ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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​O Príncipe da Paz

António Sardinha

Fotografia
Papa Bento XV

RESUMO
António Sardinha apresenta a exortação do Papa Bento XV, em 1 de Agosto de 1917 -  Dès le début - dirigida às potências em guerra como uma intervenção de grande alcance moral e político.  A nota pontifícia é apresentada como uma tentativa de devolver à Europa uma ordem fundada no Direito, na reconciliação entre os povos e na tradição cristã da respublica christiana. O Papa Bento XV surge como a única voz capaz de se elevar acima dos interesses nacionais, da violência dos Estados e das limitações da diplomacia moderna.



​O PRÍNCIPE DA PAZ
Roma falou. Já se conhece a nota enviada às potências beligerantes pelo Santo Padre e não podemos deixar de a considerar como um documento da mais profunda significação religiosa e política. O Papa não propõe a Paz. O Papa propõe as bases de um entendimento para a Paz. Como pai de tantos filhos divididos pela mais desesperada das insânias, ele é, nesta hora ensanguentada de tragédia, a palavra que reconcilia e que unifica. Nada de material o prende à terra. Só a força desarmada do Espírito reside nele, nesse homem vestido de branco que no cimo do Vaticano vigia e reza. Por isso mesmo só ele possui o poder que convence e que paira acima das ambições e das loucuras. Por isso mesmo só ele, que nada quer senão o que todos querem, se acha investido pelo seu sagrado ministério na missão de reconduzir ao cajado de Cristo a Europa enclavinhada num delírio de suicídio.

Não há muito que num livro notável Charles Maurras invocava a Igreja como O Rebanho da Humanidade. Na Igreja repousa a dignidade do espírito latino e a salvaguarda da verdadeira civilização. A civilização moderna é, na sua natureza, intimamente cristã. A Igreja a preparou ao anoitecer do mundo antigo, quando a sociedade desaparecia nos escombros do Império dos Césares com o alastrar espantoso das invasões bárbaras. Se as letras renasceram, se uma existência nova floresceu, se a Europa conheceu a liberdade e a segurança, não foi outra a obra do Pontificado abrigando no alto da sua colina a formação dolorosa, mas admirável, da Cristandade. Um dia veio em que a Europa, trazendo consigo ao colo as nacionalidades que hoje a golpeiam alucinadoramente, conheceu e praticou o que nós hoje não conhecemos nem praticamos. A sociedade internacional existiu então, através do lado comum aos povos, ainda os mais antagónicos. É da lição da história o assombroso conceito medieval de respublica christiana, constituída pela assembleia das nações cristãs, reunidas em Cristo, Senhor Nosso, conforme o ditame do Apóstolo: «quod omnes unum corpus sumus in Christo».

Dizem os socialistas agora que se verifica na nota papal uma certa aceitação das ideias modernas. As ideias modernas que, segundo esse inesperado acolhimento, a nota papal reflete são as que se referem à limitação dos armamentos, à supremacia do Direito sobre a força, à comunidade universal das Nações. São ideias modernas, porque são de todos os séculos. Pertencem ao património da Igreja se a Igreja as realizou durante a Idade Média mediante a ‘trégua de Deus’ e graças à obra pacificadora dos concílios. Então – repito, existia uma ‘internacional’. Existia apoiada, não nos interesses humanos, não na política dos príncipes, nem no orgulho da razão filosófica. Apoiava-se, mas era na fé. E «a fé – já o proclamava Auguste Comte –, isto é, a disposição a crer espontaneamente, sem demonstração preliminar, nos dogmas proclamados por uma autoridade competente, é a condição basilar indispensável para permitir o estabelecimento e a duração de uma verdadeira comunidade intelectual e moral».

O sociólogo positivista não fazia mais que parafrasear um dos seus mestres queridos, o senhor de Bonald. «A maior ventura que a sociedade pode procurar ao homem» – observava este, de olhos postos nos espetáculos anárquicos da Revolução – é defendê-la contra as ilusões da sua cupidez, contra os desvarios da sua imaginação e contra a inconstância das suas preferências.» Na Idade Média, no florescimento viçoso da Cristandade, o Papa, que declarava a culpa individual, declarava também o pecado social. O pecado social reprimia-o ele pelas penas espirituais. E o simples afastamento de um príncipe ou de uma nação da sociedade cristã impedia, nesses tempos de fé, as guerras ferozes de conquista, por obra da influência maternal de Roma. A Paz pelo Direito tornava-se assim possível, porque havia um órgão que a definia, órgão em nada ligado às contingências da terra, órgão em tudo inspirado pelas coisas altas do Céu. O próprio historiador Lavisse reconhece que não se encontra uma única assembleia cristã que não fosse simultaneamente uma assembleia de paz. E se muitas vezes a Igreja não evitava a guerra, humanizava-a pelo menos com a instituição nobilíssima da Cavalaria.

A Idade Média passou; surgiu a cisão religiosa trazida à Europa pelo protestantismo. A ação política da Santa-Sé dificultou-se e começou a decair. Substituiu-a a chamada política do «equilíbrio europeu», ensaiada em Vestfália, e a cada hora desconjuntada na sua base fragilíssima, dependente sempre, ou da espada de um conquistador, ou da astúcia de um homem de Estado. Inventa-se, para as necessidades, a diplomacia. Aumenta com ela a confusão. A guerra já não tem quem a julgue um pecado-social. As diversas nações europeias regressam a um estado quase bárbaro, com a metralha dos seus canhões considerados como o ultima ratio regum. As utopias dos Enciclopedistas quiseram iludir ainda a sentimentalidade das almas, apresentando-lhe a guerra como um facto destinado a desaparecer no aperfeiçoamento crescente da humanidade. Mas as guerras redobraram, com o direito do mais forte, ditado pela brutalidade das baionetas. Napoleão sonha com o império do mundo. E, olhar profundo de águia, apercebe-se da força desprezada do Papado.

«Como é que hei-de tratar o Papa?», perguntava-lhe de uma vez um seu marechal. «Como se tivesse duzentos mil soldados!», respondeu ele. E constrangendo Pio VII a ir coroá-lo a Paris, Napoleão procura, pela Concordata, submeter à sua ambição desensofrida a soberania universal de Roma. «Vede a insolência dos padres que, na partilha da autoridade com o que eles chamam o poder temporal, reservam para si a ação sobre a inteligência, sobre a parte nobre do homem, e pretendem reduzir-me a não ter mais do que a acção sobre os corpos. Eles guardam a alma e abandonam-me o cadáver.»

Cadáver, na realidade, é desde longa data a Europa descristianizada. Na catolicidade de Roma se guardava, no entanto, a alma que nos seria restituída depois da expiação. Na bela palavra de Godefroid Kurth, «a Igreja Católica, sentada aos pés da Cruz, esperava tranquilamente que as revoluções acabassem de fazer a educação da humanidade». Para cumprir essa profecia, no desenvolver da quimera socialista, o pacifismo apareceu como a concórdia dos homens entre os homens.

Esquecia-se de que a guerra é uma lei natural e que o socialismo, pretendendo satisfazer apenas as necessidades imediatas da vida, só a viria acender mais – sem quartel, mais inclemente e mais bruta. Os juristas vieram depois com o Direito Internacional, com as conferências da Haia, com a hipocrisia irritante dos tratados. A sociedade internacional continuava a não existir, porque, sem um intérprete soberano, fora de toda a ligação material, nunca o direito sobrepujaria a força. Obtinha-se quando muito uma paz instável, que era, na intriga infatigável das Chancelarias, uma como que guerra latente. A própria Santa-Aliança, que foi a maior criação da diplomacia, falhou miseravelmente, porque lhe faltava aquela condição sem a qual a sociedade internacional não existe e nem se pode duradoiramente reorganizar: uma autoridade moral. Nós estamos assim como que na noite afastada dos Tempos. Dantes, o embate de tribo para tribo. Hoje, o duelo dos povos com os povos.

Mas Bento XV falou. Ruiu no desencadear da catástrofe europeia a internacional mentirosa da Maçonaria. É fantasiosa a internacional socialista que não soube evitar a guerra. Só a Igreja continua de pé, possuindo a alma dos povos, enquanto os governantes não dispõem senão do corpo. A prova temo-la nos últimos congressos eucarísticos. Em Viena, mais de cinquenta mil pessoas, acorridas de todas as partes do globo, se curvaram diante do legado enviado de Roma. Às vésperas da declaração da Guerra, no congresso de Lourdes, perante o cardeal Granito Pignatelli, príncipe de Belmonte, se prostrou igualmente um auditório tão heterogéneo como numeroso. «Ele (o legado do Papa) trazia – escreve o romancista Louis Bertrand – não só a verdade de Cristo, mas também a claridade e o sorriso da civilização.»

É a claridade e o sorriso da civilização que, com a verdade de Cristo, sua inseparável companheira, o Santo Padre anuncia às desgraças do mundo enlutado nos seus esforços de pai pela Paz. A sociedade internacional parece assim encostar-se de novo ao rochedo firmíssimo de Pedro para se recuperar e ser possível ainda. Só ali o Direito pode erguer-se acima da Força. A razão não basta, para o proclamar. Mais que a razão, há uma consciência que o determina e julga. A consciência da sociedade internacional não é a consciência de um Estado ou de uma aliança de Estados. Só será a expressão de um sentimento comum a todos eles. Esse sentimento dá-o apenas a religião, através do Catolicismo, única forma de religião social, como católica que é. Vai encontrar dificuldades a nota pontifícia? Se o silêncio das Chancelarias é animador, não nos iludamos, porém, com ele.

A Maçonaria espreita e não trabalha em vão. Ela é o agente mais exasperado da carnificina que atira a Europa para a perdição e há-de empenhar-se até ao fim para que o vigário de Cristo não pronuncie sobre o nosso continente reconciliado a admirável palavra da liturgia: «Pax hominibus in terra bonnae voluntatis, domine.» Mas, por outro lado, os países beligerantes encontram-se na ameaça de uma paz revolucionária, imposta de dentro para fora pelos elementos avançados.

A conferência de Estocolmo vai realizar-se – e não sei quais as suas consequências com o movimento pacifista que aumenta em Inglaterra e com as afirmações recentes de um dos chefes do socialismo belga. É outra a paz de Bento XV, que deixa à discussão dos interessados o exame dos pontos mais melindrosos, como o da Alsácia-Lorena e o das terras irredentas. O Papa limita-se a equacionar os termos de um primeiro acordo para a Paz.

É este o traço eminentemente superior do documento pontifício. Não pensam assim os homens de Estocolmo. Longe de se ficarem nas indicações prudentes, vão até às exigências e concretizam-no, imperativamente. Eis porque eu creio na vitória de Roma, embora contra ela se conjure a Maçonaria. Colocadas as nações beligerantes no dilema de uma paz branca com a mediação do Pontífice, ou de uma paz revolucionária, com os socialistas em Estocolmo, o mais elementar instinto de conservação optará pelo concurso de Roma, mãe dos povos, fonte suprema da Graça e da Civilização. É esta a esperança em que o meu coração se eleva. É esta a esperança em que se deve elevar o coração de todos os homens.

Bento XV falou. Ajoelhemos com ele na penitência e confiemos em Cristo, Príncipe da Paz!

​Agosto, 1917.




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A exortação apostólica de Bento XV e o papel da Igreja na promoção da paz europeia

(Agosto de 1917)​
A nota enviada por Bento XV às potências beligerantes, no auge da guerra europeia, impõe-se como um documento de singular alcance religioso e político. O Papa não se limita a formular um apelo genérico à paz: propõe as bases de um entendimento possível, procurando reconduzir povos exaustos, divididos e feridos a uma ordem fundada na justiça, na consciência moral e na reconciliação. A sua palavra surge, assim, não como intervenção diplomática comum, mas como expressão de uma autoridade espiritual que, por não depender das ambições da terra, se julga capaz de falar acima dos interesses nacionais e das paixões momentâneas. Revestido apenas da força desarmada do espírito, o Pontífice apresenta-se como figura de unidade num continente que parecia caminhar deliberadamente para a autodestruição.

A leitura de António Sardinha assenta numa concepção histórica segundo a qual a Igreja foi, ao longo dos séculos, um dos grandes esteios da civilização europeia. Após o colapso do Império Romano e perante a desagregação do mundo antigo, foi no seio da Igreja que se conservaram muitos dos elementos de continuidade moral, intelectual e social que permitiram a lenta reconstrução da Europa. A Cristandade medieval, com todas as suas limitações e contradições, ofereceu a imagem de uma comunidade de povos unidos por referências espirituais comuns. O ideal da respublica christiana exprimia precisamente essa aspiração a uma ordem internacional superior aos antagonismos particulares, na qual as nações cristãs se reconheciam como partes de um mesmo corpo moral. A paz, nesse quadro, não era apenas o resultado precário de equilíbrios de força, mas uma exigência inscrita numa visão comum do homem, da sociedade e do destino último da vida humana.

Daí que as ideias apresentadas na nota pontifícia — a limitação dos armamentos, a primazia do Direito sobre a força e a necessidade de uma comunidade universal das nações — não sejam interpretadas como concessões tardias ao espírito moderno, mas como princípios profundamente enraizados na tradição histórica da Igreja. Durante a Idade Média, a chamada trégua de Deus, a ação pacificadora dos concílios e a intervenção moral do Papado testemunharam uma tentativa de submeter a violência política a critérios superiores. A autoridade pontifícia podia declarar não apenas a culpa individual, mas também o pecado social, advertindo príncipes e povos contra a degradação moral da guerra injusta. Mesmo quando não conseguia impedir os conflitos, a Igreja procurava ao menos humanizá-los, limitá-los e enquadrá-los por meio de normas, símbolos e instituições, entre as quais se destacava a Cavalaria enquanto ideal de disciplina, honra e contenção.

Com a ruptura religiosa do século XVI e o enfraquecimento da unidade espiritual europeia, esse papel mediador da Santa Sé tornou-se mais difícil. A política do chamado equilíbrio europeu, consagrada após Vestefália, procurou substituir a antiga autoridade moral por um sistema de compensações diplomáticas entre Estados. Esse equilíbrio revelou-se muito frágil, dependente da espada dos conquistadores ou da astúcia dos estadistas. A diplomacia multiplicou tratados, alianças e conferências, mas raramente conseguiu impedir que a força se sobrepusesse ao Direito. A guerra deixou de ser vista como um pecado social e passou a ser aceite como instrumento normal da razão de Estado. Nem as promessas iluministas de progresso indefinido, nem as construções jurídicas do Direito Internacional, nem as conferências da Haia conseguiram criar uma verdadeira sociedade internacional, justamente porque lhes faltava uma autoridade moral reconhecida por todos e situada acima das contingências materiais.

É neste contexto que a intervenção de Bento XV ganha um significado particular. Perante o fracasso das alternativas laicas — fossem elas a diplomacia das chancelarias, o pacifismo socialista ou a retórica humanitária  — a Igreja aparecia, aos olhos de Sardinha, como a única instituição ainda capaz de conservar a alma dos povos. Os governos dispunham dos corpos, mobilizando-os para a guerra, mas Roma conservava uma autoridade dirigida às consciências. Os grandes congressos eucarísticos, reunindo multidões de diversas nações em torno do legado pontifício, pareciam confirmar essa permanência de uma universalidade católica capaz de sobreviver às fronteiras, às rivalidades e às paixões nacionais. Para Sardinha, a sociedade internacional, desfeita pela violência, parecia poder reencontrar no rochedo de Pedro um ponto de apoio para se reconstruir sobre bases mais altas do que a mera conveniência política.

A proposta de Bento XV distinguia-se também pela prudência. O Papa não pretendia impor uma paz definitiva, nem resolver unilateralmente as questões mais delicadas, como a Alsácia-Lorena ou as terras irredentas. Limitava-se a estabelecer as condições iniciais de um acordo, deixando aos interessados a negociação dos pontos concretos. Essa moderação conferia à nota pontifícia uma superioridade moral perante os projetos dos Estados que, em nome da paz, procuravam impor soluções rígidas e ideologicamente orientadas. A alternativa que se desenhava era, assim, entre uma paz mediada por Roma, fundada na reconciliação e na continuidade da civilização cristã, e uma paz revolucionária, nascida da exaustão social e da desordem interna. A esperança de Sardinha repousava na convicção de que o instinto de conservação das nações acabaria por reconhecer na mediação pontifícia o caminho mais seguro para evitar a dissolução da Europa.

 
O curso posterior dos acontecimentos viria, contudo, impor a essa esperança uma dura lição de realismo histórico. A nota papal de Agosto de 1917, conhecida pela exortação Dès le Début, foi recebida com frieza, desconfiança ou rejeição pelas principais potências beligerantes. A Europa encontrava-se demasiado mergulhada na carnificina, na propaganda e nos cálculos estratégicos para aceitar uma paz sem vencedores nem vencidos. Entre os Aliados, a França secular e anticlerical suspeitou da imparcialidade do Pontífice, chegando a acusá-lo de favorecer a Alemanha; a Itália, movida por ambições territoriais, procurara já no Tratado de Londres (1915) excluir a Santa Sé de futuras negociações de paz; e Woodrow Wilson recusou formalmente o apelo, convencido de que a paz só poderia nascer da derrota do militarismo germânico. Do lado dos Impérios Centrais, por sua vez, a recusa alemã em assumir o compromisso claro de desocupar a Bélgica tornou inviável qualquer entendimento imediato.

Precisamente por isso, a relevância moral da nota de Bento XV não se mede apenas pelo seu êxito diplomático, mas pela lucidez com que recusou a lógica dominante da guerra total. Num momento em que cada Estado procurava santificar a própria causa e transformar o adversário em culpado absoluto, o Papa falou em nome de uma paternidade espiritual que não identificava a justiça com a vitória de um campo sobre outro. A sua imparcialidade não significava indiferença perante o sofrimento nem neutralidade moral diante da violência; traduzia antes a tentativa de salvar, acima das fronteiras e das propagandas nacionais, a humanidade comum dos povos em conflito. Bento XV definia essa posição como a de quem desejava “guardar uma perfeita imparcialidade em relação a todos os beligerantes”, porque se considerava “Pai comum” e amava todos os seus filhos “com igual afeto”. A nota deve, por isso, ser lida não só como documento diplomático, mas como ato de consciência: nela, a autoridade pontifícia recordava aos governantes que as decisões políticas tinham um peso diante de Deus, dos homens e das gerações futuras, e que a paz não podia ser reduzida ao cálculo dos interesses ou à humilhação do vencido.

Essa autoridade moral manifestou-se também na formulação concreta dos princípios propostos. Ao pedir que “à força material das armas” fosse substituída “a força moral do Direito”, Bento XV colocava no centro da ordem internacional uma exigência superior à conveniência imediata dos Estados. A redução simultânea dos armamentos, a arbitragem obrigatória, a liberdade dos mares, a reparação dos danos e a consideração equitativa das questões territoriais correspondiam a uma tentativa de conter a soberania absoluta das nações por meio de uma norma mais alta de justiça. Nesse sentido, a nota possuía uma dimensão profética: denunciava a ilusão de que a segurança pudesse nascer da acumulação de armamentos e anunciava que só uma paz fundada no Direito, na moderação e na confiança recíproca poderia impedir a repetição de uma catástrofe. Quando o Pontífice apelava às “serenas deliberações da paz”, de uma paz “justa e duradoura”, não propunha uma trégua precária, mas uma conversão da própria linguagem política europeia. O seu valor moral estava menos na probabilidade imediata de êxito do que na clareza com que distinguia uma paz cristã, orientada para a reconciliação, de uma paz meramente política, tantas vezes inclinada à vingança.

A essa dimensão doutrinal juntava-se uma dimensão humanitária que reforçava a credibilidade do apelo pontifício. Bento XV não se limitou a condenar a guerra em abstrato; procurou aliviar, tanto quanto lhe era possível, o sofrimento concreto dos prisioneiros, dos feridos, dos desaparecidos, das famílias separadas e das populações atingidas pela fome e pela devastação. A sua palavra sobre a paz nascia, portanto, de uma caridade ativa e universal, sem distinção de nacionalidade ou confissão, como ele próprio afirmava ao propor-se “fazer a todos o maior bem possível”, “sem distinção de nacionalidade ou de religião”. Era essa universalidade da compaixão que conferia à nota uma grandeza própria: enquanto as nações contavam mortos como perdas estratégicas, Roma via neles filhos, irmãos e criaturas de Deus. A paz proposta pelo Papa tornava-se, assim, inseparável de uma visão da pessoa humana anterior ao Estado e superior às ideologias, impedindo que povos inteiros fossem reduzidos a instrumentos de revanche ou de domínio.

Com o fim da guerra, em 1918, o isolamento diplomático da Santa Sé tornou-se ainda mais evidente. A Conferência de Paris decorreu sem a sua participação efetiva, e o Tratado de Versalhes instituiu uma ordem internacional marcada mais pela punição dos vencidos do que pela reconciliação dos povos. Produziu-se então um paradoxo significativo: vários princípios que Bento XV propusera — o desarmamento, a arbitragem internacional e a submissão das relações entre Estados a critérios jurídicos — ressurgiram, em linguagem secularizada, nos Catorze Pontos de Wilson e na criação da Liga das Nações. O mundo político adotou parte do vocabulário moral que o Papa antecipara, mas separou-o da matriz espiritual que lhe dava fundamento e excluiu formalmente o Vaticano da nova arquitetura internacional.

Ao mesmo tempo, o receio de uma paz revolucionária não tardou a confirmar-se. Poucos meses depois da nota pontifícia, a Revolução Bolchevique triunfou na Rússia, e o colapso dos grandes impérios tradicionais abriu caminho a novas formas de radicalismo ideológico. O século XX seria profundamente marcado por movimentos totalitários, abertamente ateus ou anticristãos, que agravaram a fragmentação espiritual do continente e afastaram ainda mais a Europa da harmonia moral que António Sardinha associava à Cristandade. A paz nascida de 1919 revelou-se, por isso, instável, ressentida e incompleta; longe de pacificar definitivamente o continente, alimentou frustrações nacionais, humilhações políticas e desequilíbrios que contribuiriam para a eclosão de uma nova guerra mundial.

Embora a intervenção de Bento XV tenha fracassado no plano imediato, o tempo conferiu-lhe uma tardia vitória moral. Ao advertir contra uma paz fundada na vingança e na imposição, o Pontífice antecipou com notável lucidez os perigos de uma ordem internacional sem verdadeira reconciliação. A história posterior viria mostrar que a paz duradoura não podia nascer apenas de tratados, sanções ou equilíbrios diplomáticos, mas exigia uma cultura de perdão, solidariedade e responsabilidade comum. A nota de 1917 permanece, assim, como uma espécie de exame de consciência dirigido à Europa: recorda que as nações podem vencer militarmente e, ainda assim, perder moralmente, se edificarem a ordem futura sobre o ressentimento, a exclusão e a negação da dignidade do inimigo. A pergunta dramática do Papa — se “o mundo civilizado” deveria reduzir-se a “um campo de morte” e se a Europa, “arrastada por uma loucura universal”, caminharia para o seu próprio suicídio — revela a densidade histórica do seu diagnóstico. A sua grandeza não está, portanto, apenas em ter proposto uma saída para a Primeira Guerra Mundial, mas em ter formulado uma ética da paz capaz de julgar todas as pazes posteriores.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a reconstrução europeia retomaria, ainda que sob novas formas políticas, alguns dos princípios que a tradição católica havia longamente defendido: a superação do nacionalismo absoluto, a cooperação entre antigos inimigos e a subordinação da força a instituições comuns. Não por acaso, figuras como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, todos marcados pela formação cristã, estiveram entre os protagonistas do início da integração europeia através da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. O que em 1917 parecera uma voz isolada e impotente reaparecia, décadas mais tarde, como um dos pressupostos morais da reconstrução continental: a consciência de que a Europa só poderia sobreviver se abandonasse a religião política da soberania ilimitada e reconhecesse, acima das rivalidades nacionais, uma comunidade de destino.

A política de força e o nacionalismo secular esmagaram, no seu tempo, o apelo de Bento XV; mas o fracasso das soluções exclusivamente laicas acabaria por obrigar a Europa a reencontrar, por outros caminhos, princípios de solidariedade internacional, reconciliação e comunidade moral que a Igreja havia proclamado muito antes. A análise de António Sardinha permanece, por isso, menos como simples nostalgia de uma ordem desaparecida do que como testemunho de uma intuição histórica: sem uma consciência moral comum, nenhuma sociedade internacional se sustenta duradouramente, e a paz, para ser mais do que pausa entre guerras, precisa de assentar numa ideia superior de justiça, dignidade e fraternidade entre os povos.

A importância histórica da nota de Bento XV ultrapassa largamente o seu  imediato insucesso diplomático. Ela assinala um dos momentos mais altos da intervenção moral da Igreja na história contemporânea europeia, porque ousou afirmar, no centro da maior catástrofe até então conhecida, que a paz não podia resultar simplesmente da exaustão militar nem da imposição do vencedor sobre o vencido. Ao fazê-lo, recolocou no debate internacional a necessidade de uma ordem fundada na justiça, na moderação, na responsabilidade perante os povos e no reconhecimento da dignidade comum dos inimigos. Ignorada pelos governos do seu tempo, permaneceu como advertência e como critério: advertência contra os perigos de uma Europa entregue apenas à soberania absoluta dos Estados, e critério para julgar a autenticidade das pazes futuras. A sua grandeza histórica reside precisamente nessa permanência. Falhando como negociação, triunfou como testemunho; não deteve a guerra, mas iluminou as razões profundas pelas quais ela regressaria; não construiu imediatamente uma sociedade internacional, mas indicou a base moral sem a qual nenhuma comunidade de nações poderá sobreviver. Por isso, a voz de Bento XV não pertence apenas à história da Primeira Guerra Mundial: pertence à história mais ampla da consciência europeia, como uma das suas mais lúcidas e solenes chamadas à conversão da força em Direito, da vingança em reconciliação e da rivalidade entre povos numa paz verdadeiramente humana.


26 de Junho de 2026

J. M. Q.

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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