ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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As monarquias de amanhã

António Sardinha

... porque repelimos em toda a linha a herança revolucionária, é que nós nos inscrevemos intransigentemente contra a ordem burguesa. A ordem burguesa é o Estado napoleónico com a sua omnipotência burocrática e centralizadora, fazendo da sociedade uma larga administração, em que a posse do poder consiste no seu monopólio e na sua conquista por um partido mais atrevido que os outros.

​– António Sardinha


António Sardinha defende que, após a crise provocada pela guerra e pelo fracasso do individualismo materialista do parlamentarismo, a monarquia, aliada às autonomias profissionais e económicas, pode restaurar a estabilidade e a solidariedade social em Portugal e na Europa.
Pontos Essenciais 
  • Transformação no Pós-Guerra: António Sardinha rejeita tanto o otimismo ingénuo quanto o pessimismo excessivo.
  • Integralismo Lusitano: Sardinha apoia o dito de Maurice Muret: “autoridade e competência ao alto, autonomia e fiscalização à base” como essenciais para a restauração da vida pública em Portugal e na Europa; «Autoridade e competência, autonomia e fiscalização» – são os fundamentos em que repousa o Integralismo Lusitano.
  • Crítica ao Individualismo: O individualismo materialista, surgido da Revolução Francesa, é apontado como a principal causa da crise europeia e da guerra. O desaparecimento dos organismos sociais intermediários, que antes limitavam o poder central e protegiam interesses sociais, levou à desconexão social e à anarquia nas relações entre indivíduos e entre estes e o Estado. A utopia revolucionária rompeu laços de sangue e tradição, promovendo o materialismo, dando a vitória à força sobre o direito e levando ao predomínio do lucro sobre a honra. 
  • Problema Central: O agravamento da questão operária e o surgimento das oligarquias financeiras dominando os Estados através do parlamentarismo da partidocracia.
  • Desafio do Pós-Guerra: Após a guerra, os problemas económicos e sociais ocuparão o centro das atenções, exigindo novas soluções e uma visão mais solidária da sociedade, no que Sardinha desejava fosse uma “nova Idade Média”.
  • Crítica da Ordem Burguesa:  A ordem burguesa e o Estado napoleónico filho da Revolução são criticados pela centralização e burocracia excessivas.
  • Equilíbrio entre Unidade e Liberdade: Em oposição aos regimes parlamentares de partidos, vistos como centralistas e fontes de corrupção e de instabilidade, a independência da Monarquia garante a autoridade, mantendo a continuidade nacional e a liberdade dos órgãos legislativos e administrativos.
  • O Dilema do Sindicalismo: Revolução Social ou Monarquia. O Sindicalismo é visto como uma força emergente oposto ao parlamentarismo da ordem burguesa. Se o Sindicalismo procurar o mínimo de intervenção do Estado valorizando as realidades da Pátria e da Família, haverá uma solução assente numa aliança do Sindicalismo com a Monarquia, o único regime em que o Estado pode ser forte equilibrando o Trabalho e o Capital, conciliando as autonomias profissionais e económicas.
  • Esperança no Futuro: Sardinha termina com uma mensagem de esperança e preparação consciente da juventude para reconstruir a pátria, rejeitando o pessimismo dos responsáveis pelo passado.​
​



​AS MONARQUIAS DE AMANHÃ

Seria darmos mostras do mais elementar simplismo de inteligência se acaso pretendêssemos traçar aqui, com precisão geométrica, o rumo que a sociedade levará depois da guerra. Não nos deve embebedar o otimismo, nem deixarmos que nos vença qualquer sugestão pessimista, por muito forte que ela se nos apresente. Estamos vivendo, incontestavelmente, um período de transformação – e das maiores transformações que a História assinala. Iludem-se os que supõem regressar à Europa de 1914, uma vez que a paz se veja assinada. Não se enganam menos os que, numa ingénua leviandade de espírito, andam convencidos de que a conclusão da guerra lhes favorecerá as predileções políticas. Não há dúvida que a Democracia sai definitivamente morta deste conflito pavoroso. Mas não é só a democracia, forma de governo. É também o parlamentarismo, sua representação social. Calcula-se por isso o solavanco que a Europa sofrerá para se acomodar à nova ordem de coisas. Essa nova ordem de coisas lhe assegurará, porém, o equilíbrio. E o equilíbrio nós o conhecemos à sombra do princípio monárquico, que é o único que dispõe de verdades naturais para restituir ao nosso continente atormentado a sua antiga estabilidade.

Não nos é possível enumerar aqui as várias e infinitas causas que de longe prepararam a guerra atual. Mas, sem exagero, todas elas se podem conglobar numa só: o individualismo saído da Revolução Francesa. Não se abre hoje um livro dos que se dedicam a estudar com profundeza as origens da crise de morte que ameaça a Europa na sua prosperidade e na sua hegemonia – não se abre hoje um livro desses, repito, que ao sumariar os fatores que, tanto economicamente como politicamente, decidiram da explosão da guerra e do seu inútil prolongamento, não os faça depender, em conjunto, do erro democrático que durante mais de um século nos escondeu a face das realidades com as miragens traiçoeiras da sua ideologia de crime e de mentira.

A sociedade, expulsa dos seus moldes naturais, lançou-se então no caminho da desconexão e da anarquia, já nas relações dos indivíduos para com os indivíduos, já nas relações dos indivíduos para com o Estado. Entre os indivíduos e o Estado desapareceu, em nome de uma liberdade teórica e sem fundamentos, a verdadeira multidão de organismos intermediários que limitavam outrora a ação central do poder e facilitavam perante ele a defesa legítima dos outros interesses sociais.

Não inventariemos agora as consequências que resultaram da utopia revolucionária. Rotas as ligações do sangue e da terra com a obra comum do passado, a sociedade entrou a considerar-se como composta unicamente dos cidadãos existentes que, na frase célebre de alguém, nasciam como que enjeitados e morriam como que celibatários. Na falta de continuidade que só os regimes baseados na tradição nos garantem por meio das famílias, das comunas e das corporações, o vento da Revolução desenvolveu-se depressa, gerando no mais duro dos materialismos a vitória da força sobre o direito, o predomínio do lucro sobre a honra. A questão operária, visivelmente agravada de hora para hora, é quando nos surge, pela abolição sistemática dos velhos quadros profissionais em que o trabalho se emoldurava e protegia, e sobretudo pelo advento das oligarquias financeiras que iam entumecer os tempos por vir com os problemas gravíssimos que a nossa geração encontra diante de si instando por uma solução inadiável e pronta.

Ora são exatamente esses problemas que no dia seguinte ao da guerra hão-de ocupar o primeiro plano e determinar da sorte do mundo, conforme a direção que se lhes imprimir. Num pequeno opúsculo, publicado anónimo há cerca de um ano – La représentation nationale au lendemain de la paix (Méditations d’un combattant), o seu autor condensa nas próprias reflexões como que o exame de consciência da nossa época tão dolorosa como desencontrada.

Ele é o primeiro a reconhecer que os factos económicos constituirão amanhã a energia preponderante de que sairá remoçada, senão perdida, a harmonia social. E nele eu vejo partilhada a ideia de que avançamos para uma outra Idade Média, em que ao individualismo solto do século que findou se sucederá inalteravelmente uma conceção mais solidária dos homens entre si. As preocupações que o referido opúsculo concretiza com tanta ansiedade, escrito como foi ao clarão da metralha, são hoje correntes por toda a parte onde o pensamento se exerça com nobreza e os destinos do mundo mereçam a atenção recolhida de quem se sinta digno de viver a hora presente em toda a sua plenitude.

Mas o problema é mais vasto – e põe a questão delicada das relações das duas forças opostas da unidade e da liberdade –, a liberdade diversa por natureza, a unidade autocrática por tendência. Na Idade Média, a autonomia local e profissional, ao lado da admirável florescência das atividades espontâneas, chegou a ameaçar como um dissolvente a ideia nacional em formação: a unidade era sacrificada à liberdade. Hoje, semelhante perigo não é mais possível, mas indo-se de um só jato ao sistema diametralmente oposto, os parlamentaristas modernos (les constituants modernes) suprimiram todo o obstáculo à ação invasora do Estado, não se demorando as consequências na atonia dos órgãos secundários em proveito da cabeça: a liberdade sacrificada à unidade.
Deriva evidentemente da ondulação social entre a liberdade e a unidade a necessidade de uma justa cooperação desses dois elementos tão divergentes. Por isso Maurice Muret, resumindo as conclusões da guerra na Gazette de Lausanne, observa, em Novembro de 1915, como sendo a lei imperiosa da política reparadora do futuro: «Autoridade e competência ao alto, autonomia e fiscalização à base...» O homem de Estado que souber corrigir neste sentido as democracias modernas – a Bélgica inclusivamente – terá bem merecido da Europa e do mundo inteiro.
«Autoridade e competência, autonomia e fiscalização» – não são outros os fundamentos em que o Integralismo Lusitano se repousa. Porque os toma como essenciais à restauração da vida pública portuguesa, verifica também que, sem a coesão e a permanência de um forte poder central, nunca a sua realização se tornaria fácil. A conclusão monárquica se nos impõe nesta altura, demonstrando-nos bem quanto do consórcio de uma dinastia com uma nacionalidade resulta o penhor mais eficaz da sua independência e da sua valorização. Já nos tratadistas anteriores à Revolução nós deparamos assim a Realeza definida como um facto natural, originado pela conveniência da própria sociedade em se conservar.

O princípio eletivo se tinha já então como sendo um rudimento de autoridade nos agregados apenas incipientes. A hereditariedade do poder correspondia, pois, deste modo, a uma fase definitiva de diferenciação e de amadurecimento. É o que hoje, estrondosamente, se contraprova. Só uma manifesta confusão mental levou, com efeito, a acreditar que as formas democráticas de governo dispunham, por virtude inata, de uma superioridade indiscutível sobre todas as outras. O grande ludíbrio desmascara-se, enfim! E a monarquia nos aparece, com a frescura das coisas imortais, como o único sistema capaz de realizar a autoridade, a continuidade nas direções governativas, deixando aos órgãos legislativos e administrativos a liberdade, a autonomia e a fiscalização.
No reconhecimento dessa verdade consiste o possível regresso da Europa a uma situação conservadora. Contribuirá para ele definitivamente a vitória do sindicalismo. Tradicionalistas que somos, o nosso dever ordena-nos rigorosamente que, antes de mais nada, se tenham em vista as exigências justíssimas da organização do trabalho. O capitalismo afunda-se, filho da Revolução como é. E são os conflitos da Produção e da Concorrência que trazem consigo a fórmula política do Estado de amanhã. É aqui, onde nós parecemos ceder diante da onda crescendo, que está o caminho aberto para uma segura paz social. Precisamente porque repelimos em toda a linha a herança revolucionária, é que nós nos inscrevemos intransigentemente contra a ordem burguesa. A ordem burguesa é o Estado napoleónico com a sua omnipotência burocrática e centralizadora, fazendo da sociedade uma larga administração, em que a posse do poder consiste no seu monopólio e na sua conquista por um partido mais atrevido que os outros. A democracia é, consequentemente, o regime das lutas internas permanentes, em que os argentários predominam com a corrupção arvorada em arma de triunfo.

Revelou-se a Democracia incapacitada de resolver a crise europeia, tanto em evitar a guerra, como em a saber preparar.

Dão-lhe o golpe de morte as reivindicações operárias que, uma vez despidas da sua violência anárquica, restituirão à sociedade o seu equilíbrio antigo, desde que reduzam o Estado ao mínimo de intervenção, isto é, ao exercício exclusivo das suas funções específicas, tomando os indivíduos e as iniciativas em organizações intermedias em que a liberdade e a autoridade hão-de achar a sua natural e legítima interpenetração.

Assim se nos descobre a sociedade de amanhã, sindicada nas suas múltiplas atividades, como que entretecida de uma rede miúda de lares e de oficinas, e com remate lógico numa família que no seu egoísmo privado realiza o entendimento pacífico dos diversos egoísmos sociais. A tendência monárquica de alguns nomes do sindicalismo europeu é já notável nesse sentido, sendo unânimes os pensadores sindicalistas em afirmar terminantemente a sua repulsão pela democracia. Apertado entre socialistas e anarquistas, o sindicalismo começou a sua libertação em 1906 no Congresso de Amiens. O Socialismo, expressão exacerbada do Estado democrático, reputava sempre o movimento operário como um movimento de partido. O Anarquismo, por outro lado, quisera transformar os sindicatos numa espécie de clubs de ‘metafísica antiautoritária’. Em Amiens o Sindicalismo afirmou-se, porém, como um movimento operário, não de partido nem de seita, mas de classe.

A reposição do sindicalismo no seu terreno próprio de classe, condu-lo ao rompimento com a democracia de Estado e com a ordem burguesa, sua aliada íntima. O seu esforço concentra-se em alcançar, como já dissemos, o mínimo de Estado possível. E, na impossibilidade de obter a autonomia económica porque se empenha e combate dentro das formas parlamentares e centralistas do Estado contemporâneo, o sindicalismo encontra-se em frente de um dilema: ou Revolução Social ou o Rei. O mito da Revolução Social já entrou há muito no seu franco eclipse. A guerra europeia, despertando uma admirável revivescência de instintos nacionalistas, veio ensinar ao sindicalismo que, além das realidades Trabalho e Classe, há também as realidades Pátria e Família. E a hora se aproxima em que todos os sindicalistas conscientes da sua grande missão reparadora exclamarão como Édouard Berth numa página notável do seu livro Les méfaits des intellectuels: «Ora é necessário dizê-lo nitidamente! Quer-se uma Humanidade amorfa, espécie de monstro acéfalo, no Todo humanitário indeciso e indistinto, ou quer-se a manutenção das pátrias atuais e das civilizações nacionalistas? Tal é a questão a que é necessário responder. E a essa questão, eu, sindicalista francês, não hesito em responder que, ligado à pátria francesa por todos os laços do sangue, do coração e do espírito, por tudo o que constitui a minha vida física, moral e intelectual, eu desejo apaixonadamente a conservação, e não só a conservação, mas a grandeza da mesma pátria francesa; e que, tendo esse desejo, eu me consagro resolutamente aos meios de o realizar, quero dizer, ao Estado guerreiro, de que eu me sinto disposto a combater toda a compressão sobre a minha liberdade civil, mas ao qual eu confio o cuidado de defender vitoriosamente a minha independência nacional.»

Escritas antes da guerra, as palavras de Édouard Berth bem depressa se tornaram de simples testemunho individual numa aspiração coletiva de sentir e pensar. A âncora da sociedade de amanhã nelas se define e toma corpo. Será da aliança do Estado forte, pelo prestígio forte de uma família, com as autonomias profissionais e económicas, de que a sociedade se compõe, que virá para a Europa, como lição da guerra, a forma mais duradoira da sua estabilidade. Terá terminado então a mentira parlamentar e liberalista, que trazia no seu ventre os piores flagelos das democracias modernas.

Compenetrada desta evidência, a nossa mocidade encara o porvir, que, por mais que se congestione, não consegue nem um momento amortecer a esperança que nos arde no coração. Preparamo-nos conscientemente pelo estudo e pela disciplina para levantar uma Pátria que outros deitaram abaixo e que sete anos de tentativas falhadas e vãs não conseguiram reanimar para a vida. Sabemos o que queremos e para onde vamos. Já isso não acontece, infelizmente, a quantos, mais responsáveis do que nós nas desgraças de Portugal, imaginam ainda que a conclusão de uma catástrofe, como é a guerra europeia, apenas serviria para ser agradável ao seu ostracismo desesperado!
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Setembro, 1917.
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in Durante a Fogueira - Páginas da Guerra, 1927.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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