João Cabral do Nascimento
António Sardinha
Foi pelo simbolismo que eu comecei a regressar à Tradição, depois de evocar o Diabo com Baudelaire e declamar da Torre do meu Orgulho as rimas preciosas do Oaristos. - António Sardinha
João Cabral do Nascimento é um temperamento recatado de lírico, com intimidades deliciosas no seu livro As três Princesas mortas num Palácio em ruínas. Sofre o aristocratismo irrequieto do original, do imprevisto. Os seus nervos têm sêdes profundas de tudo o que seja ritmo e de tudo o que seja mistério. Ama Verlaine e perdeu-se já decerto nas orquestrações subtis de Mallarmé.
Que afinidade de espírito me não prende a este temperamento já tão contornado! Foi pelo simbolismo que eu comecei a regressar à Tradição, depois de evocar o Diabo com Baudelaire e declamar da Torre do meu Orgulho as rimes preciosas do Oaristos.
Num tempo de mediocridade sem relevo, eu compreendo que os moços se refugiem bem alto, num recanto inacessível do seu sonho de Arte. Mas a Arte não é só a contemplação, a Arte é a vibração, é a vida — e a vida não se saboreia, a vida vive-se, a vida sente-se. Ai do homem que comesse o seu pão só para o saborear! exclama Emerson.
Assim o parece entender João Cabral do Nascimento. A poesia decadente, sendo una reacção contra a literatura realista, que apenas se comprazia nos aspectos inferiores da exis-tência, foi igualmente uma deserção do sentimento aos mitos revolucionários que, com Hugo por capataz, se haviam apoderado totalmente das cousas da inteligência e da sensibilidade. A poesia decadente aproximou-se da Igreja pelo encanto da liturgia, da Idade Média pelo amor do gólico e da legenda. Eis um início de regresso completo. Verifica-se o mesmo regresso em João Cabral do Nascimento. O seu poemeto Além-Mar é a entrada do poeta nas formas tradicionais e na aspiração secular da sua raça.
Festeja a história tormentosa das caravelas que aportaram à Ilha do Senhor Infante na madrugada do século XV.
Faço aqui bem sinceramente a profecia sobre a glória que o futuro reserva ao moço poeta e recorto para as colunas do nosso jornal uma oitava do seu poemeto.
António Sardinha.
A Monarquia, Lisboa, 19-2-1917.
João Cabral do Nascimento, Além Mar, Funchal, 1933.
António Sardinha, João Cabral do Nascimento, A Monarquia, Lisboa, 19.2.1917.