ESTUDOS PORTUGUESES
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
Search by typing & pressing enter

YOUR CART

O drama de Fialho

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha analisa a evolução das ideias políticas de Fialho de Almeida, destacando a sua crítica ao parlamentarismo português e ao republicanismo desprovido de programa concreto. Fialho, inicialmente combativo e crítico feroz das instituições, acaba por se aproximar do tradicionalismo político, sendo a sua trajetória marcada pelo desencanto e pelo desejo de regeneração nacional, refletido no seu apoio à ditadura franquista e na busca de fundamentos sólidos para o país.
  • Genealogia intelectual. A herança intelectual de Fialho de Almeida revela-se no catálogo dos livros que legou à Biblioteca Pública de Lisboa. Analisando essa lista, percebe-se que o escritor sempre buscou alimentar o seu temperamento impressionista através de leituras diversas.
  • Caráter da obra. Dotado de talento inquieto e impulsivo, Fialho construiu uma obra tumultuada, sem uma ideia unificadora que lhe desse verdadeira consistência. O título "À Esquina" simboliza toda a sua produção literária: Fialho observa e critica, mas sempre guiado pelo impulso, mais pela intuição do que pela razão. Embora se considerasse realista, a sua escrita era profundamente subjetiva, transformando impressões pessoais em paisagens interiores quase delirantes. Ele próprio reconhecia “fundalhas de loucura pensante” na sua personalidade.
  • Personalidade e processo criativo. O escritor confessava uma propensão hereditária para as visões macabras. A sua formação literária resultava muito mais do seu temperamento do que de uma busca intelectual consciente. A sua obra é fragmentada, marcada pela ausência de um fio condutor, cheia de lampejos geniais mas também de dispersão.
  • A força da imaginação. Mesmo sem uma estrutura racional sólida, Fialho compensava com a força da imaginação, comparável à de grandes inspirados. Ele nunca se dedicou à autoanálise ou à busca do equilíbrio clássico; preferia deixar-se levar pelas paixões, aproximando-se do sensacionismo e da herança dionisíaca, em oposição ao classicismo de Eça de Queiroz.
  • Obra e influências. Fialho via a realidade como um sinal de um mundo interior tumultuado. Ao abordar temas sugestivos, a sua ancestralidade vinha à tona, dando forma literária a sentimentos e pavores herdados. A sua prosa pode variar entre o claro-escuro de “limbo” e a intensidade colorida de delírios pictóricos. Em tudo, se revela o peso do inconsciente.
  • Posição na literatura portuguesa. Fialho não buscava a perfeição literária, mas sim a expressão máxima do seu temperamento. Era, ao mesmo tempo, um “vagabundo de espírito” e um cronista da alma popular, com uma sensibilidade que o aproximava dos personagens de Gorki. Não criou romances, pois faltava-lhe o equilíbrio do olhar analítico, mas deixou contos marcantes carregados de emoção e revolta.
  • Biblioteca e crise intelectual. A sua escolha de livros é marcada pelo impressionismo, com predileção por romancistas e certa filosofia do final do século XIX. Reflete-se aí a crise orgânica de sua inteligência: um romantismo inato agravado pela infância difícil e pelas influências materialistas da época.
  • A evolução política e social. Fialho aproximou-se do tradicionalismo político, expressando o desencanto com o sistema parlamentar vigente e a busca de fundamentos sólidos para a regeneração nacional. A sua adesão à ditadura franquista de 1907-1908 é vista como resultado lógico do seu republicanismo antiparlamentar, contrário às oligarquias. Fialho analisava com lucidez as causas da decadência nacional, embora não conseguisse propor soluções globais. A sua trajetória foi marcada pela busca de sentido para o país, oscilando entre o desencanto político e o desejo de renovação.
  • Conclusão. Fialho de Almeida é o exemplo de uma personalidade literária vibrante e contraditória, cujas incertezas e angústias refletem a crise de sua época. A sua obra, fragmentada e sensível, permanece como testemunho de uma geração marcada pelo sofrimento e pela busca incessante de respostas que nunca foram plenamente encontradas.

O DRAMA DE FIALHO

A genealogia intelectual de Fialho de Almeida é-nos dada com precisão pelo catálogo dos livros legados por ele à Biblioteca Pública de Lisboa. Percorreram-se ao acaso essas tantas páginas de simples resenha bibliográfica e ver-se-á que o escritor não procurou em vida senão documentar o seu abundante temperamento de impressionista.

Talento feito de arrancos e de inquietações arrojadas, à obra tumultuária de Fialho falta-lhe uma ideia orgânica que lhe imprima unidade e consistência dorsal. O título do volume À Esquina é um símbolo que bem se poderia estender a todo o esforço literário do escritor. Ainda que observador e que crítico, Fialho foi na observação e na crítica um impulsivo admirável, em quem desertavam as faculdades serenas da inteligência, para predominarem mais as da adivinhação. Fialho, rotulando-se em arte como um realista, não passou nunca de um subjectivo que transformava as suas sensações visuais em fundos desgrenhados de paisagem interior. Sobrepunha-se à posse dos factos excitadamente e ele mesmo confessava que nas criptas da sua personalidade existiam «fundalhas de loucura pensante, à espreita da hora» que o devia precipitar em Rilhafoles.

Com isto não pretendo usar das patologias agora na moda, quando se discreteia acerca de alguém que não tenha já boca nem mãos para se defender. O que eu desejo é alimpar o nome do escritor das enxurradas crescentes do lugar-comum e encará-lo por aquele ponto de vista superior em que a sua obra nos aparece como a parte mais viva e invencível de uma individualidade tão rica como era a de Fialho. É importante o subsídio que nos fornecem Os Gatos ao aludir à «tinta delirante», escreve ele mesmo, «sob que eu vejo, de há uns tempos para cá, todas as coisas dramáticas ou triviais que me circundam. Eis um depoimento que epigrafaria eloquentemente o estudo decisivo da psicologia do autor das Pasquinadas.

Não se recusa Fialho a declarar o seu cérebro hereditariamente propenso já de si às «meias-visões macabras da alta nevrose».[1] O próprio escritor se encarrega de nos demonstrar a sua formação literária mais como um produto espontâneo de temperamento do que como uma raciocinada conquista intelectual. Não é outra a interpretação que sustento. E Fialho autobiografava-se maravilhosamente ao deixar nas colunas de Os Gatos a passagem seguinte: «A rudeza faz com que os homens do povo tenham o espírito em fragmentos, mesmo apesar de o coração lhes bater de uma só peça. Pela quase completa carência de metodização no pensamento, a imaginação deles, como a razão, tem grandes noites, e só por instantâneos relâmpagos fulgura. É ouvi-los falar, reconhecer, na conversação de muitos, pontos focais de rectidão, bom-senso e inteligência, rasgos grandiosos, finuras singulares, isto perdido num ossuário de disparatados e confusos solilóquios.»

Na sua obra, Fialho manteve sempre as virtudes instintivas do homem do povo. E por essa rudeza nativa se tornou admirável e incompleto a um tempo. O espírito tinha-o em fragmentos também, sem o fio de uma ideia condutora – a ideia orgânica, cuja ausência principiei por notar. A obra de Fialho, saída de um jacto das entranhas da criação, é como um bloco inacabado de Rodin. Num amontoado perdido de plebeísmos e invectivas arrenegadas, surgem braços que imploram, gestos que repelem, atitudes que nunca mais se olvidam pelo sopro imortal que as arrancou para a luz. Depois são reticências, amplos vazios, restos dispersos de um laboratório em descalabro. Onde a inteligência intervém para ligar, em Fialho intervinha a imaginação. Não a imaginação que fantasia a imaginação dos inferiores e dos circunscritos. Mas a imaginação bem rara dos inspirados, a imaginação que cria e é irmã germana da verdade.

Como escritor, Fialho nunca se auscultou no mais leve, no menos preocupado dos exames de conciência. Marchava por sistema à mercê dos ventos, reflectindo em si, numa espantosa projecção atávica, o vagabundo tão seu conhecido das solidões alentejanas. Levando por Lisboa uma vida dispersiva de mesa de café, era de noite, pelas ruas entrecruzadas da Baixa, que Fialho compunha mentalmente numa luta desesperada entre a concepção e a realização.

Assim se explica, não obstante essa base de improviso, a estrutura torturada da sua prosa em que os vocábulos se agatanham e comprimem numa suspensão de nervos sempre dispostos a desflagrarem-se. Comparo-o muito, por isso, ao Huysmans do À rebours e do Là-bas. É certo que em Fialho cantava a luminosidade ofuscante dos largos horizontes peninsulares, enquanto Huysmans se constrangia tragicamente nas dobras misteriosas de um nevoeiro tão denso como os nevoeiros das suas paragens natais. Mas sobre Fialho caía também a mesma hereditariedade, com apetites satânicos laivando-a de fogachos de delírio. Daí o arrepio extraordinário que lhe atravessa a obra, com confusões estrepitosas de sabat, no borborinho diabólico dos seus sarcasmos que lembram, não sei bem porquê, obscenidades escarninhas de gárgula medieval.

A prosa de Fialho, como prosa, ficou-se bastante longe da perfeição. A perfeição literária em Portugal só aclama um mestre único: Eça de Queiroz. Esse sim, que praticou as qualidades soberanas da inteligência na ironia e na análise! Não se cuide, porém, que Fialho seja menor do que Eça. Ambos, em frente um do outro, marcam com notável nobreza para as nossas letras dois processos psicológicos tão diversos como interessantes. Eça é o processo reflectido, é o processo objectivo do pensamento, exercido todo de fora para dentro. São as virtudes próprias da razão actuando na realidade tangível, nos exclusivos domínios do concreto. Precisamos de recorrer à palavra ‘clássico’, se quisermos fixar a linha mental de Eça de Queiroz. Ele é o equilíbrio, ele é a medida. Pelo equilíbrio e pela medida a Grécia foi grande, o Classicismo venceu. Eça podia bem ajoelhar nos degraus da Acrópole e exclamar para o alto: «Não se faz nada de grande na vida, fora das regras que tu, ó deusa, ensinas aos teus iluminados!»

Mergulhando mais fundo as raízes da sua personalidade, Fialho de Almeida tira de si, pelo contrário, uma arte sensacionista em que às vezes parecem ressurgir as velhas possessões dionisíacas. O seu processo é um processo de vibração – e não de definição. O que há de maior na sua obra dirige-se sobretudo aos sentidos e flutua frequentemente em ondas indecisas de alucinação ou de sonho. Temos que contar em Fialho com a interferência de um elemento subjacente que nos obrigaria a lançar mão das teorias do inconsciente filosófico para lhe procurarmos a incógnita de uma maneira satisfatória, se o trabalho recentíssimo de Léon Daudet – L’Hérédo – nos não resolvesse com toda a claridade esse curiosíssimo problema de psicologia.

Considera Léon Daudet na composição da personalidade humana dois princípios tão contraditórios como preponderantes: o soi e o moi. No soi traduzem-se as aquisições deliberadas da nossa vontade, aquilo que constitui o conteúdo próprio da conciência e que pelo nosso esforço nos individualiza e atribui autonomia. No moi encarnam-se, opostamente, as solicitações hereditárias que sem cessar nos sacodem e determinam numa subjugação dolorosa de autómatos. Assim para Léon Daudet a obra de arte «est souvent un effort personnel de l’individu, en vue de se délivrer de la foule de personnages qui le hantent, empruntés à son ascendance». Debaixo deste ponto de vista crítico, Eça de Queiroz realiza um soi triunfante, emancipado de todas as obsessões ancestrais. É donde lhe vem a firmeza do juízo, o lance rapidíssimo da retina. Da estirpe dos Shakespeare, dos Balzacs e dos Camilos, Fialho representa um outro tipo, inteiramente antagónico. Fala-lhe nas veias um mundo irrequieto de fantasmas, de que o escritor se liberta, libertando-os a eles na histeria frenética das suas largas evocações.

Como para um místico da Idade Média, a realidade só vale para Fialho como o sinal visível de um oceano rumoroso de vozes e de sons, de que o escritor possui o enigma. Certamente se lembram das páginas supremas do Violinista Sérgio. Pois não se esqueceram então como, partido insensivelmente de uma taverna escura da Mouraria, o escritor se perde e embrenha no universo agitado das suas imagens e dá connosco dentro de breve à margem de rios fantásticos, com o Diabo alongando-se em cavalgadas de pesadelo por sobre canaviais recortados em lucilações fugitivas de enxofre.

Ao contacto de um tema sugestivo, a ancestralidade de Fialho acordava, poderosa, atirando para a nitidez da criação literária todo o cortejo de pavores amassados durante séculos na sensibilidade familiar do escritor. Fialho apercebia-se do fenómeno, quando afirmava: «Entanto é certo que eu não fantasio, ao escrever que vi uma forma escarlate enredar nas suas espiras sinistras, a mulher.» O reparo de Fialho justifica a opinião de Léon Daudet, que considera a obra de arte, espontânea e genial, como «une émission de ces hôtes intérieurs, reliés les uns aux autres par des circonstances plus ou moins forgées, logiquement déduites de leurs contrastes». Fialho é assim uma contínua revivescência de sentimentos tumultuosos que são mais dos seus mortos do que dele propriamente. Recorda um purgatório confuso em que tudo se agita e nada se contorna. Os efeitos mais intensos da sua pena são sempre, ou de um claro-escuro de limbo, como no «Enterro de D. Luís»; ou, como nos Ceifeiros, de um excesso nervoso de cor, em que a noção da verdade se esbate, para dar lugar à intervenção de um picturalismo debochado de manicómio. De um modo ou de outro, verifica-se a presença constante desse elemento subjacente, em que a personalidade de Fialho aloja as suas raízes vitais.
 
Não é necessário colocar Fialho entre os primeiros, porque é lá naturalmente a sua posição. O que se nos impõe a nós que o praticamos em sincero afecto de espírito é compreendê-lo e fazê-lo estimar em toda a maravilhosa abundância do seu temperamento. Entre nós não se compôs ainda uma espécie de breviário em que se condensasse, pelo que respeita ao património das ideias, a herança intelectual da última geração, da que, apesar do seu negativismo nefasto, soube ser geração. Faltam a Portugal os seus Ensaios de psicologia contemporânea.

Manifestamente que resulta daqui um juízo errado dos nossos escritores – daqueles que em verdade pesaram nas direcções mentais do seu país. Não me proponho eu agora encarar Fialho através de semelhante propósito. É-me contudo agradável chamar a apreciação da sua obra para um terreno fora do alcance das interjeições pasmadas dos seus admiradores oficiosos.

Se há momentos em que desespero dos destinos da nossa pobre terra, é exactamente por via da crise de inteligência que ela padece, já com ares assustadores de doença crónica. Nas coisas literárias e artísticas a desgraça sobe de mal a pior pela formação exclusivamente jornalística dos senhores e donos do mito, cada vez mais vago, que se costuma alcunhar de ‘cultura nacional’. Para aumento dos nossos pecados, a avariose política acabou de obliquar a percepção restrita desses profissionais da Ignorância.

As consequências contemplaram-se nos comentários bastante elucidativos com que se acompanhou o regresso de Ramalho Ortigão ao Catolicismo e à Monarquia. Continuamos fechados às aspirações profundas do nosso tempo pelo mais desastrado dos respeitos românticos a não sei que velharias ideológicas que já encerraram o seu curso. Não é de estranhar por isso que a leitura dos nossos escritores permaneça sem um roteiro que destrince neles o que é ocasional e momentâneo do que constitui realmente a sua parte definitiva e sempre actual.

A tão longe chegou o desvario individualista que nós, os da camada mais recente, quase que rompemos os vínculos que em tantos pontos nos ligam aos nossos imediatos antecessores na representação da mentalidade portuguesa. Para me referir a dois ou três exemplos, só as suas tendências destrutivas se lhes aproveitam e propagam. É tristeza verificar-se que não existe em Portugal um sentido nacionalista dos nossos escritores! A Eça e a Ramalho obrigaram-nos à viva força a figurar de arautos de uma era nova em que tudo se esboroou na mais sacrílega das profanações, desde o acatamento rudimentar da Tradição até à hierarquia inata da competência e dos merecimentos! O que vale é a profecia de Eça a propósito do suposto espírito revolucionário de Ramalho! O que vale é o testemunho de Ramalho nas Últimas Farpas sobre as intenções iconoclastas das suas campanhas fortes de sagitário! Tomou-se-lhes, porém, o lado episódico, meramente acidental, para não se atender ao alto desejo de renovação que já inflamava aquelas iras honestas. É o mesmo que sucede com Oliveira Martins, perpetuado unicamente nos resultados funestos da sua acção negativa. Não se sabe assim que há dois Oliveira Martins. Há o Oliveira Martins trabalhado por um hegelianismo confuso, a quem os piores vícios criticistas levariam ao desmentido dos fundamentos seculares da pátria, o Oliveira Martins formado economicamente pelas influências sociais de Lassalle e rectificado nos seus exageros doutrinários pelos ensinamentos históricos de Mommsen. Do segundo Oliveira Martins deriva o demolidor do Liberalismo nas adivinhações formidáveis do Portugal Contemporâneo e o político construtivo do projecto de lei sobre o Fomento Rural e do apelo ao poder pessoal do Rei.

Ora o que sucede com Oliveira Martins, sucede, como vimos, com Eça de Queiroz e com Ramalho Ortigão. A Eça festeja-se-lhe somente a mordacidade implacável da observação e, em vez de o olharem como um moralista que marca a ferro em brasa o tartufismo podre da nossa sociedade ultra-romântica pouco falta para que o não inculquem como um autor pornográfico, lido às ocultas, com sabores proíbidos de maledicência secreta. Por seu lado, a Ramalho Ortigão apontaram-no como um desertor e como um apóstata, no desconhecimento absoluto do que seja, psicologicamente, uma conversão, que outra coisa não é senão a aceitação, pela experiência, do valor de certas verdades indiscutíveis, como a Religião e a Monarquia, ao clarão das quais Balzac tanto se enobrecia de escrever. O critério político de partido, suplantando o critério moral de nação, abastarda e desvirtua tudo neste desordenado país! Fialho sofreu-lhe também o ódio que não perdoa, quando dentro de si, numa hora grave, se procurou reconciliar com as razões eternas da sua personalidade.

É, pois, com a preocupação nacionalista de lhe determinar o seu verdadeiro significado social que eu reputo a obra de Fialho mais como uma obra de vibração que de definição. Fialho, sendo fundamentalmente um impressionista, ou intervinha por um instinto de bruxo no âmago das coisas, ou se ficava marginalmente a olhar para elas, suprindo em imaginação o que lhe não crescera em penetração. Em Fialho a observação é assim deformada pelas poderosas faculdades de projecção interior do escritor, sempre que não é viciada pela forte natureza literária da sua sensibilidade. Eis o motivo por que Fialho não consegue nunca levantar figuras que pertençam à realidade de todos os dias, que sejam o pão quotidiano da lufalufa vulgar. Ou a exuberância do cenário lhe dá indirectamente o conflito das almas, como no formidável conto «Os Novilhos»; ou então um secreto e mal disfarçado romantismo o ajuda a traçar a extraordinária transparência da sua «Madona do Campo Santo».

Eu disse: um secreto e mal disfarçado romantismo. Efectivamente, com a parte diminuta que a apreensão intelectual exerceu na obra do escritor, Fialho teria sido um comovido, um arrebatado – um sentimental, porque não escrevê-lo? –, se o seu rude temperamento aldeão o não impelisse por preocupações de realismo para a expressão plebeática e para o sarcasmo violento. Em todo o caso, o impressionista predominou nele. E é ao impressionismo que Fialho deve a posse dos melhores recursos do seu estilo. Tais são as qualidades e os defeitos do escritor. Verdadeiro vagabundo de espírito, Fialho encarnava em si, na máxima intensidade, o irrequietismo nato do maltês da charneca alentejana. Adaptado à Cidade, a Cidade não desbastou em nada a sua estranha fisionomia de valdevinos das Letras. Como um parentesco misterioso liga o pobretão errante dos montados do meu Alentejo ao caminheiro sem destino das estepes russas, existe também por vezes em Fialho uma afinidade trágica que tragicamente o aproxima dos personagens dantescos de Máximo Gorki. Lembra-me agora, no País das Uvas, o conto «Pobres», que é alucinante de miséria e de animalismo. «Cavas, opressas, ouvem-se as respirações suflar bestialidade, e de ambos os dois as sedes são vorazes, e o resfôlego das duas máquinas irmana-se, rimando os urros e sofreguidões das suas virgindades envelhecidas a pontapés, sob os desdens carnais de toda a raça humana.» E mais adiante, no conto «A Velha» e no conto «Idílio triste», é o mesmo cantochão de revolta e de enternecimento, aquecendo na brasa rubra do desejo os bocados dispersos de tanta vida sem centro. Maltês de faísca, em Fialho havia a sentimentalidade de criança e a cólera de deserdado que há no vadio dos grandes descampados. Assentemos neste aspecto. E eu creio que é quanto nos basta para se rasgar uma janela ampla sobre a personalidade contraditória de Fialho de Almeida.

De resto, o que em Fialho não foi espontâneo, não chegou a ser verdade, porque não passou de literatura. «O Antiquário» é, por exemplo, uma reminiscência de Balzac na Eugénie Grandet. Ao longo de outras páginas do País das Uvas passa com frequência o Alphonse Daudet das adoráveis Lettres de mon moulin. O escritor nunca se empenhou em completar o seu temperamento. Pergunta-se de toda a parte porque é que Fialho não nos deixou um romance. Um romance é um estudo de caracteres, é uma operação serena e lógica de pura análise. Fialho não podia ser, por condição estrutural, um romancista, porque, sendo apenas um intuitivo, faltava-lhe o soberano equilíbrio da inteligência. Acontece até que o escritor, ou se comprazia em cultivar a sua anarquia emotiva, ou nunca abrangeu nela a causa primacial das dissociações constantes que lhe fazem da obra uma série de fragmentos de génio. Se precisássemos de provas, seria uma prova terminante e inabalável o catálogo publicado da sua livraria.

É principalmente o impressionismo literário que prende as atenções de Fialho na escolha dos seus livros. A história da arte espanhola interessa-o igualmente, e com aplicado enlevo. É até o único intuito concretizado na biblioteca desencontrada do escritor. Quanto ao mais, são livros e sempre livros, são livros ao acaso, sem a linha metódica de um pensamento, de um fim, de uma ideia. É o pensamento, é o fim, é a ideia de que a obra de Fialho carece em absoluto. Por essa falta, tendo-a já perscrutado, mas não tendo já coragem para a reparar, Fialho conheceria nos últimos dias da sua vida uma amargura estranha, a amargura de uma cumplicidade bem intencionada.

Folheando atentamente o catálogo dos seus livros, de onde em onde surge-nos o Outre-mer de Bourget, os Essais de psychologie contemporaine e Le Disciple, do mesmo escritor. Aparece Taine completo nas Origines de la France contemporaine, mas não vemos Renan na Réforme intellectuelle et morale. De Maurras existe um livro apenas, e quase de literatura exclusiva. É o volume de notas de viagem Anthinéa. Numa desproporção esmagadora, seguem-se estantes e estantes de romancistas, alternando com certa filosofia – a filosofia fin-du-siècle, edição Félix Alcan, brochura verde. Avalia-se por isto com nitidez a crise orgânica da inteligência do escritor. Fialho padecia as consequências do seu romantismo congénito, agravado pela revolta sentimental de uma infância pobre e oprimida. Caindo ao depois num curso superior, a mentalidade de Fialho reagiu contra a mentalidade oficial da Escola. A Escola vestiu-lhe, porém, o colete de forças do racionalismo que então alcançava sucessos de verdade definitiva nos circunscritos mundos universitários. Fialho médico ressentiu-se assim no Fialho escritor da influência perniciosa dos trabalhos de psico-anatomia em que o espírito materialista foi fecundo de 1875 para cá. Com que fundamento Léon Daudet nos fala da «lourde sottise matérialiste de la seconde moitié du dix-neuvième siècle, par que furent gâchées de belles intélligences»!

A inteligência de Fialho pode incluir-se nesse número. As asas da sua pequena Psyche impeliam-no irrequietamente para a revoada espiritualista. Mas não lhe consentia um vôo desabafado o nihilismo intelectual do escritor. Daí o constante desequilíbrio da sua emoção, ora cedendo aos processos brutos de Zola nas descrições animais da vida inferior, ora abandonando-se a puras divagações de fantasia, quando o tomava e abrasava mais a sede de infinito que a todo o custo se lhe mantinha na alma.

É este o Fialho, homem de letras, na sua biografia moral e mental. No entanto, apesar da formação anárquica da sua inteligência e do seu sentimento, eu seria injusto se não descobrisse lá bem no fundo do escritor notáveis desejos de construção. Os correligionários passageiros de uma véspera já distante apontaram-no como um renegado às vaias públicas, porque Fialho à volta de 1908 se colocou resolutamente ao lado da política antiparlamentar do ministério João Franco. Não lhe perdoaram nunca, nem na morte!, os companheiros de algum dia, essa espécie de deserção.

Todavia, nada mais ordenado nem mais coerente em Fialho – em Fialho, a encarnação mais viva das coisas descoordenadas e incoerentes! E o republicanismo de Fialho, sendo o republicanismo de 91, tinha fortes predilecções ditatoriais, como se manifestam ainda em Basílio Teles, como o próprio Basílio Teles as manifestou por ocasião da segunda ditadura franquista. Não era um republicanismo de acção, era antes um republicanismo de reacção. Não se apresentava como um fim – com o fim de realizar a niveladora aspiração dos Imortais Princípios. Mas apresentava-se com o único meio possível de restaurar a noção perdida do interesse e da consciência nacionais, contra o predomínio desaforado das diversas oligarquias do regime constitucionalista. Não conheceu outras inspirações o republicanismo teórico de Ramalho nas Farpas. Vem da mesma fonte o republicanismo iluminado dos obreiros da Portugália. Compreende-se já por aqui o desalento de uns e o regresso da maior parte.

A Fialho não escapara a causa primacial da ruína pátria. Diagnosticara-a com lucidez na plebe faminta dos partidos políticos, nos desperdícios sem conta nem medida dos bodos burocráticos e das sarabandas eleitorais. Tocava com um dedo amestrado de cirurgião na raiz aguda do mal. O que lhe faltou foi uma visão clínica exacta, para apreciar nos menores detalhes a curva histórica da doença. Fialho aproxima-se, deste modo, de Oliveira Martins, de Eça de Queiroz, de Ramalho Ortigão e até do próprio Antero. Não recebera, porém, como eles, as impulsões filosóficas do radicalismo semi-orgânico de Proudhon. Eis porque Fialho não pôde elevar-se vitoriosamente sobre os seus preconceitos sentimentais, fortalecidos por um temperamento excessivamente romântico e pela lembrança do seu nascimento quase miserável. Mas se Fialho se não projectou tão largo na aceitação superior dos factos, quando morreu el-rei D. Luís, um comentário amargo deixou bem à mostra as intimidades do seu pensamento.

Verificara Fialho que o parlamentarismo falia entre nós, embora não falhasse, segundo ele, por mau regime, mas porque não há fórmulas eficazes para nacionalidades caducas como a nossa».
A ausência de uma doutrina positiva levava Fialho a confundir o efeito com a causa. Mas se nisso o escritor se atraiçoava lastimavelmente, já não acontecia o mesmo ao examinar o espectáculo que lhe ia à volta. E num arremesso de imprecações delirantes, com todas as cabalas da comédia burguesa do Constitucionalismo exaurindo o país e derrancando a consciência colectiva posta já num farrapo, Fialho legou-nos um rugido profético que as gerações novas de Portugal nunca deverão esquecer para que nunca ele se torne uma verdade dolorosa para a pátria. «Virá um dia em que o povo desnaturado por todas as lições de compra e venda, farto de ludíbrios e vexames – exclama a ira sagrada do panfletário – abdique por fim do seu ideal de autonomia, perca a noção do solo, encha de excrementos as páginas da história... e permita Deus que o não ouçamos bramir, com desesperada voz, aos ecos da fronteira:

«Livrem-me desta canalha que me fez odiosa a liberdade, que em paga disso aqui lhes ofereço a minha servidão!»
 
Entristece e pesa como uma manápula de ferro a desgrenhada indignação de Fialho. É um depoimento negativo, cheio de preocupações de suicídio nacional. Todavia, por anormal que pareça, ele contém já em si o embrião que, desenvolvendo-se e ganhando corpo, há-de de futuro trazer Fialho de Almeida quase às portas do tradicionalismo político. Fialho estaria hoje lá, se a morte o não colhesse de chofre, talvez compadecida pelo cair das últimas folhas das suas ilusões raquíticas. Eu me explico, porque não quero que me imaginem cultivando o paradoxo sobre a impassibilidade de uma pedra mortuária.

Com a sua natureza pródiga de camponês, Fialho não se refugiou jamais na calma céptica dos jardins de Epicuro. Amava as posições de combate, por afirmação da sua personalidade abundantíssima. Assumiu-as destemidamente contra o nosso romantismo parlamentar, por desgraça identificado de mais com as instituições monárquicas. À base, as suas pelejas democráticas resultam antes como puros trabalhos contra-revolucionários. Já assentámos no carácter teórico do republicanismo nacionalista da sua época, em nada enfeudado às abstracções ideológicas da Revolução Francesa, em tudo assustado com os destinos obscuros da nacionalidade. Di-lo-ão, melhor do que eu, algumas passagens típicas da Revista de Portugal. São do segundo volume, a pp. 829 e seguintes, num artigo notabilíssimo, «Novos factores da política portuguesa», assinado modestamente por ‘Um espectador’. «Um tal desenvolvimento de republicanismo é obra recente destes últimos anos – observa-se aí. E a sua causa tem sido simples e unicamente o descontentamento: isto é, o partido republicano tem-se alastrado, não porque aos espíritos democratizados aparecesse a necessidade de implantar entre nós as instituições republicanas como as únicas capazes de realizar certos progressos sociais – mas porque esses espíritos sentem todos os dias uma aversão maior pela política parlamentar, tal como ela se tem manifestado, com o seu cortejo de males, destes derradeiros tempos. E sem levantar a pena, ‘Um espectador’ continua: «O partido republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter, porque todas as reformas que, como partido republicano, lhe cumpria reclamar, já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. De sorte que se vai para a república ou se tende para ela, não por doutrinarismo, por urgência de liberdade e de instituições mais democráticas, mas porque numa já considerável parte do país se vai cada dia radicando mais este desejo antes qualquer outra coisa do que o que está.»

Chegamos agora ao lado verdadeiramente interessante do testemunho de ‘Um espectador’. Traindo o seu pensar íntimo, ‘Um espectador’ acrescenta, inalterável e firme: «Esta é a mais recente e desgraçada fórmula política da nação. É a fórmula que se ouve repetida por toda a parte onde dois homens se juntam a comentar as coisas políticas. Ora que pode ser essa outra coisa? Não pode ser o governo pessoal para que apenas se inclinam alguns espíritos superiores, mas odioso à generalidade da nação, de todo democratizada, ou antes, irradicavelmente impregnada de liberalismo. Tem pois, na ideia dos descontentes, de ser a república, uma república que, eliminando pelo mero facto do seu triunfo, todo o pessoal do parlamentarismo e as suas práticas, proceda, sem desatender os interesses conservadores, a uma reorganização administrativa e económica da Nação. Essa reorganização parece-nos a nós conservadores, que poderia ser realizada dentro da monarquia. Mas os descontentes respondem que a monarquia se acha inevitavelmente, fatalmente vinculada e soldada a esse passado do constitucionalismo, cuja incompetência e corrupção eles julgam ter sido superabundantemente comprovada em anos já longos de desgoverno; que resta portanto uma única solução, a república: e que o momento vem chegando de salvar por esse meio o país, que já não pode ser salvo pela monarquia.»

Eu não me demoro a demonstrar a quimera de uma república nascida para remediar entre nós as consequências do sistema parlamentar, que pela força própria das circunstâncias se veriam agravadas. Nem tão-pouco destaco o desejo de uma intervenção enérgica do poder central que a um grupo reduzido de gente culta se revelava já como o único processo de se acudir eficazmente ao mal que nos corroía. O que me importa é definir em termos precisos o republicanismo de Fialho de Almeida. Esse republicanismo está psicologicamente contido nas razões políticas enumeradas pelo artigo da Revista de Portugal. Ora as enfermidades públicas não melhoraram, nem pela ameaça do 31 de Janeiro, não obstante as iniciativas dedicadas que a hora aguda da crise convocou para a obra comum do revigoramento da Pátria. Faliu a tentativa grandiosa de Oliveira Martins, e faliu na incompreensão geral, debaixo de uma chuva de epítetos infamantes.
Os anos correram no desaforo crescente das insignificâncias doiradas que o partidarismo alçava quotidianamente a uma omnipotência irresponsável. A pouco e pouco, a lento e lento, Fialho completou-se, Fialho pormenorizou-se. Quem sabe o impulso que lhe dariam para isso o Taine e o Bourget da sua livraria? O que eu sei é que o apoio de Fialho à desgraçada e desastrada ditadura franquista de 1907-1908 não é senão a conclusão legítima do seu republicanismo, mais antiparlamentar que democrático e revolucionário. Fialho emprestou à iconoclastia jacobina reforços de alto talento, sem dúvida. Mas ele lavou-se a tempo, e com que nobreza!, no Saibam Quantos... das responsabilidades que porventura lhe pertencessem na derrocada final. Tomando para o problema nacional a instrução especializada e técnica como fundamento essencial, ainda aí Fialho se agarra sofregamente à Démocratie vivante, de Deherme, para se justificar, para se reconciliar consigo mesmo. Mais um passo, e Fialho sentir-se-ia transfigurado, ao alcançar na contemplação das grandes verdades tradicionais o acordo definitivo da sua inteligência com a sua impulsividade. Esse passo não o deu Fialho. A morte é que o deu por ele. O seu martirológio, cuspido, difamado, desterrado, é o martirológio de uma geração que, nascida no erro involuntário, no erro involuntário viveu e morreu, unicamente para o expiar!

Aprendamos nós a meditar em Fialho o horror de uma existência em quem adormeceram todas aquelas ideias que se bebem com o leite, que se transmitem pelo sangue e que são o elo fecundo e vivo que liga os homens entre si. Pela tragédia angustiosa de Fialho nós compreenderemos melhor como é que um Balzac se sentia senhor do seu destino ao proclamar bem alto no prefácio célebre de La Comédie Humaine que escrevia ao clarão de dois princípios eternos, a Religião e a Monarquia. O calvário de Fialho é no domínio das letras a confirmação silenciosa das palavras austeras desse seu irmão mais velho no génio e na glória. Faltaram-lhe as certezas inatas e indiscutíveis, fora da regra das quais ninguém se consegue possuir. No momento supremo da decisão, Fialho olharia para trás, para só achar o vazio, um vazio pavoroso, sem remédio... É então que a morte se compadece dele, cerrando-lhe as pálpebras misericordiosamente.

Conta-se que José Falcão, desiludido e experimentado, exclamara pouco antes de morrer: «Se a Monarquia pode salvar a Pátria e restaurar as forças deste pobre país, que o faça! Nós não lhe pedimos mais!» Nas páginas derradeiras de Fialho é o pensamento alevantado que perpassa. No Saibam Quantos, o trecho «A Morte do Rei» é assim uma confissão geral que repõe o escritor na serenidade da justiça e do arrependimento. Custou-lhe os apupos da rua, que se alevantou contra ele com todo o peso das suas calçadas. Mas Fialho, impassível, buscou no seu arsenal de sagitário licenciado algumas frechas esquecidas. Apurou-as com o aprumo antigo e com o aprumo antigo fez de franco-atirador numa campanha em que o primeiro a aparecer foi ele, o velho demolidor das Tiaras e das Coroas! E lá longe, no cemitério aldeão em que o escritor repousa debaixo do grande céu alentejano, a sua lousa tumular está esperando ainda que lhe gravem como epitáfio único um único grito: o Vae victoribus!, tremendo, de todos os sacrificados.

Janeiro, 1917.



[1] Os Gatos, 2.ª edição, vol. I, p. 121.


[ negritos acrescentados ]

[In Ao princípio era o Verbo, 1924 ]
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]