A soberania de Roma
António Sardinha
RESUMO
- Contexto do Pensamento de Charles Maurras. O texto parte da leitura do livro “Le Pape, la guerre et la paix”, de Charles Maurras, destacando como a inteligência, quando aplicada de forma nobre, revela o descompasso entre a mentalidade da época e as direções tentadas pelos oradores da Democracia e do Livre-Pensamento. O caso de Maurras, longe de ser isolado ou sentimentalmente arcaico, é apresentado como uma resposta racional às duras lições da guerra, sugerindo que apenas o retorno ao conceito medieval de Cristandade poderá restaurar a sociedade internacional dilacerada. Sardinha altera a sua atitude face ao exotismo da "farmacopeia gaulesa".
- Maurras: Agnosticismo, Positivismo e Respeito pela Igreja. O testemunho de Maurras é significativo, pois, mesmo como agnóstico e positivista convicto, ele reconhece a importância da Igreja. Confessa a sua falta de fé, mas, como francês e latino, reverencia a ação secular do Pontificado, identificando na Igreja a instituição moral que guiou e protegeu a civilização ao longo do tempo. Maurras não a venera pelo aspeto eterno, mas como detentora das verdades essenciais para a saúde e disciplina das sociedades.
- Apologética e Tradição na Obra de Maurras. A obra de Maurras é fundamentada por um espírito apologético infatigável, onde tradição humanista e observação experimental se unem. Suas ideias não são conceitos abstratos, mas expressões vivas da realidade. Assim, o tradicionalismo da Action française não é uma nostalgia romântica, mas o resultado de uma inteligência reflexiva que valoriza a tradição como resposta à evidência dos fatos, e não por apego a ruínas do passado.
- Renovação do Pensamento Europeu. António Sardinha aponta para uma renovação inevitável do pensamento europeu. Na filosofia, o misticismo volta a ser valorizado, o materialismo é criticado, e a literatura e política revelam um desejo de construção. O reconhecimento das bases do Catolicismo e da Monarquia é visto como fundamental para o equilíbrio e a paz, como defendido por Balzac.
- Crítica aos Líderes Democráticos e à Maçonaria. António Sardinha critica figuras como Lloyd George e Woodrow Wilson, considerados inadequados para representar as verdadeiras aspirações do tempo. Wilson é retratado como expressão de um país marcado por desigualdades e feudalismo financeiro, enquanto Lloyd George é visto como alguém que pretende fragmentar o Reino Unido. A retórica democrática é desacreditada, e o texto denuncia a influência negativa da Maçonaria, apontando a França e a Rússia como vítimas desse erro.
- O Papel da Igreja e o Futuro da Sociedade Internacional. Na busca por um novo equilíbrio, Sardinha destaca que a paz será alcançada com o restabelecimento do equilíbrio espiritual. A Monarquia é apresentada como solução para a vitória duradoura e a paz efetiva, e apenas a Igreja é vista como capaz de fornecer uma base indestrutível para a harmonia internacional. O Direito Internacional é considerado ineficaz, e a Igreja, através da Cruz, é reconhecida como o único vínculo de reconciliação real entre os povos.
- A Soberania de Roma e a Nova Cristandade. O autor conclui que, após o fracasso das utopias revolucionárias e o despertar dos nacionalismos, a sociedade internacional terá de repousar sob a soberania de Roma. A profecia de Joseph de Maistre é evocada como sinal do retorno à meditação sobre as ruínas do presente. Sardinha considera o livro de Maurras um reflexo do novo estado de espírito que emerge após a crise revolucionária, vislumbrando uma nova Idade Média marcada por maior harmonia e depuração.
- Conclusão: Uma Nova Era. António Sardinha termina exprimindo uma expectativa otimista diante da nova era que se anuncia, sob a soberania espiritual de Roma, representando o alvorecer de uma nova Cristandade e a superação das falsas promessas revolucionárias.
Acabo de passar a última folha do novo livro de Charles Maurras – Le Pape, la guerre et la paix [1917]. O poder da inteligência, quando nobremente exercido, seria uma força perdida e escusada, se nós em face desse livro admirável não houvéssemos de concluir que a mentalidade da nossa época está em completo desacordo com as direções que debalde lhe procura imprimir a oratória avulsa de qualquer tribuno da Democracia e do Livre-Pensamento. O caso de Maurras não é isolado, nem de modo nenhum significa uma manifestação de arcaísmo sentimental. É em nome dos factos e sobre a dura lei da necessidade, tão duramente imposta pelas lições tremendas da guerra, que Charles Maurras indica à Europa ensanguentada o regresso ao conceito medieval de Cristandade, como o único recurso capaz de restaurar a sociedade internacional desfeita.
O depoimento de Charles Maurras é tanto mais insuspeito quanto ele, agnóstico impenitente, fechado dolorosamente na moldura estreita do seu positivismo, não se evita de confessar que não é um crente e que a graça da Fé não assiste nem às torturas do seu coração nem às incertezas da sua filosofia. «Je manque de l’amour de Dieu!», exclama ele frequentes vezes, limitando-se resignadamente ao resultado das verificações intelectuais. No entanto, intérprete fiel das tendências organizadoras do momento presente, como latino e como francês, inclina-se diante da Igreja e saúda na ação secular do Pontificado a grande instituição moral que, através das maiores vicissitudes, velou sempre pela marcha da civilização e soube guiar maternalmente os destinos da humanidade.
Não a podendo venerar na eternidade dos tempos, segundo as promessas infalíveis de Cristo, Charles Maurras venera a Igreja como a depositária suprema daquelas verdades únicas que são a saúde da vida e a disciplina dos povos. A sua obra é toda ordenada por um infatigável espírito de apologética, onde a tradição humanista das velhas letras eclesiásticas se enlaça e dá as mãos a uma observação educada pelo mais escrupuloso dos experimentalismos. As ideias em Charles Maurras não valem por si como velhos conceitos abstratos. Valem antes como expressões animadas da existência, que retratam e definem no seu vigor e na sua amplitude. Eis porque o tradicionalismo da Action française não é uma exacerbação romântica em que o respeito pelas aquisições do Passado corresponde ao amor melancólico de Chateaubriand pelas ruínas ao abandono e pelos ciprestes ao luar. Não se trata da Ressurreição dos Mortos, não se trata de uma meditação fúnebre de cemitério. Trata-se de um ato refletido e calmo da inteligência, da inteligência quando é nobremente exercida, cujo poder seria uma força estéril e vã, se nós tivéssemos de confiar, não nos seus ensinamentos, mas em quanta quimera desacreditada persiste ainda em se sobrepor às demonstrações bem claras da realidade.
A renovação do pensamento europeu já nada a detém. Já nada detém a ânsia construtiva do nosso tempo, revelada na literatura, na política e na filosofia. Na filosofia os fenómenos místicos reabilitam-se como afirmações superiores da nossa personalidade. O materialismo não resiste ao exame crítico a que o sujeitam de todos os lados. O Sangue e a Terra triunfam no romance e na poesia. Na política adquire-se uma noção científica dos fenómenos sociais, que leva ao reconhecimento e à aceitação do Catolicismo e da Monarquia – as duas colunas majestosas, a cuja sombra Balzac com tanta serenidade escrevia. Como conclusão, o ingresso na Igreja abre já as portas da síntese por que suspiram as almas sequiosas de sossego interior e que virá a ser – inabalavelmente o creio! – a conquista gloriosa do dia de amanhã.
Iludem-se, por isso, os que supõem representativos de aspirações contemporâneas um Lloyd George ou um Woodrow Wilson. Woodrow Wilson é um yankee de pura gema, refletindo em si a extravagância de um país que não se desembaraçou ainda das suas próximas origens coloniais. A democracia na sua retórica de universitário jubilado não se reveste de nenhum sentido concreto, sobretudo se olharmos às profundas desigualdades sociais que tornam a América no pior dos feudalismos – o feudalismo financeiro – e quando nos recordarmos que ele é o ditador dos ditadores, cheio de prerrogativas presidenciais que nem de longe se inscrevem nas constituições monárquicas da Europa.
Quanto a Lloyd George, membro de uma seita do país de Gales, imbuída do evangelismo mais anárquico, lembremo-nos apenas, para lamentar a Grã-Bretanha, de que o seu primeiro ministro é o homem da propaganda pacifista contra a guerra do Transval, a quem chamavam então «Lloyd George o traidor», e que, «não-conformista» em tudo, pensa em fragmentar o Reino Unido para conceder, sobre uma base federal, direitos e poderes iguais à Escócia, à Irlanda, ao país de Gales e à Inglaterra propriamente dita. Correspondem, pois, estas duas individualidades às solicitações profundas que agitam a inteligência da época? Não! Certamente que não!
No silêncio e no estudo, a hora da paz se prepara. Mas prepara-se pelo restabelecimento do equilíbrio espiritual nas consciências e na sociedade. Era-me fácil demonstrar aqui quanto são fracos de vista e de alcance os verbalismos tolos dos tribunos anunciando para dentro de breve, para o aprés guerre já próximo, a vitória inevitável da mentira que a Maçonaria oculta consigo. Há diante de nós vítimas bem sacrificadas desse erro nefasto. É a França uma delas, a outra é a Rússia. A França, desorganizada militarmente pelos abusos mais infames do parlamentarismo republicano, é hoje uma ‘nação socorrida’ pelo mundo inteiro – «Nous sommes des assistés», diz diariamente Charles Maurras, depois de ter sido o eixo político da Europa anterior à Revolução. Da Rússia já se não fala, com o espetáculo miserável que ela nos está oferecendo. Para que insistir num ludíbrio que é criminoso e cujo desmentido total se nos impõe como um dever indeclinável, até de armas na mão, se preciso for?
Tranquilizemos a ansiedade e clarifiquemos as interrogações! Alterações gravíssimas sucederão sem dúvida ao duelo sangrento que a todos nós nos enluta. Mas quando a pacificação florir com o seu ramo de oliveira, a palavra a escutar-se será a nossa, inegavelmente. Morreram as utopias revolucionárias, o que esta guerra despertou foi a mais espessa floração de nacionalismos. Eis já aqui um triunfo para nós, eis já aqui o primeiro passo para uma restituição social dos princípios que proclamamos contra a miragem que durante um século e meio imaginou caminhar para a Cidade Nova em que as nações se fundiriam num tipo mais perfeito de vida universal – a Nação-Humanidade. Necessariamente, na luta desencadeada desses instintos históricos que ressurgem e se digladiam com tanto arremesso, as exigências da sua defesa e da sua vitalidade conduzi-los-ão, senão quiserem soçobrar, a identificar o seu egoísmo coletivo com o egoísmo consciente de uma dinastia. Será a consequência imediata da paz. As questões momentosas do trabalho e da restauração económica levarão igualmente as classes em antagonismo ao encontro daquele ponto de apoio que é sempre um poder contínuo, respeitado e indiscutível. A Monarquia se impõe, assim, a quem procura duração para a vitória e efetividade para a paz.
Mas a sociedade internacional – quais as bases indestrutíveis de um entendimento fecundo dos povos? E a grandiloquência lírica da democracia alude à justiça em frases desmesuradas, com arrebatamentos empolados de linguagem. Ora é a altura de apreciar o problema que Charles Maurras examina no seu livro recente. «O vocabulário oficial dos Estados aliados – escreve o Mestre ilustre da Contra-Revolução – parece querer confiar a sorte da concórdia futura à ideia mais geral da justiça. Receio bem que caminhemos para rudes surpresas. A justiça é necessária para a paz, mas será bastante? Ela pode trazer algumas deceções. Pela complexidade dos interesses e dos intuitos que dissimula e que desenvolve também, a Justiça é a ideia litigiosa por excelência. Todos a desejam para si. Ter-se ou não se ter direito a ela, é mais o prefácio das batalhas do que a sua conclusão. Se há germes de guerra, é na Justiça que existem.» Charles Maurras, olhando a unidade humana que o Catolicismo realizou durante a Idade Média, entende, e em alta voz o declara, ser já tempo de «enveredar por algum caminho que traga a nossa pátria e todas as outras de volta ao rebanho da humanidade». [ reprendre quelque voie qui fasse rentrer notre patrie et toutes les autres au bercail de l’humanité].
Na falência do socialismo, e em face da agressão sectária da Maçonaria, a Igreja é "a única Internacional que detém" [«la seule Internationale qui tienne»]. Foram letra morta as conferências da Haya no doutoralismo enfático das suas atas. Reina a anarquia nas relações dos povos, que na espada depõem a sua última esperança. O Direito Internacional não passa – já agora se vê – de uma futilidade inventada por mentalidades bizantinas. Destinando-se ao lado comum das nacionalidades e dos indivíduos, que é o sentimento religioso, só a Igreja, cuja finalidade não vai para as coisas do mundo, nos apresenta e garante uma regra segura de harmonia e de reconciliação, debaixo do sinal eterno da Cruz. O Príncipe da Paz não reside no palácio dos poderosos. O Príncipe da Paz reside no Vaticano, cheio da força formidável da sua divina fraqueza. Os seus interesses são os interesses do Espírito, e não os da Matéria. É Ele quem liga e quem unifica. Nunca da sua boca saiu a voz que divide, o gesto que separa. Na instabilidade da sua sorte, a Europa adivinha, sem o achar por enquanto, o porto de abrigo que lhe dará a confiança no futuro. É a soberania de Roma, oferecendo-nos de longe o seu jugo amorável. Porque o não quisemos aceitar, um jugo mais forte – o da fatalidade – nos quebra e nos esmaga como a vara de ferro da imagem simbólica da Bíblia.
Pois é aí, no berço da humanidade [ bercail de l’humanité], que a sociedade internacional terá de se repousar. A profecia de Joseph de Maistre cresce do esquecimento de um século inteiro para a meditação atenta de quem se debruça sobre tanta ruína palpitando. Le Pape, la guerre et la paix não é assim um simples exercício sociológico, sem significado na consciência inquieta da época. Concretiza um estado de espírito que já entrou no domínio dos factos correntes. Coube a Charles Maurras – um agnóstico – dar-lhe expressão definitiva. É mais um sinal da mudança que levam as direções da inteligência. Depois de uma crise de individualismo exasperado, as energias sociais recuperam-se do destroço em que as deixou a rajada doida da Revolução. Assistimos ao florescimento de uma como que Idade Média, donde a face da terra sairá mais depurada e mais harmoniosa.
Soam-nos ainda aos ouvidos palavras de loucura? Que importa? São os ecos derradeiros de uma mentira que não pode mais atravessar-se-nos no caminho. A nova era do mundo já vem para cá do horizonte. E eis a soberania de Roma desdobrando sobre ela a graça amanhecente de uma nova Cristandade!
Agosto, 1917.
O depoimento de Charles Maurras é tanto mais insuspeito quanto ele, agnóstico impenitente, fechado dolorosamente na moldura estreita do seu positivismo, não se evita de confessar que não é um crente e que a graça da Fé não assiste nem às torturas do seu coração nem às incertezas da sua filosofia. «Je manque de l’amour de Dieu!», exclama ele frequentes vezes, limitando-se resignadamente ao resultado das verificações intelectuais. No entanto, intérprete fiel das tendências organizadoras do momento presente, como latino e como francês, inclina-se diante da Igreja e saúda na ação secular do Pontificado a grande instituição moral que, através das maiores vicissitudes, velou sempre pela marcha da civilização e soube guiar maternalmente os destinos da humanidade.
Não a podendo venerar na eternidade dos tempos, segundo as promessas infalíveis de Cristo, Charles Maurras venera a Igreja como a depositária suprema daquelas verdades únicas que são a saúde da vida e a disciplina dos povos. A sua obra é toda ordenada por um infatigável espírito de apologética, onde a tradição humanista das velhas letras eclesiásticas se enlaça e dá as mãos a uma observação educada pelo mais escrupuloso dos experimentalismos. As ideias em Charles Maurras não valem por si como velhos conceitos abstratos. Valem antes como expressões animadas da existência, que retratam e definem no seu vigor e na sua amplitude. Eis porque o tradicionalismo da Action française não é uma exacerbação romântica em que o respeito pelas aquisições do Passado corresponde ao amor melancólico de Chateaubriand pelas ruínas ao abandono e pelos ciprestes ao luar. Não se trata da Ressurreição dos Mortos, não se trata de uma meditação fúnebre de cemitério. Trata-se de um ato refletido e calmo da inteligência, da inteligência quando é nobremente exercida, cujo poder seria uma força estéril e vã, se nós tivéssemos de confiar, não nos seus ensinamentos, mas em quanta quimera desacreditada persiste ainda em se sobrepor às demonstrações bem claras da realidade.
A renovação do pensamento europeu já nada a detém. Já nada detém a ânsia construtiva do nosso tempo, revelada na literatura, na política e na filosofia. Na filosofia os fenómenos místicos reabilitam-se como afirmações superiores da nossa personalidade. O materialismo não resiste ao exame crítico a que o sujeitam de todos os lados. O Sangue e a Terra triunfam no romance e na poesia. Na política adquire-se uma noção científica dos fenómenos sociais, que leva ao reconhecimento e à aceitação do Catolicismo e da Monarquia – as duas colunas majestosas, a cuja sombra Balzac com tanta serenidade escrevia. Como conclusão, o ingresso na Igreja abre já as portas da síntese por que suspiram as almas sequiosas de sossego interior e que virá a ser – inabalavelmente o creio! – a conquista gloriosa do dia de amanhã.
Iludem-se, por isso, os que supõem representativos de aspirações contemporâneas um Lloyd George ou um Woodrow Wilson. Woodrow Wilson é um yankee de pura gema, refletindo em si a extravagância de um país que não se desembaraçou ainda das suas próximas origens coloniais. A democracia na sua retórica de universitário jubilado não se reveste de nenhum sentido concreto, sobretudo se olharmos às profundas desigualdades sociais que tornam a América no pior dos feudalismos – o feudalismo financeiro – e quando nos recordarmos que ele é o ditador dos ditadores, cheio de prerrogativas presidenciais que nem de longe se inscrevem nas constituições monárquicas da Europa.
Quanto a Lloyd George, membro de uma seita do país de Gales, imbuída do evangelismo mais anárquico, lembremo-nos apenas, para lamentar a Grã-Bretanha, de que o seu primeiro ministro é o homem da propaganda pacifista contra a guerra do Transval, a quem chamavam então «Lloyd George o traidor», e que, «não-conformista» em tudo, pensa em fragmentar o Reino Unido para conceder, sobre uma base federal, direitos e poderes iguais à Escócia, à Irlanda, ao país de Gales e à Inglaterra propriamente dita. Correspondem, pois, estas duas individualidades às solicitações profundas que agitam a inteligência da época? Não! Certamente que não!
No silêncio e no estudo, a hora da paz se prepara. Mas prepara-se pelo restabelecimento do equilíbrio espiritual nas consciências e na sociedade. Era-me fácil demonstrar aqui quanto são fracos de vista e de alcance os verbalismos tolos dos tribunos anunciando para dentro de breve, para o aprés guerre já próximo, a vitória inevitável da mentira que a Maçonaria oculta consigo. Há diante de nós vítimas bem sacrificadas desse erro nefasto. É a França uma delas, a outra é a Rússia. A França, desorganizada militarmente pelos abusos mais infames do parlamentarismo republicano, é hoje uma ‘nação socorrida’ pelo mundo inteiro – «Nous sommes des assistés», diz diariamente Charles Maurras, depois de ter sido o eixo político da Europa anterior à Revolução. Da Rússia já se não fala, com o espetáculo miserável que ela nos está oferecendo. Para que insistir num ludíbrio que é criminoso e cujo desmentido total se nos impõe como um dever indeclinável, até de armas na mão, se preciso for?
Tranquilizemos a ansiedade e clarifiquemos as interrogações! Alterações gravíssimas sucederão sem dúvida ao duelo sangrento que a todos nós nos enluta. Mas quando a pacificação florir com o seu ramo de oliveira, a palavra a escutar-se será a nossa, inegavelmente. Morreram as utopias revolucionárias, o que esta guerra despertou foi a mais espessa floração de nacionalismos. Eis já aqui um triunfo para nós, eis já aqui o primeiro passo para uma restituição social dos princípios que proclamamos contra a miragem que durante um século e meio imaginou caminhar para a Cidade Nova em que as nações se fundiriam num tipo mais perfeito de vida universal – a Nação-Humanidade. Necessariamente, na luta desencadeada desses instintos históricos que ressurgem e se digladiam com tanto arremesso, as exigências da sua defesa e da sua vitalidade conduzi-los-ão, senão quiserem soçobrar, a identificar o seu egoísmo coletivo com o egoísmo consciente de uma dinastia. Será a consequência imediata da paz. As questões momentosas do trabalho e da restauração económica levarão igualmente as classes em antagonismo ao encontro daquele ponto de apoio que é sempre um poder contínuo, respeitado e indiscutível. A Monarquia se impõe, assim, a quem procura duração para a vitória e efetividade para a paz.
Mas a sociedade internacional – quais as bases indestrutíveis de um entendimento fecundo dos povos? E a grandiloquência lírica da democracia alude à justiça em frases desmesuradas, com arrebatamentos empolados de linguagem. Ora é a altura de apreciar o problema que Charles Maurras examina no seu livro recente. «O vocabulário oficial dos Estados aliados – escreve o Mestre ilustre da Contra-Revolução – parece querer confiar a sorte da concórdia futura à ideia mais geral da justiça. Receio bem que caminhemos para rudes surpresas. A justiça é necessária para a paz, mas será bastante? Ela pode trazer algumas deceções. Pela complexidade dos interesses e dos intuitos que dissimula e que desenvolve também, a Justiça é a ideia litigiosa por excelência. Todos a desejam para si. Ter-se ou não se ter direito a ela, é mais o prefácio das batalhas do que a sua conclusão. Se há germes de guerra, é na Justiça que existem.» Charles Maurras, olhando a unidade humana que o Catolicismo realizou durante a Idade Média, entende, e em alta voz o declara, ser já tempo de «enveredar por algum caminho que traga a nossa pátria e todas as outras de volta ao rebanho da humanidade». [ reprendre quelque voie qui fasse rentrer notre patrie et toutes les autres au bercail de l’humanité].
Na falência do socialismo, e em face da agressão sectária da Maçonaria, a Igreja é "a única Internacional que detém" [«la seule Internationale qui tienne»]. Foram letra morta as conferências da Haya no doutoralismo enfático das suas atas. Reina a anarquia nas relações dos povos, que na espada depõem a sua última esperança. O Direito Internacional não passa – já agora se vê – de uma futilidade inventada por mentalidades bizantinas. Destinando-se ao lado comum das nacionalidades e dos indivíduos, que é o sentimento religioso, só a Igreja, cuja finalidade não vai para as coisas do mundo, nos apresenta e garante uma regra segura de harmonia e de reconciliação, debaixo do sinal eterno da Cruz. O Príncipe da Paz não reside no palácio dos poderosos. O Príncipe da Paz reside no Vaticano, cheio da força formidável da sua divina fraqueza. Os seus interesses são os interesses do Espírito, e não os da Matéria. É Ele quem liga e quem unifica. Nunca da sua boca saiu a voz que divide, o gesto que separa. Na instabilidade da sua sorte, a Europa adivinha, sem o achar por enquanto, o porto de abrigo que lhe dará a confiança no futuro. É a soberania de Roma, oferecendo-nos de longe o seu jugo amorável. Porque o não quisemos aceitar, um jugo mais forte – o da fatalidade – nos quebra e nos esmaga como a vara de ferro da imagem simbólica da Bíblia.
Pois é aí, no berço da humanidade [ bercail de l’humanité], que a sociedade internacional terá de se repousar. A profecia de Joseph de Maistre cresce do esquecimento de um século inteiro para a meditação atenta de quem se debruça sobre tanta ruína palpitando. Le Pape, la guerre et la paix não é assim um simples exercício sociológico, sem significado na consciência inquieta da época. Concretiza um estado de espírito que já entrou no domínio dos factos correntes. Coube a Charles Maurras – um agnóstico – dar-lhe expressão definitiva. É mais um sinal da mudança que levam as direções da inteligência. Depois de uma crise de individualismo exasperado, as energias sociais recuperam-se do destroço em que as deixou a rajada doida da Revolução. Assistimos ao florescimento de uma como que Idade Média, donde a face da terra sairá mais depurada e mais harmoniosa.
Soam-nos ainda aos ouvidos palavras de loucura? Que importa? São os ecos derradeiros de uma mentira que não pode mais atravessar-se-nos no caminho. A nova era do mundo já vem para cá do horizonte. E eis a soberania de Roma desdobrando sobre ela a graça amanhecente de uma nova Cristandade!
Agosto, 1917.