Revolução em Espanha?
António Sardinha
A história do último século não se pode compreender sem o conhecimento da história das associações secretas. É nas associações secretas que se assenta na ideia da república federal da Ibéria, acolhida já em 1817 pela ambição execranda de Gomes Freire, e de que Manuel Fernandes Tomás, por devoção ao grémio, não seria mais que um obediente executor.
- António Sardinha
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Pontos essenciais
- A revolução em Espanha é vista como mais do que uma tentativa interna; representa o triunfo da ordem tradicional europeia contra ameaças revolucionárias, especialmente da Maçonaria.
- António Sardinha atribui à Maçonaria e outras associações secretas um papel central na origem de movimentos revolucionários, como a Revolução Francesa.
- O iberismo é apresentado como uma criação política de origem maçónica, com a república federal da Ibéria sendo uma ambição antiga, ligada a figuras como Gomes Freire e Manuel Fernandes Tomás.
- Desta vez desmascarou-se estrondosamente o jogo dos estrangeiros que subsidiavam a agitação espanhola.
- A repressão da revolução é vista como importante não só para Espanha, mas para o futuro da Europa. Destaca-se a força do espírito católico e monárquico, bem como a consciência social dos conservadores espanhóis.
- Sardinha valoriza o papel da juventude espanhola no apoio às medidas do governo, como sinal de esperança para o futuro.
- A vitória espanhola é atribuída à robusta índole nacionalista, capaz de reagir ao liberalismo e promover o renascimento nacional.
- Refere-se à Santa-Aliança como tentativa de combater a “internacional” maçónica através de uma união religiosa e monárquica.
- Os reis e povos devem aprender com o exemplo espanhol, criticando monarcas que transigem com novidades sociais e colaboram com adversários da realeza.
- A realeza é vista como um “oitavo sacramento”, e a revolução espanhola é apresentada como um aviso claro sobre os perigos das conspirações.
- Sardinha termina apelando à manutenção dos ensinamentos recolhidos, para que a civilização cristã não volte a ser ameaçada pelos seus inimigos.
REVOLUÇÃO EM ESPANHA?
Os acontecimentos de Espanha têm um significado maior que o de uma simples tentativa revolucionária, de carácter interno, dominada a tempo e a horas. Não foi só a Monarquia quem triunfou em Espanha. Quem triunfou em Espanha foi, sobretudo, a ordem tradicional europeia, seriamente abalada nos seus alicerces pela conjura lenta, mas persistente, da Maçonaria.
As diversas campanhas intervencionistas com que, a propósito de tudo e de nada, se atiraram alguns países para a loucura trágica da guerra atual, não encobriam senão um plano preconcebido no escuro das associações secretas, tendente a proclamar por sobre a destruição total das velhas disciplinas históricas – Catolicismo e Realeza – a tirania dura e materialista de uma seita, que não é um lugar-comum de jornal ultramontano nem um recurso de efeito para romances de sensação. Não riamos por isso da Maçonaria, com receio de sermos comparados àquele padre-capelão de uma das novelas de Júlio Dinis! Trata-se, realmente, de um poder organizado, cujos fins são contrários à natureza da sociedade constituída. Baseia-se numa solidariedade internacional de princípios, sendo a forma republicana a sua forma própria, como expressão imediata que é das ideologias democráticas.
No seio da Maçonaria se gerou a Revolução Francesa, que a Inglaterra aproveitaria para seu engrandecimento, pagando a peso de oiro os serviços entusiasmados do agitador Danton. No convento maçónico de Francfort se condenou à morte Luís XVI antes de a Revolução rebentar. Essa proposta saiu de um maçon, de nome Abel, avô do célebre orador jesuíta Pe. Abel, que numa conferência quaresmal em Viena de Áustria revelou ao auditório o crime do seu ascendente, guardado até aí como segredo familiar, por determinação de seu pai no instante da agonia.
A história do último século não se pode compreender sem o conhecimento da história das associações secretas. É nas associações secretas que se assenta na ideia da república federal da Ibéria, acolhida já em 1817 pela ambição execranda de Gomes Freire, e de que Manuel Fernandes Tomás, por devoção ao grémio, não seria mais que um obediente executor.
O iberismo é deste modo uma criação política de origem maçónica, como primeiro avanço para o mito absurdo da Nação-Humanidade, sem mais fronteiras nem mais preconceitos a impedirem a floração livre do indivíduo. Eis porque não causará estranheza a deliberação tomada pelos agentes da revolução espanhola de proclamarem agora a república federal no dia imediato ao da sua vitória, arvorando a bandeira verde-e-vermelha dos homens do Terreiro do Paço como bandeira oficial de toda a Ibéria. Assim o comunicou, pelo menos ao seu público de iluminados, o dr. Cimala a 2 de Julho passado em outro convento maçónico, realizado este em Paris, e no qual, um pouco como no de Francfort, foi condenada à morte a realeza em Espanha.
A repressão da onda anárquica que pareceu alastrar um momento no reino vizinho é, pois, não só um facto de importância interna para a Espanha, mas visivelmente para os destinos da futura Europa, da Europa de amanhã, renascida já da convulsão medonha que a crucifica e está purificando. Desmascarou-se, e desta vez estrondosamente, o jogo estrangeiro que subsidiava a grossas somas a semente de agitação espanhola. Como às vésperas do 89, havia Dantons fabulosamente remunerados. Como então, o ponto de mira não era mais que o aniquilamento de quanto pudesse representar um elemento de autoridade legítima e de legítima hierarquia. Mas, felizmente para nós, a estrutura secular da Espanha continua fortemente argamassada pelo predomínio do espírito católico e monárquico. Contava-se com o exército numa errada interpretação da sua atitude de há meses. O exército revelou-se, porém, um exército, cheio da consciência da sua missão e com as suas virtudes militares absolutamente intactas. Contou-se igualmente com a massa operária, fácil de conduzir atrás do estandarte das suas reivindicações. E o nosso espanto aqui é justamente maior, porque verificamos quanto a questão social é já em Espanha do património imediato dos conservadores e como eles possuem raízes grossas na consciência da nação. Mesmo que à Espanha faltasse um rei – no sentido positivo da palavra –, o trono não teria tombado, porque a Espanha mostrou-se-nos verdadeiramente uma Monarquia, o que equivale a dizer um país solidamente organizado e concorde na realização dos seus interesses e das suas aspirações coletivas.
Como um sinal esperançoso da hora próxima, não deixarei de salientar a ação importante da juventude no auxílio prestado às medidas certeiras e enérgicas do governo.
É mais uma prova de que se iludem os insignes verborreicos de aquém e de além-mar, quando do alto de uma oratória já desacreditada anunciam para breve o triunfo definitivo da tal Democracia. Inteligências tão primárias como primária «a sua psicologia rudimentar, esquecem-se da influência dos imponderáveis» na marcha da sociedade. Ora os «imponderáveis», que Bismarck cultivava sabiamente, afirmam-se-nos de uma maneira excecional na resolução dos rapazes espanhóis. Por onde se vê que são bem contrárias às ideias correntes, na fraseologia atrasada de um Lloyd George ou de um Woodrow Wilson, as tendências filosóficas e sociológicas do nosso tempo. O movimento contrarrevolucionário está feito nas altas esferas da mentalidade contemporânea. Começa já a descer da torre do Conceito Puro para a vida quotidiana dos factos. Outra coisa não sucedeu em Espanha, como se manifestou no procedimento da mocidade. Outra coisa não sucederá depois da guerra, quando, ao examinarem-se as causas da sua duração, se encontrarem à frente delas o conluio da Democracia com o Capitalismo como um fator primacial, senão único.
Registemos, portanto, os acontecimentos de Espanha com a tranquilidade superior dos que creem nas verdades que defendem. A Espanha venceu, porquê? Venceu pela sua robusta índole nacionalista, que, apesar das fundas brechas que o liberalismo lhe abrira, conseguiu reagir salutarmente, acabando de entrar no caminho franco do seu renascimento, mais unida, mais homogénea, mais senhora da sua finalidade.
Mas que a lição se não perca nem para os Reis nem para os Povos! A Maçonaria, firma universal de empresas deste jaez, só progride e vinga onde não acha pela frente uma defensiva aguerrida do espírito conservador. É cosmopolita a Maçonaria na multiplicação das suas teias e no prosseguimento da sua política. Suponho mais que chegada a oportunidade de nós outros, os reacionários, lhe opormos com alma e com decisão também a nossa «internacional».
Quando o Imperador Alexandre se deixou levar pela mão de Mme. de Krudener ao gabinete modesto de Nicolas Bergasse, entre os três se esboçou aí o pacto de que iria sair a Santa-Aliança. A Santa-Aliança não procurava em começo senão combater a «internacional» maçónica pela «internacional» religiosa e monárquica. A lealdade púnica que comprara as diligências desinteressadas de Danton fez abortar prudentemente essa admirável tentativa de restabelecimento da sociedade das nações. Não da sociedade das nações baseada no filantropismo torpe das Lojas, mas da sociedade das nações como a Idade Média a concebera e de que o ideal supremo da Cristandade foi o eixo fecundo e estável.
Eis o primeiro dever que aos tradicionalistas de todo o mundo se impõe para o dia seguinte ao da Paz. Os ensinamentos recolhidos de um martírio tão demorado e tão cruciante é preciso manterem-se bem vivos na nossa conduta para que o sorriso da civilização, tão cristã na sua essência e no seu destino, não volte a servir de rebuço aos seus piores inimigos. Aprendamos – e aprendamos com sincera vontade de aprender – no exemplo altíssimo que a Espanha nos ofereceu. Mas mais do que nós, aprendam os Reis. São Reis no exílio, Bourbons a correr atrás de um ónibus, a quem se diz indiferentemente de dentro: «Au complet! como no romance célebre de Daudet –, são Reis no exílio, repito, os que julgam fortalecer a sua posição transigindo com as novidades sociais e aceitando a colaboração de elementos por índole adversos ao princípio da Realeza. Melquiades Álvarez, aderindo à monarquia para melhor a atraiçoar, é um símbolo que fica para sempre. Para sempre ficará denunciando o gigante pelo dedo, o exílio do Tzar para a Sibéria sem um protesto dos seus aliados da véspera, como sem um protesto se assistiu à deposição violenta de Constantino da Grécia. Pretendeu-se constantinizar a Espanha na mesma evidência de desígnios. Mas a Espanha repeliu com honrada sobranceria o atentado vibrado ao coração da sua unidade e da sua preponderância, e o futuro nos mostrará que não só a ela se salvou, mas que também nos salvou a nós.
Estejam, pois, de alerta aqueles que a conservação da sociedade colocou na responsabilidade sagrada de um trono. A Realeza é um oitavo sacramento, já Renan o dizia, que obriga tanto como os outros. A revolução de Espanha foi um aviso a mais, que já não pode deixar ninguém iludido. A conspiração está à vista nos seus meandros e no seu objetivo. Sabe-se quem a dirige, sabem-se as enredadas vias por onde caminha. Só nos resta a nós exclamar, como no sermão memorando de Bossuet: «E agora, ó Reis, compreendei vós que decidis da sorte do mundo!»
Agosto, 1917.