Alexandre Cabeças
António Sardinha
...embora me fosse simpático qualquer movimento que visasse a derrubar o demagogismo e com ele um governo de corrupção e imoralidade, eu só tomaria parte desde que tivesse a certeza que não ia contribuir para o fortalecimento de um partido ou de qualquer facção do regime.
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Pontos Essenciais
- O texto é uma homenagem póstuma a Alexandre Cabeças, destacando a sua esperança, fé e influência espiritual após a morte.
- Alexandre Cabeças era um jovem profundamente religioso e patriota, com raízes alentejanas, nascido em Vila Viçosa. A sua juventude foi marcada por uma dedicação ardente a Deus e à Pátria, sendo visto como um exemplo de sacrifício e nobreza. A guerra levou-o do anonimato da sua terra natal para o campo de batalha, onde se destacou pela bravura e pelo espírito de missão.
- António Sardinha guarda e valoriza as cartas de Alexandre Cabeças, que revelam uma biografia moral impressionante e uma fé inabalável no futuro de Portugal. Nas cartas, Alexandre Cabeças expressa o seu fervor religioso, o apego à tradição portuguesa e o orgulho em ser integralista, ligando a ideia de Deus à ideia de Pátria. Destaca-se o seu envolvimento e entusiasmo pelo movimento integralista, sempre com o objetivo de servir Portugal e evitar envolvimento em partidos ou fações.
- Foi nomeado para um cargo no Estado-Maior, sem ter pedido, mostrando reconhecimento pelo seu valor. As cartas finais revelam humildade, gratidão pela amizade e uma fé profunda, considerando o sacrifício como parte dos desígnios de Deus.
- O documento termina com a evocação do seu exemplo como inspiração para união e esperança, reforçando a ideia de que o seu sacrifício cimentou uma aliança espiritual e patriótica. Inclui também o seu “testamento” em carta, onde reafirma a fé integralista e a esperança na restauração de Portugal.
ALEXANDRE CABEÇAS
Rememoro toda a literatura da guerra e nada há que melhor me sirva a alma do que essa palavra admirável que a filha de Taine lançou à margem do seu livro de missa. «Louvado seja Aquele que faz nascer a esperança sobre os túmulos!» – repito eu também comigo, como numa oração, agora que a minha saudade procura a face escondida de um grande amigo morto e só tenho, para a confortar, a apostrofe triunfante de São Paulo: «O mors, ubi victoria tua?» Passa em mim, num crepúsculo sobressaltado, alguma coisa da hora longínqua das Catacumbas. Não é um responso que o coração me pede para recitar sobre a memória de Alexandre Cabeças. Sinto bem a vitória do seu espírito libertado e não me abandona o sentimento da sua presença constante e solícita, acompanhando-me de perto, como uma boa sombra tutelar.
Não interessa a ninguém saber como conheci Alexandre Cabeças. O que interessa é saber-se que a sua mocidade era, numa extraordinária transparência, uma espira de fogo ardendo para Deus e para a Pátria.
No seu olhar, profundo e melancólico a um tempo, havia já como que o reflexo das colinas eternas. Ao reler as suas cartas, eu compreendo serena e tranquilamente a razão do seu fim. Deus tocara-o para o sacrifício. Ninguém marchou para ele com maior doçura nem maior nobreza do que o alferes Alexandre Cabeças.
Tirava Alexandre Cabeças a sua origem das mais fundas raízes alentejanas. Viera ao mundo em Vila-Viçosa, o burgo senhorial da Dinastia, debaixo do olhar misericordioso da Virgem, eleita pelo Reino em Cortes como sua Padroeira. Ricos de significação tão intensa como misteriosa, os seus incomparáveis vinte e três anos! Arrancou-o a guerra ao anonimato plácido da sua pequena pátria local e à guerra eu fiquei devendo a amizade de quem, como Alexandre Cabeças, é hoje, no holocausto fervente da sua juventude, o laço mais forte que prende o nosso movimento às responsabilidades sagradas do seu destino de resgate e ressurreição. E quando o evoco, defunto, lá longe, de pupila quieta para o céu, e sorriso vítreo na expressão imóvel, toda a sua existência se transforma para mim numa hóstia de expiação, oferecida pela boa terra do Alentejo ao crime secular de uma raça, a quem chegou o momento doloroso da purificação.
Percorro a correspondência de Alexandre Cabeças e todo eu tremo, roçado por uma asa invisível, se o abraço e o envolvo na sua impressionante biografia moral: meia dúzia de cartas que como herança sem preço eu lhe fiquei devendo, agora e para todo o sempre. Viveiro de heróis e de santos, Portugal, nesta Primavera agreste em que um vento de tragédia o acorda desabaladamente, se floresceu de novo para o heroísmo antigo nas pregas recuadas da Flandres, não floresceu menos para os caminhos perdidos da predestinação no exemplo ignorado de quem, como Alexandre Cabeças, caiu, de espada erguida, inspirado centurião de Cristo, já aureolado pela bem-aventurança de que nos falam os versos espantosos de Charles Péguy: «Heureux ceux qui sont morts dans les grandes batailles, / Couchés dessus le sol à la face de Dieu. / [...] / Heureux ceux qui sont morts pour quatre coins de terre, / Heureux ceux qui sont morts d’une mort solennelle.» [Bem-aventurados os que morreram em grandes batalhas, / Deitados no chão perante Deus. / [...] / Felizes os que morreram pelos quatro cantos da terra, / Felizes os que morreram uma morte solene.]
A sua letra nervosa e miúda anima-se diante de mim e eu posso segui-lo, quase até à hora da morte, uma vez mais, nos bocados de si mesmo que ele ia confiando ao papel. Ninguém depôs mais fé, uma fé mais ardente e mais inalterável no futuro da nossa cruzada, do que ele! Foi o seu pensamento constante, tornado em motivo supremo da sua passagem pela vida, como ele próprio fervorosamente o confessava. Partindo para França na segunda semana de Novembro passado, data de 22 desse mês a sua primeira carta. Curta e a lápis, condensa-se toda num período em que o cavaleiro cristão nos aparece, queimado pela labareda santíssima que o devora: «Esta é escrita muito à pressa no intervalo das orações que há 24 horas quase ininterruptamente venho dirigindo a Deus, implorando da Sua Misericórdia Infinita a proteção para a Pátria, para os meus amigos e para o meu espírito, ora quase completamente dominado por uma sensação nervosa nunca experimentada.» Era o contacto da trincheira, a primeira impressão da batalha. A sua existência interior abria-se para Deus e em Deus se repousava, como um menino no regaço de sua mãe.
Mais definida é já a carta seguinte, datada de 8 de Dezembro, dia de gala para Alexandre Cabeças, dia da Imaculada e de festa para Vila-Viçosa. O tradicionalista aparece-nos no seu duplo fervor pela Religião e pela Pátria:
«Não quero deixar passar o dia de Nossa Senhora da Conceição, sem lhe dar as minhas notícias, aproveitando uns momentos de tranquilidade e descanso. Sabe certamente quanto este dia me fala ao coração. Antes de bom português sou bom filho daquela viçosa terra alentejana, pátria de heróis, solar da Dinastia e cabeça da antiga ordem militar de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira do Reino... Como deixar, portanto, passar despercebidamente o dia de hoje? E como lho não dizer, meu querido amigo, a si, que eu sei não ter deixado hoje, bom português e bom católico, de orar mais fervorosamente à Virgem por Portugal e pelos portugueses, por aqueles que o pretendem salvar tornando-o a colocar no lugar onde durante séculos a História e a Tradição o mantiveram...»
E depois: «[Esse desejo] lá me levou hoje, a algumas léguas de aqui, a receber das mãos de um Padre português a Sagrada Comunhão. Creio que não podia prestar maior homenagem à Virgem e comemorar o dia de forma mais significativa.»
Em seguida Alexandre Cabeças conta-nos a alegria que o comoveu, ao ouvir ao Evangelho o capelão recordar as saudades, na ausência, de Portugal distante e a missão salvadora que a todos nós nos pertence.
«Oito dias antes, lembrando aos meus soldados o aniversário da Independência de Portugal – continua Alexandre Cabeças –, eu falava-lhes delas, dessas saudades, e, afirmando-lhes que nunca como agora as sentira tão vivas e ao mesmo tempo tão pungentes, perguntei-lhes qual deles as não sentiria assim também. Não haveria um talvez! Não havia, com certeza, pois as lágrimas acudiram aos olhos de todos, como que respondendo às minhas palavras.» E o centurião esclarece: «Estou entre gente do Minho», para desdobrar as revoadas de um cântico: «Mas quem sabe se a tudo isto seria insensível se o Integralismo me não tivesse despertado o adormecido sentimento patriótico, o amor de Portugal, o apego às coisas portuguesas?! É a ele certamente que o devo. E assim não imagina com que fervor, com que entusiasmo me tenho dedicado à sua propaganda e com que ufania no seu lindo emblema, que o Conde de Monsaraz amavelmente me ofereceu quando me deu o prazer de o abraçar à minha despedida. E – digo-o com certo orgulho –, felizmente essa propaganda não tem sido de todo infrutífera.»
Tal era o herói na singeleza aberta da sua alma de eleição. Trechos de outra carta, marcada de 23 de Dezembro, vésperas de Natal, acabam de o confirmar na rara unidade moral de quem já andaria debaixo dos olhos de Deus... Alude a amigos nossos na guerra e escreve: «O Calaínho, que já tornei a encontrar, recebeu-me com afabilidade... Chegou a mostrar-me desejos de usar da sua influência para melhorar a minha situação. Dissuadi-o, muito grato e reconhecido, dizendo-lhe que, além de vir disposto para o sacrifício, era meu desejo manter sempre uma certa autoridade moral, de que mais tarde não poderei prescindir.»
E modesta, despreocupadamente, Alexandre Cabeças prossegue, preso sempre do seu grande sonho. Alude agora ao movimento de 5 de Dezembro: «Fez bem em não perder tempo sobre o movimento de 5 do corrente. Logo tive notícias do seu triunfo pela Action française que aqui recebo direta e regularmente.... Permita-me que, a propósito dele, lhe conte o seguinte: Num dos últimos dias que passei em Lisboa, fui convidado a assistir às reuniões que já se efetuavam para tal fim, por um amigo, cujas convicções monárquicas são conhecidas. Pedi algum tempo para responder, porque queria informar-me do carácter que o movimento teria e por quem era feito e dirigido. Asseveraram-me que nele estavam com todo o entusiasmo vários elementos de confiança. Respondi, declarando que, embora me fosse simpático qualquer movimento que visasse a derrubar o demagogismo e com ele um governo de corrupção e imoralidade, eu só tomaria parte desde que tivesse a certeza que não ia contribuir para o fortalecimento de um partido ou de qualquer fação do regímen. Quis depois obter informações seguras, mas dois dias adiante recebi ordem de partir.... Tenho agora a impressão de que não só procedi como a minha consciência me ordenava, mas também de maneira a não me arrepender de participar num movimento cujas consequências não eram difíceis de prever e ao qual se não podia dar uma feição que fosse contrária às instruções de S.M. El-Rei.»
Eis um traço precioso de carácter e inteirezas políticas, bastante para ressaltar na homenagem comovida que prestamos a Alexandre Cabeças. Em 10 de Janeiro voltavam as suas notícias a pô-lo de novo como um exemplo para a minha admiração:
«O tempo de que disponho neste momento é mesmo muito pouco, mas ainda chega para lhe dar uma nova que ao seu coração de amigo verdadeiro deve ser agradável, a da minha nomeação para um cargo do Estado-Maior desta unidade, nomeação que não pedi, e que não aceitaria se me não conhecesse.»
E um mês decorreu, entretanto, até receber outra carta. É a penúltima – extraordinária como todas, direita como uma chama, já com o acento da Eternidade a ditá-la. É-me doce percorrê-la: «O lenitivo que aos dissabores de todos os dias e às tristezas de todas as horas habitualmente recebo da oração, era, ao lembrar-me assim do meu querido amigo, mais acentuado, creia. E então não posso deixar de dar graças a Deus o ter-me colocado no seu caminho. Creio que lho digo pela centésima vez, mas acredite que lho digo cada vez mais convencido de que foi Deus que nos aproximou com qualquer elevado fim que bem pode estar ainda no insondável dos Seus Desígnios...»
E, humilde, esquiva-se ao reconhecimento da sua virtude tão penetrante e tão perfumada: «Não me tenha também o doutor na conta admirável pelo meu espírito de sacrifício. Creia que se em mim alguma coisa há de notável é apenas o ardor da minha Fé, a sinceridade das minhas convicções e sobretudo o desejo que manifesto sempre de proceder e pensar em harmonia com os ditames da Sublime Doutrina que ainda no berço comecei a aprender, e com a herança que recebi de meu Pai.»
E é então que Alexandre Cabeças se retrata para sempre em palavras dignas de andarem de cor na boca de todos os integralistas: «Religioso e patriota, católico e português, creia que o sou, e porque o meu querido amigo não o é menos, nem menos sinceramente nem menos apaixonadamente, é que nos entendemos tão bem, nos aproximámos tanto, nos tornámos finalmente tão grandes amigos. E porque assim pensamos em Deus e na Pátria, não podíamos deixar de ser, como somos, integralistas. Não é verdade? De facto, só o Integralismo, diz-mo em carta recebida há dias e aplaudindo a minha ingressão na nossa Cruzada, um amigo que o fora já de meu Pai, um velho lavrador, a quem consagro uma veneração quase filial, só o Integralismo, diz-me ele, pode ligar a ideia de Deus à ideia da Pátria, o sentimento à razão.»
Mas na marcha do tempo a morte espreitava-o. As cartas rarearam. No entanto, ardendo sempre, como a sarça mística, a sua fé iluminou-se ainda com os ecos da nossa festa de Março. Debaixo do maior alvoroço, traçou o seu testamento. Chamo o seu testamento à carta que em outro lugar é publicada.[1]
Foi ela recebida quando Alexandre Cabeças, sem sete palmos e meio de terra pátria para descansar, entrara naquela bem-aventurança de que os versos formidáveis de Péguy adivinham o esplendor: «Heureux ceux qui sont morts dans cet écrasement / Dans l’accomplissement de ce terrestre vœu.» [Felizes os que morreram neste esmagamento / No cumprimento deste voto terreno.]
Ele caiu, acreditando em nós, caiu dando o seu sangue por nós, junto de Deus. No prémio augusto do seu sacrifício voluntário e consciente, ainda são para nós as suas orações. Ele cimentou com a sua pureza e com a sua bravura a aliança que a todos nos prende e liga para a grande finalidade que o encheu a ele de visões tranquilizadoras. Vítima escolhida por Deus, Alexandre Cabeças, no símbolo tocante do seu fervor religioso e patriótico, é o alto exemplo que nos deve manter unidos.
Ele estará connosco onde nós estivermos. Nós mereceremos no mundo por tudo o que ele mereceu. Mais forte que a sua dedicação na terra, teremos a sua intercessão no Céu.
Por isso, ao evocá-lo na confusão da batalha, esvaído numa agonia sem nome, eu só sei dizer com a filha de Taine, de olhos pousados no seu livro de missa: «Louvado seja Aquele que faz nascer a esperança sobre os túmulos!»
Maio, 1918.
[1] «Meu querido amigo: Não me demorarei a falar-lhe do entusiasmo com que li A Monarquia de 11, que acabo de receber. Não mo permite a minha vida agitada e mais do que ocupada nos últimos quinze dias, tanto, que me vem sendo impossível dar-lhe as minhas notícias, tantas vezes prometidas, e de há muito me vejo obrigado a prescindir do quotidiano prazer da leitura do nosso jornal. Foi assim que me passou despercebido o seu primeiro aniversário e o convite para a festa da sua comemoração. Lamento não ter recebido notícias dessa festa a tempo de lhe pedir para me representar nela e afirmar, perante todos os nossos queridos amigos que tiveram a felicidade de a ela assistir, a certeza da minha cada vez mais ardente Fé Integralista e os protestos mais calorosos da minha admiração. Li o seu discurso, meu querido amigo, entre todos os que foram brilhantemente proferidos nessa noite de glória, e desvanecidamente vi o meu nome entre os dos meus valentes camaradas Integralistas que aqui, onde a cada momento se expõe a vida, não cessam de afirmar a todo o mundo o valor tradicional do soldado português, a sua bravura, a sua lealdade e o mais nobre patriotismo. Com um abraço, mais apertado de todos os que nos têm unido os corações, lhe agradeço, meu querido amigo, a maior honra que o meu orgulho podia ambicionar, a de me fazer infileirar nessa plêiade brilhante de rapazes, que, sob as asas gloriosas do Pelicano, animados pela Fé em Deus e nos destinos da Pátria, hão-de ser, quando um dia voltarmos para sob o céu azul dos seus pátrios lares nobilitados pelo sacrifício, os obreiros da Restauração de Portugal por uma Monarquia que lhe restitua o lugar glorioso onde a História o manteve até que o liberalismo do século passado o começou lançando para o demagógico caos! Avigoremos, desenvolvamos dentro de nós essa certeza mística, e nada de desalentos! Confiemos! Sirva-nos de incentivo o admirável esforço de que a jornada de 9 de Março foi o brilhante resultado, e com o esforço que nos dá a Fé havemos de vencer! Portugal há-de ser restituído ao brilho, à gloria, à honra de outras eras! Creia-me, meu querido amigo, nos protestos da mais leal e enternecida amizade do seu dedicado
Alexandre.
Em campanha, 19-III-1918.
in Durante a Fogueira - Páginas da Guerra, 1927.