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​O Príncipe da Paz

António Sardinha

Análise histórica do papel da Igreja na promoção da paz europeia a partir da nota de Bento XV

( ​Agosto de 1917 )
Introdução. A nota enviada pelo Santo Padre às potências beligerantes, durante o auge do conflito europeu, destaca-se como um documento de profunda relevância religiosa e política. O Papa não propõe simplesmente a paz, mas apresenta as bases para um entendimento duradouro, posicionando-se como figura de reconciliação e unidade num momento de tragédia e divisão. O Papa, revestido somente da força espiritual, ergue-se acima das ambições humanas, investido pela sua missão sagrada de conduzir a Europa ensandecida pelo conflito de volta ao cajado de Cristo. Esta intervenção papal, ao invés de ser um simples apelo, constitui-se como uma chamada à restauração da ordem e da civilização cristã.
O Papel da Igreja na História Europeia. A Igreja foi o esteio da dignidade do espírito latino e a salvaguarda da verdadeira civilização. A própria formação da civilização moderna está ligada ao cristianismo, que, sob a orientação da Igreja, preparou o terreno para a renovação cultural e social após o colapso do Império Romano. A Idade Média, marcada pelo florescimento da Cristandade, viu no Pontificado um agente central na reconstrução da Europa, promovendo liberdade, segurança e a consolidação de uma sociedade internacional baseada em princípios comuns. O conceito medieval de
respublica christiana, mencionado como lição da história, ilustra a existência de uma assembleia das nações cristãs, unidas em Cristo, segundo o ensinamento apostólico de que todos formam um só corpo em Cristo. Este ideal histórico, mais do que uma simples utopia, constituiu-se como um modelo de convivência internacional, onde a fé era o fundamento da ordem comum.
A Autoridade Moral da Igreja. Os socialistas da época reconhecem na nota papal uma aceitação de ideias modernas, como a limitação dos armamentos, a supremacia do Direito sobre a força e a promoção de uma comunidade universal das nações. Contudo, o texto sublinha que tais ideias, embora consideradas modernas, são na verdade património multissecular da Igreja, que as implementou durante a Idade Média através da ‘trégua de Deus’ e dos concílios pacificadores. A existência de uma ‘internacional’ cristã estava baseada não em interesses políticos ou filosóficos, mas sim na fé, entendida como condição indispensável para a edificação de uma verdadeira comunidade intelectual e moral. O pensamento de Auguste Comte e de Bonald, citados no texto, reforça a importância da fé e da autoridade moral na proteção da sociedade contra os desvios do instinto humano. Na Idade Média, o Papa exercia a função de declarar o pecado social e de o reprimir por meio de penas espirituais, influenciando a contenção dos conflitos e promovendo a paz pelo Direito. A Igreja, mesmo quando não evitava a guerra, humanizava-a, por exemplo, pela instituição da Cavalaria.
Decadência da Influência Papal. Com o advento do protestantismo e a subsequente cisão religiosa, a influência política da Santa Sé foi progressivamente limitada. Em seu lugar, instaurou-se a chamada política do equilíbrio europeu, marcada por instabilidade e dependente das armas ou da astúcia diplomática. A invenção da diplomacia, longe de resolver os conflitos, aumentou a confusão, uma vez que a guerra deixou de ser considerada um pecado social, e as nações regressaram a um estado quase bárbaro, onde a força prevalecia sobre o direito.
As tentativas iluministas de mitigar a guerra, prometendo o seu desaparecimento através do progresso humano, revelaram-se ineficazes, pois as guerras intensificaram-se, marcadas pelo direito do mais forte. Até Napoleão reconheceu a força do Papado, procurando instrumentalizá-lo para seus próprios fins, mas a essência da autoridade papal permaneceu como a guardiã da alma europeia, mesmo numa Europa descristianizada.
O Retorno à Autoridade de Roma. A derrocada das alternativas seculares à autoridade moral da Igreja torna-se evidente perante a incapacidade das instituições laicas em evitar os conflitos. A internacional maçónica e a internacional socialista, ambas mencionadas no texto, fracassaram em seu propósito de impedir a guerra. Em contraposição, a Igreja permanece de pé, detendo a alma dos povos, enquanto os governantes detêm apenas os seus corpos. Os congressos eucarísticos, citados como exemplos concretos, são apresentados como provas da influência duradoura da Igreja. Multidões de diferentes nacionalidades curvam-se perante o legado papal, reconhecendo na Igreja não apenas a verdade de Cristo, mas também a luz e a civilização que dela emanam. Assim, a sociedade internacional parece procurar novamente o apoio firme do Papado para se reorganizar e tornar possível a prevalência do Direito sobre a Força.
A Esperança na Paz Pontifícia. O dilema central apresentado é entre uma paz revolucionária, imposta pelos setores avançados, e uma paz mediada pelo Papa. A nota pontifícia distingue-se por propor as bases para um primeiro acordo, deixando aos interessados a discussão dos pontos mais delicados, e não impondo soluções. Tal postura é apresentada como superior, pois privilegia o entendimento e o consenso sobre as exigências unilaterais. Diante da escolha entre a mediação de Roma, fonte suprema da Graça e da Civilização, e a imposição revolucionária, o instinto de conservação das nações tenderá a preferir o caminho proposto pela Igreja. Esta confiança na missão pacificadora do Papa Bento XV é vista como a esperança que deve animar todos os homens de boa vontade.
Conclusão. A intervenção de Bento XV, ao propor as bases para a paz, representa um apelo à penitência e à confiança em Cristo, Príncipe da Paz. O texto encerra com uma exortação para que todos, inspirados pelo exemplo do Papa, se unam na esperança de uma reconciliação duradoura, fundada não apenas na razão, mas sobretudo na consciência comum forjada pela fé cristã.



​O PRÍNCIPE DA PAZ
Roma falou. Já se conhece a nota enviada às potências beligerantes pelo Santo Padre e não podemos deixar de a considerar como um documento da mais profunda significação religiosa e política. O Papa não propõe a Paz. O Papa propõe as bases de um entendimento para a Paz. Como pai de tantos filhos divididos pela mais desesperada das insânias, ele é, nesta hora ensanguentada de tragédia, a palavra que reconcilia e que unifica. Nada de material o prende à terra. Só a força desarmada do Espírito reside nele, nesse homem vestido de branco que no cimo do Vaticano vigia e reza. Por isso mesmo só ele possui o poder que convence e que paira acima das ambições e das loucuras. Por isso mesmo só ele, que nada quer senão o que todos querem, se acha investido pelo seu sagrado ministério na missão de reconduzir ao cajado de Cristo a Europa enclavinhada num delírio de suicídio.

Não há muito que num livro notável Charles Maurras invocava a Igreja como O Rebanho da Humanidade [le bercail de l’humanité]. Na Igreja repousa a dignidade do espírito latino e a salvaguarda da verdadeira civilização. A civilização moderna é, na sua natureza, intimamente cristã. A Igreja a preparou ao anoitecer do mundo antigo, quando a sociedade desaparecia nos escombros do Império dos Césares com o alastrar espantoso das invasões bárbaras. Se as letras renasceram, se uma existência nova floresceu, se a Europa conheceu a liberdade e a segurança, não foi outra a obra do Pontificado abrigando no alto da sua colina a formação dolorosa, mas admirável, da Cristandade. Um dia veio em que a Europa, trazendo consigo ao colo as nacionalidades que hoje a golpeiam alucinadoramente, conheceu e praticou o que nós hoje não conhecemos nem praticamos. A sociedade internacional existiu então, através do lado comum aos povos, ainda os mais antagónicos. É da lição da história o assombroso conceito medieval de respublica christiana, constituída pela assembleia das nações cristãs, reunidas em Cristo, Senhor Nosso, conforme o ditame do Apóstolo: «quod omnes unum corpus sumus in Christo».

Dizem os socialistas agora que se verifica na nota papal uma certa aceitação das ideias modernas. As ideias modernas que, segundo esse inesperado acolhimento, a nota papal reflete são as que se referem à limitação dos armamentos, à supremacia do Direito sobre a força, à comunidade universal das Nações. São ideias modernas, porque são de todos os séculos. Pertencem ao património da Igreja se a Igreja as realizou durante a Idade Média mediante a ‘trégua de Deus’ e graças à obra pacificadora dos concílios. Então – repito, existia uma ‘internacional’. Existia apoiada, não nos interesses humanos, não na política dos príncipes, nem no orgulho da razão filosófica. Apoiava-se, mas era na fé. E «a fé – já o proclamava Auguste Comte –, isto é, a disposição a crer espontaneamente, sem demonstração preliminar, nos dogmas proclamados por uma autoridade competente, é a condição basilar indispensável para permitir o estabelecimento e a duração de uma verdadeira comunidade intelectual e moral».

O sociólogo positivista não fazia mais que parafrasear um dos seus mestres queridos, o senhor de Bonald. «A maior ventura que a sociedade pode procurar ao homem» – observava este, de olhos postos nos espetáculos anárquicos da Revolução – é defendê-la contra as ilusões da sua cupidez, contra os desvarios da sua imaginação e contra a inconstância das suas preferências.» Na Idade Média, no florescimento viçoso da Cristandade, o Papa, que declarava a culpa individual, declarava também o pecado social. O pecado social reprimia-o ele pelas penas espirituais. E o simples afastamento de um príncipe ou de uma nação da sociedade cristã impedia, nesses tempos de fé, as guerras ferozes de conquista, por obra da influência maternal de Roma. A Paz pelo Direito tornava-se assim possível, porque havia um órgão que a definia, órgão em nada ligado às contingências da terra, órgão em tudo inspirado pelas coisas altas do Céu. O próprio historiador Lavisse reconhece que não se encontra uma única assembleia cristã que não fosse simultaneamente uma assembleia de paz. E se muitas vezes a Igreja não evitava a guerra, humanizava-a pelo menos com a instituição nobilíssima da Cavalaria.

A Idade Média passou; surgiu a cisão religiosa trazida à Europa pelo protestantismo. A ação política da Santa-Sé dificultou-se e começou a decair. Substituiu-a a chamada política do «equilíbrio europeu», ensaiada em Vestfália, e a cada hora desconjuntada na sua base fragilíssima, dependente sempre, ou da espada de um conquistador, ou da astúcia de um homem de Estado. Inventa-se, para as necessidades, a diplomacia. Aumenta com ela a confusão. A guerra já não tem quem a julgue um pecado-social. As diversas nações europeias regressam a um estado quase bárbaro, com a metralha dos seus canhões considerados como o ultima ratio regum. As utopias dos Enciclopedistas quiseram iludir ainda a sentimentalidade das almas, apresentando-lhe a guerra como um facto destinado a desaparecer no aperfeiçoamento crescente da humanidade. Mas as guerras redobraram, com o direito do mais forte, ditado pela brutalidade das baionetas. Napoleão sonha com o império do mundo. E, olhar profundo de águia, apercebe-se da força desprezada do Papado.

«Como é que hei-de tratar o Papa?», perguntava-lhe de uma vez um seu marechal. «Como se tivesse duzentos mil soldados!», respondeu ele. E constrangendo Pio VII a ir coroá-lo a Paris, Napoleão procura, pela Concordata, submeter à sua ambição desensofrida a soberania universal de Roma. «Vede a insolência dos padres que, na partilha da autoridade com o que eles chamam o poder temporal, reservam para si a ação sobre a inteligência, sobre a parte nobre do homem, e pretendem reduzir-me a não ter mais do que a acção sobre os corpos. Eles guardam a alma e abandonam-me o cadáver.»

Cadáver, na realidade, é desde longa data a Europa descristianizada. Na catolicidade de Roma se guardava, no entanto, a alma que nos seria restituída depois da expiação. Na bela palavra de Godefroid Kurth, «a Igreja Católica, sentada aos pés da Cruz, esperava tranquilamente que as revoluções acabassem de fazer a educação da humanidade». Para cumprir essa profecia, no desenvolver da quimera socialista, o pacifismo apareceu como a concórdia dos homens entre os homens.

Esquecia-se de que a guerra é uma lei natural e que o socialismo, pretendendo satisfazer apenas as necessidades imediatas da vida, só a viria acender mais – sem quartel, mais inclemente e mais bruta. Os juristas vieram depois com o Direito Internacional, com as conferências da Haia, com a hipocrisia irritante dos tratados. A sociedade internacional continuava a não existir, porque, sem um intérprete soberano, fora de toda a ligação material, nunca o direito sobrepujaria a força. Obtinha-se quando muito uma paz instável, que era, na intriga infatigável das Chancelarias, uma como que guerra latente. A própria Santa-Aliança, que foi a maior criação da diplomacia, falhou miseravelmente, porque lhe faltava aquela condição sem a qual a sociedade internacional não existe e nem se pode duradoiramente reorganizar: uma autoridade moral. Nós estamos assim como que na noite afastada dos Tempos. Dantes, o embate de tribo para tribo. Hoje, o duelo dos povos com os povos.

Mas Bento XV falou. Ruiu no desencadear da catástrofe europeia a internacional mentirosa da Maçonaria. É fantasiosa a internacional socialista que não soube evitar a guerra. Só a Igreja continua de pé, possuindo a alma dos povos, enquanto os governantes não dispõem senão do corpo. A prova temo-la nos últimos congressos eucarísticos. Em Viena, mais de cinquenta mil pessoas, acorridas de todas as partes do globo, se curvaram diante do legado enviado de Roma. Às vésperas da declaração da Guerra, no congresso de Lourdes, perante o cardeal Granito Pignatelli, príncipe de Belmonte, se prostrou igualmente um auditório tão heterogéneo como numeroso. «Ele (o legado do Papa) trazia – escreve o romancista Louis Bertrand – não só a verdade de Cristo, mas também a claridade e o sorriso da civilização.»

É a claridade e o sorriso da civilização que, com a verdade de Cristo, sua inseparável companheira, o Santo Padre anuncia às desgraças do mundo enlutado nos seus esforços de pai pela Paz.
A sociedade internacional parece assim encostar-se de novo ao rochedo firmíssimo de Pedro para se recuperar e ser possível ainda. Só ali o Direito pode erguer-se acima da Força. A razão não basta, para o proclamar. Mais que a razão, há uma consciência que o determina e julga. A consciência da sociedade internacional não é a consciência de um Estado ou de uma aliança de Estados. Só será a expressão de um sentimento comum a todos eles. Esse sentimento dá-o apenas a religião, através do Catolicismo, única forma de religião social, como católica que é. Vai encontrar dificuldades a nota pontifícia? Se o silêncio das Chancelarias é animador, não nos iludamos, porém, com ele.

A Maçonaria espreita e não trabalha em vão. Ela é o agente mais exasperado da carnificina que atira a Europa para a perdição e há-de empenhar-se até ao fim para que o vigário de Cristo não pronuncie sobre o nosso continente reconciliado a admirável palavra da liturgia: «Pax hominibus in terra bonnae voluntatis, domine.» Mas, por outro lado, os países beligerantes encontram-se na ameaça de uma paz revolucionária, imposta de dentro para fora pelos elementos avançados.

A conferência de Estocolmo vai realizar-se – e não sei quais as suas consequências com o movimento pacifista que aumenta em Inglaterra e com as afirmações recentes de um dos chefes do socialismo belga. É outra a paz de Bento XV, que deixa à discussão dos interessados o exame dos pontos mais melindrosos, como o da Alsácia-Lorena e o das terras irredentas. O Papa limita-se a equacionar os termos de um primeiro acordo para a Paz.

É este o traço eminentemente superior do documento pontifício. Não pensam assim os homens de Estocolmo. Longe de se ficarem nas indicações prudentes, vão até às exigências e concretizam-no, imperativamente. Eis porque eu creio na vitória de Roma, embora contra ela se conjure a Maçonaria. Colocadas as nações beligerantes no dilema de uma paz branca com a mediação do Pontífice, ou de uma paz revolucionária, com os socialistas em Estocolmo, o mais elementar instinto de conservação optará pelo concurso de Roma, mãe dos povos, fonte suprema da Graça e da Civilização. É esta a esperança em que o meu coração se eleva. É esta a esperança em que se deve elevar o coração de todos os homens.

Bento XV falou. Ajoelhemos com ele na penitência e confiemos em Cristo, Príncipe da Paz!

​Agosto, 1917.



​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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