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RESUMO

A conversão de Bocage

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha reflete sobre a trajetória de Bocage, desde a sua rebeldia marcada por conflitos interiores até à redenção final, sublinhando como a dor, o arrependimento e a fé foram decisivos para a integração e clarificação do seu génio poético e da sensibilidade portuguesa.
A Conversão de Bocage: Entre a Rebeldia e a Redenção
  • Bocage e o Contexto Literário Português. Bocage emerge como símbolo do espírito inquieto e anárquico da sua época, imerso no ambiente intelectual e moral moldado pelas ideias da Enciclopédia. A sua figura é muitas vezes reduzida à caricatura do boémio irreverente, mas o verdadeiro Bocage revela-se nos lampejos de génio e nas tentativas de renovação das formas poéticas nacionais.
  • A Influência do Classicismo e da Arcádia. Na transição dos séculos, a Arcádia impunha um classicismo rígido, marcado pela imitação dos modelos antigos e pela subordinação da poesia à regra e à métrica. Portugal, com um lirismo espontâneo e emotivo, não se adaptou ao racionalismo francês, e essa incompatibilidade manifestou-se na estagnação da produção literária nacional. O classicismo português ficou restrito à forma, perdendo o vigor emotivo que caracterizava a poesia dos séculos anteriores.
  • Poesia, Intelectualismo e a Singularidade Portuguesa. Enquanto para a tradição francesa a prosa era a expressão máxima da inteligência, a poesia portuguesa exigia emoção. Assim, o romance nunca encontrou solo fértil em Portugal como em França. Os nossos poetas, mesmo influenciados pelo classicismo, mantiveram a veia lírica, mas muitas vezes sucumbiram à imitação formalista, como se vê nos épicos seiscentistas.
  • Bocage: Rebeldia, Crise e Conversão. Bocage insere-se na linhagem dos espíritos inquietos, resultado de heranças contraditórias. A sua vida foi marcada pela instabilidade e pela busca de sentido num contexto de crise social e intelectual. A sociedade tradicional portuguesa, embora defendida por figuras como Pina Manique, já se via corroída pela influência das ideias revolucionárias europeias.
  • Anarquia e Sátira. No seu percurso, Bocage representa a primeira fase da revolução dos costumes, agindo como um intérprete da melancolia e do sarcasmo do seu tempo. Apesar do talento poético, dispersou-se em excessos e episódios de rebeldia, tornando-se símbolo do conflito entre tradição e modernidade.
  • A Redenção e o Poder do Arrependimento. O grande momento da trajetória de Bocage é a sua conversão espiritual. No fim da vida, marcado pelo sofrimento e pela introspeção, o poeta encontra redenção, expressando em sonetos de rara sinceridade o arrependimento e a busca de unidade interior. Essa fase representa o triunfo da consciência sobre os impulsos desordenados, e o reconhecimento do papel da fé e da penitência na superação da fragmentação pessoal.
  • Legado e Significado. O Bocage convertido ensina que a verdadeira liberdade e paz interior resultam da reconciliação com a consciência e com os valores mais profundos. A sua obra, marcada pela luta entre paixões e a busca de elevação, tornou-se um espelho da sensibilidade portuguesa, mostrando que a dor e a esperança, no confronto final, abrem caminho à luz da transcendência.



​A CONVERSÃO DE BOCAGE

Na decomposição da nossa sociedade tradicional, Bocage é um nome que simboliza inteiramente a anarquia intelectual e moral do espírito naturalista da Enciclopédia. Vítima dos erros do seu tempo, serviu-os Bocage com o fulgor da sua sátira – com a viva intensidade do seu temperamento de inadaptado a uma regra superior que o disciplinasse. Por isso, de Bocage não ficou para a maioria das gentes senão a lenda grosseira da sua extravagância de frequentador de botequins. No entanto, em Bocage palpitava por vezes a cintilação do génio, e as nossas formas poéticas deveram-lhe aqui e além um significativo esforço de renovação literária.

Reinava a Arcádia com a tirania do seu falso classicismo, quando Bocage a escalou, levado pela fama de improvisador incomparável. Falar de Bocage é recordar a decadência dos nossas letras, esmagadas por completo na imitação servil e bastarda dos grandes autores da Antiguidade. Esse século XVIII é por vezes um crepúsculo de morte na história do pensamento e da sensibilidade nacionais! Obliterara-se o veio lirico da raça que, florindo através dos Cancioneiros, ainda achara em Seiscentos com Francisco Rodrigues Lobo um amorável continuador, embora o Parnaso já houvesse declarado o despotismo da sua dureza formalista. A incompatibilidade da nossa condição emotiva com as raízes todas racionalistas do ideal clássico encontram neste facto uma valiosa demonstração. Ninguém desconhece o empenho de D. João V em restaurar o perdido esplendor da nossa literatura. Pois não se foi além da inevitável chusma de vates de abadessado, revirando para as madres os olhos de carneiro mal-morto, por entre orgias largas de manjar branco e trouxas de ovos!

O excessivo aparato humanista da nossa educação conventual e universitária abafara-nos a espontaneidade do sentimento. Da poesia não se possuía outro conceito senão o de uma virtuosidade maior ou menor em se compor o discurso, segundo os cânones proclamados como bons. A teoria desse falso classicismo definira-a com nitidez Pedro Correia Garção na sua Dissertação terceira. Ali se sente bem a diferença que existe entre os morcegos da Arcádia e um Corneille ou um Racine, em quem a lição dos Antigos valera, não como um decalque paciente e submisso, mas sobretudo – posta de parte a economia e a arquitectura da produção –, como um conhecimento profundo da natureza e das paixões humanas. Ao contrário, o Classicismo entre nós influiu apenas no tom convencional da paisagem e das figuras, e, paralelamente, na rigidês geométrica da composição.

Compreende-se, de resto, porque assim fosse. Mais cerebral do que emocional, o génio francês triunfara e possuía-se ao contacto dos mestres greco-latinos, no jogo equilibrado da Tragédia, pelo contraste perfeito dos caracteres. Era já um exercício sereno de observação que preparava, mais de três séculos antes, o sucesso do romance com um Balzac, um Flaubert ou um Paul Bourget. Lembrêmo-nos de que Molière é contemporâneo da Athalie e do Cid, e que o Discurso de Método em pouco antecedeu a Arte Poética. A essência do Classicismo não difere das razões do intelectualismo. A França achou-se, por isso, à vontade dentro de uma tendência que vinha clarificar e condensar as preferências congénitas do seu espírito.

Não aconteceria o mesmo em Portugal. Nós não marcámos nunca pela análise e o nosso intelectualismo manifestou-se sempre um intelectualismo de escola e, por consequência, de importação. Já Fradique Mendes reparava com agudeza, puxando pela cigarrilha numa negligência elegante, que «poesia subentendia emoção» e que «a genuína expressão da inteligência francesa era a prosa». Subscrevo absolutamente o juízo de Fradique, em antecipada coincidência com a opinião de Léon Daudet, que caracteriza a arte da prosa como sendo «la science de l’analyse, des ressorts intellectuels et moraux». Eis bem evidentes os motivos porque nós nunca nos notabilizámos no romance, ao passo que a novela propriamente dita assume por vezes em Portugal as linhas de uma verdadeira criação. Eça de Queiroz, por exemplo, não se emancipa da imitação do naturalismo parisiense na sua escolha decidida pelos aspectos inferiores da existência, enquanto o romance constitui a sua preocupação absorvente. Transita um dia, porém, do romance para a novela – e A Ilustre Casa de Ramires aparece-nos logo como uma jornada definitiva na nacionalização do gosto e dos processos literários em Portugal.

Ora porque poesia subentende emoção» – na palavra categorizada de Fradique –, é que nunca o ideal clássico se acomodaria à extraordinária opulência do nosso lirismo instintivo. Os poetas de Quinhentos, com Sá de Miranda, Camões, António Ferreira e Diogo Bernardes, transportaram ainda as virtudes íntimas da sua alma de líricos para a sonoridade pomposa do decassílabo. Camões, no episódio da morte de Inês de Castro, tem por esse lado do coração a grandeza de uma cena de Corneille, posterior a ele um século seguro. Mas quando, fixado pela pedagogia humanista, o Classicismo se radica entre nós, não há ninguém que não saiba como os poetas seiscentistas nos cansam e prostram com as suas arrastadas epopeias que, invadidas agora pela degenerescência do culteranismo, se emparelham e rematam na mais absoluta imobilidade, tanto plástica como emotiva. Salva-se o Viriato Trágico, porque, numa intuição feliz, mercê da sua irrequieta vida de soldado, Brás Garcia de Mascarenhas, de certo modo, identificou com o caudilho dos Lusitanos a sua aspiração de português batendo-se na fronteira pela independência da Pátria.

Sacrificada à parte formal, a poesia definha-se depressa em Portugal na secura dogmática que a pretendia regulamentar. «Os mais finos conhecedores franceses, prosseguia Fradique no appartement do Hotel Central, contemplando, descuidado, o fumo da cigarrilha – os mais finos conhecedores franceses prefereriam sempre os poetas cuja poesia se caracterizasse pela precisão, lucidez, sobriedade, que são qualidades da prosa; e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais visivelmente possuía o génio de prosador. Boileau continuaria a ser um clássico, um imortal, quando já ninguém se lembrasse em França do tumultuoso lirismo de Hugo.

Decididamente, Fradique, pela sua acuidade crítica, merece-nos, no ponto presente, a confiança que se deve a um pensador de sisudos óculos professorais! Porque o Classicismo nos pedia esse espírito de análise que não se conjuga com a feição naturalmente espontânea da poesia é que a nossa decadência poética, ao entrar o século XVIII, nos oferece o mais degradante de todos os espectáculos.

Quer Teófilo Braga ver em semelhante facto a acção depressiva do monarquismo e catolicismo extremos da nossa sociedade tradicional. Não nos demoremos a destruir a sua observação sectária! Católica e monárquica, saída das mãos de Richelieu para as de Luís XIV, não atingiu precisamente a França com o Rei-Sol, e depois das Dragonadas, o apogeu doirado do seu grande século? As causas que agiram tão desastrosamente entre nós são, de uma maneira geral, as expostas. Entregue apenas à boa observância dos preceitos da métrica, a nossa poesia teria que se enfraquecer e diminuir no seu profundo significado psíquico, porque não dispunha, para se defender, do poder analítico do génio francês. O que ocorreu com o Classicismo, ocorreu mais tarde com o Parnasianismo. O vigor da descrição é em Leconte de Lisle, e secundariamente em José Maria de Heredia, a sobrevivência das velhas qualidades clássicas (ou intelectualistas) da França de sempre. Comparemos com eles os nossos parnasianos. Inutilizam-se no xadrez diligente do pormenor e da rima rebuscada. E se, fora do interesse documental das antologias, algum subsiste, é, sem dúvida, o conde de Monsaraz – não o conde de Monsaraz da Catarina de Ataíde, mas o conde de Monsaraz do regionalismo forte e desimpedido da Musa alentejana.

Inversamente, a nossa intensa crepitação lírica não deixa que os nossos românticos – Garrett e Herculano, sobretudo – se precipitem no deboche franco da imaginação, como aconteceu em França com os delírios sentimentais do Ermo e do Lago. O Romantismo em Portugal traduz até, em reacção consciente contra a rigidez dos moldes literários, o regresso às profanadas nascentes da nossa poesia natural. E vem a propósito notar ainda sobre lirismo e intelectualismo um caso eloquentemente elucidativo. Aludo ao Padre José Agostinho de Macedo. Na história das ideias portuguesas, este formidável panfletário, dotado da insolência genial do seu contemporâneo Rivarol, marca a plenitude da inteligência na sua mais rematada compreensão crítica. Pois, com tão eminentes predicados mentais, nós sabemos como as tentativas poéticas de José Agostinho de Macedo resultaram monótonas e medíocres, sem cor nem elevação.


*

Tal o quadro da literatura nacional, quando Bocage levantou no horizonte a sua figura em todos os sentidos desproporcionada. Insere-se Bocage psicologicamente nesse tipo moral de tumultuoso e desencontrado que Léon Daudet no seu Hérédo considera como o produto de um permanente duelo entre hereditariedades contraditórias. É donde visivelmente dimana a ondulação da personalidade de Bocage, tanto na sua abundância de improvisador, como no estouvamento febril da sua existência desgarrada e sem centro. Desertor e arruaceiro, em Bocage encarna-se bem o libertino, na acepção em que se tomava outrora o indivíduo despojado de regras de vida interior e para quem uma baixa felicidade naturalista era, na vertigem quotidiana do mundo, o único estímulo capaz de lhe arrancar algum esforço de monta. Se quisermos ter de Bocage a ideia justa do que foi e do que valeu, não podemos abstrair nem da sua formação moral nem da época que o emoldurou e perdeu.

Vigorosamente sustentada pelo punho de Pina Manique, a nossa sociedade tradicional defendia-se. Mas semelhante defesa estava apenas confiada a uma acção coercitiva do Estado. Nos cérebros imperava já a maior das desordens. Exactamente como em França, antes de descer aos clubs secretos, a Revolução passeava-se nos salões, protegida pelo disfarce leviano da curiosidade intelectual daquele tempo. Quem lhe serve entre nós de reposteiro-mor é o pedantismo erudito do duque de Lafões, em comércio apertado com os ideólogos lá de fora. Na sua roda medram e escondem-se muitos dos mais conhecidos ‘botafogos’ lisboetas, entre os quais o abade Correia da Serra. Por ‘botafogo’ designava a Intendência pitorescamente os jacobinos que trazia debaixo de olho. A luta de Pina Manique contra o alastramento da lepra revolucionária só terminou quando Bonaparte nos impôs a sua demissão. Sereno e vigilante, era no velho magistrado que a Maçonaria esbarrava invariavelmente na sua tarefa daninha de sapar os alicerces da nacionalidade. E tão depressa Pina Manique caiu, logo a invasão francesa se tornou possível, de acordo com os conluios tramados no escuro das associações maçónicas de Lisboa.

Costuma a pena facciosa dos nossos escritores liberalistas empregar as tintas mais densas dos seus recursos romanescos se escolhe para tema o reinado de D. Maria I. A insurreição sentimental e social de Bocage, que o chegou a levar às admoestações inquisitoriais, interpreta-se como um sinal da marcha trágica do espírito-novo dentro de uma sociedade fechada no mais opaco dos obscurantismos. Mas nós sabemos já hoje o que era o ‘espírito-novo’!

Nascido do racionalismo corrosivo da Renascença, ele atingia agora o seu pleno florescimento. Facilitara-lhe o caminho a concepção absolutista do Poder, tão bem concretizada na ditadura de Pombal. Debalde, com um ou outro esforço isolado, procurámos levantar-lhe barreiras. Há um livro desse estranho momento, O Filósofo Solitário, aparecido em 1785, com licença da Real Mesa Censória, em que a inspiração de Rousseau é mais que transparente. Escreve-se no prólogo, dedicado aos Filósofos que vivem na Sociedade: «Todo o mundo julga que a sociedade é a bem-aventurança da Terra. Que engano! Se vós estais por esta máxima sois Entusiastas. Os Filósofos não devem adoptar os axiomas do povo. Quem busca as causas naturais dos efeitos naturais, deve habitar nos montes: porque a Natureza fala por uma boca na solidão e por outra nos povoados.»

Impresso na Régia Oficina Tipográfica, e autorizado, como vimos, pela Real Mesa Censória, o Filósofo Solitário revela-nos, com efeito, a decomposição de uma sociedade, já penetrada pelas ideologias anárquicas de Jean-Jacques. Só folheando os papéis da Intendência se avalia bem da indisciplina em que tudo se esboroava e subvertia. Debalde Pina Manique tentara providenciar! O mal vinha de largo, vinha da desnacionalização em que nos debatíamos, e com raízes tão fundas, que os golpes certeiros do bom desembargador não as poderiam nunca debelar.

Na inquietação colectiva dos sentimentos e das inteligências, Bocage representa assim a Revolução na sua primeira jornada – na jornada sarcástica, na jornada voltaireana. Ele é entre nós, pela sua atitude de melancolia revolta, a significação acabada de Rousseau. Dispondo de um raro poder de expressão, entende e traduz como poucos a natureza. Lírico de revoadas nobres e belas, consegue pela sua íntima comoção humedecer com sobresaltos de vida as paisagens convencionais da Arcadia. Bocage é já de alguma maneira um romântico, se atendermos ao seu gosto pelo isolamento e pela contemplação. Destinado a acentuar talvez no nosso débil pré-romantismo uma tendência igual à dos poetas do Lago, Bocage dispersa-se, porém, à banca dos botequins, nos sucessos fáceis da sua veia satírica, da sua musa insubordinada e demolidora.

É por aqui que Bocage se identifica em todas as suas linhas dominantes com a categoria psicológica, analisada por Léon Daudet no Hérédo. Individualiza-se ela pela inteira abdicação da vontade às influências descoordenadas da nossa ancestralidade. Não é outra a forma porque se explica que muitas vezes o desiquilíbrio psíquico coabite com a verdadeira exaltação criadora. Diz Daudet que o hérédo nos oferece um semblante atormentado e febril, em bastantes casos desdenhoso e altivo, mas dando-nos ao mesmo tempo uma forte impressão de estranheza e de tortura. O olhar do hérédo é sempre irrequieto e brilhante, os seus movimentos impacientes, a sua palavra precipitada e nervosa. Se nos recordarmos agora do retrato corrente de Bocage, de nada mais carecemos para incorporar o poeta na classificação de Daudet. Ajuda-nos neste juízo o conhecido soneto, «Desenho de Elmano», de Tomás António dos Santos Silva, quando nos fala dos «Estreitos olhos baços em que ardia / Um fogo inato que amedronta ao vê-lo», referindo-se de seguida num verso, que tem o cunho dos medalhões, ao seu «Génio instável, sem repouso nem parage».

Coando a história através da sua razão científica, Daudet encara psicologicamente a Revolução Francesa «comme une vaste insurrection d’hérédos». Na sua rebeldia contra as regras tradicionais, Bocage inclui-se ainda por semelhante aspecto na justa observação desse mestre soberano da polémica e do romance. A sua hereditariedade, confusa e discordante, em Bocage brigava uma costela portuguesa com outra francesa –, encontrou no enciclopedismo enfático do século XVIII o meio próprio ao seu natural desenvolvimento. Assim a vida do impulso se sobrepôs no poeta à vida da reflexão. Rousseau ou le naufrage du soi, sintetiza Léon Daudet. Nosso pequeno Rousseau, embora maior que o autor das Conféssions nas revoadas líricas, se Bocage não é o naufrágio da personalidade, é, pelo menos, o seu esfacelamento!

Definida a rebelião instintiva de Bocage, não se torna necessário desmentir o erro crítico que ordinariamente no-lo pinta como um sacrificado aos preconceitos da sua época. Sacrificado, bem ao contrário, pelas falsas ideias que desencadearam dentro dele as forças destrutivas da individualidade, Bocage constitui, para a nossa formação contra-revolucionária, uma convicente experiência psicológica. Ele abraçou no giro tonto dos seus dias a carreira nefasta do optimismo grosseiríssimo dos Enciclopedistas. Não nos deixou por isso outra memória de si, senão os detalhes fugidios da sua existência de vagabundo do sarcasmo e da iconoclastia. Efectivamente, o drama moral de Bocage desaparece na vã popularidade da sua biografia anedótica. Ardendo em «uma inquietação por coisas nunca alcançadas» – eis como o poeta se objectivou. Mas o que há de grande e valioso, em Bocage, é o Bocage escondido no escuro, é o Bocage da conversão, é o Bocage reconciliado com a regra, sem a doce aceitação da qual a paz inteira jamais se conquista.

Nascido num período de transição profunda, Bocage sofreu-lhe como poucos as consequências, agravadas pela fatalidade do seu temperamento excessivo. Socialmente, o amanhecer da Revolução, desviando-o do ideal católico e monárquico, fez dele um inadaptado constante, como que um sonâmbulo dirigido ao acaso pelo burburinho dissonante das suas dissonantes vozes hereditárias. Literariamente, o artificialismo da Arcádia garrotaria, pelo constrangimento dos seus modelos postiços, a incomparável riqueza emotiva de Elmano, a que se aliava uma singular facilidade de realização. Não se perdeu, contudo, no limbo das coisas inúteis o seu exemplo de imolado ao bonzismo dos falsos deuses!

O bucolismo rebuscado de um Delille ou de um abade de Saint-Pierre – bucolismo de jardins amaneirados e de florestas bordadas a missanga – transfigura-se em Bocage numa inesperada compreensão da natureza com perspectiva, movimento e cor adequada. Salientámos já a melancolia do poeta, que o aparentava de perto aos contemplativos do Lago. Era o admirável lirismo da nossa raça, herdado com a costela lusitana, que em Bocage o elevava, nas asas da tal inquietação por «coisas nunca alcançadas», a essa espécie de tristeza confidencial, que mais tarde, já em pleno desafogo da sensibilidade, seria o segredo encantador do estro de Musset. Se, desta forma, Bocage rompia com a regência pesada da Arcádia, também a dor do seu arrependimento nos testemunha o acordo tardio da sua personalidade com os apelos indomináveis da sua conciência. O soi, porfiando, acabaria por jugular o moi – como diria Léon Daudet. Bocage afirma-nos aí o poder da sua libertação psíquica. Não se trata da capitulação atribulada de um enfermo no ancoradoiro amplo da Fé. Bocage, documentando a sua conversão, anota-a como um acto autónomo do seu pensamento unido à sua vontade: «E para crer num braço autor de tudo, / Que recompensa os bons, que os maus castiga, / Não só da fé, mas da razão me ajudo!»

Entre os grandes rebeldes, Bocage é dos poucos que nos lega, no completo repúdio da sua existência fragmentada e negativa, a mais alta e impressionante de todas as confissões. O regresso de Bocage a Deus obedece ao império da sua inteligência já emancipada dos mitos que a obscureciam. O poeta apalpa e sente, primeiro que ninguém, as responsabilidades sociais do escritor – do homem que pretende influir à sua volta pelo ministério da pena, ao lançar-nos aquele seu grito inolvidável:
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Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei!, o meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura!
 
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
 
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
 
Outro Aretino fui!... A santidade
Manchei!... Oh!, se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

 
Como apêndice aos exemplos invocados por Daudet, este de Bocage ilustra-lhe extraordinariamente a teoria do Hérédo. Se Bocage é na abundância ruidosa do seu eu subliminar uma revolta projecção de tipos ancestrais antagónicos, nós verificamos como a supremacia da conciência ele a obteve pelos processos teológicos do sofrimento, de inibição e mesmo da penitência, que Léon Daudet nos aponta como sendo os únicos com segura eficácia, até dentro do puro ponto de vista clínico. Estudado através da sua humanidade tantas vezes decaída, mas tão intensamente resgatada, Bocage quase se torna um espelho, espelho em que nós nos reflectimos no duelo constante das nossas paixões com a nossa ânsia sagrada de depuração. Moribundo, o poeta dita um soneto que é de sempre, que é eterno. Esse soneto pertence ao florilégio da alma cristã, é irmão dos acentos doloridos de Santa Teresa e de São João da Cruz. Dante colocá-lo-ia na boca daqueles a quem o Purgatório prepara para a visão suprema de Deus. E ninguém, debruçado sobre si próprio, no momento final, se retrataria tão fielmente, ao desenlaçar-se pela morte o conflito místico das duas naturezas contraditórias do homem.

Se a obra de génio vale, sobretudo, pelo que contém de universal e humano, o soneto de Bocage moribundo não tem segundo na literatura de todo o mundo. Ele mesmo, estertorizado, fixou a tragédia da agonia, repartida entre os sobressaltos da nossa condição inferior e os clarões já visíveis da aproximação divina. A agonia – repara a propósito Léon Daudet – «pode ser considerada como o derradeiro esforço da hereditariedade contra a individualidade, dos elementos transmitidos e caducos contra o princípio pessoal e imortal». Sucede, pois, que a serenidade perante a morte – fenómeno bastantes vezes observado em temperamentos inquietos antes desse minuto decisivo – tende a significar a libertação súbita do soi (individualidade ou alma) pela derrota e subjugação do moi(ancestralidade ou determinismo).

Não se me afigura que seja outro o caso de Bocage. A clarividência que lhe inspirou o seu soneto célebre é a prova melhor a invocar-se contra a lenda sectária que no-lo descreve coacto pela pressão inquisitorial e pelos mórbidos receios religiosos do seu espírito abatido. Aqui lançamos, asseverando o contrário, a nossa interpretação, baseada em sólidos fundamentos psicológicos. Bocage, convertido e arrependido, foi mais livre na condução da sua vontade que o Bocage dos risos demolidores e da «pavorosa ilusão da eternidade». Enquanto o Bocage da primeira fase, devoto incensador de mil deidades e inimigo de hipócritas e de frades, desperdiça a sua excepcional opulência lírica, subalternizando-a aos caprichos soltos da desordem afectiva, o segundo Bocage, ao adormecer tranquilamente no Senhor, morria realizando o trabalho difícil da unidade do seu ser indestrutível. A introspecção psíquica que marca a culminância de uma consciência, repassa linha a linha, palavra a palavra, o arranco de Bocage agonizante: «Meu ser evaporei na lida insana / Do tropel das paixões que me arrastavam; / Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava / Em mim quase imortal a essência humana.»

O assalto último dos seus fantasmas ancestrais, Bocage o repelia vitorioso para a confusão da noite infernal. E luminosamente, na transparência da dor e da esperança, o seu génio conhecia a crepitação inigualável do Salmista ao soluçar com enternecida contrição: «Deus, oh Deus! Quando a morte à luz me roube, / Ganhe um momento o que perderam anos, / Saiba morrer o que viver não soube!»

Na sua singeleza, singeleza de uma velha gravura contornada a água-forte, eis o drama de Bocage. O que restava do «pálido, estranho moço, de que nos fala lord Beckford, aquele senhor Manuel Maria, que a curiosidade fleumática do viajante inglês achava ser a criatura mais extravagante, mas talvez a mais original que Deus ainda criou»? Onde é que iam os estouvados tempos em que Elmano, entusiasmado pela Revolução Francesa», declamava entre enfático e convencido: «Liberdade, onde estás? Quem te demora? / Quem faz que o teu influxo em nós não caia? / Por que (triste de mim!) por que não raia / Já na esfera de Lísia a tua aurora?»
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Nada subsistia da sua anarquia sentimental de ideólogo que não hesitara em saudar Napoleão – «Graças, ó Corso excelso, à tua espada!» – como um «novo redentor da natureza». Reconciliado com as normas eternas da vida, Bocage transpunha pela humildade os umbrais da única glória que não perece. O vento da Enciclopédia passara por ele, vento estéril, vento do deserto, com a desgraça habitando-lhe as entranhas. Bocage, convertido, ensinava-nos agora que – ontem como hoje! –, só há um caminho para a sociedade e para o indivíduo, se, tocados pelo sopro maléfico, não quiserem soçobrar numa catástrofe sem remédio: o caminho da Igreja. Tal é a conclusão que se desprende do fim de Bocage. Não aproveitou, pela vagabundagem filosófica do século findo, aos que vieram antes de nós. Mas, restituído ao seu significado verdadeiro, com ele se introduz na história crítica da Contra-Revolução um depoimento ignorado, o depoimento da sensibilidade portuguesa.
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Setembro, 1918.


​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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