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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
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Porque resiste a Alemanha?

António Sardinha

As Razões da Resistência Alemã na Grande Guerra
​

Análise das Instituições, História e Organização Política da Alemanha
  • Introdução: O Enigma da Persistência Alemã. No terceiro aniversário da Grande Guerra Europeia, surge uma questão que merece reflexão: por que razão a Alemanha continua a resistir? Apesar do cerco imposto pelos Países Aliados, do acesso facilitado destes ao abastecimento, e do imenso esforço militar e económico despendido, os Impérios Centrais, confinados aos seus próprios recursos, permanecem firmes. Tal resistência não se explica por uma suposta superioridade de raça, mas, antes, por instituições que conferem à Alemanha uma extraordinária capacidade de luta e coesão.
  • O Papel das Instituições na Unidade Alemã. A história demonstra que o individualismo germânico sempre foi fonte de dispersão e anarquia. Contudo, os defeitos inatos da nacionalidade alemã encontraram um remédio decisivo quando uma ideia unificadora — uma organização estatal forte — lhes imprimiu unidade e definiu um destino comum. O caso alemão ilustra como as formas de governo podem alterar o destino das nações, sendo a eficácia do princípio hereditário do poder um fator essencial para o sucesso alemão.
  • A Evolução Histórica: Do Particularismo Germânico à Unificação. Durante a Idade Média, a Alemanha era um mosaico de principados, cidades livres e dioceses soberanas, sob uma autoridade central apenas nominal do Santo Império Romano. A debilidade desse império e o sistema de monarquia eletiva mostraram-se ineficazes, como se verificou também na Polónia e Hungria. Só com o advento da Prússia, impulsionada pelos Hohenzollern, a energia política começou a concentrar-se, promovendo a futura grandeza alemã. A França, por sua vez, contribuiu para a fraqueza alemã ao apoiar os particularismos sob o pretexto das “liberdades” germânicas.
  • Da Prússia ao Império Alemão: O Papel da Hereditariedade. O fortalecimento do Estado prussiano, iniciado por Frederico Guilherme I, bisavô de Frederico II, marca o início de uma continuidade e orientação que permitiram à Prússia — e depois à Alemanha unificada — crescer e consolidar-se. A história da Prússia é a história dos Hohenzollern, cuja liderança culminou com Bismarck, nomeado primeiro-ministro por Guilherme I. Bismarck impôs uma ditadura curta mas decisiva, eliminando ficções constitucionais e preparando o caminho para as vitórias militares e para a proclamação do Império Alemão em 1871.
  • Contradições e Influências: O Liberalismo e a Organização Alemã. A Alemanha, berço de ideias revolucionárias e do individualismo religioso e político, soube expulsar de si mesma tais elementos dissolventes, que acabaram por envenenar a tradição dos países latinos. Enquanto muitos países adotaram o parlamentarismo eletivo e teorias constitucionalistas de raiz germânica, a Alemanha fortaleceu-se ao assimilar o segredo da organização monárquica hereditária, consolidando a sua unidade e capacidade de resistência.
  • Bismarck e o Modelo Prussiano. A orientação política prussiana fundou-se numa combinação entre hierarquia militar e legislação económica, inspirada nas lições de Mommsen sobre a república romana. O cesarismo prussiano, apoiado nestas bases, tornou-se uma força que não poderia ser esmagada externamente sem a destruição do próprio povo alemão. Mesmo os mais avançados politicamente e intelectuais alemães reconhecem a centralidade da monarquia como pilar da resistência nacional.
  • Conclusão: A Resistência Alemã e o Papel da Monarquia. Na Alemanha, quem resiste não é apenas o povo, mas a Monarquia e o seu sistema de organização. As instituições monárquicas, através da hereditariedade, corrigiram as fraquezas históricas do povo alemão, garantindo continuidade governativa e preparação militar — fatores que faltaram aos aliados devido às limitações dos seus regimes parlamentares. Assim, a resposta à persistente resistência alemã reside na sua organização e na força das suas instituições.
  • Reflexão Final. Este caso de filosofia política demonstra que as deficiências dos povos podem ser superadas pela virtude das instituições. A Alemanha, ao adotar o modelo monárquico hereditário, encontrou o caminho para a prosperidade e o predomínio, enquanto os países latinos, ao abraçarem princípios germânicos de organização política, comprometeram a sua própria força.



​PORQUE RESISTE A ALEMANHA?
Na passagem do terceiro aniversário da declaração da grande guerra europeia, não é demais demorarmos um pouco a nossa meditação sobre uma ligeira pergunta: Porque resiste ainda a Alemanha?

Dada a situação periférica dos Países Aliados, dada a extraordinária facilidade do seu abastecimento, e pesando o esforço formidável que, tanto militar como economicamente, têm efectuado, sem dúvida que os Impérios Centrais, fechados num círculo de ferro, entregues de há muito exclusivamente aos seus próprios recursos, não subsistiriam hoje de pé, se uma virtude de raça, ou de instituições, não tornasse a sua energia mais resistente e mais resistente, que a dos seus adversários, a sua extraordinária capacidade de luta.

De qualidades de raça não se trata certamente, porque a lição da história nos ensina o que foi sempre, como fonte perpétua de anarquia, o individualismo estrutural da Germânia. Estaremos antes em frente de um caso de correção étnica e política, em que as leis que presidem à psicologia dos povos serão retificadas por um simples facto de observação. E é ele que os defeitos inatos de uma nacionalidade, pendendo sempre para a dispersão e para o divisionismo, encontram um remédio decisivo quando uma ideia positiva lhes imprime unidade e lhes define um destino superior às suas tendências naturais. Surge aqui o problema da influência das formas de governo na sorte e na prosperidade das nações. Procuremos-lhe nós a resultante e ver-se-á que a Alemanha o que é, na sua prestigiosa obra de engrandecimento, deve-o, mais que à qualidade dos seus filhos, à eficácia manifesta do princípio hereditário do poder.

Com efeito, perdido nos acasos dolorosos da lenta elaboração medieval, o particularismo germânico mostrou-se constantemente adverso a qualquer arranjo de equilíbrio e de unificação. Enxadrezada de principados, de repúblicas hanseáticas, de cidades livres e até de dioceses soberanas, a Alemanha aparece-nos no quadro europeu da civilização como um variado matiz em que o ponto central do desenho reside na autoridade, apenas nominativa, do Santo Império. Na fraqueza do Santo Império, dependente, é certo, de sete votos somente, se verifica a falsidade do sistema eletivo, mesmo quando aplicado ao regime monárquico. Da Monarquia eletiva é vítima a Polónia, da monarquia eletiva é vítima a Hungria. Durante os largos tempos do seu adormecimento, de outra causa não foi também vítima a Alemanha, a quem faltou por muitos séculos essa continuidade na ação monárquica por meio da qual outros países se constituíram em Estados que em seguida se tornaram em nações» – escreve uma opinião insuspeita, a do historiador Lavisse.

Já Frederico II chamava à Alemanha uma «nobre república de príncipes». E com razão observa Jacques Bainville (Histoire de deux peuples) que, até ao sucesso dos Hohenzollerns, a história da Alemanha não é mais que a de uma longa luta entre o princípio da autoridade e o individualismo, entre a monarquia e o espírito republicano». Dificilmente a Alemanha se desembaraçou desse pecado de origem. Só realmente com o advento da Prússia se começa a concentrar a energia política de que resultará a sua futura grandeza. Ninguém mais que os reis de França contribuiu para o enfraquecimento da Alemanha, mantendo sempre sabiamente debaixo do nome ilusório de «liberdades» os diversos particularismos que impossibilitavam a unificação alemã.

É facto que existia o Santo Império. Mas o Santo Império não passava de uma sombra, e a seu respeito Voltaire notava com malicia que, subsistindo sempre o Santo Império, se tornava tão difícil definir a Alemanha como definir o que era esse Império. Por isso alguém caracterizava a Alemanha como uma confusio devinitus conservata.

«Confusão conservada por mão de mestre», ninguém, repito, a motivou e facilitou mais do que a Monarquia Francesa, que veio por fim a intitular-se «protectora da confederação germânica». Não foi outra a política que a França seguiu em Vestfália, restabelecendo, quanto à Alemanha, a divisão territorial, a eleição e o regime mais ou menos parlamentarista, com o direito de intervenção para melhor observância do sistema imposto. Mas um dia a casa de França desapareceu, levada pelo vento doido da Revolução. A hegemonia da Prússia entra a evidenciar-se. E quando já a Alemanha possui o benefício da hereditariedade monárquica, em Versailles a proclamação de Guilherme I como seu Imperador coincide com a derrota da França e com o advento da Terceira-República. Transferira-se o eixo da supremacia política de Paris para Berlim. De assistente, a França passava à condição de assistida. E, afinal, porquê? Porque deixara perder a sua Realeza, consentindo que outros tomassem para si o bem que assim repelia.

É interessante afirmar agora que a alcunhada «civilização latina», tal como o palavreado maçónico a apresenta, nada tem de latina e tem tudo de germânica. A Reforma, nascida do génio confuso e desconexo da Alemanha, é o ventre onde se gera o fermento da Revolução. Compreende-se como o individualismo religioso dá o individualismo político, como o «livre-exame» de Lutero dá a «soberania do povo» de Jean-Jacques Rousseau. Jean-Jacques Rousseau é um calvinista de Genebra e antes dele os Enciclopedistas honram-se com a amizade de Frederico II, o ‘rei-filósofo’, e saúdam na Prússia como que a terra natal do liberalismo nascente. Michelet, mais tarde, é ainda o admirador do reino da Prússia e é com profunda verdade que Jacques Bainville repara «ser divertido ver na hora presente os herdeiros da filosofia do século XVIII protestar contra a invasão da Rússia em nome da justiça, enquanto o antepassado de Guilherme II, apoderando-se da Silésia, obtinha os aplausos dos filósofos». Sucede que a Maçonaria, alma da Revolução e agora erguida contra o bloco militar dos Impérios Centrais, é também a legítima descendente da mesma Alemanha que combate, por derivar proximamente do iluminismo dos doutores de Ingolstadt, com Weisshaupt e outros professores de Direito à sua frente. Completa, como veem.

Pois, concebendo no seu espírito difuso e subversivo tais germes de dissolução social, teve a Alemanha a arte de os expelir do seu organismo, envenenando com eles a nossa superioridade histórica de latinos. Da Alemanha é o princípio eletivo e parlamentar que hoje nos suicida, como, pela formação protestante de Benjamin Constant, da Alemanha nos veio igualmente a peste de grande parte das teorias constitucionalistas. Enquanto assim nos intoxicava, assimilava a Alemanha o segredo da nossa organização e é na hereditariedade monárquica que encontra o início do seu robustecimento. Houve um tempo até, reinando Luís XIV, que a submissão da Alemanha à França ia ao ponto de ser uma honra servir-se no exército daquele Rei e preferia-se à língua materna a língua francesa. Lembramo-nos nós agora que, dois séculos depois, se Nietzsche perturbou a sensibilidade ocidental foi através da França que o traduziu e glosou, numa hora em que os métodos alemães e a ciência germânica triunfavam até dentro da própria Sorbonne, como no-lo atestam as campanhas universitárias de Agathon e de Pierre Lasserre.

Mas eu falava da hereditariedade monárquica e do reino da Prússia. Efetivamente, é aí que se fundamenta a base do florescimento alemão. O reino da Prússia vem de um certo marquês de Brandeburgo, que conseguira fazer-se grande eleitor, apesar de em Westfália os embaixadores da França lhe passarem sempre adiante e lhe chamarem desdenhosamente «Monsieur». Ora esse «Monsieur» era Frederico Guilherme I, bisavô do grande Frederico.

Com ele surge verdadeiramente o Estado prussiano que nos mostra no seu desenvolvimento uma continuidade, na sua orientação uma fixidez e um carácter histórico que, segundo Droysen, só se verificam nos Estados melhor constituídos, nos que eram mais ricos de vida natural. Como a França crescera em glória e em poder, graças a uma dinastia, por virtude de uma dinastia a Prússia ia crescer e fortificar-se. A história da Prússia é a dos Hohenzollern. O pensamento desta família realiza, contra os defeitos inatos do povo alemão, a unificação da Alemanha. Se Monsieur põe a primeira pedra para isso, a última coloca-a, em 1854, Guilherme I ao nomear seu primeiro-ministro um junker da Pomerânia que se chamava Von Bismarck. A Prússia, mal reparada de um movimento revolucionário, oscilava nas sendas tortuosas de um parlamentarismo sem regra. Von Bismarck, sustido unicamente por Guilherme I, estreou-se com uma ditadura que durou dois anos, acabando de vez com todas as ficções constitucionais. «O resultado dessa ditadura não foi uma reforma de secretarias nem uma lei eleitoral: foi Sadowa. Era difícil recusar um bill de indemnidade para Sadowa. Votaram-lho.» E porque lho votaram, a Prússia, marchando rapidamente para o Império, achou a chave segura de todas as suas vitórias posteriores.

Eis porque à singela interrogação: «porque resiste ainda a Alemanha?», nós podemos responder com duas simples palavras: pela sua organização antidemocrática. Geradora da democracia e do liberalismo, a Alemanha salva-se por aqueles mesmos princípios que nós desprezámos, aceitar a sua baixa herança filosófica, sendo para deplorar que nós outros, latinos, passe a expressão, estejamos combatendo com uma mentalidade germânica a ideia latina, em cuja adoção a Alemanha descobriu o caminho mais fácil para a sua prosperidade e para o seu predomínio. Meditemos neste caso de filosofia política. Ele nos explica tanto insucesso e tanta surpresa. E ninguém pense que o regime por que a Alemanha se governa é um regime de ferro, um regime despótico. É unicamente um regime organizado.

A concentração política é corrigida na Alemanha pela descongestão administrativa, ao inverso dos sistemas constitucionais, em que a debilidade política do poder é paralela à compressão tirânica da burocracia. Bismarck recebera profundas direções de Mommsen, o historiador da república romana. Assim se compreende que o cesarismo prussiano se apoie em duas fortes escoras: a hierarquia militar e a legislação económica. Declamam – e declamam inutilmente – os que supõem o povo alemão escravizado por ele! «É necessário que se saiba que o cesarismo alemão não pode ser esmagado por uma força exterior, sem que se esmague com ele o próprio povo alemão» – declarava num dos seus recentes manifestos Scheidemann, antigo vice-presidente do Reichstag e membro do comité diretor da Sozialdemokratic.

Tal é na Alemanha a linguagem dos mais avançados. A dos sábios e a dos cultos exprime-se no voto de Dubois-Raymond, ao declarar que os «universitários devem constituir as guardas de corpo intelectuais dos Hohenzolern». Acontece isto na Alemanha, o berço clássico do individualismo! E acontece porquê? Porque as deficiências dos povos são corrigidas pela virtude das instituições. As instituições monárquicas, pelo benefício da hereditariedade – insisto –, curaram a Alemanha das consequências do seu passado inconsistente e anárquico. Cá está o motivo por que na Alemanha não é a Alemanha propriamente quem resiste. Quem resiste na Alemanha é a Monarquia. O que seria, pois, o esforço admirável dos Aliados se não lhe faltasse, pelos embaraços parlamentares da mentira democrática, essa preparação militar e essa continuidade governativa que só na Monarquia se encontra, como a nação alemã nos demonstra com a sua resistência espantosa?
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Agosto, 1917.
 

[ negritos acrescentados ]
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​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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