No jardim da Raça
António Sardinha
RESUMO
Este texto reflete sobre o livro Pão alheio de Luís de Almeida Braga, destacando a sua profunda ligação com a geração do autor e o conflito entre ação e pensamento. A obra é vista como um roteiro emocional, um compêndio de "exercícios espirituais", expressão de um novo misticismo, valorizando a tradição, a espiritualidade e o sentido de serviço coletivo, além de ressaltar o papel do autor como futuro novelista capaz de honrar a herança literária portuguesa.
A espiritualidade e a tradição na literatura portuguesa contemporânea
- O Drama de uma Geração. O texto de António Sardinha parte de um sentimento de proximidade com o livro "Pão alheio", de Luís de Almeida Braga, identificando nele o drama de uma sensibilidade que representa toda uma geração. Sardinha sugere que essa geração descende diretamente da "fraqueza generosa" de Gonçalo Mendes Ramires, personagem de Eça de Queirós, e que, tal como ele, vive o conflito entre ação e pensamento. O autor vê no livro de Braga uma espécie de roteiro emocional e espiritual, um percurso de exercícios internos que refletem o desejo de equilíbrio entre vida, disciplina e serviço coletivo.
- A Afinidade com Gonçalo Mendes Ramires. Sardinha destaca a ligação entre o protagonista de Eça e os jovens de sua época, especialmente na busca por reconciliação interior e pelo despertar de uma energia adormecida. O conflito entre inteligência e irresolução é recorrente, mas a obra de Braga antecipa uma geração capaz de superar essa hesitação, alinhando as suas tendências mais profundas com a ação concreta.
- A Concordância entre Ação e Pensamento. O texto sublinha o valor do livro de Braga ao revelar a harmonia entre ação e pensamento, algo considerado por Taine como impossível. O "Pão alheio" é descrito como um itinerário de emoções, onde o amor à disciplina supera a melancolia romântica, e a vida é vivida com equilíbrio e atualidade, sem o escapismo dos românticos ou dos decadentes. Para a geração do autor, a vida é utilidade nobre, um serviço ao destino coletivo, e não um exercício de estilização ou desperdício.
- O Serviço Coletivo e o Sentido de Missão. Sardinha salienta que a maior aspiração de sua geração é servir, em contraste com o grito rebelado do passado. O momento de crise nacional reforça o gosto pela ordem e pela reconstrução do lar em ruínas, evocando jornadas de sacrifício e superação. A geração é marcada por uma vontade fortalecida pela crença, resultado de duras experiências e agonia existencial.
- A Personificação da Geração: O Filho de Ramires. A inquietação espiritual que permeia "Pão alheio" é vista como expressão da força misteriosa do destino coletivo. Sardinha imagina a novela da sua geração intitulada "O filho de Ramires", sintetizando a consciência de uma vocação a cumprir, a unidade entre corpo e alma e a superação de obstáculos históricos.
- O Processo de Maturação e Reconciliação. Sardinha narra o regresso de Gonçalo Mendes Ramires, o seu casamento e amadurecimento, simbolizando a reconciliação com a cultura do caráter e a afirmação de uma nova geração. O jovem Ramires herda a angústia existencial do pai, vivendo o conflito entre tradição e ideias modernas, e busca uma solução na mística revolucionária, sempre reagindo com sede de absoluto e necessidade de construção.
- O Encontro da Verdade Portuguesa. Ramires, ao enfrentar desafios e provações, encontra finalmente a verdade portuguesa, unindo ação e pensamento na superação de crises pessoais e nacionais. A finalidade alcançada por Ramires é apresentada como o vínculo que une e fortalece a geração, amadurecida pelo peso da responsabilidade.
- Luís de Almeida Braga: Exemplo de Superação e Tradição. Sardinha reconhece em Luís de Almeida Braga uma ilustração viva dos valores defendidos, alguém que percorreu caminhos difíceis e, mesmo no exílio, manteve viva a ligação à terra natal e à tradição portuguesa. O símbolo da capa do livro reforça a ideia de continuidade da raça, evocando a cruz e a armila como sinais identitários.
- A Educação Sentimental e a Pedagogia da Personalidade. Sardinha distingue a educação sentimental presente em Luís Braga do modelo flaubertiano, valorizando uma pedagogia da personalidade, onde se conciliam entusiasmo e serenidade. Luís Braga, atento aos sacramentos da tradição, despreza modismos e busca a espontaneidade da vida vivida, ao invés de analisada.
- Teoria de Arte e de Vida. Luís Braga defende que sentir é melhor que compreender, propondo uma união perfeita entre pensamento e ação, que evita tanto a secura crítica quanto o artifício da antologia. Sardinha celebra essa diferença em relação aos românticos, valorizando a realidade espiritual como expressão da individualidade e aceitação dos limites pessoais e hereditários.
- Tradição como Continuidade e Atualidade. A tradição, para essa geração, não é um ponto imóvel no passado, mas uma continuidade renovada, vivida e experimentada como substância cotidiana. Sardinha reforça o papel de Luís Braga como guardião da "semente portuguesa", alguém que pertence ao mundo inquieto do atavismo e assume o dever de expressar os anseios coletivos.
- O Legado Literário e a Esperança no Novelista. Luís de Almeida Braga é visto como potencial novelista, descendente de grandes nomes da literatura portuguesa, e capaz de revitalizar a herança abandonada de Camilo. Sardinha sugere que o romance não é a vocação nacional, mas sim a novela, género criado por portugueses e que encontra em Luís Braga o representante esperado para levantar com honra essa tradição.
- Espiritualidade, Serviço e Renovação da Identidade Nacional. Em síntese, António Sardinha apresenta "Pão alheio" como um compêndio de exercícios espirituais, revelador de um novo misticismo e expressão da unidade entre aspiração individual e destino coletivo. Luís de Almeida Braga é exaltado como um dos melhores representantes da sua geração, capaz de honrar e renovar a identidade nacional pela literatura, mantendo viva a tradição e o sentido de serviço.
NO JARDIM DA RAÇA
Eu tenho para com o belo livro de Luís de Almeida Braga, chegado agora no renovo de abril, um sentimento familiar, uma ideia de parentesco. Mais que do seu autor, há́ no Pão alheio todo o drama duma sensibilidade, que é a sensibilidade da minha geração. Nós viemos em linha recta da fraqueza generosa de Gonçalo Mendes Ramires. E se alguém, lá mais para diante, pensar em escrever a novela do nosso esforço, eu creio que lhe chamará com verdade o filho de Ramires!
Pois o Pão alheio, de Luís de Almeida Braga, marca bem a afinidade que nos liga de perto ao fidalgo perplexo do romance de Eça. No fundo da Torre, da solarenga torre de Santa Ireneia, com as tardes lentas de junho subindo por entre o aroma dos cravos, Gonçalo Mendes Ramires sentia a miséria da sua vontade, comparada com a vontade poderosa de quantos varões ilustres lhe bracejavam pela genealogia farta. A pouco e pouco, arrastando os episódios mesquinhos duma vida sem finalidade, ele descobre adentro de si a energia escondida de uma raça que adormecera. Debatia-se cruelmente no conflito da sua inteligência com a sua irresolução. Marchar, mas para onde? E os dias passavam, passavam os anos. A hesitação continuava, cada vez mais aguda, cada vez mais perseguidora. No entanto, desde a hora em que Gonçalo Mendes Ramires se reconciliou consigo mesmo, nós sabemos de que foi capaz o fidalgo da Torre! Do que é capaz a minha geração, uma vez que se ache de acordo com as suas tendências mais ocultas, já de certo modo no-lo deixa entrever o livro de Luís de Almeida Braga.
O livro de Luís de Almeida Braga revela-nos essa concordância da Acção com o Pensamento, que o velho Taine julgava impossível. É a característica que mais o distingue e nobilita. Eu quero olhá-lo como um itinerário de emoções, como uma espécie de roteiro dum outro René menino e moço, em quem a melancolia romântica cedesse o lugar ao amor enlevado da disciplina. Nós não podemos curvar-nos à imperturbável razão clássica que tudo limita e tudo reduz à objetividade despótica do traço firme e concreto. Não podemos ir também atrás do gosto mórbido da contemplação pelos parques sonolentos do Outono, com os pavões aos gritos e as cascatas lastimando-se. Se ascendêssemos os degraus da Acrópole, não ficaríamos, como Renan, ao flanco duma colina, entoando o louvor eterno de Pallas-Athenea. Nem tampouco nos deteríamos perante as paisagens suspensas do entardecer, com a tristeza lírica do Lago envolvendo-nos num sonambulismo morno de divagações.
Amamos a vida, porque grita e estua dentro de nós. Mas amamos a vida no equilíbrio, na saúde, - na posse dela própria. Amamos a vida, vivendo-a. E vivê-la não é estilizá-la, nem desperdiçá-la. É referi-la a nós mesmos, é dar-lhe um sentido de atualidade e de permanência. Não a colocamos nem no Passado, nem na Imaginação, como a colocavam os avós literários de 1830. Muito menos a passeamos pelos terraços da Decadência, sonhando, em atmosferas de paradoxo e haschich, uma beleza falsa de Paraíso-Artificial!
A vida para nós é uma utilidade. Mas confira-se à palavra utilidade um significado de nobreza. É uma utilidade que não nos pertence e que é preciso servir. Non serviam! - foi o grito rebelado de quantos apareceram primeiro que nós. Servir! - é agora a ânsia mais funda do nosso coração, em que parece frutificar a semente dum misticismo novo. Por isso surgimos no momento máximo duma crise já secular. E logo nos tocou o gosto admirável da ordem, - como que um inesperado instinto de higiene interior e de arranjo social. Ia-se abaixo, num estridor de catástrofe, o património histórico da nacionalidade. Dentro de nós ressuscitou a psicologia ingénua de Petit-Chose, jurando ao desalento da sua trapeira reconstruir o lar em ruínas. Foram diversas as jornadas que nos trouxeram a esta unidade de corpo e alma, que é o segredo da nossa vitória. Uns pegaram em armas e andaram rilhando a côdea dura dos guerrilheiros pelas ribas ásperas do exílio. Outros padeceram a agonia da própria mentira e só à custa de suores de sangue encontraram a sua estrada de Damasco. Hoje, recuperados da hesitação de Gonçalo Mendes Ramires, existe uma vontade em nós, porque em nós existe uma crença.
Não lhes dizia eu que tinha pelo livro de Luís de Almeida Braga um enternecimento familiar? Posso eu lá falar do Pão alheio, sem falar de nós todos? É que no Pão alheio agita-se aquela inquietação de espírito em que todos nós reconhecemos a força misteriosa do mesmo destino, que um dia nos sagrou para irmãos. Há assim em nós o que não havia nos outros: a consciência de uma vocação a cumprir. Eis porque me é agradável supor que a novela da minha geração se chamará ainda O filho de Ramires.
* * *
No regresso de África, Gonçalo Mendes Ramires casaria. Casaria com a Rosinha da quinta das Varandas, com a neta do visconde de Rio Manso... Salvo das intrigas miúdas da politiquice, que o levara à cena vergonhosa de Oliveira, reconciliando-se em público e raso com a bigodeira insolente de André Cavaleiro, o descendente de tantos Ramires ilustres recorre para a cultura do carácter, como que para um segundo batismo. Torna outro da sua concessão em Moçambique. Torna mais homem, menos indeciso. E, caído na doçura do bom solar provinciano, de Gonçalo Mendes Ramires nasceria mais um Ramires, em quem me propus personificar as várias tendências da minha geração.
O moço Ramires traria no sangue a interrogação dolorosa do pai. Marchar, mas para onde? E no acaso dos tempos que correm, cada vez se cavaria mais nele essa luta inapaziguável. As vozes secretas da sua hereditariedade eram de difícil conciliação com a soberania das ideias em voga. Instantes há em que o moço Ramires, refletindo a anarquia intelectual do seu meio, não recua em ir pedir à mística revolucionária uma solução para as dúvidas crescentes que o assediam. Ramires verifica em si uma contradição profundíssima: a contradição do seu temperamento mais íntimo, mais incomunicável, com as mais obedecidas das suas preferências. Não se harmoniza consigo mesmo. Tudo se desfaz à roda dele e debalde se procura enganar com o negativismo das modas filosóficas correntes. Ramires reage sempre. Domina-o uma grande sede de absoluto, uma necessidade salutar de construção. Construir! Mas como e com quê? Não se aluía até aos alicerces a sociedade tradicional? A ordem dos séculos futuros não se anunciava já, como na imagem evangélica, entre trevas insondáveis e ranger de dentes? E diante do moço Ramires o enigma doloroso engrossava desmesuradamente, num desespero em que nada já cabia, senão o desalento daqueles que por si próprios se retiram do mundo.
Um equívoco terrível perdia o nosso Ramires. Nas veias o sangue falava-lhe, e falava-lhe das regras eternas do Tempo e da Vida. Faltava-lhe, todavia, o reconhecimento intelectual dessa verdade subconsciente que lhe dava às vezes alvoroços estranhos. O minuto veio, em que os males da Pátria se declararam irremediáveis quási. Como que tocado por uma inspiração súbita, Ramires vê, Ramires compreende. Havia nele o impulso ancestral da Acção. O pensamento guiador é que o desertava. Não tardaria agora, no rumor da desgraça pública, que pensamento e acção se conjugassem na grandeza duma doutrina reparadora. E aos poucos, pelo preço de provações duríssimas, como semelhantes as não padeceram nunca nenhuns vinte anos mais, Ramires possui-se, enfim, na verdade portuguesa, que é a sua verdade, a verdade da sua carne e a verdade do seu espírito.
Ramires esteve em Chaves. Esteve em Chaves debaixo do sol implacável de Julho, junto a esse escarpado espaldão, em que os rapazes da nossa terra tomaram o caminho esquecido do sacrifício e do heroísmo. Na derrota que o pôs entre a vida e a morte, pelas veredas erradias de Trás-os-Montes, através da noite funda, mais funda à fé́ se lhe amostrou. É que Ramires já não duvidava de si mesmo, porque os seus dias se tinham enchido do significado real duma finalidade. É a finalidade de Ramires vencido o lago inquebrantável que nos prende uns aos outros, como se nos ajuramentássemos sobre a Hóstia e sobre o Cali. E a finalidade de Ramires vencido que há de levar à vitória a geração de Ramires. Descemos cedo ao campo da luta. Mas se uma experiência longa não nos amadureceu, mais do que isso, amadureceu-nos a responsabilidade indeclinável que pesa em nós. Se o prefácio célebre de Bourget no Disciple nos fosse dirigido, nós teríamos respondido nobremente ao apelo desse nosso irmão mais velho!
Luís de Almeida Braga é a ilustração bem viva de quanto afirmo. Dos acasos perigosos de guerrilheiro volveu-se em andador das estradas infinitas. Conheceu precocemente a magoa garrettiana da Saudade. E aonde foi ele dar consigo, para melhor aprender a ser ele próprio, senão à boa terra da Flandres, de algum modo terra portuguesa?! Não se esqueceu por lá, o garboso lusíada, da lareira abandonada, dos horizontes natais, da torre da sua igreja. E eu não sei de símbolo mais alto e mais comovedor de que esse outro, deixado pelo traço sóbrio de Brito e Silva nas capas do Pão alheio! A riba estrangeira desenha-se ao fundo em águas quietas de canal e com moinhos bracejando. Mas enquadra-a um pórtico manuelino, encimado da Cruz e da Armila, que são o «Pelo sinal» da nossa Raça. Também, através da sua sensibilidade de português, pelo sinal da nossa Raça, Luís de Almeida Braga viajou na Flandres, não para ver, mas para evocar. Não se desgarrou, contudo, nas emboscadas tortuosas do impressionismo. Peregrino do Silencio, Luís de Almeida Braga viveu o seu livro com a sua alma e com o seu sangue, -porque a vida vive-se, não se fantasia! Posto a correr as Sete-Partidas do infante D. Pedro, tocaram-no mais as necrópoles caladas do que as quermesses ondulantes dos povos em festa. Comeu o pão alheio, calcando o pó, de rins cingidos e viático pendente. Coordenou assim a sua emoção, ao contacto de gentes que tinham outros mortos e outra paisagem. Educação sentimental, — podia ser o segundo título de livro de Almeida Braga, ou o seu comentário breve, num breve dizer. Não a Educação sentimental de mestre Flaubert, cerrado na sua literatura inteiriça para a intervenção de todo o elemento subjetivo. Mas educação sentimental, pedagogia da personalidade: a educação que Barrés foi aprender na colina inspirada, conciliando a regra com a crepitação, o entusiasmo com a serenidade, a pedra fixa da Ermida com a renovação incessante da Campina.
Luís de Almeida Braga, atento aos sacramentos da Tradição, desprezou os cancelos do jardim de Epicuro e teve um ar de desinteresse para o satanismo, fora de moda, de Baudelaire. O moço de olhos doces, que vira na veiga de Chaves crucificarem-se em ardor e renúncia outros moços como ele, não ignora que a Vida repousa sobre uma base de exaltação, cuja espontaneidade desaparece, desde que a análise entre connosco. Por isso Almeida Braga nos confessa na forma lapidar duma inscrição: «Que importa não compreender quando se sente? Sentir é melhor que compreender, assim como vale mais adivinhar do que saber. A sabedoria mora vizinha do sono. Adivinhar é ter os olhos abertos, postos no céu, entre a luz e as asas. Mais facilmente esquece o coração do que os olhos. Mas eu procuro que a inteligência vá parceira com o amor, porque sinto como é fria a arte onde não há coração» (1). Eis uma teoria de arte que é também uma teoria de vida. Luís de Almeida Braga escreve como um místico viveria. É que existe nele, em verdade, essa união perfeita do pensamento com a acção, sem a qual se cai, ou na secura criticista de que morreu um Amiel, ou num mostruário hirto de antologia, em que o fôlego falece e o artifício predomina. Graças a Deus, nós somos outros, muito outros, nas nossas tendências mais queridas! Não vamos direitos à imaginação, mas vamos direitos à alma. Tal é a diferença que nos distingue dos românticos. Para nós a realidade objetiva é sempre a expressão de uma realidade mais íntima, - a realidade espiritual. Aqui está o motivo por que nos julgamos bem longe do chamado «realismo». Damos largas aos gritos profundos da nossa individualidade. Não concluímos, porém, numa forma abstrata de ideologia porque nos coordena e determina a aceitação dos nossos limites. Personalizamo-nos pelas conquistas do nosso ser individual, enquanto um assentimento voluntário nos integra na sequência dinâmica da nossa formação hereditária. Somos, pois, tradicionalistas. Mas a Tradição não é um ponto imóvel no passado. É antes uma continuidade interminável, renovando-se sempre. Reveste-se, deste modo, de um sentido de atualidade para nós, que a vivemos e a experimentamos como coisa nossa, feita da nossa substância quotidiana.
Não pretendem as minhas palavras servir de anunciação ao Pão alheio. O que eu desejo é destacar no Pão alheio o seu significado profundo de obra de arte. Creio exprimi-lo sucintamente apontando esse belo livro como um admirável compêndio de «exercícios-espirituais». Luís de Almeida Braga ensina o «Sublime» a um tempo sáfaro, que perdeu de todo a noção dos grandes arrebatamentos. E o que ainda mais me sensibiliza, sempre que lhe repasso as páginas estranhas de bruxo batizado, é a unidade serena de aspiração, em que nós reconhecemos, não uma estreita e caprichosa aspiração de vagabundo sibarita, mas a aspiração que nos queima as veias e empresta ao nosso voluntariado de sacrificados o senso superior dum destino, do destino que faltou a nossos pais. Luís de Almeida Braga é na cavalaria da Grey um dos melhores e dos mais esforçados. Ergamo-lo nos escudos, à maneira antiga, como seus pares que somos! De esplendido sangue literário, saboreia-se na sua prosa sem ossos, tão afável como um fio de água correndo, um não sei quê que nos recorda Seiscentos com Manuel Bernardes, contando-nos a lenda dos bailarins, e D. Francisco Manuel de Melo, que também andou por Flandres, fazendo filosofia elegante nos Apólogos dialogais. Eu suponho até que a Carta de guia de casados de minha geração está guardada para a pena de Luís de Almeida Braga! É um pensamento que não me abandona e que eu sinto recreio em cultivar. João de Barros, - o das Décadas, chamou ao Minho o «conservador da semente portuguesa.» É, de facto, o Minho a lareira esquecida da Nacionalidade. É lá que se pode rezar a oração da Raça, inclinado o peregrino sobre a colina veneranda de Briteiros. Foi lá que a Saudade floresceu nos Cancioneiros primitivos e os barões de D. Tareja ali batalharam as duras batalhas da separação. Junto do Lima, no feitiço langue das águas verdes e das verduras líquidas, colocavam os da Antiguidade o fabuloso Lethis. Temeram por isso atravessar o rio as legiões impetuosas de Roma. São os Lugares-Santos de Portugal os sítios religiosíssimos do Minho! Á sombra da azinheira tradicional, lá se lavraram os primeiros contractos da gente miúda das beetrias com a pessoa esplendorosa de Afonso Henriques. Mais abaixo era Santa Maria de Vendoma, a cavaleiro do burgo que poria o nome ao condado nascente. Mumadona, S. Geraldo, Egas Moniz, Violante, — a de corpo de oiro! E a «semente portuguesa» agita-se na nossa evocação, saída, como que por milagre, da poeira anónima dos túmulos...
É minhoto, até às raízes mais mergulhadas do seu ser, o autor bem-fadado do Pão alheio. A «semente portuguesa» renasce nele, indicando-lhe um dever de estirpe. Luís de Almeida Braga não se pertence. Pertence ao mundo inquieto que lhe povoa o atavismo. Tem de lhe servir de boca, tem de lhe dizer os anseios proféticos. No exílio, passeando a soledade de Bruges-la-morte, Luís de Almeida Braga sentiu-se bem, lá longe, o «conservador da semente portuguesa». É já agora o alto sonho que o enleva! Novos livros virão contar-nos que emprego nobilíssimo é o deste rapaz, que teve já́ armas para se bater pela Pátria caída, e a quem a arte difícil de escrever distingue com os seus segredos mais arrecadados. Nas nossas pobres letras Luís de Almeida Braga descende da linhagem de Vasco de Lobeira, de Bernardim Ribeiro e de Francisco de Morais Palmeirim. Nós, em Portugal, não nascemos para o romance, por que nos falta natureza desapaixonada para as grandes dissecações. É a novela, por isso mesmo, um género literário criado por nós. Luís de Almeida Braga não será nunca um romancista pelos poderosos recursos de afetividade de que dispõe. Será, porém, um novelista, talvez o novelista porque esperamos, para que se alevante com honra a herança abandonada de Camilo!
(1) Discutível hoje para o autor esta maneira de interpretar a existência, não o é menos, por certo, para Luís de Almeida Braga. Ambos acolhidos à ideia católica da Vida, não podemos dar predomínio a forças obscuras e subconscientes. (1924).
(in. Ao ritmo da ampulheta, Coimbra, 1925, pp. 89-102.)
Pois o Pão alheio, de Luís de Almeida Braga, marca bem a afinidade que nos liga de perto ao fidalgo perplexo do romance de Eça. No fundo da Torre, da solarenga torre de Santa Ireneia, com as tardes lentas de junho subindo por entre o aroma dos cravos, Gonçalo Mendes Ramires sentia a miséria da sua vontade, comparada com a vontade poderosa de quantos varões ilustres lhe bracejavam pela genealogia farta. A pouco e pouco, arrastando os episódios mesquinhos duma vida sem finalidade, ele descobre adentro de si a energia escondida de uma raça que adormecera. Debatia-se cruelmente no conflito da sua inteligência com a sua irresolução. Marchar, mas para onde? E os dias passavam, passavam os anos. A hesitação continuava, cada vez mais aguda, cada vez mais perseguidora. No entanto, desde a hora em que Gonçalo Mendes Ramires se reconciliou consigo mesmo, nós sabemos de que foi capaz o fidalgo da Torre! Do que é capaz a minha geração, uma vez que se ache de acordo com as suas tendências mais ocultas, já de certo modo no-lo deixa entrever o livro de Luís de Almeida Braga.
O livro de Luís de Almeida Braga revela-nos essa concordância da Acção com o Pensamento, que o velho Taine julgava impossível. É a característica que mais o distingue e nobilita. Eu quero olhá-lo como um itinerário de emoções, como uma espécie de roteiro dum outro René menino e moço, em quem a melancolia romântica cedesse o lugar ao amor enlevado da disciplina. Nós não podemos curvar-nos à imperturbável razão clássica que tudo limita e tudo reduz à objetividade despótica do traço firme e concreto. Não podemos ir também atrás do gosto mórbido da contemplação pelos parques sonolentos do Outono, com os pavões aos gritos e as cascatas lastimando-se. Se ascendêssemos os degraus da Acrópole, não ficaríamos, como Renan, ao flanco duma colina, entoando o louvor eterno de Pallas-Athenea. Nem tampouco nos deteríamos perante as paisagens suspensas do entardecer, com a tristeza lírica do Lago envolvendo-nos num sonambulismo morno de divagações.
Amamos a vida, porque grita e estua dentro de nós. Mas amamos a vida no equilíbrio, na saúde, - na posse dela própria. Amamos a vida, vivendo-a. E vivê-la não é estilizá-la, nem desperdiçá-la. É referi-la a nós mesmos, é dar-lhe um sentido de atualidade e de permanência. Não a colocamos nem no Passado, nem na Imaginação, como a colocavam os avós literários de 1830. Muito menos a passeamos pelos terraços da Decadência, sonhando, em atmosferas de paradoxo e haschich, uma beleza falsa de Paraíso-Artificial!
A vida para nós é uma utilidade. Mas confira-se à palavra utilidade um significado de nobreza. É uma utilidade que não nos pertence e que é preciso servir. Non serviam! - foi o grito rebelado de quantos apareceram primeiro que nós. Servir! - é agora a ânsia mais funda do nosso coração, em que parece frutificar a semente dum misticismo novo. Por isso surgimos no momento máximo duma crise já secular. E logo nos tocou o gosto admirável da ordem, - como que um inesperado instinto de higiene interior e de arranjo social. Ia-se abaixo, num estridor de catástrofe, o património histórico da nacionalidade. Dentro de nós ressuscitou a psicologia ingénua de Petit-Chose, jurando ao desalento da sua trapeira reconstruir o lar em ruínas. Foram diversas as jornadas que nos trouxeram a esta unidade de corpo e alma, que é o segredo da nossa vitória. Uns pegaram em armas e andaram rilhando a côdea dura dos guerrilheiros pelas ribas ásperas do exílio. Outros padeceram a agonia da própria mentira e só à custa de suores de sangue encontraram a sua estrada de Damasco. Hoje, recuperados da hesitação de Gonçalo Mendes Ramires, existe uma vontade em nós, porque em nós existe uma crença.
Não lhes dizia eu que tinha pelo livro de Luís de Almeida Braga um enternecimento familiar? Posso eu lá falar do Pão alheio, sem falar de nós todos? É que no Pão alheio agita-se aquela inquietação de espírito em que todos nós reconhecemos a força misteriosa do mesmo destino, que um dia nos sagrou para irmãos. Há assim em nós o que não havia nos outros: a consciência de uma vocação a cumprir. Eis porque me é agradável supor que a novela da minha geração se chamará ainda O filho de Ramires.
* * *
No regresso de África, Gonçalo Mendes Ramires casaria. Casaria com a Rosinha da quinta das Varandas, com a neta do visconde de Rio Manso... Salvo das intrigas miúdas da politiquice, que o levara à cena vergonhosa de Oliveira, reconciliando-se em público e raso com a bigodeira insolente de André Cavaleiro, o descendente de tantos Ramires ilustres recorre para a cultura do carácter, como que para um segundo batismo. Torna outro da sua concessão em Moçambique. Torna mais homem, menos indeciso. E, caído na doçura do bom solar provinciano, de Gonçalo Mendes Ramires nasceria mais um Ramires, em quem me propus personificar as várias tendências da minha geração.
O moço Ramires traria no sangue a interrogação dolorosa do pai. Marchar, mas para onde? E no acaso dos tempos que correm, cada vez se cavaria mais nele essa luta inapaziguável. As vozes secretas da sua hereditariedade eram de difícil conciliação com a soberania das ideias em voga. Instantes há em que o moço Ramires, refletindo a anarquia intelectual do seu meio, não recua em ir pedir à mística revolucionária uma solução para as dúvidas crescentes que o assediam. Ramires verifica em si uma contradição profundíssima: a contradição do seu temperamento mais íntimo, mais incomunicável, com as mais obedecidas das suas preferências. Não se harmoniza consigo mesmo. Tudo se desfaz à roda dele e debalde se procura enganar com o negativismo das modas filosóficas correntes. Ramires reage sempre. Domina-o uma grande sede de absoluto, uma necessidade salutar de construção. Construir! Mas como e com quê? Não se aluía até aos alicerces a sociedade tradicional? A ordem dos séculos futuros não se anunciava já, como na imagem evangélica, entre trevas insondáveis e ranger de dentes? E diante do moço Ramires o enigma doloroso engrossava desmesuradamente, num desespero em que nada já cabia, senão o desalento daqueles que por si próprios se retiram do mundo.
Um equívoco terrível perdia o nosso Ramires. Nas veias o sangue falava-lhe, e falava-lhe das regras eternas do Tempo e da Vida. Faltava-lhe, todavia, o reconhecimento intelectual dessa verdade subconsciente que lhe dava às vezes alvoroços estranhos. O minuto veio, em que os males da Pátria se declararam irremediáveis quási. Como que tocado por uma inspiração súbita, Ramires vê, Ramires compreende. Havia nele o impulso ancestral da Acção. O pensamento guiador é que o desertava. Não tardaria agora, no rumor da desgraça pública, que pensamento e acção se conjugassem na grandeza duma doutrina reparadora. E aos poucos, pelo preço de provações duríssimas, como semelhantes as não padeceram nunca nenhuns vinte anos mais, Ramires possui-se, enfim, na verdade portuguesa, que é a sua verdade, a verdade da sua carne e a verdade do seu espírito.
Ramires esteve em Chaves. Esteve em Chaves debaixo do sol implacável de Julho, junto a esse escarpado espaldão, em que os rapazes da nossa terra tomaram o caminho esquecido do sacrifício e do heroísmo. Na derrota que o pôs entre a vida e a morte, pelas veredas erradias de Trás-os-Montes, através da noite funda, mais funda à fé́ se lhe amostrou. É que Ramires já não duvidava de si mesmo, porque os seus dias se tinham enchido do significado real duma finalidade. É a finalidade de Ramires vencido o lago inquebrantável que nos prende uns aos outros, como se nos ajuramentássemos sobre a Hóstia e sobre o Cali. E a finalidade de Ramires vencido que há de levar à vitória a geração de Ramires. Descemos cedo ao campo da luta. Mas se uma experiência longa não nos amadureceu, mais do que isso, amadureceu-nos a responsabilidade indeclinável que pesa em nós. Se o prefácio célebre de Bourget no Disciple nos fosse dirigido, nós teríamos respondido nobremente ao apelo desse nosso irmão mais velho!
Luís de Almeida Braga é a ilustração bem viva de quanto afirmo. Dos acasos perigosos de guerrilheiro volveu-se em andador das estradas infinitas. Conheceu precocemente a magoa garrettiana da Saudade. E aonde foi ele dar consigo, para melhor aprender a ser ele próprio, senão à boa terra da Flandres, de algum modo terra portuguesa?! Não se esqueceu por lá, o garboso lusíada, da lareira abandonada, dos horizontes natais, da torre da sua igreja. E eu não sei de símbolo mais alto e mais comovedor de que esse outro, deixado pelo traço sóbrio de Brito e Silva nas capas do Pão alheio! A riba estrangeira desenha-se ao fundo em águas quietas de canal e com moinhos bracejando. Mas enquadra-a um pórtico manuelino, encimado da Cruz e da Armila, que são o «Pelo sinal» da nossa Raça. Também, através da sua sensibilidade de português, pelo sinal da nossa Raça, Luís de Almeida Braga viajou na Flandres, não para ver, mas para evocar. Não se desgarrou, contudo, nas emboscadas tortuosas do impressionismo. Peregrino do Silencio, Luís de Almeida Braga viveu o seu livro com a sua alma e com o seu sangue, -porque a vida vive-se, não se fantasia! Posto a correr as Sete-Partidas do infante D. Pedro, tocaram-no mais as necrópoles caladas do que as quermesses ondulantes dos povos em festa. Comeu o pão alheio, calcando o pó, de rins cingidos e viático pendente. Coordenou assim a sua emoção, ao contacto de gentes que tinham outros mortos e outra paisagem. Educação sentimental, — podia ser o segundo título de livro de Almeida Braga, ou o seu comentário breve, num breve dizer. Não a Educação sentimental de mestre Flaubert, cerrado na sua literatura inteiriça para a intervenção de todo o elemento subjetivo. Mas educação sentimental, pedagogia da personalidade: a educação que Barrés foi aprender na colina inspirada, conciliando a regra com a crepitação, o entusiasmo com a serenidade, a pedra fixa da Ermida com a renovação incessante da Campina.
Luís de Almeida Braga, atento aos sacramentos da Tradição, desprezou os cancelos do jardim de Epicuro e teve um ar de desinteresse para o satanismo, fora de moda, de Baudelaire. O moço de olhos doces, que vira na veiga de Chaves crucificarem-se em ardor e renúncia outros moços como ele, não ignora que a Vida repousa sobre uma base de exaltação, cuja espontaneidade desaparece, desde que a análise entre connosco. Por isso Almeida Braga nos confessa na forma lapidar duma inscrição: «Que importa não compreender quando se sente? Sentir é melhor que compreender, assim como vale mais adivinhar do que saber. A sabedoria mora vizinha do sono. Adivinhar é ter os olhos abertos, postos no céu, entre a luz e as asas. Mais facilmente esquece o coração do que os olhos. Mas eu procuro que a inteligência vá parceira com o amor, porque sinto como é fria a arte onde não há coração» (1). Eis uma teoria de arte que é também uma teoria de vida. Luís de Almeida Braga escreve como um místico viveria. É que existe nele, em verdade, essa união perfeita do pensamento com a acção, sem a qual se cai, ou na secura criticista de que morreu um Amiel, ou num mostruário hirto de antologia, em que o fôlego falece e o artifício predomina. Graças a Deus, nós somos outros, muito outros, nas nossas tendências mais queridas! Não vamos direitos à imaginação, mas vamos direitos à alma. Tal é a diferença que nos distingue dos românticos. Para nós a realidade objetiva é sempre a expressão de uma realidade mais íntima, - a realidade espiritual. Aqui está o motivo por que nos julgamos bem longe do chamado «realismo». Damos largas aos gritos profundos da nossa individualidade. Não concluímos, porém, numa forma abstrata de ideologia porque nos coordena e determina a aceitação dos nossos limites. Personalizamo-nos pelas conquistas do nosso ser individual, enquanto um assentimento voluntário nos integra na sequência dinâmica da nossa formação hereditária. Somos, pois, tradicionalistas. Mas a Tradição não é um ponto imóvel no passado. É antes uma continuidade interminável, renovando-se sempre. Reveste-se, deste modo, de um sentido de atualidade para nós, que a vivemos e a experimentamos como coisa nossa, feita da nossa substância quotidiana.
Não pretendem as minhas palavras servir de anunciação ao Pão alheio. O que eu desejo é destacar no Pão alheio o seu significado profundo de obra de arte. Creio exprimi-lo sucintamente apontando esse belo livro como um admirável compêndio de «exercícios-espirituais». Luís de Almeida Braga ensina o «Sublime» a um tempo sáfaro, que perdeu de todo a noção dos grandes arrebatamentos. E o que ainda mais me sensibiliza, sempre que lhe repasso as páginas estranhas de bruxo batizado, é a unidade serena de aspiração, em que nós reconhecemos, não uma estreita e caprichosa aspiração de vagabundo sibarita, mas a aspiração que nos queima as veias e empresta ao nosso voluntariado de sacrificados o senso superior dum destino, do destino que faltou a nossos pais. Luís de Almeida Braga é na cavalaria da Grey um dos melhores e dos mais esforçados. Ergamo-lo nos escudos, à maneira antiga, como seus pares que somos! De esplendido sangue literário, saboreia-se na sua prosa sem ossos, tão afável como um fio de água correndo, um não sei quê que nos recorda Seiscentos com Manuel Bernardes, contando-nos a lenda dos bailarins, e D. Francisco Manuel de Melo, que também andou por Flandres, fazendo filosofia elegante nos Apólogos dialogais. Eu suponho até que a Carta de guia de casados de minha geração está guardada para a pena de Luís de Almeida Braga! É um pensamento que não me abandona e que eu sinto recreio em cultivar. João de Barros, - o das Décadas, chamou ao Minho o «conservador da semente portuguesa.» É, de facto, o Minho a lareira esquecida da Nacionalidade. É lá que se pode rezar a oração da Raça, inclinado o peregrino sobre a colina veneranda de Briteiros. Foi lá que a Saudade floresceu nos Cancioneiros primitivos e os barões de D. Tareja ali batalharam as duras batalhas da separação. Junto do Lima, no feitiço langue das águas verdes e das verduras líquidas, colocavam os da Antiguidade o fabuloso Lethis. Temeram por isso atravessar o rio as legiões impetuosas de Roma. São os Lugares-Santos de Portugal os sítios religiosíssimos do Minho! Á sombra da azinheira tradicional, lá se lavraram os primeiros contractos da gente miúda das beetrias com a pessoa esplendorosa de Afonso Henriques. Mais abaixo era Santa Maria de Vendoma, a cavaleiro do burgo que poria o nome ao condado nascente. Mumadona, S. Geraldo, Egas Moniz, Violante, — a de corpo de oiro! E a «semente portuguesa» agita-se na nossa evocação, saída, como que por milagre, da poeira anónima dos túmulos...
É minhoto, até às raízes mais mergulhadas do seu ser, o autor bem-fadado do Pão alheio. A «semente portuguesa» renasce nele, indicando-lhe um dever de estirpe. Luís de Almeida Braga não se pertence. Pertence ao mundo inquieto que lhe povoa o atavismo. Tem de lhe servir de boca, tem de lhe dizer os anseios proféticos. No exílio, passeando a soledade de Bruges-la-morte, Luís de Almeida Braga sentiu-se bem, lá longe, o «conservador da semente portuguesa». É já agora o alto sonho que o enleva! Novos livros virão contar-nos que emprego nobilíssimo é o deste rapaz, que teve já́ armas para se bater pela Pátria caída, e a quem a arte difícil de escrever distingue com os seus segredos mais arrecadados. Nas nossas pobres letras Luís de Almeida Braga descende da linhagem de Vasco de Lobeira, de Bernardim Ribeiro e de Francisco de Morais Palmeirim. Nós, em Portugal, não nascemos para o romance, por que nos falta natureza desapaixonada para as grandes dissecações. É a novela, por isso mesmo, um género literário criado por nós. Luís de Almeida Braga não será nunca um romancista pelos poderosos recursos de afetividade de que dispõe. Será, porém, um novelista, talvez o novelista porque esperamos, para que se alevante com honra a herança abandonada de Camilo!
(1) Discutível hoje para o autor esta maneira de interpretar a existência, não o é menos, por certo, para Luís de Almeida Braga. Ambos acolhidos à ideia católica da Vida, não podemos dar predomínio a forças obscuras e subconscientes. (1924).
(in. Ao ritmo da ampulheta, Coimbra, 1925, pp. 89-102.)
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