concelho há-de surgir mais tarde e com ele os fundamentos inalienáveis de Portugal.
Emoldura-se antropologicamente o nosso autóctone no ramo étnico designado por mediterranense ou arábico. Confunde-se no deslindar das suas atravessadas linhagens com o vasto formigueiro humano que enconchava o Mediterrâneo num apanhado que ia da costa europeia à costa africana. Trata-se do substractum líbio-ligúrico(42) que floresceu nas maravilhas da arte egenética e o qual, identificado com os pelasgos das reminiscências clássicas, por toda a banda se evidencia como um povo construtor, de índole pachorrenta e comunitária. Quando o Ária avança – o Ária que, devolvido da Ásia, corria a lançar na estupefacção e no saque o brilhantismo da velha cultura ocidental, é uma poeirada de morte que cai em plena actividade do homem meão – eixo da grande raça sociológica de que nos fala Hesíodo, segundo os fragmentos de Éforo.(43)
[p. 35] Conforme essa antiga fonte etnográfica, a Europa estava distribuída pelos Hiperbóreos ao setentrião, pelos Lígures ao poente, e ao sul pelos Etíopes. Os Hiperbóreos são os Citas, envoltos no lençol dos nevões eternos e batendo-se com grifos temíveis durante noites que duram como meses. Os Lígures acham-se em Diodoro Sículo denominados por Atlantes e ocupavam a estensa faixa que se desenrola ao longo do Oceano desde as praias do Mar do Norte até às raízes do Atlas.(44) Os Etíopes, adiantando-se para o meio-dia, propagariam ao Egipto e à Caldeia a melhor parte da sua civilização, enquanto se metiam pela Líbia adentro em núcleos aguerridos e numerosos. Tal era o ensombrado mundo líbio-ligúrico que se elevou com o período bronzífero à posse de uma alta civilização unitária.
Obreiro de canais e alevantador de cidades, praticava também a navegação. E cingido em povoados defensivos, as citânias e as antas, que coroam muitos cabeços do país, são entre nós a amostra de quanto o pequeno dolicóide valeu como portador de um grau sensível de cultura. O comércio do estanho e do âmbar, rasgando-lhe esteiras tanto terrestres como marítimas, o enlaçou numa estreita federação de interesses com os outros povos atlânticos, seus afins. É dele, como vimos, a instituição espontânea das mancomunidades agrárias. Pelo sentimento naturalista que o fixava à terra, depressa ascende às crepitações inspiradoras do animismo. É quase seguro que seria o inventor da palavra escrita. A mulher de Elche proclama a forma expressiva do Ocidente naqueles tempos que crescem para além do mais puro arcaísmo clássico.(45) A idade do ferro com os homens loiros de Hallstatt, de porte desempenado e coma flutuante, esmagaria esse admirável florescimento do dolicocéfalo [p. 36] médio, tão bom trabalhador dos campos como lavrador intrépido das águas.
Não escapara aos antigos a identidade de certas manifestações sociais dos Lusitanos com a dos Gregos da época helénica. Estrabão regista o moregreco que na Lusitânia se observava, e afirma paralelamente que se conservavam por cá recordações muito vivas das expedições do ciclo homérico.(46) Por outro lado, os cortes de Schliemann na Tróada salientaram as palpitantes anologias da cerâmica que lá se desenterrou com os despojos retirados das jazidas pré-históricas do oeste europeu. Os tipos industriais irmanam-se numa e noutra zona, desde a configuração dos vasos aos ornatos preferidos. Também as nossas grutas artificiais de Palmela repetem a linha arquitectónica das de Chipre e Creta, reproduzida em Pianosa e na Sicília. Os processos de construção equiparam-se. A abóboda de silhares divergentes da necrópole algarvia de Algalar é uma lembrança perfeita das abóbodas empregadas nas Cícladas e até em Babilónia. Briteiros e Sabroso revelaram-nos por seu turno fragmentos decorativos que são outros tantos trechos como os descobertos em Micenas e Tirinto. E não falamos do mobiliário avulso, principalmente nos simulacros frequentíssimos do ídolo neolítico, conhecido por Deusa dos túmulos, que é um traço importante do parentesco que ligava de perto a nossa civilização autóctone à civilização esplendorosa do Mediterrâneo levantino.(47)
Já Timeu se impressionara com a toponímia ocidental, e, encostado a ela, sustentaria como verdadeiro o vago rumor que atribuíra desde sempre a escápula dos Argonautas a uma aberta achada no Ponto-Euxino para o Mar do Norte, de onde os flibusteiros regressariam enfiando o [p. 37] Mediterrâneo pelas Colunas de Hércules. Nas colónias espalhadas ao longo da costa oceânica estava para Timeu a chave do enigma. Tácito, Plutarco, e Amiano Marcelino preocupam-se igualmente com esses gregos – prisci – do oeste-europeu. No testemunho de Justino, os galaicos presumiam de uma pomposa ascendência helénica. Não esqueçamos de que Estrabão, jornadeando entre os Lusitanos, lhes definira os usos civis e domésticos pelo moregreco. A semelhança étnica e social manifestava-se de tal maneira que Plínio não hesita em considerar as populações peninsulares como graecorum seboles omniun.
Os Venetos da Armórica tinham-se para com os do Adriático como provindos do mesmo tronco. Muitos dos viajantes romanos referem-se à existência de inscrições com caracteres gregos na Ligúria do Báltico. Tanto na Inglaterra – ubi stannii origo – como na Hibérnia fronteira, diziam esses testemunhos que havia Gregos barbarizados.
«Barbarizados» – segundo os autores clássicos, cheios do conceito político de Cidade e dominados pela ideia de que os povos ocidentais descendiam de êxodos destacados da Grécia-Mãe. Fazia-o supor a similitude dos costumes e das instituições. E com a demanda mítica do Velo-de-Oiro se explicava a dispersão, conduzindo a distância, em que se encontravam para com a metrópole os habitantes das ribeiras do Atlântico, ao estado de obscurecimento e de ruína que a miragem erudita classificava de barbárie.
É conveniente já acentuar que as empresas náuticas do Jónios são mais que posteriores aos episódios marítimos de que a Odisseia se compõe. A Odisseia não é por isso senão uma adaptação genial de quantas lendas corriam nos tesouros poéticos do Ocidente, em memória das navegações arrojadas do pequeno dolicóide. A prova é que Estrabão surpreendera em muitas tradições orais dos italiotas e turdetanos uma concordância extraordinária com certos passos homéricos. Ainda agora no nosso romanceiro se averiguam vestígios [p. 38] bem individualizados do ciclo que gerou a imortal rapsódia. Ele é a Bela-Infanta, com o marido de volta depois de riscos impossíveis de acreditar, e com a fidelidade da esposa posta em prova difícil. Ele é a Nau-Catrineta, com os mil horrores de uma tragédia sem nome, em que a antropofagia figura no cortejo sinistro da fome. No romance da Donzela na fonte subsiste nos tópicos fundamentais o quadro amorável de Nausica. A Galharda transmontana lembra-nos a feiticeria perversa de Circe; e o D. Marcos, do meu Alentejo, o encontro com o leal Eumeu.(48) Em Trás-os-Montes, a Bela Infanta entoa-se como se fora a continuação da Nau-Catrineta.(49) E na lenda bretã do Purgatório de São Patrício guardou-se o eco duradoiro da subida de Ulisses ao Orco terrível para que os manes da mãe lhe ditassem o rumo a seguir.
Há assim uma conformidade de sentimentos e temas líricos que da lareira da nossa infância às lareiras da Grécia contemporânea nos demonstra como é idêntico o substractum étnico sobre o qual o Ocidente se repousa.
Já na antiguidade gozavam fama os pios Hiperbóreos por enviarem de longe, das vizinhanças da Ursa gelada, as suas ofertas aos santuários famosos da Hélade. Os mitos astrais, com origem na trucidação de Helius e no suicídio de Selene, tiveram o berço na foz do Eridano, que tanto pode ser o Pó como o Reno.
Era para o Poente que demorava o império misterioso de Uranus. Bom será recordar a este respeito o que se contava nas extintas cosmogonias. A Uranus sucedera Hiperion, de quem nasceram Apoio e Phebe (Helius e Selene). Despedaçado um, morta de desespero a outra, os Titãs, filhos do casamento de Uranus com Titeia, apossaram-se-lhes da herança. Por partilha, Saturno e Atlas ficaram governando o Ocidente. Nas orlas de [p. 39] Espanha, entre os Cinetos e os Cempses, adorava-se a Saturno. O Crom-Cuachdas superstições câmbricas indica-nos a persistência cultual do velho deus. Na Irlanda representavam-no num grande monolito, ao qual se usava consagrar crianças em sacrifício, como vítimas mais apreciadas. Num bosque proximo a Tartessus é que os Titãs se teriam batido com os deuses, sucessores de Saturno. Os Graïci e os Seloï, que constituíam o nebuloso fundo arcaico das gentes ocidentais, praticavam a religião melancólica do marido de Cibele. Num recanto interdito do Mar do Norte se refugiou o deus destronado mais os cortesãos que o acompanharam na desgraça. De onde o chamar-se ao Mar do Norte, Mar Crónio. Também se apontavam as Canárias como o lugar da reclusão de Saturno. É a fábula deslocando-se ao longo da costa, sempre poisada no mar, mas pretendendo ajeitar-se à posição geográfica das diferentes estações humanas estabelecidas por aí abaixo.
Quando nos textos greco-romanos se alude ao povo de Saturno, compreende-se já porque se alude à imensa família apartada para as margens do rio Oceano que, sem princípio nem fim, abraçava contra si a Terra inteira. Toda essa participação do pequeno dolicóide nas mesmas crenças e no mesmo sentido de existência, certifica-nos bem da unidade de raça e alma em que o Ocidente se andava preparando para as conquistas maiores da História.
«Ainda que os filólogos entendam que o idioma céltico se prende mais com o latim do que com o grego», escreve MacNeill, «as antigas tradições irlandesas fazem-nos contemplar uma linhagem de deuses que, pelo número, pela variedade, pelo realismo dos seus atributos, pela abundância das lendas e da poesia que os celebram, se parece muito mais com os habitantes do Olimpo helénico de que com as divindades incolores, e quase despidas de vida, do culto formalista dos romanos».(50) Já César [p. 40] chamara Dis-Pater à potestade suprema que os druidas invocavam como fonte de todos os seres.
Dis-Pater recorda a etimologia sânscrita de Júpiter, Dyaus-pitar, em germânico Ziu. Confirma-se assim a teogonia que Diodoro Sículo desenvolve quando se ocupa dos Atlantes. O panteão grego repete a dramatização mitológica que o historiador nos transmitiu, desde a morte cruenta de Helius à dor de Selene, precipitando-se de uma torre. Conquanto o Dyaus-pitar dos Árias queira significar nas raízes euro-índicas a claridade, o dia, o Dis-Pater do druidismo representa o movimento cronológico da noite – é o Uranus que no céu védico equivale a Varuna, o deus sombrio. No cabo, a antítese é apenas aparente, pois se resolve por uma diferença de contagem na marcha do tempo, subsistindo, invariável, o mesmo tema de adoração. Júpiter, trazido do Oriente pelas avançadas do homem loiro, substitui como protector das hordas invasoras a divindade reinante entre a raça avassalada.
Uns, saídos do Nascente, ao sol-nascente veneravam como princípio universal de criação. Morando os outros a Poente, era o sol caindo no mistério da noite que se impunha aos arrebatamentos religiosos do profundo génio naturalista que sempre distinguiu o dolicóide meão. Mas, divergentes os valores rituais, os atributos sagrados permanecem, todavia, intrinsecamente intactos. É uma simples subrogação deles o que se opera com o triunfo do dolicocéfalo de alto porte. De resto, no mito de Saturno fugindo à revolta dos filhos, palpita bem a alegoria dessa ondulação de povos inimigos, sobrepondo-se em tribos guerreiras e erráticas ao pelasgo pacífico e sedentário.
O folclore reconstitui-nos poderosamente a afinidade mental e psíquica do grande viveiro que se insulava para as extremidades do Mar e da Terra – no belo dizer dos poemas de Homero. Obcecada com os planaltos esfíngicos do Irão, a miragem sabia só agora nos consente que o tomemos em conta e se procure por aí a incógnita de tão contravertido problema. Não cabe nos meus limites o exame [p. 41] comparativo do adagiário e dos motivos poéticos que todos os anos ressuscitam na lembrança das festas solsticiais, no desvario fálico de Maio-Moço, nas cantigas friorentas das Janeiras. Belofronte e a Quimera, Hércules e a Hidra, revivem com modalidades interessantes de particularismo regional na história da nossa honradíssima porca de Murça, no combate de Cuchulain com uma fera marinha, no urso de Berne, morto pelo duque de Zaehriengen. O imposto exigido pelo Minotauro aos atenienses perpetua-se no cavalheirismo de Tristão desembaraçando Cornualhes do Morhut de Irlanda que viera pelo pagamento do foro anual em rapazes e raparigas. Na Canção do Figueiral, Groesto Ansures reincarna Teseu. E com o conto peninsular do Tributo das cem donzelas é o mesmo elemento épico a perdurar na elaboração da sociedade neogótiea. São traços que mais uma vez indicam a identidade da raça de que Éforo nos dá notícia, socorrendo-se de Hesíodo. Para quê insistir, portanto, no rosário infindável de depoimentos que crescem de hora para hora com os vagares enlevados do eruditismo?
Deixou-se dito que as influências irradiadas da Grécia não são bastantes para nos entregarem o caminho de uma solução. Se alguém pretende manobrar com elas, é ainda a utopia culta que os humanistas beberam na convivência das letras antigas, mas que hoje não tem por si nem as luzes da tradição, nem as rectificações da arqueologia. Os gregos só aportaram definitivamente à Península com a erecção de Ampurias no século XI a.C., e a primeira colónia que assentaram na Itália não sobe para além das vésperas da Idade do Ferro. Abandonando-se à sua sorte, um comerciante do Arquipélago arribou a Tartessus na foz do Bétis (Guadalquivir). No regresso levaria aos compatriotas a nova das terras descobertas. É, pelo menos, a lição de Heródoto quando narra o naufrágio [p. 42] de Colaeus de Samos.(51) Depois, seguir-se-iam os Fócios de «Massília» (Marselha) que, abordando a Tartessus, tornaram aos lares, não obstante as palavras e os presentes de Argantonius, maioral da cidade, que os convidou a ficar.
Bem sei que Estrabão e Pompeu entroncam as populações ocidentais na dispersão dos guerreiros, após a empresa de Tróia. Ulisses fundaria Lisboa, avançando para as costas da Gália a propiciar os Manes numa caverna do litoral. Apontava-se até nas Espanhas uma povoação com o nome de Odisseia. Mas aqui é já o domínio da ficção, subordinada ao preconceito homérico. Com o andamento do estudo e das investigações, hoje nem a epopeia do divino aéde se localiza debaixo do céu luminoso da Hélada.
Com a prioridade sustentada da Argonáutica, a análise das fontes de Homero mostra-nos uma inspiração frequente desse outro ciclo nos errores penados pelo mais subtil dos gregos sobre as ondas do mar salgado. A Anaphe da demanda do Velo-de-Oiro coincide à maravilha na redacção de Apolónio com a Ogígia acolhedora, em que Calipso oferece ao herói o licor interdito da Perfeição. Simultaneamente, a geografia do Mediterrâneo quase que se ignora durante todo o emocionante drama marítimo. Nem o Egipto nem a costa da Líbia se entrevistam lá, muito embora numa referência vaga, numa alusão desmaiada. É sempre o Oceano sem fim, com Poseidon enfurecido, agitando o tridente. São sempre as plagas adversas, com a nave correndo desarvorada por entre perigos de morto, sem mais recebimento que o dos Listrigões e dos Cíclopes, semi-homens da fábula com falas duras como latridos.
Ora se a Odisseia se ressente do texto primitivo da Argonáutica, esta é, pelos trabalhos memoráveis de Martins Sarmento, nada mais que a adaptação de uma lenda atlântica, reproduzida em périplos [p. 43] fenícios, aos horizontes contraditórios do Levante mediterrânico. De modo que, desbaratada por métodos positivistas a miragem helénica, é para um período anterior, mais embrulhado na espessura dos séculos, que no presente as atenções se dirigem, na ânsia de lhe arrancarem o segredo do continente enigmático para onde a Virgem de Tebas abalou, cavalgando através das águas o toiro enamorado. Assim, ao preconceito grego, sucede o preconceito semita. Os mercadores de Tiro passam a conduzir por largas décadas o facho resgatador da civilização. Como corifeu dessa atitude científica, destaca-se Victor Bérard, para quem a Odisseia se reputa como um roteiro fenício, emoldurado à viva força numa topografia falsíssima. É ainda o defeito intelectualista que interceptou a visão aproximada que o ilustre Martins Sarmento se construirá do incompreendido mundo ocidental. Mas a ilusão desfaz-se de pronto, desde que se fixa o século XII antes da nossa era como a data do aparecimento das embarcações fenícias nas Cassitérides. Então já a Inglaterra atingira a plenitude da indústria bronzífera, com notáveis centros mineiros, remetendo os seus produtos para o interior da Europa pelas vias fluviais do Reno, Ródano e Danúbio; e para o sudoeste da Espanha pela travessia continuada dos mares.
Da chegada dos tírios à região insular do estanho encontram-se personificações míticas nas lutas de Álbion e Darcinus contra Melkart – o ardiloso hércules cananeu. De um episódio secundário da Argonáutica deduz-se bem a anterioridade da nossa civilização do bronze. É naquela passagem em que Fineu diz aos navegadores que não lhes hão de faltar nem guias nem informações na sua rota para Ea. A ligação da dinastia de Aétes – conforme Apolónio – com Phryxo, exilado de Orcomenos, consolida-nos a hipótese de uma apertada convivência entre os povos da concha mediterrânica e os seus parentes da entrada do Mar Crónio.
A escápula dos Argonautas pelos rios da Europa Central, a indicação do neto do rei Aétes, segundo [p. 44] a restituição magnífica de Martins Sarmento, acaba de nos convencer do amplíssimo trato geográfico preenchido pelo pequeno dolicóide do oeste-europeu. A narrativa simbólica justifica a distribuição étnica das tábuas de Eforo, ao mesmo tempo que nos revela para lá do ciclo presidido pelo génio fenício um outro ciclo mais recuado e mais espontâneo, que não é senão o período bronzífero, de natureza exclusivamente autóctone. Achamo-nos face a face com a actividade extraordinária do pequeno dolicóide, o qual, abrangendo na sua expansão o Mediterrâneo, cada vez se reverencia mais como portador de uma floração artística que em Micenas tem o crepúsculo doirado. É a raça neolítica a que o eminente Sergi atribui uma proveniência africana, dividindo-a em quatro ramificações – os iberos na Península, os lígures em França e na Itália, os pelasgos na Grécia e na Ásia Menor, finalmente, os líbios na Berbéria e no vale do Nilo.
Não se confunda a dolicocefalia do H.-Mediterranensis com a do H.-Europaeus, de quem pode muito bem ser primo direito, não lhe devendo, no entanto, senão assolações e hecatombes. Valores rácicos inassimiláveis – um, individualista e truculento, apaixonando-se todo pelo comando e pela presa, o outro, comunitário e produtivo, sempre agarrado à terra e ao grupo, é entre ambos que os dramas mais intensos da História se têm desenrolado tanto ontem como na hora actual. O H.-Europaeus, ao deixar as regiões natais, encaminhara-se para a Ásia pelas portadas fáceis do Cáspio. São êxodos que se sepultam na escuridão por enquanto. O Ária histórico manifesta-se no Ocidente a partir do século XII a.C., com os Aqueus que tombam de chofre sobre a sociedade egeana. Um segundo galão se lhes seguiria com os Dórios do século XI, sobrepondo-se aos Aqueus e acabando de destruir a cultura brilhante de Micenas. Da reelaboração dos elementos subvertidos resultaria mais tarde a Hélada clássica no esplendor dos seus traços imortais.
Mas o compatriota de Minos, vencido numa [p. 45] catástrofe tremenda, em que tudo – raça e civilização – se perdeu, a que antiguidade recuada remontaria? Navegador e industrial tão depressa se declara a idade de bronze, iniciada por ele, é inútil repetir que em nada se mostra tributário do homem loiro, dimanando da Ásia em tumultos de conquista. Possuía uma língua sua, como se deduz das inscrições de Praisos,(52) que não se resolvem por intermédio dos dialectos qualificados de euro-índicos, e às quais parece corresponder um idioma próprio, donde se comunicariam ao grego e ao latim certos vocábulos em que não transparece uma sombra que seja de derivação oriental. São sobretudo nomes de metais e de plantas, cuja existência se verifica unicamente entre os povos do Mediterrâneo. É o que acontece, por exemplo, com a palavra «vinho», que presupõe um protótipo egeano, accionando diversamente nas gentes exóticas advindas de longe, ou com o contágio lento do semita, ou com o avanço belicoso do H.-Europaeus. Também sucede que o Ária não conhecia o vinho antes de se aproximar do Mediterrâneo. A sua bebida usual era o hidromel, que se designava pelo mesmo termo com que se exprimia o mel. Depois, com o altear do grego, é que se transferiu para o vinho o vocábulo que primitivamente se aplicava ao mel.(53)
Aos depoimentos da filologia ajuntam-se com vigor as afirmações dos antropólogos no sentido de nos apontar entre o habitante do Egeu um fundo autóctone dolicóide e de porte médio. A braquicefalia, que porventura lá se observa, começou a traduzir-se numa época mais baixa que a arcaica, e sempre na proporção das misturas étnicas, atraídas de largo pelo viço de uma civilização tão cheia de recursos e de apetites como era essa de Creta.(54) E quando a ciência nos enumera os caracteres [p. 46] somáticos do contemporâneo de Minos, é bem o nosso aborígene que nós achamos diante. Pele trigueira, cabelos negros e corredios, talhe regular – eis como os depósitos osteológicos e os despojos picturais nos reconstituem o natural do Arquipélago, confinado, sem mescla ainda, na integridade do seu meio social e físico. É, pois, o H.-Mediterranensis em plena autonomia e no desenvolvimento das suas melhores aptidões. Pergunta-se agora se seria ele indígena, como o irmão da vertente atlântica da Península, ou só partiria destas bandas, com o alastramento progressivo da raça.
Historiemos. O neolítico, tão individualizado pelo ídolo feminino, peculiar ao Ocidente, viu a entrada em Creta dos ascendentes mais garantidos da genealogia egenética, talvez oriundos do litoral da Líbia, ou quem sabe se descidos da Tessália e da Trácia com os pelasgos nevoentos da tradição. Não olvidemos a tese em que Salomon Reinach estabelece como eixo das primeiras civilizações continentais um ponto indeterminado no centro da Europa, de onde o impulso se irradiou para a periferia, tomando a forma de um leque que se abre. Sendo assim, não nos repugna que os núcleos destacados da Líbia para as ilhas do Arquipélago se aliassem aí com outros bandos afins, brotados da intimidade dos Balcãs em procura de climas mais favoráveis. Quando a idade do cobre se evidencia, a unidade está consumada, não só pelo invariável substractum dolicocéfalo, mas conjuntamente pela convergência de todas as virtudes colectivas para uma cultura uniforme e robustíssima. São as alvas do legendário governo de Minos – o rei justiceiro, que resume em si o apogeu do período cretense, formidável na terra e senhor de tudo no mar.
Com a supremacia de Creta entrelaça-se o problema difícil do alfabeto, reputado pelos lugares-comuns da ciência como invenção dos fenícios. É uma questão obscura sobre a qual se não emitem juízos concludentes. Todavia, sem um alfabeto mais velho, pai dos diferentes silabários conhecidos na [p. 47] Antiguidade, não se interpretam nem se explicam os numerosíssimos letreiros votivos com que a Península tem enriquecido a epigrafia pré-histórica. Recorde-se a obra de Estácio da Veiga. No iluminismo com que o malogrado arqueólogo algarvio se abandona às mais tentadoras soluções, há hoje que respeitar verdadeiros estados-de-graça. Com base em documentos desenterrados na sua província, Estácio da Veiga entendia que todos os sistemas gráficos existentes precediam de um único sistema gráfico peninsular, já constituído na última fase da idade da pedra. É cedo demais para se ir dar aonde Estácio da Veiga deu consigo. Mas isso não invalida o penetrante espírito de previsão que, ao longo de compactas monografias, faz de Estácio da Veiga um insureccionado fogoso contra os abusos racionalistas do seu tempo e o sagra como um precursor dos mais altos.
Em abono das generalizações entusiásticas de Estácio da Veiga, ninguém ignora que o Ocidente neolítico atingiu por vezes notabilíssimos momentos criadores. Atestam-no os petroglifos do Alvão, tão profundamente comentados por Ricardo Severo.(55) Ainda que nos fins da idade da pedra não estivesse ordenado nenhum alfabeto, não nos restam dúvidas acerca do conhecimento e do emprego de sinais alfabetiformes que já então andavam preparando o amanhecer do verbo escrito. Os materiais obtidos naquela necrópole transmontana habilitam-nos a colocar a questão em condições de justo equilíbrio. Os neolíticos praticavam a epigrafia com emblemas variáveis, umas vezes ideográficos, outras vezes já fonéticos, deixando-nos adivinhar as formas alfabéticas do ciclo egeano. De sorte que o alfabeto, que foi pai de todos os mais alfabetos, pode considerar-se como expresso no silabário dito cretense, que seria um apuro dessas rudimentares e parciais tentativas, mais simbólicas que paleográficas.
[p. 48] É mais um reforço de alcance incalculável para a crescente síntese ocidentalista. A formação do alfabeto neste trecho escurecido da esfera denota a homogeneidade de raça e de civilização que tanto distinguiria o florescimento ao H.-Mediterranensis. O seu feitio sedentário é um indício psicológico de que só ele reunia as circunstâncias necessárias para se criar um agente tão poderoso de sociabilidade. Nunca o Ária, raptor orbis, o engendraria, preocupando-se mais em espoliar e escravizar do que em arranjar raízes e construir povoados. Detentor da produção do estanho, sem o qual não se fabricava o bronze, o mundo oeste-europeu, significado pelo pequeno dolicóide, espraiava-se desde as orlas do Mediterrâneo às ribas húmidas do Mar do Norte, contornando a Península pelos litorais do Atlântico acima. Ora toda essa extensão geográfica principia a ser farta em achados epigráficos de alta valia. Dos caracteres rúnicos aos gravados rupestres das Canárias, um mesmo facto se desprende e verifica. É a unidade étnica e social do primitivo «povo de Saturno».
Já víramos como a deslocação sucessiva do lugar oculto em que o deus se refugiara importava ao largo da linha, oceânica, correndo do Báltico às Afortunadas, uma referência insofismável às diversas latitudes em que o dolicóide meão estacionava, sempre perto do mar, olhando sempre o poente. Não é outra a direcção que leva a faixa europeia assinalada pela presença dos dólmenes. Desce ela das paragens setentrionais, com começo nas embocaduras do Báltico, e vai até às cabeceiras da África, para onde avança no rumo do Mediterrâneo, como que a indicar o roteiro seguido pelas vanguardas do nosso dolicocéfalo quando transpusera as ondas para ganhar as ilhas levantinas. Encontramo-nos – mais uma vez se prova – em frente de uma civilização pré-árica, para a qual se não consegue sentido, se nos ativermos aos critérios exclusivistas da sabedoria oficial, servida muito embora por capacidades como Maspero e Lenormant. Tardias foram, com efeito, as aquisições [p. 49] recebidas da Ásia, e se algum benefício a cultura oeste-europeia lhes deve é o intercâmbio de sensações e ideias que Creta representa, elevando as possibilidades nativas do H.-Mediterranensis à plenitude máxima pelo contacto diário com civilizações rivais e também brilhantes, como a egípcia e a assírio-babilónica. Em pouco se computa, porém, o alcance das sugestões alheias, quando se ponderam as influências idas da Europa com os deuses e os ritos, com o alfabeto e os metais. De tutelados volvêmo-nos em preceptores. E se rememorarmos o testemunho de Estrabão ao falar das reminiscências que se recolhiam na Bética sobre a civilização turdetana, velha de mais de seis mil anos, com leis escritas e uma literatura copiosa, reconstitui-se com a ajuda do viajante clássico todo o vigor e toda a laboração dessa numerosa colmeia de povos transitados para a posterioridade nos pelasgos míticos que trabalhavam o solo e erigiam as cidades. Ao mesmo tempo levanta-se uma ponta do mistério com o desbarato da celtomania cientista. O druidismo passa a filiar-se no fundo autóctone do oeste-europeu, não tendo o homem loiro, de grande espada de ferro, feito outra coisa senão assimilá-lo das populações aborígenes.
Aos Pictos da Irlanda se atribui com uma profunda comoção bucólica a posse dos íntimos segredos religiosos, por cuja virtude os padres gauleses prepararam na Antiguidade o desenvolvimento dos seus altos ditames morais.(56) É a extraordinária crepitação animista que cedo ensinou o Ocidental a enterrar os mortos, como que no vislumbre de uma ressurreição futura. Por cima da fossa familiar com mais segurança se acendia depois a fogueira dos vivos. Através desse acto de fé na força invisível do Sangue, realizava-se a solidariedade do indivíduo com as gerações – conforme os bons mandamentos de Auguste Comte. Ao limiar das idades, o intuitivismo assombroso de uma raça na infância [p. 50] encontrava assim para bordão das suas caminhadas a prática inconsciente do conselho que, miríades de anos volvidos, o patriarca do Positivismo atiraria como regra aos tumultos gregários desta época histórica no eclipse.
Laboratório incansável de energias, a índole pachorrenta do pequeno dolicóide deixou aos vindoiros a meditação de uma experiência tão abonada como é a sua. Dotado de raras qualidades de apego, o Ocidental teve o condão dos enternecimentos poéticos. A natureza o fadou com a brandura resistente dos povos agrícolas. Não exercia a guerra como sedentário que era. Brotara do chão como um produto nato, como um produto nato ao chão se afivelara, sem nunca desenlaçar o cordão umbilical. É representativo o caso do nosso indígena, descobrindo-se em Mugem pescador e caçador, mas já com hábitos fixos, quando o ciclo cerealífero vinha distante ainda. Tome-se a revelação do vale do Tejo como tipo geral do nosso homem arcaico. A necrolatria, professada por ele, ascende-o depressa a uma concepção espiritual superior, «Sidhi» ou «Aes Sidhe» – «os habitantes da colina» – é como em velho irlandês se chamam os deuses.(57) Muitos autores supuseram que os galaicos não reconheciam o princípio divino porque não possuíam nem templos nem imagens. Entretanto, rodeavam um determinado monte de apertadas interdições religiosas, temendo-o como a um deus. É a lembrança dos «Ais Sidhe» da tradição câmbrica. Também na Lusitânia havia mais de um mons-sacer, cuja memória subsistiu na toponímia corrente de Monsanto.(58) O culto das fragas e dos cumes, tão definido na Bíblia, é sempre o prenúncio de um monoteísmo em embrião. Não seria um monoteísmo em nascimento aquele alvoroço contemplativo que em noites de luar atraía os cântabros para fora de casa e os punha a dançar em honra de um deus desconhecido?
[p. 51] Tal era a concepção espiritual que o aferro instintivo ao solo conferia ao pequeno dolicóide. Raça agricultora, pelo culto dos astros nocturnos, elevou de bem nova os olhos ao infinito, sentindo o estremecimento do maravilhoso roçar-lhe a alma cândida de gente primitiva. Impressiona-nos o religiosismo com que o homem meão saudava as potências ocultas da Natureza, não as receando nunca como potestades custosas de aplacar, mas tendo-as antes como génios tutelares, companheiros de todas as horas da vida.
As nascentes, as montanhas, as ribeiras, mereceram-lhe o enlevo das criaturas simples, piedosas e bem famigeradas, como na Antiguidade foram os Atlantes. «Serra da Estrela», «Serra da Lua» são ecos aflorando ao de cima dos séculos. Na Armórica, Bromo presidia às águas termais. É o Bermânico, de «aburbulhar», que se reverencia nas lápides votivas de Vizela, postas a salvo, felizmente. Recordemo-nos da adjuração de Don Diogo Ordóñez diante dos Muros de Zamora num dos poemas do ciclo do Cid. «Eu desafio os de Zamora, tanto os grandes como os pequenos. Eu desafio tanto o vivo como o morto, tanto o que nasceu como o que está para nascer. Eu desafio a água que os da Zamora bebem, a lã que eles vestem. Eu desafio tudo e todos, desde as árvores da floresta até aos seixos do rio!» É um episódio da epopeia castelhana que contrasta com a sanganeira que a inflama de raivas vermelhas e que não se combina nada com a truculência ingénita do elemento ibérico.
O ibero expunha os seus mortos à devastação das aves de rapina. O dolicóide da faixa oceânica da Península depositava-os no seio da terra. Eis uma diferença que distingue de sempre, e para sempre, o génio dos dois povos, e que é bem a razão da eterna divortia em que ambos se perfilam irredutivelmente em face um do outro. A epopeia castelhana, cortada da mesma ferocidade grandiosa que entregava os defuntos ao bico dos abutres, é a prova do conflito de moral e sentimentos que nos separa dos nossos vizinhos. Por isso o desafio de [p. 52] Don Diogo Ordóñez, acusando o misticismo lírico do Ocidental, deve tomar-se ali como a manifestação de uma psicologia estranha à medula do poema e à violência que o sacode. O ethos castelhanista, alimentando-se do temperamento errático do ibero, tão parente do celta que acabou por se fundir com ele, só reconheceria as divindades da carnagem, em cuja invocação há sempre uma vítima a saciar-lhes a fúria nunca farta.
O individualismo cioso das castas predomina nas composições aristócraticas de que Castela é o paradigma vivo. A ideia de comunidade afectiva que ressalta na provocação de Zamora é-lhe alheia por estrutura e condições de meio. Só haveria aí de exacto a posição de Don Diogo Ordóñez, isolado em frente de todas as forças visíveis e invisíveis que ele enumera e desafia. É o traço próprio do iberismo épico. O resto não é mais de que uma influência poética e social do espírito do Ocidente a prevalecer nesse trecho soberano das crestomatias espanholas. Só o Ocidente se colocava assim a meio da natureza e se fazia um todo uno com ela. É mais ou menos a lenda do Leinster que se repete, com o Sol e o Vento convocados a testemunho.(59)
Um dos aspectos mais característicos dessa vasta sociedade pré-árica, que no Ocidente se expandira, é com a compreensão sentimental da natureza, como fica dito, o lirismo exaltado da Esperança.
O segredo das Estações iniciou o pequeno dolicóide no renovo da terra e na volta das quadras bonançosas. Não se tratava de uma grei dispersa em tomadias bélicas, com os descampados sem limite por terreno de carreira. Família comunitária, o gosto do enraízamento transmitia-se sucessorialmente através das gerações, como o património mais querido do grupo. Sem inclinação para a terra, jamais a sabedoria druídica se concebera com o [p. 53] seu convívio das plantas e das estrelas. É no alargamento dos costumes agrários que reside o germe primário da Esperança. A semente que se deitava ao chão renasceria mais tarde, com o regresso dos dias maiores, na festa da colheita que se partilhava em comum. Quem aprendia a guardar a maré propícia dos trigos, aprendia em ocasião de mortes e invasões a confiar no instante futuro em que o desfogo perdido havia de tornar.
Não é um torvelinho de nómadas, marchando ao acaso, que pode experimentar o estado psíquico de que a Esperança se sustenta. Com a Esperança é que o homem meão se defende quando o guerreiro de coma loira desponta, levando tudo a ferro e a fogo, como para facilitar o triunfo da civilização de Halstatt que chega com ele. Como em seguida às chuvas e às geadas, vinha inalteravelmente o desabrocho macio da relva e as aves protectoras, desaparecidas, assomavam de novo ao horizonte, oh, decerto que o turbilhão devastador se sumiria numa aberta mais feliz e as populações, tratadas em rebanho, voltariam a ser as senhoras de sua casa e dos seus destinos! O autóctone recobraria a dignidade perdida. As aras e as lareiras não sofreriam mais o respiro oprimido do escravo, regando com suor de sangue, para benefício dos outros, o torrão da courela natal. É que, por mais que a noite dure, o dia avança-lhe sempre no encalço. Atrás do temporal que se esfrangalha por cima das nossas cabeças, a serenidade idílica perturbada, cedo ou tarde, estará de regresso, como a Primavera que se adianta com passo firme no caminho rasgado pelo vigor do Inverno.
Tal é a dinâmica da Esperança que, nascida e criada entre raças propensas à agricultura, traduz um acto de confiança no futuro, só admissível quando o homem se submete ao eterno preceito da hereditariedade. Nós não valemos por nós – conforme a nefanda mentira igualitária. Nós valemos apenas como elo de passagem de uma cadeia interminável que, se se desatar, nos deixa ao acaso como um valor avulso, a que o préstimo faltasse de súbito. [p. 54] Enterrando os seus mortos, não os abandonando nem ao pasto das feras, nem à língua épica da chama, o Ocidental realizou essa solidariedade, preconizada por Comte, em que defuntos e vivos se conjugam e identificam como um corpo único que a mesma alma inspira.
Não é a insurreição do indivíduo contra a Espécie – na sentença memorável do filósofo –, com o capricho pessoal governando em mestre absoluto. O frenesim de casa-de-orates que se indumenta com as anacrónicas místicas revolucionárias não passa de uma recorrência mórbida dos países de entramada estrutura tradicionalista, referente a um estádio anterior de formação que o Ocidente só passageiramente conheceu. Pois é agora a fonte de toda a indisciplina de morte que lhe solavanca os alicerces e lhe rasga bocas enormes no rijo arcaboiço secular. A cura resolve-se no respeito da ordem antiga, cujas razões de vida se confundem com as razões da nossa própria personalidade. Atravessa-se uma crise de consciência social em que a consulta ao reservatório dormente das nossas energias só se alcançará por meio de uma observância miúda de quanto se encerra no determinismo orgânico de cada povo.
Não é já o figurino da Nação-Humanidade, agitando palmas e entoando hossanas diante dos muros da Jerusalém vindoira, a finalidade que atrai o apuro melhor das gerações que sobem. Morre num in-pace de ignomínia a tola utopia internacionalista, com pontífices de avental e trolha oficiando em grande rito. A regra mental que predispõe na actualidade as inteligências não se socorre dos Imortais-Princípios, nem das sociologias contemplativas de Jean-Jacques. A demopsicologia tomou à sua conta os Direitos-do-Homem. E se os desnudasse como um embuste, poupar-nos-ia ao menos a vergonha de se ter acreditado numa peça retórica em que predomina mais o ilogismo de um doente com febre de que os intuitos generosos de uma experiência política. São as entradas de uma era nova. A corrente pragmatista [p. 55] subordina os cérebros, aproando-os a uma síntese reconciliadora. Desfaz-se em retalhos a farraparia ideológica do racionalismo oco e trascendente, em que o claro pensamento ocidental se abastardou, tão depressa se viu contaminado pela avariose do livre-exame. Nós, os das margens do Atlântico, somos as vítimas do espírito-de-análise e da cantiga mágica da Liberdade – de quanta abstrusão metafísica nos veio lá dos recantos tristonhos da Germânia!
Dada a ferrenha índole de casta, nela, qual o homem loiro, de alta estatura, se mantivera sempre em banda dominadora, o individualismo nunca seria para ele senão um motivo de reforço – um convite à sua maior expansão, ao exercício aristocrático da vontade. Supondo-se de uma carne previlegiada, o homem loiro, no entanto, não excedia as barreiras da existência. Como todo o guerreiro, era eminentemente religioso. Aceitava a camaradagem dos perigos e da conquista, entrelaçando vínculos com os companheiros de armas e de arremesso – seus pares e seus irmãos. De maneira que no cultivo constante dos apetites de presa e de comando é que o individualismo histórico se baseia, tão diferente do individualismo filantrópico da Revolução, como é diferente a literatura máscula de um conde de Gobineau ou de um H.S. Chamberlain das apóstrofes redentoristas de qualquer profissional da Salvação-Pública ou dos Estados-Unidos do Universo.
Caindo em cheio na feição particularista e comunitária do Ocidente, o individualismo do H.-Europaeus foi aqui, aonde não havia nem raças vencidas nem raças vencedoras, mas uma forte unidade tecida sobre o laço do parentesco e não no da força, um apelo dirigido a quantos defeitos atávicos jaziam em sonolência, graças ao vigor das nossas disciplinas tradicionais. O duelo tremendo que nesta hora de interrogações dizima a Europa não é mais que o embate decisivo do mesmo individualismo, encarnando o seu aspecto genuíno a Alemanha imperialista, enquanto a França lhe [p. 56] padece as consequências de uma assimilação negativa. Não se substitui ao passado de uma raça o passado de outra raça. Tão bastas que sejam as pilhas de cadáveres, expiando de pupila parada para os astros um desvario de mais de cem anos, por muitos horrores que desabem ainda por cima de nós, já se não duvida que, sendo etnias, e não políticas, em confronto, é o dia de juízo que soa para a quimera de asas de morcego, mas de sorrisos amaviosos de fada, a cuja voz de promessa se abandonaram os países de estreita composição afectiva, em que a hierarquia repousava apenas num frágil suporte de natureza espiritual.
Logo que a análise desmedida aluiu sem remédio essas razões inatas de crer e de agir, foi-se de pronto a garantia da alma colectiva. Cada cabeça, cada destino. A divergência, como um térmite, ficou-se a roer as seguranças ancestrais da sociedade. Obliteraram-se com as paixões de momento as directrizes elaboradoras do génio e da civilização. A história, tão rica de sentido pela certeza de um fim, mudou-se depressa, nos torcicolos em que a arrastaram pela poeira das veredas escuras, numa história de ocasiões perdidas. Manda o acaso que é quem pode. O burro de Platão avança do fundo das idades para se instalar como nosso senhor e dono, em nome da Soberania do Povo. Acena-se ao gregarismo desvairado com a visão de uma ordem por vir, em que não há-de haver nem deuses nem chefes. É com as roupagens fantasmagóricas da superstição do Progresso que se opera o mais nefasto recuo que se conhece nas marchas crescentes da Besta para as altas cumiadas do Espírito. Prevalecem assim os demónios encerrados na cripta da nossa noite inferior. Com a demência que empola as massas e lhes confere o voto de primazia, só se declamam direitos, quando o que só existe são deveres. É a terrível lei psicológica do esforço-mínimo que nos segreda o ópio das suas tentações. É toda a podridão sem nome de um baixo ideal optimista a derribar, a [p. 57] um por um, os socalcos necessários às gradações da Espécie na subida vagarosa para a selecção e para o entendimento.
Calcule-se, porém, a distância que vai do germano utilizando o individualismo como um revigorizador de energias de classe e de pátria, ao ocidental, mordido da epilepsia jacobina, precipitando-se no desmentido de si próprio, tal como aqueles pensadores que acabam por se suicidar, depois de terem reduzido a menos que pó, no furor da análise, os sentimentos e as ideias, a intuição e a inteligência. A guerra presente é a prova infalível. O germano intensifica a sua tradição, invoca-a como um incentivo à plenitude máxima do herói, reclama-se de Deus e unge-se com um primado teológico assombroso sobre os demais povos da terra. É a autoridade, brotando do temperamento educado numa aprendizagem tenaz. É o Número e a Medida. É a Proporção e o Peso que, nascidos com o claro instinto do Ocidente, se transferiram, todavia, pelo valor de um conceito pessimista da Vida, para etnias nebulosas que se fizeram superiores, porque nunca viam o sol e o terreno lhes fugia continuamente debaixo dos pés.
O individualismo importa, por isso, para o alemão, numa confinação exclusivista de grupo, o hábito hereditário de quem, em luta com tudo e com todos, se acostumou de há muito a contar apenas consigo. Impelido da região de origem por espantosos acidentes geognósticos, eis como o homem loiro, à busca de espaço vago por céus inclementes e territórios inóspitos, se ganhou para o egoísmo soberano de pátria, vindo a alcançá-la, afinal, quase no ponto remoto da partida. A peregrinação milenária pelas longadas da esfera deu-lhe ousadia, pulso seguro, ímpeto avassalador. Já não acontece o mesmo ao dolicóide meão que, apossando-se da qualidade madre do homem loiro, a manejou como um instrumento de derrocada.
O individualismo entre o germano vale no seu significado social como a individualidade de uma raça e [p. 58] de uma pátria que apertadamente se unem, para apertadamente se consolidarem. Guilherme saúda-se como herdeiro do Ária, raptor orbis. E é convencido da vocação sobrenatural do homem loiro para o comando do Mundo que ele põe em armas a nação alemã, a qual lhe responde ao apelo como um eco uníssono. Nós, os ocidentais, representantes de uma cultura cem vezes mais brilhante, senhores de uma mais larga e desbravadora missão histórica, rejeitamos, pelo contrário, o património de ideal e de disciplina com que os povos se virilizam e conseguem sustentar-se no maior grau de elevação. É pela estafada excelência dos princípios, é pelo sediço gagaísmo lírico da Revolução, que nos alinhamos agora em combate, deglutindo mal e apressadamente a prosa pacifista que o agitador ainda na véspera nos transmitira em fartas explosões de saliva.
Eu não me entremeto a examinar esse poderoso factor energético que é a guerra em si. Limito-me tão-somente ao registo de um estado mórbido da nossa idiossincrasia de latinos – passe a designação menos própria. Toda a doença deriva de ter o ocidental visto apenas o Homem com maiúscula alegórica – o homem abstracto, ou an-histórico de Sorel – aonde o germano vira o homem, sim, mas o homem loiro, o celta truculento, o indivíduo típico da sua grei. É uma diferença tão pequena que leva de um lado à paranóia cosmopolita do mito libertário, e do outro ao método de ginástica étnica e social, que é o pangermanismo das páginas frementes de Chamberlain e de Ludwig Woltmann.
Assim, enquanto uns, vendo-se a si, era para os tesoiros inesgotáveis do passado que eles recorriam, servindo-se da infinidade de forças que moram no subconsciente de uma colectividade, nós outros corríamos como doidos para o fim dos fins, na mais covarde das abdicações. A grande palavra soltou-a Comte, quando capitulou de rebeldia do Ser contra a Espécie essa nevrose de perdição. [p. 59] Defrontando-se na hora actual, os dois individualismos, no íntimo, são uma e a mesma coisa. As consequências é que são diversas.
Para bem do Ocidente, o germano será vencido pelo vizinho da estepe, com relâmpagos devastadores no olhar coalhado como leite. Como ao declinar da idade antiga, o bárbaro vence os inimigos de Roma debaixo da sedução que irradia da metrópole. Mas, das gentes e gentes que o Império enquadrava em legião, um rumor sinistro se desprendia e tomava corpo, entretanto. Roma, descuidada, gozava os festins de Trimalcion. Ele eram vinhos espumando em cráteras preciosas. Ele eram molhos de requinte com pérolas dissolvidas. Aos ouvidos do soldado obediente à insígnia lupercal chegavam os rumores do banquete. A ânsia das mesmas coisas saborosas e a fome das mesmas carnações de preço entraram a trabalhar-lhe o apetite de animal refreado. Deu atenção à voz que o desafiava. E quando os diques do Reno se romperam, a púrpura de César cedeu à Coroa de Ferro, com gauleses e gaiatas capitulando diante do irmão de coma doirada, flutuando ao vento das batalhas. Ora não vá repetir-se a história, com Paris atraindo as cobiças do eslavo aliado, que de instante para instante, se a sorte o bafeja demais, se pode tornar num braço potente, pesando na balança como a espada de Breno!
Tão escusada que pareça a diversão, cabia ela, contudo, neste estudo em que se procura reconstituir o significado do que seja, em verdade, a raça portuguesa – se a raça portuguesa existe, em desmentido vigoroso ao negativismo de Oliveira Martins. Existe – é uma certeza que se coloca como um dogma. O que interessa agora é surpreender-lhe a capacidade criadora e as mais virtudes que nos caracterizam como povo livre por obra da Etnia e do Meio, nunca pelo acaso das circunstâncias políticas e sociais.
Entronca o nosso autóctone no recuado fundo líbio-ligúrico, em que o H.-Mediterranensis figura [p. 60] como padrão antropológico. O Lusitano, longe de ser uma pretensão heráldica dos humanistas de Quinhentos, como Alexandre Herculano quisera num dia de mau-humor, é antes um dos ramos mais dotados da velha família de Saturno. Como todo o Ocidental, a sua índole comunitária, elevando-o pelas mancomunidades agrícolas à forma jurídica do Município, concluíu por achar na Pátria a completa expressão colectiva, tão cedo o Rei lhe aparece, operando o equilíbrio das behetrias do Norte com os ópidos do Sul.
Trazia consigo, no seu determinismo, esse tácito consenso do todo com as partes que gera as nacionalidades e que é para os períodos agudos que hajam de entrecortá-las a garantia indefectível da continuidade e da duração. Como elementos estáticos, possuía os vínculos de parentesco e vizinhança que lhe tinham vindo da propensão inata do indígena de Mugem para se soldar à terra e estabelecer a fornalha dos vivos em cima da sepultura dos mortos. Como elementos dinâmicos, concedia-lhe faculdades de resistência afectiva, que é a mais forte de todas, o naturalismo próprio do Ocidente, que na Esperança ganhava um facto dionisíaco, tão amplo como o arrebatamento que alevantou a Catedral, tão invencível como o sonho activo que conduziu as Descobertas.
A Esperança é ainda o mesmo sonho activo extraindo da derrota a afirmação de uma vida que não se rende, o grito de uma força que persiste e confia na hora que lhe há-de chegar. Não é um muçulmanismo em delírios de febre, nem uma sensibilidade histérica, perdendo-se em fantasias de impossível. O mito, ensina Georges Sorel, é uma criação da vontade colectiva, em que se condensam as tendências mais fortes de uma época ou de um povo. Não se irmane com a utopia, que não passa de um excesso de imaginação perdendo-se no vago do capricho pessoal. Pois a Esperança guarda dentro dela o profundo génio que concebe os mitos. Sentimento que envolve a colaboração do Tempo e do Espaço, não surgiria senão entre as raças que, enraízadas [p. 61] com apego rijo, se projectavam para além dos horizontes individuais, a fim de se reconhecerem numa forma mais prolongada de existência.
Curioso é notar que a Esperança se materializa sempre em promessas de libertação lá onde se evidencia um movimento de acentuado espírito comunalista. Eu já não falo do nosso Desejado, entrevisto por vilas e aldeias na vigília admirável que prepara a ressurreição dos Concelhos durante a epopeia da Aclamação. Só recordo o Encoberto que se manifesta em Castela com as hermandades ou germanias do século XVI. Anteriormente, no século XII, já na Valónia, com o celebre arquidiácono de Liège, se revelara um «Homem-Predestinado». São factos que nos demonstram como a Esperança, elemento dinâmico da grande alma lírica do Ocidente, corresponde a uma dada modalidade social e histórica que é a Comuna, ou o Município.
A Comuna, ou o Município, derivam da tendência agrária das antigas populações, organizando a partilha do solo e a distribuição da colheita em sistema institucional. Por sua vez, a Esperança confirma o génio sedentário e agrícola que, em relação a um lugar, descobriu com a periodicidade dos fenómenos astrais a volta das estações e o segredo das sementes. Identifica-se a proveniência de ambos os elementos. E assim como um, transposta a fase do particularismo vicinal, se achou num acordo perpétuo de interesses que, pelo regime federativo, o conduziria à noção de Pátria, também o outro, excedendo os limites estreitos de uma emoção bucólica, se tornou perante a lição pessimista das coisas num como que dom de harmonia, tão regular e tão reparador, como o sol subindo e descendo na fita larga dos signos.
Este sentimento unânime da Esperança é mais um traço inolvidável do Ocidente. Da Esperança se nutre a Hibérnia dolorida. Por Artur adormecido aguardam os giestais armoricanos, enfestoando-se todas as primaveras. E já em horas idas uma sibila cantábrica prometera à sua raça [p. 62] em opressão um salvador no futuro.(60) É bem claro o temperamento idealista do pequeno dolicóide que abrangia – não se esqueça nunca –, todo o trato geográfico do litoral atlântico, desde as bocadas do Mar do Norte às faldas em regaço do Atlas. Não é outra a direcção que a linha dos dólmenes pontua, sugerindo a marcha de um povo que avançasse em rumo descendente, como a arqueologia já pretendeu sustentar. Portador de uma cultura pré-árica, não são nunca demais os subsídios que deponham acerca da homogeneidade dessa cultura, quando ainda se não esfarraparam por completo as variadas concepções que a miragem asiática suscitou, nem vão desfeitos os enunciados do arianismo dogmático de Gobineau e Lapouge.
Admitiu-se aqui a hipótese aristocrática do H.-Europaeus unicamente para o efeito de se estudarem as condições do nascimento de uma primeira civilização. São motivos teóricos que subsistem para como o H.-Mediterranensis que, embora não tenha costela doirada nas linhagens da antropo-sociologia, é, sem dúvida, o valor étnico a que se deve a mais recuada impulsão civilizadora. O homem loiro andava na vagabundagem dos caminhos sem fim, mal assomara então às gargantas do Hindu-Kuch – e já o dolicóide meão do neolítico, construtor e sociável, se dotava com uma escrita em ideogramas, que bem depressa, pelo desenrolar das necessidades, se resumiria em inquestionáveis sinais alfabetiformes. A arte da pedra polida é no oeste-europeu assombrosa de graça e de intenção, como, de pronto, para se citar um exemplo, se prova com as pinturas murais de Altamira. Os depósitos recolhidos na necrópole transmontana do Alvão denunciam com o admirável sentido naturalista do nosso autóctone a riqueza de conhecimentos que ele já utilizava num recesso ínvio da montanha. Pelas declarações da etnogenia, de mãos trocadas com o positivismo arqueológico, não é ao [p. 63] Ária, cuja encarnação aproximada, em realidade, se verifica no H.-Europaeus, que nós podemos atribuir a autoria de uma cultura tão cheia de independência e cunho fisionómico. Conhecido que o pequeno dolicóide é que a transmite por toda a parte, lá desde as praias da Irlanda às paragens doces de Creta, não se me afigura também com entrada a debatidíssima solução turaniana.
Os Árias já nós vimos que, transitados de um ponto setentrional do nosso continente para as misteriosas vastidões da Ásia, só a partir do século XIII a.C. é que se adiantam com as primeiras migrações. Sabe-se igualmente que até ao período da Téne toda a civilização manifestada na Europa é rigorosamente aborígene. Invalidam-se por si mesmas as impertinências intelectuais que porventura pretendam endireitar ainda a miragem orientalista no seu desabamento final.
O Ária toca a cultura do pequeno dolicóide quando se avizinha do Egeu. As máscaras de oiro de Micenas revelam o conquistador, mas a arte é toda ela indígena. Se nesse entreposto do Levante, assim facilitado às influências asiáticas, o homem loiro se não acusa mais cedo em contacto com a cultura do Ocidente, como é que ele alcançaria as distantes ribas do Atlântico, onde de antemão com o período bronzífero e os Albiões mercadejando o estanho nas Cassitérides, a metalurgia atingira um desenvolvimento notabilíssimo? A opinião de Salomon Reinach, fixando no centro da Europa um foco do qual a civilização ocidental irradiaria como um leque abrindo-se, eu bem sei que nos implica uma resposta imediata. Duas correntes análogas iriam divergindo do eixo para as extremidades. E enquanto uma se comunica aos imensos relevos que correm direitos ao planalto do Irão, a outra, caminho do Oceano, pousaria pela linha-de-costa abaixo até investir o Estreito. As relatividades de ambiente haviam de cavar ao depois distinções irredutíveis. E quando mais tarde os dois ramos se perfilassem em frente um do outro, com a acção do Tempo e [p. 64] a química do Meio, eles não seriam senão estrangeiros em face de estrangeiros.
Desta sorte, a cultura dita oeste-europeia penetraria entre nós pelo norte da Península, na descida dos povos para zonas mais amoráveis. Tal é o juízo em que o insigne Martins Sarmento assenta o seu ligurismo, que se abastece doutrinariamente de uma imaginária proveniência ariana. A Martins Sarmento nós temos obrigação de venerá-lo como um espírito eleito que adivinhou toda a revolução científica que anda deslocando para o nosso Ocidente, onde ficava a maravilhosa Tharsis da passagem de Ezequias, o berço de milagre que a fantasia dos sábios teimou em instalar nas dobras enigmáticas do Pamir. Todavia, por muito que o tra balhador formidável da Citânia se adiantasse na reconstituição dos textos primitivos da Ora Marítima e da Argonáutica, pela posição da época e das teorias preponderantes, Martins Sarmento não se pôde eximir a certas ideias feitas.
A uma linha da verdade, houve ficções eruditas que lhe interceptaram a plenitude da visão. Creta não se desentranhara ainda na opulência sem conto das suas riquezas. Apenas Micenas se conhecia. E bem sensacional é aquele estudo no primeiro fascículo da Portugália em que Martins Sarmento compara com os achados de Schliemann no Levante alguns fragmentos arquitectónicos de Briteiros e Sabroso. A afinidade, porém, é para ele mais um indício do Ária iniciador, derramando pelas cercanias da Ásia-Menor os profundos dons do seu génio e dirigindo-se de seguida ao seio dos Hiperbóreos e dos Cimérios na árdua faina de missionário dos povos. O avanço – como se supusera – não se teria produzido pelo Mediterrâneo, sempre à vista de terra, com ilhas de permeio promovendo a facilidade da rota. Parando um momento na faixa convidativa do extremo oriente europeu, o Ária enfiaria antes pelo Danúbio numa lenta ascenção; e, aproveitando-se do Reno, iria pela acessível navegação fluvial dar consigo no Mar do Norte. [p. 65]Eis como se prepara a floração abundante do período bronzífero, segundo Martins Sarmento, que assinala à chegada dos Árias os últimos arrancos da pedra polida.
Nem Martins Sarmento dispunha dos materiais fornecidos pela filologia comparada, quanto à naturalidade europeia do homem loiro, nem quanto à data recentíssima dos hinos védicos. Insulado no outeiro da Citânia, ele resulta por isso bem mais admirável quando pela simples interpretação dos textos clássicos se apercebe desse caminho interior que as migrações tomariam. O erro esteve apenas na inversão dos dados do problema. Uma grei atlântica é que desceria para o oriente mediterrânico pelas estradas fluviais do Reno e do Danúbio. Nunca um povo asiático rompera por elas acima.
Mais uma vez se insiste em que os Árias históricos apontam nas orlas da Grécia com os Aqueus que no século XIII a.C. tinham submetido por completo o mundo egeano. O segundo arremesso pularia no século XI com os Dórios, sobrepondo-se aos Aqueus que haviam assimilado os benefícios da cultura encontrada, como se observou na necrópole de Micenas, em que a arte é indígena, mas os corpos reais de evidente origem estrangeira. Os Aqueus, provindo dos Balcãs para o Peloponeso, engolfaram-se na guerra de Tróia e são os obreiros arrojados do ciclo cantado por Homero. Sucedem-lhes os Dórios, que os dizimam, em cumprimento da sina que leva o H.-Europaeus a exterminar-se sempre em brigas fratricidas. O bronze definha-se. É o Dípilon que surge com as armas de ferro. Ora a mais antiga estação do ferro hoje exumada, a que se reconstitui como tipo, é a de Hallstatt, na Alta-Áustria, que os arqueólogos classificam como do século VIII a.C. É a primeira civilização do do ferro com o celta amanhecendo para os destinos da Europa. A civilização da Téne é já de outra fase mais próxima com que se prelimina o aparecimento dos gauleses e o cerco de Roma por Breno.
Anteriormente às datas estabelecidas, não se [p. 66] conhece manifestação nenhuma do dolicocéfalo linfático e de talhe elevado adentro do continente europeu. Pairaria então pelas alturas do Irão (Airyânam em avéstico), donde tiraria o nome. Só numa época mais baixa que a época do bronze se afirma como conquistador, subordinando o dolicóide de Minos e reduzindo à escravidão o pelasgo diligente. É provavelmente pela Tessália que penetra na Grécia. E, concentrado aí, distribui-se em seguida para a pilhagem das indústrias florescentes do homem meão, assomando logo para a história os bandos que desabam sobre a cultura faustosa do Mediterrâneo. Os ramos que se dirigem para o lado oposto só tarde é que se entremostram em Hallstatt, sumidos como andaram durante bastas centenas de anos por pântanos e desfiladeiros, em que o sol tardava e as montanhas faziam mais sombra que a noite.(61)
Aonde é que fica, pois, o extremo império de Saturno – que consaguinidade prende, porventura, as gentes trabalhadores do Ocidente ao truculento invasor indo-europeu que, se marca uma nova idade nas indústrias em adolescência, é para utilizar logo o ferro como agente mais rápido de extermínio? As fábricas Krupp e a catedral de Reims não são de agora – creia-se. Estavam pressentidas na catástrofe que submergiu a cultura egeana ao peso de uma massa empenachada, de feras qualidades aristocráticas, sim, mas que não via mais que o seu apetite de presa e de comando, guardando-se já do contágio dos povos melhores dotados pelo exclusivismo áspero de casta. Como é que nós, [p. 67] ocidentais, nos admiramos da brutalidade que incendeia Louvaina, se em Guilherme, quando se unge com as predilecções do céu e avoca a si a herança universal do Ária, ressurge toda a violência do indivíduo loiro ao chocar-se como o meão de cabelos escuros, a quem ainda por cima manda chamar besta de carga pelos fariseus da antropo-sociologia?! Oh, acreditem que a história é periódica, que ela se repete nos seus episódios mais miúdos!
No drama que hoje se desenrola sobre a terra fremente da França é o eterno duelo étnico do H.-Europaeus com o H.-Mediterranensisque palpita fundamentalmente. É a lâmina abrutada de Breno. É a rebeldia sacrílega de Lutero. É o cerco de Paris em 71, artilhando as estufas do Muséum e pondo em risco as colecções do Louvre. É, enfim, a raiva surda de uma raça que nunca soube o que era pensar com claridade nem sentir com transparência! É o cangirão de cerveja ao lado do sorriso da Gioconda. Pergunto eu, por isso, que solidariedade de passado, ou de destino, nos há de acamaradar, como se fôssemos irmãos com irmãos, se é a carne da nossa carne que o não deixa, se é a nossa alma em perigo que o não consente?!
Não! É bem outra, com outro alcance mais nobre, a nossa psicologia. O divórcio irreparável vem da raiz dos séculos. Já Hércules, ao atravessar o país dos pigmeus, os arrepanhava aos punhados, levando-os consigo dentro do seu manto de pele de leão. É como se simboliza na expedição alegórica ao Jardim das Hespérides o embate do Ária com o pequeno dolicóide. Hespérides, de Divaspara, quer dizer «extremidade do dia», ou «sítio onde o dia acaba». A alusão não pode ser mais aberta. Nas maravilhas desse horto encantado adivinha-se o esplendor sem par da civilização do bronze no Ocidente, que é, com efeito, o ponto onde o sol desaparece. O pigmeu identifica-se com o nosso homem meão, enquanto Hércules, personificação da força, é o mito que esconde as arremetidas do H.-Europaeus.
H.-Europaeus – homem por excelência, [p. 68] o apelidam os teólogos do pangermanismo – bebendo das nobiliarquias rácicas de Gobineau e erguendo a classificação de Linneu em artigo de fé. H.-Mediterranensis se etiqueta o habitante da zona atlântica numa condescendência desdenhosa, em que vai como que um sorriso de patrono para o pobre liberto de há pouco. Mas, detentor de uma cultura pré-árica, já sabedora do segredo dos metais e do governo dos astros, que obséquio dos deuses conferiria ao pequeno dolicóide a centelha do génio, sem que o varão eleito das escrituras antropológicas lhe impusesse sobre a cabeça o sinal da iniciação?
[p. 69 e 70] ### [IV] O espírito da Atlântida
[p. 71] Importa, na realidade, desvendar agora as origens do indígena do Ocidente que deu tão grandes provas do seu génio criador. Comece-se por não se aceitar a classificação de H.-Mediterranensis por menos exacta. Se não se lhe quiser aplicar a de H.-Europaeus, que em justiça lhe cabe, emende-se aquela que o designa pela de H.-Atlanticus. É certo que foi no mar do Arquipélago que o ramo dito líbio-ligúrico atingiu a maior expressão social e artística. Considere-se, porém, a razão decisiva do seu habitat e das condições especiais do meio que o gerou. Parece-me que é o critério a ponderar-se. E não se obtempere que o elemento-Civilização caracteriza com mais vigor. Mesmo perfilhando semelhante critério, a emenda teria de se manter.
Do Atlântico, ou bordejando para o Estreito e seguindo a costa de África, ou entranhando-se pelas vias fluviais do interior da Europa – de uma maneira, ou de outra, o impulso inicial irradia de um único foco oceânico. Não me adianto a emitir a minha opinião. Limito-me por ora a recordar as tendências que há para fixar num ciclo marítimo, estranho ao Mediterrâneo, tanto a lenda como a poesia dos Errores de Ulisses. Os gregos do Dípilon, arrebatados pelas situações patéticas da grande guerra a que acabavam de assistir, acomodariam aos horizontes da Hélada os resíduos de alguma epopeia oral, recolhida por mareantes em navegação longínqua.
Eu frisei a circunstância de na Odisseia o mar [p. 72] ser sempre o mar imenso, o mar infinito, quando não é assim o Egeu todo pontuado de ilhas ridentes, com o Egipto perto e as ribas doces da Ásia de fácil abordamento. É um facto que realça a inspiração atlântica do Nostos. Repare-se que, localizado ele no declinar resplendente de Micenas, as moradas descritas no poema não guardam a sumptuosidade da casa típica dos Átridas. A habitação de Ulisses é mais uma cabana nórdica, tal como no-la sugerem as sagas medievais, de que o palácio de um rei, como o requinte egeano os sabia erigir. Também as sepulturas de Homero não são as sepulturas célebres do Dípilon. No Dípilon, e segundo as exumações de Schliemann, os mortos, incinerados ou não, depositavam-se em vastas câmaras funerárias, as mais das vezes escavadas na rocha. Em Homero é o tumulus, ou a nossa vulgaríssima mamoa, que se alevanta em monumento sobre os restos mortais de Patroclo e de Elpenor.(62)
Um outro aspecto que convém não olvidar é a fisionomia colectiva da gente da Odisseia. Trata-se bem à farta de um povo agrícola, utilizando até já o ferro, enquanto na Ilíada se revela uma sociedade militar confinada ainda na pura civilização do bronze. O facto de figurar o ferro na Odisseia não invalida em nada a hipótese em exposição. Na arqueologia há quem se incline a admitir que em dadas regiões o ferro sucedeu imediatamente à pedra polida, não sendo por isso o celta de Hallstatt nem o guerreiro do Dípilon os propagadores do novo mineral. No Egipto, a reconhecerem-se as descobertas de Flinders Petrie, o neolítico concluiria sem saltos bruscos na pura idade do ferro. Sustentam alguns etnógrafos que o trabalho do ferro foi introduzido no Mediterrâneo, não pelas mangas irrompentes do Ária, mas pelos próprios negros que o praticavam de longos tempos. Assim, sem se lhe alterar a cor primitiva, nem destituir de [p. 73] legitimidade a base ocidentalista do Nostos, o ferro, na Odisseia, ou representa um conhecimento posterior dos rapsodos que o aclimataram, tanto mais que só figura ali em motivos de comparação literária, ou é então mais uma reminiscência autêntica do velho mundo ocidental.(63)
Eu me explico. O pequeno dolicóide individualiza-se, sem dúvida, pelo florescimento das indústrias do bronze. Mas desde que recentes descobertas nos indicam o ferro como comunicado às zonas mediterrânicas pelos negros da África, não custa a conceber que o habitante da margem atlântica igualmente o conhecesse, visto que, pelas reconstituições topográficas de Martins Sarmento sobre o fundo original da Argonáutica, a navegação no Ocidente haveria descido até às alturas do Bojador nessa hora atrasada da história.
Paralelamente, o cunho primitivo da casa micénica, tal como a representam as urnas funerárias recolhidas em Creta e se reconstitui nas edificações da nossa Citânia, acusa-nos pelo telhado em cone um clima pluvioso, pertencente a outras latitudes que não as do Mar-Egeu.(64)
Coisa interessante é reparar também que os gregos do poema de Homero não são ictiófagos. Pois em Micenas e em Tirinto, nas terramares da Itália e nos assentos de cozinha do cabeço da Arruda, embora não contemporâneos, mas dependentes da mesma camada étnica, também a ictiofagia se não verifica. Um escrúpulo religioso se entremostra aqui, bem natural em populações que praticavam a marinha, e que é mais um reforço para se mostrar a profunda unidade social a que o homem meão ascendera.(65)
Outra prova da expansão fecundíssima dessa grande raça, ainda que dominado pelo celtismo arqueológico, já Arbois de Jubainville a enuciara no seu notável estudo, La civilisation des celtes et [p. 74] celle de l’épopée homérique. A religião com um deus supremo, acompanhado de antropomorfismo, com o Orbis alius, com os números propícios e os números fatídicos, etc., é entre os povos da Grécia, segundo Homero, a religião professada cá nesta parte pelos habitantes da Gália. É idêntica a composição da família, com a monogamia, com as concubinas, com o poder paternal, com o poder das mulheres, com o direito do senhor. Idênticos são os costumes guerreiros, como idêntica é a sociedade com os bardos correspondendo aos aédes, com os veletes (videntes) lembrando os vates helénicos.(66) Juntem-se os subsídios trazidos pela filologia e logo o quadro de raças traçado por Hesíodo atinge um relevo intenso, com o seu apertado parentesco bem às claras.
Diefenbach conta que uma dama do país de Gales entendeu em Argel com a ajuda do gaélico o dialecto de um kábila do interior.(67) Salomon Reinach, confirmando a não-ictiofagia do pequeno dolicóide, assevera, através da miragem ariana, que, com efeito, nas línguas chamadas indoeuropeias, faltam palavras de proveniência comum para mencionar os peixes comestíveis, enquanto que o vocábulo com que se exprime a ostra tem em todas elas a mesma derivação. É bom acrescentar que, se os despojos culinários de Micenas e Tirinto como os das terramares da Itália e dos kiökkenmöddinger da Arruda, nos revelam uma interdição alimentar para com o peixe, no entanto, as conchas de molusco são frequentes entre o amontado de restos examinados pela curiosidade sábia.
A linguística está de acordo com os resultados de observação directa. É de singular valia para a nossa tese a sua afirmação de que as línguas qualificadas ‘arianas’ não nos podem explicar, nem na forma mais arcaica, a afinidade de certas [p. 75] expressões toponímicas que se constatam aqui e além – na Itália e na Ásia Menor. É aquele reparo de Salomon Reinach acerca do sufixo românico itta, em francês ette. Este sufixo encontra-se nos nomes de algumas cidades pelásgicas como Baretta, Trigletta, Larissa (Laritsa), Argissa (Argitsa), etc., que, debaixo de uma pronúncia helenizada, não contam origem que os justifique nos mais velhos documentos linguísticos do mundo Ária.(68)
A arquitectura e as artes decorativas corroboram a similitude estatuída pela filologia. Assim, os nossos dólmenes e as construções ciclópicas são sem dúvida nenhuma vestígios de um mesmo povo edificador. Os ídolos femininos que se têm desenterrado nos monumentos megalíticos da Bretanha e nas paredes internas das grutas funerárias de Boury e Uzés, nós os reconhecemos na cerâmica primeva de Tróia e de Chipre. Também um dos elementos primaciais da ornamentação micénica – «les fers à cheval concentriques» – se nos mostraram nos despojos apurados em Gavrinis, no Morbihan, e em Newgrange, na Irlanda. É o sistema ornamental que antecede no Ocidente a invasão do estilo geométrico, caracterizador do Dípilon.
Sem me alargar mais num inventário que nunca acabaria, eu considero o delicocéfalo meão investido na posse de uma brilhante cultura, como é a que em resumo fica exposta. Verificada a impossibilidade da sua proveniência árica, ver-nos-emos nós constrangidos a aceitar a solução turaniana, que se pretende deduzir de uma imigração braquicéfala, remontando ao neolítico? É uma variante, mais recuada e menos sustentável, do monogenismo asiático. Descai hoje perante os postulados da antropologia e não são as indicações da pré-história que lhe fornecem aprumo dorsal. Começa logo por não ser exacta a extracção teórica que se atribui ao braquióide, rotulado no campo científico pelo apelativo de H.-Alpinus. É o parvus, agilis, timidus, da classificação de Linneu. Opõem-no ao [p. 76] homem loiro e de alto talhe. E, conforme Mortillet e Topinard, seria o portador da acha polida e dos animais domésticos, introduzindo ainda entre nós o trigo e as árvores frutíferas. Nada se esboroa, porém, com mais facilidade, como essa ideação doutrinária, conferindo ao braquióide, que é o lígure de Teófilo,(69) o monopólio cerrado das civilizações.
Nem ele é exclusivamente de derivação exótica, pois já na transição do mesolítico os kiökkenmöddinger da Arruda e as cavernas de Corbières lhe assinalaram a coexistência com o nosso dolicocéfalo. Não é por isso o pioneiro da acha polida, nem se lhe deve a iniciação do período agrícola, visto que em certas explorações pirenáicas o trigo se mostra cultivado desde o quinto interglaciário, quando ainda não bruxuleavam nem os alvores do neolítico. É o que acontece com as árvores de fruto, reputadas como advindas da Ásia. Quanto aos animais domésticos, não se ignora já que aqueles que não sejam indígenas da Europa entroncam em linhas zoológicas africanas, em contacto fácil com o nosso continente por meio do istmo que, roto, deu lugar ao estreito de Gibraltar. E sobre a acha de pedra, basta dizer-se que na Ásia é que ela é precisamente tardia e rara. Vacher de Lapouge aponta-lhe a África como berço, alegando que é aonde se lhe segue a evolução com mais nitidez, desde o tipo embrionário do ciclo acheuleneano à peça definitiva que marca a plenitude do neolítico.(70)
É o H.-Alpinus de cabeça globulosa, estatura abaixo da média, moreno e mesorrínico. Exemplifica-se pela qualificação de raça de Grenelle. Deniker adjectiva-a de cevenola, por quanto na região das Cevennes é que se acantonam os seus representantes mais lídimos. Estabelece-se-lhe uma linhagem mongolóide, com apertadas ligações eslavas ou fínicas. [p. 77] Em Portugal preparou o cruzamento mesaticéfalo que se destrinça na nossa composição antropológica. Não é, contudo, como factor étnico, de uma influência tão decisiva, como se depreende do ligurismo sustentado pelo insigne Martins Sarmento e ao depois por toda a obra de Teófilo. Predominou mais na hereditariedade espanhola, misturando-se com a possível transfusão shumero-acadeana em que se filia, com base ou não, a ascendência do ibero.
A qualificação de H.-Alpinus veio-lhe do maciço helvético, por lá preponderar, a partir da Idade-Média. Nota-se-lhe uma tendência inata para habitar as altitudes, quando o H.-Europaeus «dédaigne les régions pauvres et inégales» – pontifica o curioso senhor de Lapouge. É falsa a ligação que o procura aproximar do H.-Scythicus, ou tártaro braquicéfalo. O grau de braquicefalia da gente chamada de Grenelle excede os mais pronunciados índices braquióides que entre os mongóis se acusam. A sobrevivência de caracteres porventura comuns explicam-se por dosagens casuais, nunca por alianças com um êxodo de pura fonte chinesa, metendo as raízes nas penumbras do tempo. O nosso H.-Priscus, esse seria primo carnal do esquimó, que por via da cor se aparenta com algumas bifurcações da família amarela. No entanto, não generalizemos a semelhança de maneira a ter-se como assente uma identidade de tronco entre o braquicéfalo europeu e o braquicéfalo asiático.
Tappeiner especializou-se no estudo do assunto. Assim, no exame de 929 crânios e de 8200 pessoas vivas, não achou entre a gente das Cevennes um único exemplar que recordasse remanescências mongolóides. É ele que sustenta que a raça amarela não é braquicéfala. O verdadeiro H.-Asiaticus, de cabelos e olhos pretos, com uma estatura que não cresce para além da média, é invariavelmente dolicóide. De modo que em 700 milhões de amarelos nem num quarto aproximado se denunciara a braquicefalia. Pode mesmo assegurar-se que na Europa a percentagem é incomparavelmente maior, [p. 78] testemunhando tanto lá como cá uma mistura de elementos intrusos.(71)
A história, acompanhando as marchas da antropologia, concede ao problema um aspecto terminante, desde que nos declara que o aparecimento do braquicéfalo amarelo nos plainos centrais da Ásia não é anterior à nossa era. As investigações realizadas da Rússia ao Turquestão, abrangendo a Caucásia e a Sibéria ocidental, não produziram um só crânio mongolóide que seja mais velho de que as invasões dos Hunos, Tártaros ou Turcos. Os braquicéfalos da Ásia-Menor é que são chegados ao nosso, ao que parece. Topinard via neles alpinos demorados na sua migração para oeste. Era a idade feliz da miragem orientalista. E a designação de celto-eslavo que se apõe a esta espécie antropológica remonta às horas primeiras da etnogenia. Broca opinava que um povo braquicéfalo saíra do cruzamento de uma primitiva aluvião dolicocéfala com autóctones braquióides. São as celtas da fábula arqueológica, interceptando a clarividência crítica dos eruditos em duelos tão famosos nos anais do bom saber, como as guerras encarniçadas do Alecrim com a Mangerona.
Claro que modernamente o celta é o homem loiro contemporâneo da espada de ferro, não valendo senão como um sinónimo do Ária conquistador, ao contrário do que se supunha nas apostas subjectivistas dos sábios em que ora figurava de lígure, confundido com o substractum aborígene, ora o tinham como um povo estranho, instalando-se no Ocidente pela ocupação. Martins Sarmento, para esclarecer as posições do seu ligurismo, alvitrou a diferença entre o celta da história, que é o H.-Europaeus, e o celta da arqueologia, encarnado no lígure para o insigne vimaranense, mas que, quanto a mim, é o H.-Mediterranensis, ou, mais justamente, Atlanticus.
O recuo operado pelos trabalhos de Martins Sarmento nas datas da nossa formação étnica levou Teófilo Braga a perscrutar a admirável cultura [p. 79] pré-árica, a que o Ocidente ascendera. Atribuíu-a, no entanto, ao alastramento do braquicéfalo com hipotéticas genealogias asiáticas. De um imaginário confronto do Ária na Bactriana com um povo inimigo, nasceu o nome de turaniano dado a esse povo. Derivara-se do Turan, título de uma grande extensão geográfica, por meio da qual a sabedoria avéstica iniciava a entrada do ano com a subida no Zodíaco da constelação do Taurus. É como considera Teófilo a nossa civilização arcaica, entroncando-a no património religioso do Irão.(72)
Já aqui se disse como o Avesta se transportou da alta pristinidade em que o haviam colocado para uma data que pouco mais subida será que o império de Alexandre Magno. É certo que o Touro subsiste entre as práticas rituais do H.-Atlanticus como um totem veneradíssimo. Na Península, desde a noite dos séculos, que a sua efígie anda gravada em moedas. Na heráldica portuguesa, as armas de algumas povoações conservam um touro como emblema nobiliárquico, em reminiscência inconsciente do antigo culto. Há ainda, como prova, os berrões transmontanos. Mas a tradição mais viva é a da festa popular de São Marcos, celebrada, que eu saiba, em Alter do Chão e em Santo António das Areias, no distrito de Portalegre.
O animal com que aquele Evangelista se simboliza é o Leão. A São Lucas é que o touro cabe. Todavia, São Marcos tem-se no Alentejo como padroeiro de boiadas e de boieiros, sendo honrado com um novilho no dia da sua festa pela devoção dos mordomos. Conduzido por eles, o novilho entra na igreja – «Entra, Marcos! Entra, Marcos!», diz a irmandade e secunda o levita –, e depois de abençoado pelo padre, canta-se-lhe o Evangelho nos cornos. Recordemos que São Marcos se festeja a 25 de Abril. A 20 marca a astronomia o ingresso do Sol em Taurus. Não haverá na insólita atribuição do boi àquele Evangelista um vestígio mítico do [p. 80]culto totémico do Touro? Eu penso que sim, acrescendo que, de mais a mais, conforme o Lunário Perpétuo, o Touro como signo tem poder sobre Estremoz, Elvas, Vila Viçosa e Portalegre. É ou não é um traçado gráfico da zona em que o curioso resíduo cultual conseguiu aturar?
Não nos esqueçamos de que o Touro era adorado como totem entre os eginetas. O Minotauro, encerrado no palácio do Labirinto (de Labrijs, dupla acha), soberanamente o demonstra. O rapto de Europa por Zeus, que se transformara em touro, é outro indício não menos apreciável. De maneira que, estreitamente ligado à civilização bronzífera que tem como condutor o dolicóide meão, o signo do Taurus não constituiria importação do braquicéfalo reputado como imigrante. Carecemos de deslocar no tempo e no espaço a génese dessa cultura notabilíssima. E não é aos planaltos do Oriente que nós iremos descobrir-lhe a natividade. Para mim, o H.-Mediterranensis, que já agora não designarei senão por H.-Atlanticus, não é mais que um sobrevivo da Atlântida submersa.
Não se ignora a memória guardada em Platão acerca do legendário continente que o mar teria engolido. Sólon a houvera recebido dos padres egípcios que traziam o facto registado nos seus livros herméticos. Segundo a narrativa clássica, um povo dotado de incomensurável poder marítimo apareceria das bandas do Estreito em avançadas belicosas sobre o Egipto. São as chamadas nações do Mar que enchem de referências misteriosas a história dos países orientais. Batalhas porfiadas se travaram. E Atenas susteve com esforço incrível o espraiar da onda assoladora, crescendo sem cessar. Partia ela de uma ilha formidável que existia em frente do Estreito e a qual parecia bem maior que a África e Ásia juntas. Mas uma vez um tremor de terra, acompanhado de furiosas inundações, fez sumir em pouco mais de uma noite a orgulhosa Atlântida que o Oceano encobriu para todo o sempre.
É ainda Platão, no diálogo intitulado Crítias, quem nos dá a descrição da famosa ilha. Crítias [p. 81] fala. Sócrates, Timeu e Hermócrates escutam-no. «Como nos ensina a tradição egípcia» – conta o filósofo –, «uma guerra geral se declarou há nove mil anos entre os povos que estavam para cá das Colunas de Hércules e os que viviam do lado de além. Duma parte, Atenas; da outra, os reis da Atlântida. Já dissemos que esta ilha seria maior de que a Ásia e África juntas, mas que foi submergida devido a um tremor de terra. No sítio onde ela existia apenas se encontra um lodo que estaca a navegação e torna o mar impraticável.» E Crítias continuou desenvolvendo a fábula dos padres egípcios sobre a formação do império atlântico. A Atlântida coubera em partilhas a Neptuno, o qual a dividira por dez filhos que tivera de uma mortal. A raça atlântica nascera numa planície perto do Oceano, protegida por um círculo de montanhas que a deixava só aberta ao vento amável do sul. Mais tarde, na planície ergueu-se uma cidade majestosa, com palácios e templos edificados a pedra de três cores – preta, branca e vermelha – que se extraía do próprio seio da ilha, rica em toda a espécie de minério.
Nem só em Platão ficou memória desse enigmático continente desaparecido. Amiano Marcelino chama-lhe Insula Europeo Orbe spatiosior. Tertuliano, Marcelus ou Fílon perpetuaram a continuidade da tradição. E se por muito tempo ela se considerou apenas como um simples conto de eru ditos, a geologia hodierna caminha a passadas largas para nos reconstituir o trato marítimo corres pondente à famosa ilha afundida. Já está provada a identidade da estrutura herciniana da Alemanha, compreendida do Danúbio ao Reno e do Eslter ao Mar do Norte, com a estrutura dos montes Alleghany que são a coluna espinal das costas setentrionais da América.(73) A semelhança da flora [p. 82] miocénica da Europa Central com a flora actual da América do Norte, região do Leste, leva os naturalistas a proclamar a existência do continente atlântico. O zoólogo Hamy observa que há certos insectos comuns à América Oriental e à Europa-Ocidental. O facto é confirmado pelo estudo dos fósseis. E por sua banda as cartas batimétricas do Atlântico ajudam-nos a determinar a orla do misterioso continente submerso. A Madeira, os Açores, as Canárias, o arquipélago de Cabo Verde, as Antilhas e a Terra Nova, sem aludir a ilhéus e a baixios, pontuam os seus restos culminantes. É como que um dorso enormíssimo que das Antilhas ao plâteau télépathique, marchando na direcção leste-oeste, nos não consente hesitações nenhumas acerca da verdade da Atlântida.
As sondagens marítimas auxiliam a ressurreição. O chamado «mar do sargaço» que Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral atravessaram, corroborando as narrativas clássicas de Heródoto e de Estrabão, é o sinal claríssimo do cataclismo que abismaria a Atlântida, tornando o Oceano difícil aos navegadores antigos. A vegetação espessa que enleava as quilhas, engrossando a água em termos de ser impossível de se cortar, denota bem um fundo próximo de terra, com recursos ainda suficientes para alimentar um florescimento de algas tamanhas e tão robustas. Era o lodo da catástrofe elaborado em humus criador.
A configuração da Atlântida seria aproximadamente a da Áustria com numerosos arquipélagos fazendo-lhe guarda de honra. Há também quem a represente como um longuíssimo istmo, estendondo-se das vizinhanças do Canadá até quase à base dos Pirenéus. Tocava na Terra Nova e nos Açores. Abrangeria também a Flórida e as Afortunadas. O golfo de Cádis incorpora-se numa oval de afundimento que um distinto geólogo português, o capitão de engenharia Pereira de Sousa, designa por afundimento em oval lusitano-hispano-marroquino, [p. 83] supondo que aí mergulhara uma parte da Atlântida.(74)
O professor francês Louis Gentil, em 1909, notava numa viagem de exploração pela costa de Marro cos que os alicerces terciários do Atlas se embebiam no Atlântico(75) entre o cabo Rir e a fortaleza de Agadir, para se soerguerem mais adiante nas ilhas Canárias. «Autrement dit», escreve ele, «il y a ennoyage des plissements de l’Atlas sous l’Ocean, entre la côte sudmarrocaine et l’archipel espagnol.» O botânico Pitard descobria depois na Grande Canária e na Ilha do Ferro abundantes depósitos cretácicos que testemunhavam, com efeito, o prolongamento do Atlas pelas Afortunadas do mito.
Esse afundamento oceânico cortou bruscamente a meseta marroquina e é no sentido em que ela corria que o arquipélago da Madeira se eleva. «Embora não tenham sido ainda encontradas no Arquipélago da Madeira, como o foram no dos Açores, Cabo Verde e Canárias, rochas antigas que indicam o embasamento sobre o qual os vulcões edificaram essas ilhas, é preciso notar que a Ilha do Porto Santo é constituída principalmente por depósitos terciários, como também existem sobre a Meseta marroquina.» Quer K. Mayer que os depósitos terciários verificados na Madeira, à excepção de uma diminuta camada mais recente, se filiem no Helvético, que é o primeiro andar do Mediterrâneo de Suess. É de 410 metros a altitude que atinge na Madeira. Berkeley Cotter, por vários fósseis de Porto Santo, aceita aquele período geológico, não excluindo, em todo o caso, a possibilidade de que uma maioria sensível de tais depósitos se classifique pelo Tortoniano, ou seja o andar superior do sistema miocénico. Berkeley Cotter, segundo o senhor Pereira de Sousa, descreve-nos alguns subfósseis marinhos das «praias levantadas» de Porto Santo, reputando-os como quaternários ou [p. 84] recentes. «Por conseguinte», deduz Pereira de Sousa, «a quem na deficiência de preparação científica me vou encostando, embora os Arquipélagos das Canárias e da Madeira estejam já na orla com que limito o afundimento em oval lusitano-hispânico-marroquino, bem visível numa carta hipsométrica, podem bem considerar-se os seus vulcões como consequências deste afundimento, e os outros terrenos como restos da região que se afundou.»
«Apresentam-se as ilhas Canárias», prosegue o senhor Pereira de Sousa, «dispostas aproximadamente em arco côncavo para o N. de modo a limitar a oval. Este facto e a disposição também em arco côncavo das ilhas de Cabo Verde tinha sugerido a Michel Levy – o sábio que mostrou a importância dos afundimentos em oval e lhe deu este nome – a ideia de que estes arquipélagos deviam fazer parte de afundimentos desta natureza». E acrescenta: «De facto, não se compreende que, aparecendo estes afundimentos no Mediterrâneo e no Mar das Antilhas, entre estas ilhas e as montanhas da Venezuela, e que mergulhando as cordilheiras do sistema alpino da costa Ocidental da Europa e da África no Atlântico, devendo prolongar-se depois submarinamente até às Antilhas, como têm mostrado os geólogos modernos, que os afundimentos em oval não continuem também entre a Europa e a América.»(76)
A Meseta marroquina com boas razões se reputa como formada de vestígios do horst ou korstes que se precipitou no referido afundimento. Os afundimentos em oval «explicam-se como resultantes do afundimento de áreas de sobreelevação, que foram em parte contornadas por desabamentos mais modernos, que se inclinam às vezes em sentido contrário, formando então no seu conjunto uma dobra em leque, cuja parte interior, constituindo o fecho de abóbada, se afundou».
Foi o fenómeno que sucedera a Este do estreito de Gibraltar. «A Cordilheira Bética e o Rif marroquino [p. 85] moldaram-se em torno de um maciço antigo que depois, afundando-se, deu origem a esta parte do Mediterrâneo Ocidental, onde se encontram profundidades de 2000 metros e na costa as erupções vulcânicas do Cabo de Gata em Espanha, e de Tiffarouine e de Dellys na Argélia.» Mais ou menos se desenha o processus natural do afundimento em que a Atlântida se sepultaria. A comoção que engoliu consigo o berço provável do H.-Atlanticus deixou, ao que parece, traços bem fortes na nossa serra do Caldeirão. Uma deslocação importante trouxe-lhe a meio do Culm um afloramento notável de Triásico. E não é só no Mediterrâneo que se rasgam fossas profundas. A 200 km O.-SO. do Cabo de São Vicente existe o banco de Corringe separando duas cavas de 5000 metros de profundidade. Hoje admite-se que o Cabo de São Vicente se dilataria muitíssimo mais no rumo SO. Também entre a Madeira e o litoral marroquino se constata outra fossa de 4498 metros. São outros tantos sinais de uma inquestionável alteração geológica. Preocupam-se os sábios com a idade rigorosa em que ela teria lugar. Que fale com a sua competência o senhor Pereira de Sousa. «Este afundimento formou-se provavelmente por parcelas mais ou menos em relação com as vicissitudes por que passou a comunicação entre o Oceano Atlântico e o Mediterrâneo. Este problema acha-se evidentemente também ligado à determinação da época em que teria sucedido o retalhamento do continente, a que pertenceram as diferentes ilhas do Atlântico Ocidental e cujos fenómenos eruptivos, ainda recentes, testemunham as fracturas que produziram o desaparecimento desse vasto continente.»
«A presença do Helveciano e Tortoniano no arquipélago da Madeira indica-nos que esta parte do afundimento lusitano-hispano-marroquino se deu depois do Vindoboniano, isto é, depois de estar fechado o estreito nord-bético ou andaluz, e de ter começado a funcionar o estreito sud-rifenho. Deu-se talvez este afundimento como consequência da elevação do estreito nord-bético que desde o fim [p. 86] do Miocénico inferior deixou de servir de comunicação entre o Atlântico e o Mediterrâneo.»(77) Foi durante o Plaisanciano que se escindiu o estreito de Gibraltar, datando a separação das Canárias do continente africano já do quaternário, segundo o professor Gentil.
Tão acidentadas operações geognósticas denotam bem a instabilidade dos embasamentos sobre os quais a Atlântida repousaria. Por isso o espantoso cataclismo estava na ordem dos acontecimentos físicos que andaram preparando a face definitiva da Europa histórica. Jogando apenas com as luzes da sua especialidade, ao senhor Pereira de Sousa não repugna a ideia da existência da Atlântida como continente habitado. «O sr. Berkeley Cotter, como ficou dito, encontrou nas praias levantadas da Ilha do Porto Santo algumas espécies marinhas que considerou quaternárias, mas não indicou a divisão do Quaternário a que pertencem. Portanto nessa época já se tinha formado o arquipélago da Madeira; mas é bem provável que essas praias não datem da aurora do Quaternário e que o homem já tenha assistido ao desaparecimento de uma das terras mais privilegiadas do mundo, pela amenidade do clima e pela riqueza do seu solo, como a lenda atribui à Atlântida.»(78) E na sua monografia – Ideia geral dos efeitos do megasismo de 1755 em Portugal – sustenta a interessantíssima tese de que o terremoto que deitou Lisboa abaixo no século XVIII «foi ainda o despertar desses movimentos verticais que originaram o afundimento lusitano-hispano-marroquino e, talvez, os últimos arrancos de uma parte da Atlântida já então sepultada nas entranhas do mar».
As informações da geologia juntam-se aos etnógrafos na sua faina de vasculhação comparativa. São singulares de parentesco as características dos indígenas das Canárias com as dos primitivos mexicanos e peruvianos. Lá declarava Montezuma aos espanhóis [p. 87] que os seus antepassados tinham vindo de um país maravilhoso situado ao oriente. Chamava-se esse país de encanto Aztlun e em todas as inscrições era designado pelo hieróglifo com que se representava a água. De Aztlan a Atlântida, a fonética dirá a distância que vai.(79) E nem só na tradição hermética dos padres egípcios a recordação do misterioso continente se retivera. As teogonias gangéticas rezam que Atlas, filho de Uranus, inventara a esfera e formulara as primeiras leis astronómicas, reinando entre o povo dos Atlantes. Esta reminiscência da sabedoria bramânica pode aproximar-se das linhagens míticas conservadas por Diodoro Sículo acerca dos Atlantes, com Uranus e Titeia por tronco dos seus reis. Martins Sarmento publicou a tal respeito um estudo curioso na Revista de Ciências Naturais e Sociais, onde asseverava que «os Atlantes de Diodoro não têm nada a ver com os habitantes da famosa Atlântida, de que nos falam Platão, Teopompo e outros, e que um cataclismo teria devorado». Pelo contrário, «eram os povos estabelecidos pelas costas do Atlântico – esclarece o ilustre arqueólogo – desde o Mar do Norte ao Atlas e que para o nosso historiador tinham uma existência tão verdadeira, como qualquer povo seu contemporâneo».
Se Martins Sarmento vivesse, com certeza que emendaria o texto transcrito, passando a encarar nos Atlantes de Diodoro os náufragos salvos da tremenda cátastrofe, de que se guardaram ecos duradoiros na memória dos índios da América. Efectivamente, o «império de Xibalba», dominando por longas terras e de uma vez engolido de súbito pelas águas, era o tema de mais de uma narrativa entre os naturais da América do Centro quando os espanhóis ali chegaram. Uma prova valiosa se nos depara no livro Esperanza de Israel, do rabino português Menasseh Ben Israel.(80) Foi ele originado pela relação [p. 88] de um outro judeu, António de Montezinos, que, viajando pela América nos princípios do século XVII, de lá voltou com a nova de haver tribos hebraicas entre os indígenas. Messaneh Ben Israel desenvolve a notícia trazida pelo seu irmão de sangue e, com apoio em todos os elementos teológicos e históricos de que a ciência talmúdica dispunha, sustenta a origem israelita dos americanos. Passando em revista os conhecimentos um tanto fabulosos da geografia antiga, Ben Israel, embora não acredite muito na Atlântida, fornece-nos um aparato de erudição clássica que testemunha bem como a lembrança da navegação do Oceano em outras idades andava ligada à habitabilidade da América com ilhas grandes como continentes, servindo de ponte através os mares.
Não se referirá à Atlântida legendária a Ilha de Oiro do nosso ciclo marítimo? Lá é que ficava a nobre cidade de Antília. De lá viria o Encoberto na manhã sagrada das profecias. Não é inútil reparar que se o Encoberto é a figura da Esperança – factor dinâmico da alma colectiva do Ocidente, a «ilha-empoada» é sempre um dos traços fundamentais da criação messiânica. Não estará aqui mais um sinal identificador do nascimento do H.-Atlanticus, apelando para o Desejado na hora da fraqueza e vendo o remédio acenar-lhe de um ponto enigmático que flutua à flor das ondas e se some com os cerraceiros? É a lembrança poética do primitivo berço perdido. Já Artur dormia em Avalon, a ilha florida dos bardos. Numa ilha que é a um tempo purgatório e paraíso, El-Rei D. Sebastião aguarda que se cumpram o ano e o dia das promessas de Deus. Sabe-se o valor dos Mitos, como a filosofia hoje os interpreta, vendo neles materializações da vontade de uma raça. Com o «Tratado das Ilhas Novas»,(81) com o célebre memorial de Frei João da Trindade a D. João IV, Antília, ou a ilha das Sete-[p. 89] Cidades, é a preocupação activa de um povo de descobridores. Dois religiosos franciscanos, Frei António de Jesus e Frei Francisco dos Mártires, jurariam in verbo sacerdotis em como a tinham aportado na fúria de um temporal.(82) Corria então 1668. E já dois séculos antes as frotas partiam à cata de Antília, com cartas régias de doação que autorizavam o feliz que topasse a eterna Afortunada, a prover em nome de El-Rei de Portugal os oficiais da câmara daquela mui nobre cidade; Antília mostra-se deste modo o pensamento constante da Era das Navegações, como fora durante a alta Idade-Média a ilha de São Brandão, um dos taumaturgos mais queridos da Irlanda.
É notável que aonde a Comuna se manifesta como agente estático das populações, igualmente se manifesta o Encoberto como miragem de reparação final. Constitui a principal linha fisionómica do génio ocidental, ou atlântico. A Ilha-Incógnita é inevitável na tessitura da lenda messianista, como um lugar interdito em que se esconde, contra a sua própria vontade, o salvador que o futuro nos reserva. Ou seja Artur, ou seja Sobastiano, é o mito de Saturno repetido, com o refúgio de expiação num recanto oceânico a poente e sempre a certeza do regresso triunfal. «Rei do Cabo-Poente» – apelida Bandarra o nosso Desejado. Não será a prevalência da fábula aprendida nas teogonias de Diodoro, as quais nos apontam o marido de Cibele acolhido a um exílio no meio das águas, de que tornará para conduzir a sua grei à vitória?
Eu julgo que sim. Tanto como julgo que a Ilha-Desconhecida, transmitindo-se aos tesouros poéticos do Ocidente, é, de Saturno a D. Sebastião, com termos de passagem em São Brandão, em Merlim e no rei Artur, nada mais que a recordação simbólica da Atlântida original – fonte de toda a esperança, motivo de todo o pasmo. Essa [p. 90] atracção sistemática para uma terra a ocidente não me leva a supor hipótese diversa, muito mais agora que a batimetria nos ajuda com vigor a presumi-lo. Foi impulsionados por um alvo tão problemático que nós alcançámos o Lavrador e os Corte-Reais se desgarraram, um atrás dos outros, para a goela nunca farta do Polo. Nos Açores a «Ilha-Nova», que aparecia e desaparecia, era uma obsessão. Armavam-se, para a surpreenderem, navios sobre navios. Os tempos de Pombal viram a última tentativa com D. Antão de Almada por governador-geral do arquipélago.
Da sobrevivência do facto nas tradições orais derivou talvez a descoberta da América, conhecida a demora que Cristóvão Colombo teve na Madeira. O que eu contemplo em tudo isto é a perpetuidade de uma crença unânime em regiões insulares a oeste. Sobe do fundo da nossa história e possui raízes nas raízes da Raça. Pela religião irridentista do Encoberto, a certeza na existência da «Ilha de Bruma» pertence ao património místico e afectivo do H.-Atlanticus. É mais um índice da vasta conformidade espiritual e idealista que distingue o pequeno dolicóide e tão fortemente o individualiza.
Adaptando-se às condições da época e do meio, a fé na Antília das crónicas navais de Quatrocentos importa uma consideração de peso a favor da Atlântida. As gerações haviam alegorizado para as gerações o boato que até elas chegara embrulhado nas reticências do imemorial. Invoque-se o argumento de que a Ilha-Encoberta é em todo o Ocidente um símbolo de viveza palpitante. A unidade étnica revela-se de pronto. E não nos oferece uma elucidação luminosa aquele passo da lenda que dá Antília como povoada por gente fugida das Espanhas por causa da chegada dos moiros? Uma nau das nossas aproaria de certa vez a essas praias de prodígio. Acudiram logo os da cidade a perguntarem em português antigo se os moiros ainda cá estavam. Se a afinidade se mostra patente na língua e na origem – para que insistir no fundo de verdade que a lenda guarda consigo?
Ou [p. 91] subvertida por uma assombrosa erupção vulcânica, derivada de uma maior intensidade na atracção solar, ou vítima do soerguimento dos Alpes e das cordilheiras americanas, senão da inclinação da eclíptica promovendo o desequilíbrio da massa ígnea que o globo encerra no ventre, a Atlântida existiu – e existiu como senhora das águas e dominadora dos povos.(83) Fábulas, arqueologia, pesquisas geológicas, trabalhos comparados de etnografia – tudo converge para o proclamar soberanamente. E a tão elevado grau de cultura subira o estranho continente afogado, que o inglês Newberry conseguiu demonstrar que os Atlantes não só conheciam e praticavam os metais, mas – oh, feeria das Mil e uma Noites! – até se serviam de nafta para se iluminarem, como o indicam os velhos poços escavados nas zonas petrolíferas da América do Norte.(84) Não demorará que subsídios categóricos acabem de solucionar as interrogações que porventura impendam ainda sobre uma questão tão emaranhada. O que é já absolutamente insofismável é a reconstituição da Atlântida, segundo os esclarecimentos batimétricos. Coleccionem-se agora os demais depoimentos produzidos. E respondam se não nos achamos em face de uma evidência bem contornada, toda ela cheia de linhas poderosas?
Impossibilitada a origem ariana da civilização conduzida pelo pequeno dolicóide, não é a suposta precedência asiática do braquicéfalo que a viabiliza, como houve ensejo já de se examinar. Qual o berço então de uma cultura que se nos apresenta como autóctone rodeada desde o início das idades das circunstâncias que só a autonomia do génio confere? Temos que aceitar um ponto incerto ao ocidente, em frente do Estreito, donde burbulhavam as famigeradas «nações do Mar» que em séculos atrazados se alçaram contra o Egipto. A localização do desterro de Saturno no seio do Oceano é pelo patrocínio que concede aos povos nomeados como [p. 92] súbditos do deus, um outro elemento para se ponderar deveras. E pois que, segundo os textos egípcios, entre os «invasores do Mar» figuravam os Tursha e os Shardana, respectivamente Etruscos e Sardos, não receemos de cair em erro demasiado quando por semelhante rasto se procure restaurar a esfera de acção de toda a pujantíssima cultura atlântica.(85) E se não vem da Ásia como mais que demonstrado se acha, se nem o Ária a semeia nem o braquióide a inspira, digam-me os senhores que impulso irradiador lhe atribuir?!
Já se destacou o forte cunho marítimo e agrícola que a caracteriza. Igualmente, pelos depoimentos da arqueologia, se conhece a ascendência oceânica da civilização egenética. Então para onde apelar – que princípio de vida teremos nós de lhe estabelecer? Não nos viremos para o Cáucaso em recurso último. Os despojos aí desenterrados não são mais que filhos de tipos arcaicos, só até agora descobertos nas bandas ocidentais da Europa. Nada nas antiguidades do Cáucaso dá a impressão de que tivesse sido o ponto de partida de um movimento para oeste – assevera Salomon Reinach.(86) Bem ao contrário, tudo se combina para identificar a cordilheira sagrada, onde Prometeu eternamente expia o seu sacrilégio, como uma estação terminal de correntes, cujo ponto de partida é na Europa que se deve perguntar.
O H.-Mediterranensis volve-se, pois, em H.-Atlanticus. As circunstâncias da sua natividade, sem me arrogar orgulhos racionalistas de primário, eu as encaro como mais ou menos compreendidas na hipótese já aqui tratada sobre a natureza negativa do Progresso. As considerações formuladas a propósito da antropo-sociologia e do primado de eleição de que ela reveste o H.-Europaeus, são para mim tão aplicáveis à região de Latham, sepulta pelo Báltico, como à Atlântida devorada pelo nosso [p. 93] Oceano. O facto subsiste, a teoria é a mesma. A Atlântida, antes dos ares se aclararem, podia muito bem pela permanência das névoas e pela amenidade das estações, sem estios exagerados nem invernos rigorosos, comportar em si o meio refreador dos instintos do seu natural. Esse ambiente seria causa de um certo linfatismo, o qual, sem ser excessivo como no grande dolicóide, levasse contudo o indígena a diferir da pigmentação primitiva que se mantém nos peles-vermelhas da América, talvez do outro lado do mar representantes degenerados de uma perdida raça iniciadora. Recordêmo-nos apenas de que Adão em hebraico significa vermelho.
Mas dimanados propriamente da Atlântida, ou gentes de ribas vizinhas que lhe recebessem o contágio lustral, como é que se explicará agora a aparição dos pelasgos na Ásia Menor, provindos do interior, se até hoje as primeiras avançadas do H.-Mediterranensis para o Levante se reputam como efectuadas pelos eginetas? Como é que, por outro aspecto, nós, os do Ocidente, possuíramos o monopólio do âmbar, se os túmulos da quinta dinastia acusam a presença dessa espécie entre os egípcios? Há que aceitar, quanto aos pelasgos, um segundo caminho para a expansão do H.-Mediterranensis que não é o do Estreito e do norte de África. E, pelo que respeita à nossa influência na cultura do Egipto, recuar até muito largo as datas aproximadas que a arqueologia oficial usa de presumir.
Flinders Petrie destrinçou bem o contacto em que o Egipto esteve desde remota pristinidade com as populaçõas egeanas, «qui, venues de l’ouest, exerçaient leur domination sur les îles de l’Archipel, ses rives occidentales et orientales, peut-être aussi sur cette partie de l’Afrique du Nord qui est devenue plus tard la Barbarie», aclara ainda Salomon Reinach.(87) Por outra banda, como que em contradita, uma colónia de pelasgos se transferira da [p. 94] Troada para a Etrúria, sendo já aqui assinaladas as parecenças flagrantíssimas da cerâmica ocidental com os destroços de olaria obtidos naquelas paragens do Levante.(88) Nas tradições câmbricas prevalecem ainda os vestígios de uma migração guiada por Hu-Gadarn, oriundo do país de Haf, que é onde agora está Constantinopla – elucida um velho motivo poético.
De todo este vaivém de êxodos, deduzidos de um tronco comum, mas marchando desordenadamente a modo que uns contra os outros, não se desprenderá ante o embargo mais cerrado à tentativa de síntese em que eu desejo equacionar os valores genéticos da nossa civilização autóctone? É como que uma cloaca-gentium, desenvolvendo-se para a direita e para a esquerda, para o sul e para o norte, sem que aflore de entre a embrulhada rumorejante dessa feira de tribos a extremidade salvadora do novelo de Ariadne. E não sorriam de boa citação mitológica! Já que se discorre de Creta e dos povos que conviveram o Minotauro, ela tão da praxe, como Estrabão é inevitável para quem se ocupe da Península!
Será assim, em verdade, uma confusão babilónica, se julgarmos de rápido, só pelas aparências. Segurem-se, porém, em sólida determinação os factos que se revelam mais antagónicos e acreditem que a incógnita não tarda a resolver-se, cheia de limpidez da água pura. Ora vejamos um pouco. Está assente que os pelasgos constituíram a cama da arcaica da civilização proto-histórica na Grécia. Com eles os Frígios, os Leleges e os Cários fecundam com sobreposições de cultura e etnia a Ásia-Menor, onde, na frase de Maspero, os povos do mundo antigo se deram todos rendez-vous. Adventícios em Canaã, os filisteus entroncam nos egeanos, pertencem ao vasto viveiro ocidental. E a Bíblia que os tem como idos das «Ilhas do Mar», da terra longínqua de Tharsis. Com Tharsis se identifica [p. 95] Tartessus na Península. Mas a expressão carece de se generalizar. Tharsis seria mais que um empório comercial. Era uma larga e misteriosa zona em que os metais abundavam.
A denominação de «filisteu» (plishti) achega-se à de pelasgo – repara o insuspeitíssimo Maspero,(89) e denuncia, em referência a Israel, a promanação estrangeira desse povo. Os próprios textos hebraicos os designam muitas vezes como Crethi, traduzindo a persuasão que os olhava como saídos do Egeu com Creta por metrópole. Também os fazem vir de Caphtor (Juizes, II-IX), que é uma palavra correspondente a Kupros, de Chipre. Correlacionam-se, portanto, os filisteus com a irradiação formidável do pequeno dolicóide no período bronzífero, tanto mais que Estêvão de Bizâncio afirma peremptoriamente que Gaza não passava de uma colónia cretense.(90) «Os monumentos egípcios confirmam esta hipótese e são eles que nos apontam a data da emigração – corrobora Maspero. Os filisteus pertenciam aos povos que assaltaram o Egipto durante o governo de Ramsés III. Derrotados pelo rei, submeteram-se ao seu serviço, concedendo-se-lhes a permissão de ocuparem a costa meridional da Síria. Mas os Frígios, os Carios, os Leleges – toda a compacta massa humana que se enovelava às portas da Ásia, quem eram, donde é que vinham, se nenhuma consanguinidade os ligava nem às genealogias semitas, nem à família irrompente dos Árias?
Os Frígios, ou Brígios, enraizados ao norte da Macedónia, trocariam a bacia do Strymon pelas cercanias da Ásia. Na região delimitada pelo Sangários e pelo Meandro fundaram de seguida sobre os pendentes ocidentais da planura asiática a nação da Frígia, que cedo se notabilizou pela sua índole agrária e trabalhadora.(91) É o habitat que se [p. 96] atribui unanimemente aos pelasgos da Grécia, ramificação da mesma árvore. Possuíam um alfabeto e a língua que falavam regia-se já pela maioria das leis fonéticas que informaram o grego ao depois. As origens agrícolas de uma tal civilização manifestam-se na fábula de Gordion, seu primeiro chefe, o qual em princípio não se teria visto senão dono de duas juntas de bois. De Gordion e da deusa Cibele nasceu Midas, herói fundador de mais de uma cidade e que é a personificação do génio frígio.
Conta-se que entre os Frígios se punia de morte quem matasse um boi ou quem destruísse um utensílio de lavoura. Aqui nos surge outra vez o boi como divindade totémica. Não é só em Creta, donde os Frígios em nada participariam, afastados do mar por outras tribos, que o boi se venera por conseguinte. Nem tão-pouco apenas nas desgarradas partes da terra que ficava sobranceira ao Atlântico. Também a Frígia adorava o boi, e tão religiosamente, que o nó górdio foi atado numa canga de boi. Não sendo inútil para o nosso estudo que se sublinhe a coincidência de terem os Frígios descido do norte da Macedónia, com a montanha do Taurus por vizinhança eminente. A Frígia se soterrou debaixo das assolações aqueanas, prevalecendo, no entanto, o carro triunfal de Midas com o famoso nó górdio a testemunhar a glória imperecível de uma raça defunta. Alexandre Magno cortou-o com a espada. E tudo mais se desfez em poeira desde então, não se apurando na actualidade lá onde fora Frígia mais que umas frustes antiguidades da época romana.
Filiam-se hoje em idêntico fundo pelágico os Hititas (ou Khati), que com arte sua e escrita alfabetiforme tantas preocupações despertaram nos âmbitos científicos. A proveniência lídia dos Hititas descai à falta de razões mais persuasivas que os resultados extraídos dos recentes cortes arqueológicos. Os Hititas são os Hicsos da dominação do Egipto. Escorreriam como os frígios dos Balcãs, precisamente pela ponta em que a Europa se toca com a Ásia. Um dos motivos identificadores da [p. 97] derivação europeia dos Hititas é a fíbula que aparece num baixo relevo de Ibriz, quando nem o Egipto, nem a Assíria, nem a Fenícia conheceram a fíbula antes da idade helénica. Ora a fíbula era natural do vale do Danúbio, e cá estamos nós, com tão valioso indício, de novo em frente dos Balcãs como ventre fecundo de quantos povos jorraram às entradas da História sobre o apetitoso levante mediterrânico. Oiçamos Salomon Reinach a semelhante respeito. «En l’état actuel de nos connaissances on ne peut même pas affirmer que la Jibule soit une invention des tribus grecques pendant leur séjour, au nord de la presqu’île des Balkans; peut-être faudrait-il en chercher l’origine plus loin vers l’ouest. La Jibule se trouve, en effet, bien que rarement, dans les couches supérieures des terramares et dans les stations lacustres des l’âge du bronze».(92) Eis o que sustenta o conservador do museu de Saint-Germain, autoridade tanto para merecer em assuntos de arqueologia, como para a repelirmos quando o seu costado judengo se põe a pontificar do Catolicismo em ar de sous-Renan.
Ao lado da fíbula que no Oriente pela primeira vez se revela em Ibriz, no interior da Ásia Menor, pela primeira vez se revela também a cruz em gama ou tetracelo. «Or, de la croix gammée, comme de la jibule, inconnues également à la Babylonie et à l’Égypte» – conclui Salomon Reinach –, «c’est en Europe seulement que l’origine peut être cherchée.»(93)
Recapitulemos nesta altura as bases do ocidentalismo de Martins-Sarmento. Para o nosso ilustre arqueólogo, localizadas as Cassitérides na Grã-Bretanha, antes de elas serem alcançadas pelas naves fenícias, já o tráfico do estanho de lá se operava para o âmago da Europa pelas vias fluviais do Reno e do Danúbio. Martins Sarmento julgava que esse caminho fora descoberto por uma imigração proto-árica subindo por ali acima até às costas do Mar do Norte. Varrida, porém, a [p. 98] miragem ariana com relação ao Ocidente e aceite a natureza oeste-europeia da cultura do bronze, a verdade desvenda-se-nos de súbito desde que se inverta o rumo do suposto êxodo. A emigração seria do pequeno dolicóide, que não só alcançou o Oriente enfiando pelo Mediterrâneo, mas que encontraria para lá uma segunda estrada através dos trilhos custosos dos Balcãs. É dos Balcãs que pelasgos e frígios surgem – os sinais e as indústrias, levados par eles, são os sinais e as indústrias do nosso Ocidente na hora máxima da actividade do homem-meão. Os pelasgos secam pântanos, rasgam canais, assentam povoações. Distinguem-se, portanto, pela capacidade agrária e construtiva. A façanha que mais os enobrece é desbaratar as florestas e limpar as impenetráveis matas virgens. Pois na tradição irlandesa menciona-se com orgulho o corte dos bosques como uma das proezas gloriosas da velha raça autóctone.(94) É mais um vínculo de parentesco. Já muitos outros se desferiram aqui. Eu não quero dispensar, todavia, a claridade que do culto da cegonha e do emprego do suástica incide vingadoramente sobre o problema.
Salomon Reinach insinua que o tetracelo com o aspecto aviforme que assume em certos vasos de Hissarlik pode muito bem significar uma estilização esquemática da cegonha. A cegonha na Troada honrar-se-ia como um pássaro protector, porque, segundo o testemunho de Schliemann, a planície ilíaca tornava-se inabitável por causa das cobras, se as cegonhas na Primavera as não devastassem. Expressivo é o mito de Antígona, a irmã amorável de Príamo. Presunçosa da sua bela cabeleira, Antígona não hesitava em compará-la à de Hera. Irritada, a deusa transformou-lhe as tranças em serpentes. Por compaixão, o Olimpo transformaria de seguida a donzela em cegonha para se ver livre dos répteis. Os Penestes da Tessália, de genuína extração pelágica, achar-se-iam na necessidade de fugirem também das serpentes, se as cegonhas não viessem em [p. 99] seu auxílio. Prestavam-lhe por isso honras divinas, proibindo que as matassem sob penas severíssimas.(95)
O culto da cegonha alastrou-se em práticas registadas no folclore pela Suíça, pela Holanda, pela Espanha. Nós sabemos como a cegonha se venera em Portugal, chamando-se-lhe «galinha de Nosso Senhor» e havendo-se por ave de bom agoiro. As antigas posturas municipais andavam cheias de interdições a seu respeito; e eram por vezes os magistrados do concelho quem lhes acautelava o poiso durante os largos meses da ausência.(96) O singular é que a tradição atribuída aos habitantes da Tessália se encontra em Martins Sarmento na Ora marítima com referência à velha Ophiuses frons dos périplos fenícios. Segundo o texto de Rufus Festus Avienus, Ophiusa vem de serpente. E é o caso que os oestrymnios, povos indígenas desta faixa atlântica, teriam de se retirar diante de uma invasão de cobras, deixando a terra vaga.(97)
É a cegonha, pelo exposto, um totem pelágico, designando-se em grego cegonhas e pelasgos com a mesma palavra. Pela naturalidade ocidental do tetracelo, em que se vê uma figuração ideogramática da cegonha, mais um argumento se invoca a favor da origem oeste-europeia desse primitivo fundo étnico. Lembrêmo-nos agora da lição de Plínio que considera o estanho revelado ao Oriente por um personagem alegórico, de nome Midacritus. Quem é esse Midacritus que iria às Cassitérides buscar o metal precioso? Querem-no identificar com Melkart ou Melicertes, o truculento Hércules tírio. Mas Salomon Reinach, valendo-se de dois passos clássicos – um das Fábulas de Higino, o outro das Variarum de Cassiodoro –, propõe a emenda opinada já em 1685 pelo jesuíta Hardouin para o Midacritus dos [p. 100] textos de Plínio.(98) É ela Midas Phryx em vez de Midacritus.
Eis que uma brusca mas profunda claridade nos alumia – Midas, o herói frígio, aparece-nos de súbito como o introdutor do estanho entre os seus. Sabida a unidade étnica e social do pelasgo com o pequeno dolicóide, de nada mais necessitamos para rematar a nossa tese.(99) Os frígios, comandados pela personagem mítica de Midas, não escorreriam apenas do íntimo dos Balcãs. Viriam das margens do Mar do Norte pelas vias fluviais do interior da Europa, ao contrário da imigração proto-árica que Martins Sarmento imaginara avançando pelo Danúbio e pelo Reno. O boato conservado por Plínio é um vestígio ténue de uma longa tradição abafada no alastramento das miragens do ciclo homérico. Possui-se, no entanto, um facto concreto que confirma todas as deduções tiradas da sobrevivência aqui e além dos mesmos tótemes e dos mesmos ritos, com o parentesco mais apertado a traduzir-se na similitude dos mesmos costumes e das mesmas instituições. Assim já se compreende que o bando de pelasgos, estabelecido na Ásia Menor e depois transitado à Itália, se reconhecesse como parente chegado aos naturais da Etrúria. As relações de consanguinidade que esses diversos núcleos populacionais alardeavam entre si enraízam-se desta forma num tronco comum que não pode ser senão a velha raça sociológica, de que nos falam em Éforo as lembranças de Hesíodo.
O H.-Atlanticus preside como chefe à árvore genealógica. É ele que, irrompendo pelo Estreito, assoma no esplendor sem par da arte egeana. É ele que, contornando o Oceano, se entranha pelos rios navegáveis e vai levar aos entrepostos propícios do Levante as riquezas profundas que o seu génio arrancara aos ciúmes da terra.
A autonomia [p. 101] duma cultura europeia indígena está patente. Mas não é na Europa Central, desdobrando-se em leque, conforme Salomon Reinach, que lhe devemos procurar o foco impulsor. É sobre o Ocidente num ponto mais ou menos próximo das águas, como que a recordar-nos a Atlântida submersa. Envolvendo o continente num demorado abraço, dois caminhos lhe marcam o andamento vagaroso. Um, é o caminho do mar pelas Colunas de Hércules adentro e as costas sempre à mão, sem se perderem de vista. É o outro o caminho do interior, com os grandes rios por condutores, tentando a sorte nos acasos do rumo. Lá em baixo os êxodos se encontrariam ao bafo benéfico da Ásia magnificente, mais perto das regiões de privilégio em que os deuses residem e são venturosos. Como que um contágio divino lhes concederia então os favores supremos da glória nas altas criações da Cultura.
Ao contacto de ribas exóticas com outras civilizações rivalizando, o H.-Atlanticus assentava o seu lugar de padrinho dos povos, de iniciador da História. É Micenas – é Homero. Antes fora a civilização da acha com o palácio de Cnossos, fora a talassocracia do Egeu, o domínio do Egipto, o protectorado das nações anónimas que na Troada se davam rendez-vous, descidas do lado de lá da montanha. A catástrofe avizinhava-se, todavia. Bem depressa as naves aventureiras haviam de perder o segredo das estrelas e para a banda do Oceano sem fim não seria mais que uma neblina imensa pairando por cima do ignorado viveiro em que toda a origem ficava. O Ária surgia brandindo a pua de ferro e com a basta coma loira desfraldada em penacho.
No embate sinistro das hordas e hordas crescendo, as ruínas amontoaram-se nas ruínas – dissolveram-se os traços comuns da convivência. Com os seus ornatos geométricos e frios, o Dípilon esmaga a gracilidade abundante do período bronzífero. Só há poeira de morte, sinais fresquíssimos de devastação. O H.-Atlanticus, submetido como um escravo, sua e espera. Quando de novo a hora [p. 102] lhe chegue, as nacionalidades modernas hão-de agradecer-lhe o elemento mais fecundo da sua composição. Ele renascerá no arrojo máximo da Catedral – será a vibração dançando nos ares o ritmo sempre moço das ondas.
Aceitando em Roma a regra que condensa e que ilumina, a Idade-Média enche-se do sonho milenário que ele guardou consigo, nos séculos tristes da opressão. É o claro-escuro que imortaliza o poema de Dante. É a Imitação de Cristo. É São Francisco de Assis. É a epopeia rumorosa das Comunas e das Descobertas. É a Cruz e a Espada, traçando o edifício admirável da ordem antiga, com a família à base por alicerce invencível e o Rei ao alto, como artesão robustíssimo em que a fábrica assombrosa da sociedade se rematava. Em luta sem tréguas nem fôlego, o tormento da linha limitada o aprisionaria na Renascença com a mentira das formas racionalistas. A mentira da Inteligência lhe cresta o dinamismo poderoso dos sentimentos com esse bafo da morte que foi com a Reforma a dialéctica de um monge despeitado. Sofistas e ideólogos o enterrarão a mãos ambas com os lirismos estultos da grande paranóia colectiva da Revolução. Na guerra que hoje se trava não é somente contra a hegemonia do Ária, raptor orbis, que o Ocidente em peso se alevanta. É também contra o despotismo sem freio das névoas que lhe obstruíram o pensamento, toldando-lhe a excelsa claridade que executou a abóbada e afilou a ogiva.
Irá o H.-Atlanticus ressuscitar? Oh, o dia que vem a virgem gaélica o espreita da praia, com o alaúde suspenso, para que aos primeiros anúncios do arrebol os dormentes da sua raça oiçam no sono de pedra quebrarem-se os prazos fatais da Encantação.
[p. 103 e 104] ### [V] A [p. 105] teoria da nacionalidade
É, pois, do H.-Atlanticus que deriva o substractum aborígene da população portuguesa. Ele é bem constituído pelo dolicóide meão, de crânio longo, cabelos escuros, cor morena e altura média.
Dois subtipos poderemos ainda considerar nesse primitivo fundo autóctone. Um é o indivíduo já descrito como indígena. O outro é uma variante posterior, denotando um acréscimo sensível de porte, em virtude de cruzamentos prováveis com bifurcações da família de La Vezère, também dita de Cro-Magnon. A elevação de estatura ter-se-ia produzido já em pleno mesolítico pelo advento do habitante estudado em Grimaldi e que é o troglodita da costa mediterrânica de Baoussé-Roussé.
É com semelhante aliança que o nosso dolicóide, revelado em Mugem, se manifesta e atura ao longo dos trabalhos preparatórios da Nacionalidade como o seu elemento mais fecundo e mais pertinaz. Será a homogeneidade étnica do Lusitano o motivo principal da nossa história. Surgido no vale do Tejo quase de envolta com os últimos arrumos geológicos da região, eis que se nos mostra desde bem funda idade como portador de decididas preferências sedentárias. Antes de praticar a agricultura, já se fixa e já enterra os seus Mortos.
São um sinal de apreço a este respeito os despojos recolhidos em Ota e nos cabeços da Arruda. Provam-nos o instinto de forte enraízamento que distingue o nosso antepassado. É essa virtude nata que, levando-o a achar a necrolatria como forma de coesão religiosa e social, imprime um carácter [p. 106] de persistência notável aos núcleos de população em que a Pátria fundamenta os alicerces. Não se trata como nos povos erráticos de um conjunto casual de cabeças com a força primando e o indivíduo sendo como que a razão primacial do grupo. Não. Trata-se antes de um tecido larguíssimo de indivíduos que só valem como elos de uma cadeia que nunca se desata. Com filiação espontânea no parentesco e no culto dos Mortos, o agregado define-se e hierarquiza-se gradualmente, à maneira que as suas necessidades vão desabrochando e se cria o empenho, cada vez maior, de satisfazê-las. Assim se compreende a índole comunitária do Ocidental. É uma raça que se agarra ao torrão e, conforme as simpatias naturais do seu habitat, se prepara instituições harmónicas que a sirvam e prolonguem no espaço é no tempo.
Uma fereza invencível se comunica por intermédio desse arraigamento tão entranhado. Não se explica de outro modo a resistência localista do Luso que, atalaiado nas citânias da proto-história, barreira a ocupação romana em magnis gravibusque bellis – confessam os analistas latinos. Reparemos ao depois que através do domínio sarraceno são as fortalezas do oeste da Península que acidentam o desfruto do invasor com insurreições continuadas. É o moiro Razis quem o conta. Vale, por conseguinte, o depoimento, quando mais não seja, pela insuspeição da testemunha.
Mais tarde, sabe-se como na formação da Nacionalidade é o aferro particularista do Luso que intervém e decide da nossa sorte como agente poderoso e quase único. Na hora em que as behetrias da Reconquista se elevam à consciência de um acordo de interesses permanentes com os ópidos recém-tomados do Sul, a Pátria está constituída. A Realeza vai ser o órgão essencial de convergência e duração por largos séculos procurado. Sozinho, na sua pequenês, o Luso, sem uma instituição hereditária que o organizasse, não se acobertaria das eventualidades da posição geográfica, mal podendo esconjurar a dispersão de todos os dias e sair-se intacto [p. 107]das cobiças nunca fartas do vizinho de ao pé da porta. Desde que o egoísmo privado de uma dinastia aparece a exercer em proveito próprio o encargo supremo da neutralização interna e da defesa exterior, a estabilidade ganhou-se – só restava andar agora o caminho, de colaboração com as vozes íntimas do génio colectivo.
Um dos prejuízos inimigos da alma portuguesa é, sem dúvida, o negativismo de raça professado pelos nossos escritores. Têm-nos – Teófilo aparte – como um desmembramento fortuito do planalto castelhano. Não nos reconhecem nem capacidade política nem independência fisiológica que justifiquem o separatismo e que o autorizem à face das circunstâncias geográficas da Península. Oliveira Martins ficou pesando sobre nós com a sua nefasta teoria do Acaso. Uma doutrina suicida, em conflito com a verdade, nos dirige nos âmbitos da ciência oficial. É só para a maior desnacionalização que se tende, inculcando-se o diagnóstico de Oliveira Martins como a explicação de quantos desaires nos entrecortam a viagem de povo com falências e falências sem remédio. Bem descurado, o estudo das nossas origens é que é imperioso desenvolver-se e opô-lo com energia aos falsos critérios que nos levam para o fundo irreparavelmente.
É obedecendo a esse conceito nihilista da Nacionalidade que a governação opera há quase cem anos o mais inconcebível trabalho de abastardamento e atrofia de que há memória em país que se diga na posse de si mesmo. Tutela-nos o estrangeiro do interior. São as mais descabeladas quimeras exóticas que deturpam a visão da realidade pátria com ideologias saídas de outra conformação psicológica, com outros determinismos de ambiente e hereditariedade a regê-las. Primeiro foi com o individualismo dissolvente da Renascença a bebedeira doirada da Índia. O modelo greco-romano viciou-nos o entendimento. Do aparato filológico dos humanistas ao gesto oratório de D. João de Castro, empenhando as barbas em cópia servil a um varão de Plutarco, é sempre uma [p. 108] noção artificial da existência que nos apaixona e transvia. Toda a época se acha contida em mestre André de Resende falsificando inscrições latinas e indo com grande estrondo descobri-las ao depois.
O egocentrismo excessivo da virtú desbaratou-nos mortalmente. Deixámo-nos aos bocados por entre as entradas fumarentas das cidadelas do Malabar. Por lá nos ficou, à sombra mole dos palmeirais, a genuína, a verdadeira Pátria – aquela Pátria rural de Quatrocentos, que se gerara no respeito dos nossos limites e pelo exercício das virtudes sóbrias da Grei. A nação histórica cedera com a força da ancestralidade e das preferências centenárias à turba cartaginesa que só o oiro atraía com todos os seus cortejos de dissolução e depravamento. Envergonhava-nos já a pobreza primitiva, cujo orgulho, mantido como um título nobiliárquico, obrigava ainda D. Manuel I a censurar o conde de Vimioso por sua mulher se vestir de veludo, «Porque o veludo, conde, é para quem é!»
Moradores em casas pardas, os nossos avós, santamente grossos, mal nos reconheceriam na feira cosmopolita que tornara, de facto, Lisboa na cidade das muitas e desvairadas gentes do Cronista. Mas o pior seria que, com a loucura das ideias abstractas que a Renascença nos contagiara, empurrando-nos para o esquecimento das qualidades nativas do Luso, a aventura ultramarina nos ia custar caríssima por causa da mistura com outras etnias, todas elas inferiores e de verificado efeito corrosivo. É um problema de debate complicado que importa consigo a reabilitação do Santo-Ofício e que eu não posso trazer para aqui, pelo desvio imenso a que me constrangeria. Registo apenas o acontecimento, que reputo como uma das razões principais da nossa decadência. É que cada país assenta num inviolável «meio-vital», o qual consiste no equilíbrio constante das condições especiais de que o agregado brotou, valendo a alteração delas pela queda insanável do organismo. A passo lento, [p. 109] o olvido do nosso «meio-vital» estreia-se com a data funesta de Quinhentos e com a porca infecção nigerista por agente fortíssimo dessa falha. Meditemos-lhe bem as consequências e seja o nosso cuidado aprender nos resultados colhidos o perigo que representa para um povo o esquecimento do seu passado e dos seus costumes.
Quisemos ainda por vezes alevantar cabeça. As prodigiosas reservas da Raça viram-se provadas na guerra tremenda com a Espanha, em que nós, sem dinheiro nem socorros, nos eternizamos num duelo que faz emudecer de pasmo a própria Antiguidade nas suas passagens clássicas de heroísmo e de renúncia. Eu não entendo as batalhas formidandas da Aclamação, em que os Municípios soltam a palavra que salva, sem estabelecer como motivo único da nossa história, repito, um valor de ordem exclusivamente étnica.
Já as citânias haviam brigado com as tropas disciplinadas de Roma. Já o árabe se vira a braços com as revoltas incessantes das populações do oeste da Península. Não se ignoram as bases foraleiras da Nacionalidade, nem como no admirável período afonsino o território se dilata in partibus infidelium, graças ao apego dos vilares livres que armam a hoste, e a sustentam, e a engrossam. Quando um elemento estranho, advindo de Castela na comitiva do Borgonhês, pretende sobrepujar a Nação nascente, são os concelhos e as póvoas – é o terceiro-estado quem rodeia o Rei e o anima na luta contra a arrogância dos donatários e das prelaturas. Nas isenções jurisdicionais dos fidalgos renascia um antagonismo já conhecido do autóctone. Imperialista, devastador, no barão novigótico acordava o Ária, raptor orbis, seu avô muito chegado. Enquanto nos homens-bons da Comuna o dolicóide meão se perpetuava pachorrento e sedentário, no cavaleiro que bofava de bom sangue leonês ressurgia, efectivamente, o atavismo do dolicocéfalo linfático, de alto talhe e cabeleira loira. Do confronto violento das duas etnias, sai a reposição das forças naturais da Nacionalidade adentro dos moldes [p. 110] tecidos pela larga experiência das gerações. Em vez de um acumulado de senhores e servos, dizimando-se em intermináveis brigas privadas, nós temos então, pelo triunfo do habitante indígena, a Pátria apoiada nas mancomunidades agrárias da Raça, com o município por expressão jurídica e social de uma irmandade que se nutre da terra e que não pratica outra nobreza que não seja a da selecção pelo trabalho e pela valentia.
O leonês pensava em introduzir o conceito germânico da sociedade com a população dividida em previlegiados que monopolizm a guerra e o solo, e em colonos que tratam da gleba e se traficam como coisas. Andava, porém, vivíssimo o sentimento de um mesmo tronco. Sucede assim em todos os povos de uma aferrada estrutura comunitária. O infanção leonês queria prevalecer pelo direito de conquista. O Luso prevalecia pelo direito do sangue. No embate contraditório dos dois princípios reside não só a chave das perturbações intestinas que agitam a primeira dinastia, mas é, agora e sempre, a eterna divortia de Sílius Italicus reavivando-se e confirmando-se.
Trazido do cimo das cividades para a ribeira, o antigo dolicóide acabou por se afazer a essa estação que o romano dominador lhe impusera. Com a cultura cerealífera em escala progressiva, a freguesia irrompe consagrando a sede das várias explorações agrícolas. O ilustre Alberto Sampaio ressuscita o lapso tão ensombrado que, por sobre a ocupação latina, prepara os intróitos da Nacionalidade. Na extraordinária monografia, As vilas do norte de Portugal, nós assistimos à formação e ao desenvolvimento da propriedade. Lá se verifica o afervorado sentido localista do Luso. Pelo favor das colheitas e com um carácter afectivo de patriarcalismo, uma espécie de aristocracia se corporiza e adquire recorte fisionómico. São os domini, que funcionam em detentores do direito, aplicando os usos e discernindo as contendas nos bancos toscos da fonte. Dos domini vão derivar os maiorais da behetria que, à sombra da azinheira simbólica [p. 111] da Raça, assinam as cartas de foral com o Príncipe eleito para seu regedor vitalício.
Nascidos do seio da população e investindo-se de prestígio pelo consenso tácito das massas, os domini não predominam por mercê de situações de regalia. Traduzem a aptidão espontânea dos agregados para destacarem de si figuras que os signifiquem e encaminhem em justiça. Na véspera haviam sido os magnates da Citânia. Iam ser no dia seguinte os vereadores do Concelho. Essa magistratura pacífica é o estofo medular da Era de Quatrocentos. Encontra-se nas tábuas de Nuno Gonçalves, alinhando-se como fundo da dinastia exposta. Porque encarnava todas as virtudes simples de uma família de lavradores, nela se encerrou a consciência da Grei. Com ela Afonso III consolida o Estado. É por ela ainda que as Cortes-Gerais se enchem da ressonância honesta dos seus pareceres avisados.
Guiando as vilas pelo prudente arbítrio, tornado herança consuetudinária, os domini deram, como já dissemos, os homens-bons da governança. O conceito político de república (de res publica), cedo o tiveram como autoridades sociais, condensadoras das preferências do agrupamento e seus órgãos naturais. É em trinta infanções, companheiros do conde D. Henrique, que o Livro Velho das linhagens do Reino entronca toda a nossa ramaria nobiliárquica. Pois com os domini rurais se chocaram os aventureiros da Reconquista, debatendo mais uma vez a eterna querela do pequeno dolicóide, construtor e produtivo, tal como o antepassado pelasgo, com o roncante homem loiro que só se regala em poeiradas e ruínarias. O barão neogótico, reçumando a costela címbrica, teimou em se impor, esquecidos os fundamentos pactuais da monarquia. Para isso ilaqueia o Rei com exigências duras de casta. Debilita-lho e circunscreve-lhe a ação, pretendendo arvorá-lo em chefe de bando, quando o carácter da Realeza ocidental é um carácter moderadíssimo de paternidade. É a altura em que as póvoas foraleiras erguem o Rei ao exercício forte da sua prerrogativa, vendo na Coroa uma judicatura do bem-[p. 112] comum que não se dobra nem se corrompe. O motivo étnico, em que a nossa história repousa, não deixara de se pronunciar pela boca dos homens-bons do Município. O pequeno dolicóide, robustecendo as instituições coordenadoras da liaça, não era somente o cavaleiro leonês que ele enquadrava. Vencia a ânsia espoliadora do H.-Europaeus, conferindo a primazia ao elemento fecundo de que a Nacionalidade dimanara.
Nós vamos verificar a influência decisiva desse motivo étnico na disputa que se desencadeia com a morte de D. Fernando. São os Concelhos que soltam a voz pelo Mestre. É a gente das vilas, de «ventres ao sol» e «sem capitão», quem lhe alimenta a causa, ou já batendo-se nos Atoleiros em brava peonagem, ou já escalando as alcáçovas da fronteira e pondo de lá para fora os alcaides vendidos. O pequeno dolicóide manifestava-se. Quem desfralda o gonfalão de Dona Beatriz é o resíduo feudal que não se subjugara de todo pelo movimento unânime das mancomunidades em redor de D. Afonso III. Expulsam-no agora definitivamente as iras da arraia-miúda mais as arengas dos procuradores concelhios. As qualidades históricas da Nação temperam-se numa prova esplêndida em que os recursos espontâneos da Raça informam as vistas concordantes do Estado. E é assim que a floração magnífica de Quatrocentos se inaugura.
Com a tragédia da Índia e com o grande desvairo do Renascimento obliteram-se as direcções ancestrais. Esvai-se-nos no estridor da quermesse o mais rudimentar sentido de continuidade e de coerência. Detenha-se este reparo singelíssimo: enquanto Quatrocentos brilha, o sinal inconfundível do génio da Pátria conferem-lho as Cortes-Gerais, indubitavelmente. Quem vibra, quem palpita, nessas vigorosas assembleias? A alma dos Concelhos – o pequeno dolicóide, que é no desafogo das suas energias criadoras o infatigável obreiro da saúde e do viço de Portugal. Abatem-se, entretanto, ao longo do delírio ecuménico que nos empurra a avassalar o Mundo, as nossas [p. 113] mais íntimas predilecções localistas. Abala ribeira abaixo com a enxurrada dos pardaus e das especiarias o enraízamento rústico de outrora. O oiro cobre-nos como numa chuva de feeria. Todavia, há fome, porque os campos abandonam-se no exaspero da miragem asiática. Não se conseguem braços que arroteiem a courela natal em desprezo. As lareiras dispersam-se, emudecem os teares. Portugal é como uma caravela enorme que desprende a âncora e se atira para as goelas abertas do Tormentório com uma sereia rindo-lhe à proa não sei que promessas loucas de perdição. Tomam as pestes conta de nós e levam o resto. As naves voltam da Índia – as que voltam! – carregadinhas de metais preciosos. Mas, com tanto dinheiro retinindo numa ressonância de maravilha, o trigo importa-se e o pão custa-nos como o mais raro dos manjares.
No tumulto do cosmopolitismo, tudo nos consome a febre alta em que estamos ardendo. Manda-se um elefante à Itália. Rafael introduzirá variações inéditas nos seus temas de artista, impressionado pelo espectáculo do animal com que a corte púnica de Lisboa presenteia o Papa. Sabem-nos o nome de cor aquém e além-mar em África. Os reis da Cristandade e o Solimão da Turquia têm-nos inveja. Só na quintarola da Tapada o bom Sá resmunga versos aziagos contra o despaísamento. É a comoção bucólica da terra desamparada que lhe dita a carta ao senhor de Basto.
Afundáramo-nos demais quando pensámos em nos salvar. A quimera tresloucante do Império do Mundo arrastar-nos-á a extremos que nem com o esgotamento se atingem. A depressão nervosa da Raça tentou terreplanar-se com cruzamentos ignóbeis, com alianças sem dignidade. O vasão emigratório que pusera Portugal a bordo como um só homem, contrabalançou-se com a mais deplorável das soluções – a escravatura. A arrancada marítima não nos valera unicamente a aquisição de vícios dissolventes, contraídos ao contacto morno de outros climas, com serralhos debaixo dos olhos e apetites de doença queimando-nos como uma brasa. [p. 114] Importou-nos também a mistura com gente de cor que se negociava em mercados rendosos e por meio de cujo concurso procurámos acudir à crise do trabalho na metrópole. Entrava connosco a gafa dos povos conquistadores. E o gordo Garcia de Resende, zombeteando nos momos do Paço, mas com um surdo presentimento a roê-lo lá dentro, não se esquivaria a clamar num acento de clara profecia:
Vimos muito espalhar
>
Portugueses no viver
>
Brasil, ilhas povoar,
>
e às Índias ir morar,
>
natureza lhe esquecer:
>
vemos no Reino meter
>
tantos cativos crescer,
>
e irem se os naturais,
>
que se assim for, serão mais
>
eles que nós, a meu ver.
Toldou-se, desgraçadamente, o aprumo nativo da Grei. A pureza da Raça, que bem se pode estabelecer como a razão principal de todo o nosso engrandecimento, viu-se de pronto infeccionada pelas mestiçagens mais contraditórias, as quais não demoraram a comprometer a estabilidade do espírito colectivo. Não se interpretam através de critério diferente os desfalecimentos mortais que pegam a esfacelar-nos desde então. Não sejamos injustos, denegando ao Santo-Ofício os resultados incalculáveis das suas medidas purgatórias. Mas a cerrada higiene étnica dos formidáveis Inquisidores, se salvou a Pátria de ser escalada pelo estrangeiro do interior, não nos guardou a tempo da corrosiva labe nigerista. Embora reprimida nas catacumbas ínfimas da nossa hereditariedade, essa velha tara do Luso não se faz muito convidada para assomar em tropelias subversivas, quando – como, por exemplo, no momento que corre – se lhe oferece o ensejo de sobrepujar as disciplinas sociais que ainda a contêm em respeito. Não se sorriam as inteligências cépticas, nem M. Homais arregale as [p. 115] pupilas, imaginando-me a soldo dos Jesuítas! Hoje a antropo-sociologia acha-se de posse de leis científicas que nos ajudam a uma compreensão aproximada do que foram como instrumentos de defesa sanitária as tremendas cúrias inquisitoriais.
Não me gastarei com reflexões de efeito concludente, como as que se nos suscitam com a situação política de Castela ao encerrar-se o século XV. Se os reis católicos não dispusessem de um forte agente repressivo, não duvidemos de que marranos e conversos marchariam com a unidade nacional, fomentando a desavença contínua e abrindo as portas ao adversário marroquino tão cedo a oportunidade se lhes deparasse. É uma concepção um tanto dura da história – é certo. Mas os povos não se governam com filantropismos adocicados, nem as asperezas da vida se deixam amaciar pelas perspectivas solidaristas de dúzia e meia de declamadores!
Com base nas promessas de Jehovah, os judeus não se consorciam com as filhas dos gentios.(100) Engendra-se deste modo um imperialismo étnico que concede a Israel pela integridade da Raça o domínio absoluto sobre as nações em decadência. Ninguém desconfia dos propósitos liberais das cortes de Cádis, que em Espanha aboliram o Santo-Ofício. Pois, abolindo-o, não hesitaram em afirmar que os judeus tinham formado um Estado no Estado. O que seria de nós se a Inquisição nos não valesse? A não ser que desaparecesse a Pátria, mas que se salvassem os Princípios!
Do pouco escrúpulo em nos aparentarmos com ligações asiáticas e africanas deriva o nosso desfalecimento em linha recta. Não se justifica nem se compreende de outra maneira a dissolução entre nós de toda a ideia colectiva. Vacher de Lapouge não se ilude no diagnóstico que os nossos males lhe merecem. Trata-se de um empobrecimento de raça, com efeito. «Le motif véritable de cette [p. 116] décadence» – escreve ele no seu volume Les selections sociales – «c’est qu’un si petit État ne pouvait indéfiniment dépenser l’élite de sa race sans l’épuiser, et que l’introduction des esclaves nègres avait altéré le sang de toutes les classes. Cest l’oligandrie qui a fuit la fin du Portugal, comme autrefois celle de la Phénicie, et plus tard celle de la Hollande: j’entends l’épuisement des eugéniques, car dans les destinées d’un peuple les masses ne comptent guére».(101)
Com a corrupção das virtudes da Grei perdeu-se o sentimento da mesma origem, que é a razão afectiva de uma sociedade histórica. Desorbitados do determinismo inalienável da avoenga, romperam-se-nos as agarras centrípetas. Como um rebanho de atravessados, não fomos em breve senão uma balbúrdia de criaturas sem regra nem norte. Quatrocentos fechara-se ainda com um testemunho assombroso do nosso admirável espírito comunitário. Refiro-me à instituição das Misericórdias pela rainha Dona Leonor. Com o seu ódio profissional à Igreja e à Realeza, é Teófilo quem no-lo diz, rendido numa homenagem que fica bem ao velho professor, por um equívoco da sua cultura extraviado, já agora para sempre, nos arraiais caducos da caduca democracia. «Foi esta dama excelsa (a rainha D. Leonor) a promotora dos trabalhos da Imprensa em Portugal, e à sua iniciativa se deveu a criação das Misericórdias, em que a assistência tomou um carácter público de confraternidade, em que o próprio rei se inscrevia como irmão, em vez dos Hospícios que serviam somente as classes isoladas pelos costumes separatistas medievais».(102) Nos dispêndios afanosos da Navegação o Lusismo não esmorecera, como se vê. Só a vesânia faustosa do Oriente o deixaria nos arrancos últimos, entregue apenas aos recursos líricos da Esperança.
A cavalhada heróica, que nos sepulta com violas e cruzes nos areais sedentos de Alcácer, não [p. 117] é, como de ordinário se pensa, uma arremetida de manicómio, com um megalómano presidindo de alto aos destinos do país. «Tempo haverá em que as comendas se ganharão nas costas do Algarve» – declamara trágico o conde do Redondo naquele conselho em que se deliberou largar ao moiro as praças de África. Nós quisemos retomar a inclinação natural da Nacionalidade – emendar o desvio sofrido nas consequências legítimas das Descobertas, que seriam em vez de nevrose altanada da Índia a nossa expansão gradual por Marrocos afora. Queríamos regressar aos quadros justos do nosso determinismo orgânico, depois do esfalfamento que por lá nos gastara debaixo de céus alucinados, com cortejos de opulência fazendo-nos bailar a imaginação. Não nos estava, porém, guardado um hino de triunfo. Um requiem enorme, desmedido, abafou na imensidade da noite adusta do deserto a agonia de Portugal inteiro. Cá ficavam os velhos e as crianças. Das lágrimas da orfandade com as lástimas da viuvez, a Esperança renasceria, proclamando a resistência invencível do Luso.
Já se conhece a Esperança como uma emoção soberana que amamenta mitos e evita a morte aos povos que a convivem. É como que a alma-mater das nações particularistas que subiram pelo vínculo do parentesco à consciência mais larga de Pátria. Pois a Esperança, emprestando linhas soberanas à febre a cem graus da derrota, vitaliza na personificação fabulosa do Encoberto a vigília superexcitada do génio lusitanista. Oliveira Martins não acreditava em nós – não acreditava em si. No entanto, pasmado diante dessa poderosa defesa mística que é o sonho poético do Desejado, não se negava a venerá-lo como a prova póstuma da Nacionalidade.
O instinto localista do Luso é o alicerce indestrutível do nosso municipalismo. Eu já assinalei a estreita ligação da Esperança com as predilecções sedentárias do Ocidente. A Esperança é o factor dinâmico da civilização atlântica, como a Comuna é o seu invariável elemento estático. 1384 é para nós [p. 118] a epopeia dos Concelhos. Com as vilas que se erguem, agitadas pelo populacho das vinhas, de ventres ao sol e sem capitão, remexe-se o fundo antropológico da Grei e o pequeno dolicóide assoma na rijeza indebelável da sua autoctonia. São os municípios que expulsam os castelhanos. Mas, para isso, que sentido superior afivela em hostes cerradas a arraia tumultuária dos povoados fronteiriços? É sem dúvida nenhuma a vocação sobrenatural que ilumina o esforço do Condestabre e alevanta no berço o menino de Évora aclamando o mestre de Avis com a vozinha tenra de quem falava pela primeira vez. É como que a certeza unânime de um milagre que funde numa vontade as vontades mais frouxas e as congloba num só querer durante o mais apertado da luta, sem que a descrença na vitória as salteie.
Georges Sorel achou a significação social dos mitos, que considera como imagens de reparação actuando energicamente nas massas por força da finalidade que lhes confere. A Esperança é assim, na verdade. Elevando-nos aos lances inacreditáveis de valentia e sacrifício com que se prelimina Quatrocentos, é ela que nos ajuda a suportar os naufrágios da desfeita, graças ao destino imortal que de novo nos inspira. Está por estudar psicologicamente a hora espessa da opressão. Com o florescimento do messianismo, é o «meio-vital» da Nacionalidade que se recupera. Os Concelhos vão pronunciar na guerra que se avizinha a palavra que decide e nos redime. Por que é que aos Concelhos pertence sempre na maré da crise esse papel de resgate?
É ainda o motivo étnico da nossa história que se verifica. A Comuna é a sobrevivência puríssima das nossas velhas mancomunidades agrárias, nas quais o Luso exprimiu a sua índole particularista e produtora. O aferro à terra – demonstra-o a etnologia – guarda a integridade nativa das populações. Ninguém ignora o que valem as raças homogéneas. Se a ruína da Pátria nos viera de cruzamentos depressivos, pelo localismo recobraríamos o vigor perdido logo que os núcleos intactos por [p. 119] via do enraízamento se desenvolvessem e prolifetassem. Eis o que sucede em seguida à modorra demorada em que as loucuras do Oriente nos mergulharam. As medidas purgatórias do Santo Ofício, mantendo em comedimento o assalto das etnias hostis, protegeriam o renovo das camadas indígenas. Como nas populações presas ao solo o remoçamento se facilitaria mais rapidamente pela proximidade em que se encontravam do tipo médio da Raça, já se compreende porque é que o Concelho fala, porque é o que o Concelho conduz hoje como ontem os lentos prelúdios da regenerescência. A Citânia despertava nas lembranças do mundo atávico. E nós vemos que enquanto Évora canta em 1637 as matinas da Restauração, a Esperança acompanha o movimento concelhio, promovendo a extraordinária mentalidade que falsifica as actas de Almacave mais o juramento de Afonso Henriques. Não se incomodem as inteligências incrédulas que um racionalismo palavroso ossifica! Para mim, segundo os ditames pragmatistas da minha cultura, a fé nacional que se tece em volta da Visão de Ourique é o documento representativo não só de quanto pode o valor dos mitos, como ainda de que os povos que vivem e são grandes não são os que mais discutem, mas sim os que mais crêem.
A guerra presente corrobora-o bem – se de depoimentos por acaso precisássemos. Entraram no eclipse mortal as ideologias anacrónicas da Revolução, herdeiras desse nefasto «livre-exame» que, introduzido no Ocidente pelos doutores da Enciclopédia, se traduz na ruptura de todos os laços morais e sociais em que a colectividade se repousa. A que assistimos nós no espectáculo imprevisto que a Europa nos oferece, convertida quase de banda a banda num vasto campo de batalha? É à apologia da utópica ordem internacionalista dos prégadores da Nação-Humanidade? É à apoteose final da emancipação humana, abrindo os braços por cima da Cidade-Futura, em que não se apontaria nem deuses nem senhores? Oh, como que por encanto, o filantropismo romântico pulveriza-se por entre a [p. 120] poeira das mil e uma ficções com que o século se apostou em confessar a impotência do seu cerrado orgulho materialista!
Do embate fratricida o que sai mais vivo que nunca é o instinto eterno de Pátria, servido pela realidade invencível de Raça. Não teremos ao fim as Doze-Tribos, de palmas erguidas, entoando em coro festivos hossanas, defronte dos muros da Jerusalém reconciliatória. A mentira pacifista desaba na recrudescência inevitável da Autoridade. E o que se conclui de tudo é que uma nação não é, como queria a vesânia revolucionária, um mero arranjo de interesses garantidos por lei. É antes uma verdade biológica, fundamentando-se na razão de ser de cada um dos seus naturais. As fronteiras não materializam assim convenções gratuitas que um sopro mais forte de cultura inutilizará. São precisamente a resultante de dois agentes – a Etnia e o Meio – operando em convergência, de mãos trocadas com o Tempo e com o Espaço.
A guerra presente denuncia-nos este estado geral de consciências. E nós assistimos à ressurreição das mais entranhadas místicas nacionalistas, de envolta com o regresso às forças vivas da Tradição. Guilherme II reelabora em proveito do pangermanismo as teologias rácicas do conde de Gobineau. Com Woltmann e Chamberlain promove-se a hegemonia teórica do homem loiro, sagrando-o como o único apto para o comando supremo do Orbe. Com o inimigo pela frente, Alberto I da Bélgica proclama às suas tropas, feras de defenderem a honra colectiva, e lembra-lhes que já Júlio César declarava serem os belgas os mais bravos entre os gauleses. A independência da Polónia anuncia-se. Já se nos entremostra a maioridade da Irlanda. O próprio esfacelo do império austríaco abona bem a profundeza desta corrente de nacionalismos que transforma a face remoçada da Europa. Envilecida por cem anos de baixas práticas jacobinas, a França de São Luís renova-se com todo o impulso de um segundo baptismo, arvorando a Donzela de Orleans como símbolo tocante da autonomia da gleba. [p. 121] O irridentismo italiano volta a aquecer em frémitos de juventude a região tridentina subjugada. E que exemplo admirável não nos chega dos Balcãs com o ressurgir viçoso em que se agitam povos tidos até há bem pouco como restos obsoletos de um passado que não torna? Será por acaso a plenitude do espírito gregário que se atinge? Serão os Imortais-Princípios que marcham para a Jemmapes definitiva, rasgando os intróitos de um outro ciclo maior para a humanidade? Oh, nada mais irreconciliável que a ideia de Pátria com a ideia de Revolução!
Um sentimento de predestinação histórica, como que a posse de um destino invencível, eis o que se manifesta no actual conflito europeu da parte de cada uma das nações beligerantes. Gesta Dei per Francos! – repetem os rapazes do inquérito de Agathon, batendo-se à doida com o tudesco, tal como outrora nas jornadas gloriosas do petulante galo francês. Gesta Dei per Francos! – e o primado espiritual da Gália, cabeça da civilização latina, ressuscita na divisa sobranceira da mocidade que, quase toda ela católica e monárquica, nos assegura que a França dos Direitos do Homem fica morta no congresso próximo das Pazes.
Nos liberi sumus, Rex noster liber est et manus nostrae nos liberaverunt! – gritavam os portugueses antigos, segundo o texto apócrifo de Almacave. Era a mesma intuição de uma finalidade, sem a qual as nações se dividem e tombam desfeitas, esmorecendo aos bocados ao longo da sua caminhada. O «milagre» de Ourique valeu assim, para as veladas dolorosas do cativeiro, como a alta certeza de que não se perderia a causa que tinha o Senhor por padrinho. Preparam-se os fundamentos afectivos da alma nacional, ungindo-nos de uma preferência mística em que transparece, bem vigorosa, a unanimidade do fim que nos conduz. Alexandre Herculano não mediu o alcance da questão, tomando o «milagre» como uma fraude piedosa de monges, quando constituía o aspecto positivo da religião [p. 122] sebastianista, que como mito não é mais nem menos de que a expressão patética da vitalidade de um país em desgraça.
É esse um dos traços inconfundíveis do valor da Raça. Desacreditado por parvenus da história literária,(103) Frei Bernardo de Brito, professor de integralismo lusitano, é a tal respeito uma vítima cuja reabilitação se nos impõe. D. João II erguera-se pelos ensinamentos do De regimine principum à compreensão da Grei como um conjunto jurídico, dentro do qual o Rei e as Classes se combinam e interpenetram como membros que são de um todo uno e concorde. O avanço social das nossas luzes governativas é Frei Bernardo de Brito que o completa, utilizando as criações eruditas de Anio de Viterbo, Antonio de Nebrija, Florián de Ocampo, e de tantos outros nomes do humanismo. Com apoio nas passagens mitológicas da Antiguidade, Frei Bernardo de Brito introduz entre nós, ao lado do conceito político de Grei, o conceito relativista de Raça. A nossa defensiva perante o unitarismo sôfrego de Castela assume então uma fisionomia inédita. Penetra na inteligência culta o orgulho de uma diferença que traz as suas raízes de Túbal, da estirpe de Noé, e de Lísias, filho de Baco. A Renascença revivera o prestígio doirado da fábula, em que ficara memória, embora alegorizada, dos velhos êxodos asiáticos. Frei Bernardo de Brito transpõe para vernáculo as boas ficções clássicas. É rica de significação, por exemplo, a luta de Gerião com Hércules. Hércules partira-se para estas bandas, atraído pela fama dos gados e lavoiras de Gerião. Frei Bernardo de Brito, lembrando-se, sob a cogula austera da regra, daqueles tempos em que se aventurava nas rimas galantes da Sílvia de Lizardo, narra-nos em saboroso estilo a briga que tiveram os dois contendores durante três dias e três noites, sem descansar. Gerião acabou por cair vencido, cortando-lhe o titã a cabeça que encravou [p. 123] numa torre por ele elevada para padrão. Nós adivinhamos agora no embate dos dois gigantes a personificação legendária da guerra travada pelos flibusteiros de Canaã com o corpulento homem loiro, dominador entre nós. Hoje sentimos o encanto da alegoria e é um belo tema de arte que se recorda à pena amável de algum contista, se por felicidade nossa o tivermos!
Eis porque a Monarquia Lusitana surgiu como um pregão eterno de independência à face da usurpação sinistra dos Filipes. Os contemporâneos do cronista cisterciense, recebendo à letra as invenções do maravilhoso pagão que em Frei Bernardo de Brito se aliava ao maravilhoso cristão, lançaram-se nessa cruzada tão extraordinária como desconhecida, que é o acto libertador de 1640.
Nos tratadistas, que o justificam, é o factor-Raça que se deduz como motivo primacial da restauração portuguesa. Claro que não se palpitavam ainda as conquistas do positivismo moderno, instituindo como ciência certa a antropologia. Mas nas linhas embrulhadas do mito, Lísias, pai dos Lusitanos, não é o herói semideus de quem os espanhóis desfiam a ascendência remota. Por detrás da fábula já nós sabemos a realidade que se escondia. E assim não nos surpreende que João Pinto Ribeiro derive os direitos da Pátria à sua autonomia inclusivamente dos profetas bíblicos, com citações escrupulosas dos respectivos versículos.
A Visão de Esdras é uma peça-mestra nas locubrações entusiásticas do Portugal-Restaurado. Conclui-se daqui que, se por um lado a Nacionalidade se socorria de iluminismos sentimentais, por outro lado atinava com as bases milenárias em que os alicerces lhe assentavam. Devolvíamo-nos à linha suspensa da nossa hereditariedade. Connosco se andara gestando um florescimento que en nada destoaria do de Quatrocentos. Notabiliza-se o predomínio dado pelos escritores de Seiscentos ao espírito municipalista na conformação da nossa existência livre de povo. É lá que as behetrias começam [p. 124] a figurar como autoras de um acordo de interesses permanentes de que Portugal derivaria.
Como no período de desfalecimento mortal que a Alemanha do romantismo padeceu com a invasão napoleónica e os consequentes estragos de uma guerra sem quartel, é o cultivo da história que dirige a geração de 1640 e a atira para a empresa gigantesca da Feliz-Aclamação. A Índia desorganizara-nos. Tentaram os Filipes acabar com o resto. O Lusismo surge na oportunidade, esboçando a teoria da Pátria Portuguesa. O «milagre» de Ourique consagra em vínculos de promessa divina a fé que a Nação deve possuir no seu futuro imortal. É a presença inspiradora de uma vocação colectiva, em que o pequeno dolicóide reaparece na persistência indebelável do seu ethos comunitário.
De facto, no vigor dos sacrifícios que o nosso irridentismo nos custa, são ainda os Concelhos que aguentam a defesa nacional, já sujeitando-se a uma verdadeira chuva de tributos, já aparelhando em tropas regulares os soldados bisonhos da Ordenança. Constitui uma página assombrosa de quanto vale o localismo, como elemento decisivo da nossa história, a evacuação de Olivença em 1646. O duque de São Germano entrara a vila, deixando em princípio aos habitantes a faculdade de se retirarem se não quisessem reconhecer o senhorio espanhol. Saem logo os fidalgos e a mais gente de teres. A fim de acudir ao abandono da praça que se esvaziava, o general ocupador manda transferir por um pregão para aqueles que ficassem a fazenda dos que se iam abalando. Imediatamente, como uma só pessoa num só movimento, todos os moradores de Olivença, ricos e pobres, a deixam sem hesitação, retorquindo assim à vil proposta com que se lhe experimentava a lealdade. Era, como se infere, a posse de uma mesma consciência, imprimindo fim e a solidariedade ao país inteiro. E quando mais tarde, com o imperialismo ibérico de Oliveira Martins, ou com a ficção federativa do programa de Badajoz – ao qual Teófilo aderiu sacrificando aos propósitos partidários o alto sentido lusitanista que [p. 125] lhe alumia a obra –, quando então se proclama a necessidade vindoira de se fundirem as duas pátrias para que a ambas fosse viável alguma missão de apreço no jogo das relações europeias, oh, como se retraíra sensivelmente o conhecimento da Nacionalidade, para sermos nós agora que marchavamos de encontro à cobiça nunca saciada do leão de Castela!
Perdera-se o senso da diferença que as miragens eruditas de Frei Bernardo de Brito haviam desenvolvido, insuflando na ideia de Grei a ideia de Raça. Tão grande preponderância tivera na disposição comum a literatura lusista da época, que em 1668 as Cortes-Gerais, congregradas para celebrarem a paz, declaravam solenemente, à face de Deus e dos homens, que «por serem, de séculos imemoriais tão opostos os ânimos, e tão diversos os intuitos de uma e outra nação, era impossível unirem-se em tempo algum sem total ruína da nação portuguesa». Correram os anos sobre os anos. E as práticas negativistas do sofisma monárquico constitucional formulariam parecer contrário, olhando-nos apenas como um bocado de terra que o acaso subtraíra a uma natural incorporação no maciço geral da Ibéria. É a ciência oficial quem no-lo ensina, ainda com Oliveira Martins por corifeu. Jazia esquecido o voto vibrante dos Três-Estados de 1668!
O trabalho demorado da desnacionalização viera ganhando terreno com o andamento de causas várias entre as quais sobreleva, sem dúvida, o mal ideológico do século XVIII. Por uma fatalidade, cuja origem se não apura bem, o esforço formidável da geração de Seiscentos perdera-se nas encruzilhadas de uma decadência a que não é estranha a divulgação do racionalismo na sua dupla forma política e pedagógica. Ninguém ignora os efeitos funestíssimos do «livre-exame», que é para os motivos inexplicáveis da existência como a mó do moinho moendo e remoendo. O grão reduzido a farinha, ai de nós, nunca mais espiga e nem para semente serve! – lastimava-se Amiel. As [p. 126] estatísticas fornecem-nos, na realidade, uma percentagem de suicídios entre os protestantes que não se verifica entre as populações católicas. São os frutos do terrível «espírito de análise», que foi um germe de morte para o brilhante pensamento ocidental. Deu começo à árida superstição do Progresso. Com os revisionismos especulativos de Descartes derranca-nos as certezas íntimas, deixa-nos como uma tábua-rasa. Eu já asseverei que não são os povos que mais discutem os povos que mais vivem. São antes os que mais acreditam e melhor sabem obedecer. A discussão engendra o vício intelectualista que matou Bizâncio com os maometanos cavalgando-lhe já as muralhas e ajuda as assembleias vistosas engalfinhadas em Blanchernes no debate subtil dos atributos da Hipostase.
Pois com o Discurso do Método e o regalismo doutrinário da jurisprudência josefina a mentalidade reformada apossa-se de nós. Os Padres do Oratório são os portadores dos novos processos. Por toda a Europa de estrutura católica vai um filosofismo de ênfase que rompe direito para os abusos iconoclastas da Enciclopédia. As teorias absolutistas que desvirtuaram a natureza benigna da nossa Monarquia denunciam a marca luterana com o excesso governativo de que rodeiam o Príncipe.
O Príncipe já não é o titular de uma magistratura de sã consciência. É, à maneira germânica, um césar baroco que consubstancia em si a espontaneidade elaboradora da sociedade. Definham-se assim os relativismos demográficos e regionais em que o génio atlântico vasava uma das suas feições mais profundas. Esteriliza-se a acção comunal numa insaciável hipertrofia administrativa. É vão o trabalho anterior da Tradição. As Pátrias nada as exprime já senão o poder majestático que as representa.
Pesa por cima dos povos um artificialismo tão rígido, tão inerte, como a mais inteiriçada das construções geométricas. A Razão-Pura anuncia-se e com ela já vem de jornada a Bondade-Natural do valdevinos de Genebra. A psicologia huguenote continua a vingar por vagorosas infiltrações sobre o [p. 127] Ocidente. A Revolução, que estala em breve como uma apocalipse de sangue e barbárie, é filha legítima desse individualismo exagerado que o livre-exame traz consigo.
A Revolução, preconizando o homem-abstracto, o absoluto-homem, envolve a negativa de Pátria, porque anula no entusiasmo das suas generalizações a fama incansável do Tempo e do Espaço por cuja obra se promove a diferenciação das fronteiras e o instinto bem vivo de raça. Os linearismos ditatoriais do Marquês acusam entre nós o ingresso das teorias enfáticas que os tratadistas do século XVIII andaram divulgando numa apologia cerrada do Estado metafísico e todo-poderoso. O Discurso do Método empolga-nos com as sentenças de um frade barbadinho. São expulsos os Jesuítas como monarcómacos e sequazes dos republicanos, por partilharem os ditames da sociologia de São Tomás contra as exorbitâncias da concentração monárquica.(104) O ensaio de Igreja Lusitana que nesse momento se efectua com o teólogo António Pereira de Figueiredo, o presbítero Francisco José da Serra Xavier e o doutíssimo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, é mais uma prova da adaptação entre nós das ideias estrangeiras, bebidas no febronismo e nos publicistas do movimento galicano. Dos Concelhos já se não inquiria senão para se abolirem as Cortes Gerais com a célebre declaração de apócrifo em que o Desembargo do Paço condenou o livro do arcediago Francisco Vaz de Gouveia, que tanto influira doutrinariamente na acta dos Três-Estados do Reino em 1641. O pequeno dolicóide não intervinha já nas direcções da governança, sequestrada como estava a iniciativa municipalista. O particularismo institucional da Grei desvanecera-se. Dormia amordaçado o motivo étnico que dirige a nossa história na hora aguda da crise.
Só imperavam agora os reformismos importados com a cópia servil das realezas de bota-abaixo, que [p. 128] lá fora se personificavam em Catarina da Rússia, Frederico da Prússia e José da Áustria. A obra demolidora não demora a rematar-se com o espasmo lírico do Contrato social. Abatidas as modalidades de Meio e Etnia, em que as nações se concretizam fisiologicamente, o homem de Jean-Jacques aparece na cauda de quantos naturalismos idílicos os salões da época se apressaram em decorar e aplaudir. Raynal e Volney atraem as inteligências, desnorteadas pelas utopias contemporâneas. De olhos em alvo, descobre-se o luar. Amam-se as ruínas fingidas. E só o Ermo enamora a alma, espalhando o gozo nos sentidos em contemplação.
Portugal padece cedo a avariose da sensibilidade. O Marquês preparara-lhe o advento, aclimatando em tudo os mais indigestos receituários da formacopeia gaulesa. Revolvem-se sem tacto os fundamentos estruturais da comunidade. A um país de arraigada índole agrícola quis vestir-se-lhe por força o arrevesado molde industrialista. As consequências foram duras e incalculáveis. Quebrados os liames em que o grupo se apoiava e robustecia, bem depressa nos vimos alheios ao nosso determinismo orgânico, desgravitados como uma massa informe de átomos, a que nenhum aferro centrípeto já segura. Substituíra-se ao passado da Pátria a invenção exótica de meia duzia de plumitivos discorrendo com todo o simplismo sobre quartos de papel em branco.
Portugal afigurava-se para a luneta pombalina como a Lisboa do terremoto caída no chão. Bastaram os compassos para a erguer. E assim o pulso que a readificara poria de pé, viçoso, próspero, o Reino que se desconjuntava como uma nau velhíssima da carreira das Índias. O caso é que quanto mais nos procuravam remédio, mais a gente se afundava na cura estrangeirista, em que costumes e leis se levavam cerces, tal como se nunca houvessem existido. Desagarrados do solo, gasta a fisionomia centenária da Nacionalidade em inovações de ida-e-volta, a queda entre nós dos livros franceses, que os esbirros do Senhor-Intendente farejavam, [p. 129] solertes, remexendo a capital de baixo para cima, não fizeram mais que atear o fogo latente. Por muito antagónica que pareça, no seu autoritarismo impertigado, a ditadura de Pombal abrira as portas ao estado de espírito de que a Revolução se iria valer.
O reinado seguinte, apesar das calúnias que o enegrecem, empenha-se ainda em atalhar o mal que avança, pelo regresso à continuidade histórica da nossa sociedade. Merecem referência agradecida os fisiocratas da Academia pela séria investigação das riquezas naturais do País, a que se devotaram com alma. Preocupa-os um plano económico consciente, em que são acompanhados pelos importantes estudos que as origens da Pátria provocam aos seus camaradas da secção da literatura. É, sem dúvida, uma trégua das circunstâncias inexoráveis que durante o século nos tinham hostilizado constantemente, agravando cada vez mais o divórcio da Nação com o Estado. Mas, como a visita da saúde, seria bem passageira, por desgraça nossa! E nem a polícia apertada de Pina Manique nos defenderia do contágio insalubre que se exalava de França, embora dispusesse da muralha da China para nos resguardar.
Diante de mim abre-se O Filósofo Solitário, impresso em Lisboa na Régia Oficina Tipográfica no ano de 1786 com licença da Real Mesa Censória. Sem que uma palavra suspeita de revolta se escreva ali, não se carece, todavia, de segundo depoimento para nos convencermos das grossas névoas mentais que perturbavam as camadas cultas do Reino, aptas a abraçarem com cegueira a rebeldia declamatória que Paris nos enviava com os figurinos em voga. Fale por mim uma transcrição de O Filósofo Solitário. É do prólogo que rompe deste modo, dirigindo-se «aos Filósofos que vivem na sociedade»: «Todo o Mundo julga que a sociedade é a bem-aventurança da terra. Que engano! Se vós estais por esta máxima, sois Entusiastas. Os Filósofos não devem adoptar os axiomas do povo. Quem busca as causas naturais dos efeitos naturais, deve habitar nos montes; porque a Natureza falia por uma boca na [p. 130]solidão, e por outra nos povoados.» Desde que a sociedade se condenava como inimiga do desenvolvimento individual e O Filósofo Solitário corria de mão em mão com licença do Paço, não nos admiremos de que a tentativa de Lusismo do reinado de D. Maria I se abafasse rapidamente na incubação do trama que os clubes secretos já preparavam.
Ainda nos apercebemos do perigo quando o oiro inglês, subornando a Danton, atirava para a guilhotina metade da França pelo braço da outra metade. Empreende-se o combate sistemático das ideias revolucionárias, com a Dissertação a favor da Monarquia, do marquês de Penalva, e com a versão para vernáculo do livro A Monarquia, de Peñalosa y Zúñiga, pelo erudito António Caetano do Amaral. Vulgarizam-se depois os enunciados do conde de Maistre e do senhor de Bonald. O doutor Vieira de Castro escreve o seu Discurso a favor das ciências no governo monárquico. Porém, Junot já atravessava os Pirenéus à frente do exército da Gironda. Cá dentro desenrolara raízes o internacionalismo maçónico, o qual via com olhos de gosto o avanço da invasão. Com o auxílio das Lojas cria adeptos o «partido dos franceses» que pediu um rei a Napoleão. Não podendo resistir à coligação traiçoeira da Espanha com Bonaparte, o Príncipe-Regente, salvando-se na prudente retirada para o Brasil, salvou-nos da vergonha sem nome de um monarca de improviso. A saída de D. João VI foi não só o resultado de um acordo diplomático com a Inglaterra, mas a prova plena da capacidade política do infeliz Bragança. Caído em poder de Junot, arrancava-se-lhe certamente pela coacção a mesma renúncia de direitos que em Bayona se extorquiu a Carlos IV. Transportando para o lado de lá do mar o pavilhão independente da Pátria, D. João VI manteve de pé o princípio dinástico como o penhor mais inviolável da nossa autonomia.
Entretanto, o fogo da insurreição acende-se. E dividido Portugal entre os sequazes do liberalismo nascente, que reverenciavam em Junot como que o precursor de uma nova ordem de coisas, e a grande [p. 131] maioria da Nação que forcejava por sair intacta nos seus costumes e nas suas crenças da enorme ameaça que sentia sobre a cabeça, é então ainda, como nas alvas longínquas de Ourique, como nas guerrilhas pelo Mestre, como na briga exasperada da Aclamação, o motivo étnico da nossa história que se pronuncia e nos resgata. Quem é que fomenta a revolta, lhe busca recursos, a promove e a generaliza? São as vilas da província constituindo-se em juntas e armando-se todas em peso com caçadeiras e picos. Juízes-de-fora ombreiam com meliantes, frades gorduchos com foreiros miseráveis, morgados com pobretões, e o Reino em massa – adolescentes e velhos, mulheres e bambinos – abala caminho da serra, de trouxa à cabeça, para saltear nas gargantas ínvias o inimigo que passa. O localismo, acusando a pertinácia da Raça, manifestava-se com assombrosa energia. Mais uma vez estavam patentes as reservas do Luso na sua tradicional persistência. Era o «meio-vital» da Nacionalidade que se reconstituía à face da desagregação inevitável. Voltava-se ao nosso determinismo orgâgico. A história de um povo é sempre a soma em que se apura a experiência das gerações transactas. Os Mortos falavam agora no gesto de defesa em que os vivos se crispavam. O Portugal histórico possuía-se de novo na certeza de uma finalidade. É que o Luso reaparecera com a intervenção do pequeno dolicóide, conservado em pureza por virtude das instituições particularistas da Grei.
O espaço que corre desde a expulsão das hostes do Corso ao triunfo definitivo da liberdade teórica dos códigos em 34, é a luta afincada da nossa autoctonia contra as inovações hostis trazidas pelo vento da invasão. Com Alorna e Gomes Freire, bem escuro se nos descobre o papel dos oficiais portugueses que seguiram a fortuna de Napoleão. Diante de Almeida, quando vieram com Massena, o supliciado de 1817 mais o antipático Martins Pamplona, que D. João VI doiraria com o condado de Subserra, convidaram abertamente à traição os soldados da praça que se mantinham com honra no seu [p. 132] dever. Em que redundam, afinal, os chamados ‘mártires da Pátria’ consagrados pelo facciosismo maçónico, do qual foram servidores bem empenhados! Pois, desgraçadamente, outros como eles subverteriam os alicerces da sociedade tradicional. E a querela que se abre entre D. Miguel e D. Pedro por causa da sucessão ao trono vago não é mais que um incidente explorado com habilidade pelos grandes dignitários do triângulo simbólico.
Os filantropismos salivosos dos regeneradores de 24 de Agosto não sofismaram, todavia, o despertar da consciência colectiva. A Nação nessa altura cheia de carácter, recuperada a normalidade do seu temperamento, repele sem hesitações o emplasto constitucionalista que se lhe pretende aplicar, conforme o modelo oferecido pelas Constituintes espanholas de 1812. Até hoje tem-se figurado o arranco de reacção que se desenrola da Vilafrancada ao epílogo prematuro de Évora-Monte como um lampejo exasperado de quantas preferências inferiores regiam as nossas populações. E a mentira dos compêndios, servindo o ódio sem tréguas dos partidos. Inculca-se como o regresso a um absolutismo tirânico de melodrama a linda manifestação de espírito concelhio que se coroa com a reunião das Cortes-Gerais em 1828. Bem opostamente, D. Miguel significava o protesto da Raça contra as aclimatações centralistas do Marquês. Tornava-se à representação das classes com os procuradores das vilas e os delegados dos mesteres. Era com a especificação regional, expressa nos Municípios, a diferenciação técnica que nas Corporações se efectuava.
A base pluralista da comunidade consagrava-se assim na índole instauradora da acção miguelina, antecipada pela formidável lei de 4 de junho de 1824. Com o ser a herança gloriosa da Grei, ajustava-se esse programa político com os ditames da sociologia tomista, renascida mais tarde na síntese de Auguste Comte. As calúnias e as insídias do sectarismo é que transtornaram a compreensão de uma era em que Portugal tentava reconciliar a espontaneidade [p. 133] dos elementos nacionais com as directrizes supremas do Estado. Figura-se o digníssimo Príncipe exilado como um monstro resfolegando crime pelas narinas dilatadas gostosamente para a hecatombe. Eu não sou legitimista, não só por atmosfera de família, mas por considerar o critério da Legitimidade como escusado na questão portuguesa, em que apenas o interesse geral deve predominar. Contudo, não me esquivo a reconhecer a identidade que havia entre o monarca deposto pelos efeitos da Quádrupla-Aliança e o País que lhe queria como à carne da sua carne. D. Miguel, erguido pelo génio vibrante do Luso às cumeadas de herói-salvador, traduz o embate das antigas liberdades – bem concretas e bem vigorosas, em que as relações múltiplas do agrupamento se encarnavam e satisfaziam – com o liberalismo metafísico da Revolução Francesa, alheio a toda a realidade ambiente, preocupado apenas com o homem abstracto de Jean-Jacques Rousseau. E não se recorte em cores carregadas de quinto-acto trágico o apostolismo intolerante do Portugal-Corcunda! D. Miguel, embarcando em Sines vestido de pano de Portalegre, porque não vestia senão de fazendas nossas, é, com a pequena mala de roupa que o acompanhava, uma imagem extraordinária para se reter. Corriam-no as vilas dos vencedores, é certo. Mas com ele abalava a alma das vilas que o estremecera tão entranhadamente como outrora ao Mestre, quando o Castelhano atravessava as fronteiras. E se o sentimento da Pátria atinge ainda por momentos o calor excepcional das grandes horas de um povo, é pela Patuleia, ao pensar-se que o Proscrito regressaria. E regressava, se não fosse o general Concha à frente de uns tantos mil espanhóis.
Pergunta-se: que sentido comportava consigo a vitória de D. Miguel? Comportava a solução própria da Raça ao conflito aberto pelos paroxismos, a prevalência dos hábitos seculares da [p. 134] Nacionalidade contra os juízos geométricos da cartilha gaulesa. Seria, pois, a reposição do Lusismo adentro daqueles moldes que durante um aprendizado de centenas de anos o nosso génio para si mesmo criara. Nada mais.
[p. 135 e 136] ### [[p. 137] VI] Integralismo Lusitano
Eu sei que os arautos da falida ideologia democrática, da qual o nosso Constitucionalismo não era mais que o primeiro ensaio – eu sei que me obtemperarão com a eterna estrofe do Progresso-Indefinido. Mas, pelo amor de Deus – se a exclamação se me consente! –, o senso científico da Evolução encontra-se hoje modificado pelas observações experimentais de René Quinton. Em vez de se interpretar como a suscitação incessante dos seres para um aperfeiçoamento que se mede pela distância que vai da monera ao homem, a Evolução, perdido o seu conteúdo arbitrário e fantasioso, passa doravante a designar tão-somente uma aturada manobra de permanência. Não mais o devenir interminável de que tanto se utilizaram os padroeiros da utopia libertária, mas sim o respeito integral pelas condições primitivas da génese. A Vida é. E como é, procura perdurar, conservando com afinco a sua constância original. Tão cedo esse equilíbrio se modifique, assim se provoca um desarranjo cujas consequências são de total aniquilamento. Evoluciona-se, é facto, mas em limites traçados, com órbita restrita e fins expressos. Coloque-se um embrião. Evolucionar é desenvolver à plenitude todas as possibilidades que dentro dele se contêm. Não se alienam nem a precedências que o confor maram, nem as condições de espaço e de tempo que o determinam. Res eudem modo conservantur quo generantur. «As coisas conservam-se pelos mesmos motivos por que foram geradas» – já era a divisa profunda de Rivarol.
[p. 138] Considere-se o relativismo como a norma que governa a pluralidade inapreciável dos seres. Nunca se pretenda obter uma unidade quimérica, que teria como ponto de partida um ovo único, prolongando-se sempre em linha recta e instalando sempre no futuro o exercício das funções superiores da Vida que são imediatas e invariavelmente as mesmas. Eis os corolários que se desprendem da emenda apresentada por René Quinton aos monismos imaginosos do pobre doutor Haeckel. A superstição racionalista enchia a boca com as escalas embriogénicas desfiadas pelo insigne mistificador de Iena. E trasladando-as com um enfurecido exclusivismo para o campo dos fenómenos sociais, deitou-se a justificar assanhadamente quantas paranóias se têm concebido em glosa à Bondade-Natural do onanista idílico do Emílio.
O Progresso, que se inventara em religião omnipotente, descai nas proporções ridículas de um fetiche desengonçado. O Progresso não é outra coisa senão o triunfo da Inteligência que, exígua e rectilínea, apenas apreende o descontínuo na sua faina excessiva de análise. São os sólidos que melhor percebe. Por isso é na Mecânica que se revela com sucesso, porque é aí que se sente mais à vontade a sua qualidade específica. Quando se deseje transplantar para o que pertence à esfera do subconsciente e do complexo, aborta desde logo numa derrocada estrondosa. A base da razão, confinando-se apenas no que o cérebro apanha e concatena, é forçosamente deformadora e unilateralista, levando a essa impotência céptica do querer que hoje se intitula renanismo. Efectivamente, o sofista amável de L’Abbesse de Jouarre declarava com frequência que se Napoleão fora tão crítico como ele não daria nunca o golpe do Brumário.
O prestígio trascendente da lei é nas sociedades contemporâneas o resultado de uma tal hipertrofia de pensamento. Em vez de ser a colectividade que inspira o direito, é o direito que a antecede e governa despoticamente. Inventa-se assim o apriorismo rígido de tantos insignes reformadores. «La stabilité sociale [p. 139] a disparue depuis que l’homme s’est proclamé législateur», escreve o publicista Coquille. «Les anciens avaient remarqué que le grand nombre de lois est un signe de décadence. Plurimae leges, pessima respublica. Les lois remplacent les moeurs; elles substituent au frein intérieur de la conscience une répression extérieur. Leur multiplicité est donc un signe de décadence.»(105)
Com o disfarce do Estado as conveniências privadas dos bandos é que prevalecem por detrás do chavão da legalidade, visto que o agregado deixa de ser um organismo, dirigido por normas inalteráveis, para se tornar um autómato, de direcção arbitrária. O sofisma constitucional importa deste modo a sobreposição de uma política simplista de princípios a uma política positiva de factos. «La constitution d’un peuple est toujours coutumière» – oiçamos ainda Coquille –, «et plus elle est coutumière, plus elle est naturelle. Quandd les lois, au lien de s’attacher aux choses de police et de sécurité publique, prétendent régler la religion, la famille et la propriété, elles les ébranlent. Ces trois choses fleurissent surtout en l’absence des lois parce qu’elles vivent d’elles-mêmes et se défendent toutes seules. La nature, qui agit par le temps, les fortifie et les enracine. La coutume est une plante que croit lentement, disait lord Chatam.»(106) Já se entende porque é que D. Miguel valeu entre nós como a expressão do génio da Raça em guarda contra os abusos sem nome da ideologia gaulesa.
Houve durante a Convenção um matemático, não sei se Condorcet, que asseverava que uma lei, em sendo boa, é tão boa em toda a parte como em toda parte são certos os dados de um axioma de geometria. Na linguagem científica da época era o enunciado de tirania espantosa do Homem alegórico da Revolução. Desprezavam-se os particularismos de existência e de destino em que os grupos sociais se definem, para se lhes aplicar à força, se não a bem, a secura hirta de uma regra uniforme e absoluta. «Não [p. 140]me obrigueis a empregar as armas para vos libertar!» – já lá dizia no Porto a proclamação célebre do Dador.
No cabo, não é a suposta excelência das ideias que torna os povos felizes. É antes o respeito dos hábitos em que a alma colectiva estratificou as suas seguranças ancestrais. Ensina-o hoje a demopsicologia pela pena incisiva de Gustave Le Bon. Já Taine e Fustel de Coulanges o tinham previsto. É que não se substitui ao passado de uma pátria o passado de outra pátria, tal como nos indivíduos se não pode volver em nada a soma das respectivas aquisições atávicas. O parlamentarismo doutrinário que, com a vista no figurino inglês, se revelou ao conflito romântico como único meio de se reconciliarem os decálogos do Noventa-e-Três com as direcções do Antigo-Regime, se porventura desempenhara para com a Inglaterra um papel importante de coordenação social, é que nascera além da Mancha como uma criação própria do génio britânico. Transferido indistintamente para fronteiras alheias, seria, sem dúvida, um agente demorado de perturbação. Foram os resultados que colhemos dos entusiasmos diplomáticos de Palmela pela política um tanto escusa do gabinete Cauning. Desorganizou-se o meio-vital da Nacionalidade, sujeita a uma maré cheia de inovações. E o pior é que se atribuíram à insuficiência colectiva, e não à qualidade do erro que se nos impunha, os desastres intermináveis da recentíssima ordem de coisas.
Eis o espírito de toda a nossa falida experiência liberalista. Não só se inutilizou o renascimento viçoso de 28, como se caiu depressa em opiniões suicidas – no deixa-lá-andar tão característico das situações parlamentares. Portugal desaparecia como uma realidade autónoma, preparada do fundo das idades pela acção convergente do Meio e da Etnia. Passava a justificar-se apenas pela forma de governo que o distinguia no concerto vasto das Nações. Inaugura-se assim a nefasta teoria do Acaso, que em Oliveira Martins recebe a verdadeira consagração, apesar de Oliveira Martins ter [p. 141] palpitado no Portugal Contemporâneo a índole negativa do sistema que nos administrava como se administra uma roça de pretos. O País, atrás da ficção cartista, era apenas um pretexto de circunstância, legitimando pela burla ignóbil do sufrágio a cupidez desaforada das clientelas.
«Governar é aguentar-se no poder» – ditara o cinismo estanhado de Guizot aos burgueses da monarquia à bon marché, segundo o sarcasmo doloroso de Balzac. Não praticámos nós conselho diverso. Cada partido queria o Rei para seu uso, na frase definitiva de Wenceslau de Lima. Ilaqueado pelas imposições dos bandos, o Rei via-se bem um «mestre-de cerimónias», como a si mesmo se chamara Casimire Périer ao demitir-se. No descrédito sucessivo de todas as mezinhices alvitradas, pediu-se aos homens a responsabilidade que só pertencia às ideias. Daí o resvalar-se no indiferentismo dogmático em formas políticas, quando não se abraçava a ínfima crendice que inculca os regimes electivos como superiores aos regimes hereditários. Enfiávamos por uma senda inclinada que daria connosco aonde agora estamos – a um passo do abismo irreparável. E ao inventariarmos as perdas sem conto dos dias gordos da Liberdade, nós reconhecemos que a única palavra construtiva que se escuta ao longo da quermesse doidivanas em que Pacheco, de braço dado com Acácio, seguia agarrado à sobrecasaca de Fontes, não é da Carta que ela se solta, não é o Terreiro do Paço que a pronuncia, todo debruçado para a obra mais rendosa de burocratizar o País, de cima a baixo. Ergue-a Alexandre Herculano, clamando no deserto pelo municipalismo patrimonial da Grei. Com ambas as mãos no peito, Garrett já gemera um contrito mea culpa pelos calores reformistas da sua aventura de emigrado. Mas é mais forte o brado profético do ermita de Val-de-Lobos que se foi plantar oliveiras na esterilidade sáfara em que o meio o sufocava.
Solicitado por duas tendências contraditórias, a renúncia de Herculano é um exemplo para [p. 142] se guardar connosco demoradamente. Nos livros que nos legou, lê-se o ímpeto demolidor de Mme. Staël e de Benjamin Constant, transportando para as categorias mentais da Nacionalidade o criticismo pernicioso da inteligência protestante. Verte-se esse aspecto inferior do seu aturado esforço em polémicas avinagradas e em análises que crestam como um ácido. Tracemos uma nota explicativa à margem do Eurico e da História da Inquisição. Compreender-se-á melhor a divergência que irreconcilia o autor de páginas tão mesquinhas com a pena inolvidável que ressurge o viver afonsino dos Concelhos e se bate com galhardia ao longo dos Opúsculos «a prol do comum e aproveitança da Terra» – nos dizeres da velha Ordenação. A falta de uma síntese que lhe apaziguasse as brigas da consciência com a razão documenta-se à maravilha nos panfletos de A Voz do Profeta. Suscitado de uma banda pelos subjectivismos artificiais da roda literária, advinda das ribas de França na bagagem do exílio, cedendo por outro lado aos ditames da sua profunda visão de historiador, Alexandre Herculano divide-se, desencontra-se, não se estabiliza, já defendendo o frade de Santa Cruz e as monjas de Lorvão, já alinhando indignações em brasa contra o alastramento do espírito ultramontano. Aonde o pensador reformado se suicida, Alexandre Hercuano retira-se, pela qualidade positiva do seu ser, que é o amor ocidentalista à courela, o qual o não deixa sossobrar no desabamento da ilusão porque arriscara a vida e padecera as agruras do desterro. Era cedo, muito cedo ainda, para vencer em si o prejuízo liberalista e julgar-se a ele mesmo com um regresso puro e simples às instituições tradicionais da Raça.
A apologia do nosso particularismo municipal fica, no entanto, como um testamento notável que o acredita para nós como um mestre a venerar-se. Lamenta-se como uma vítima da mentira sem honra que nos ganhara, envolta em grandes prometimentos de redenção. Tomaram-no como um visionário os profissionais do Mando, espécie de [p. 143] verborreicos encartados para quem a sonoridade das aparências bastava e de sobejo. O pedantocratismo arrematava-nos na feira pública da Regeneração para nos derrancar os restos da antiga energia. No pânico de naufrágio em que tudo se afundava, são de Herculano as únicas agarras que se oferecem à desconjuntadíssima caravela lusitana. O estudo do município, nas origens dele, nas suas modificações, na sua significação como elemento político, proclama aos vindoiros, deve ter para a geração actual subido valor histórico, e muito mais o terá algum dia, quando a experiência tiver demonstrado a necessidade de restaurar esse esquecido mas indispensável elemento de toda a boa organização social».
Criaram-se equívocos à roda de um sonho tão belo. E se o milenarismo dementado da República se gerou entre nós, foi porque intrusamente se apossou dos conselhos finais de Alexandre Herculano. Em nome da Raça e por via do seu característico municipalismo, os desastres consecutivos da Monarquia-Constitucional deram lugar à vitória dos ideais democráticos. Com Henriques Nogueira se documenta o falso esforço tradicionalista que procurava aclimatar aos nossos limites a solução cosmopolita dos Imortais Princípios. Tempos felizes de apostolado, em que a psicologia das multidões se não conhecia, nem o estrangeiro do interior tomara conta de nós!
Entrementes, Oliveira Martins revelara-se. E nós não nos alargaremos sobre o nihilismo de contágio que lhe escapa de quanto escreve e evoca com o poder diabólico de um médium. Também ele quis achar por fim amarras que o sustivessem e nos sustivessem. Viu a doença, mas errou-lhe o tratamento. Apela para a monarquia de «poder pessoal» que é a Realeza pura de Quatrocentos devolvida ao que constitui o conteúdo próprio da função monárquica. Porém, em lugar de se socorrer do instinto foraleiro do Portugal autóctone, consagrando as miúdas iniciativas locais e técnicas, abandona-se, atacado de germanofilismo, à demência fantasiosa do Império-Ibérico. Só pela reabilitação do [p. 144] elemento lusista nos salvaríamos, se nos viessem a horas os ímpetos salvadores! Ai de nós, Oliveira Martins não acreditava na Raça! Na sua descrença levou consigo uma oportunidade da fortuna para levantarmos cabeça, e com aprumo, desta feita. Meu Deus, se na literatura, se na governação, se no alto mundo, a fina flor do nosso País se arregimentara nos Vencidos da Vida, se o diletantismo reinava em árbitro supremo, como é que nós venceríamos a ladeira, se não tínhamos uma élite que nos suscitasse para o ressurgimento, se a geração em destaque se repartia entre as hipérboles trovejadas por Hugo na musa torpe de Juuqueiro, e a última pochade naturalista, recomendada por Mariano Pina, alto-comissário das nossas letras em Paris?!
Existia Teófilo, sim, trabalhando como um beneditino, fechado no seu casulo de iluminado, ardendo todo na missão sacerdotal de atrair a um baptismo novo a esperança esquecida do Luso. Percebera-se da importância capital da factor-Raça. E, com vislumbres de vidente, o que Teófilo mais fervorosamente procurava era a nossa independência étnica, contra o Acaso teórico de Oliveira Martins, o qual contemplava em nós um produto apenas das ambições dos nossos Príncipes. Teófilo subia mais longe, profundando o negrume das Origens, para ressuscitar na Lusitânia dos Antigos, segundo o Estrabão da referência do estilo, a vasta actividade de um povo embrionário que ascendera devagar as jornadas custosas para a autonomia. Deixava de ser a Lusitânia uma alusão pedantesca dos humanistas de Quinhentos, conforme pretendera Alexandre Herculano. Volvia-se numa realidade tão viva, tão plena, como a carne da nossa carne, como o sangue do nosso sangue.
Esta é a significação da obra de Teófilo, que fica, todavia – digo eu algures –, como uma enorme pirâmide sem vértice. Falta-lhe a síntese, o justo remate, de que Teófilo se incapacitara por causa do preconceito republicano que lhe obliquava a retina. Conhecem-se as divergências [p. 145] irreconciliáveis de Teófilo com Oliveira Martins. Contudo, sem que se pense que eu cultivo o paradoxo, Oliveira Martins e Teófilo completam-se. Pedimos ao crítico das Modernas ideias na literatura portuguesa o sentido afirmativo em que toma a Raça, e, indo solicitar ao místico da Vida de Nun’Álvares o dia de juízo a que convocou todo o período desorganizador da ideologia cartista, teremos a visão da Nacionalidade contornada sem reticências, como que a preludiar os propósitos sadios que animam hoje a geração que avança, de olhos pregados na Portugália.
Enquanto Teófilo se encerrava no remanso do gabinete e vinha por lampejos divinatórios ao encontro do Lusismo, desenrolara-se cá fora a cruzada amorável dos folcloristas e dos arqueólogos. Eu acabo de mencionar a Portugália. Citarei a Revista Lusitana, sem esquecer a Tradição e o Arqueólogo Português. Como Rocha Peixoto, Ricardo Severo, António Tomás Pires, Santos Rocha e tantos outros cavaleiros de resgate, radicava-se o movimento iniciado por Estácio da Veiga ao sul e Martins Sarmento ao norte. No momento em que o urbanismo enrolava o País no abraço sufocante dos seus mil e um tentáculos, são essas criaturas de boa-vontade que surgem, de enxada em punho, a arrecadar os despojos dispersos da nossa herança tradicional. Na sinagoga de São Bento o pedantocrata traía-nos ignobilmente. Com o êxodo dos campos arrefeciam as lareiras da província. Perdera-se na nossa sociedade o sentimento unânime de um fim. Nas sessões de gala o chauvinismo oficial é que falava às vezes das chacinas com que andáramos ensanguentando o Malabar, como se a terra da Pátria não possuísse outro título de glória fora dos anais da conquista asiática, recortados em piratarias e vergonhas sem perdão. Ressuscitava-se também a pá de Aljubarrota mais a sanha exasperada do alferes da bandeira na desfeita de Toro. Quando chegava o Primeiro de Dezembro, além do Te-Deum na Sé com sermão repisado [p. 146] sobre as páginas sabidas de Rebelo da Silva – «O dia primeiro de Dezembro amanhecera puro e alegre...» –, saía inevitavelmente, como guloseima para a patriotice, aquele dramalhão imenso em que D. Filipa de Vilhena arma os filhos pouco mais que infantes e os remete com bravura para a degola. Não tinha outro grau a consciência colectiva. Obliterara-se a grandeza do espírito concelhio, que os repetidos códigos administrativos empurravam para o estrebucho derradeiro. Favor nos fazia a Espanha em nos consentir ministério em Lisboa, comum simulacro de exército, bravateando os bigodes para as meninas cismadoras das cidadezinhas do interior!
Nós próprios atávamos a grilheta com as mãos vencidas. Esvaído o instinto de solidariedade em que os povos se apoiam, não havia ideia cívica nem comunhão afectiva por cujo meio se retemperasse o reservatório de energias que se chama a alma de uma raça. São os Mortos que lhe alimentam a química incessante. Subtraídos pela adaptação desabusada de uma quimera estrangeira à riqueza sem conto do nosso determinismo orgânico, aceitava-se que nos esfarelássemos aos poucos, como um punhado de átomos que se extraviaram de toda a força centrípeta.
Aqui está o ambiente em que os obreiros três vezes abençoados da nossa redenção moirejavam de noite e dia, sem um desalento nem um cansaço. A etnografia confirmava as inculcas da pré-história. Juntavam-se os informes antropológicos à seara recolhida no adagiário e no cancioneiro. Os materiais acumulados subiam cada vez mais. A construção competia à camada que sucedesse a esses homens de boa-vontade nos destinos obscurecidos da gleba. Jaziam alisadas as pedras, rasgados os caboucos. Não se precisava senão de avivar os antigos alicerces – de seguir o traçado do solar destruído da Grei. Haviam-no posto a descoberto folcloristas e arqueólogos. E com pujança vingadora o Luso surgia das locubrações eruditas como um valor inassimilável e vivaz. Louvores a Deus que já [p. 147] vozes de eleição nos diziam povo desde o princípio! Não nos desgarrara o acaso da incorporação natural no planalto castelhano. Fôra o Luso – fôra o pequeno dolicóide, de sempre inconfundível com o ibero, a ponto de Silius Italicus na Púnica lhe assinalar já a eterna divortia!
A reabilitação da Raça obrigava à reabilitação das instituições em que o génio dela secularmente se exprimira. Curioso é mencionar agora um fenómeno interessante da psicologia do tempo. Os homens da Portugália e da Revista Lusitana declaravam-se em maioria republicanos. Ia em semelhante atitude o protesto do seu nacionalismo contra os atropelos quotidianos em que o sofisma constitucional ludibriava as direcções mais queridas do País. Regidos pelo tropeço intelectualista do Progresso-Indefinido, aclamavam a República como uma forma de governo superior e como a mais conforme à aptidão comunitária do nosso arreigado sentimento concelhio. Apaixonara-os o caso esporádico da Suíça, na qual, em lugar de uma sobrevivência arcaica justificada pelo regime cantonalista que a montanha impõe, se apostavam em reverenciar, de coração entusiasmado, um tipo perfeito de governo – o mais perfeito dos modelos sociais. Não podendo, por ser cedo ainda, sobreporem-se à época que lhes imprimira feição mental, explica-se bem que não se libertassem das prevenções revolucionárias, de modo a ganharem aquela plenitude de vistas que lhes ensinaria a encarar a Monarquia não só como um sistema político mais racional e mais lógico, mas ainda como o único agente possível do federalismo municipal que tanto lhes sabia merecer. É deles que deriva o equívoco nacionalista que em torno da República se teceu, preparando-lhe as caminhadas dificultosas. Não se carece de mais nada para se medir o vácuo em que Portugal se insensibilizava, transviado de toda a doutrina guiadora.
Quando os elementos positivos assim se dis persavam atrás de névoas sem valia, já se imagina como as camadas restantes, ou se degradavam no [p. 148] obscurecimento, ou seguiam direitas à desnacionalização, desajudadas de uma regra que as mantivesse na posse inspiradora de um destino. Sofriam-se as consequências da péssima aventura liberal. Na ficção desmascarada da Carta o que existia em essência não passava do disfarce de quantos teorismos Benjamin Constant e Jeremias Bentham tinham inventado para vulgarizarem mundo além os mandamentos da cartilha parlamentarista. A inteligência protestante, repito, assenhoreava-se de nós. Não se substitui ao determinismo de uma raça a formação hereditária de outro povo. Essa imprudência experimentámo-la nós, abrindo os braços à metafísica estouvada do Contrato. O «livre-exame» caía-nos em cima – dentro de pouco oscilavam as certezas tradicionais de Nacionalidade. De aonde a sensação de catástrofe em que Portugal se oprimia, porque, em desprezo pelo temperamento inviolável da Grei e sem respeito pelas aquisições da cultura autóctone, se escravizava a Pátria com a tutela de uma utopia sem eira nem beira, vagabunda de todas as estradas, pior que o bafo da peste que anda de noite e caminha às cegas. Administrados como uma fazenda arrendada de que se extrai o proveito, sem se cuidar da conservação, não admira que rodássemos para a vala comum numa morte miserável, a que não se consagraria nem o luxo modesto de um epitáfio.
Pois o mal que nos roía, a hoste sincera da Portugália – em que Rocha Peixoto assumira posições de arauto – o considerava, não como uma endemia própria de tal liberdade dos Imortais-Princípios, mas como o resultado dos raros resíduos autoritários que o Trono porventura entre nós representava. Entende-se já porque Ricardo Severo, no opúsculo As origens da nacionalidade portuguesa, se enche de pasmo por Oliveira Martins reclamar uma monarquia de «poder-pessoal», para acudir à crise em que a Pátria parecia perder-se. É que o embuste democrático fizera escurecer o significado às coisas. Ignorava-se a função específica da Realeza, mostrando-se em toda a parte como um ponderador de classes, [p. 149] ao passo que as situações de sufrágio correspondem inalteravelmente ao predomínio cerrado de uma casta. Por que é que as suseranias feudais se insurreccionavam a cada instante, procurando abater o prestígio monárquico, e as Comunas acudiam de pronto para o manterem com vigor?
Em Roma a república é aristocrática, detendo-se o mando na esfera exclusiva do patriciado, que é quem monopoliza os cargos e usufrui o ager. O Príncipe assoma, trazido aos ombros da plebe. O cesarismo é, como primeiro passo para a chefia hereditária, de natureza meramente popular. O mesmo acontece na actualidade com as chamadas democracias políticas. Ontem seriam os barões mediévicos, utilizando sofregamente a gleba mais o suor do adscrito miserável. São hoje os barões da Finança com o plutocratismo comendo as pequenas iniciativas privadas e abandonando o artífice à dureza da Oferta-e-Procura, como um animal que se explora sem escrúpulos.
A Realeza se instituiu em tempos pela liga das vilas livres para que, soberana a todos os interesses e confundido o interesse do seu interesse com o interesse geral do grupo, se aplanassem as desproporções sociais pela redução ao âmbito próprio da actividade de cada um dos vários egoísmos colectivos, de que o agregado se compunha. Debilitadas pelo defeito de nascença que as coloca à mercê de quem dispuzer de mais votos, podem as democracias hodiernas limitar os excessos do individualismo económico, constrangendo a um justo entendimento o Capital e a Produção?
Não, evidentemente.
São elucidativos os escândalos norte-americanos com os trusts dirigindo o parlamento por intermédio da camarilha secreta dos bosses, a ponto de o presidente Woodrow Wilson não achar resolução a um problema tão angustioso, senão apelando para o poder-pessoal pelo exercício forte da prerrogativa de veto que a Constituição reconhece ao chefe do Estado. Para se meditar é o caso sabido da França. O alcoolismo devasta as populações, fornecendo à [p. 150] delinquência e aos manicómios um número assustador de clientes. Solicitam-se medidas repressivas, reclama-se a intervenção enérgica dos poderes públicos. Pois para não se desgostarem certas potências eleitorais, tudo continua na mesma, para maior glória da Terceira República, bem na agonia, coitada!
Já em 1891 o governo de Washington se conservava silencioso perante a verdadeira guerra privada que se desenvolvera entre os grevistas das fundições de Homestead e os detectives Pinkerton, às ordens do senhor Carnegie, patrão todo-poderoso. O proletariado apercebe-se enfim do ilusionismo que o ludibria. A tendência autoritária dos sindicalistas franceses é bastante conhecida através da hipótese da Monarchie-Ouvrière, servida com tanto brilho por Georges Valois. É um dos mais incisivos doutrinários da economia radical, Edouard Berth, que no livro recentíssimo, Les méfaits des intellectuels, aceita francamente a solução monárquica, como único meio de expulsar das órbitas do Trabalho a gestão importuna e opressiva do Estado democrático. Foi a Revolução que gerou a moderna questão operária por abolir as corporações de artes e ofícios, em que o artífice se resguardava dos caprichos ferozes da Concorrência. O liberalismo tornou-o simplesmente um «cidadão». Por via da mentira declamatória do voto, derrancou-lhe as antigas molduras de defesa, insuflando-lhe o gosto desorganizador da paixão partidária. As consequências viram-se no desaforo crescente do feudalismo industrial. Não podem os regimes, apoiados na urna, realizar a apetecida equação social. Enfraquecidos pela sua fisiologia inferior, estão sempre nas mãos das grandes oligarquias financeiras e políticas, como já se disse. Na definição célebre de outro doutrinário sindicalista, Georges Sorel, são governos de classe contra as classes.
Não acontece já assim aos sistemas fixos, com a hereditariedade por fulcro resistente. O Rei não necessita dos votos de ninguém. O egoísmo dele coincide naturalmente com a utilidade colectiva. [p. 151] Por isso é que é soberano, visto representar em si a soberania dos diversos interesses em que o grupo se soma. A interpenetração pacífica e ordeira das classes atinge-se deste modo com normalidade, sem prevalências de castas, nem exclusivismos de classe. Mas será possível obter-se semelhante identificação nos governos parlamentares – ou mistos, ou democráticos? Decerto que não. O parlamentarismo, além de criar a instabilidade nas direcções superiores do Estado, traduz sempre o predomínio das conveniências de um bando sobre as conveniências sagradas do todo.
Ora eram as conclusões vigorosas da revisão pragmatista, a que se sujeitou de entrada o século corrente, que as boas vontades da Portugália e da Revista Lusitana, ignoravam. Não as esclareciam nem os ensinos fortes de um Le Bon, estabelecendo a demopsicologia como uma ciência certa, nem a verificação triunfante dos enunciados e reflexões do grande Le Play. Filhos do doirado diletantismo da era que findava na mais abominável das impotências edificadoras, se não gritaram um acto de fé que enchesse céus e terra, foram no entanto os anúncios de uma outra idade, em que a posse de um destino comum havia de restituir à dispersão das iniciativas o segredo obliterado da consciência da Pátria.
Na hora espessa da incerteza, é lá – a matéria-prima com tanto amor arrecadada – que nós, os rapazes desta geração, nos dirigimos, soltando um clamor unânime de esperança. Somos educados pelos mestres do pensamento culto no repúdio terminante das ideologias gregaristas. Toma-nos o respeito enlevado da Disciplina. E, encostados ao reconhecimento dos limites invencíveis que nos determinam, nós repelimos a Liberdade de maiúscula solene, para reabilitarmos as velhas liberdades de algum dia, em que a Região se bastava organicamente e a Profissão zelava com honra o seu proveito e a sua autonomia. Oh, as intituladas ideias avançadas, com o serem um luxo ensebado de [p. 152] caixeiro-viajante, são, meu Deus, o pior e o mais nefasto dos arcaísmos! Denunciêmo-las como um regresso à barbárie, mais ainda – como a volta à noite ínfima das origens. Temos por nós o positivismo da época que, sem prevenções sectárias nem atitudes antecipadas de escola, orienta hoje as luzes da inteligência como uma regra segura de acção. Reaccionários? Riamos a risada franca dos heróis, levantando do erro das massas a significação elevada da palavra. Reacionários – sim, e com desassombro!
Reaccionários, interpretando o reaccionismo biológico de um agregado que sofre a violação insensata das condições primordiais da sua existência. Esclarecem-nos contra os ataques pomposos da superstição racionalista, de uma parte, a crítica imortal de Bergson ao mecanicismo filosófico da Vida, da outra parte, os postulados definidos por René Quinton à face da mais minuciosa observação experimental. É o facto que nos inspira, unicamente o facto. Conduz-nos não a suposta excelência dos Princípios. É o inventário das realidades ambientes o motivo que intimamente nos delibera. Somos tradicionalistas. Mas ser tradicionalista não é encerrar-nos na contemplação saudosa do Passado. É antes reconhecer a contínua sucessão dinâmica em que a história se coordena entre si, efectuando a solidariedade dos Mortos com os Vivos, segundo a visão admirável dos melhores conceitos de Augusto Comte.
«Evolução» exprime «permanência». É a permanência que nós procuramos obter pela plenitude dada aos recursos contidos dentro do nosso determinismo. «Le devenir, avec son expression concrète dans le phénomène de l’évolution», declara Jules de Gaultier, «n’apparait plus que comme un moyen pour un éternel présent».(107) Entenda-se a diferença que vai do misoneísmo que retarda e obscurece à nossa compreensão prática da sociedade. Não é a placidez da água [p. 153] morta de um pântano que nós ambicionamos como mira final. As leis psicológicas do desenvolvimento dos povos assentam a variabilidade na estabilidade como senão primário de todo o bem. É à variabilidade na estabilidade que nós tendemos.
Como o indivíduo adulto no pleno desabrocho dos seus préstimos não cresce para além dos termos já traçados no embrião de que proveio, o mesmo ocorre com as nações, com as raças, com os povos. Zaratustra tirava a sua virtude da resignação heróica com que se submetia às restrições indomináveis da Existência. Aquele que se falseia e improvisa na demanda de quiméricos humanitarismos tomba na fraqueza ou na morte. O super-homem é o que melhor se sujeita para melhor se possuir. As forças da natureza não se comandam senão obedecendo-lhes. Eis o segredo do olimpismo soberano de um Goethe. É a harmonia da precária trajectória pessoal com a marcha invariável das almas e das coisas. A própria manobra da Vida conservando-se nos leva consigo, nos facilita a jornada. Erguer-nos em contradição connosco é um conflito eterno que nada amacia. Por que é que os governos revolucionários se fartam de encher as cadeias, de povoar os presídios, sem nunca derrotarem a hostilidade incoercível em que terminam por ser suplantados?
É que a resistência passiva que os abafa como uma máquina pneumática operando o vazio, não parte do querer circunscrito a um grupo mais ou menos numeroso de indivíduos – não é um plano de combate, delineado e assente em grémios oposicionistas. O espírito conservador não se nutre do descontentamento dos vivos. É o exército invencível dos Mortos que o perpetua e sustenta numa revivescência que nenhum despotismo da terra sufocará. São governos contra a natureza os governos revolucionários. Esbarram a cada hora no escolho em que hão-de naufragar, mais hoje mais amanhã, porque se apostam em julgar num materialismo grosseiro que são os corpos e não as almas – a alma-mater de uma Pátria – que combatem contra eles o combate surdo que não conhece nem tréguas [p. 154] nem compaixão. Ah, o Príncipe Perfeito, esgrimindo com os espectros nos forros do seu palácio, é bem o símbolo dessa loucura sem nome!
Portadores que somos do futuro de Portugal, assim nós olhamos os complexos problemas que rodeiam a salvação comum de uma série angustiosa de interrogações. Primeiro que o mais, é preciso que a Nacionalidade se sinta dona dos seus destinos com uma filosofia que a explique e a robusteça. Exposto, o Integralismo Lusitano aparece como a escola da vindoira consciência colectiva. As instituições de um país são a criação do seu génio. Tal é o mandamento a arvorar como primacial artigo da nossa fé. Segue-se-lhe o Valor da Raça como razão indiscutível de existência. Tão depressa se apaguem dos nossos olhos as duas verdades que estabelecemos, nem brio haverá para morrermos ao menos dignamente, cobrindo o rosto com a ponta da toga. Senhores de uma síntese tranquilizadora, a que concorreram com os subsídios de um honesto eruditismo, como é o dos nossos arqueólogos e folcloristas, as luzes mais insuspeitas da cultura hodierna, nós achamo-nos no nosso tempo, reconciliados com o que é natural e humano em sangue português.
O mal descende do esquecimento a que nos votámos, desprezivelmente. Já Simão Machado dizia na Comédia Alfeia que, mandando um ricaço pintar os costumes de quantas nações havia, o artista encarregado da obra «Pôs ao Português despido / Nas mãos uma peça de pano». Explicava de seguida o escritor, num remate conceituoso: «Em fim, que por natureza / E constelação do clima, / Esta nação portuguesa / O nada estrangeiro estima, / O muito dos seus despreza.»
[p. 155] É um traço anedótico que se presta a profunda meditação. Não vale com um motivo de cepticismo para os que o professam em abundância sobre a sorte e os merecimentos do País. Tome-se antes como um indício da larga desnacionalização provocada pela insânia das camadas dirigentes, em divórcio absoluto com a espontaneidade autóctone desde a hora nefasta da Renascença. Mas já não há direito para se consentir o equívoco! Bem alto elevámos o nosso brado pela civilização. Humanistas, demo-los doutíssimos ao intercâmbio intelectual de Quinhentos. Não nos ficáramos atrás dos outros povos europeus nos alvores do primeiro Renascimento. Santo António e Pedro Juliano, mais tarde João XXI, são luminares do pensamento mediévico. Sempre a nossa contribuição mundial excedeu a pequenês do nosso cantinho. Caímos em desgraça. Foi a cedência vergonhosa diante da invasão cosmopolita.
No entanto, não somos uma pátria morta, arrastando pelo poder da inércia a subsistência precaríssima dos seres subalternos. O que dormimos é o sono secular do Encoberto. Mas quando há lampejos de vida na nossa modorra, a Raça descobre-se magnífica, como que inspirada por um fim imortal. Falem as campanhas da Aclamação, fale a guerra santa contra os Franceses – que fale o Portugal concelhio de 1828! A nossa homogeneidade étnica nos dá a virtude indebelável da resistência. É o pequeno dolicóide, sobrevivo da Atlântida, criador da arte egeana, que nos reservatórios incansáveis da energia pátria elabora sem cessar o grande espírito de que o Luso se mostra condutor à hora espessa da crise. Voltemos à continuidade tradicional interrompida. E de pronto, com a reconstituição do seu meio próprio, a alma suprema da comunidade há-de ser connosco!
Não é um exagero literário a importância que eu confiro ao factor antropológico. Nem se suponha que uma raça homogénea significa para mim o rigor de uma raça pura. Eu considero aqui a raça no sentido histórico, embora com uma renovação constante desse tipo formado pelas circunstâncias do [p. 156] espaço e do tempo, que é o Lusitano – ou seja, o dolicocéfalo meão. Com as imiscuências posteriores, os caracteres somáticos podiam sofrer e sofreram alteração, efectivamente. Mas o que representava o conteúdo psíquico do nosso homem aborígene prevaleceu acima de tudo, imprimindo-nos a unidade moral e afectiva, sem a qual a Pátria nunca a veríamos possível.
Corra-se em escorço a jornada da Nacionalidade. Mais uma vez, num esquema breve, se demonstrará a natureza do nosso determinismo. É em Mugem que o mais remontado avô dos portugueses se manifesta com evidência, afiançando-nos um sedentarismo instintivo que já se praticava com aferro, ainda a agricultura se não sabia bem aonde vinha. Eu não aludo à hipótese tentadora que nos contorna o habitante arcaico dos vales do Tejo e Sado, surgindo do solo, como produto nato, mal teriam cessado as comoções geognósticas que estabilizaram aquela parte do nosso território. Assim quase que nasceria o torrão amorável de Portugal de envolta com a criatura que o havia de povoar e de lhe ganhar um nome. É bela, sem dúvida, a teoria, toda cheia das melhores sugestões para o ocidentalismo apenas na infância. Não a utilizamos, contudo. Aceitem-se tão-somente as pesquisas do malogrado Paula e Oliveira quando nos informa da aptidão sedentária do íncola mesolítico de Mugem.
«No alvor do conhecimento e por essa sociabilidade pacífica que o sedentarismo facilmente engendrava – consinta-se que eu me transcreva(108) – depressa o avô recuado enterrou os seus mortos. Enterrando-os, mais um vínculo o prendia e o fixava. É que a inumação antecede entre nós os ritos incineratórios, de proveniência estranha, e toma-se como um dos sinais específicos das arredadas gentes que para estas partes se insulavam. Sobre o depósito mortuário assentaria a lareira dos vivos: o fogo, [p. 157] que veio a consagrar-se como sinónimo de família, e se acendia em cima do loguo, em que os antepassados repousavam. O encadeamento das gerações pela subordinação dos sobreviventes ao culto ancestral manifesta-se de entrada. A necrolatria, eregindo os dólmenes e tornando-se a regra espiritual de uma colectividade em início, ao tempo em que promovia a coesão autoritária, dava simultaneamente o sentimento de uma mesma promanação. Pelo oculto poder do sangue a unidade gentilícia se entrançava. O direito de cidade e o equilíbrio da comunidade vieram de seguida, por via do contacto quotidiano em que o elementar instinto de vizinhança se fora acordando.
» Aferrada ao chão que lhe engolia os filhos depois de os haver gerado, a raça de Mugem – assim etiquetada hoje nos recintos científicos –, com o desenrolar das solicitações vitais, não se entregou à pastorícia própria tão-somente dos grupos turbulentos e erráticos. O atavismo, que a acolchetava ao solo fecundo donde brotara, a aquecia na religiosidade branda das coisas naturais – bem cedo lhe conferiu a pendência para o ruralismo produtivo e amorável da gleba. Como derivante, as comunidades agrárias se entreteceram, originando o nódulo populacional que o romano nomeará vicas e que era um modo de ser inerente ao H.-Atlanticus, como se comprova, por exemplo, pela djemâa berbere, de aproximada organização igualitária, mas centralizada sob uma forte chefia religiosa. A nossa aldeia paleo-histórica, deduzida da longínqua faculdade sedentária que os cortes da bacia do Tejo e Sado nos participaram, apoiando-se na colectivização da terra para os efeitos da cultura, possuía idêntico hífen hierárquico em virtude da norma teocrática que a necrolatria necessariamente lhe impunha.
» O regulamento interno do grupo pode abonar-se, em referência à azáfama e à colheita, com a notação conservada nos viajantes clássicos acerca dos vaccei que habitavam a concha do Douro. Todos os anos se partilhava o solo arável, sendo [p. 158] distribuído em quinhões iguais o produto da racolta. É o processo certamente usado nos demais aglomerados agrícolas que, na subida diferenciadora para outro estádio, alcançam a forma urbana nas citânias ou cividades que pegaram a erriçar os cômoros do norte aí pelos intróitos da proto-história.» «Assim – continuo eu –, cada citânia constitui o centro de uma mancomunidade agrária com o laço gentilício por fivelão. Asseverava as predilecções localistas da estirpe autóctone e, pelo particularismo incisivo que a exprimia, cada citânia importava uma unidade populacional, um populus. Quantas cividades, quantos populi – contariam os romanos ao depois. A autoridade acabou por se resumir num maioral – o Carnal das inscrições de Briteiros, assistido por uma ordem de anciãos, ou notáveis, como se infere dos toscos assentos de pedra que lá se exumaram na casa-tipo. E desta maneira afirmado o sedentarismo ingénito do nosso indígena primevo, acompanhando o desenvolvimento da agricultura, atingia as linhas rudimentares de um cantonalismo autonómico em que se adivinha já o embrião da pátria vindoira.
» No conselho dos magnates, deliberando sobre usos, repartição do agro, contendas pessoais, etc., insere-se, na verdade, o germo valiosíssimo de que provém o Município. Daí, por uma ascensão maior, já em mais larga esfera de sociabilidade, derivariam essas antigas Cortes-Gerais da Monarquia tradicional da Raça, cooperando com o Rei na marcha e na direcção dos mais graves negócios públicos. O Rei é já palpitado pela célula autoritária que é o Camal de Briteiros.» E quem se recorda do folheto notabilíssimo de Rocha Peixoto – Survivances du régime communautaire en Portugal,(109) não se esqueceu decerto dos «homens-do-acordo» e dos «seis-da-fala», que nas freguesias de além-Douro presidem à divisão em lotes do terreno comum. É uma reminiscência preciosa que [p. 159] nos entremostra as origens agrárias do Município. A Pátria não é senão o alargamento da região que por si já representava uma liga de concelhos, mais ou menos ensaiada nos medianidos de algum dia. Pois os homens do acordo tanto são os ascendentes dos magistrados camarários, administrando justiça a vila e termo na sua qualidade de homens-bons, como os dos velhos procuradores dos povos, respondendo às consultas do Rei com o parecer honrado da Nação. Vêm do mesmo tronco, são parentes chegados. É sempre a aptidão sedent ria de Mugem, crescendo para a plenitude máxima dos seus préstimos e ensinando-nos paralelamente o sentido rigoroso da Evolução.
Os fundamentos foraleiros da Nacionalidade ainda nós os verificamos, sem recorrer a códices nem a cronicões, nos vestígios consuetudinários da gente da Montanha. A Portugália publicou alguns diplomas de paróquias do Gerês em que se regulam de séculos as práticas empregadas na partilha dos pastos e das geiras.(110) Ora, conquanto os eruditismos oficiais entendam as mais das vezes o Município como uma deixa de Roma, é aí que nós, tendo como um artigo de fé a existência de uma civilização lusitanista, lhe perguntamos as entranhadas raízes, que, se fossem de importação, jamais pegariam tão bem na parte mais íntima e mais incomunicável da Grei. Vem em nosso socorro o ilustre publicista espanhol D. Joaquín Costa. Ainda que dominado pelo preconceito ariano, é um testemunho invencível o que nos fornece no seu livro El Colectivismo Agrario en España. Segundo a filologia, a palavra vereador é derivada de vara, terra comum, com uma ascendência indo-europeia, que o sânscrito acusa no termo vor e que se repete nas línguas e dialectos afins, como Where em neerlandês, Were em alemão, Vara em asturiano.
» De modo que o vocábulo espanhol de que estou tratando», resume D. Joaquín Costa, «denotaria o campo no sentido de cercado e vedado, ou de [p. 160] couto, que cada um toma ad libitum, como em Aragão, ou que lhe era designado, conforme um método regular, pelo conselho ou pelos seus delegados, como entre os Waceos.» Claro que a suposta precedência euro-índica se volve pelas rectificações da arqueologia em atlântica, ou oeste-europeia. E com os nossos vereadores, repartindo em sessão os farrapos de coutadas ou baldios que houvessem por ventura escapado à insânia desamortizadora, nós vemos repetir-se o costume milenário do pequeno dolicóide – como outrora em Briteiros o Carnal, rodeados dos próceres, presidia à partilha do agro. Não se precisa mais para se patentearem como filhas do feitio rural da Raça as nossas instituições municipais que tão bem nos interpretaram sempre o génio.
Circunscrevera-se de princípio o localismo ferrenho do autóctone ao aro limitado da citânia. Gastava-se em rixas sangrentas de vizinhos, quando o romano assomou. As exigências da defesa obrigam-no então a uma tentativa séria de federalismo guerreiro. Saem dos apertos do momento as arimanias ou germanias, que são ligas ou tratados de cividades limítrofes para o efeito de se unirem na expulsão do inimigo. A citânia transborda-se. Atinge uma fase imediata o germe de Mugem. Já há chefes militares que de gens para gens deliberam em soberanos, embora com um evidente carácter temporário. O Carnal não é já só um juiz eleito. É também um cabecilha empenachado que dispõe por si de todas as resoluções e ordena, sem consulta dos notáveis, a marcha da batalha e a sorte do populus. A célula autoritária transpusera o círculo primitivo, igualmente a caminho da sua maior amplitude.
Vencido o Lusitano, Roma o constrangeria a um entendimento permanente de relações, fazendo-o obedecer ao pesado aparelho administrativo e fiscal com que a ocupação careceu de se organizar. Consagra-se pelas necessidades tributárias o núcleo espontâneo da citânia no magistrado do Império que se lhe coloca à frente. E como destaca da massa geral dos submetidos uma classe em quem [p. 161] deposita o governo local, nos compita e nos conventi pablici vicinorum define juridicamente o Município, o qual não era, pelo visto, um mimo dos estatutos do Lácio, mas uma criação natural da nossa alma colectiva.
Sabe-se já que são esses centros vivazes de população que não permitem ao sarraceno que passe para lá do Douro e lhe acidentam o domínio nas cidades do oeste com rebeliões constantes. Resguardando-se de misturas que lhe comprometeriam a homogeneidade, o Luso, confundido com os despojos das invasões, reanima-se, ressurge intacto, onde a Reconquista aparece a restabelecer os moldes próprios da Raça. Pelo poder das sociedades agrárias em que por índole se emoldurava, resistira ao flagelo bárbaro, ganhara força perante o arremesso devastador da onda gótica. Dá-lhe essa força o alastramento da religião cristã que encontra no feitio íntimo do indígena um terreno bem preparado. O conceito germânico da autoridade baseava-se na posse, constituia-o um princípio de ordem meramente territorial. Permanecendo em «banda», o homem loiro usurpador não pôde desfibrar as raízes invencíveis do autóctone. Nos esforços empenhados para uma expoliação completa é que a Igreja se alevanta nos concílios toledanos a defender o direito sagrado da terra. O carácter belicoso da monarquia goda abranda-se. Deixa-se então penetrar pelas altas influências morais em que se adivinham já os fundamentos futuros da concepção política de São Tomás. «E se alguns deles for cruel contra os seus povos, por braveza e por cobiça ou por avareza sejam excomungados.»
A palavra eclesiástica protege as agremiações indígenas da Península contra a sapata de ferro do bárbaro conquistador. São essas mesmas agremiações que impossibilitam a vitória do feudalismo entre nós. O feudalismo teve lá fora uma vasta missão de carácter social. É ele que organiza as nacionalidades surgidas dos escombros do mundo romano. Mas o motivo que assim o torna um agente de coordenação colectiva é a razão porque [p. 162] em Portugal não pôde nunca vingar. A sociedade aqui estava naturalmente formada. As behetrias representam o tecido estrutural da Pátria que vai erguer-se tão depressa elejam um príncipe como seu regedor vitalício. A tentativa do barão leonês aborta por isso nos seus propósitos de arrogância senhorial, porque, em vez de um meio disperso e enfraquecido, há já um povo com existência sua, traduzido em órgãos conformes à natureza histórica da Raça.
É no Minho que lateja a lareira anónima da Pátria. O cavaleiro neogótico arremete furiosamente, embrulha moiros e cristãos, quer campar em dono de todos e de tudo. Chega a altura em que o embrião de Mugem se exterioriza nas feições definitivas. Do sedentarismo apreciado no vale do Tejo à citânia de além-Douro, das cividades da proto-história às arimanias, significadas em Viriato, das arimanias ao Reino, passando pelo Município, pela vila e pela behetria, eis como Portugal irrompe para a vida, tirado das entranhas do próprio solo, se é certa a hipótese sorridente que envolve nos negrumes da mesma origem o território da Pátria e o seu habitante primeiro!
Completa a gestação trabalhosa do organismo, o Carnal de Briteiros e o Viriato da Guerra dos Ladrões atingem simultaneamente a expressão última e decisiva. O Rei descobre-se como magistrado perpétuo, de juro e herdade, das behetrias reunidas em assembleia para o aclamarem. Os foros paroquiais do Gerês entremostram-nos a índole pactual da nossa Monarquia. O que ali se consigna para os filhotes da freguesia consigna-se nos forais mediévicos em relação a uma esfera maior e mais complexa de sociablidade. A formação política do País opera-se assim, federativamente, de baixo para cima. É o pequeno dolicóide que o leva com pachorra, de grau em grau, até às cumeadas de uma consciência una. O H.-Atlanticus afiança-se ainda uma vez mais como portador da sua energia construtiva. O localismo que o enxadrezara outrora em aldeia sob o intenso laço moral [p. 163] que é o culto dos Mortos, comportava consigo todas as qualidades afloradas depois. A citânia era uma criação do nosso dolicocéfalo. Uma associação de cividades constituiu a behetria, que é o estádio seguinte, com fundamento na comunidade amigável da terra. Pois, mais ou menos figurada a citânia na djemâa berbere, não se encontra lá a behetria na anaia e no cof...? São sempre os restos da admirável civilização ocidental, sumida entre ruínas com o advento do indivíduo loiro de Hallstatt.
Compreende-se agora como o particularismo concelhio é por toda a nossa história o «meio-vital» da Nacionalidade. Vale para nós como o melhor dos seus vasos constitucionais. É o elemento estático que a mantém de pé e lhe prepara as reservas com que Portugal se socorre à hora da crise. Busquemos o correspondente factor dinâmico. É na Raça que ele se nos depara. Dissera eu que, encarecendo o valor do Luso, não me subalternizava, no entanto, à miragem antropológica de um tipo puro, embora tenha como condição primordial da Pátria a nossa homogeneidade étnica. Sem dúvida que nos atravessaram mesclas contraditórias. Até o desfalecimento de um País que canta o Fado e se afunda aos poucos, como os bailarins da lenda de pavor, numa córea sem fim, eu o atribuo à grande dosagem de nigerismo que nos avaria as veias. Mas porque fomos Pátria, é porque possuíamos alma colectiva, na qual se estratificaram os nossos motivos de viver, como que dispostos em roda de um forte núcleo gerador. O Lusismo é esse núcleo originário que inspira os nossos oito séculos de portugueses, que são outros tantos séculos de Esperança. Enquanto o Luso dominou as direcções das camadas superiores, a Nação tirou-se de dentro de si, dirigindo-se por sua conta. A desgraça começa quando se olvidam as determinantes do substractum ancestral.
Já fica dito que na nossa população, além do fundo autóctone, representado pelo dolicóide de Mugem, se apuram braquicéfalos pertencentes à costela alpina, dolicocéfalos da estirpe dos [p. 164] Reihengruber, e aqui e acolá sensíveis manchas semitas, de aquisição variada, tanto pelo que respeita à época como às fontes. Contudo, na antropologia do nosso continente, a gente portuguesa acusa-se como a mais conforme nos seus caracteres somáticos, que, reduzidos ao padrão dominante, são os do indígena de Mugem, com as alterações introduzidas no talhe pelo troglodita de La Vezére. Verifica-se, pois, fisicamente a homogeneidade significativa da Raça. E por muitos que sejam os cruzamentos e as mestiçagens padecidas, não nos admiremos de que o Luso permanecesse intacto. Os mais antigos túmulos do Egipto, velhos de sete mil anos e mais, revelam-nos nos despojos osteológicos que contêm a presença de uma etnia que é nas suas variações a étnia de ainda agora.(111) Em França pode subir-se até ao período solutreano sem que se nos apresentem etnias diversas das que figuram na tábua genealógica do francês contemporâneo. «Les hérédités contradictoires», explica Vacher de Lapouge, «sont en lutte dans chaque élément de l’organisme, jusqu’au moment où celui-ci prend sa forme définitive, et où le choix de l’influence ancestrale est fait pour chaque cellule.»(112) A característica fisiológica subsiste trabalhando para se restaurar tão cedo se lhe ofereça a ocasião propícia. «Cette occasion résulte facilemente de ce fait physiologigue que les combinaisons théoriquement possibles des éléments héréditaires sont presque infinies, mais que celles comportant un équilibre compatible avec la vie ne sont pas très nombreuses».(113) É Vacher de Lapouge que continua. E Sutton estabelece-nos a fórmula das combinações realizadas em cada célula aproximadamente pelos cromossomas. Sendo eles no homem em número de 24, a diferença das origens e das posições autoriza-nos a presumir 16.777.216 possibilidades.
Prosigamos com Vacher de Lapouge. «Pendant toute la période de prolifération cellulaire, depuis l’oeuf [p. 165] fécondé jusqu’à la production de la dernière cellule de l’organisme, l’option se fait, à chaque fois, au bénéfice d’une combinaison sur près de dix sept millions. Il semblerait que l’on dut arriver à une telle pulvérisation des races que leur mélange peut-être du premier coup homogène, et les individus indiscernables. Il n’en est rien, et sur le nombre infiniment grand des germes, il n’en survit que quelques-uns, dans lesquels se sont réalisées les conditions d’équilibre les plus favorables. Ces conditions d’équilibre, dont la meilleure est la normale d’une race fixée, sont l’objet à chaque génération d’une nouvelle sélection, jusqu’au retour final...» [Ao longo de todo o período de proliferação celular, desde o óvulo fecundado até à produção da última célula do organismo, a opção é feita, de cada vez, em benefício de uma combinação entre quase dezassete milhões. Parece que se deve ter chegado a uma tal pulverização das raças que a sua mistura pode ser homogénea à primeira vista, e os indivíduos indistinguíveis. Este não é o caso, e, do número infinitamente grande de germes, apenas alguns sobrevivem, nos quais as condições de equilíbrio mais favoráveis foram alcançadas. Estas condições de equilíbrio, a melhor das quais é a normal de uma dada raça, são objecto de uma nova selecção a cada geração, até ao regresso final...Ora o retour final de Vacher de Lapouge é o regresso a um tipo primitivo e único, de seguida à neutralização de quantos atavismos hereditários nos perturbem.(114)
Por um tão complicado fenómeno biológico nós percebemos enfim como é que as raças aturam e não se extinguem. É a incessante química renovadora em que o Luso se retempera. Funciona com mais alcance nos centros naturais de população que o Município significa, porque é aí, pelo secular enraízamento ao solo, que as influências contraditórias da hereditariedade são menos fortes e menos pesadas. Explica-se deste modo a razão étnica em que a história portuguesa se repousa. É acreditarmos nela, erguendo-a como o artigo principal da nossa fé de povo. Olhemos atrás – à enormidade do caminho andado. É o milagre da nossa pequenês recebendo uma luz imprevista. Nunca mais o negativismo dos outros se extenuará em nos cortar a torto e a direito, como sobre um cadáver hospitalar. Restituído à colectividade o senso da sua vocação, um novo horizonte, todo ensoalhado, se nos rasga para além daquele que hoje nos custa como um pesadelo. Eu lembro que a Alemanha moderna agradece o que é à cruzada de um Stein e de um Mommsen. Ao historiador em Portugal pertence a chefia do ressurgimento – mas ao historiador que tenha feito exame de consciência e que [p. 166] não procure extrair do Passado a lição que serve apenas às conveniências sectárias dos bandos. Praticar-se assim a história é acender a guerra civil – lá dizia o ilustre Fustel de Coulanges. É precisamente de reconciliação que nós necessitamos. E jamais ela se obterá, se a ideia da Pátria não sobrepujar, no contorno viril da sua fisionomia centenária, as prevenções e os equívocos que nos dividem e trazem de noite e dia num conflito que é sincero em muitas boas-vontades – mal aproveitadas, infelizmente.
Estamos de posse de uma civilização, da civilização lusitana. Já não há direito para se perguntar se somos uma raça, quais são os nossos títulos de independência. Descem eles do íntimo das idades. Não foi o Acaso que nos confeccionou de afogadilho, como que para acudir à pressa da encomenda. Não nos cabe, por consequência, a sorte inglória dos que nasceram enjeitados e se abastecem à custa das ocasiões perdidas. Temos um alvo. Para lá se chegar, nós, e só nós, é que rompemos a estrada.
Em frente de Castela alcemos como o pavilhão mais belo do nosso separatismo a disposição de natureza que levava, de um lado, os Lusitanos a permanecerem inassimiláveis, e, do outro, os Iberos a confundirem-se com os Celtas, depois de combates preliminares. Enquanto o nosso dolicóide enterra os seus mortos, o Ibero abandona os dele à devastação das aves de rapina. Ora aqui está um traço psicológico que nos distingue uns dos outros para sempre. O Ibero, descendente de massas ambulantes, nutre-se da pastorícia e vai arrebanhando o que pode durante a passagem. Se alguma coisa se conta na Espanha que se aparente ao Lusitano é o enigma basco. Também os Cântabros resistem pelo lirismo da Esperança. Houve uma sibila que lhes prometeu um salvador no futuro. Pregados na cruz pelos inimigos vencedores, insultavam-nos com fereza até morrer, entoando em coro os seus hinos de guerra. É a fidestradicional dos Lusitanos que acompanhavam na morte os chefes [p. 167] jurados. Tudo mais o que a Ibéria nos manifesta em face da Lusitânia é a diferença, o antagonismo. Silius Italicus soube assignalá-lo com a eterna divortia da Púnica. «A actividade comercial entre os povos do sudoeste da Hespanha e a Inglaterra, que o périplo do século VI acentua (Avieno, Ora Marítima, 118-14), contrasta singularmente com a ausência quase completa de relações entre os pri meiros e os povos da costa oriental da península – repara Martins Sarmento. Dir-se-ia que a gente das duas regiões nem se entende, nem se quer entender.(115)
É sempre a mesma irredutibilidade que a filologia por outra parte nos confessa, aduzindo à nossa causa um depoimento interessantíssimo. O português e o espanhol têm, cada um de seu modo, uma aversão arreigada por certas combinações de vogais e consoantes. «Esta diversidade fonético-acústica é baseada sobre uma diversidade fisiológica» – declara Schleicher, citado por Teófilo.(116) É que, enquanto nós entroncamos no H.-Atlanticus, recolhendo dessa linhagem a prova magnífica de uma cultura que subiu ao assombro nas ribas azulinas do Egeu, o Ibero vinha de filiações desencontradas, difíceis de se interpenetrarem num carácter uniforme e autónomo. Sem dúvida que o braquicéfalo etiquetado presentemente por H.-Alpinus ocupa uma situação de destaque na árvore-de-geração dos nossos vizinhos. Mas contemos com mais ainda. E são as possíveis transfusões asiáticas que lhes adviriam do shumero-acadiano imigrante.
Por várias que sejam as etimologias da palavra ibero, eu aceito como a mais harmónica com as indicações da arqueologia aquela que A. de Paniagua nos aponta: «i, artigo aglutinador, e bar, br, que em sânscrito exprime tanto como amercadejar andando».(117) Ibero era, portanto, o mesmo que «[p. 168] vendedor vagabundo», o que nos recorda o shamanismo traficante de amuletos, tão próprio do acad, com os seus gosto teocráticos apanhados na Caldeia, de onde proviera. Estrabão menciona uma Ibéria junto do Cáucaso. Pelas portelas setentrionais da Europa penetraria o êxodo em que a Índia dravidiana se fez talvez representar com influência.
O turbilhão atrairia no trajecto a massa hiperbórea, ou cítica, que morava perto da Ursa, nas altas regiões geladas. Num cortejo de bruxos, o misterioso invasor se adiantara com demoras sacerdotais até junto das gargantas pirenaicas. Topando na viagem os rebanhos pacíficos do braquióide alpino, conferiu-lhes pela unidade religiosa a discipina social que lhes faltava. E quando penetram na Península vêm em tom hostil, submetendo – quem sabe? – outras populações, do mesmo tronco que o H.-Atlanticus. A Ibéria do Cáucaso é uma lembrança viva das tribos dessa migração que por lá estacionariam. E com a chegada do indivíduo de cabeça globulosa relaciona-se provavelmente a reminiscência conservada nos textos antigos acerca de um povo fugido de Espanha – os Sicanos –, que se estabeleceria na Sicília.(118) Não será o indício da deslocação provocada nas camadas aborígenes pelo aparecimento do Ibero?
Ao Ibero se ajuntaria um outro êxodo, vindo pela costa de África, com caminhada larga pelo sul do Egipto. Com esse êxodo, saído também da Mesopotâmia, se prende sem sombras de engano a tradição, conservada em Salústio acerca da fundação de Utica e mesmo de Cartago. Assenta-se numa era inverificável – o duodécimo século antes de Cristo. O que, porém, é certo é que numerosos grupos semitas se precipitaram em tempos remotos na imensidade da Líbia, crescendo ao depois para as Sirtes e tomando poiso na Bizancena. Inspirada em fontes judaicas, a mentalidade dos primeiros tempos cristãos pretendeu ver num tal aglomerado de gentes errantes os cananeus expulsos [p. 169] da Terra da Promissão por Israel vitorioso. Segundo Maspero, o analista Procópio testemunha que na Numídia, junto a uma grande fonte, se encontravam duas estelas de pedra com uma inscrição fenícia que rezava: «Nós somos os que fugiram de Josué, filho de Nané.»(119)
É este outro ramo que, passado à Península, contribuiu com decisão para elevar o braquicéfalo ocupador às condições de força absorvente. As simpatias de ambos os elementos pela confusão étnica confirma-se mais recentemente pela aliança dos Iberos e dos Celtas, dando lugar à nação celtibérica. O homem loiro de Hallstatt transmitiu-lhe falhas de temperamento que, adicionadas ao substractum acadeano, não consentiram nunca ao génio espanhol outra feição que não fosse a do misticismo excessivo e terrífico, ou então a do alucinado impulso imperialista que esgota e é sempre um arremesso negativo, escurecendo lastimavelmente na loucura do bom cavaleiro manchego. Faltam ao nosso vizinho o senso da Medida e o amor da Proporção que tanto individualizam no pendor oceânico o pequeno dolicóide, em nada parecido, em tudo divergente.
Em vesânias de domínio se perpetua o castelhanismo, seco e unilateralista, tão duro, tão áspero como o planalto em que montou a sua tenda. Comparem-se os nossos heróis da Índia com a brutalidade dos Cortezes e dos Pizarros. A aventura ultramarina divide bem a psicologia dos dois povos, já tão divididos pela disposição natural que entre os Lusitanos enterrava os mortos e que entre os Iberos os abandonava às aves de rapina. «E prima ainda», observa o escritor brasileiro Pereira da Silva, «uma distinção notável entre as duas nações conquistadoras: se aparece entre os Portugueses um Maciel Parente ou Pedro Coelho, que praticam arbitrariedades contra os Brasis do Norte, castiga-os a Coroa, e não passam eles de uma quase imperceptível excepção na ordem dos chefes [p. 170]portugueses; enquanto que inventam os Castelhanos os mais descomunais suplícios para se alagarem no sangue dos Americanos, e extinguir-lhes a raça, não lhes bastando as caçadas por meio de cães de fila, e o extermínio no meio e fora dos combates. Diversa é a história da conquista do Brasil, das colónias do Peru, da Colômbia, do México, do Chile, e de Guatemala, onde quase nenhum efeito produziram as fulminações de Las Casas.»(120)
O sentimento da realidade é a linha preponderante da nossa idiossincrasia. O castelhano padece, pelo contrário, da hipertrofia sem remissão de D. Quixote. A este o cura teve de lhe queimar a livraria. Projectava no mundo exterior os delírios da sua imaginação em febre. Nós não lemos ainda tanto que houvéssemos de tresler! Tirante o caso desse retórico impenitente que foi D. João de Castro, os aventureiros da Índia falam da honra e beijam a cruz da espada no meio das piratarias, mas não discursam, não se procuram modelos – praguejam antes, descompostos como marujos, tal como António da Silveira no cerco de Diu. Então os nossos santos, como são bem outros dos santos castelhanos! Santo António prega, ensina, reforma, converte – pertence à Igreja Militante, é o São Paulo do franciscanismo nascente. São João de Deus ordena hospícios, cura doentes, recolhe desvalidos. No apostolado há D. Frei Bartolomeu dos Mártires, há o padre Anchieta, há o beato João de Brito. Lá mais largo, que figura de vontade não fôra São Dâmaso bracarense! É activo o nosso misticismo, ao passo que o de Espanha, com espíritos excelsos, como Santa Teresa, São João da Cruz, João de Ávila, Frei Luís de León – é mais interior, é mais ascese, mais castelo-da-alma, com o êxtase por pão de alimento. Exceptuam-se, é facto, os grandes santos jesuítas, Santo Inácio de Loyola e São [p. 171] Francisco Xavier. Mas o costado vasconço não lhes daria mais de atlântico que de ibérico?
Outro predicado distingue em absoluto o Luso do Ibero. É a amorosidade do temperamento, crescendo tanto para as exaltações messiânicas da Esperança, como para as delicadezas emocionais da Saudade, que é a gran coyta do coraçon, em que os nossos cancioneiros florescem ainda agora como na hora primeira. «O ideal poético do castelhano medieval vivia menos de finezas líricas, do que da guerra e da religião:
«Ferid los, cavalleros, por amor de caridad!
>
Yo só Rui Diaz, el Cid campeador de Biuar!»
>
«Todos fieren enel az do está Pero Vermuez.
>
Trezientas lanças son, todas tienên pendones ;
>
Senos Moros matáron, todos de sefíos colpes ;
>
Ala tornada que fazen otros tantos son.
>
Veriedes tantas lanças premer alçar,
>
Tanta adagara foradar passar,
>
Tanta loriga falssa desmanchar,
>
Tantos pendones blancos salir vermeios em sangre,
>
Tantos buenos cavallos sin sus duenos andar.
>
Los Moros laman Mafomat, & los Christianos Santi Yagu(e).
>
Cayen en ura poco de lugar Moros muertos mil & (ccc ya).
«Como se vê no Poema del Cid, fazem perfeito contraste com este arranco de épica ferocidade as branduras de um trovador galleco-português apaixonado:
Quando vos vi, fremosa mia senhor,
>
logo vos soube tan gran ben querer,
>
que non cuidei que ouvesse poder,
>
per nulha ren, de vos querer melhor;
>
e ora já direi-vos que mi aven:
>
cada dia vos quero maior bem!
É Leite de Vasconcelos, nas Lições de Filologia Portuguesa,(121) que salienta uma diferencial tão decisiva. Não desprezemos a semelhante respeito a teoria que localiza em regiões marítimas do Ocidente a origem do ciclo poético de que brotou a Odisseia. Os pontos primordiais da rapsódia homérica [p. 172] andam tocados na boca do povo pela Nau-Catrineta e pela Bela-Infanta. Pois, tão discutida, com tanta querela erudita a emaranhá-la pedantescamente, o berço da poesia provençalesca fixa-se actualmente no noroeste da Península. Escravos oriundos de áquem e além Minho influiriam na literatura dos árabes de Córdova com o património lírico que fecundara antes a claridade sem par do gemo helénico. Pela penetração do elemento islamita no sul da França se geraria a brilhante cultura trovadoresca que, para comprovar a derivação, se alia ao desabrochamento do espírito municipal naquelas bandas.(122) Mais uma vez o amor à terra se traduz no Ocidente pelo amor do ritmo. É sempre o pequeno dolicóide afirmando a sua profunda capacidade criadora. E a tese que invoco da filiação do provençalismo nos recursos emotivos da alma galaico-lusitana atesta em público e raso, como ninguém, a mentira que cinge a raça portuguesa a um anonimato desprezível, considerando-a como um rebanho humilhado de ilotas.
Não descorajemos por isso! Mora connosco desde o começo a força de uma pátria e o poder invencível de uma tradição. O tremendo eclipse que pesa sobre nós, tal como a tremenda noite Cathulada da Fábula, não é senão o castigo que nos pertence sofrer pelo abandono a que largámos o que era nosso e com tanto custo o ganháramos, tão depressa nos chamaram da margem com qualquer improviso de contrabando. No momento em que os reformismos de Mouzinho da Silveira repeliam por inúteis as instituições características do País, Lafayette propunha entre os seus a adopção do nosso regime concelhio. As consequêcias do desvio padecido medem-se bem pelos poucos passos a que estamos de um precipício sem remédio. Para sermos povo, o Lusitanismo nos ensina que não precisamos de pedir licença à Espanha. Para nos governarmos em harmonia com a nossa natureza, não [p. 173] são as panaceias dos mil e um profissionais da Salvação-Pública que nos hão-de conceder a finalidade obliterada e sem a qual escusado é pensarmos em seguir caminho. Uma outra mentalidade, felizmente, acorda para o mundo, já farto de subjectivismos subversivos, que, inculcando-se como redentores da velha dor humana, só a aumentaram e exacerbaram, roubando-nos ainda por cima os infinitos reforços morais da alma rijíssima de antigamente. Mostra-nos bem a mudança que vai nos tempos o inquérito aberto por Agathon entre a população escolar francesa, com depoimentos dos nomes literários mais recentes. Les jeunes gens d’aujourd’hui, confessando-nos uma mocidade nobremente limpa de gafas ideológicas, é um livro que fica marcando o formidável ciclo de ordem que ora se estreia.(123)
O culto da Disciplina cativa a juventude. São os melhores ditames do positivismo que a atiram para a Fé e para a Pátria. Não é de fórmulas negativas que a existência se abastece. Sem crer não se pode querer! A este estado de espírito das gerações que sobem se refere Gustave Le Bon no volume La vie des vérités, acabado quase de publicar. «L’évolution de la jeunesse» – comenta o ilustre sociólogo – «est fort sensible. Ayant vu la patrie traverser des heures très sombres et les ruines matérielles et morales s’accumuler chaque jour, comprennant vers quels abîmes conduisaient les négateurs et les destructeurs, elle s’écarte d’eux et réclame d’autres maîtres. Aux métaphysiciens stériles, elle oppose les réalités, la vie et la nécessité de l’action. Sortie des livres, elle regarde le monde. L’observation des peuples qui s’étaignent lui montre quelles irrémédiables décadences engendrent l’affaissement des caractères et les chimériques tentatives de bouleversements sociaux.»(124)
Nós, os da ala portuguesa recém-chegada, somos singularmente fotografados nas linhas transcritas. Num punhado de palavras, como esse, se [p. 174] conglobam os motivos íntimos do nosso conservantismo, todo ele feito de experiência histórica. Os destinos ameaçados da courela querida da Pátria dependem do grau de consciência colectiva a que nos saibamos elevar. Dissolvida, sem resíduos de valor sensível, a ideia da Nacionalidade carece de se reelaborar com fundamentos apoiados na razão inviolável de nós mesmos, que é o nosso determinismo. Insiste-se mais uma vez que não é a excelência abstracta dos Princípios a norma que mais seguramente nos convém. Com modéstia resignamos os vôos descompassados da Utopia, para nos restringirmos às indicações do ambiente familiar que nos conformou. Não descendemos dos Direitos-do-Homem. Somos apenas inteligências esclarecidas pelas páginas da Portugália.
Só as certezas conseguirão indireitar-nos para uma existência cheia de dignidade e de significação. A certeza da Raça interessa-nos mais que nenhuma outra. Ninguém se mete a andar sem ter confiança em si. Se não acreditamos em nós como povo, não serão as oratórias engasgadas dos tribunos a cifra mágica que nos há-de emprestar o sopro de milagre que fez levantar o paralítico. Foram mais funestas de que se julga as consequências do cepticismo de Oliveira Martins. A cobiça unilateralista do vizinho cita-lhe passagens inteiras para se autorizar. Em nossa casa, os vencidos e os inúteis, para escusarem a sua impotência, glosam-na com grandes ares, aconselhando-nos o suicídio. Ah, as criaturas sorvadas, de aparência brunida, mas com farelo lá dentro, tal como os frutos que Chateaubriand apanhou nas ribeiras do Mar do Sal! No entanto, a flama arde direita e intacta no coração da mocidade. O dia de amanhã estará connosco – connosco que sentimos nas veias a revivescência admirável do Luso que desfalece, mas que nunca se rende. Misticismo? Sim, misticismo – misticismo étnico, misticismo histórico, como o que convulsionou os Balcãs, como aquele que do germano incompleto e dispersivo extraiu a obra incomensurável de Bismarck!
[p. 175] Teófilo, preocupado com o valor da Raça, substituiu um dia ao elemento Autoridade da síntese sociológica de Comte o elemento População. No cabo, População e Autoridade, como os Concelhos e o Rei, são partes de um todo que se sinonimizam e identificam – a primeira à raiz, a segunda ao alto. Da parcialidade em que Teófilo encarou o problema, sem que uma visão mais vasta lho figurasse em conjunto, nasceu o equívoco que é a causa da divisão enfurecida em que Portugal se confrange e degladia. A nós, pelo contrário, foi a População quem nos levou ao encontro da Autoridade.
Em nome do Luso se praticam os maiores atentados à integridade do património que o Luso nos ganhou. Pois em nome do Luso eu não sei, para terminar, de palavras mais exactas que as de Teófilo n’A Pátria Portuguesa. «Neste templo do sentimento da Pátria portuguesa», escreve, «vê-se claro que os vendilhões levam o descaro até se apoderarem do azorrague com que deveriam ser expulsos. O tempo não está para dispender energias em resultados negativos. Quem tiver consciência do dever oriente os seus esforços pelo sentimento da Pátria.»(125)
Seja assim, mas com outro sentido – com o verdadeiro, e ficará tudo certo!
Setembro-Outubro, 1914.
Índice
A Verdade Portuguesa
A hipótese do Homo-Europaeus
O génio ocidental
O espírito da Atlântida
A Teoria da Nacionalidade
Integralismo Lusitano
[ ERRATA
A precipitação com que este livro foi impresso fez com que escapassem à revisão alguns erros de menor importância. São todos da natureza daqueles de que o nosso bom D. Francisco Manoel de Melo dizia que o leitor por si mesmo os castigava. Valendo-nos desse padrinho, não nos cumpre senão deixar lealmente o aviso. ]
Notas de António Sardinha
1. Paul Guiraud, Fustel de Coulanges, Paris, Hachette, 1895, p. 266.
2. Fonseca Cardoso, «Antropologia portuguesa», in Notas sobre Portugal, vol. I, Lisboa, 1908, pp. 70-72. Ricardo Severo, Origens da nacionalidade portuguesa, Lisboa, 1912, pp. 29-32.
3. «Le mirage oriental», in Chroniques d’Orient, deuxième série, Paris, 1896, pp. 535-536.
4. Obr. e vol. cit., p. 565.
5. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., p. 518.
6. Obr. e vol. cit., pp. 516 e 521.
7. Obr. e vol. cit., p. 511.
8. Obr. e vol. cit., pp. 512 e 513.
9. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., pp. 512 e 513.
10. Vid. toda a obra de Martins Sarmento, principalmente: «Ora Marítima, Os Argonautas e A arte micénica no noroeste de Hispania», in vol. I da Portugália. Aos trabalhos de Martins Sarmento me encosto quando não documente as afirmações que haja de fazer.
11. Salomon Reinach, obr. e vol. cit., p. 533, e Le Hon, L’homme fossile, citado a p. 22, nota, do livro Estúdios sobre la época céltica en Galicia, por D. Leandro de Saralegui y Medina, 3.ª edição, Ferrol, 1894.
12. Salomon Reinach, obr. cit., pp. 529.
13. Estácio da Veiga, Antiguidades monumentais do Algarve, t. IV, cap. VII; e Ricardo Severo, Origens da nacionalidade portuguesa, pp. 26 e 27.
14. Charles Hevraud, La France de demain. Celle qu’on nous offre. Celle qu’il nous faut, Paris, Librairie Académique Perrin, 1911, pp. 352-361.
15. Charles Heyrand, obr. cit.
16. Cardeal Manning, Les raisons de ma croyance, notas do tradutor E. Peltiei, huitième édition, Bloud & Cie., 1913, pp. 48 a 51.
17. Les illusions du progrés, Paris, Marcel Rivière, deuxième édition, pp. 50.
18. L’eau du mer, milieu organique, deuxième édition, Paris, Masson, 1912, p. 435.
19. A. de Lapparent, Les silex taillés et l’ancienneté de l’Homme, Paris, Bloud, 1909, p. 22.
20. A. de Lapparent, obr. cit., p. 50.
21. Vid. a obra citada de Lapparent, pp. 55-71.
22. René Quinton, obr. e pp. cit.
23. René Gilluin, La philosophie de M. Henri Bergson, Paris, Grasset, 1912.
24. René Quinton, obr. cit.
25. René Quinton, obr. cit., p. 436.
26. Gustave Le Bon, La naissance et l’evanuissement de la Matière, Paris, Mercure, 1908.
27. Paris, Librairie Plon.
28. Vacher de Lapouge, L’Aryen. Son rôle social, Paris, Fontemoing, 1899.
29. Vacher de Lapouge, obr. cit.
30. Vacher de Lapouge, obr. cit.
31. A. de Paniagua, Les origines celtiques, Paris, Dujarric, 1909, p. 4.
32. Cultes, Mythes et Religions, deuxième edition, tomo 3, cap. XXI, Paris, Leroux, 1913, pp. 338-342.
33. R.P. Don Besse, Les religions laïques, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1913, pp. 38-45.
34. Obr., tom. e cap. cit.
35. «La Religion est un produit de l’homme normal, et l’homme est plus dans le vrai quand il est plus religieux et plus assuré d’une destinée infinite.»
36. Fonseca Cardoso, in Notas sobre Portugal.
37. Idem.
38. Comunicações da Comissão dos Trabalhos Geológicos de Portugal, Tomo II, Fase 1, 1888-1889.
39. Origens da Nacionalidade Portuguesa, p. 16.
40. L’Europe Préhistorique, tradução de Emmanuel Phillipot, Paris, Lamarre.
41. António de Matos Cid, A gente portuguesa, Coimbra, 1904, p. 30.
42. A.J. Reinach, nota ao estudo La question d’Homère, de A. Van Gennep, Paris, Mercure de France, 1909.
43. Teófilo Braga, História da Literatura Portuguesa, I. Idade-Média, Porto, 1909, p. 14.
44. Diodoro da Sicília, Bibliothéque historique. Edição Ferd. Hoefer. Tomo I, p. 242 e seguintes. Paris, Hachette, 1912. Martins Sarmento,«Os Atlantes de Diodoro Sículo», in volume 1 da Revista de ciências naturais e sociais, Porto, 1890.
45. Pierre Paris, Essai sur fart et l’industrie de l’Espagne primitive, Paris, Leroux, 1904.
46. Geographie de Strabon, trad. Amadée Tardieu, volume l, livro III, Paris, Hachette, 1909.
47. António dos Santos Rocha, Materiais para o estudo de idade do cobre em Portugal, Figueira da Foz, 1911, pp. 11 e seguintes.
48. Teófilo Braga, Romanceiro geral português, volume III, notas, Lisboa, 1909.
49. D. Carolina Michaëlis, in Revista Lusitana, ano II, p. 237.
50. «La religion des Celtes», capítulo do livro Christus, de Joseph Huby, Paris, 1913, p. 412.
51. Heródoto, Histoires, livro IV, 4, 152, tradução de P. Huguet, Paris, Hachette, 1913.
52. René Dussaud, Les civilisations pré-helléniques dans le bassin de la Mer Égée, deuxième édition Paris, Paul Geuthner, 1914, p. 437.
53. René Dussaud, obr. cit., p. 439.
54. René Dussaud, obr. cit., p. 447.
55. «Comentário ao espólio dos dolméns do concelho de Vila Pouca de Aguiar», vol. I da Portugália.
56. Joseph Huby, Christus, manuel d’histoire des religions, Paris, Beauchesne, 1913, p. 436.
57. Joseph Huby, obr. cit., pp. 415.
58. Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, vol. II, p. 103.
59. Joseph Huby, obr. cit., p. 416.
60. Suetónio, «Galba», IX, Oeuvres, tradução de la Harpe, Paris, Garnier, 1893.
61. Claro que eu considero apenas a linha teórica das migrações do homem loiro. Nem todos os desse ramo antropológico se passaram à Ásia. Inúmeros bandos ficariam em vagabundagem pelo norte europeu. Eis porque a tradição faz descer os Celtas do país dos Hiperbóreos. Segundo Amiano Marcelino (XI, 9), teriam vindo ab insulis extremis et tractibus transrhenanis. Já Jornandes chamava à Terra dos Godos, no sul da Escandinávia, vagina nationum, officina gentium. Dos núcleos que permaneceram na Europa tiraram reforço ao depois as assolações arianas, vindas do Oriente.
62. A. Van Gennep, La question d’Homère, Paris, Mercure, 1909, pp. 27-32.
63. A. Van Gennep, obr. e p. cit.
64. Salomon Reinach, Le mirage oriental, p. 159, na 2.ª série do livro Chroniques d’Orient.
65. Salomon Reinach, vol. e p. cit.
66. Cours de littérature celtique, Tomo IV, Paris, Fontemoing, 1899.
67. Episódio referido por Martins Sarmento em mais de uma monografia.
68. Salomon Reinach, obr. cit., p. 554.
69. História de literatura portuguesa, I. Idade-Média, p. 21.
70. L’Aryen. Son rôle social, p. 21.
71. Vacher de Lapouge, obr. cit., pp. 16-23.
72. História da Literatura Portuguesa, I, Idade-Média, p. 14.
73. I.M. Pereira de Lima, Iberos e Bascos, Paris-Lisboa, Livraria Aillaud, 1902, pp. 49-75. Pierre Termier, L’Atlantide. Revue Scientifique, n.º de 11 de Janeiro de 1913.
74. Ideia geral dos efeitos do megasismo de 1755 em Portugal, Lisboa, 1914, p. 14.
75. Le Maroc physique, p. 20.
76. Obr. cit., pp. 19-20.
77. Obr. cit., p. 29.
78. Obr. cit., pp. 30-31.
79. Pereira de Lima, obr. e p. cit.
80. Publicado em Amsterdam em 1680 e reproduzido em 1881 em Madrid por edição limitada de Santiago Pérez Junquera.
81. De Francisco de Sousa, ano de 1570. Edição limitada, feita em Ponta Delgada no ano de 1884. Prefácio de João Teixeira Soares de Sousa.
82. Bernardino José de Sena Freitas, Memória histórica sobre o intentado descobrimento de uma suposta ilha ao norte da Terceira, Lisboa, Imprensa Nacional, 1845.
83. Pereira de Lima, obr. e pp. cit.
84. Pereira de Lima, obr. e pp. cit.
85. Salomon Reinach, Chroniques d’Orient, p. 554.
86. Salomon Reinach, obr. cit., p. 527.
87. Salomon Reinach, obr. cit., p. 532.
88. É a migração personificada na fuga de Eneias.
89. Histoire ancienne des peuples de l’Orient, onzième édition revue, Paris, Hachette, 1912, pp. 368-376.
90. Obr. e p. cit.
91. Maspero, obr. cit., p. 285 e seguintes.
92. Salomon Reinach, obr. cit., p. 156.
93. Idem, p. 552.
94. Joseph Huby, Christus, p. 408.
95. Salomon Reinach, «Oiseaux et svastikas», in Cultes, mythes et religions, tom. II, p. 234-249.
96. Anedoctas de Elvas, coligidas pelo corregedor Mendonça, p. 9, Elvas, 1913.
97. Ora marítima, versos 154-157, ed. Martins Sarmento, l.ª edição, p. 74.
98. Salomon Reinach, obr. cit., tomo III, cap. XX, pp. 332-337.
99. Salomon Reinach, obr. cit., tom. I, cap. XII, pp. 146-156.
100. Vacher de Lapouge, Râce et milieu social. Essais d’Antropo-sociologie, Paris, Marcel Rivière, 1909, p. XX.
101. Paris, Fontemoing, 1896, p. 71.
102. História da Literatura Portuguesa, II, Renascença, Porto, Livraria Chardron, 1914, p. 45.
103. Mendes dos Remédios e tantos fazedores de compêndios oficiais.
104. Vid. Divisão duodécima na Dedução cronológica e analítica.
105. Georges Deherme, Le pouvoir sociale des femmes, Paris, Perrin, 1914, p. 2.
106. Georges Deherme, obr. cit., p. 50.
107. La dépendance de la Morale et l’indépendance des Moeurs, Paris, Mercure de France, 1907, p. 270.
108. Teófilo, «Mestre da Contra-Revolução», parte II. Estudo em publicação na revista de filosofia política Nação Portuguesa.
109. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1908. Separata dos Anaiss da Academia Politécnica do Porto.
110. Tomo II, pp. 459-472. Estudo de Tude M. de Sousa.
111. Vacher de Lapouge, Race et milieu social, p. XIII.
112. Obr. cit., p. XIII.
113. Obr. cit., p. XIII.
114. Obr. e p. cit.
115. Os Argonautas, Porto, 1887, p. 223.
116. História da Literatura Portuguesa, I. Idade Média, p. 62.
117. Les origines celtiques, p. 16.
118. Martins Sarmento, Les lusitaniens, Lisboa, 1880, p. 29, nota.
119. Histore ancienne des temples de l’Orient, p. 374.
120. Os varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais, Paris, 1859. Transcrição de L.A. Palmeirim a p. 28, do livro Portugal e os seus detractores, Lisboa, 1877.
121. Lisboa, Livraria Clássica Editora, pp. 105-106.
122. Discursos leídos ante la Real Academia Española en la recepción pública del señor D. Julián Ribera y Tarragó, Marid, 1912.
123. Paris, Librairie Plon, 1913.
124. Paris, Flammarion, 1914, p. 2.
125. Porto, Chardon, 1894.
Relacionado
- 1899-1908 - Portugalia - materiais para o estudo do povo português
- 1914 - Teófilo, Mestre da Contra-Revolução
- 1917 - Do valor da Tradição.
- 1922 - "Porque Voltámos", Nação Portuguesa, 2ª Série, nº 1, Julho de 1922, pp. 1-5.
- 1923 - Olhando o Caminho, Janeiro de 1923 (Prefácio a Ao ritmo da ampulheta, 1925, pp. XI-XXVII).
- 1924 - Ao princípio era o Verbo.
- - O Sul contra o Norte