A Geração Nova e a Esperança
António Sardinha
Uma mensagem de esperança inspirada no exemplo de Santo Agostinho, defendendo que mesmo em tempos de crise não é o fim, mas sim um novo começo para Portugal. Destaca o papel fundamental da juventude na renovação nacional, elogiando a nova geração por recuperar valores tradicionais e assumir a responsabilidade de restaurar a grandeza da Pátria. Defende a legitimidade monárquica, apoiando a restauração de D. Manuel II como Rei de Portugal, e sublinha que a verdadeira Pátria é feita tanto do passado como das aspirações futuras.
A GERAÇÃO NOVA E A ESPERANÇA [1]
De uma vez os de Hipona viram a onda da cavalaria bárbara quebrar-se estrepitosamente de encontro aos muros da sua cidade. «Mas isto é o fim do mundo!» – exclamaram eles erguendo para o alto as mãos suplicantes. Do leito em que estava olhando já a hora da morte, acudiu, porém, a animá-los a palavra ungida de Agostinho, seu bispo: «Não é o fim, é o princípio!»
Para além dos negrumes deste momento cerrado, não percamos nós a confiança na verdade do esforço que hoje nos reúne aqui. No clamor de catástrofe em que os próprios alicerces da Pátria parecem subverter-se, não tenha o nosso coração o desalento dos fracos, nem a nossa inteligência a covardia dos céticos! Se as desgraças da Pátria nos amarguram com presságios maus de tragédia, lembremo-nos de que os campos abandonados da Esperança nós os andamos semeando com o calor do nosso entusiasmo!
Jamais a caravela lusitana atravessou perigos tão grandes e tão duros. No entanto, bem alta, a nossa estrela cada vez se afirma mais bela. É uma causa sagrada, a causa que sente por si a dedicação generosa da mocidade. Reconheçamos que o rumo dos tempos mudou. E talvez que seja necessário afirmar aos quatro ventos do céu que a república representa para a solução de Portugal um castigo áspero, mas purificador.
Desnacionalizada pelos mestres, desnacionalizada pelos políticos, a minha geração praticou os caminhos torcidos do sofisma e da mentira. É já outra a geração que surge, a alinhar connosco na camaradagem estreita do bom combate. Eu a saúdo, no enternecimento da minha admiração! Eu a saúdo, porque ela soube achar a estrada esquecida da tradição e proclamar desassombradamente, contra a ilusão passageira de um século, aquelas verdades que são as verdades de todos os séculos!
No leilão tremendo em que nos afundamos, não olvidemos nunca a palavra ungida de Agostinho ao seu rebanho conturbado.
Lá dizia da Revolução Joseph de Maistre que quando Deus apaga, é que Ele quer construir. O mal que hoje nos aflige é já o começo salutar do nosso resgate. A gente moça resigna heroicamente os caprichos da sua fantasia e aceita a lição eterna da História. São os Antepassados quem acorda dentro de nós, quem nos ordena a defesa do património moral e político que um dia nos ganharam com esforços nunca excedidos. A Pátria não é só o solo que se habita: a Pátria são as cinzas dos Mortos, são as aspirações dos que hão-de ainda nascer. Entre dois mortos, meu Pai e meu Filho, eu é que seria o verdadeiro morto se, não obedecendo ao seu apelo, não me entregando à sua voz, não me incorporasse na realidade imortal de que sou apenas um elo frágil, um minuto bem transitório.
É esta a hora reabilitadora dos soldados que em Évora-Monte quebraram com firmeza as suas espadas leais. A legitimidade não é um critério abstrato, nem é a bandeira de um partido. É Rei legítimo por seu direito o Rei com quem se identifica o consenso unânime de uma nacionalidade.
Nosso legítimo soberano pelo próprio princípio da Legitimidade, el-rei D. Manuel II prepara-se para continuar connosco a jornada interrompida em 24 de Agosto de 1820. Se a república o destronou como Rei dos portugueses, nós o restauraremos como Rei de Portugal.
Aos rapazes aqui presentes não é outro o sentimento que os torna já um grande, um maravilhoso exemplo. A mocidade ignora o que é a deserção, nunca a mocidade viu de que cor era o medo. Aos rapazes entrego a bandeira do nosso movimento. Pertence-vos, meus Amigos, o direito de serdes os primeiros a avançar. Exigi-o sempre com a intrepidez da vossa convicção, que é já um sinal de Deus amanhecendo sobre esta desgraçada terra de Portugal!
Mas, moços que me escutais, a mocidade não é só de quem conta vinte anos na idade! A mocidade também sorri a quem não deixou jamais de os contar em toda a admirável frescura do seu espírito admirável.
O Sr. Conselheiro Fernando de Sousa, honrando-nos com o incitamento da sua presença, guarda consigo essa virtude, que não deixa mais envelhecer. É justo que nós nos confessemos aqui seus discípulos e seus devedores. Ele é o lutador de sempre, que não fraquejou nunca nas suas campanhas de uma existência inteira, contra os inimigos irreconciliáveis da nossa formação católica e monárquica. Por ele nunca se apagaria o lume dos Lares nem a alâmpada dos Altares. E se alguma consagração desejássemos para o pensamento que a todos nos irmana aqui, bastava-nos esta, bastava o aplauso de uma figura tão contornada, com tanto prestígio no seu passado de bom combatente, para que já não ficasse sem prémio o voluntariado de sacrifícios por que resolutamente nos decidimos!
Que a data de hoje constitua para nós, mais que uma data de festa, a lembrança sempre viva de uma responsabilidade! E possamos nós ao menos restituir ainda a Pátria à sua antiga grandeza, já que não poderemos torná-la maior do que ela foi!
[1] Palavras pronunciadas no banquete político, realizado em 1917, comemorando a publicação da 1.ª série da revista Nação Portuguesa.
[ Nota: Após a tentativa restauracionista da Monarquia do Norte, e no Monsanto (Lisboa), em 1919, o Integralismo Lusitano desligou-se da obediência ao rei deposto, D. Manuel II.]
In Glossário dos Tempos, 1942.