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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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D. Carlota Joaquina

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha defende uma reavaliação da imagem de D. Carlota Joaquina, frequentemente difamada tanto na sua aparência quanto no seu caráter, destacando narrativas hostis e testemunhos duvidosos que, como o da duquesa de Abrantes, criaram uma “lenda negra” injusta em torno da rainha. Em 1918, baseando-se em novas pesquisas históricas e depoimentos mais imparciais, Sardinha sugere que as críticas exageradas à figura física e moral de Carlota Joaquina refletem rivalidades políticas e pessoais, e não a realidade documentada, defendendo a necessidade de justiça histórica e reconhecimento de sua inteligência e papel político.
Fotografia
D. Carlota Joaquina: Revisão Histórica e Justiça à sua Figura
  • Contexto Historiográfico e o Liberalismo. O texto inicia com uma citação de Fustel de Coulanges criticando a parcialidade dos historiadores ligados a partidos políticos. É essa a tendência de que se nutrem as “histórias de partido”, marcadas por calúnias e difamações sobre figuras como D. Carlota Joaquina, vítima maior do sectarismo liberal da época. António Sardinha lamenta que poucos tenham analisado a rainha no seu contexto, ignorando as qualidades que a distinguiam e a razão de tantas inimizades. Para Sardinha, D. Carlota Joaquina simbolizava o espírito da Contra-Revolução, sendo por isso mesmo atacada.
  • Fontes Hostis e a Construção da Lenda Negra. Grande parte das acusações à rainha tem origem em obras como as “Memorias secretas de la Princesa del Brasil” de Dom José Presas, cuja credibilidade é posta em causa. Oliveira Lima, citado por Sardinha, considera Presas uma testemunha de má-fé, guiada por interesses pessoais e financeiros. A publicação das “Memórias” foi motivada por uma tentativa de extorsão não sucedida. Para além destas, acusações dispersas e panfletos liberais, como os do infame “Dom Miguel” de Barreto Feio, contribuíram para o juízo negativo sobre Carlota Joaquina.
  • Ambição Política e Intrigas Palacianas. A rainha é acusada de ambição desmedida e de ter conspirado para substituir D. João VI durante a sua doença. Embora existissem episódios de intriga, Sardinha defende que a atuação de Carlota Joaquina estava dentro dos seus direitos enquanto regente. Cita relatos como o de António Ribeiro Saraiva, que descreve a prudência e a moderação da rainha diante de situações difíceis, mostrando que a sua principal preocupação era salvaguardar os seus direitos e prerrogativas.
  • Personalidade, Educação e Relações Pessoais. Apesar do ambiente em que cresceu, D. Carlota Joaquina destacou-se pela inteligência e cuidado com a formação. Exames realizados ainda na infância demonstraram conhecimento precoce em várias áreas. Era protetora dos afilhados, generosa e habilidosa na gestão dos seus escassos recursos. Ao mesmo tempo, não abdicava da sua dignidade e posição, insistindo pelos direitos e distinções a que tinha jus, o que lhe trouxe tanto respeito quanto animosidade.
  • Atuação Política e o Sonho do Trono Espanhol. Em momentos críticos, como o cativeiro de Fernando VII, trabalhou para ser reconhecida como herdeira e regente de Espanha, angariando apoiantes influentes. O seu empenho político estendeu-se à América, onde quase assumiu o governo do Rio da Prata, resultado de alianças com figuras como D. Manuel Belgrano. A ambição e o génio político de Carlota Joaquina mostram-se também na generosidade ao rifar joias para financiar resistências, como narra o marquês de Casa-Irujo.
  • Isolamento e Difamação. A partir das intrigas palacianas e do isolamento a que foi sujeita, construiu-se a imagem da rainha intrigante e ambiciosa. Relatos diplomáticos e de publicistas mostram que as suas qualidades políticas eram temidas pelos adversários, levando a estratégias para neutralizá-la e manchar-lhe o nome. Mesmo assim, manteve o espírito altivo e a generosidade, como atestam vários episódios de ajuda a necessitados.
  • Conflitos com o Liberalismo e Resistência. Com o regresso a Portugal, D. Carlota Joaquina recusa jurar a Constituição de 1822, atitude que a leva à ameaça de expulsão. A sua resposta, marcada por dignidade e firmeza, é testemunhada tanto em documentos oficiais quanto em manifestações populares, como as “Trovas do Ramalhão”, que ecoam a solidariedade nacional para com a rainha.
  • Últimos Anos e Legado. Afastada do poder e do convívio familiar, Carlota Joaquina vive os últimos anos entre humilhações e adversidades. Mesmo privada de muitos direitos, manteve a coragem e a determinação, destacando-se pelo papel de mãe e pelo empenho em arranjar bons casamentos para as filhas, com impacto duradouro na história peninsular.
  • Avaliação Histórica e Reabilitação. António Sardinha conclui que muitas das acusações que atingem D. Carlota Joaquina não resistem a uma análise criteriosa das fontes. O seu perfil foi deformado por testemunhos tendenciosos e por uma literatura liberal hostil. Contudo, relatos como o do marquês de Louriçal e de Luz Soriano permitem reconstituir o retrato de uma mulher inteligente, destemida e fiel ao seu tempo. Estudos recentes, como os de Sá Chaves e Julián Maria Rubio, contribuem para restabelecer a verdade sobre a sua figura e o seu legado, reconhecendo-lhe a coragem de permanecer de pé quando tudo à sua volta ruía.​​




​D. CARLOTA JOAQUINA
I

Andam-me sempre na memória certas palavras de Fustel de Coulanges, um dos mestres mais amados do meu espírito. "Os nossos historiadores, de há cinquenta anos para cá, têm sido homens de partido. Por sinceros que eles fossem, por imparciais que julgassem sê-lo, obedeciam apenas a uma ou a outra das opiniões políticas que nos dividem. Investigadores ardentes, pensadores vigorosos, punham o seu ardor e o seu talento ao serviço de uma causa. A nossa história parecia-se com as nossas assembleias políticas: distinguia-se nela uma direita, uma esquerda e até situações intermédias. Era um campo fechado onde as opiniões se debatiam. Escrever a história de França representava uma maneira de trabalhar por um partido e de combater um adversário. A história tornou-se assim entre nós uma espécie de guerra civil em permanência. O que ela nos ensinou, sobretudo, foi a odiar-nos uns aos outros."

Podia este testemunho de Fustel de Coulanges epigrafar a revisão que está por fazer de toda a nossa história nacional. História de partido, e de um partido vencedor, não passa de um tecido de calúnias, escritas com o fel mais vivo e a mais viva sede de difamação. D. Carlota Joaquina é uma das suas vítimas, talvez aquela mais maltratada pelo furor sectário do Liberalismo. Nunca ninguém cuidou em analisar a sua figura, colocando-a dentro da época contraditória em que se moveu, nem tão-pouco se lhe relevaram os defeitos do seu temperamento pelas altas qualidades que a distinguiram e que se volveram sempre na causa maior das inimizades que suscitou. Num período em que a Maçonaria escavava os alicerces seculares da ordem tradicional, D. Carlota Joaquina encarna em si o espírito instintivo da Contra-Revolução que nunca veio a vingar. Daí o enxovalho com que a atiraram para a posteridade penas que participavam mais dos seus interesses do bando que do respeito que a si próprias se deviam.

É um ilustre escritor brasileiro, o senhor Oliveira Lima, em nada disposto à reabilitação da esposa de D. João VI, quem encara, realmente, o problema através de um critério que reputo em harmonia com as regras fundamentais da crítica histórica, ao escrever no seu Dom João VI no Brasil que D. Carlota Joaquina sentia em si sobeja virilidade para ser ela o Rei.» «A natureza, de facto, enganou-se – continua Oliveira Lima –, fazendo com tal alma desta filha dos Bourbons uma mulher, ou, antes, lhes foi o fado supinamente inclemente, reduzindo-a à inacção e à impotência, quando a dotava para querer e dominar, ver e resolver por si, para ser uma Isabel de Inglaterra ou uma Catarina da Rússia. Por uma triste ironia, no entanto, nem sequer lhe foi dado mandar em sua casa, onde todos tinham mais voz do que ela, em cujo espírito primavam num grau notável os predicados que se conveio denominar masculinos: a energia, a actividade, a vontade.»[1]

As aventuras indecorosas que se atribuem ao procedimento de D. Carlota Joaquina não têm outra origem, na sua maior parte, senão o livro escandaloso de Dom José Presas, Memorias secretas de la Princesa del Brasil, actual Reina viuda de Portugal, la señora Doña Carlota Joaquina, saído a lume em Bordéus no ano de 1830. D. José Presas, um aventureiro da mais rara gema, fôra secretário de D. Carlota Joaquina no tempo em que ela se apresentou ao lealismo das colónias da América espanhola como representante dos Bourbons cativos de Napoleão.

Eis como se exprime Oliveira Lima acerca da idoneidade de Presas: «Previne-nos com muita razão o escritor Paul Groussac contra o perigo dos depoimentos singulares, lembrando-nos que é hoje um lugar-comum de crítica, assim como do processo judiciário, a escassa fé que merece o testemunho único, por mais sincera e imparcial que seja a testemunha. Nossos sentidos e nossas reminiscências são outras tantas fontes de erro, e sómente pela análise comparativa e prova contraditória se logra extrair a partícula da verdade envolta na massa enganadora. Outro princípio, corolário do primeiro, é, no dizer do eminente autor argentino, o de não aceitarmos, mesmo condicionalmente, qualquer opinião interessada senão na parte que pareça contraria, ou pelo menos indiferente, ao seu interesse. Presas oferece todas as condições negativas: é uma testemunha indigna de crédito, a que nenhum impulso levantado instigava e que só agia com mira no lucro.[2] Tanto é como Oliveira Lima o supõe, que a publicação das Memórias secretas obedeceu do lado de Presas a uma tentativa de extorsão pecuniária sobre D. Carlota Joaquina, que a repeliu com desassombrada independência.

Inutilizada, deste modo, a base principal de quantos aleives alvejam e enodoam a memória de D. Carlota Joaquina, que resta mais, com subsistência, a alimentar o juízo corrente a seu respeito?
Acusações dispersas, alguns planfletos dos emigrados liberais, em cujo número se destaca o infamíssimo Dom Miguel, de Barreto Feio, estampado em Paris em 1830, como sendo de um portugais de distinction. Detalhemos, porém, um pouco, para melhor nos justificarmos. Imputa-se a D. Carlota Joaquina, além da sua conduta irregular, a porfiada ambição que a levou a atormentar a existência, já de si amargurada, de D. João VI. É frequente porem-na à frente da conspiração que em 1806, durante um agudo ataque de neurastenia do Príncipe Regente, procurou forçá-lo a abandonar o poder. Sem dúvida que ocorrências anormais se produziram então. D. João VI caíra numa grave depressão nervosa, em que se via já repetida a loucura da Rainha-Mãe. Aproveita o ensejo o partido francês, que manobrava na sombra, para afirmar as suas posições. É bom recordar que, segundo o testemunho de José Maria Xavier de Araújo nas suas Revelações e Memórias, foi por essa altura que políticamente a Maçonaria deu os seus primeiros sinais de vida.

Entre os conjurados, destacam-se o marquês de Alorna e mais outros fidalgos, que mais tarde abraçariam o serviço de Napoleão. No fundo, quem operava era o representante de Bonaparte em Madrid, Beurnonville, cujo plano consistia em fazer passar o governo de Portugal às mãos do príncipe da Paz, entrando no jogo o rei de Espanha na qualidade de tutor natural do seu neto, o Príncipe da Beira, uma vez repelida Dona Carlota pelo país como indigna da regência.[3]

Mas, se tais intenções inspiravam o manejo secreto da cabala, nós podemos asseverar que, querida pelo país, nunca D. Carlota Joaquina seria esbulhada da regência e que a sua intervenção na lamentável intriga se limitou a reclamar para si um direito de que não devia abdicar. Conta algures António Ribeiro Saraiva[4]: «Foi o caso que, indo eu, uma tarde, creio que no Verão de 1824, com meu Pai às Picoas, visitar o Principal Freire, que como sabem os que o conhecessem, era homem franco e decidido em seu fallar, veio na conversação o mencionar-se o facto... de achar-se a Imperatriz e Rainha como presa em Queluz, em resultado das intrigas e calúnias da mesma gente que preparava a Portugal a usurpação de D. Pedro, depois da morte de seu pai... Por tal ocasião disse-nos o Principal:

«A rainha tem sido muito injusta e falsamente acusada de tirar o governo a seu marido. Isso já vem de longe, pois, quando D. João VI, ainda Príncipe Regente, esteve doente, de sorte que se receou muito que perdesse o juízo, como a rainha sua mãe, e se tratava de ver quem o havia de substituir na regência, desejava certo partido e procurava fazer que, em tal caso, fosse a princesa viúva, D. Maria Benedita, tia do príncipe regente, e se excluísse da mesma regência a princesa D. Carlota, a quem, no impedimento do príncipe seu marido, competia substituí-lo no governo do reino. Pois, apesar de tal estuche, D. Carlota não fez mais que mandar prudente e confidencialmente apalpar e tentear, se vindo a dar-se com efeito o caso do alienação mental do Príncipe, ela seria apoiada em sua legítima prerrogativa de exercer por ela a regência durante o impedimento do marido. Poucas mulheres, em tal posição e circunstâncias, se haveriam portado com a mesma prudência e moderação.»[5]

São assim os períodos históricos, em que o espírito de facção predomina! Pela transcrição de Ribeiro Saraiva nós vemos como as responsabilidades de D. Carlota Joaquina na conspiração de 1806 se transfiguram, assumindo um aspecto claro de legalidade. Não pretendemos com isso ilibá-la de tanto passo precipitado na revolta da sua subalternidade, que não se resignava ao exercício modesto das virtudes domésticas. D. Carlota Joaquina, fixada com mestria psicológica no retrato moral que dela nos traça Oliveira Lima, é bem o tipo moral dos deslocados ou dos inadaptados. Não tardará que consideremos a pertinácia admirável da sua ambição e mesmo a largueza do seu génio político. Encarnação desencontrada de uma época antagónica nas suas múltiplas tendências, D. Carlota Joaquina trouxe para a sua existência de rainha os defeitos da educação libertina dos finais do século XVIII. O resultado colheram-no os seus inimigos, pintando-a como uma dissoluta esgalgada e feia, a quem não bastava a insatisfação de um temperamento tão abundante como vicioso.

Devagar, no entanto! E seja para restituir à verdade das suas linhas o carácter notável de uma mulher de raça que, no desabar inglório da sociedade antiga, soube defender até à morte, com nobilíssima intransigência, os direitos pisados da Realeza na agonia!

​
II
Era D. Carlota Joaquina dotada de qualidades de talento e, apesar do desmazelo em que se criou e se fez mulher, recebera especiais cuidados na formação da sua inteligência. Com nove anos apenas e já desposada, ficou memória do exame a que a sujeitou perante a côrte seu mestre, o padre Felipe Scio de São Miguel das Escolas Pias, mais tarde bispo de Segóvia. Durou esse exame quatro dias, durante os quais a princesa foi interrogada sobre vários pontos do Velho e Novo Testamento, geografia, cosmografia, latim, tradução do castelhano e viceversa, comentários de César, várias obras de Cícero, etc., respondendo com todo o desembaraço e proficiência, deixando a todos pasmados da precoce instrução que possuía – escreve o insuspeito Benevides nas suas Rainhas de Portugal.[6]

Quanto aos sentimentos do seu coração, permita-se-me que recorra novamente ao depoimento de Oliveira Lima. Também ao que nos revela a correspondência de Dona Carlota, não havia protectora mais desvelada. Constantemente importunando os ministros, pedia, rogava, suplicava, impunha favores para os seus afilhados, com estes constituindo uma roda sua dedicada que, mestra consumada na arte das intrigas, sabia perfeitamente quanto poderia vir a ser-lhe útil para quaisquer desígnios. Com esses amigos era generosa na medida da sua antes magra dotação de princesa herdeira, a qual rendia nas suas mãos, porque lhe não faltava ao mesmo tempo o talento do cálculo e da economia. Ainda assim, não lograva evitar ter que empenhar a sua palavra, que nestes assuntos pecuniários valia, entretanto, menos do que noutros, sendo quase nulo o seu crédito, mesmo porque carecia de muito dinheiro para sustentar a sua categoria de soberana de facto e promover seus projectos diplomáticos.

A meia-hostilidade que a figura de D. Carlota Joaquina provoca à pena de Oliveira Lima, valoriza exatamente o reconhecimento de alguns dos seus predicados por parte do ilustre escritor brasileiro. Continuemos escutando. No próprio modo de submeter-se a essas privações relativas, dava contudo mostras de dignidade, porque esta era espontânea, derivava do seu carácter orgulhoso e imperioso, com faces de verdadeira rainha. Não cedia uma polegada dos seus direitos; não tolerava um menoscabo da sua posição; não deixava uma só vez de insistir pelas distinções a que tinha jus; nem perdoava o mínimo desrespeito. Não raro deu a sua intransigência nesta matéria origem a questões que enchem páginas dos livros de registro da velha secretaria de estrangeiros e até tiveram repercussão nas colunas do Times, não duvidando o embaixador Palmela responder sob pseudónimo aos comentários desfavoráveis ali insertos.

Tenhamos sempre bem presente para boa interpretação da personalidade de D. Carlota Joaquina, que ela nascera para governar e agir com a mesma autoridade e energia de uma Isabel de Inglaterra ou de uma Maria Teresa de Áustria. Exagerada, com desmandos de linha e pruridos excessivos de majestade, através da sua estada no Rio, não faltaram, na verdade, incidentes diplomáticos a dificultar a marcha difícil do governo pelas exigências de cerimonial que a Rainha impunha violentamente aos próprios estrangeiros, por intermédio do seu corpo de cadetes. Todavia, com que notável aprumo D. Carlota Joaquina se retrata na carta que dirigiu ao ministro Tomás António de Vila-Nova Portugal, depois do falecimento de conde da Barca, António de Azevedo e Araújo!

«E sempre lhe quero dizer que Eu não sou capaz de pedir coisas que se me não devam; e que se a minha conciência fôra de manga larga, que no tempo de Araújo (apesar de ser como era), que Eu estaria a estas horas com a casa noutra figura e com uma mesada de 200 ou 300.000 cruzados como as Rainhas D. Mariana de Áustria e D. Mariana Vitória tinham fora a sua casa, no entanto eu não quis nada sem ver todas as clarezas: mas ele teimou muitas vezes comigo que dissesse o quanto era, e que bastava a Minha palavra, que não precisava mais nada.»

Nas hesitações da expressão, contorna-se bem uma atitude natural de dignidade. Não admira, por isso, que o povo a amasse no seu feitio desencontrado de mãe que descalçava as chinelas para castigar as diabruras dos filhos, mas que, simultaneamente, não recuava diante dos grandes gestos que impressionam e que ficam. Daí o observar Oliveira Lima: «É força, porém, crer que Dona Carlota era capaz de exibir qualidades de sedução, decerto mais intelectual que física, visto ser tão desgraciosa. Viva, espirituosa, enredadora, faceira, quando queria, até ultrapassar a decência, o facto é que conseguiu que vários homens de merecimento jungissem num momento dado os próprios interesses aos seus, e que outros se prestassem a servi-la com zelo e dedicação. Nada melhor o prova do que a pretensão de D. Carlota Joaquina ao trono e à regência de Espanha durante o cativeiro em Valençay de Fernando VII e do infante D. Carlos.

Mas nós não queremos avançar sem ouvirmos ainda o insuspeito Oliveira Lima sobre os sentimentos caritativos de D. Carlota Joaquina. «Não é que fosse destituída de coração D. Carlota», escreve o eminente historiador; pelo contrário, o seu humor caridoso era tão vivo quanto a sua índole vingativa. Marrocos conta a esse respeito uma anedota típica. Um servente metera sem razão alguma plausível, antes difamando-a vergonhosamente, a mulher num recolhimento, onde a deixou ao abandono e ao sofrimento. Justificando-se judicialmente e conseguindo recobrar a liberdade, a pobre pôs-se a servir para se manter e valer às duas filhinhas, obtendo por fim ser criada de uma das retretes da Princesa Real. Levada de seje para Botafogo, foi admitida a beijar a mão de D. Carlota, e tão condoída ficou esta da penúria da rapariga, que para mais andava enferma, e ao mesmo tempo tão agradada dela, que lhe fez preparar logo cama e pessoalmente ordenou ao médico da Real Câmara que a atendesse com todo o carinho, correndo os remédios por conta do seu bolsinho. Foi S.A. tão extremosa neste ponto, que ia lembrar à doente as horas em que todos os dias havia de tomar os remédios, assistindo ali nessas ocasiões. Sabendo ao depois que esta tinha duas filhas pequenas e em desamparo, mandou logo buscá-las, vestiu-as nobre e magnificamente com um primoroso enxoval e pô-las a educar e a aprender em um colégio de meninas, pagando mensalmente por sua educação 19$00.»

Tal se nos revela na sua intimidade D. Carlota Joaquina, que nós iremos ver agora em outro plano, desenvolvendo com rara persistência os seus dotes políticos, quando esteve quase a assumir a regência de Espanha. Irmã de Fernando VII, prisioneiro de Napoleão, como os demais membros masculinos de sua família – à excepção do infante D. Francisco – D. Carlota Joaquina trabalhou diligentemente, por intermédio do futuro duque de Palmela – seu inimigo mortal ao depois! –, para que fosse abolido o Acto acordado de 1713 que da sucessão à coroa de Espanha excluía as fémeas em benefício dos varões, sempre que o rei defunto tivesse irmãos e houvesse deixado como descendentes unicamente filhas. Trata-se de uma página longa de história que, desde o circunstanciado trabalho do marquês de Villa-Urrutia Relaciones entre España e Inglaterra durante la Guerra de la Independencia, aos detalhes que nos oferece D. Manuel Fernández Martín no volume II do seu Derecho parlamentario español, importaria para nós um largo esforço, ainda que só em resumo a tentássemos esboçar. Todo o empenho de D. Carlota Joaquina se cifrava em que as Côrtes a reconhecessem como herdeira eventual da coroa e, consequentemente, como regente de Espanha. Reuniu D. Carlota Joaquina em torno do seu nome algumas das figuras espanholas mais representativas. O conde de Flórida-Blanca, com toda a autoridade do seu passado, indicou-a num documento público como sendo a depositária dos direitos da dinastia bourbónica. Jovellanos – o grande Jovellanos! – enfileira entre os seus partidários. D. Carlota Joaquina dirige-se-lhe. Jovellanos responde-lhe: «En medio de la angustia en que nos tiene el cautiverio de nuestro buen Rey, augusto hermano de V.A.R. y la horrible guerra que su pérfido opresor hace a la nación Española, justa y noblemente empeñada en defender los derechos del Trono y en conservar su independencia, há sido para todos los españoles de gran consuelo y del aguero más feliz, ver V.A.R. tan generosamente dispuesta a auxiliar nuestros esfuerzos protegiendo una causa tan justa, y en cuyo triunfo se halla tan personalmente interesada.»[7] Dispunha D. Carlota Joaquina de um grupo numeroso de deputados nas côrtes de Cádiz e talvez a regência acabasse por lhe ser deferida, se a tanto se não opusesse terminantemente o veto da Inglaterra.[8]

Igual sucederia a D. Carlota Joaquina perante a sua qualidade de infanta de Espanha, ao alegar o lealismo monárquico dos vice reinados da América – Espanhola. Chamando a si a defesa dos direitos da dinastia, esteve quase a embarcar para o Rio da Prata e a empunhar um ceptro em Buenos-Aires. Relaciona-se com tão longa e complicada intriga a nossa campanha de Montevideu Ao lado do propósito de D. Carlota Joaquina, com o pensamento absorvente de um governo próprio, exclusivamente seu, há as segundas intenções de D. João VI. Capítulo ignorado da nossa história, denuncia-nos, pelo que toca a D. João VI, uma profunda e arreigada ideia imperialista. Fala Oliveira Lima: «O imperialismo – pois que podemos com propriedade adaptar esta denominação modernizada à aspiração da extensão territorial que D. João VI acalentou e realizou, com relação ao Brasil, nas suas fronteiras norte e sul – foi nesse momento histórico e no continente americano a mola da política da casa de Bragança e motivo de temor para a casa de Bourbon.

Esta era a razão principal pela qual o governo de Madrid nunca mostrara vontade que a côrte de Lisboa se mudasse para o Rio de Janeiro, convindo-lhe a deserção do rei, mas receando, com justificada previsão, a concentração do poder militar e político de Portugal na vizinhança das suas possesões americanas. Por seu lado, Tomás António Vila-Nova Portugal, quando em 1807, antes de declaradas por Napoleão as hostilidades e de decidida a trasladação da côrte para o Brasil, advogava a ida do Príncipe da Beira, recomendava que acompanhasse a régia criança força suficiente, aparentemente para prevenir ataques ultramarinos da Inglaterra, que a cordialidade das relações oficiais com a França podia então fazer antever, mas, na realidade, para, desnorteando o imperador dos Franceses, deter o auxílio espanhol prometido ao exército invasor, oferecendo-lhe a ameaça de uma campanha no Rio da Prata.» A transcrição de Oliveira Lima mostra-nos mais uma vez a importância da saída para o Rio, denunciada pelos historiadores nacionais como uma fuga miserável. Destaca-se assim o valor da política americana de D. João VI, que a abdicação e o sequestro da família real espanhola em Baiona sublinhariam singularmente. É a altura em que se dá a intervenção de D. Carlota Joaquina, que, nas suas pretensões de princesa da casa de Espanha aos domínios do Rio da Prata, encontrou homens de valor e de talento a abraçar-lhe a candidatura. Foi um deles, D. Manuel Belgrano, que, como Mariano Moreno, Castelli, Pueyrredon, se dispôs a obedecer, na sua fidelidade dinástica, a D. Carlota Joaquina, alcançando deste modo a independência para a colónia, sem sacrifício e operando uma revolução incruenta.
Manifesta-se bem o génio político de D. Carlota Joaquina, aquecido pelo fogo da sua ambição. Era um temperamento excepcional de mulher, a quem a intriga e o insucesso não deixaram nunca vencer. D. Carlota Joaquina, soberana no Rio da Prata, e D. João VI no Rio de Janeiro, seriam de futuro, na pessoa dos seus descendentes, um formidável império sul-americano, constituido solidamente. As dilações da côrte do Rio, com muito entrave britânico à mistura, não permitiram que o instante oportuno se aproveitasse. Debaixo do directório de uma Junta, Buenos Aires inicia a independência platina, e, apesar da resistência de Montevideu, os últimos sonhos desfazem-se depressa, lançando no nada a realeza ultramarina da filha de Carlos VI.[9]

Como Isabel-a-Católica em transes difíceis, D. Carlota Joaquina define com vigor o seu perfil de rainha, vendendo e rifando as suas jóias para as despesas da guerra. O marquês de Casa-Irujo, embaixador de Espanha no Rio de Janeiro, narra esse episódio da oferta das jóias numa das suas cartas para o Conselho da Regência dos Reinos de Espanha e Índias. De Montevideu, fiel à legitimidade, pediam ao Marquês de Casa-Irujo 80 a 100 mil pesos, para que se pudesse organizar a resistência «contra los progresos de los alborotadores de Buenos Aires». O embaixador espanhol não os tinha, nem conseguiu obtê-los por empréstimo. Recorre à filha dos Bourbons. La señora Princesa Carlota – diz –, a quien no pude menos que manifestar mi aflicción y mis embargos, con aquella elevación y sublimidad de ánimo que la caracterizan me tomó inmediatamente por la mano y llevándome al quarto donde tiene todas sus joyas, me las abrió y presentó todas y tomando una en su mano me dijo: esta no te la puedo dar, porque es el retrato de mi marido, pero todas las demás que aquí ves y creo valen 7 o 8 veces más la suma que necesitas, están a tu disposición, véndelas, empéñalas, haz lo que quieras, con tal de que se socorra inmediatamente Montevideo.»

Continua o marquês de Casa-Irujo: «Un rasgo de magnanimidad y generosidad tan repentina como sublime, digna de aquella Isabel, gloria de las Reinas de España, me penetró de reconocimiento y de sorpresa y entusiasmo, besándole la mano prorrompí en aquellas expresiones de gratitud que me inspiraba tan noble conducta...»

Compreende-se por aqui a admiração do marquês de Casa-Irujo por D. Carlota Joaquina, de quem, num outro documento, afirmara antes que «la señora Infanta D. Carlota ha debido a la naturaleza el talento más distinguido, que su corazón es digno de su nacimiento, lo que, apesar de la depresión en que se halla, le há criado un gran partido así aquí como en Portugal y aún, si mis informes son correctos, en muchas partes de la América Española: su trato es suave e cortezano con todos; es española de corazón sin apariencias da mucha parcialidad a la nación en que vive, se impone com facilidad en los negocios, los conoce y gusta ocuparse de ellos, dedica diariamente varias horas al gabinete, sin descuidar la educación de su numerosa família, de que puede llamarse la primera aya: tiene ideas correctas sobre asuntos cuyo conocimiento es poco común en su sexo y es religiosa sin superstición. Tal es el verdadero retrato de esa señora condenada a la inutilidad por la intriga de los ambiciosos...»

Haja, ou não, exagero nas palavras do marquês de Casa-Irujo, o que é certo é que a personalidade de D. Carlota Joaquina contorna-se a traços fortes em tudo quanto fica registado. Contrária aos partidos e camarilhas que se agitavam em roda de D. João VI, eis donde resultou para D. Carlota Joaquina o começo do seu descrédito como mulher. O marquês de Casa-Irujo apresenta-nos D. João VI dominado pelo favorito Lobato, pelo conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, e por Lord Strangford, embaixador inglês. Observa o publicista Rubio no seu estudo La Infanta Carlota Joaquina y la política de España en América: «El unico enemigo terrible para esta triple alianza fue la Infanta D. Carlota, y como no desconocían su superior talento y excelentes condiciones para la política, y teniendo en cuenta que si esta Infanta hubiera estado considerada como le correspondía, hubiera dado al traste con todos ellos y con sus maquinaciones y proyectos, por eso procuraron inutilizarla, aislándola por completo, hasta mantener su absoluta separación del príncipe, sometiéndola a un régimen de vejaciones y desprestígio, de tal suerte indigno, que incapacitaron moral y materialmente a la infanta para conseguir algún éxito en los proyectos que concibió, pues opusieron a ellos una obstrucción sistemática, contribuyendo en gran manera a que se formase en toda la América del Sur la leyenda tan desfavorable a la infanta, leyenda que la representa como el tipo de mujer intrigante y ambiciosa que tan injustamente la degrada. Llegaron al extremo de inmiscuirse en su vida privada; de estas maquinaciones salió muy caluniado su honor.»[10]

Vencida pela adversidade do seu destino, sem regência e sem ceptro, D. Carlota Joaquina sente envolvê-la de novo a sua triste penumbra de subalternidade. Ainda no Brasil, procura desembaraçar-se da situação humilhante em que vivia. Foi por ocasião do casamento de suas filhas, D. Maria Isabel e D. Maria Francisca, respectivamente, com Fernando VII e com o infante D. Carlos María Isidro, mais tarde o célebre Pretendente. Daria matéria para largas explanações essa última experiência de matrimónios espanhóis. Inspirou-os largamente D. Carlota Joaquina. Sua filha, D. Maria Isabel, passando, embora de leve, pelo trono de Espanha, legar-nos-ia um glorioso testemunho do seu espírito no Museu do Prado, para cuja fundação decisivamente contribuiu. Quanto a D. Maria Francisca de Bragança, é a rival temível de sua cunhada Luísa Carlota – a infanta «de las manos blancas», da bofetada histórica no ministro Calomarde. Pois se em tais matrimónios D. Carlota Joaquina logrou triunfar, não triunfou inteiramente, porque seu esposo negou-lhe licença para acompanhar as filhas à Europa. E, no entanto, nada mais hostil para D. Carlota Joaquina que o ambiente que a rodeava no Rio de Janeiro! Para o demonstrar, basta que recordemos um detalhe que o marquês de Lema, no seu discurso de admissão à Real Academia de la Historia, expressivamente nos confia.[11] D. Carlota Joaquina adoecera «de gravedad en el domingo de Carnaval de 1814 con un ataque de pecho acompañado de esputos sanguinolentos. Ni su marido, el príncipe regente, ni sus dos hijos, ni otros indivíduos de la Família Real se preocuparon en lo más mínimo por su estado...» Tida como um trapo velho e inútil, sente-se toda a tragédia íntima de D. Carlota Joaquina. E assim, ligada a um marido que aborrecia e com uma forte aspiração a queimar-lhe o peito, D. Carlota Joaquina some-se na sombra, até que a sua resolução varonil a arranque de lá, para a colocar à frente do movimento contra-revolucionário que em Portugal há-de suster por alguns anos o espraiar insensato do Liberalismo.
 
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III
De regresso a Portugal, D. João VI jura a 21 de Outubro de 1822 a Constituição chamada desse ano. Logo a 4 de Dezembro seguinte recebiam as côrtes comunicação oficial do ministro do Reino de que, tendo a Rainha recusado prestar o mesmo juramento, El-rei, de harmonia com as resoluções ministeriais, deliberava que ela fosse expulsa do país e que perdesse os privilégios da sua qualidade e os seus direitos de portuguesa.

Novamente a figura de D. Carlota Joaquina surje para o tablado da agitação política, agora traduzindo e encarnando a mais profunda das nossas aspirações nacionais. Os teóricos de 1820 levavam Portugal à ruina em nome das suas abstracções e com motivo nas suas conveniências. Revolução de origem maçónica e entendida nos seus secretos meandros com um vasto movimento de unificação iberista, a revolução de 1820 marca o advento das influências jacobinas da França na marcha da sociedade lusitana. O que foi semelhante tentativa de alguns ideólogos sem terembelho di-lo, por exemplo, em números e em factos, o notável livro Cartas de um português aos seus concidadãos, de José Acúrsio das Neves – um dos precursores mais autorizados do nosso tradicionalismo político. Aí se narra o desacato cometido na pessoa de D. Carlota Joaquina, de quem, como deputado pela província da Beira, José Acúrsio das Neves seria em côrtes um denodado defensor, até com risco da sua segurança individual.

Completamente dominado por um sinédrio de agitadores e de pedreiros-livres, D. João VI começava então, na demissão crescente da sua vontade, a longa agonia de uma vida, que se tornaria depressa na agonia da própria Realeza. Não teve energia para se impor e para evitar o insulto cuspido à face da Rainha pelo conselho do Estado. Só D. Carlota Joaquina manteve a linha da sua dignidade com desassombrada altivez.

Iniciou-se a comédia com a apresentação de uma nota subscrita por três ministros, na qual se ponderava a D. Carlota Joaquina que, estando a findar o prazo fixado para se prestar o juramento à Constituição, El-Rei ordenava que, se a Rainha não cumprisse a lei até ao próximo dia 4 de Dezembro, incorria na perda da sua hierarquia e na expulsão para fora do reino.
A nota era de 22 de Novembro e assinavam-na Filipe Ferreira de Araújo e Castro, ministro do Reino, Silvestre Pinheiro Ferreira, ministro dos Estrangeiros, e Inácio da Costa Quintela, da Marinha. Introduzidos já de noite à presença de D. Carlota Joaquina, sucedeu que um deles, ao intimar-lhe a nota insolente, se perturbou na leitura, prendendo-se-lhe a voz na garganta. Com todo o sangue frio a Rainha teve a bondade de chegar com a sua própria mão mais para o pé dele uma luz, para que pudesse ler melhor, conta Acúrsio das Neves. E depois de ouvir o mandado terminante, que atrevidamente lhe comunicavam, com a mesma serenidade respondeu: «Que já havia mandado dizer a El-Rei que não jurava que tinha assentado nunca jurar em sua vida, nem em bem, nem em mal: o que não era nem por soberba, nem por ódio às Côrtes; mas porque assim uma vez o tinha dito, pois uma pessoa de bem não se retratava; e por ser uma pessoa doente, que bem sabia a lei, e conhecia a pena que ela impunha; e que estava disposta para isso.»

Em vista da recusa de D. Carlota Joaquina, o ministro Filipe Ferreira de Araújo e Castro dirigiu a D. Carlota Joaquina, em nome do Rei, uma carta, de que foi portador o marquês de Valada, perguntando-lhe para que país era seu desejo retirar-se. Resposta da D. Carlota Joaquina: «Ontem pelas 10 horas da noite recebi por mão do marquês de Valada a intimação que Filipe Ferreira me fez da parte de El-Rei, à qual devo responder o seguinte: 1.º Que eu já fiz a minha solene e formal declaração de que não jurava e agora torno a rectificar. 2.º Que estou pronta a executar o que El-rei me mandar em virtude da lei, porém sou obrigada a representar que eu sou muito doente e ainda mais do que se pensa, e é de direito natural a conservação da vida. Estou bem certa que El-Rei nem o governo não hão-de querer que eu vá morrer por esses caminhos, pois estamos no rigor do Inverno e não me atrevo a empreender a jornada sem passar a força dele; e para mostrar a todos que eu não entro absolutamente em coisa nenhuma, estou pronta para me retirar para a minha quinta do Ramalhão com as minhas duas filhas (as quais hão-de ser sempre inseparáveis de mim até que o tempo permita principiar a minha jornada para fora do reino. A minha intenção é ir para Cádiz por mar; por ser mais suave, atendendo à falta de saúde e forças que tenho. Queluz, 28 de Novembro de 1822. A Rainha.»

Baseava-se a exigência do juramento a D. Carlota Joaquina na circunstância de ela ser possuidora de bens nacionais. Discutiu-se o assunto em conselho de Estado, vencendo o parecer de Filipe Ferreira contra o de José de Silva Carvalho, que entendia a Rainha dispensada de juramento por não exercer função pública alguma. Embora eivado de todos os preconceitos liberalistas, Fonseca Benevides, nas suas Rainhas de Portugal, observa a este respeito, sinceramente impressionado: «É justo reconhecer que se Carlota Joaquina tinha grandes defeitos, possuía também uma apreciável qualidade, a coragem; pena era que tão belo atributo não fosse aplicado a melhor causa.»

Tratada já de ‘ex-cidadã-rainha’ como se o caso se passasse em França durante os delírios macabros do Terror, D. Carlota Joaquina chegou a ter preparada a fragata Pérola, a fim de a conduzir para fora de Portugal. Em face, porém, da declaração do médico da Real Câmara, João de Campos Navarro, confirmada por uma junta de médicos efectivos e honorários do Palácio, o governo não tomou a responsabilidade da expulsão de D. Carlota Joaquina. Com data de 4 de Dezembro, apareceram então dois decretos, um em que se fazia saber «que, pelo facto de não jurar a constituição, a rainha tem perdido todos os direitos civis e políticos inerentes tanto à qualidade de cidadão português, quanto à dignidade de rainha e que outrossim deverá sair imediatamente de território português», declarando-se no segundo decreto que, não podendo a rainha por estado de saúde e rigor da estação, sair imediatamente do território português, como devia, em observância da lei, por não haver jurado a constituição política da monarquia, ficava deferida a execução do decreto anterior, «até que possa verificar-se sem perigo iminente de vida, devendo retirar-se, entretanto, para a quinta de Ramalhão, acompanhada unicamente das pessoas indispensáveis para o seu serviço pessoal».

No volume I dos Documentos para a história das Cortes Gerais da nação portuguesa, do barão de São Clemente, compila-se a documentação referente a tão agitado caso. Arquivaremos aqui uma carta notabilíssima, aparecida na mesma altura, como sendo da Rainha a D. João VI. Estamparam-na vários jornais portugueses e estrangeiros, e tamanha impressão causou que o Diário do Governo, de 17 de Fevereiro de 1823, inseria nas suas colunas a seguinte nota oficiosa: «Tendo-se publicado em algumas gazetas estrangeiras, e delas copiado em outras desta corte, uma carta que se diz escrita pela Rainha a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon ao seu augusto esposo, somos autorizados a declarar que aquela carta é apócrifa.»

Segue a carta, de cuja autenticidade, pela energia e pelo alto espírito que a inflamam, não é lícito duvidar-se:

«Senhor. – Recebi esta noite, pelas mãos dos vossos ministros, um decreto para deixar o vosso Reino. É, pois, para me mandar desterrada que V.M. me obriga a descer do trono, a que me chamou: de todo o meu coração vos perdôo e me compadeço de V.M. Todo o meu desprezo ficará reservado para os que vos rodeiam e que vos enganam. Na terra do desterro, eu serei mais livre que V.M. em vosso palácio.
» Eu levo comigo a liberdade; o meu coração não está escravizado, nem jamais se curvou diante dos altivos súbditos que têm usado impor leis a V.M. e que querem forçar minha conciência a dar umjuramento que ela desaprova. Eu nunca acedi às suas ameaças. Obedeço unicamente à voz do céu, que diz que, se o tempo da minha grandeza passou, o da minha glória é chegado, porque de mim se dirá: «A rainha guardou inviolável a dignidade do diadema: não deixou manchar-se o seu esplendor, e quando testas coroadas, que empunhavam o ceptro e a espada, sucumbiram, ela se manteve firme e impávida.»
» Como esposa submissa eu vos obedecerei, Senhor, mas obedecerei unicamente a V.M., e só a V.M. direi que o meu padecimento e o rigor da estação tornam no momento actual impossível a minha partida. Ainda não exigiram de vós o decreto da minha morte. Em breve partirei; mas aonde dirigirei meus passos para achar um asilo sossegado? A minha pátria como a vossa veio a ser vítima do espírito da revolução. Meu irmão, como V.M., é um cativo coroado e em vão sua jovem esposa requer o privilégio de se lamentar comigo em algum pio retiro. V.M. me não recusará a companhia de minhas filhas. Entre as leis que se vos impõem, nenhuma há que separe os filhos de suas mães, ainda que os meus direitos como rainha não sejam reconhecidos, os de mãe serão respeitados.
» Ao aproximar-se a Primavera, deixarei o vosso reino, a terra onde reinei e onde fiz algum bem. Irei e participarei dos perigos de meu Irmão. Eu lhe direi: Não puderam dobrar a minha resolução; estou em desterro, mas a minha conciência está pura, pois me lembro do sangue que corre nas minhas veias. A Deus, Senhor; eu vos deixo idoso e enfermo sobre um trono vacilante. Ao separar-me de V.M., é grande a minha mágoa. Vosso filho não está convosco e os malévolos põem entre vós uma barreira maior que o mar. Pende de vossas cãs uma coroa maculada. Ah! Queira aquele Senhor que reina sobre os Reis vigiar sobre V.M. e confundir vossos inimigos. Onde quer que exista a esposa que vós desterrais, há-de orar por V.M.! Ela pedirá a Deus vos conceda larga vida, e, ao país de que é lançada fora, felicidade e paz. – A Rainha.»
 
Tão bela e varonil afirmação conforma-se em tudo com o vento de protesto que no país levantou o iníquo procedimento havido contra D. Carlota Joaquina. Não ficou muda a conciência da nação, e um testemunho subsiste que, pela sua espontaneidade, vale bem mais de quantos juízos pretenderam depois enegrecer a esposa de D. João VI. São as Trovas do Ramalhão, em que um poeta anónimo serviu de voz à alma comovida do povo: «A Quinta do Ramalhão / Ditosa se há-de chamar. / Escondeu-se dentro dela / Uma pessoa real. / A nossa Rainha-Mãe / Fugiu para o Ramalhão, / Por não querer assinar / A nova Constituição.

E o diálogo desenvolve-se, curto e incisivo: «Dos deputados não falo, / Só de vós é que eu me queixo; / Assinastes o decreto, / Por isso é que eu vos deixo. / – «Dizes bem, esposa minha, / Eu chorando o assinei! / Sei o que tenho passado, / Não sei o que passarei! / No meio destes malvados / Sou João, não sou rei! / – Eu assinar, não assino, / Inda que torne ao degredo; / Que eu tenho meu irmão rei / Tenho meu filho D. Pedro. / Grande mágoa vai comigo, / Entre suspiros e ais. / Vou cumprir o meu degredo, / Vós no degredo ficais!»

A situação de D. Carlota Joaquina é aqui marcada com um rigor de verdade, que ainda agora nos toca de perto na frouxidão enternecida das pobres rimas. Vou cumprir o meu degredo, vós no degredo ficais! Nada de mais certo e de mais patético! Escravizado pelas ambições que o cercavam e o mantinham em sequestro, D. João VI arrastava-se, pobre manequim coroado, numa dolorosa e constante demissão de vontade. Entretanto, a 11 de Dezembro, entre apupos, José Acúrsio das Neves pronunciava-se em côrtes a favor da Rainha. Como se vê das Trovas do Ramalhão, o país comovia-se, cada vez mais divorciado da gente de 20. Meses decorreram. Dá-se em Trás-os-Montes a insurreição de Abril. E, finalmente, a 27 de Maio seguinte, infantaria 23 revolta-se no castelo de São Jorge e, com «vivas a El Rei sem alcunha», parte para Vila-Franca, levando D. Miguel à sua frente.

Não tardou que D. João VI, desembaraçado dos demagogos à Fernandes Tomás, caísse debaixo do domínio de outra camarilha, que o aprisionou por completo. É o grupo de Palmela e de Pamplona, representantes de uma corrente de liberalismo moderado, mas com iguais raízes na Maçonaria. Em Vila Franca D. Miguel aceitara ingenuamente o concurso hipócrita de Pamplona, traidor ao rei e à pátria, que só em 1820 se vira, por mercê da revolução, restituido aos seus bens e à sua terra. E, em face do rumo porque os acontecimentos se iam encaminhando, prepara-se a Abrilada, de que resultou a fuga de D. João VI para bordo da nau Windsor Castle e a expulsão de D. Miguel para Viena de Áustria.

A história sectária atribui intentos de deposição, se não de parricídio, a mais esse grande caluniado que foi D. Miguel, quando a sua acção, inspirada pela Rainha, tendia apenas a libertar o rei e a coroa da coacção injuriosa que lhe tinham imposto os elementos suspeitos do governo. Heliodoro Jacinto de Araújo Carneiro, amigo de D. João VI e o primeiro que lhe aconselhou saísse ao encontro do espírito liberalista por meio de reformas prudentes, descreve-nos em algumas páginas esquecidas a situação de D. João VI, já depois do desterro do filho. Não passava de um triste detido, a quem a mais dura vigilância espreitava sem cessar. A Abrilada fornecera para isso o ensejo desejado. Falhando por causa da intervenção do corpo diplomático, com Hyde de Neuville por principal comparsa, foi uma espada que se virou contra o partido apostólico, que era o da rainha, da ordem e da pátria.

Ora, ao contrário do significado com que a história corrente falseia a Abrilada, o seu verdadeiro sentido é-nos revelado por uma passagem das Instruções do Grande Oriente Espanhol Egípcio. Diz ela: «Se, como se deve esperar, a Rainha e seu filho se opõem à revolução, aproveitando-se da sua influência, e trabalham contra nós fazendo demitir o ministério, será então necessário que todos os diplomatas que pertencem à ordem e a todos aqueles que para ela entraram em espírito de sinceridade se reúnam para protestar contra semelhantes medidas e para declarar em face da Europa que a Rainha e o Infante lesam os direitos da legitimidade. Deve-se trabalhar para decidir os representantes estrangeiros a tomarem parte neste acto em nome dos seus soberanos... E logo adiante: «Se a Rainha e Dom Miguel persistem em contrariar o nosso desígnio de destronar o déspota e de restabelecer a constituição, é de absoluta necessidade decidir o rei a banir sua esposa e seu filho da terra portuguesa, para o que se procurarão pretextos aparentes que justifiquem a proscrição, o que nos será de uma extrema utilidade.»[12]

Convém trazer sempre bem lembrado que a história de Portugal, nos primeiros quarenta anos do século passado, é a história da Maçonaria.[13] São, pois, os documentos maçónicos que melhor a esclarecem e a alumiam. O excerto, produzido por Hermann Kuhn, inteira-nos suficientemente dos manejos de Hyde de Neuville na comédia da Abrilada. Concorda ele com a interessante notícia sobre D. Miguel, Res lusitaniae, do dr. Fr. Weihrich.[14]

«Consequente nos seus princípios e na sua conduta, narra-se ali, Dom Miguel fez prender em 30 de Abril de 1824 os ministros que sustentavam relações com os refugiados em Inglaterra (referência aos deputados que o golpe de Maio de 24 obrigara ao exílio e que trabalhavam contra a obra da Vila-francada). Entre aqueles contava-se Pamplona, criatura de Napoleão durante o regime francês. Comandante em chefe, Dom Miguel, segundo os regulamentos da época, estava igualmente revestido de altos poderes policiais (Beresford tinha usado dos mesmos direitos antes dele) e entendeu tomar essa resolução, que não efectivou, talvez habilmente, mas de que preveniu o rei. O rei aprovou-a, e numa carta, publicada pelo diário oficial Gazeta de Lisboa, terça-feira, 4 de Maio de 1824, Suplemento ao número 103, agradeceu ao príncipe o seu procedimento inteligente e enérgico. Mas os diplomatas empenharam-se em favor dos seus amigos. Convenceram o rei, fraco de vontade, a uma opinião que só era deles, isto é, que o príncipe absorvia o poder real e pretendia destroná-lo.[15]

O resto sabe-se. D. Miguel abalou para Viena de Áustria e D. Carlota Joaquina, do convento da Estrela a que se recolhera, saíu outra vez para Queluz. Decorridos dois anos, D. João VI morre envenenado.[16] Suspeitas caíram sobre os amigos políticos da Rainha, quando hoje se conclui que, se houve envenenamento, do campo oposto é que partiu a sentença de morte do rei. Nas hesitações da sucessão, D. Miguel regressa ao Reino, e, assumindo a regência, as Cortes Gerais de 28 aclamaram-no rei, em virtude das leis do país e da escolha da nação. Doente e velha, D. Carlota Joaquina teve, nos dias derradeiros, a consolação de ver no trono o seu filho mais querido. Poupou-lhe Deus, a amargura de 34, em que o seu destino seria terrivelmente jogado. O D. Pedro, que com tanto carinho invocavam as Trovas do Ramalhão, sendo o primeiro a consentir que os seus partidários a difamassem, decerto a não pouparia às represálias da facção vencedora!
Faleceu D. Carlota Joaquina a 7 de Janeiro de 1830. Não há muito que n’A Nação o senhor João Franco Monteiro inseriu uma carta de uma das infantas, suas filhas, em que é descrito o seu transe final! Que lucidez de resolução, ainda ao abandonar o mundo! Nem a doença abatera os predicados superiores que, numa mulher condenada à subalternidade, deram causa a tantíssimos dos seus defeitos!

É de justiça que hoje compreendamos a sua figura, emoldurando-a no tempo em que viveu. Não são subsistentes as mais das acusações de que é vítima. Já examinámos a seriedade que nos merece o panfleto de Presas. Oiçamos agora um testemunho insuspeito, o de Luz Soriano, em quem as preferências políticas não conseguem alterar de todo a imparcialidade da apreciação. Um pouco desleixada na sua conduta, a sua irreflexão neste ponto deu azo a que o público acreditasse que a morigeração e a conveniência dos costumes não eram nela o apanágio das suas melhores virtudes; e seu mesmo esposo mais de uma vez se queixou de que ela nunca se aproximava dele a não ser para o encher de desgostos; e estas recíprocas desinteligências foram causa de por muitos anos viverem indispostos e separados um do outro, nos últimos fins da sua vida. Devorada por uma ambição desmedida, levava a sua indiscrição a ponto de atentar, no ano de 1805, contra a legítima autoridade de seu esposo.

A política separou, realmente, os dois cônjuges, como os separava a índole e a posição. Mas o que importa é acentuar o valor que Luz Soriano confere à difamação sistemática de que D. Carlota Joaquina é alvo através da história.

Encontra-se às claras a manobra de que resultou a guerra movida contra D. Carlota Joaquina. Há assuntos em que uma pena digna, só de os tocar, fica enxovalhada. Mas, desde que a infâmia persiste e está ainda longe de ceder, é bom recordar que na descendência do falecido conde de Azambuja, segundo uma interessante nota aparecida n’A Nação, de 21 de Novembro de 1915, se reproduz com extraordinária nitidez o traço familiar dos seus ascendentes maternos. Era o conde de Azambuja filho da infanta D. Ana de Jesus Maria e do duque de Loulé. «O que efectivamente é curioso – observa A Nação –, é que na descendência desta Princesa a infanta D. Ana de Jesus Maria se caracteriza bem o tipo da Família Real Portuguesa.»

«Seus filhos, o sr. Duque de Loulé e o sr. conde de Azambuja – acrescenta A Nação – pareciam-se muito com seu tio o senhor D. Miguel. Os filhos de sua filha, a senhora condessa de Belmonte, todos felizmente vivos, são o perfeito retrato de seu bisavô el-rei D. João VI e o primogénito do nosso querido amigo o sr. Conde de Belmonte, igualmente nosso amigo, D. Vasco de Figueiredo Cabral da Câmara, afasta-se da semelhança indisputável de seu pai e de seus tios D. Nuno e D. Vasco, indo aproximar-se de seu tio-bisavô o senhor D. Miguel I (quando jovem, segundo o retrato de Queluz), como aconteceu com os srs. Duque de Loulé e Conde de Azambuja, filhos de uma irmã daquele augusto senhor e netos maternos de El-Rei D. João VI.»[17]

As leis misteriosas de sangue encarregam-se de um desmentido póstumo a quanta torpeza se atirou sobre o nome de uma rainha que, repito, na sua excessiva personalidade, teve os defeitos das suas qualidades. Tal é, em face da verdadeira história, D. Carlota Joaquina. Aprendamos a respeitá-la um pouco mais e a ver na sua estranha figura, desmanchada e feia, numa hora em que tudo desabava, a única que ficou de pé, acreditando no seu direito e combatendo por ele!

Dezembro, 1918.




Post-scriptum
 
Relendo passados quatro anos as notas que reunimos em torno do nome da rainha D. Carlota Joaquina, destinadas sómente a uma corrigenda histórica, entendemos acrescentar-lhes mais alguns esclarecimentos que ajudem a modificar a opinião corrente sobre a caluniada esposa de D. João VI. É de justiça lembrar que, na data em que nós tentávamos sucintamente a reabilitação política de D. Carlota Joaquina, aparecia o segundo volume do interessantíssimo trabalho do falecido oficial de cavalaria e professor da Escola de Guerra, sr. F. Sá Chaves, Subsídios para a história militar das nossas luctas civis. (As campanhas de meu Pai). Ainda que redigido num estilo difuso, por vezes complicado e retórico, o trabalho do senhor F. Sá Chaves impõe-se pela grandeza de ânimo e sábia decisão com que procura desfazer todo esse acervo das mentiras sistemáticas que, em relação aos vencidos, representa entre nós, a história de quase um século de liberalismo desorganizador. No referido 2.º volume aborda o autor dos Subsídios para a história das nossas lutas civis a questão, tão emaranhada e sempre tão pervertida, das qualidades e procedimento de D. Carlota Joaquina. É notável o processo empregado pelo coronel Sá Chaves, ao comparar D. Carlota Joaquina com Maria Antonieta nos aleives incessantes com que ambas foram combatidas e difamadas. «A história dos Amores monstruosos das duas Rainhas – esclarece – é semelhante, apenas as causas da sua publicidade divergiram. Lá, edita-a a facção do presumido sucessor, o conde de Provença; aqui, escreve-a o terror dos moderados...» E mais adiante exemplifica convencedoramente: «Correu por intermedio do senhor da Provença, que doze Pares tinham assinado, circularmente, um protesto, em que a legitimidade do filho da Rainha era atacada em termos formais. De facto, a demora em ordenar os festejos do costume foi tanta, que levou Maria Antonieta a exclamar: “Havemos de esperar pelas festas até que o recém-nascido esteja em estado de as ver e dançar nelas?!”

«Em Portugal – continua Sá Chaves –, se faltava a ambição de um Provença, para fazer com que a aristocracia, ou parte dela, protestasse igualmente grave e solene, depois, muito depois, publicou-se a seguinte frase soez, com que, diziam, Carlota Joaquina respondera às dúvidas de D. João VI sobre a paternidade da infanta D. Ana de Jesus Maria, nascida a 23 de Dezembro: «Que contasse o tempo, que de Março a Dezembro iam nove meses, e que desde Janeiro a Abril tinham estado em Vila Viçosa.»

Percorrer todo o 2.º volume dos Subsídios para a histórias das nossas lutas civis é destruir por completo a infamíssima babugem acumulada, com os piores dejectos da paixão política, sobre a figura de D. Carlota Joaquina. Responde o coronel Sá Chaves, de certo modo, à interrogação levantada pelo meu ilustre amigo e insigne historiador espanhol, D. Antonio Ballesteros, catedrático da Universidade Central de Madrid, no prefácio que escreveu para a recente e curiosa monografia de D. Julián Maria Rubio – La infanta Carlota y la política de España en América (1808-1812). Diz D. Antonio Ballesteros: «Hay una cuestión que Rubio toca de soslayo y de la cual quiero tratar, pues me parece, aunque de aspecto baladi en el fondo, como síntoma, de gran transcendencia. Los historiadores no han circunscrito sus ataques al terreno político, y llevando más allá su saña han penetrado en la vida privada de la Infanta calificando con duros trazos su conducta. Tal vez Carlota Joaquina sea otra de las víctimas de la leyenda negra; contra España y lo español entonces todo era lícito. No tengo el propósito, ni es el momento, de reabilitar a la Infanta, como mi querido compañero Pérez de Guzmán ha intentado con respecto a Maria Luisa; lo importante es la reivindicación de su política, y ella queda patente en las páginas de este libro. Pero si me abstengo de romper una lanza en aquél sentido, deseo indicar algo muy significativo.»

E D. Antonio Ballesteros acrescenta: «Los historiadores adversos llegan en su enemiga a declarar que Carlota Joaquina carecía de atractivos físicos, más, que no solo era fea sino monstruosa, repugnante. Observad lo que dice Savine, inspirado en la descripción de la duquesa de Abrantes: “La princesa del Brasil tenía apenas cinco pies en la parte más alta de su cuerpo. Parece ser que de resultas de una caída de caballo se le había acortado una cadera y cojeaba; tenía la espalda igualmente contrahecha en la misma dirección. El busto de la princesa era, como el resto del cuerpo, un misterio de la naturaleza, la cual se había entretenido en deformarla. La cabeza había podido remediar esa deformidad, pero era lo más bizarramente monstruosa que jamás pudo pasearse por el mundo. Sus ojos eran pequeños y muy juntos. Su nariz, por el costumbre de la caza, y de una vida libre y errante, estaba casi siempre hinchado y rojo como de un suizo. Su boca, la parte más curiosa de esta figura repugnante, estaba guarnecida de muchas hileras de dientes negros, verdes y amarillos, colocados oblicuamente, como un instrumento compuesto de vários canutos de diferente dimensiones. La piel era ruda y curtida y en ella abundaban los granos casi siempre en supuración, presentando su figura un aspecto asqueroso... Los cabellos negros y de varios colores hirsutos, sin que pudiera domarlos cepillo, ni peine, ni pomada, semejaban crines.” El retrato no puede ser menos halagueño. Otros autores más benévolos, como Giedroye, afirman que si bien no había heredado la belleza de su madre, no estaba desprovista de gracias y encantos; lo cual mal se compagina con el cuadro calamitoso trasnmitido por Savine? Qué puede haber en todo esto? Algo muy sencillo que vamos a exponer.»

Por longa que seja a transcrição, não nos furtamos a concluir o fundamentado raciocínio de D. Antonio Ballesteros. Prossegue, pois, o eminente historiador: «La fotografía que se reproduce en el libro y otras que he podido ver, no denotan hubiese sido la infanta un monstruo de fealdad. Los retratos descriptivos que se conocen proceden casi todos de las Memorias de la duquesa de Abrantes, mujer que fue de Junot, embajador de Bonaparte en la corte de Portugal. Quizá la fatuidad de Junot propalaría especies caluniosas, vertidas luego por la duquesa en sus escritos, y del retrato moral desfavorable se pasaría después a la descripción física, y exagerados los defectos resultaria la Infanta un conjunto inatacable de deformidades. La causa probable, una rivalidad femenina. No juzgamos en este punto de ligero, pues la vanidad de la duquesa se manifiesta en sus mismas Memorias cuando relata las inocentes preferencias de que ella era objeto de parte de Napoleón cuando Junot era gobernador militar de París. Si prescindiéramos de las acusaciones de la Abrantes, es posible desapareciesen las neblinas que empañan la conducta privada de Carlota Joaquina, y ya tenemos advertido que el testigo tiene tacha y puede ser recusado. Con lo expuesto, creo hay motivo suficiente a una rehabilitación que aquí sólo esbozamos.»[18]

Evidentemente que nem só nas Memórias da duquesa de Abrantes se encontra a fonte das insídias e mentiras levantadas em torno da mãe d’el-rei D. Miguel I. No entanto, é significativo o depoimento de D. Antonio Ballesteros. Se D. Carlota Joaquina não devia grandes extremos à formosura, de maneira alguma essa exiguidade de dotes físicos a tornava uma bruxa de Goya – exprimamo-nos assim! –, como o pretendem as pinturas despeitadas de Laura Junot. De resto, o mencionado escritor militar, sr. Sá Chaves, comenta as apreciações da duquesa de Abrantes no tom em que as reputa o autorizado catedrático da Universidade Central de Madrid. «A duquesa de Abrantes... era excessivamente apaixonada – escreve – e levava-se em demasia a ver as coisas e os homens através dos seus sentimentos e o que uma vez tinha imaginado, não experimentava em o afirmar nem hesitação nem escrúpulo.»

Vale a pena insistir em tal aspecto da questão – a fealdade de D. Carlota Joaquina –, porque é quanto basta para se ver a inteira discordância entre a opinião mantida pela história-sectária e a que se verifica na história imparcial, baseada exclusivamente nos documentos, sem qualquer prevenção de partido. Eis como informava para Lisboa o marquês de Louriçal em data de 15 de Novembro de 1787, quando se negociou o casamento do futuro D. João VI com a neta de Carlos III: «A senhora infanta é magra, muito bem feita de corpo, todas as feições são perfeitas, dentes muito brancos, e como não há muito tempo teve bexigas, ainda se não desvaneceram de todo as covas delas, é branca, corada, muito viva, muito atinada, e tem havido grande cuidado na sua educação.» Ajusta-se o esboço cortezão do marquês de Louriçal com os retratos existentes no Museu de Prado, de D. Carlota Joaquina ainda infanta de Espanha. Um, de autor desconhecido, tem o n.º 2440, e outro, de Mariano Salvador Maella, o n.º 2418. Aí D. Carlota Joaquina, se não possui beleza que destaque, está, contudo, cheia de uma franca e atraente simpatia. Endureceram-se-lhe com o tempo as feições, o seu desmazelo irreprimível contribuiu fortemente para o abandono com que mais tarde se apresentava. E se D. Antonio Ballesteros acha uma resaltante negação das palavras da duquesa de Abrantes no retrato que ilustra o livro de D. Julián María Rubio, La infanta Carlota Joaquina y la política de España en América, não obstante, dos que conhecemos, é o que mais as parece confirmar. O aludido retrato, que ilustra também o magnífico estudo do sr. Oliveira Lima, Dom João VI no Brasil, reproduz uma gravura de Aguilar sobre pintura de Troni.

Suponho que não me julgarão agora batendo-me pela formosura de D. Carlota Joaquina! Se insisto em semelhante ponto, é para que mais uma vez se constate o muito que – mesmo nos mais miúdos detalhes – a lenda negra se encarniçou a enodoar uma das raras inteligências que em Portugal fizeram face com denodo à obra da Revolução. Convém recordar sempre, para que se avalie da conciência com que D. Carlota Joaquina combatia o Liberalismo, que por sua ordem expressa se traduziu e imprimiu a bula de Leão XII, Quo graviora mala, em que são condenadas as sociedades secretas.

Temos em frente o expressivo folheto. Intitula-se: Bulla do Santíssimo Padre Leão XII contra os pedreiros-livres, mandada publicar pela piedade e decidido amor à Religião e ao Trono da muito alta e augusta Imperatriz e Rainha a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, Lisboa, na Régia Tipografia Silviana, ano de 1828. E para que a duquesa do Abrantes, com D. José Presas e as Instruções Maçónicas do Grande Oriente Espanhol Egípcio, origem de quanto deforma a verdade da história em relação a D. Carlota Joaquina, se julguem definitivamente na sua embusteirice sistemática, lembrêmo-nos da cena que Beckford nos conta do seu encontro com D. Carlota Joaquina nos maravilhosos jardins de Queluz (Sousa Viterbo, Artes e Artistas em Portugal, 2.ª edição, pp. 258-259). Quem sabia viver rodeada de alegria e de encanto, não podia ser nunca o mixto de hediondez e sujidade que Laura Junot nos inculca!

Prosperam felizmente os estudos destinados a restabelecer a figura de D. Carlota Joaquina em toda a veracidade das suas linhas. A monografia de D. Julián María Rubio, os dois volumes do coronel Sá Chaves e a exaustiva Vida e reinado de D. Miguel I rei de Portugal, pelo catedrático da Universidade de Luxemburgo dr. A. Herchen, derramam já a luz bastante para que a ninguém seja permitido persistir de boa-fé num erro de apreciação, com tanto de injusto, como de insubsistente. Orgulhamo-nos com sincera satisfação mental de haver, na pequenês do nosso esforço, ajudado a romper a teia, com tanta diligência urdida durante quase um século. É possível que ainda um dia voltemos ao assunto com a amplitude que ele nos merece. Por agora limitamo-nos a desanuviar um pouco a memória de uma mulher, indubitavelmente superior, a quem D. Antonio Ballesteros chama «una alma hermana de aquellos piqueros de Bailén que humillaron las águilas triunfadoras en los campos andaluces».
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[1] Obr. cit., pp. 261-262.

[2] Oliveira Lima, Obr. cit., pp. 285-286.

[3] Oliveira Lima, Obr. cit. p. 6.

[4] O Miguelista em Londres, n.º 1, Londres, 1870, pp. 31-36.

[5] O livro recente do moço publicista espanhol D. Julián María Rubio, La infanta Carlota Joaquina y la política de España en América (1808-1812), Madrid, 1920, projecta alguma luz sobre tão confusa questão. Escreve Rubio: «Por el año de 1806 ocurrió en Portugal un hecho de gran trascendencia para la vida de D. Carlota Joaquina, y de ese hecho data su separación del Príncipe regente. El hecho fue que, hallándose el príncipe enfermo de gravedad y sospechandose que padecia la misma enfermedad que su madre, se formó una conjuración, compuesta por el conde de Sabugal, el marqués de Ponte de Lima y otras importantes personas de la corte, con el objeto de elevar a la infanta su esposa a la regência, lo cual hace suponer que aquella dama formaba parte de la conjuración, o por lo menos prestaba su asentimiento a ella.» E D. Jalián María Rubio acrescenta: «A propósito de tal hecho he tenido recientemente la fortuna de hallar tres interesantísimas cartas, dos de la infanta D. Carlota, dirigidas a su padre Carlos IV la una, y a su madre María Luisa la otra; y la tercera que debe ser del marqués de Ponte Lima, según se deduce de la que D. Carlota dirige a su padre. Esos tres documentos dan luz sobre la conjuración fraguada, v por ellos se observa que el proyecto tuvo mayor importância de la que generalmente se le ha dado, puesto que, según se deduce de dichas cartas, se trataba nada menos que de la intervención armada de España. En la primera la infanta cuenta a su padre como el prin cipe su esposo está muy enfermo de la cabeza, por lo que gran parte de la corte se há congregado alrededor de la infanta, que pide se la auxilie en sus propósitos, enviando un enérgico ultimátum al príncipe para que le conceda intervención en el gobierno. De esto modo, dice, se evitará una guerra civil entre sus partidarios y los del principe, y se conseguirá que el pueblo portugués tenga um gobierno en que la cabeza no esté desequilibrada. Esta demanda la hace como pediendo proteción para ela y para sus hijos que se ven menospreciados. La carta a María Luisa es unicamente para que apoye con eficacia la anterior pretensión ante Carlos IV. La tercera carta, muy curiosa por certo, demuestra, entre otras cosas, que la conjuración se estendia bastante; es notable quando en ela se habla del príncipe y de la infanta, pues dice: “O nosso Homem (el príncipe) está cada dia pior e pouco falta para se declarar completamente alienado, já todos dizem claramente que ele não pode ver a nossa Divindade tutelar (la infanta).” En esta carta se ve parte de la organización del complot, pues se da a entender que tratan de atraerse al embajador de Portugal en París, por medio de España; se habla que la princesa debe ser la salvaguardia de los conjurados para lo que debe avisar a su país y de aquí enviar socorros.»
Conhecidos os comentarios de D. Julián María Rubio, seguem na íntegra os documentos revelados por ele:

Señor:
Papá de mi corazón, de mi vida y de mi alma. Voy a los Pies de V.M. en la mayor consternación, para decir a V.M. que el Príncipe está cada día peor de cabeza, y que por consecuencia esto va todo perdido, porque aquellas figuras están cada día más absolutas, y que es llegada la ocasión de V.M. acudirme a mí, y a sus nietos; como V.M. verá por carta inclusa del Marqués de Ponte de Lima, porque la prisa y el secreto no da lugar a mandar un papel firmado por toda, o casi toda la Corte, que ellos me ofrecieron, para que se lo mandase a V.M. esto se remedia mandando V.M. una intimación de que quiere que yo entre en el despacho y que no le acepta réplica, por si la diere, la respuesta será con las armas en la mano, para despicar las afrentas y desaires que V.M. sabe que él me está continuamente haciendo, y para amparar a sus nietos, ya que no tienen un padre capaz de cuidar en ellos V.M. perdone la confianza que tengo, pero es este el modo de evitar que corra mucha sangre en este reino, porque la Corte quiere ya sacar la espada en mi favor, y tambien el pueblo; porque se ve por factos inmensos, que está con la cabeza perdida; así le pido a V.M. haga el dicho verdadero, ha de hacerlo luego, y yo haré entonces con que el mismo enmiende muchas cosas, porque le meto miedo amenazándole con que se lo he de decir a V. M para que me ayude, ya que él no quiere hacer lo que es de razón, y bien del Reino; y ahora le pido a V.M. que me eche su bendición y a los chicos.
Queluz, 13 de Agosto de 1806.
A los Reales Pies de V.M.
Carlota Joaquina.
P.S. La carta es escrita a D. Bernardo de Lorena.
(Autógrafo)
(Archivo Historico Nacional. Estado. Legajo 2.600

Señora:
«Mamá mía de mi corazón, de mi vida y de mi alma. Voy a los Pies de V.M. llena de la mayor aflicción a decir a V.M. que es llegada la ocasión de que VV. MM. acudan, a mí, a mis hijos, y a todo este reino porque el Príncipe está con la cabeza perdida quase del todo; así le pido a V.M. que haga con que Papá dé pronto remedio, por el modo que yo pido, porque es el único modo de hacerse en paz, yo Mamá mía me refiero a la carta de Papá, porque estoy escribiendo a toda prisa por no ser vista, así le pido a V.M. que tenga compasión, y que me eche su bendición, y a los chicos.
Queluz, 13 de Agosto de 1806. (Autógrafo)
A los Reales Pies de V.M.
Carlota Joaquina
(Archivo Historico Nacional. Estado. Legajo. 2,600)

Mafra, 5 de Agosto de 1806.
Me usar zedas do coração não te custará muito persuadir-te de que tenho mil saudades tuas, dos nossos bons amigos, a quem era bem necessário falar; mas visto ser impossível remeto a presente pelo Dr. Vicente que certamente é portador seguro. O nosso Homem está cada dia pior, e pouco falta para se declarar completamente alienado; já todos dizem claramente que ele não pode ver a nossa Divindade tutelar e q. todas as jornadas que inventa é para ter motivos aparentes de estar mais tempo ausente. Nenhum negócio sério vai à presença do dito Sr. os biltres gozam do maior valimento e servem sempre os seus afilhados, seja ou não justo. Outro dia nomeou-se um criado para o infante D. Muiguel contra a opinião da Princesa, e fazendo justas objecções foi-lhe respondido assim quis eu. Averiguou-se a razão de tanto empenho e soube-se que tudo isto tinha sido porque o tal criado era afilhado do Sr. Francisco. Histórias deste genero há milhares, sabida uma é escusado repetir as outras.
Parte un expresso para Paris e segundo todas as probabilidades, é com alguma coisa relativa a este nosso caso, é absolutamente necessário que a Princesa o saiba e q.ª se cuide a tempo, em reparar qualquer golpe que possa vir por este lado. Os amigos vêem-se apertados, por consequência hão-de mexer céus e terra para escaparem, não percamos tempo e haja maior actividade. O Homem certamente está louco, até o conde de Belmonte o diz; os ministros de Estado não se hão-de descuidar da Regência, e tal vez... façam entrar nisto a corte de Paris, é indispensável obstar-lhe a tempo. 
A mim parece-me que a Princesa deve logo avisar disso a seu Pai, para ele mande ao seu Embaixador em Paris tome as medidas necessárias, se lá se tratar alguma coisa relativa a sua filha.
Também julgo conveniente tornar a instar com seu Pai para não se demore muito em dar socorro aliás pode que venha tarde. Parece-me que finalmente chegou a ocasião da bulha mas espero en Deus havemos de sair bem. Eu aqui ando com o maior cuidado possível; não há nenhum motivo de me chamar orgulhoso nem também cedendo o que se me deve.
Os biltres tratam-me com muita atenção, por consequência eu correspondo-lhes. Amanhã vamos a Peniche, dizem que voltaremos no outro dia, porém, eu duvido... A-Deus meu Bernardo.
Amigo do coração
Tomás
Se julgares conveniente, não tenho dúvida en que esta suba à presença da Princesa.
(Archivo Histórico Nacional. Estado, Legajo 2600).

[6] «Ontem (14 de Junho de 1784) se concluíram (os exames) dando sua Alteza tão bela conta de si na instrução latina, como na língua francesa, concluindo tudo com a dança inglesa e vários minuetes.» De um ofício do nosso embaixador em Madrid, marquês de Louriçal, para o ministro Aires de Sá e Melo. Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e nota de Latino Coelho a pp. 90 do volume II da sua História política e militar de Portugal desde os fins do XIII século até 1814.
Interessante de ver é também o Boletín de la Real Academia de la Historia, correspondente a Julho de 1922, em que se insere uma larga referência à visita que em Fevereiro de 1785, véspera de sua saída para Portugal, D. Carlota Joaquina fez à mesma Academia, acompanhada de sua mãe, então princesa das Astúrias. Do relato da sessão de 23 de Fevereiro do mesmo ano, em que D. Ramón de Guevara leyó la relación... del recebimiento de la señora Infanta doña Carlota Joaquina, extraímos algumas passagens que abonam o grande cultura que a caluniada esposa de D. João VI, realmente, possuía. Resolveu a Academia escrever uma Oración gratulatoria, em comemoração «de esta augusta honrosa visita y de la particular aplicación y aprovechamiento de Su Alteza en las primeras letras, gramática castellana y latina, la geografía, la Historia de la Religión y la del Reino, con la particularidad de haber tenido el Director de la Academia el honroso encargo de confirmar en un examen privado su aprovechamiento y singulares talentos en tan tiernos anos, sirviendo de exemplo el сuidado de sus augustos Padres, a el que deberian imitar los particulares de todas clases».

[7] A carta de Jovellanos, de que reproduzimos o trecho acima, datada de Sevilha aos 21 de Abril de 1809, vem em Samoja y García-Gala, Documentos para escribir la biografía de Jovellanos, Madrid, 1911, tomo II, pp. 392-393.

[8] Eis como D. Julián Rubio se exprime a p. 15 do seu estudo sobre as simpatias e possibilidades que os projectos de D. Carlota Joaquina acharam entre os seus compatriotas: «España se tenía un alto concepto de los valimientos de esta infanta, pues de lo contrario no se explica la existencia de numerosos partidarios que estaban dispuestos a aclamarla como regente de España, lo que por la oposición de la Gran-Bretaña no pudo llevarse a cabo. Entre los diputados de las Cortes de Cádiz tuvo admiradores, como D. Joaquín Lorenzo Villanueva, que tenía una alta idea de esta heróica española; ella, en efecto, fue el baluarte en que confiaron durante más de cuatro años todos los españoles de corazón de nuestras colonias, para permanecer fieles a España y sortear los horrores revolucionarios, a que desgraciadamente se vieron sometidos durante el periodo de la independencia.» Depois, a p. 67, D. Julián Rubio acrescenta: «No solamente trató D. Carlota de atraer a los hombres políticos, sino que se dirigió también al elemento militar, enviando cartas autógrafas a los generales D. José Palafox, D. Francisco Javier Castaños, D. Gregorio de la Cuesta, conde de Cervellón, D. Juan Smith, marqués de Santa Cruz, etc., pero a estos no creyó conveniente interesarlos en su favor por cuestiones políticas, juzgando que su intervención en estos negocios tendría escasa importancia; y comprendiéndolo así la infanta tuvo buen cuidado de no hacer siquiera alusión a ella, y sí únicamente los anima y excita a que sigan luchando denodadamente contra los franceses para conseguir prontamente la liberación de la patria; ruega que se haga constar a todo el ejército su gratitud por la causa que defienden. Estas cartas dirigidas a los generales son todas idénticas. Hay que hacer constar que entre el ejército contaba D. Carlota con muy fervientes partidarios, como lo era el defensor de Zaragoza, don José Palafox, que en una de sus proclamas abogaba por la formación de una regencia en la que entrase la Infanta.»
Como curiosidade, entre os meus livros, guardo um curioso folheto. Intitula-se ele Dictamen de Don Antonio Jose Deniz de Padrón, diputado por Canarias, proponiendo para regenta del Reino a la serenísima señora D. Carlota Joaquina de Borbón, Princesa del Brasil e Infanta de las Españas... Madrid, Imprenta de Dávila, 1814.

[9] No n.º de O Instituto, correspondente a Julho de 1922, publica D. José Manuel de Noronha um belo artigo de crítica ao livro de D. Julián Rubio sobre D. Carlota Joaquina. Contra a tese de Rubio, que pretende provar que na questão da regência, tanto de Espanha como dos vice-reinados americanos, D. Carlota Joaquina procedeu como verdadeira espanhola, D. José Manuel de Noronha consegue demonstrar que só o interesse dinástico português impelia a esposa de D. João VI. Pena é que não possamos trasladar para aqui o valioso artigo de D. José Manuel de Noronha. Transcreveremos, no entanto, algumas passagens. «Para o sr. D. Julián María Rubio – escreve –, a Infanta procede sempre como boa espanhola, defendendo os interesses da terra natal, ainda mesmo com sacrifício da pátria adoptiva. A Junta-Central, o embaixador Casa-Irujo, todos os que se opuseram à realização dos planos da princesa, teriam, portanto, embora na melhor fé, prejudicado a causa dos Bourbons. No aproveitamento da energia, inteligência e prestígio de D. Carlota Joaquina estaria talvez a salvação territorial da Espanha.»
E D. José Manuel de Noronha prossegue: «Discordamos inteiramente deste modo de pensar.
«A esposa do Príncipe-Regente procedeu sempre como boa portuguesa, no interesse da sua própria dinastia, que era a de Bragança, e não a de Borbon. Pretendeu aproveitar os direitos que lhe vinham do sangue, para ocupar o trono de seus maiores e transmiti-lo depois a um dos seus filhos. Todas as suas canseiras, todos os esforços, todos os sacrifícios, tendem a este resultado. A princípio obrou de concerto com o Governo Português. Mas quando viu que dest’arte a sua acção tomava o aspecto de uma intervenção estrangeira, ostensivamente se afastou dos ministros de seu marido. Jamais lhe faltou, porém, o apoio deste nos momentos decisivos, a menos que a vontade inglesa não anulasse os bons desejos de Portugal.»

[10] Podem ler-se integralmente no livro de D. Julián Rubio os documentos donde são tirados todos estes recortes.

[11] Calomarde, Madrid, 1914.

[12] Dom Miguel de Portugal e o seu tempo, por Herman Kahn, Lisboa, 1867. Segue a mesma versão o dr. Artur Herchen, professor de História na Universidade do Luxemburgo e autor do esplêndido trabalho D. Miguel I Konig von Portugal: Sein Leben und sein Regierung (D. Miguel I de Portugal. Sua vida e o seu reinado), Luxemburgo, 1908. Está só publicado o 1.º volume, cujo quarto capítulo, ‘Die Abrilada’, restitui à sua verdadeira luz tão caluniado movimento. Em nota a pp. 109-110, escreve o dr. Artur Herchen: «No ano de 1865 as Historischen Politischen Blatz, volume IV, p. 45, documentadas no texto original das Instruções maçónicas do Grande Oriente Espanhol Egípcio, impressas em Córdova, 1823, p. 62, publicaram um sumário das Instruções do Grande Oriente Espanhol ao Grande Conselho de Portugal sobre o plano secreto de perseguição contra D. Miguel e a Rainha. Reproduzimos os pontos essenciais: Artigo IV. Torna-se necessário alcançar o meio de abrir a correspondência da rainha para dar parte ao soberano Conselho e ao Grão-Mestre do que nessa correspondência se contiver, cujo conhecimento possa ser útil aos interesses da ordem. Artigo VI. Carecem os nossos irmãos em Portugal de atrair o diplomata P. (Conde de Palmela), que é o homem de estado que mais se inclina para o parlamento inglês. Todos os outros são já inimigos da rainha e de seu filho. Não temos, portanto, nada que temer, e quando chegar o momento propício, tudo estará preparado para o restabelecimento da Constituição. – Artigo VIII. Aconselhamos nossos irmãos em Portugal a alimentar a discórdia e a desarmonia entre D. João VI e sua esposa, e recomendamos em especial que vigiem todos os passos da Rainha a as suas conversas com o infante D. Miguel, o que tudo deverá ser feito com a máxima prudência e perspicácia. Devemos ser postos ao facto de qualquer ocorrência que mereça importância.»

[13] O livro de Pouget de Saint-André, Les auteurs cachés de la Révolution Française (Paris, 1923), documenta-nos bem a acção decisiva da Maçonaria no enigma revolucionário.

[14] Luxemburgo, 1914. Tradução francesa do original alemão.

[15] A maneira como Hyde de Neuville serviu, talvez inconscientemente, o jogo das sociedades secretas, é bem transparente nas suas Mémoires, recentemente publicadas. Também o senhor duque de Lema y Villa-Hermosa publicou ultimamente um curioso opúsculo, fora do mercado, honrando-me com o oferecimento de um exemplar: Embajada de Portugal desde el año de 1823 a 1825. Relación de los sucesos ocurridos en Lisboa el 30 de Abril de 1824, extratado de la correspondência particular del embajador de España, duque de Villa-Hermosa (Madrid, 1920). Tão ingeouamente Villa Hermosa se deixara envolver no ardil da Maçonaria que confessa a sua esposa: «Este es el verdadero estado de las cosas, y la relación que en el artículo de Lisboa pone la Gaceta es lo más falso que se puede imaginar, pues nada es verdad, ni se reunió el Consejo de Estado, ni el Rey nombró Ministerio, ni es cierto nada de cuanto se dice. Para ti sola y lo más para Idiáguez, te diré que la causa de todo esto ha sido la Reina, pues todo se junta para comprobarlo, y aunque yo en el cumplimiento de mi deber lo digo de ofício, porque no puedo por menos ni quiero se diga en esa que lo escribo a los particulares, y así guárdale por Dios dar a entender lo que sabes por mí.»

[16] O senhor Júlio Dantas, ainda que presidente da Academia, e talvez por isso mesmo, não é autor que se haja de citar em coisas sérias. No entanto, por excepção, desperta o nosso interesse a pequena nota «A morte de D. João VI», publicada no péssimo e alambicado volume Eles e elas.

[17] Para que se faça ideia da teia de intrigas e falsidades em que a côrte de D. João VI andava envolta, aqui deixamos como amostra significativa o que a respeito do monarca o marquês de Casa-Irujo, embaixador de Espanha, informava para o seu governo, em documento secreto, datado do Rio de Janeiro aos 15 de Dezembro de 1810: «El favorito Francisco Lovato (Lobato) es un mozo de 36 años: parece empezó a servir en alguno de los empleos subalternos, creo de la furriela, del Quarto del Sr. Príncipe Regente. Apesar de la obscuridad de su situación, se hizo conocer pronto por sua viveza, inteligencia y buenos modales. El orígen de su favor es um misterio a que cada uno procura dar explicaciones, pero la siguiente creo pueda ser la más probable. Hace unos 3 o 4 años parece había caido el Sr. Príncipe en una debelidad tal que se temió hubiese tenido la misma desgraciada suerte de la Madre. Los Señores que anticipaban esta desgracia quisieron sacar partido de ella formando uno para establecer una Regencia, y poner en ella a la Sra. Infanta Carlota. A la cabeza de este partido creo se hallaba el Conde de Vilaverde, conocido en España por el embajador Noroña, y su número y esperanzas crecieron en términos que estuvieron mui cerca de realizar el proyecto. No sé porque casualidad halló Lovato manera de penetrar toda la intriga; y el hecho es que la averiguó y la comunicó al Príncipe y a los Srs. afectos a él, en terminos que no podiendo dudar de su existência, se tomaron las medidas necesarias para destruirla, saliendo desterrados ocho o diez Señores de resultas. Las que tuvo este incidente para Lovato fueron de las más felices. El Príncipe al principio por reconocimento y después por lo grato que le es su compañía no puede pasarse sin él. Hay quien pretende explicar esta intimidad de un modo poco favorable a la moral de S.A.; esta sospecha se ha convertido para con algunos en convicción a vista de que desde aquela, se halla Su Alteza completamente separado de la Sra. Princesa; pero esta circunstancia tiene una explicación más razonable, si como quiere suponerse hicieron creer a S.A. que la Princesa había tomado parte en la conspiración contra él. De cualquier modo es un hecho que desde entonces han dejado de vivir como Marido y Mujer, y que los interesados en esta desunión no han cesado de promoverla. (Julián María Rubio, La Infanta Carlota Joaquina y la política de España en América, pp. 192-193.) Num ambiente assim, compreende-se que a calúnia não conhecia limites!

[18] Confirmando o juízo de D. Antonio Ballesteros, depara-se-me no Estudo histórico das relações diplomáticas e políticas entre a França e Portugal, Lisboa, 1895, por B.T. de Morais Leite Velho, a passagem seguinte, a propósito de D. Carlota Joaquina e de Laura Junot: «E daí que Carlota Joaquina tinha de altura, de um lado, cinco pés e de outro lado menos; olhos pequenos e desirmanados com olhares maus e escarnecedores; que tinha a boca mobilada com três ordens de dentes negros, amarelos e verdes; cabelos rebeldes, a pomada e ferros; que montava a cavalo como um homem e que com esta figura heteróclita possuía ainda o compromotedor predicado de ter o coração alambicando ternuras. Que confessava não querer amante efectivo, com medo de apanhar pancada como a mãe, que o bruto do Godoy sovava de quando em quando. E que ela ia até para Mafra pagodear com os frades e cantar com eles no coro, e de mais a mais, sacrilégio!, na quaresma.»
Tudo isto, porque a futura duquesa de Abrantes sentira ciúmes de D. Carlota Joaqina, acusando-a de propor uma entrevista amorosa a Junot, por ocasião da sua embaixada a Portugal.
«Mas o que parece exacto – prossegue Leite Velho –, é que esta explosão de ciúmes surgia depois da saída de Lisboa, pois que enquanto aí esteve, as relações com D. Carlota foram muito amáveis, porque, estando grávida, quando estava para deixar Lisboa, convidou para madrinha do esperado fruto conjugal a própria e idêntica D. Carlota Joaquina e para compadre o príncipe regente D. João, do qual nunca escrevera coisa que lhe pudesse ser injuriosa, antes, que era bom homem e apenas bête. Conta ela também que D. Carlota lhe oferecera o cordão de Santa Isabel, e que se a futura duquesa não pôde ornar-se com esta alta e ambicionada distinção, foi porque Napoleão não consentira, não a tendo a Imperatriz. Eis porque a gentil duquesa não pôde usar a fita cor-de-rosa e branca, que ela tanto gostava de ver na encantadora duquesa de Cadaval.»
E Leite Velho pondera, coincidindo com D. Antonio Ballesteros: «É mister não confiar em historiadores apaixonados como estava a embaixatriz, quando escreveu a objurgatória contra D. Carlota, porque, segundo escreve o príncipe Giedroye, testemunha ocular, suposto ela não poder chamar-se bonita, não era de todo feia, e era muito espirituosa, extremamente bem educada, e até cultora de latinidades.» (Obr. cit., pp. 381-382.)


​
[ In António Sardinha, Ao princípio era o Verbo, 1924. ]

refs.:
  • Mafalda de Magalhães Barros, Um desenho do pintor régio Giuseppi Trono (1739-1810) nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda, Palácio Nacional da Ajuda – Artigos em Linha nº 9 – fevereiro 2022 - al-desenho-de-giuseppi-trono.pdf
  • https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/carlota-joaquina-de-borbon-infanta-de-espaa-reina/692fed9e-d45c-4983-8823-2c26480eb53f
  • Um desenho do pintor régio Giuseppi Trono (1739-1810)​ - http://www.palacioajuda.gov.pt/paginas/5d5fd73c
  • Celso Mangucci, O retrato de Carlota Joaquina, a bela princesa do Brasil, 4 de Fevereiro de 2021 - ​https://portuguese-tiles.com/2021/02/04/o-retrato-de-carlota-joaquina-a-bela-princesa-do-brasil/
  • Princesa D. Carlota Joaquina do Brasil, por Giuseppe Trono - https://artsandculture.google.com/asset/portrait-of-d-carlota-joaquina-princess-of-brasil-giuseppe-troni/oQE3U_xTjmuLyQ


​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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