A batalha do Buçaco
António Sardinha
A Batalha do Buçaco: Crítica à Aliança Luso-Britânica e a Resistência Portuguesa
- Introdução. António Sardinha apresenta aqui uma reflexão sobre a aliança entre Portugal e a Inglaterra, analisando os seus impactos sobre a soberania nacional e o papel dos portugueses durante a Batalha do Buçaco. Destaca episódios históricos fundamentais, questiona a dependência de Portugal face à Inglaterra e reivindica o justo reconhecimento dos soldados portugueses.
- A Origem e a Evolução da Aliança Luso-Britânica. A aliança entre Portugal e Inglaterra surgiu num contexto de perda da hegemonia marítima portuguesa, funcionando como resposta à ameaça de incorporação em Castela. Sardinha destaca que o Tratado de Methuen, assinado por D. Pedro II, não deve ser visto como traição ao interesse nacional, mas sim como uma estratégia de sobrevivência e garantia da independência portuguesa num cenário internacional desfavorável. Mais tarde, a necessidade desta aliança intensificou-se devido ao expansionismo da França e perante uma Espanha hostil, levando Portugal a procurar proteção junto da Inglaterra para salvaguardar a sua integridade territorial e colonial.
- Análise Crítica dos Benefícios e Prejuízos da Aliança. Sardinha adota um olhar crítico sobre a real vantagem da aliança para Portugal, sobretudo a partir da Revolução Francesa e das invasões napoleónicas. Segundo Sardinha, os benefícios para Portugal foram meramente hipotéticos. Episódios como a perda de Olivença na guerra dos Quinze-Dias, a Convenção de Sintra e a omissão inglesa na restituição de territórios perdidos ilustram a falta de compromisso do aliado. Sardinha sublinha que a Inglaterra agiu sempre de acordo com os seus interesses, não hesitando em sacrificar Portugal.
- O Papel dos Soldados Portugueses na Batalha do Buçaco. António Sardinha critica veementemente a subestimação do papel dos soldados portugueses na Batalha travada em 27 de Setembro de 1810. Embora a presença inglesa fosse relevante, salienta ter sido a resistência e o sacrifício dos portugueses a travar o avanço de Napoleão na Península Ibérica, protegendo não só Portugal, mas também, indiretamente, a própria Inglaterra. Sardinha denuncia a tendência de obscurecer a ação nacional, salientando que, sem o esforço português, a Inglaterra teria sucumbido face ao poderio francês.
- Memória e Reconhecimento Nacional. Sardinha defende a necessidade de valorizar e recordar o contributo português, especialmente em momentos de celebração histórica, como o aniversário da Batalha do Buçaco. Considera essencial que a resistência e o esforço dos portugueses sejam enaltecidos, para que o país não perca o reconhecimento devido àqueles que, pela sua coragem e abnegação, garantiram a autonomia e a dignidade nacional.
- Conclusão. O verdadeiro salvador da independência portuguesa foi o povo e os soldados nacionais, não a aliança com a Inglaterra. A crítica de Sardinha serve como apelo à memória coletiva para que valorize o seu passado e os protagonistas da sua história, em vez de atribuir a outros o mérito que é, em primeiro lugar, dos portugueses.
A BATALHA DO BUSSACO
Travou-se a batalha do Buçaco a 27 de setembro de 1810. E não sei que trágica situação aproxima Portugal de interrogações idênticas às que precederam essa jornada gloriosa da nossa raça. Se não olhássemos ao passado e não acreditássemos, pelos exemplos da história, na persistência admirável do nosso génio nacional, motivos de sobra haveria para nos julgarmos perdidos, tanto hoje, no presente, como então, às vésperas daquele Setembro de ruidosa epopeia. A Europa convulsionava-se, da mesma forma, num delírio sangrento. Da mesma forma o nosso destino dependia mais de um imprevisto favor da sorte do que de uma realidade segura e indiscutível. Tínhamos, contudo, o que não temos agora: uma dinastia que, encarnando na legitimidade do seu interesse a legitimidade dos interesses sagrados da nossa pátria, foi, depois, no ajuste final das contas, o único elemento positivo que encontrámos por nós decididamente. Ligava-nos, é certo, à Inglaterra uma apertada aliança defensiva e ofensiva. Mas é sobre semelhante aliança, nos seus benefícios mais que hipotéticos, que a batalha do Buçaco nos convida a meditar.
Não há erro maior do que o erro que supõe ser a tradição a razão mais forte para a defesa de uma aliança política. Em política internacional a conveniência de um momento não é a conveniência do momento seguinte. Se os regimes tradicionalistas o são pelo reconhecimento da natureza estável das instituições firmadas numa larga continuidade histórica, já igual princípio se não deve invocar para que uma aliança se sustente e consolide pela exclusiva circunstância de ser tradicional. O que pode ser tradicional é a causa em que essa aliança porventura se fundamente. O meio de a realizar varia, porém, de século para século, de instante para instante, embora o facto que a determina subsista em si. A aliança inglesa precisa de ser revista à luz deste critério. E sem me atrever a discordar das indicações superiores que lhe aconselham a oportunidade, verifiquemos nós se, como meio, ela correspondeu sempre ao ponto de vista tradicional da política dos nossos reis. Não existe ocasião mais própria para o fazer do que o aniversário da batalha do Buçaco.
Ninguém ignora que a aliança de Portugal com a Inglaterra nasceu, principalmente, da necessidade de nós resistirmos, como nação peninsular, à incorporação castelhana e de, suplantada a nossa hegemonia marítima quando a Inglaterra a adquiria plenamente, obtermos assim a conservação do nosso domínio colonial. Não examinemos aqui a genealogia desse ato diplomático dos nossos monarcas, que muitos levam até à vinda dos ingleses no tempo de D. Fernando, se por acaso não remontam mais longe, ao auxílio dos cruzados do Norte em tanta conquista dos alvores da nacionalidade. Mas uma tal intervenção, a aceitar-se como intervenção, não significa em nada uma ideia política donde se haja de inferir com solidez a tão declamada existência secular da nossa aliança com a Inglaterra. Trata-se de um simples concurso de tropas mercenárias. São episódios do borborinho medievo, que, a ressuscitarem-se, não encheriam de lustre os pergaminhos da Grã-Bretanha. Já não falo das cenas de carnagem e de rapina, que enodoam os feitos militares da primeira dinastia, de que participaram cruzados ingleses. Basta lembrar que no saque de Silves cometeram inúmeras atrocidades, a ponto de D. Sancho I os mandar expulsar pelos nossos soldados. E é sabido como Fernão Lopes, na Crónica d’El-rei D. Fernando, alude às «maneiras que os ingleses tinham com os moradores do Reino».
Mais tarde, no século XVII, é que o pensamento de uma aliança com a Inglaterra se define e assenta como exigência imperiosa da nossa livre vida de povo. Contra o engrandecimento da Espanha, a França era a nossa aliada natural, inimiga por sistema e finalidade da política imperialista da Casa de Áustria. Richelieu apoiou-nos com persistência na insurreição de que veio resultar 1640. E, apesar das tortuosidades de Mazarino e de nos terem abandonado no congresso de Munster, a França não nos desprezou inteiramente, como se prova pelo casamento de Afonso VI com Mademoiselle de Aumale. A guerra da sucessão da Espanha é que modificou as nossas condições de existência externa. A subida do duque de Anjou ao trono de São Fernando uniu a Espanha à França, justificando-se desta forma o dito de Luís XIV: «Já não há Pirinéus!»
A política tão increpada de D. Pedro II, e da qual derivou o tratado de Methuen, como mal menor, toma para nós agora um outro sentido. Não nos podíamos mais encostar a Versailles, desde que em Madrid reinava um Bourbon, que, forte da aspiração política da casa de França, ressurgiria, quanto a Portugal, o fio interrompido da cobiça castelhana. É então que D. Pedro se atira para os braços da Inglaterra, sem outro recurso internacional de subsistir como soberano independente que não fosse esse. De resto, os ingleses achavam-se já senhores dos mares, cujo domínio nós perdêramos durante o parêntesis filipino. Eis porque o tratado de Methuen não representa de maneira nenhuma uma quebra do interesse nacional, pois só em nome dele e para sua salvaguarda El-Rei D. Pedro II o negociou.
Por aqui se conclui que, no dia em que a Espanha abdicasse de uma pretensão, tão estulta como inviável, de nos absorver, e quando a nossa indispensável aliança com o Brasil se tornasse possível sem que as nossas responsabilidades para com a Inglaterra saíssem diminuídas do novo arranjo diplomático, novos fatores entrariam na composição da nossa política internacional, sem que se suspendesse com eles o seu fito tradicional. D. João V entendeu-o certamente assim, ao promover o casamento do príncipe herdeiro com D. Mariana Vitória e o da nossa infanta D. Bárbara com o futuro Fernando VI de Espanha. Pombal, porém, regressa ao rumo anterior da aliança inglesa, o que nos valeu a invasão espanhola por ocasião do chamado ‘Pacto-de-Família’ e nos ia custando a transferência da Corte para o Rio de Janeiro.
A aliança com a Inglaterra adquire depois a sua maior intensidade nos princípios do século XIX com a crise europeia, aberta pela Revolução Francesa. Erradamente, a Espanha não quis convencer-se que, por instituições e interesses, Portugal constituía o seu único aliado natural. Em seguida à desastrosa campanha do Rossilhão, a Espanha atraiçoa-nos e entrega-se contra nós às cabalas do Primeiro Cônsul. Vingava a política do intriguista Godoy. As consequências colheram-se em 1801, na guerra dos Quinze-Dias, em que nos esbulharam de Olivença e seu termo, não sendo outra a causa dessa expedição sem nome senão a nossa fidelidade aos compromissos com a Inglaterra. Desde então, Portugal achou-se irremediavelmente condenado pela ambição napoleónica. A Inglaterra como tal nos julgou, não cuidando no tratado de Amiens, em que se restabelecia a paz geral, de reivindicar para nós o território que nos tinham arrancado em Badajoz.
Em 1804 Napoleão coroa-se imperador. É difícil apreciar com duas penadas o dilema embaraçoso em que Portugal se encontrou, trabalhado por duas forças opostas: o partido francês e o partido inglês. O partido inglês impunha a guerra. O partido francês defendia a neutralidade. Ambos mais ou menos inspirados pela ambição estrangeira, levaram-nos nas suas divergências quase à beira da morte. Salvou-nos da ruína da independência a retirada do Príncipe-Regente para o Brasil, que além de ser desde D. João IV um princípio assente da nossa política dinástica, resultou mais proximamente da convenção secreta, realizada em Londres aos 22 de Outubro de 1807 e ratificada pelo futuro D. João VI logo a 8 do mês seguinte.
Não é a fuga desordenada que o romantismo dos nossos historiadores nos pinta e que o ódio jacobino tanto explora. D. João VI, se ficasse, caía nas mãos de Junot, e o que sucedeu em Bayona à família real espanhola, sucederia igualmente à nossa. Em poder de Napoleão os representantes da dinastia portuguesa, teríamos em Lisboa um rei de encomenda, marca Bonaparte, indo-se toda a probabilidade de recuperarmos a autonomia, com o esfacelo inevitável das nossas colónias, tanto mais que, enquanto se negociava a paz de Amiens, o negociador inglês claramente o indicava. «Se o Primeiro-Cônsul invadir os estados de Portugal na Europa –respondia a Napoleão Lord Hawkesbury –, a Inglaterra invadirá os estados ultramarinos de Portugal.» Não admira por isso que em 1809 se acusasse publicamente no parlamento inglês o ministério que aconselhara a retirada de D. João VI para o Brasil, em lugar de aproveitar a invasão francesa para ocupar aquela extensa parte do nosso império colonial...
Conta-se nos Apontamentos para a história diplomática de Portugal desde 1826 até 1834, que Lord Grey, chefe do gabinete britânico, dissera de uma vez ao nosso ministro Morais Sarmento: «Desenganem-se todos que o governo inglês não tem predileção por nenhum governo estrangeiro, nem por nenhuma família reinante: as suas relações têm somente por fim promover os nossos interesses nacionais.» Nada mais compreensível nem mais humano, afinal! Foi o ponto de vista que a Inglaterra timbrou em servir à risca nas campanhas da Península. Quando sir Artur Wellesley desembarca nas nossas costas, já Portugal está levantado em massa contra os franceses. Por toda a parte a defesa se organiza, por intermédio de juntas provisórias e locais. O intuito de Wellesley não era auxiliar-nos. Consistia em apoderar-se de Lisboa e em socorrer Cádis para que a Inglaterra dispusesse na Península de dois pontos de penetração seguros. Tanto assim que nem sequer se noticiou ao nosso embaixador em Londres a partida da expedição.
O mesmo espírito presidiu à Convenção de Sintra. O interesse e o decoro de Portugal viram-se esquecidos, senão atropelados por uma lealdade pouco lisa. O desventurado Bernardim Freire protestou com energia imediatamente, declarando a Convenção de Sintra injuriosa para a autoridade do Soberano e para a dignidade da Pátria. Protestou também o marquês de Olhão, governador das armas do Alentejo. Até o próprio governo do Rio se queixou profundamente. Outra coisa não aconteceria no Congresso de Viena, em que a Inglaterra se comprometeu a restituir à França a Guiana, que nós lhe conquistáramos, sem ao menos lhe merecermos a atenção de uma prévia consulta. Em recompensa deixou-nos sem Olivença, não obrigando, como nossa aliada, ao cumprimento dos tratados as potências que os haviam subscrito.
Tais são as tristes reflexões que me desperta a passagem de mais um aniversário da batalha do Buçaco. A Inglaterra não contava connosco para nada e obscureceu, tanto quanto possível, a ação dos nossos soldados. Os seus exércitos não se ficaram atrás dos do invasor nas ‘más maneiras’ com que arruinaram o país, deitando fábricas abaixo, assaltando herdades e armazéns, conspurcando até mulheres inofensivas. Consta dos relatórios do próprio Wellington. No entanto, ao contrário do que se afirma, nós é que salvámos a Inglaterra, não foi a Inglaterra que nos salvou a nós.
Sem esta estreita faixa de terra, reduzido à sua ilha, o colosso britânico teria sucumbido. Não sucumbiu. E ei-lo que renova os seus velhos processos de ataque na grande luta em que traz a sua existência empenhada. Somente os tempos mudaram. A Inglaterra de então parecera chamar a si a defesa da ordem legítima, da ordem conservadora. A Inglaterra de hoje diz-se o paladino do princípio revolucionário. Tratar-se-á de uma fórmula, de um pretexto, de uma bandeira? Talvez. Mas o que é certo é que a vitória demora em lhe dispensar o primeiro dos seus sorrisos favoráveis. A guerra exige atualmente um carácter técnico que não exigia há coisa de um século. Esperar e resistir bastava então. Não basta agora. Porque a Inglaterra não dispõe de qualidades ofensivas. Wellington não aproveitou as vantagens da batalha do Buçaco, que era impedir a marcha de Massena para Lisboa, decidindo-se a dar batalha só depois das magníficas cargas de baioneta dos nossos caçadores. Seja-nos grato a nós, portugueses, recordá-lo, quando, para desgraça nossa, não sabemos ainda bem o que o senhor Costa Júnior irá revelar-nos na sua prometida conferência. Anunciada como está para a noite de 26, singular maneira será essa de se comemorar a véspera da batalha do Buçaco.
Outubro, 1917.
Não há erro maior do que o erro que supõe ser a tradição a razão mais forte para a defesa de uma aliança política. Em política internacional a conveniência de um momento não é a conveniência do momento seguinte. Se os regimes tradicionalistas o são pelo reconhecimento da natureza estável das instituições firmadas numa larga continuidade histórica, já igual princípio se não deve invocar para que uma aliança se sustente e consolide pela exclusiva circunstância de ser tradicional. O que pode ser tradicional é a causa em que essa aliança porventura se fundamente. O meio de a realizar varia, porém, de século para século, de instante para instante, embora o facto que a determina subsista em si. A aliança inglesa precisa de ser revista à luz deste critério. E sem me atrever a discordar das indicações superiores que lhe aconselham a oportunidade, verifiquemos nós se, como meio, ela correspondeu sempre ao ponto de vista tradicional da política dos nossos reis. Não existe ocasião mais própria para o fazer do que o aniversário da batalha do Buçaco.
Ninguém ignora que a aliança de Portugal com a Inglaterra nasceu, principalmente, da necessidade de nós resistirmos, como nação peninsular, à incorporação castelhana e de, suplantada a nossa hegemonia marítima quando a Inglaterra a adquiria plenamente, obtermos assim a conservação do nosso domínio colonial. Não examinemos aqui a genealogia desse ato diplomático dos nossos monarcas, que muitos levam até à vinda dos ingleses no tempo de D. Fernando, se por acaso não remontam mais longe, ao auxílio dos cruzados do Norte em tanta conquista dos alvores da nacionalidade. Mas uma tal intervenção, a aceitar-se como intervenção, não significa em nada uma ideia política donde se haja de inferir com solidez a tão declamada existência secular da nossa aliança com a Inglaterra. Trata-se de um simples concurso de tropas mercenárias. São episódios do borborinho medievo, que, a ressuscitarem-se, não encheriam de lustre os pergaminhos da Grã-Bretanha. Já não falo das cenas de carnagem e de rapina, que enodoam os feitos militares da primeira dinastia, de que participaram cruzados ingleses. Basta lembrar que no saque de Silves cometeram inúmeras atrocidades, a ponto de D. Sancho I os mandar expulsar pelos nossos soldados. E é sabido como Fernão Lopes, na Crónica d’El-rei D. Fernando, alude às «maneiras que os ingleses tinham com os moradores do Reino».
Mais tarde, no século XVII, é que o pensamento de uma aliança com a Inglaterra se define e assenta como exigência imperiosa da nossa livre vida de povo. Contra o engrandecimento da Espanha, a França era a nossa aliada natural, inimiga por sistema e finalidade da política imperialista da Casa de Áustria. Richelieu apoiou-nos com persistência na insurreição de que veio resultar 1640. E, apesar das tortuosidades de Mazarino e de nos terem abandonado no congresso de Munster, a França não nos desprezou inteiramente, como se prova pelo casamento de Afonso VI com Mademoiselle de Aumale. A guerra da sucessão da Espanha é que modificou as nossas condições de existência externa. A subida do duque de Anjou ao trono de São Fernando uniu a Espanha à França, justificando-se desta forma o dito de Luís XIV: «Já não há Pirinéus!»
A política tão increpada de D. Pedro II, e da qual derivou o tratado de Methuen, como mal menor, toma para nós agora um outro sentido. Não nos podíamos mais encostar a Versailles, desde que em Madrid reinava um Bourbon, que, forte da aspiração política da casa de França, ressurgiria, quanto a Portugal, o fio interrompido da cobiça castelhana. É então que D. Pedro se atira para os braços da Inglaterra, sem outro recurso internacional de subsistir como soberano independente que não fosse esse. De resto, os ingleses achavam-se já senhores dos mares, cujo domínio nós perdêramos durante o parêntesis filipino. Eis porque o tratado de Methuen não representa de maneira nenhuma uma quebra do interesse nacional, pois só em nome dele e para sua salvaguarda El-Rei D. Pedro II o negociou.
Por aqui se conclui que, no dia em que a Espanha abdicasse de uma pretensão, tão estulta como inviável, de nos absorver, e quando a nossa indispensável aliança com o Brasil se tornasse possível sem que as nossas responsabilidades para com a Inglaterra saíssem diminuídas do novo arranjo diplomático, novos fatores entrariam na composição da nossa política internacional, sem que se suspendesse com eles o seu fito tradicional. D. João V entendeu-o certamente assim, ao promover o casamento do príncipe herdeiro com D. Mariana Vitória e o da nossa infanta D. Bárbara com o futuro Fernando VI de Espanha. Pombal, porém, regressa ao rumo anterior da aliança inglesa, o que nos valeu a invasão espanhola por ocasião do chamado ‘Pacto-de-Família’ e nos ia custando a transferência da Corte para o Rio de Janeiro.
A aliança com a Inglaterra adquire depois a sua maior intensidade nos princípios do século XIX com a crise europeia, aberta pela Revolução Francesa. Erradamente, a Espanha não quis convencer-se que, por instituições e interesses, Portugal constituía o seu único aliado natural. Em seguida à desastrosa campanha do Rossilhão, a Espanha atraiçoa-nos e entrega-se contra nós às cabalas do Primeiro Cônsul. Vingava a política do intriguista Godoy. As consequências colheram-se em 1801, na guerra dos Quinze-Dias, em que nos esbulharam de Olivença e seu termo, não sendo outra a causa dessa expedição sem nome senão a nossa fidelidade aos compromissos com a Inglaterra. Desde então, Portugal achou-se irremediavelmente condenado pela ambição napoleónica. A Inglaterra como tal nos julgou, não cuidando no tratado de Amiens, em que se restabelecia a paz geral, de reivindicar para nós o território que nos tinham arrancado em Badajoz.
Em 1804 Napoleão coroa-se imperador. É difícil apreciar com duas penadas o dilema embaraçoso em que Portugal se encontrou, trabalhado por duas forças opostas: o partido francês e o partido inglês. O partido inglês impunha a guerra. O partido francês defendia a neutralidade. Ambos mais ou menos inspirados pela ambição estrangeira, levaram-nos nas suas divergências quase à beira da morte. Salvou-nos da ruína da independência a retirada do Príncipe-Regente para o Brasil, que além de ser desde D. João IV um princípio assente da nossa política dinástica, resultou mais proximamente da convenção secreta, realizada em Londres aos 22 de Outubro de 1807 e ratificada pelo futuro D. João VI logo a 8 do mês seguinte.
Não é a fuga desordenada que o romantismo dos nossos historiadores nos pinta e que o ódio jacobino tanto explora. D. João VI, se ficasse, caía nas mãos de Junot, e o que sucedeu em Bayona à família real espanhola, sucederia igualmente à nossa. Em poder de Napoleão os representantes da dinastia portuguesa, teríamos em Lisboa um rei de encomenda, marca Bonaparte, indo-se toda a probabilidade de recuperarmos a autonomia, com o esfacelo inevitável das nossas colónias, tanto mais que, enquanto se negociava a paz de Amiens, o negociador inglês claramente o indicava. «Se o Primeiro-Cônsul invadir os estados de Portugal na Europa –respondia a Napoleão Lord Hawkesbury –, a Inglaterra invadirá os estados ultramarinos de Portugal.» Não admira por isso que em 1809 se acusasse publicamente no parlamento inglês o ministério que aconselhara a retirada de D. João VI para o Brasil, em lugar de aproveitar a invasão francesa para ocupar aquela extensa parte do nosso império colonial...
Conta-se nos Apontamentos para a história diplomática de Portugal desde 1826 até 1834, que Lord Grey, chefe do gabinete britânico, dissera de uma vez ao nosso ministro Morais Sarmento: «Desenganem-se todos que o governo inglês não tem predileção por nenhum governo estrangeiro, nem por nenhuma família reinante: as suas relações têm somente por fim promover os nossos interesses nacionais.» Nada mais compreensível nem mais humano, afinal! Foi o ponto de vista que a Inglaterra timbrou em servir à risca nas campanhas da Península. Quando sir Artur Wellesley desembarca nas nossas costas, já Portugal está levantado em massa contra os franceses. Por toda a parte a defesa se organiza, por intermédio de juntas provisórias e locais. O intuito de Wellesley não era auxiliar-nos. Consistia em apoderar-se de Lisboa e em socorrer Cádis para que a Inglaterra dispusesse na Península de dois pontos de penetração seguros. Tanto assim que nem sequer se noticiou ao nosso embaixador em Londres a partida da expedição.
O mesmo espírito presidiu à Convenção de Sintra. O interesse e o decoro de Portugal viram-se esquecidos, senão atropelados por uma lealdade pouco lisa. O desventurado Bernardim Freire protestou com energia imediatamente, declarando a Convenção de Sintra injuriosa para a autoridade do Soberano e para a dignidade da Pátria. Protestou também o marquês de Olhão, governador das armas do Alentejo. Até o próprio governo do Rio se queixou profundamente. Outra coisa não aconteceria no Congresso de Viena, em que a Inglaterra se comprometeu a restituir à França a Guiana, que nós lhe conquistáramos, sem ao menos lhe merecermos a atenção de uma prévia consulta. Em recompensa deixou-nos sem Olivença, não obrigando, como nossa aliada, ao cumprimento dos tratados as potências que os haviam subscrito.
Tais são as tristes reflexões que me desperta a passagem de mais um aniversário da batalha do Buçaco. A Inglaterra não contava connosco para nada e obscureceu, tanto quanto possível, a ação dos nossos soldados. Os seus exércitos não se ficaram atrás dos do invasor nas ‘más maneiras’ com que arruinaram o país, deitando fábricas abaixo, assaltando herdades e armazéns, conspurcando até mulheres inofensivas. Consta dos relatórios do próprio Wellington. No entanto, ao contrário do que se afirma, nós é que salvámos a Inglaterra, não foi a Inglaterra que nos salvou a nós.
Sem esta estreita faixa de terra, reduzido à sua ilha, o colosso britânico teria sucumbido. Não sucumbiu. E ei-lo que renova os seus velhos processos de ataque na grande luta em que traz a sua existência empenhada. Somente os tempos mudaram. A Inglaterra de então parecera chamar a si a defesa da ordem legítima, da ordem conservadora. A Inglaterra de hoje diz-se o paladino do princípio revolucionário. Tratar-se-á de uma fórmula, de um pretexto, de uma bandeira? Talvez. Mas o que é certo é que a vitória demora em lhe dispensar o primeiro dos seus sorrisos favoráveis. A guerra exige atualmente um carácter técnico que não exigia há coisa de um século. Esperar e resistir bastava então. Não basta agora. Porque a Inglaterra não dispõe de qualidades ofensivas. Wellington não aproveitou as vantagens da batalha do Buçaco, que era impedir a marcha de Massena para Lisboa, decidindo-se a dar batalha só depois das magníficas cargas de baioneta dos nossos caçadores. Seja-nos grato a nós, portugueses, recordá-lo, quando, para desgraça nossa, não sabemos ainda bem o que o senhor Costa Júnior irá revelar-nos na sua prometida conferência. Anunciada como está para a noite de 26, singular maneira será essa de se comemorar a véspera da batalha do Buçaco.
Outubro, 1917.