ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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O "copiador" de Junot

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha examina as complexas relações entre figuras portuguesas e francesas durante a primeira invasão francesa, destacando Pamplona e Gomes Freire como colaboradores influenciados pela Maçonaria, e critica o revisionismo histórico que glorifica traidores nacionais, defendendo uma análise mais justa sobre a deportação para Baiona e o papel do marquês de Penalva como contraponto patriótico.
O Copiador de Junot e as Intrigas da Primeira Invasão Francesa
  • O Manuscrito Recuperado. O copiador da correspondência de Junot, general da primeira invasão francesa, permaneceu esquecido durante anos na Biblioteca da Ajuda até ser recuperado por Cristóvão Aires. Este notável escritor militar transcreveu e comentou o documento, integrando-o na sua obra sobre a história do exército português. Ao publicar o manuscrito, Aires lançou nova luz sobre este período conturbado de Portugal, procurando desfazer interpretações simplistas e parciais do passado.
  • Crítica à Narrativa Oficial. António Sardinha denuncia a forma como a história portuguesa do início do século XIX é marcada pelo fervor partidário, sobretudo no que diz respeito às Invasões Francesas e aos acontecimentos que levaram à saída da família real para o Brasil. Esses episódios costumam ser usados para sustentar críticas aos valores tradicionais, como a Religião e a Monarquia, ignorando as complexas causas e cumplicidades que permitiram a entrada dos franceses em Portugal.
  • As Facções em Disputa. A presença de Junot resultou de uma preparação longa em clubes revolucionários, com a Maçonaria relutante, mas atenta, e o afastamento de figuras como Pina Manique. Havia dois grupos em conflito: o partido-inglês, favorável à resistência e à aliança britânica, e o partido-francês, defensor de uma neutralidade comprada que enfraqueceu o país. O príncipe regente preferia o primeiro grupo, embora a conjuntura internacional, sobretudo as ações de Espanha e França, deixasse Portugal vulnerável.
  • O Papel de António de Araújo e Azevedo. António de Araújo e Azevedo, futuro conde da Barca, foi figura-chave nas negociações com os franceses, apresentando-se como diplomata flexível e influenciado pelas ideias iluministas. O texto sugere que Araújo manteve contactos secretos com Junot e colaborou com os invasores, embora defendesse de forma pública a sua inocência. O próprio copiador de Junot revela passagens comprometedoras desse entendimento, nomeadamente na ocasião da retirada da família real para o Brasil.
  • As Intrigas Diplomáticas. O ambiente diplomático era dominado por manobras e traições, com embaixadores portugueses como o conde de Ega e D. Lourenço de Lima a serem acusados de não defenderem os interesses nacionais. O marquês de Alorna destaca-se como colaborador de confiança dos franceses, sendo recomendado por Junot e envolvido na criação da Legião Lusitana, uma força militar ao serviço de Napoleão. Outros oficiais, como Pamplona e Gomes Freire, também são apontados como aliados dos invasores, movidos por ambições ou ligações maçónicas.
  • O Papel da Maçonaria. A Maçonaria surgia como uma força de bastidores, facilitando contactos entre as elites portuguesas e os franceses. Junot reconhecia a importância dos maçons para acalmar a população e consolidar o domínio francês. Pamplona e Gomes Freire destacam-se como membros influentes dessas redes secretas, usando a sua posição para colaborar com o poder invasor.
  • A Deputação a Baiona e o Revisionismo Histórico. O autor defende que a tão criticada deputação enviada a Baiona não foi um ato voluntário, mas uma imposição dos franceses, que pretendiam afastar figuras leais à monarquia. Este episódio foi deturpado por interpretações jacobinas, que visavam desacreditar as forças conservadoras do país e glorificar quem, de facto, traiu os interesses nacionais por ambição ou ideologia. O texto reabilita figuras como o marquês de Penalva, destacando o seu papel patriótico em contraste com os colaboradores dos franceses.
  • Considerações Finais. A obra de Cristóvão Aires é elogiada por expor as complexas relações de traição e resistência durante a primeira invasão francesa. Sardinha conclui que a verdadeira história do período deve reconhecer tanto as colaborações como os exemplos de firmeza e patriotismo, superando versões partidárias e enaltecendo quem defendeu Portugal.


 
Perdido pelo Quartel-General no tumulto da batalha do Vimeiro, por largos anos jazeu ignorado entre as colecções da Biblioteca da Ajuda o interessantíssimo copiador da correspondência de Junot para Napoleão, quando da primeira invasão francesa. Mas, benemérito ilustre das nossas letras, o conhecido escritor militar, senhor Cristóvam Aires, acaba de prestar mais um serviço ao seu país, arrancando ao esquecimento o valioso manuscrito e enchendo com ele, debaixo do título Diário de Junot, um dos volumes da sua História orgânica e política do exército português, o volume XII das Provas respectivas.
Além de o reproduzir textualmente, acompanha-o o senhor Cristóvão Aires de um vasto e consciencioso comentário, em que toda a época é reconstituída no trama tantas vezes obscurecido dos acontecimentos que a entreteceram. Importa para nós, especialmente, um exame demorado o trabalho do senhor Cristóvão Aires, pela luz que derrama sobre um dos períodos mais confusos e mais incompreendidos da existência de Portugal. Claro que, reflectindo o critério liberalista de quem a escreveu, a nossa história é, a respeito das primeiras décadas do século passado, uma história apaixonada – uma história parcialíssima de partido. Sobretudo, esse tempo calamitoso das Invasões persiste em continuar deformado, através de conceitos com tanto de simplistas como de sectários. A retirada da Família Real para o Brasil e o envio a Baiona de uma comissão de notáveis para pedir um rei a Napoleão, são motivo de indignadas declamações contra os dois princípios, a Religião e a Monarquia, graças aos quais Portugal se consolidou e por cuja virtude conseguirá ainda arrancar-se da desgraça. Desde que haja pretexto para as infalíveis declamações jacobinas, de nada mais se inquire – nem da maneira como os franceses entraram, nem das facilidades que entre nós viéram encontrar por parte das associações secretas. Ora o estudo do senhor Cristóvão Aires marca o começo de uma salutar reacção.
Evidentemente que a vinda de Junot fôra preparada muito de atrás nos clubs revolucionários. A Maçonaria não se alargava, porém, nas suas simpatias por Napoleão, receosa da luneta sempre vigilante de Pina Manique. Conseguiu Bonaparte impor-se, de modo a obter a demissão do Intendente e a queda do chamado partido inglês, então no poder. O partido-inglês era o partido da guerra, era o partido que, apoiado na aliança britânica e tendo D. Rodrigo de Sousa Coutinho e D. João de Almeida à sua frente, não queria da França senão o estado de hostilidade aberta, portanto, uma aceitação honrosa da luta. Pelo contrário, o ‘partido francês’ preconizava a neutralidade, que, comprada a peso de oiro, não só descurara a defesa nacional, como ia trasladando para os cofres de Bonaparte todos os recursos do nosso exaurido erário. Hesitando entre duas correntes opostas, o Príncipe Regente não ocultava a sua preferência pelo ‘partido-inglês’, que nessa hora representava indubitavelmente o interesse de Portugal.
Porém, a atitude da Espanha e as negociações da Inglaterra com o Primeiro-Cônsul, seladas na paz fragilíssima de Amiens, não tardaram a deixar-nos ao abandono perante as arrogâncias de Napoleão. É a altura em que Lannes aparece embaixador em Lisboa com a sua brutalidade sem limites de caserneiro. Exagerava-a ele em proveito próprio, encarregado como estava de organizar em Portugal uma facção favorável aos desígnios de Bonaparte. Di-lo José Acúrsio das Neves – um contemporâneo – na sua, infelizmente incompleta, História da invasão dos Franceses em Portugal, deixando-o também transparecer o insuspeito Luz Soriano. A fim de executar os seus danados projectos, exige Lannes a demissão do Intendente. Saem do poder os ministros acusados de afeição à Inglaterra, dentro em pouco a braços com o bloqueio continental, a que, em Tilsitt, aderiria o imperador da Rússia. Chegado o momento do partido francês, ascende ao ministério António de Araújo e Azevedo, mais tarde conde da Barca. António de Araújo e Azevedo, nosso ministro na Haia e em seguida negociador de convenções entre Portugal e o Directório, só se define na sua psicologia incerta de diplomata e de dilettanti – como diríamos hoje –, se nos recordarmos dessa nobreza do século XVIII, mordida do filosofismo enciclopedista e que no seu amor romântico pelas coisas de natureza primitiva – índios, insectos, conchas, etc. –, não significava mais que uma versão bucólica do Contract social.
Na sociedade portuguesa o academismo infantil e pretencioso de Lafões é o seu tipo rematado. Ora António de Araújo viajara, pervertera-se um pouco ao contacto das ideias de Revolução, e com certeza que aos seus merecimentos ligava a correspondente maleabilidade de carácter, para que Talleyrand o estimasse, como parece que o estimava. Não me restam a mim dúvidas nenhumas sobre a cumplicidade do futuro conde da Barca com os planos de Napoleão, para a entrega do Príncipe Regente e da ocupação pacífica de Portugal. Num folheto raríssimo, Provas da falsidade e injustiça com que o editor do Correio Brasiliense intentou desacreditar António de Araújo de Azevedo, impresso em 1810, pretende o ministro de D. João VI desembaraçar-se das acusações mais que fundamentadas que lhe envolviam o nome e o procedimento. Perante o rei conseguiu-o ele, só talvez por clemência do monarca, que o condecorou com um título, tendo-o promovido antes à dignidade de Grã-Cruz na ordem de Cristo por carta régia de tantos de Março do mesmo ano.
Mas se António de Araújo o conseguiu perante o rei e se as razões invocadas contra ele na Resposta pública à denuncia secreta, porventura se inutilizam em face da sua argumentação – o que não se me apresenta admissível pelos documentos que as confirmam e reforçam –, o copiador de Junot, agora saído da sua grafia miúda e empalidecida para a letra de estampa, oferece-nos uma pequena passagem, em que se apalpa e desenha todo o entendimento do nosso ministro com os planos do invasor. Ei-la: «M. Herman ne pût voir ni le Prince, ni M. D’Araújo; celui-ci seulement lui fit dire que tout était perdu...»
Refere-se Junot à retirada para o Brasil. Ao chegar a Abrantes, ainda em Lisboa se não sabia do avanço de Junot. «J’entrai en Portugal, sur ces entrefaites, et j’étai déjá près d’Abrantes, qu’on ignorait encore à Lisbonne la marche de mon armée», informa o general para Paris. Avisado Junot do embarque da Família Real, envia prontamente Hermann a Lisboa. Entretanto, já por intermédio de um emissário de confiança, António de Araújo se carteara com Junot. É certo que Junot diz: «M. D’Araújo crut m’attraper et me retarder, en expediant M. Barreto avec la lettre ci jointe n.º 1... Il était chargé pour moi de beaucoup de propositions, si je voulais m’arreter; mais il vit bien qu’il n’y avait rien à faire.»
É certo ainda que, mais adiante, Junot acrescenta: «... j’appris à Santarém que tout était près pour le départ. Je trouvai alors M. Barreto, & quoique j’eusse bien deviné l’objet de sa mission, je fis semblant de le croire, & je le réexpediai (sic) sur le champ à Lisbonne, par le Taje, avec M. Hermann; mon intention était seulement que l’on sût que j’étais trés prés de la Ville, et que elle put déterminer le peuple à empêcher l’escadre de sortir.» Em todo o caso, se estas passagens soltas da correspondência de Junot atenuam por acaso as responsabilidades de António de Araújo, nem por isso se despe da sua evidência comprometedora o informe do futuro duque de Abrantes já reproduzido e que convém repetir: M. Hermann ne pût voir nu le Prince, ni M. D’Araújo; celui-ci lui fit dire que tout était perdu... Se a Família Real se encontrava já a bordo e o objectivo mais assente de Junot era impedir-lhe o embarque, colhendo a Côrte de surpresa, o que seria então que António de Araújo considerava perdido no pânico da abalada?
De resto, José Acúrsio da Neves é bem explícito ao declarar: «... o que porém posso atestar agora é que o ter-se traçado a surpresa de toda a Real Família, dos parentes de casa, e das personagens mais distintas do reino, e a sua remessa para França, são factos assaz significados, para se poderem dar como indubitáveis. Devia praticar-se em Portugal o que alguns meses depois vimos em Espanha...»
Era o desfecho de uma larga e ramificada intriga. Quando se redigiu e assinou o célebre tratado secreto de Fontainebleau que nos distribuía por diversos possuidores, achavam-se ainda por embaixadores de S.A.R. o conde de Ega em Madrid, e D. Lourenço de Lima em Paris; e não sei se cumpriram os seus deveres. O público os acusa altamente... repara José Acúrsio das Neves.
Não cumpriram – demonstraram-no os factos depois. Já em 11 de Setembro de 1807 o conde da Ega sabia perfeitamente da concentração em Baiona do exército de Junot e, no entanto, em Lisboa a tranquilidade acerca da conduta da França não podia ser mais completa. Conforme umas curiosas cartas de Ega, reveladas no El-Rei Junot, de Raul Brandão, Manuel Godoy, príncipe da Paz, contemplado com a soberania do Alentejo e do Algarve pela letra do acordo de Fontainebleau, enleava fortemente a nossa autonomia nas malhas estreitas de uma rede de que ele, Ega, participava, sendo com desvergonha o seu principal agente. Numa dessas cartas, Ega comunica a D. Lourenço de Lima: «Eu continuo hoje a minha jornada para Lisboa havendo-me demorado dois dias com o meu amigo o Marquês de Alorna que possuido como eu do verdadeiro interesse do Soberano, a quem servimos, da Pátria que nos deu o ser, nós somos lastimados (com incorrecção, francesismo e tudo!) de que o nosso governo não conhecesse mais cedo o melhor partido que deveria abraçar.
Transparentemente, Ega aludia à ruptura da côrte de Lisboa com a Inglaterra e à nossa adesão ao bloqueio continental, com Portugal já retalhado no pensamento de Napoleão.
Quanto ao marquês de Alorna, não nos admirenos de que se ajustasse tão bem com as ideias de Ega. Nas suas Memórias, a duquesa de Abrantes oferece-nos uma carta dele, que o define em dois traços pela mais absoluta sujeição ao falso espírito francês. Junot recomendá-lo-ia daí a uns anos a Napoleão como um elemento da maior confiança. Vejamos nós no seu copiador em que termos o faria o antigo sargento do cerco de Toulon. «Le lieutenant Géneral Marquis d’Alorna me sera très utile por cette nouvelle organisation; c’est un homme précieux dans ce pays-ci par la confiance dont il jouit, dans le public et dans l’armée: c’est un homme d’honneur dont l’opinion positive est – e Junot sublinha – que le plus grand bien qui puisse arriver à son pays, est d’être dépendant immédiat de la France. Un mot de V.M. – insinua ainda Junot – le lui acquerrait inviolablement; il pourrait nous être fort utile ici.»
Tratava-se da organização da famosa e infortunada ‘Legião Lusitana’, de que Alorna foi primeiro comandante. Já se calcula por isso o pleno entendimento de Ega com o marquês. Mas a cabala é muito mais nítida, quando, dirigindo-se a Godoy, Ega lhe diz: «... te rogo incessantemente queiras, como sempre o fizeste, prestar os teus auxílios em benefício de uma nação a que também pertences...» Observa Raul Brandão: «Esta frase de uma nação a que também pertences não será alusiva ao tratado de Fontainebleau, que Ega devia conhecer? Naturalmente. Embora uma sobrinha ou prima do príncipe da Paz houvesse casado em Trás-os-Montes, semelhante circunstância não ocorreria a Ega, nem nunca entre dois aventureiros constituiria razão para se ponderar.»[1]
De modo que, nos bastidores emaranhados da diplomacia da época, a conjura contra D. João VI é um facto assente e comprovado. Não se consegue ilibar António de Araújo das suas mais que manifestas relações com os agentes de Bonaparte. Nada melhor o confirma do que o final do discurso de Canning em 21 de Janeiro de 1808 sobre os sucessos de Lisboa. «Há certamente razão de crer, asseverava ele, que houve traição em alguma parte do Governo Português, e a essa parte se deve atribuir a vitória que por vezes alcançou a influência francesa. A ela se deve imputar o segredo guardado sobre adiantamento das tropas Francesas, ao mesmo tempo que se recebiam garantias de que elas não passavam da fronteira; mas todo este negócio será submetido a uma rigorosa investigação, e até que se veja o resultado dela, melhor é não dizer mais nada sobre o assunto.
*
Auxilia-nos poderosamente o senhor Cristóvão Aires, como dissémos, a desenlaçar o subsolo da primeira invasão, não só com a publicidade dada ao copiador de Junot, mas também com o largo e bem construído comentário que lhe dedica. Já se conhece a opinião em que Junot tinha o marquês de Alorna. Pois ao apontá-lo às graças de Bonaparte como um colaborador dos mais valiosos, o futuro duque de Abrantes elucida ainda: «Il y a aussi quelques autres oficiers généraux qui méritent la bienveillance de V.M. Puis-je leur permettre qu’ils seront traités comme en France, les uns en activité, les autres en reforme et en retraite?...»
Sem dúvida que entre esses oficiais-superiores dignos do favor de Napoleão não figuravam nem Francisco de Paula Leite, nem Bernardino Freire de Andrade, nem o organizador da resistência, D. Miguel Pereira Forjaz. Mas, logo à frente deles, apareciam Pamplona e Gomes Freire.
Pamplona, na retirada do Buçaco, deixou no campo de batalha o seu diário. Tirou-o do inédito o falecido e prestimoso bibliófilo Aníbal Fernandes Tomás. É o espelho perfeito de Pamplona, alma dúbia de traidor, elaborando a frio os itinerários que norteariam em Portugal a soldadesca de Massena. Para Pamplona os que se batiam na defesa da Pátria seguiam simplesmente o partido inglês.» Não se comove diante da terra invadida e até corrige a proclamação de Alorna aos sitiados de Almeida. Só o perturba um certo ciúme do marquês, que vai e vem, em galopadas misteriosas. Pelo que toca a Gomes Freire, segundo comandante da Legião Lusitana – não hesitou o indisciplinado do Rossilhão em acompanhar Junot na vistosa parada de 21 de Fevereiro de 1808. A Memória histórica da invasão des franceses em Portugal terminantemente nos diz que ele o fez por gosto ou por política, apesar de Gomes Freire, em carta de Paris de 22 de Junho de 1815 a D. Miguel Pereira de Forjaz, a quem chama afectuosamente «Meu primo do C.», apreciar nos seguintes termos a sua nomeação para a segunda divisão das tropas que Junot enviara para França: «Conheci que esta nomeação não era senão um meio de que se usava para tirar-me de Portugal...» Lamúrias do exílio para lhe abrirem as portas da pátria que mais uma vez trairia!
Está também provado que Junot contava com o concurso da Maçonaria, como se infere do seu copiador. Em nota para Napoleão esclarece ele que em Sacavém recebera em visita «beaucoup de monde, dont la plupart francs-maçons», que – nas próprias palavras – «m’ont beaucoup servi pour faire rentrer le peuple dans la tranquilité». Exercendo na Maçonaria funções de alto dignitário, Gomes Freire participou do mesmo calor por Junot, embora amigo do duque de Sussex e suposto como inclinado aos ingleses. Se na realidade o fosse, nunca Junot lhe entregaria um cargo de confiança pessoal, sendo, palpavelmente, um dos generais para quem solicitara la bienveillance de Napoleão.
Foi igualmente o vínculo maçónico que empurrou Pamplona para o serviço francês. Tanto as associações secretas se tinham subalternizado ao inimigo, que até, por intermédio do célebre Conselho Conservador de Lisboa, manobrado pelo velho José de Seabra da Silva, Junot se pusera em contacto com o movimento restauracionista, de maneira que a conspiração «marchait toujours à la vue et quelquefois sous l’influence inaperçue du général français» – esmiuça-nos Foy no seu estilo discreto. E a nossa história, a história que anda impressa em situações de novela, ao paladar de todos, o que é que nos ensina? Ensina-nos a venerar como varões imorredoiros os que traíram o nome português, ou por sugestão insensata de princípios falsos, ou por efeito de uma ambição desensofrida. Tipificam-se admiravelmente em Bento Pereira do Carmo, então juiz-de-fora em Ançã e volvidos trinta anos ministro do Constitucionalismo com o regente D. Pedro. Pediria ele, à testa da câmara da sua presidência, um rei a Bonaparte, mas um rei constitucional, portador de toda a mitologia política da Revolução.
Já não há Pirenéus, dizia um rei de França no começo do século passado, quando seu neto vinha ocupar o trono de Espanha, discursava ele em 20 de Maio de 1808. Nós com maior razão diremos agora que já não há barreiras que separem um povo do outro povo. Cessarão já de uma vez os ódios e antipatias nacionais, pois o génio imortal do grande Napoleão tem afastado todos os tropeços, ou levan tados pela nobreza, ou nascidos de preocupacões vulgares. E o verboso magistrado proclamava sem rodeios: «Os franceses, italianos, portugueses, espanhóis e napolitanos, não formam daqui em diante mais do que uma grande família de irmãos regida por um sistema uniforme e luminoso.»
É uma síntese acabada da doutrina maçónica na sua negação social e histórica do que sejam as realidades eternas da pátria. Não evitou a atitude bem caracterizada do juiz-de-fora de Ançã que ele subisse um dia aos conselhos da Coroa e, antes, se visse deputado nas Constituintes de 1822. História de partido, a nossa história concede-lhe loiros de glorificação, enquanto enodoa e insulta a deputação mandada a Baiona, como se fosse mendigar um rei a Napoleão. Mas em 1871 no seu folheto Breves reflexões sobre um escripto recém-publicado em que se ofende a chamada deputação portuguesa que foi a França, em 1808, já o marquês de Rezende pulverizava essa calúnia insubsistente. Agora o copiador de Junot restitui energicamente a verdade à sua limpidez original. Verifiquemos.
Em Dezembro de 1807 Napoleão ordenara a Junot que lhe enviasse umas sessenta pessoas das mais ligadas em lealismo à dinastia ausente. Sucedera que a 16 do mesmo mês Junot, oficiando para Paris, tinha já participado: «Ce que l’on appelle, ici le Conseil de Regence m’a demandé l’autorisation de faire une deputation a V.M. Je vais la leur accorder & la composerai d’individus dont j’ai besoin de me defaire. E decorridos quatro meses, a 8 de Março de 1808, Junot anunciava: «J’aurai l’honneur d’adresser à V.M. par le premier courrier la liste des personnes les plus marquantes du pays que j’envoye en France; Elles partent ces jours-ci et doivent être rendus à Bayonne, au plus tard le 10 Avril... J’ai donné à leur envoy la forme d’une Députation, sans quoi aucun d’eux eut allé de bonne volonté et les envoyer par force aurait certainement occasioné quelque évenement que j’ai crû devoir éviter...»
A lenda injuriosa da deputação a Baiona esfarela-se assim, totalmente desbaratada. Repetida durante um século inteiro pela má-fé jacobina, o seu fim não era outro senão lançar um labéu sobre as forças tradicionais que constituiram a Pátria.
Nobres houve que pactuaram com o inimigo. Mas os que pactuaram, como Alorna e os seus sequazes, obedeciam aos cânones da Maçonaria, não passavam de valores arrancados à sua justa inserção no quadro geral da sociedade. À frente dos outros – dos que marchavam compelidos, para que Junot, reputando-os perigosos, se desembaraçasse deles – distinguia-se o austero marquês de Penalva. Autor da Dissertação a favor da Monarquia, é hoje um dos mestres venerados da nossa Contra-Revolução. Contribuiu para lhe aclarar singularmente o prestígio o trabalho definitivo do senhor Cristóvão Aires. Assinalando o verdadeiro acontecimento, que é a publicação do copiador de Junot, prestamos-lhe a nossa homenagem. Torna-se essa homenagem muito mais significativa, se nos recordarmos que em 18 de Outubro de 1817, exactamento há cento e um anos, recebia Gomes Freire na esplanada de São Julião da Barra o prémio devido às suas combinações enigmáticas com o general espanhol Cabanes!

​Outubro, 1918.



[1] Godoy reputava-se descendente dos Farias de Portugal e, além deles, do nosso D. Pedro I.

1917 - António Sardinha - Gomes Freire (Revisão de um processo)
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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