ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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Carlos de Mesquita

António Sardinha

Homenagem a Carlos de Mesquita - Trajetória Intelectual e Legado
  • Introdução. Carlos de Mesquita é apresentado por António Sardinha como uma figura marcante e singular, cuja morte lhe deixou um impacto profundo e doloroso. Sardinha relembra o mestre que foi o primeiro a influenciar o seu espírito, destacando a semente reaccionária que Mesquita depositou nos seus entusiasmos juvenis. Por meio de Mesquita, Sardinha conviveu com ideias críticas sobre a Revolução Francesa e reconheceu o tradicionalismo latente em si.
  • Influência Intelectual e Formação. Sardinha descreve como, guiado por Carlos de Mesquita, entrou no universo intelectual de Hippolyte Taine e enfrentou as desilusões trazidas pelo tempo, especialmente no contexto das suas próprias convicções republicanas. A verdade revelada por Mesquita tornou-se fundamental na sua evolução pessoal, levando-o a reconhecer o mestre como responsável pelas certezas que o salvaram em momentos de crise.
  • Perfil e Cultura de Carlos de Mesquita. Apesar de ter passado despercebido entre os seus contemporâneos, Mesquita possuía uma das mais extraordinárias culturas de Portugal. Comparado a Amiel, sofreu com o pessimismo intelectual e o conflito entre a sua sensibilidade latina e a formação analítica. Este conflito levou-o ao isolamento, mantendo-se distante das mediocridades da sua época. A sua trajetória foi marcada pela renúncia e pela incapacidade de encontrar satisfação nas atitudes epicuristas de Ernest Renan, resultando na tragédia de uma inteligência superior.
  • Contribuições Literárias. Mesquita esteve ligado às origens do movimento simbolista em Portugal, tendo publicado poesias que refletem temas como o pecado de Madame Bovary e o declínio das grandes cidades. Considerado o teórico de uma nova literatura, contribuiu também com ensaios psicológicos e estudos sobre o romantismo inglês, além de ter abordado as influências domésticas e sociais em romances ambientados no seu arquipélago natal.
  • Pessimismo e Ironia. O pessimismo constitucional de Mesquita é revelado em episódios como o seu desalento diante da botânica, quando percebeu que o fruto não existe para servir ao homem. Sua ironia era dolorida e autorreferencial, castigando-se antecipadamente e limitando o seu interesse literário aos grandes nomes como Schiller, Byron e Goethe, desprezando todo o resto como evidência da decadência do gosto e da cultura.
  • Legado e Últimas Reflexões. A homenagem feita por Sardinha é marcada pela admiração e respeito à renúncia de Mesquita, reconhecendo que sua vida, vivida sem glória ou infâmia, não se enquadra na categoria dos indiferentes mencionados por Dante. Ao contrário, a trajetória de Mesquita é vista como uma porta aberta para Deus, desde que o homem não tente exigir da inteligência aquilo que apenas o coração pode oferecer.
  • Resumo. António Sardinha presta homenagem a Carlos de Mesquita, destacando a sua trajetória intelectual marcada pelo pessimismo, renúncia e profunda ironia. Reconhecido pelos seus estudos literários e ensaios, Mesquita é aqui lembrado como um individualista que se manteve fiel às suas convicções, mesmo diante da decadência cultural que percebia ao seu redor. A sua vida, vivida sem glória nem infâmia, é apresentada como exemplo de integridade e sensibilidade.



​CARLOS DE MESQUITA
Eu não me quero demorar sobre mim mesmo a refletir da dolorosa surpresa em que me deixou a morte de Carlos de Mesquita. Volto os olhos para trás e na viagem de saudade lembro o que foi para mim essa estranha figura em que hei-de sempre venerar o primeiro mestre que o meu espírito conheceu. Devo-lhe a boa semente reacionária que, menino e moço que eu era ainda, a palavra cansada de Carlos de Mesquita depositou com tato nos entusiasmos fáceis dos meus dezoito anos. Pela mão de Carlos de Mesquita eu convivi Taine no seu formidável libelo contra a França da Revolução. Existia dentro de mim um tradicionalista confuso, mais de instinto que de consciência. Por tradicionalismo me atirei com estouvamento romântico para as quimeras deprimentes da ideologia republicana. A minha fé na república moldava-se na fé ingénua de Henriques Nogueira, pois nascia do meu amor à terra e do reconhecimento apaixonado da natureza municipalista da nacionalidade. Anos andaram trazendo consigo uma desilusão angustiosa. Na hora máxima da crise veio à flor a verdade que insensivelmente eu receber de Carlos de Mesquita. A Carlos de Mesquita saúdo por isso, ao vê-lo desaparecera na sombra indecisa em que tudo se esbate, como o preceptor dedicado da minha sinceridade, que, se teve certezas para se salvar, a ele enternecidamente as agradece.
Some-se Carlos de Mesquita como um ignorado entre os ignorados. No entanto Carlos de Mesquita, vítima da sua própria superioridade, marcou em si talvez a mais extraordinária cultura de Portugal das últimas gerações.
Carlos de Mesquita é da linhagem de Amiel. Sofreu o mais profundo dos pessimismos intelectuais, aprendendo como o seu camarada de Genebra que a análise, como um veneno subtil, asfixia a espontaneidade e desfaz a ação. Em Carlos de Mesquita verificaram os poucos de quem a sua mentalidade desdenhosa se aproximava esse mal da vontade, que é o mal de Renan. «Se Napoleão fora tão crítico como eu não daria nunca o golpe do Brumário», comentava com negligência elegante o cético de La vie de Jésus. Infelizmente para Carlos de Mesquita, o seu temperamento não lhe permitia ser um andador dos jardins da filosofia. O criticismo insatisfeito vedou-lhe as atitudes sibaritas de Renan, e nas intimidades do seu pensamento ficou apenas a tragédia da sua inteligência maior. As tragédias que uma rica índole literária, como se manifestava a de Carlos de Mesquita, pode porventura padecer.
Eu desejo unicamente fixar na exiguidade de umas linhas traçadas de fugida a fisionomia inconfundível do professor e do amigo que a minha emoção hoje recorda diante de um corpo frio, para lhe enviar daqui as despedidas derradeiras.
Carlos de Mesquita foi para mim o contrário de M. Bouteiller do romance de Barrès. Educou-me. E nos Torturados de Manuel da Silva Gaio alguma coisa se guarda da sua personalidade de Vencido na complexa e desencontrada psicologia de Carlos da Mota. De facto em Carlos de Mesquita o interesse pelas ideias e pelas formas, levou-o em arte à conclusão negativa do Eclesiastes. Para quê? Para quê? E Carlos de Mesquita, nas necessidades de criar que lhe subiam no sangue e lhe queimavam o cérebro, não tinha para si senão o enfado daqueles que um grande orgulho mental sepulta na insaciabilidade do seu próprio esforço. Carlos de Mesquita foi decerto um Ecce-Homo de si mesmo. Que profundo poder de destrinça o não dotava, como ao mais cotado dos psicólogos contemporâneos!
Esse poder de destrinça o matou. Não resistiu – como Amiel não resistiu também – ao conflito das exigências latinas da sua sensibilidade com todo o vício analista da sua formação filosófica. Como Amiel, viveu isolado por altivez de espírito e por defesa aristocrática numa era crescente de submediocridades sórdidas.
Mas se em Amiel eu encontro o seu irmão mais velho, Carlos de Mesquita não nos legou, contudo, nem o testamento do seu coração, nem o elogio fúnebre da sua vontade. Suicidou-se com mais dignidade, porque não quis que os outros lhe penetrassem a agonia lenta em que ele manteve para consigo a indiferença marmórea de Marco Aurélio, ao anoitecer do mundo antigo.
Carlos de Mesquita herdou o nome de uma das mais velhas famílias insulanas. Remontava aos tempos da colonização o estabelecimento dos seus nos Açores. O seu ambiente íntimo, fidalgo e bem disciplinado na fidelidade a Deus e ao Rei, representou o único ponderador que a fúria analítica de Carlos de Mesquita se dignou aceitar – e aceitar com gosto.
A Carlos de Mesquita se prendem as origens do movimento simbolista entre nós. Nas páginas do Instituto, estampou Carlos de Mesquita um pequeno número de poesias, interessantes para ressuscitar.
Em uma delas passa o pecado de Madame Bovary – inflama-se na outra um poente de incêndio, com as babilónias modernas ardendo no fogo da sua depravação. Cito de memória, receio errar no detalhe. Não erro, porém, afirmando que Carlos de Mesquita, então estudante, mas já possuidor da cultura que o veio a notabilizar, se considerava por essa altura como o teórico da nova anunciação literária, espécie de Charles Maurice coimbrão. Depois, já professor num liceu discreto da província, Carlos de Mesquita atirou para as colunas de uma revista de Viseu, a Ave Azul, com dois ou três trechos em verso, o pedaço de um romance que nunca concluiu. Desenrolava-se a ação numa das pequenas ilhas do seu arquipélago natal, e suponho não me enganar, como um estudo das influências domésticas e sociais que Carlos de Mesquita experimentara.
É de Carlos de Mesquita igualmente um ensaio psicológico sobre Manuel da Silva Gaio. E, já regendo letras na Universidade de Coimbra, da sua pena arrastada saiu o trabalho que lhe conhecemos acerca do romantismo inglês.
Um ligeiro episódio que se aviva agora na memória define bem o pessimismo constitucional de Carlos de Mesquita. Contou-me ele uma vez que, no reconhecer em botânica que o fruto não se formava para ser fruto e como tal destinado ao homem, sentia em si um desalento mortal seguido de um travo que nunca mais o abandonou pela existência fora. A esse requintado individualista custava-lhe, como carne da sua carne, o fim da miragem antropocêntrica, que a simples noção botânica do fruto lhe denotava, mas a cujos restos se conservaria obstinadamente agarrado, enquanto a análise lhe não demitisse as forças por completo.
Carlos de Mesquita possuía a ironia dolorida dos que a si próprio se ironizam. Castigava com o sarcasmo ensanguentado dos que se castigam antecipadamente. Por isso, de assuntos de literatura nada lhe atraía a atenção para cá de Schiller, de Byron, de Goethe. A literatura ficava-se aí.
Tudo o mais, inutilidades sem honra, proclamando bem alto a decadência do gosto e da cultura!
São estas as homenagens que desfolho sobre a pedra tumular de quem, como Carlos de Mesquita, é o maior dos credores da minha admiração. Desnudei-o um pouco na soberania da sua renúncia porque ele sabe bem, na claridade augustíssima a que se elevou, que é mais por mim – pela mágoa recolhida da minha evocação – do que pela impertinência pomposa do elogio oficial, que eu lhe recordo um momento a estranha figura perante o olhar parado da publicidade.
Ficarei contente comigo, sem que tenha comprometido aquele decoro que eu seria o primeiro a fazer respeitar. Viveu Carlos de Mesquita sem glória e sem infâmia. Mas Dante não o atiraria no seu poema para o lado dos que sem glória e sem infâmia viveram a vida.
Como Carlos de Mesquita a viveu, é a porta aberta para Deus, sempre que o homem não peça à inteligência aquilo que só o coração lhe pode dar. 

​10.05.1916. 

António Sardinha
 

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]