O 'Milagre' de Ourique
António Sardinha
O 'Milagre' de Ourique: Símbolo de Identidade Nacional
O 'Milagre' de Ourique e a Identidade Nacional. António Sardinha aborda o chamado "milagre" de Ourique, não apenas como um possível acontecimento histórico, mas, sobretudo, como um mito fundador que se tornou elemento central para a identidade e esperança do povo português. Sardinha sugere que, independentemente da veracidade do evento, o seu valor simbólico foi decisivo para o fortalecimento do espírito nacional em momentos críticos da história de Portugal. O ponto principal não reside em comprovar se a aparição milagrosa de Cristo a D. Afonso Henriques efetivamente ocorreu, mas sim em reconhecer que a tradição do milagre de Ourique se revestiu de um profundo significado social para o país.
O Valor do Mito na Psicologia Coletiva. Sardinha defende que o mito não deve ser encarado como mera utopia ou ficção, mas sim como expressão de uma vontade coletiva energicamente assumida. Neste sentido, o mito funciona como motor das aspirações nacionais, encarnando o desejo de unidade, grandeza e permanência da nação portuguesa. Sardinha propõe que o milagre de Ourique deve ser entendido à luz da psicologia coletiva e do papel dos mitos na história dos povos, destacando que não há povo próspero sem sentimentos profundos traduzidos por ideais, religiões ou mitos. Assim, a crença no milagre de Ourique serviu como poderoso incentivo moral, permitindo ao país superar momentos de crise e decadência, renovando a confiança no seu destino e missão histórica.
A Persistência do Mito na História de Portugal. O texto exemplifica como, ao longo dos séculos, o mito de Ourique foi mobilizado em diferentes contextos: desde a resistência à dominação espanhola, passando pelas profecias do Bandarra e a literatura messiânica, até à luta pela restauração da independência em 1640. Sardinha salienta que o mito está presente tanto em argumentos jurídicos quanto em obras de natureza histórica e profética, consolidando-se como fundamento da legitimidade e sobrevivência nacional. A tradição do milagre de Ourique é associada à religião da Esperança, encontrando no símbolo do Encoberto e no Sebastianismo a expressão máxima dessa fé coletiva, que alimentou a coragem e a esperança dos portugueses especialmente durante o domínio filipino.
A Relevância do Mito para o Futuro Nacional. Para Sardinha, a lição fundamental do mito de Ourique reside na sua capacidade de unir e fortalecer o povo português. O autor argumenta que, desde que a crença neste mito se dissipou, perdeu-se também o sentido coletivo da vida nacional. Ele propõe que o regresso a esse estado de espírito é condição necessária para que Portugal possa voltar a erguer-se e afirmar-se no futuro. O milagre de Ourique é apresentado como símbolo sempre presente da esperança, vocação e missão de Portugal, cuja atualização depende do esforço e da fé das gerações presentes e futuras.
A Atualização do Espírito de Ourique. António Sardinha conclui que, para enfrentar os desafios do presente e garantir a sobrevivência da identidade nacional, é fundamental renovar o espírito do milagre de Ourique. Sugere que a força vital da nação reside na capacidade de acreditar no seu destino e missão histórica, e que a atualização desse mito deve ser uma tarefa permanente, alimentando a esperança e a coragem necessárias para enfrentar as adversidades e garantir o futuro de Portugal.
O Valor do Mito na Psicologia Coletiva. Sardinha defende que o mito não deve ser encarado como mera utopia ou ficção, mas sim como expressão de uma vontade coletiva energicamente assumida. Neste sentido, o mito funciona como motor das aspirações nacionais, encarnando o desejo de unidade, grandeza e permanência da nação portuguesa. Sardinha propõe que o milagre de Ourique deve ser entendido à luz da psicologia coletiva e do papel dos mitos na história dos povos, destacando que não há povo próspero sem sentimentos profundos traduzidos por ideais, religiões ou mitos. Assim, a crença no milagre de Ourique serviu como poderoso incentivo moral, permitindo ao país superar momentos de crise e decadência, renovando a confiança no seu destino e missão histórica.
A Persistência do Mito na História de Portugal. O texto exemplifica como, ao longo dos séculos, o mito de Ourique foi mobilizado em diferentes contextos: desde a resistência à dominação espanhola, passando pelas profecias do Bandarra e a literatura messiânica, até à luta pela restauração da independência em 1640. Sardinha salienta que o mito está presente tanto em argumentos jurídicos quanto em obras de natureza histórica e profética, consolidando-se como fundamento da legitimidade e sobrevivência nacional. A tradição do milagre de Ourique é associada à religião da Esperança, encontrando no símbolo do Encoberto e no Sebastianismo a expressão máxima dessa fé coletiva, que alimentou a coragem e a esperança dos portugueses especialmente durante o domínio filipino.
A Relevância do Mito para o Futuro Nacional. Para Sardinha, a lição fundamental do mito de Ourique reside na sua capacidade de unir e fortalecer o povo português. O autor argumenta que, desde que a crença neste mito se dissipou, perdeu-se também o sentido coletivo da vida nacional. Ele propõe que o regresso a esse estado de espírito é condição necessária para que Portugal possa voltar a erguer-se e afirmar-se no futuro. O milagre de Ourique é apresentado como símbolo sempre presente da esperança, vocação e missão de Portugal, cuja atualização depende do esforço e da fé das gerações presentes e futuras.
A Atualização do Espírito de Ourique. António Sardinha conclui que, para enfrentar os desafios do presente e garantir a sobrevivência da identidade nacional, é fundamental renovar o espírito do milagre de Ourique. Sugere que a força vital da nação reside na capacidade de acreditar no seu destino e missão histórica, e que a atualização desse mito deve ser uma tarefa permanente, alimentando a esperança e a coragem necessárias para enfrentar as adversidades e garantir o futuro de Portugal.
O 'MILAGRE' DE OURIQUE
Nós não cuidamos de saber se nessa madrugada alta de Julho a imagem de Jesus-Crucificado se destacou da luz hesitante da aurora e se sobre as asperezas extáticas de uma charneca a palavra divina se ouviu, serena e forte, confiando a novas gentes a instituição de novo reino. Nem vem para aqui igualmente o debate do largo problema que à volta do feito de Ourique traz de há muito entretidos eruditos e academias. O que nos importa agora é salientar, na permanência de uma tradição que aparece envolta pelo halo doirado da lenda como o baptismo da nacionalidade, a importância do seu significado histórico, de influência decisiva na vida e grandeza de Portugal.
Não podemos hoje encarar a questão do milagre de Ourique com o critério exterior, todo frio e circunscrito, através do qual Alexandre Herculano a encarou. Herculano, com os preconceitos da sua época, nem sequer hesitou em a denunciar como uma fraude habilidosa da nossa antiga mentalidade monástica. Então ainda a psicologia se não constituíra como regra intelectual. E por mais que às vezes se abuse do seu alcance, não há dúvida que na questão do milagre de Ourique ela nos fornece uma ampla e inesperada claridade.
Por efeito das suas luzes, nós verificamos que o milagre de Ourique, tão nitidamente gravado em horas difíceis na consciência de Portugal, não seria mais que um ‘mito’, mas um ‘mito’ com o valor social que Georges Sorel atribui aos mitos. O mito – diz o filósofo das Réfléxions sur la violence – é uma expressão de vontades energicamente tomadas e não, como a utopia, a tradução subjectiva de uma vaga inquietação sentimental. É nos mitos que as aspirações fortemente vincadas da alma colectiva se encarnam e consubstanciam, procurando projectar-se mais ao largo, no tempo e no espaço, cheias do desejo veemente que lhes imprime unidade e duração.
Assim, «não existe na história nenhum povo grande, forte, próspero, no qual não se descubram os sentimentos profundos e activos que se revelam por um ideal, uma religião, um mito, uma fé», escreve Vilfredo Pareto. «Todo o povo em quem estes sentimentos se enfraquecem está em via de decadência. Muitos povos pequenos tornaram-se grandes porque tinham fé em si próprios. Um povo que perde essa fé encontra-se próximo da ruína.» E Pareto acrescenta: «Abandonai a história, se a observação vos agrada mais; e vêde o papel considerável que ainda desempenham actualmente o mito da grande Alemanha, e o mito dos antepassados, da dinastia e da pátria, nos Japoneses vitoriosos. Por toda a parte encontrareis fenómenos semelhantes, por toda a parte e sobre motivos sem valor lógico e absurdos tantas vezes, vós encontrareis esses sentimentos que são a grande força donde resulta a forma e o desenvolvimento das sociedades.»
A transcrição de Vilfredo Pareto entrega-nos a interpretação positiva do ‘milagre’ de Ourique. Cientificamente não dispomos de dados para o negar em absoluto, apesar de documentalmente só no século XV o começarmos a achar referido. No entanto, não nos é lícito reputá-lo com inteligência leviana como uma fraude simples de monges. A noção do valor social dos mitos explica-nos como a crença unânime da nacionalidade nas promessas de Cristo a Afonso Henriques se manifestou sempre um poderoso incentivo moral nas decaídas frequentes que o nosso país sofreu e de que conseguiu acordar, puxado as mais das vezes por uma energia tão repentina como surpreendente. É que no milagre de Ourique traduziu-se a confiança de Portugal no seu destino imorredoiro. Nele tomava corpo concreto a vocação histórica da nacionalidade. Eis porque o ‘milagre’ de Ourique é um dos aspectos mais vincados da religião da Esperança, filha do lirismo admirável da nossa raça e que no símbolo profundo do Encoberto depositou a maior das suas criações.
Arrastado pelo ridículo e pela sátira, o Sebastianismo, graças ainda à intervenção da crítica psicológica na história, apresenta-se para nós como uma virtude – e nunca como um defeito – do temperamento nacional. Quem se debruçou sobre as páginas tristes do governo filipino, sente palpitar aí a faúlha ardente desse evangelho de redenção. É o momento em que, nas celas pensativas de Alcobaça, Frei Bernardo de Brito, tão caluniado como incompreendido, reelabora em proveito dos nossos pergaminhos de povo as miragens eruditas da Renascença. Não inventa Frei Bernardo de Brito nem a vinda de Túbal, neto de Noé, às Espanhas, nem o parentesco lustroso dos lusitanos com os deuses do Olimpo, por parte de Lísias, filho de Baco. Unicamente, dando à estampa, durante o domínio castelhano, a Monarquia Lusitana, reivindica para Portugal, sobre os falsos cronicones de Frei Ânio de Viterbo e de Florián de Ocampo, os seus direitos sagrados de nação, bem anteriores às pretensões de Castela, firmadas na suposta doação de Afonso VI à nossa D. Tareja.
Toda a reabilitação de Frei Bernardo de Brito está numa passagem, mas passagem profunda, do Manifesto do Reino de Portugal presentado à Santidade de Urbano VIII N.S., em que as «três Nações, Portuguesa, Francesa, Catalã, mostram o direito com que el-rei Dom João IIII, Nosso Senhor, possui seus Reinos, & Senhorios de Portugal, e as razões, que há para se receber por seu Embaixador o Ilustríssimo Bispo de Lamego» (Lisboa, 1643). Pois num documento de alcance tão importante e de tão transcendente gravidade se afirma e declara com a seriedade de uma alegação poderosíssima a nosso favor: «... Portugal em todos os séculos se governou como supremo, & ilustrado sempre com o título de Reino: Frei Bernardo de Brito raconta muitos Reis antes da vinda de Cristo.»
Mas a índole da Monarquia Lusitana mais se justifica se nos lembrarmos que, em todas as apologias redigidas pelos jurisconsultos seiscentistas em defesa da nossa emancipação, o milagre de Ourique nos surge inalteravelmente ao lado dos inevitáveis textos do bom direito cesáreo ou canónico, testemunhando a instituição do Reino como um sucesso de origem divina.
No milagre de Ourique – nesse mito formidável que exprime a resistência secular do nosso país à ameaça contínua da absorção espanhola e a certeza inabalável de uma missão superior a cumprir – nós vemos as raízes místicas das profecias do Bandarra, que são uma revivescência atávica da poesia profética de Merlim, da falsificação sincera das Côrtes de Lamego, do Juramento de D. Afonso Henriques e de quantas peças de estrutura idêntica prepararam e robusteceram no inconsciente da nacionalidade o arranco libertador de 1640.
Já se entende agora como João Pinto Ribeiro, entre folhudos argumentos jurídicos, se socorra da Visão de Esdras para encontrar nas Escrituras o Quinto Império do Mundo personificado em Portugal. De igual maneira se entende já a História do Futuroe a Clavis Prophetarum do Padre António Vieira – o Sonho consorciado com a Acção. E não nos admiremos de se topar na Lusitania liberata, de António de Sousa Macedo, ou nos Princípios do Reino de Portugal, de António Pais Viegas, o milagre de Ourique representado em gravuras mais ou menos perfeitas, com o «Volo in te et in semine tuo imperium mihi stabilire», descendo da boca de Cristo para a figura prostrada do nosso primeiro monarca. Eis o que Alexandre Herculano não percebeu, vítima dos vícios mentais da sua época, mas que a interpretação filosófica que dos mitos nos oferece Georges Sorel nos leva a aceitar, já debaixo de um outro critério.
Vendo, pois, no milagre de Ourique a confiança da nacionalidade na sua sobrevivência imortal, o exame rápido da nossa história nos ensina que os factos correspondem realmente a tal interpretação. Não acontece outra coisa em Seiscentos. É o que acontece na insurreição geral do País contra os Franceses. E na crise orgânica da nacionalidade pela derrota do Miguelismo, é ainda o milagre de Ourique que anima e eleva as esperanças caídas dos últimos depositários da tradição nacional. Desde que a crença no milagre de Ourique se dissipou, dissipou-se a crença na nossa finalidade, nunca mais houve um sentido colectivo na nossa vida de povo. É necessário regressarmos ao estado de espírito que, como vocação social, o milagre de Ourique significa, se quisermos levantar a cabeça e sermos alguém no futuro!
É a lição que tiramos da guerra actual, no renascimento fortíssimo do instinto nacionalista por toda a parte. A «mística» é hoje o mais vivo e o mais rico agente psicológico dos povos em luta. Lembra-se a França da sua predestinação para a vitória no «Vivat qui Francos diligit Christus!» do intróito da lei sálica ou do Gesta Dei per Francos dos velhos cronicões medievos. A Alemanha excede-se a si mesma, cheia das presunções teóricas do pan-germanismo, que, através da obra de Woltman e de Chamberlain, consagra o homem loiro como o herdeiro do Ária, raptor orbis, e o único fadado para o domínio do universo. E nós? Nós, de que força vital nos ajudamos na hora baça que descai sobre a nacionalidade? Ajudêmo-nos do pensamento secular dos nossos Maiores, em nome dos que lá longe morrem batendo-se, e para fortaleza daqueles que dormem ainda no berço, não deixando soçobrar, nem na fé nem na coragem, esta nossa Pátria querida que, não cabendo mais na terra, até de Deus tirou o seu nascimento gloriosíssimo. Renovemos assim pelo esforço unânime de todos num só o milagre passado de Ourique, sempre presente na nossa história, para quem a souber meditar e sentir!
Não podemos hoje encarar a questão do milagre de Ourique com o critério exterior, todo frio e circunscrito, através do qual Alexandre Herculano a encarou. Herculano, com os preconceitos da sua época, nem sequer hesitou em a denunciar como uma fraude habilidosa da nossa antiga mentalidade monástica. Então ainda a psicologia se não constituíra como regra intelectual. E por mais que às vezes se abuse do seu alcance, não há dúvida que na questão do milagre de Ourique ela nos fornece uma ampla e inesperada claridade.
Por efeito das suas luzes, nós verificamos que o milagre de Ourique, tão nitidamente gravado em horas difíceis na consciência de Portugal, não seria mais que um ‘mito’, mas um ‘mito’ com o valor social que Georges Sorel atribui aos mitos. O mito – diz o filósofo das Réfléxions sur la violence – é uma expressão de vontades energicamente tomadas e não, como a utopia, a tradução subjectiva de uma vaga inquietação sentimental. É nos mitos que as aspirações fortemente vincadas da alma colectiva se encarnam e consubstanciam, procurando projectar-se mais ao largo, no tempo e no espaço, cheias do desejo veemente que lhes imprime unidade e duração.
Assim, «não existe na história nenhum povo grande, forte, próspero, no qual não se descubram os sentimentos profundos e activos que se revelam por um ideal, uma religião, um mito, uma fé», escreve Vilfredo Pareto. «Todo o povo em quem estes sentimentos se enfraquecem está em via de decadência. Muitos povos pequenos tornaram-se grandes porque tinham fé em si próprios. Um povo que perde essa fé encontra-se próximo da ruína.» E Pareto acrescenta: «Abandonai a história, se a observação vos agrada mais; e vêde o papel considerável que ainda desempenham actualmente o mito da grande Alemanha, e o mito dos antepassados, da dinastia e da pátria, nos Japoneses vitoriosos. Por toda a parte encontrareis fenómenos semelhantes, por toda a parte e sobre motivos sem valor lógico e absurdos tantas vezes, vós encontrareis esses sentimentos que são a grande força donde resulta a forma e o desenvolvimento das sociedades.»
A transcrição de Vilfredo Pareto entrega-nos a interpretação positiva do ‘milagre’ de Ourique. Cientificamente não dispomos de dados para o negar em absoluto, apesar de documentalmente só no século XV o começarmos a achar referido. No entanto, não nos é lícito reputá-lo com inteligência leviana como uma fraude simples de monges. A noção do valor social dos mitos explica-nos como a crença unânime da nacionalidade nas promessas de Cristo a Afonso Henriques se manifestou sempre um poderoso incentivo moral nas decaídas frequentes que o nosso país sofreu e de que conseguiu acordar, puxado as mais das vezes por uma energia tão repentina como surpreendente. É que no milagre de Ourique traduziu-se a confiança de Portugal no seu destino imorredoiro. Nele tomava corpo concreto a vocação histórica da nacionalidade. Eis porque o ‘milagre’ de Ourique é um dos aspectos mais vincados da religião da Esperança, filha do lirismo admirável da nossa raça e que no símbolo profundo do Encoberto depositou a maior das suas criações.
Arrastado pelo ridículo e pela sátira, o Sebastianismo, graças ainda à intervenção da crítica psicológica na história, apresenta-se para nós como uma virtude – e nunca como um defeito – do temperamento nacional. Quem se debruçou sobre as páginas tristes do governo filipino, sente palpitar aí a faúlha ardente desse evangelho de redenção. É o momento em que, nas celas pensativas de Alcobaça, Frei Bernardo de Brito, tão caluniado como incompreendido, reelabora em proveito dos nossos pergaminhos de povo as miragens eruditas da Renascença. Não inventa Frei Bernardo de Brito nem a vinda de Túbal, neto de Noé, às Espanhas, nem o parentesco lustroso dos lusitanos com os deuses do Olimpo, por parte de Lísias, filho de Baco. Unicamente, dando à estampa, durante o domínio castelhano, a Monarquia Lusitana, reivindica para Portugal, sobre os falsos cronicones de Frei Ânio de Viterbo e de Florián de Ocampo, os seus direitos sagrados de nação, bem anteriores às pretensões de Castela, firmadas na suposta doação de Afonso VI à nossa D. Tareja.
Toda a reabilitação de Frei Bernardo de Brito está numa passagem, mas passagem profunda, do Manifesto do Reino de Portugal presentado à Santidade de Urbano VIII N.S., em que as «três Nações, Portuguesa, Francesa, Catalã, mostram o direito com que el-rei Dom João IIII, Nosso Senhor, possui seus Reinos, & Senhorios de Portugal, e as razões, que há para se receber por seu Embaixador o Ilustríssimo Bispo de Lamego» (Lisboa, 1643). Pois num documento de alcance tão importante e de tão transcendente gravidade se afirma e declara com a seriedade de uma alegação poderosíssima a nosso favor: «... Portugal em todos os séculos se governou como supremo, & ilustrado sempre com o título de Reino: Frei Bernardo de Brito raconta muitos Reis antes da vinda de Cristo.»
Mas a índole da Monarquia Lusitana mais se justifica se nos lembrarmos que, em todas as apologias redigidas pelos jurisconsultos seiscentistas em defesa da nossa emancipação, o milagre de Ourique nos surge inalteravelmente ao lado dos inevitáveis textos do bom direito cesáreo ou canónico, testemunhando a instituição do Reino como um sucesso de origem divina.
No milagre de Ourique – nesse mito formidável que exprime a resistência secular do nosso país à ameaça contínua da absorção espanhola e a certeza inabalável de uma missão superior a cumprir – nós vemos as raízes místicas das profecias do Bandarra, que são uma revivescência atávica da poesia profética de Merlim, da falsificação sincera das Côrtes de Lamego, do Juramento de D. Afonso Henriques e de quantas peças de estrutura idêntica prepararam e robusteceram no inconsciente da nacionalidade o arranco libertador de 1640.
Já se entende agora como João Pinto Ribeiro, entre folhudos argumentos jurídicos, se socorra da Visão de Esdras para encontrar nas Escrituras o Quinto Império do Mundo personificado em Portugal. De igual maneira se entende já a História do Futuroe a Clavis Prophetarum do Padre António Vieira – o Sonho consorciado com a Acção. E não nos admiremos de se topar na Lusitania liberata, de António de Sousa Macedo, ou nos Princípios do Reino de Portugal, de António Pais Viegas, o milagre de Ourique representado em gravuras mais ou menos perfeitas, com o «Volo in te et in semine tuo imperium mihi stabilire», descendo da boca de Cristo para a figura prostrada do nosso primeiro monarca. Eis o que Alexandre Herculano não percebeu, vítima dos vícios mentais da sua época, mas que a interpretação filosófica que dos mitos nos oferece Georges Sorel nos leva a aceitar, já debaixo de um outro critério.
Vendo, pois, no milagre de Ourique a confiança da nacionalidade na sua sobrevivência imortal, o exame rápido da nossa história nos ensina que os factos correspondem realmente a tal interpretação. Não acontece outra coisa em Seiscentos. É o que acontece na insurreição geral do País contra os Franceses. E na crise orgânica da nacionalidade pela derrota do Miguelismo, é ainda o milagre de Ourique que anima e eleva as esperanças caídas dos últimos depositários da tradição nacional. Desde que a crença no milagre de Ourique se dissipou, dissipou-se a crença na nossa finalidade, nunca mais houve um sentido colectivo na nossa vida de povo. É necessário regressarmos ao estado de espírito que, como vocação social, o milagre de Ourique significa, se quisermos levantar a cabeça e sermos alguém no futuro!
É a lição que tiramos da guerra actual, no renascimento fortíssimo do instinto nacionalista por toda a parte. A «mística» é hoje o mais vivo e o mais rico agente psicológico dos povos em luta. Lembra-se a França da sua predestinação para a vitória no «Vivat qui Francos diligit Christus!» do intróito da lei sálica ou do Gesta Dei per Francos dos velhos cronicões medievos. A Alemanha excede-se a si mesma, cheia das presunções teóricas do pan-germanismo, que, através da obra de Woltman e de Chamberlain, consagra o homem loiro como o herdeiro do Ária, raptor orbis, e o único fadado para o domínio do universo. E nós? Nós, de que força vital nos ajudamos na hora baça que descai sobre a nacionalidade? Ajudêmo-nos do pensamento secular dos nossos Maiores, em nome dos que lá longe morrem batendo-se, e para fortaleza daqueles que dormem ainda no berço, não deixando soçobrar, nem na fé nem na coragem, esta nossa Pátria querida que, não cabendo mais na terra, até de Deus tirou o seu nascimento gloriosíssimo. Renovemos assim pelo esforço unânime de todos num só o milagre passado de Ourique, sempre presente na nossa história, para quem a souber meditar e sentir!
[ In António Sardinha, Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos [1917-1919], edição de 1926.]