A Quinta do Vedor
António Sardinha
O texto “A Quinta do Vedor” descreve, num tom nostálgico e irónico, a vivência do autor numa quinta histórica junto ao Forte da Graça, em Elvas, destacando a sua frescura, tradição e ambiente bucólico. A narrativa mistura memórias pessoais, personagens marcantes como o tio Romão, referências religiosas e literárias, e paralelos com mitos clássicos como os Campos Elísios e o Jardim das Hespérides, criando uma atmosfera onde realidade e fantasia se entrelaçam. Sardinha reflete sobre a passagem do tempo, a herança dos antigos proprietários e o simbolismo do lugar, terminando com humor e admiração pela singularidade da quinta e pelo seu papel na paisagem e na imaginação local.
A QUINTA DO VEDOR
«A este sítio chegou Homero, Príncipe dos Poetas... e assentou que estes eram os Campos Elísios, em que a gentilidade daquele tempo tinha por certo descansavam as almas dos bem-afortunados.»
Aires Varela, Teatro das antiguidades de Elvas.
Eu vivo agora às abas do Forte da Graça, numa quinta verde que nem uma écloga. É a Quinta do Vedor, merecedora de todas as honras entre as quintas desta redondeza. Avista-se-lhe de longe o arvoredo espesso, recortando-se num fundo severo de paisagem.
No vale argiloso e sedento é uma mancha permanente de frescura. Nunca se lhe acaba a água na nora e os tanques transbordam-lhe sempre no murmúrio mansíssimo das regas. É uma quinta de fama, a Quinta do Vedor! Tem capela e campanário com São João em pequenino num painel ingénuo de azulejos. E a estrada nova passa-lhe rente da porta, com casas de um lado e outro, como se fosse uma rua tranquila de aldeia.
Pois admira que os senhores não conheçam a Quinta do Vedor! Camilo prometeu que, se um dia viesse a Elvas, seria só para a visitar. Encontrava-se com ela nos seus serões de peregrino das coisas velhas. E sobre as páginas encarquilhadas de um códice carregadinho de idade, a pena do romancista concentrou-se um momento para nos contar aquele triste caso do Corcovado, morto a tiro a dois passos daqui, reinando em Portugal D. Filipe IV de Castela e sendo bispo de Elvas D. Sebastião de Noronha. É uma história de ódios fidalgos, desenlaçada tragicamente ao pé do muro da quinta, lá onde se vê uma cruz de granito, quando o ribeiro de hoje era ainda simplesmente uma azinhaga vestida de fetos.
A quinta chamava-se então «a horta do Montarroio». Quem lhe deu o nome mais pomposo de quinta, tem o seu nome inscrito nos nobiliários da província. Foi um certo Manuel Rodrigues de Ataíde, vedor geral de artilharia no exército do Alentejo, aí pelos meados do século XVIII. Já se compreende porque eu me admiro que os senhores não conheçam a Quinta do Vedor! Das raras vezes que a pena de Camilo viajou pelas planícies do sul, logo descansou à sombra dela. À sombra dela descansou também um Ataíde, não sei se dos legítimos Ataídes do Reino, com costela iluminada nas linhagens fartas da região. Nasceu para grandes destinos, a Quinta do Vedor! Anda nomeada nos livros e até aparece nas cantigas do povo. E não falo eu da glória que lhe há- de trazer a minha residência aqui, com Homero, Príncipe dos Poetas, procurando o meu convívio modesto. É essa uma circunstância preciosa que não quero roubar às preocupações eruditas de algum biógrafo que o futuro me reserve!
Mas a prosápia da quinta não se fica apenas em Camilo e no vedor-geral. Lá em cima, num sótão, onde amadurecem marmelos, dependura-se um quadro a óleo, com um frade alentado, olhando-nos em ar de hostilidade de entre as pregas do hábito. «Do serviço da Rainha N. Sr.ª Ao Revmo. Frei José da Consolação, ex-Vigário-Geral dos Agostinhos descalços. Boa-Hora.» Assim o frade nos diz quem seja, no papel que à maneira da época o pintor lhe deixou nas mãos. Passando do vedor-geral de Artilharia ao vigário-geral dos Agostinhos Descalços, em nada descaiu a quinta do luzimento primitivo. A Cruz depois da Espada. Em seguida a um Ataíde encabeçado nas genealogias da província, o prelado de uma ordem religiosa, acreditada em virtudes e em letras. E não conheciam os senhores a Quinta do Vedor, merecedora de todas as honras entre as quintas desta redondeza!
A quinta herdou mais do frade que do vedor-geral. Não é uma habitação solarenga com pedra-de-armas à esquina. É antes uma vivenda desafogada para ócios de abastança no trato sadio das sementes e das colheitas. Do vedor resta unicamente a lembrança no nome. Do frade há traços constantes que o tempo só apagará, apagando-os com a quinta. A irregularidade da habitação é um contraste com o aprumo da capela. Frei José da Consolação não se esquecia nos regalos do campo de rezar as horas canónicas. Duas ou três cadeiras vastíssimas que escaparam à sanha do bicho e à ruína dos anos, fazem-nos pensar nas sestas pesadas de sua reverência. Eu perco-me dentro delas, se acaso lá procuro ajeitar o meu corpo franzino de civilizado. Mas os sentidos arrebatam-se-me num gozo espiritual de conventinho rústico, se adivinho o dedo do frade nos letreiros latinos e nos sinais piedosos que dão à quinta um valor indefinível: Rua de São João. Rua de São Jerónimo. E enquanto São João, um São Joãozinho muito doce, venerado nos encantos da sua meninice, se espelha e sorri no azulejo luzente, «Sancte Joannes Baptista ora pro nobis», tosco, de barro grosseiríssimo, torce-se São Jerónimo em flagelações ásperas de eremita, entre cedros e avencas, num sítio recôndito – que Deus me perdoe! – é mais para a leitura de um idílio de Teócrito que para a meditação de uma homilia cristã. Goteja uma fonte aos pés do grande doutor da Igreja. E o grande doutor da Igreja, exasperado no ardor do sacrifício, ocupa o lugar da ninfa, padroeira da fonte, foragida talvez entre a teologia compacta de Frei José da Consolação.
Há nichos desertos nas paredes faiscantes de cal. Sustidas por pilares robustos de alvenaria, as parreiras cobrem a quinta de um dossel virgiliano. São latadas e latadas com os cachos loiros, desafiando o nosso apetite neste subir ardente de Outubro.
Ouve-se na placidez da tardinha um baque surdo, de quando em quando. É um pomo que simbolicamente se desprende das laranjeiras, como que a despedida de Verão no fruto derradeiro da árvore. Por uma aberta da ramagem apanham-se bocados de horizonte. Por onde quer que se vá, é sempre o Forte que dominadoramente nos acompanha. Mas agora é a cidade velha que a folhagem enquadra, toda de negro nas muralhas fernandinas do seu castelo. Revivem os olhos um trecho de Idade Média com as serranias de Espanha esbatendo-se ao largo. Vem-me à memória o escudeiro Gil Fernandes mais a «canalha das vinhas», soltando na vila de Elvas o grito de revolta pelo Mestre. Crepúsculo com laivos de sangue nas franças mais altas do arvoredo. Nítidos, vibrantes, descem do Forte toques militares. O vento do Outono ensaia já a ladainha das folhas secas. E a quinta prepara-se para os mistérios da Sombra, confiada em São Joãozinho que a protege de entre as tintas discretas do seu azulejo luzente.
Quando ao dia seguinte o sol se esborralha pelo céu acima, eu saio à minha volta costumada. As romãs, coroadas e floridas, levantam em triunfo a nudez já visível da quinta. Demoro-me uns instantes debaixo dos cedros de São Jerónimo e debico um ou outro bago de uva, ao atravessar a Rua de São João. Ao longe, nas tremulinas da manhã, chamam sinos à missa. E o vale, sedento e argiloso, apresenta uma gravidade recolhida de templo nas oliveiras que o povoam religiosissimamente. Debruço-me do muro da quinta para o ribeiro que se alimenta com os sobejos da rega. Lá está a cruz do Corcovado, lembrando à nossa piedade o trágico fim de Mem Rodrigues de Vasconcelos.
O terreno endireita-se de súbito numa galopada estranha. Aqui morderam o pó os soldados de Castela aos golpes enraivecidos da nossa gente. Corriam aqui as linhas de Elvas, rotas pelas tropas bisonhas dos concelhos do Alentejo naquele Janeiro de 1659. As oliveiras do vale são a bênção mortuária aos que caíram de espada em punho pela defesa dos lares e dos Altares. Para além da encosta, ergue-se o padrão da vitória, junto a uma igrejinha campestre que só o isolamento e o silêncio tornam imponentes. Se Maurice Barrès, meu professor de sensibilidade, vier a Portugal, hei de levá-lo a essa colina inspirada. É lá que eu aprendo a filosofia profunda da Terra e dos Mortos. É lá que se poderia entoar um Miserere contrito pelo pecado coletivo da Raça.
E, entretanto, na minha volta costumada, acerco-me de um bosquezinho de murtas centenárias. Numa taça de mármore de Estremoz, agoniza o fio de um débil repuxo. Na meia penumbra, atraídas pela frescura do bosquezinho, as abelhas precipitam-se sôfregas para a taça quase sêca. E um bocado perdido da vinha de Horácio para as horas abrasadas do estio. «Otia tuta» – inscreveram-lhe por cima, num secreto sibaritismo. Não é lembrança decerto de Frei José da Consolação. O quadro do sótão onde amadurecem marmelos não nos indica nada do gosto do frade pelas citações clássicas. Depois de Frei José da Consolação, a quinta entrou na posse de um cónego notável em letras profanas e em mesuras eclesiásticas. Foi o último vigário capitular deste bispado defunto. E pelo seu braço repousaria no refúgio aprazível dos Otia tuta também o último bispo de Elvas – uma figura dolorosa de prelado que a Liberdade de 34 nas ruas de Lisboa espancou. Um vedor-geral, um vigário-geral, um vigário-capitular e talvez um bispo! É lustrosa e de respeito a dinastia dos possuidores da quinta! Se a tradição não mente, enquanto se alevanta o Forte da Graça, na quinta residiria o general que dirigiu a marcha da obra. Assim o afirma o Joaquim, do Vedor – um com feições de mouro, encorreadas pelo trabalho. Seria Valtére? Seria o próprio conde de Lippe? E as delícias dos «Otia tuta» enervam-me, não me deixam ligar ideias. Vejo o vigário-capitular transformado em pastor da Arcádia. Dançam as Camenas com o cabido da Catedral. É uma merenda de cónegos, em que Títiro, de barrete e sotaina, puxa da frauta bucólica, e Coridon, de roquete e capa de asperges, interpreta uma passagem tortuosa de Ovídio. São Joãozinho me acuda, que desvairo de todo, por causa do elogio da Preguiça que o vigário-capitular estampou à entrada do seu bosquezinho de murtas!
*
Já cá não achei este ano o tio Romão. Levou-o a morte na semana da Páscoa com Jesus ressuscitado.
Contava-nos contos o tio Romão – e que contos lindos o tio Romão nos não contava! Íamos ouvi-lo à noite para o terraço, ressurgindo assim um aspeto da antiga vida familiar em comum. O tio Romão sentava-se – «Ora com sua licença!» – e dava começo ao conto. Era em Agosto, com a canícula abafando os corpos e as raízes numa secura de flagelo. Desfazia-se a lua por sobre as ramadas frondosas na suavidade brandíssima de um sacramento, às vezes cortava a imobilidade atenta do ar o ai espaçado de um sapo. Brilhavam estrelas refletidas por entre o escuro, a distância, nos lampejos fugitivos da água da rega, andando sempre, não parando mais. E a linguagem do velho prendia-nos com os seus pitorescos imprevistos, com a sua candidez primitiva.
Sentindo-se escutado, o tio Romão continuava. Continuava com singelezas medievais de expressão, uma psicologia quase infantil de sentimentos. Havia traços felizes de presépio nas personagens que o tio Romão nos descrevia. Bispos e reis, rainhas e fadas, fidalgos e pastores, não passavam nunca do mesmo tipo rude, reproduzindo-se invariavelmente. O tio Romão olhava-os como olharia para o feitor nos sábados, ao receber a jorna. Não conhecia outro modelo mais alto, nem momento mais solene. Não me esquece a mim o conto da peregrina que foi a Roma confessar-se ao Padre Santo: «Truz! Truz! É aqui que mora o senhor Padre Santo?» E veio uma criada à escada, como quando o tio Romão ia à cidade, a casa da senhora. Ora o Padre Santo, que estava a escrever uma carta no seu escritório – um escritório como aquele em que o tio Romão recebia o dinheiro da féria –, mandou dizer à peregrina que fizesse favor de esperar um pedacinho – pedacinho que o tio Romão esperava, enquanto o não mandavam subir e entrar.
Em homenagem à memória do tio Romão, nunca mais se contaram contos no terraço da quinta. Pobre do tio Romão! Levou-o a morte na semana de Festa e já cá lhe desempenha as obrigações uma espécie de gnomo sorridente, que lembra em carne e osso o Borda-de-Água das folhinhas baratas. Não encontrei outra diferença no pessoal. São os mesmos os trabalhadores que me falam, de enxada ao alto, semi-curvados para os trabalhos da horta. Por entre rodas de «vossemecê» e de «senhoria», eu dou todos os dias a minha volta costumada, nas mãos citadinas a cana ligeira da volta do Chiado. Paro-me, informo-me, ao acaso, de qualquer nada. Chove? não chove? E trocam-se meia-dúzia de palavras, a propósito do tempo e da novidade. Como eu mereço os desdéns implacáveis dos Príncipes da Literatura que só gostam da natureza através de vidros de cor!
Consola-me desses desdéns o segredo espantoso que a minha fortuna me quis confiar. Desde a mais remota antiguidade que os sábios não se entendem – e muitos até endoideceram! – por causa do Jardim das Hespérides. Reúnem-se ainda agora academias doutíssimas com os óculos doutíssimos arregalados para doutíssimos cartapácios. E o problema mantém-se fechado, o problema persiste em se manter inexorável. Em que parte da Esfera, continente ou ilha, é que ficaria o Jardim das Hespérides? E as cabeças venerandas não atinam, as cabeças venerandas encalvecem de tanto cismar! Vêm abaixo livrarias inteiras para se escreverem gordos tratados e com gordos tratados se levantam novas livrarias. Pior que o enigma da Esfinge, o problema nunca mais se resolve. Foram reunir para o manicómio academias em peso, com os académicos de olhos no vago, interrogando vagamente: «Em que parte da Terra fica o Jardim das Hespérides?» Quem não se suicida, enlouquece; quem não enlouquece, suicida-se. Não conhece outro desfecho esta questão tenebrosa do Jardim das Hespérides!
Pois o Jardim das Hespérides... e eu embaraço-me diante da grandiosidade da revelação!
Pois o Jardim das Hespérides... sejamos simples, como a verdade o é. Afinal, o Jardim das Hespérides, meus senhores, fica ali à entrada da quinta, quando a gente desce, do lado direito!
É um muro caiado de fresco, com uma porta baixinha, defendida por um par de valentes cancelos de ferro. Pode visitar-se, porém, à vontade, porque os cancelos estão sempre abertos, apesar do enorme cadeado que lhes pende das guardas. Compreende-se que não haja motivo para precauções, desde que Hércules violou o preceito do horto encantado.
«Jardim das Hespérides» – anuncia um azulejo modesto por cima da portinha de ferro. O Jardim das Hespérides, e anunciado por azulejo! – exclamei eu na manhã já longínqua em que os deuses me trouxeram pela primeira vez a tão extraordinárias paragens. É mais uma manha do dragão para atrair os incautos! E quedei-me a considerar o recanto de maravilha. Por entre os cancelos escancarados, avistava-se verdura e só verdura. Pouco duraram as minhas considerações. Enfiei direito ao portado por onde o filho de Júpiter entraria, mas só de gatas. Não levava clava nem os favores da Imortalidade. Levava comigo um diabinho curioso a escarnicar, cá dentro de mim. O dragão com certeza que não deitava já chamas pela boca, porque as rosas floriam deliciosas no jardim delicioso. Enxergavam-se bancos de alvenaria, sem dúvida para as Hespérides descansarem. E eu avançava sempre, mais preocupado agora com um ruído inexplicável que subia de entre a espessura do arvoredo. Pensei por momentos no salto do dragão. Mas, ai de mim! quando a minha curiosidade se arriscou um pouco mais, não foi diante do monstro que eu recuei. Recuei, mas foi diante do burro da quinta, puxando à nora pachorrentamente.
Não me resignei eu a aceitar em pleno Jardim das Hespérides um burro em vez de um dragão. Vi logo oculto sentido dos deuses nesse encontro inesperado com um animal que não figura entre os animais nobres da Mitologia. Não descortinaria, porém, a verdade do símbolo, se não me valesse a sabedoria de Homero, Príncipe dos Poetas. Eu viera para aqui espairecer as melancolias da minha alma doente. Ia acabando de me mirrar com o caso estupendo. Arrastava-me de olhos no vago, não a perguntar como as Academias, em que parte da Esfera, ficava o Jardim das Hespérides, mas declamando a cada eco em solilóquios lastimosos: «Porque é um burro e não é um dragão?» Compadeceram-se os fados da minha triste sorte. E de uma bela ocasião, à hora do dia, achei-me na presença de um velho venerando, coroado de louros e de lira enfiada no braço. O velho tinha as pupilas paradas na imobilidade augusta dos cegos e a túnica de linho caía-lhe até às sandálias em pregas severas. Não deixou que o interrogassem. Ele mesmo se apresentou:
– Homero, Príncipe dos Poetas.
Inclinei-me perante o ancião, veterano glorioso da República das Letras. O meu mal já era viver com um pé na Fábula e outro na Idade Moderna. Acabei de transtornar-me. Quis exprimir a Homero a honra que sentia em o conhecer pessoalmente. Faltou-me a inspiração na palavra e, com a língua entaramelada, gaguejei no tratamento a empregar. Decidi-me pela segunda pessoa das apóstrofes clássicas, tal como Júlio César ao rolar no Senado, debaixo do punhal de seu filho Bruto. E no diálogo discreto que ambos entretivemos, as minhas falas decoraram-se sempre de vocativos sonoros, que nem as tiradas de um aluno furioso do primeiro ano de Artes Dramáticas.
Homero, Príncipe dos Poetas, mostrou-se familiar como ninguém. Ele em tempos viajara por esse mundo que não era ainda o mundo de Cristo. Viajara à cata dos Campos Elísios. Veio descobri-los nos arredores de Elvas, como em secretos autores esquadrinhou depois um varão ilustre da cidade. Dos Campos Elísios pouco já restava, com a ganância crescente dos homens. Os imortais padeciam a sina miserável do esquecimento, desde que as ninfas e os faunos tinham fugido, derrotados pela relha atrevida das charruas. Semeava-se trigo onde outrora floriam as pétalas divinas do lotus. E Homero sentava-se à sombra do parreiral num dos bancos de alvenaria do horto encantado. Abafava o calor. Ofereci-lhe água fresca e caramelos.
– Serves-te, ó tu, Homero, Príncipe dos Poetas?
E Homero, Príncipe dos Poetas, serviu-se. Já na intimidade dos caramelos e da água-fresca, eu soube então do mistério assombroso da quinta. Na Quinta do Vedor, à certa, com medidas exactas e demarcações rigorosas, é que Homero descobrira os Campos Elísios. Pedi imediatamente perdão na minha consciência ao vigário-capitular. Não fora ele quem mandara inscrever à entrada do bosquezinho de murtas o elogio da Preguiça. Lá é que ficavam os Campos Elísios. Era ali o Retiro dos Bem-Aventurados.
Abismei-me. Mas com a mão no meu ombro, Homero acrescentava, solícito:
– Quanto ao Jardim das Hespérides, não há motivo nenhum para estranhezas! O burro é, na verdade, o dragão. Não aparecem os burros a tirar o lugar aos homens nos povos bêbedos de democracia? Conta-o Platão, nosso chorado confrade, numa alegoria que é preciso andar bem lembrada. É que nós, na Antiguidade, sofremos o coice do burro alegórico de Platão. O burro foi, efetivamente, o dragão do nosso tempo. Não do meu, porque no meu ainda havia gente que mandava e gente que obedecia. Mais tarde é que as coisas levaram volta. Que o diga o pobre Sócrates mais a sua taça de cicuta!
– A minha tortura subsiste, e subsiste dolorosa! – lamuriei desconsolado. – Como é que, sendo o dragão um burro, o burro me sai um dragão?
– Nada mais claro! – volveu Homero com indulgência. As vítimas já eram tantas, que, usando das licenças poéticas, entendemos disfarçar por dignidade delas, e nossa, a realidade ridícula do burro com a grandeza de um símbolo terrífico.
– Mas Hércules? Ó Homero, Príncipe dos Poetas, o que me dizes tu de Hércules? – precipitei-me eu sofregamente, como quem procura um caminho salvador.
– Hércules? Vejo que também o dragão te aflige, meu acabrunhado amigo! Se assim é, recorda-te dos conselhos de Ulisses, o mais prudente de todos os gregos: «Haja só um a governar e que esse seja Rei!», observava ele aos heróis acampados diante dos muros de Tróia. Quando vires um só a governar e vires que o tratam de rei, tu compreenderás melhor o mito de Hércules e do dragão.
Suspendi-me a refletir em sentença tamanha. Entretanto Homero, alegando a altura do sol e a distância a percorrer, despedia-se com amizade. Aludiu de leve aos Futuristas e perguntou-me se eu me empregava na profissão de esteta. Com estalinhos na boca, prometeu-me voltar à água fresca e aos caramelos. E enquanto lhe agradecia a estima com que me distinguira e me confessava seu admirador muito grato, o Príncipe dos Poetas sumiu-se, sem eu saber por onde.
*
Aqui têm os senhores como eu, vivendo às abas do Forte da Graça, vivo sempre com um pé na Fábula e outro na Idade Moderna. Quando me demoro na Idade Moderna, demoro-me com o frade lá de cima do sótão, com a história trágica do Corcovado e com o Padre-Santo dos contos do tio Romão a mandar a criada à escada e a escrever uma carta no seu escritório. Se pairo pelas regiões serenas da Fábula, faço de imortal nas delícias do Otia tuta e filosofo de perto com o dragão do Jardim das Hespérides, sem perder a esperança de que se cumpra o conselho de Ulisses e eu compreenda então a verdade do mito. Aguardo a visita prometida de Homero para desvanecer ainda uma preocupação. É que não percebo por que secretos desígnios os Campos-Elísios e o Jardim das Hespérides se tornaram, pelo giro do tempo e da Fortuna, numa quinta murada e hortada com biografia no Registo-Predial. Confio em que o Príncipe dos Poetas me esclarecerá com a sua proverbial bondade. O que eu posso desde já afiançar é que, para matéria de Hespérides, as laranjas da quinta são admiráveis; e que, para retiro dos bem-aventurados, o bosquezinho de murtas incomparável.
A linha férrea do Leste passa perto da quinta, do outro lado do Forte. Pensem agora os senhores num apeadeiro para os Campos-Elísios com carreira direta pelo Jardim das Hespérides!
Outubro, 1916.
In De Vita et Moribus, 1931
Relacionado