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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
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        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
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Aníbal de Azevedo

António Sardinha

Aníbal de Azevedo é apresentado como uma figura admirável, destacando-se pela bravura, inteligência e liderança militar desde jovem. Participou ativamente no movimento Integralismo Lusitano, demonstrando coragem, disciplina e um forte sentido de dever, chegando a apoiar movimentos revolucionários motivado pelo seu nacionalismo. Enfrentou momentos de prisão e dificuldades, mas manteve sempre uma postura firme e determinada. Sardinha salienta também a sua inquietação espiritual e busca de paz interior, aproximando-o da figura do herói cristão. Em França, destacou-se pela coragem, sendo condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª classe e proposto para promoção, reconhecido oficialmente pelas suas qualidades de comando. Termina com uma homenagem solene, considerando Aníbal de Azevedo um património de honra do Integralismo Lusitano e símbolo de prestígio militar e nacional




​ANÍBAL DE AZEVEDO

Na desordem da minha emoção, eu não sei como evocar esta admirável figura de rapaz. Ela excede toda a enternecida camaradagem que já agora nos prenderá na vida e na morte. Não é o herói antigo – o herói no sentido naturalista das filosofias em crepúsculo, com o seu culto cego da Força – que nós temos que contemplar em Aníbal de Azevedo. Partindo para os campos de batalha com um simples galão de alferes, é vê-lo como a sua bravura se alia à sua inteligência para o impor como um chefe assombroso na beleza imortal dos seus vinte e quatro anos!

No nosso movimento de moços, Aníbal de Azevedo foi dos que mais cedo enfileiraram connosco. Seguiu-nos de perto com a sua máscara fortemente vincada nas conferências da Questão Ibérica e, ainda na Escola de Guerra, o 14 de Maio veio prová-lo na sua coragem refletida e intransigente. Sem dúvida pela ação apostólica de Aníbal de Azevedo é que Norton de Matos acusou nessa altura, e em pleno parlamento, os cadetes da Escola não só de monárquicos, mas até de integralistas. Exagerava esse sinistro marchante. Mas a convicção inflamada do nosso companheiro valia bem pelo melhor de uma hoste. Não tardou que, já oficial, Aníbal de Azevedo se revelasse com as qualidades superiores de uma superior vocação militar. Disciplinado dentro do dever e dentro da honra, não hesitou em entrar no movimento de 13 de Dezembro. É que ao brio e à independência da sua espada cabiam, como a ninguém, as palavras célebres do general Donop no livro Commandement et obéissance. «A ordem nasce da ordem – ensina-nos ele –, não se cria nem se mantém senão pela ordem.» O exército não é o exército da ordem, não é o conservador da ordem, senão com a convicção de obedecer a um governo de ordem, pelo qual a ordem se assegura; mas quando em lugar de ordem, um governo promove a desordem, divide o país e desenvolve nele o ódio, o exército que lhe obedece deixa de ser o exército da ordem. Torna-se, sem que de antemão o ignore, o exército da desordem e a sua obra em nada se distingue da dos apaches, de quem há já o hábito de facilitar o concurso em casos difíceis.

Compreende-se assim como, soldado na carne e na alma, Aníbal de Azevedo não hesitou em prestar o seu apoio a uma tentativa revolucionária destinada a desembaraçar-nos da oligarquia jacobina. De resto, nem outra atitude se aguardaria legitimamente do seu apaixonado nacionalismo, tanto mais que o direito de revolta, desde que seja por uma causa justa, é reconhecido até pela própria consciência cristã. Não historiemos aqui os passos que experimentaram Aníbal de Azevedo, enquanto não chegou a sua vez de sair para França. Preso a bordo do Lourenço Marques e, mais tarde, no Hospital da Estrela, ficará para um capítulo de memórias individuais a persistência enlevada com que Aníbal de Azevedo encarou sempre de frente o desfalecimento. Só é bom recordar-se que o então ministro da Guerra deveria ter recebido dele uma carta vigorosa que lhe custaria como o golpe de um azorrague.

Tenho bem viva na minha saudade a manhã de Maio em que Aníbal de Azevedo me deu o seu abraço de despedida. Não possuindo outra finalidade que não fosse a de se encher de glória, enchendo de prestígio o Integralismo, falam-me ainda na lembrança as suas frases curtas, ao abalar. E é aqui que a minha emoção me envolve e me domina todo, porque nesse rapaz em quem se encarnam ressuscitadas as virtudes antigas da Raça, não é só o amigo dedicado que eu saúdo, com o coração repartido entre o sobressalto e o entusiasmo.

Saúdo também em Aníbal de Azevedo o espírito cheio de inquietação religiosa, que se não entrou ainda na comunidade da fé, já se não arreda da porta do templo, até onde um dia as minhas pobres mãos de pecador o conseguiram levar.

Tenho diante dos meus olhos a noite longa de estio em que, junto ao mar, nós convivemos mais de perto. O seu drama espiritual desenhava-se forte na ânsia de uma âncora a que se aferrar. Lentamente, o seu pensamento debruçava-se, abraçando-o, para a penetração enleante do infinito. E com Setembro regulando a marcha dos astros pela profundeza insondável dos céus, alguma coisa dos ritmos supremos de Deus caía nos nossos diálogos, diante do Oceano repetindo na sua queixa eterna a torturada insaciabilidade que a ambos nos elevava para lá do espaço, fora de todo o limite, como numa outra noite, na noite teológica de Óstia.

Cada vez mais irrequieto na sua necessidade de se repousar em Deus, debalde tentou Aníbal de Azevedo iludir a sua necessidade de paz interior. Já na guerra, as suas cartas dizem a chama que o devorava sem que um minuto de Graça lhe refreasse ao menos as atormentadas interrogações. Era, de certo modo, a viagem do Centurião, repetindo-se magoadamente, nos mesmos caminhos de abrolhos e sangue. Quantas vezes lhe falei do neto de Renan, apontando-lho como um exemplo a seguir e a meditar. Mundano, com um pequeno sarcasmo a acentuar-lhe a expressão enérgica, Aníbal de Azevedo procurava enganar-se. Em vão! O sinal de Cristo estampara-se-lhe já sobre o peito e, embora não confessasse a Deus na aceitação libertadora da fé, era já bem angustiadamente que ele procurava. E quando nós sentimos que Deus nos falta – ensina-nos o abade Courmont do Sens de la mort –, é porque está muito perto de nós!


*

Ora quando o alferes Aníbal de Azevedo partiu para França, partiu jurando que voltaria de lá coberto de glória e de medalhas para o Integralismo. O seu esforço, a sua coragem inquebrantável, o insucesso em que lhe desfaziam todas as tentativas, ninguém melhor o conta do que o alferes capelão Padre Avelino de Figueiredo, hoje portador de uma folha de serviços em campanha, a que ficará para sempre ligado o nome do nosso movimento. Triunfou a sua vontade de ferro, magnificamente couraçada pelo grande sonho que lhe enchia o ânimo resoluto. Ouçamos o herói em carta de Março, véspera da Anunciação, dirigida ao Conde de Monsaraz: «Escrevo-lhe cheio de contentamento e alegria porque vejo enfim coroados de êxito dez meses seguidos de trabalho e cansaços. Fui condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª classe, proposto para ser promovido ao posto imediato e louvado nos seguintes termos.» Segue o louvor que não transcrevemos porque justamente o Conde de Monsaraz o quis emoldurar com a sua prosa fulminadora.[1] Mas não resistimos a deslocar para aqui um outro período da carta de Aníbal de Azevedo. Ei-lo na sua extraordinária transparência:

«No meio das minhas dores foi esta a grande e única consolação que poderia ter. Peço-lhe o favor de comunicar isto ao Pequito, ao Sardinha e ao Amaral que, pelo que os prezo e pelo que me prezam, creio bem tomarão um pouco para si do meu contentamento e do meu orgulho. Obrigado, meu amigo! Obrigado pelo reconhecimento de uma camaradagem leal e estreita, já agora selada para a vida e para a morte! E obrigado ainda pela incomparável reparação que lá de longe me envias inesperadamente numa hora em que os vendilhões do teu sangue me pretendem atingir com a sua babugem infecta!»

Não perturbemos, porém, a serenidade desta homenagem, que, ai de nós!, talvez seja a de uma comemoração funerária. Condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª classe e indicado para o posto imediato, o tenente Aníbal de Azevedo cumpriu a sua promessa, ao impor-se às atenções superiores pelas suas grandes qualidades de comando, inteligência e bravura.
​
O chefe afirmou-se. Deus permita que na fatal jornada, depois de a Glória o haver desposado, ciosamente a morte o não quisesse para si!

E eis como o herói se nos apresenta, não o herói da Força, o herói dos Mitos, na fatalidade cega do Acaso, como Carlyle o entendia e pensava. «No meio das minhas dores...» – e o herói cristão surge-nos aqui, mais cavaleiro do que conquistador, com o loiro simbólico tornado na palma verde do martírio. A ideia do sacrifício penetra inteiramente a persistência iluminada de Aníbal de Azevedo. E o que é o sacrifício, senão a imagem, revivida em nós, do drama augusto do Calvário? «No meio das minhas dores...» E o centurião aproxima-se, pela dignidade da espada, do momento supremo da Graça. Não foi um centurião que confessou o Senhor ao pé da Cruz? Não foi outro centurião, Psichari, quem gritaria numa aleluia imensa, ao sentir-se libertado pela fé: «Pois quê, Senhor? É, então, tão simples amar-te?» O herói cristão é já a essência do Santo. E não proclamou Aníbal de Azevedo o preço da santidade, ao murmurar resignadamente, humildemente: «No meio das minhas dores, foi esta a grande e única consolação que poderia ter»?

Curvemo-nos agora com recolhimento diante do herói.

Ele possui a citação mais honrosa que se conhece desta guerra. Não precisavam de castigo maior os que nos insultam dia a dia, profissionalmente, na marcha triunfante do nosso movimento. Deserta-os a sensibilidade moral para que lhes sirva de ferrete o rasgo admirável de um rapaz que, soldado da Pátria e do Pelicano, tão alto ergueu o seu prestígio de militar e de português. Nós é que não carecemos de nada mais para valorizar a nossa obra entre a mocidade do nosso país. O Integralismo Lusitano chama a si a glória de Aníbal de Azevedo e considera-a desde hoje o seu património de honra.

Desdobre-se a bandeira do Pelicano e seja o moço herói o seu alferes-mor, à maneira antiga!

Quem como ele avançou destemido até à segunda linha inimiga, impulsionando pela sua ação todo o assalto, é que Deus o reserva para levar mais largo os destinos da sua Pátria. Tê-lo-á por isso poupado – firmemente o creio! – à inexorabilidade da sorte em que os nossos soldados reviveram um minuto de inexcedível transfiguração. O seu lugar entre nós é hoje o primeiro. E porque é o primeiro, nós daqui o aclamamos, entre loiros e palmas, nosso chefe natural!
 
Abril, 1918.


[1] «O tenente Aníbal Francisco Gonçalves de Azevedo pela forma como auxiliou eficazmente o seu comandante na preparação do raid, fornecendo informações completas sobre o inimigo, sendo o primeiro a entrar nas trincheiras inimigas, impulsionando pela sua acção todo o assalto, avançando sem hesitar até à 2.ª linha, fazendo frente ao inimigo quando este pretendeu contra-atacar e repelindo-o, revelando grandes qualidades de comando, inteligência e bravura.»

In Durante a Fogueira - Páginas da Guerra, 1927.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

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