Preghiera pela Italia em perigo
Afonso Lopes Vieira
A propósito do bombardeamento de Pádua pelos aviões alemães, Afonso Lopes Vieira evoca a cidade, que já visitara como peregrino. Recorda as ruas de arcadas onde parece andar a sombra de Dante, a velha Universidade e o Jardim Botânico. Lembra a capela da Arena pintada por Giotto e a memória de Donatello, Mantegna e Petrarca. Sobretudo, lembra a Basílica del Santo, cuja fachada, «loira» e povoada de pombas, a «atrocidade dos alemães» acaba de destruir.
Num Junho que passou em Pádua viu a procissão de Santo António, com a língua do «Pregador» num relicário gótico. Nesse dia sentiu um «parentesco espiritual» com a cidade, que guardou e venera a memória de um «grande homem nosso», partido de Coimbra. Por isso Pádua lhe ficou como «um pouco de terra portuguesa».
O texto fecha com uma oração em forma de litania à «Itália adorável»: Veneza, Ravena, Verona, Pisa, Sena, a Úmbria, a Toscana, os pintores, os escultores e os músicos, Dante e Petrarca. Pede a Deus que a guarde da «Peste organizada», do «Horror codificado» e da «atrocidade Científica» do «Monstro horrendo» do Norte. Termina com um contraste: o último lazzarone italiano vale mais, em graça e nobreza, do que o mais forte marechal ou o mais profundo pensador da «Germânia horrenda».
A nota da redacção que acompanha o texto apresenta Afonso Lopes Vieira como «precursor» do movimento integralista. Elogia o seu nacionalismo literário e o seu lusitanismo. Lembra-lhe também a responsabilidade que assumiu para com a nova geração, «para que a Ley possa enfim regressar à Grey».
Num Junho que passou em Pádua viu a procissão de Santo António, com a língua do «Pregador» num relicário gótico. Nesse dia sentiu um «parentesco espiritual» com a cidade, que guardou e venera a memória de um «grande homem nosso», partido de Coimbra. Por isso Pádua lhe ficou como «um pouco de terra portuguesa».
O texto fecha com uma oração em forma de litania à «Itália adorável»: Veneza, Ravena, Verona, Pisa, Sena, a Úmbria, a Toscana, os pintores, os escultores e os músicos, Dante e Petrarca. Pede a Deus que a guarde da «Peste organizada», do «Horror codificado» e da «atrocidade Científica» do «Monstro horrendo» do Norte. Termina com um contraste: o último lazzarone italiano vale mais, em graça e nobreza, do que o mais forte marechal ou o mais profundo pensador da «Germânia horrenda».
A nota da redacção que acompanha o texto apresenta Afonso Lopes Vieira como «precursor» do movimento integralista. Elogia o seu nacionalismo literário e o seu lusitanismo. Lembra-lhe também a responsabilidade que assumiu para com a nova geração, «para que a Ley possa enfim regressar à Grey».
Do céu de Itália, acariciado como nenhum outro pela ligeira alteza das campaniles e pelas flechas sombrias dos ciprestes, céu de ar banhado de um azul perfumado pelos loureiros e rosais da terra sagrada, mãe dos Latinos, acabam os aviões alemães de lançar bombas. Segundo rezam os telegramas, fizeram eles um ataque violento e prolongado sobre essa douta, preciosa e santa cidade de Pádua. O Monstro horrendo do Norte, flagelo de Deus, encarniça-se agora contra a Itália, e uma das dores mais angustiosas que se nos antolha a todos nós, amigos e antigos romeiros do País Encantado, peregrinos dos seus Museus, das suas Catedrais, dos seus Jardins, é esta perspectiva trágica de sabermos que os engenhos de morte ameaçam as cousas que a Beleza imortal consagra e de cujas ruínas se evola, como de cousas tão vivas como nós, a alma que as animava... Oh! a doce, melancólica, preciosa cidade, agora martirizada! Pádua, em cujas ruas tortuosas e bordadas de arcadas não é impossível, num lusco-fusco propício, encontrar a sombra do Exilado de Florença...; Pádua da mais antiga Universidade de Itália, donde começou a florescer no século XIII toda a cultura da parte setentrional do país, e do mais encantador Jardim Botânico que existe na terra, onde as árvores, plantadas no século XVI, vivem ternamente abrigadas por alpendres, doces seres a que os séculos deram um ar santo de vetustez; Pádua dessa maravilha única da arte Primitiva, — La Madonna dell'Arena, capelinha que Giotto pintou com alguns do frescos mais sentidos da sua obra, enquanto o seu amigo Dante contemplava a marcha do trabalho do artista; Pádua de Donatello, de Mantegna, de Petrarca, que no arrabalde de Arcquá se recolheu à sua vila estudiosa, hoje povoada ainda pela múmia da sua gata familiar; Pádua del Santo, em cujo túmulo, na grande penumbra da Basílica, todos os aflitos vêm pôr as mãos ansiadas, esperando a consolação, o amparo, o conselho...
É preciso visitá-la à volta de Veneza, quando se traz ainda nos olhos o deslumbrado fulgor da fada aquática, esposa dos mares cuja esplendente viuvez as nossas Navegações prepararam e, de retorno da cidade irisada, repousar à sombra da grande Basílica cuja fachada a atrocidade dos alemães acaba de destruir. Relembro, nesta hora que me punge, os dias calmos da semana que na velha cidade vivi, e na minha alma floresce a saudade da minha peregrinação nesse Junho luminoso e azul em que fui, romeiro de Santo António, colher à cidade del Santo a flor da grande tradição do Português que encheu de maravilha a Idade Média, levando à Cavalaria espiritual do Poverello um ímpeto moço, um novo idealismo combativo duma luminosa ciência da Escolástica. Sobre o fundo dessa fachada agora assassinada pelo Monstro horrendo, que do ar acariciado pelas torres onde tangem os mais melodiosos sinos da Itália ousou lançar as suas bombas de morte, — sobre o fundo dessa fachada loira, daquele loiro que apenas em Itália as pedras adquirem, mercê não apenas do beijo do sol, mas por certo também da magia do ambiente povoado pela presença sobrenatural do Passado, — sobre o fundo dessa fachada onde as pombas perpetuamente acariciavam os Apóstolos e os Anjos, pousando-lhes nos ombros e nas asas..., vi eu, na festa del Santo, desenrolar-se lenta e hierática a procissão sumptuosa e relumbrante, levando alçada à frente, dentro do mais precioso relicário gótico, a língua do Pregador que articulou durante a meia idade as palavras mais ardentes de fé, mais apaixonadas de fervor militante que os povos escutaram ainda.
Romeiro perdido entre a multidão de contadini que de toda a província e dos confins do reino acorrera nesses dias a Pádua, mas romeiro nascido na mesma terra do grande Santo cuja festa se celebrava, senti então, como sinto agora, a espécie do parentesco espiritual que me ligava à velha cidade que ele elegera e enchera e enche sempre da sua alma, e Pádua ficou para mim como sendo também um pouco de terra portuguesa, na gratidão que eu lhe votava por haver guardado e adorado a memória dum grande homem nosso, obscuramente partido dos olivais tristes de Coimbra para a Glória eterna da sua pátria eleita...
É preciso visitá-la à volta de Veneza, quando se traz ainda nos olhos o deslumbrado fulgor da fada aquática, esposa dos mares cuja esplendente viuvez as nossas Navegações prepararam e, de retorno da cidade irisada, repousar à sombra da grande Basílica cuja fachada a atrocidade dos alemães acaba de destruir. Relembro, nesta hora que me punge, os dias calmos da semana que na velha cidade vivi, e na minha alma floresce a saudade da minha peregrinação nesse Junho luminoso e azul em que fui, romeiro de Santo António, colher à cidade del Santo a flor da grande tradição do Português que encheu de maravilha a Idade Média, levando à Cavalaria espiritual do Poverello um ímpeto moço, um novo idealismo combativo duma luminosa ciência da Escolástica. Sobre o fundo dessa fachada agora assassinada pelo Monstro horrendo, que do ar acariciado pelas torres onde tangem os mais melodiosos sinos da Itália ousou lançar as suas bombas de morte, — sobre o fundo dessa fachada loira, daquele loiro que apenas em Itália as pedras adquirem, mercê não apenas do beijo do sol, mas por certo também da magia do ambiente povoado pela presença sobrenatural do Passado, — sobre o fundo dessa fachada onde as pombas perpetuamente acariciavam os Apóstolos e os Anjos, pousando-lhes nos ombros e nas asas..., vi eu, na festa del Santo, desenrolar-se lenta e hierática a procissão sumptuosa e relumbrante, levando alçada à frente, dentro do mais precioso relicário gótico, a língua do Pregador que articulou durante a meia idade as palavras mais ardentes de fé, mais apaixonadas de fervor militante que os povos escutaram ainda.
Romeiro perdido entre a multidão de contadini que de toda a província e dos confins do reino acorrera nesses dias a Pádua, mas romeiro nascido na mesma terra do grande Santo cuja festa se celebrava, senti então, como sinto agora, a espécie do parentesco espiritual que me ligava à velha cidade que ele elegera e enchera e enche sempre da sua alma, e Pádua ficou para mim como sendo também um pouco de terra portuguesa, na gratidão que eu lhe votava por haver guardado e adorado a memória dum grande homem nosso, obscuramente partido dos olivais tristes de Coimbra para a Glória eterna da sua pátria eleita...
* * *
Evocações de bloc-notes, ansiosamente sugeridas por mais este crime atroz do Monstro horrendo, elas me acudiram para acender na minha alma a preghiera que ardentemente balbucio, e por certo estremece também na alma de todos os amigos e peregrinos do País Encantado: — Itália adorável, terra Madonna entre as terras, donde nos fica para sempre, como de um beijo de paixão, a saudade ardente e voluptuosa; — Itália de Veneza irisada nos espelhos do seu ar marinho, de Ravenna exilada e povoada de espectros bizantinos, de Verona da Legenda amorosa, de Pisa sepulta no silêncio do seu campo-santo, de Sena morta e flamejante; — Itália de todas as cidades, mesmo as mais obscuras, que em qualquer delas uma parte de Beleza eterna existe; — Itália dos mestres pintores, descobridores da Luz imortal, e dos mestres escultores, uns e outros cantores das formas esbeltas ou fortes das donas e dos heróis; — Itália dos velhos músicos, que na doçura do ar colheram a graça sensual das árias; — Itália dos Ciprestes, dos Jardins, das fontes; — Itália da meiga Úmbria, pátria de Oriente, pois que lá nasceu o Sol; — Itália dos tercetos do Dante e dos sonetos de Petrarca; — Itália da Toscana do povo espirituoso e elegante e do bel parlar gentile, — Itália sobretudo do Lis florentino, flor suprema da Beleza e do Sonho, — Itália Madredo gentil Latino sangue: — que Deus te guarde e às tuas catedrais, aos teus museus, aos teus claustros, aos teus jardins, aos teus palácios, da invasão da Peste organizada, do Horror codificado, da atrocidade Científica que te ameaçam!
E o derradeiro dos teus lazzaroni, coberto de chagas ao sol, é mais resplandecente de graça humana, mais alto de nobreza de sangue que o mais forte marechal da Germânia horrenda, que o mais profundo pensador da Germânia horrenda — ó Itália formosa e adorável!
Afonso Lopes Vieira.
E o derradeiro dos teus lazzaroni, coberto de chagas ao sol, é mais resplandecente de graça humana, mais alto de nobreza de sangue que o mais forte marechal da Germânia horrenda, que o mais profundo pensador da Germânia horrenda — ó Itália formosa e adorável!
Afonso Lopes Vieira.
Afonso Lopes Vieira
A Monarquia honra-se hoje com a colaboração do altíssimo poeta que é Afonso Lopes Vieira. Se entre os nossos irmãos mais velhos há alguém que mais de perto se aparente com o movimento integralista, é sem dúvida o lírico enternecido [leitura provável] das Ilhas de Bruma. O seu nacionalismo literário, representando a mais bela das tentativas para resgatar Portugal da decadência do gosto e da sensibilidade, ficará na história crítica das ideias contemporâneas como um dos mais fortes e dos mais decisivos esforços para que o entressonhado ressurgimento pátrio, que é a carne e a alma das nossas campanhas diárias, encontrasse caminho desbravado e fácil.
Afonso Lopes Vieira é querido por nós como um precursor, a quem coube mais adivinhar do que realizar. E quando dizemos «realizar», referimo-nos, evidentemente, à necessária renovação tradicionalista, por virtude da qual Portugal se baptizará pela segunda vez, se ainda se quiser salvar. Enganam-se os que nos supõem apenas políticos. Somos políticos, porque sem se resolver o problema gravíssimo e imediato da forma do Estado, não se nos deparam bases firmes em que assentar a nossa desejada obra de reconstrução. Ninguém tem contribuído mais para ela do que Afonso Lopes Vieira com o seu iluminado lusitanismo. Ele conhece o segredo admirável da nossa poesia, que é talvez a força secreta de que vive e se alimenta a resistência prodigiosa de Portugal.
Procurando as colunas de A Monarquia para rezar a sua oração sobre a Itália em perigo de morte, Afonso Lopes Vieira procura uma casa que é sua, toma um lugar que de juro e herdade lhe pertence.
Assim não se esqueça o Poeta das grandes responsabilidades que um dia assumiu para com a nossa geração e, com o seu inflamado misticismo intelectual, a acompanhe sempre até lá onde for imperioso, para que a divisa do Pelicano triunfe e a Ley possa enfim regressar à Grey!
in A Monarquia, n.º 268, 5 de Janeiro de 1918, p. 1
A Monarquia honra-se hoje com a colaboração do altíssimo poeta que é Afonso Lopes Vieira. Se entre os nossos irmãos mais velhos há alguém que mais de perto se aparente com o movimento integralista, é sem dúvida o lírico enternecido [leitura provável] das Ilhas de Bruma. O seu nacionalismo literário, representando a mais bela das tentativas para resgatar Portugal da decadência do gosto e da sensibilidade, ficará na história crítica das ideias contemporâneas como um dos mais fortes e dos mais decisivos esforços para que o entressonhado ressurgimento pátrio, que é a carne e a alma das nossas campanhas diárias, encontrasse caminho desbravado e fácil.
Afonso Lopes Vieira é querido por nós como um precursor, a quem coube mais adivinhar do que realizar. E quando dizemos «realizar», referimo-nos, evidentemente, à necessária renovação tradicionalista, por virtude da qual Portugal se baptizará pela segunda vez, se ainda se quiser salvar. Enganam-se os que nos supõem apenas políticos. Somos políticos, porque sem se resolver o problema gravíssimo e imediato da forma do Estado, não se nos deparam bases firmes em que assentar a nossa desejada obra de reconstrução. Ninguém tem contribuído mais para ela do que Afonso Lopes Vieira com o seu iluminado lusitanismo. Ele conhece o segredo admirável da nossa poesia, que é talvez a força secreta de que vive e se alimenta a resistência prodigiosa de Portugal.
Procurando as colunas de A Monarquia para rezar a sua oração sobre a Itália em perigo de morte, Afonso Lopes Vieira procura uma casa que é sua, toma um lugar que de juro e herdade lhe pertence.
Assim não se esqueça o Poeta das grandes responsabilidades que um dia assumiu para com a nossa geração e, com o seu inflamado misticismo intelectual, a acompanhe sempre até lá onde for imperioso, para que a divisa do Pelicano triunfe e a Ley possa enfim regressar à Grey!
in A Monarquia, n.º 268, 5 de Janeiro de 1918, p. 1