Mons. Ragonesi
António Sardinha
A força simbólica da visita de Mons. Ragonesi
- António Sardinha defende que a presença do legado apostólico em Portugal representa não só uma honra, mas também um momento de renovação espiritual e histórica para o país, evocando a ligação profunda entre a Igreja e a identidade nacional portuguesa.
- A reaproximação entre o regime republicano e Roma é frágil e depende mais da vontade pessoal do chefe de Estado (Sidónio Pais) do que de uma mudança estrutural do regime, que é visto como anticatólico por natureza.
- O verdadeiro conflito político não é entre monarquia e república, mas sim entre a Igreja e a Maçonaria, sendo as repúblicas europeias, por tradição, hostis à Igreja Católica.
- Sardinha defende que só a monarquia pode garantir uma aliança duradoura com a Igreja, pois encontra nela as bases sólidas para a sua própria conservação, ao contrário das repúblicas, que tendem a afastar-se da influência religiosa.
Mons. Ragonesi atravessou a fronteira em Marvão, quase oito séculos de história puderam mais nesse momento que quase oito anos de república. Não era só um prelado ilustre que vinha honrar-nos com a sua visita inesperada. Como nos tempos em que a comunidade da Fé valia pela comunidade da Civilização, dir-se-ia que a claridade augustíssima de Roma entrava de novo na terra desamparada de Portugal, que ao bafo da Igreja nascera e sob a sua asa inspiradora se fez tão grande e gloriosa.
A figura de Mons. Ragonesi enche-se assim de um largo e forte simbolismo, em que eu quero ver, como nas horas distantes em que o grémio de Cristo marcava os limites da sociedade internacional, o legado apostólico levantando aos povos, com o beijo da Paz, o interdito que os manchava como uma lepra vil e ruim. Leproso roído da pior das gafas, Portugal sentiu remoçar-se, seguramente, como nas águas de um segundo baptismo, mal o perfume da Igreja o tocou de perto, no gesto grave de um núncio que entrava. Lá longe, sobre a linha da raia, até a ossada heróica de Marvão estremeceria num apelo alvoroçado para a vida. É que não há pedra nenhuma em Portugal – ou seja encosto de lareira, repouso de altar ou tampa de sepultura – que não assinale o milagre supremo da Cruz, em que os alicerces da nacionalidade se consagraram para a duração infinita dos séculos. Saltariam de contentamento os outeiros, as fontes seriam coros de alegria, como na letra exaltada do Salmista, cantando os louvores enternecidos do Senhor. A Igreja passava. E com a Igreja passava a epopeia da Reconquista, o esforço sem igual da Navegação, a alma inquieta e generosa de uma raça que bem mereceu ser chamada a mais fiel de toda a Cristandade.
Não é outra a força de Roma na doce espiritualidade do seu poder invencível. Ela é a Cidade Eterna em que as gentes mais díspares do mundo se congregam e amam comovidamente. Ela é a palavra ungida que reúne e congraça, dando-nos no sentido do que é indissolúvel a compreensão do que é imortal. Olhemos à roda, no desabar lutuoso que cobre de ruínas a Europa inteira. Só a barca de Pedro se mantém, como outrora em Tiberíade, diante da fúria rija da tormenta. Se há uma sociedade das nações, só na Igreja ela existe, porque só a Igreja dispõe de um princípio universal que manda a todos os homens que se abracem e estimem como irmãos.
Desse princípio foi portador Mons. Ragonesi. Mais uma vez a Igreja se impôs no triunfo sereno da sua fraqueza desarmada. Uma pausa se abre na loucura sangrenta da Pátria. Será duradoira? Não o creio. Mas o que é notável é a rara coragem política que convidou Mons. Ragonesi a visitar Portugal. No desejo sincero de se incorporar na aspiração da nacionalidade, procura a república aproximar-se de Roma. Registemos o facto com as homenagens que em boa justiça lhe são devidas. Mas reparemos que verdadeiramente não é o regime. É antes, e apenas, a intervenção decidida do chefe do Estado.
Com o aplauso incondicional que neste ponto nos merece, observemos, porém, que numa democracia o poder é electivo. Quem virá depois do senhor doutor Sidónio Pais? A sua política religiosa não é da essência do regime, é somente filha da sua vontade enérgica e sensata. O que sucederá por isso no instante próximo ou remoto, mas em todo o caso certo, em que o senhor doutor Sidónio Pais sair de Belém? As repúblicas europeias são de formação maçónica e revolucionária. Mais que antimonárquicas, são anticatólicas. A Revolução combateu a Monarquia quando se convenceu que a não podia separar da Igreja. Luís XVI não foi só um rei decapitado, foi também um mártir da sua fé. Não nos admiremos, pois, que o reatamento de relações com Roma não seja entre nós mais que uma efeméride breve enquanto o país se encontrar órfão dos seus chefes naturais e legítimos.
Um pensador francês escreveu do Império que, se ele corrigia os efeitos, deixava, no entanto, ficar de pé as causas. Ora, nas suas modestas proporções, é o que em Portugal acontece. Pode o senhor doutor Sidónio Pais atenuar as consequências da república, que é organicamente a desordem, pela sua deliberada acção pessoal. No entanto, à base do regime, lá está sempre o seu vício incurável, o seu defeito original. Cedo ou tarde aflorará à superfície. E então, na sua vesânia destruidora, o radicalismo há-de ser de novo senhor, como forma natural que é das democracias.
Assim no-lo ensina a história. E pelo que respeita às suas lições sobre a política religiosa das repúblicas, convém notar que no fundo dos clubes secretos talvez se não enferrujasse ainda a arma que prostrou García Moreno, nos degraus da catedral de Quito...
García Moreno é, na verdade, o exemplo terrível que o sectarismo jacobino nos põe diante da vista. A luta, no fundo, não é entre a Monarquia e a República, e sim entre a Igreja e a Maçonaria. Observar-me-ão que República é o Brasil, que República são os Estados Unidos. São-no, com efeito. Mas a observação depressa se despe do seu aparente valor, se nos recordarmos que a república significou ali a quebra do laço colonial em regiões desprovidas de passado histórico e diferenciação social. No Brasil, até a queda do Império se explica pela diferença entre o seu estado atrasado e a superioridade das suas instituições. Pelo menos, é um escritor ilustre, Eduardo Prado, quem o afirma e com singular exatidão. De sorte que, onde o radicalismo constitui a estrutura do sistema de governo, a descatolização surge logo como sintoma evidente.
Não conheceu a França, pelo menos, concretamente nos últimos tempos, uma tragédia igual à de Quito. Contudo, o predomínio crescente da alma religiosa da nação durante o presidencialato de Félix Faure, viu-se imediatamente sucedido pelo sectarismo frio de Combes, não falando já do mistério em que o fim do próprio Félix Faure persiste em continuar envolvido. Não nos iludamos. Ragonesi em Portugal é uma bênção lançada sobre os destinos da nossa pobre terra. A pouco mais se irá, e esse pouco mesmo seria tão passageiro como as rosas passageiras de Malherbe. E isto, porque só a Monarquia, pelas virtudes da sua índole, será aliada permanente da Igreja. Não é que a Igreja dependa da Monarquia. Mas é porque a Monarquia só na Igreja encontra as garantias sólidas da sua conservação.
Regalista foi Pombal, febronista José de Áustria, galicano Luís XIV. Todavia, a razão de ser da Realeza prevaleceu sobre a sua transitória política religiosa. É o caso do Constitucionalismo. Espoliador das ordens religiosas, não o vemos nós mais tarde abraçar os princípios repelidos, facilitando a aclimatação das congregações que expulsara?
Maurras disse uma vez que a metade de Joana d’Arc é a sagração de Reims, a outra metade é a sua piedade, a sua vocação mística. Neste símbolo admirável reside o consórcio da Coroa com a Tiara, do Trono com o Altar. Henrique IV, introduzido na comunidade católica, preparou-se imediatamente para restaurar a respublica christiana. É de Luís XIV, seu neto, a declaração oficial: «Por toda a parte onde se implantam as flores de lis, implanta-se ao mesmo tempo o estandarte da religião.» Eis uma divisa que apenas à Monarquia pertence. Eis uma divisa que debalde um presidente de república procuraria arvorar. Deus salve Portugal para que a inscreva novamente nos seus armoriais! E seja Mons. Ragonesi, atravessando protocolarmente a fronteira de Marvão, o primeiro anúncio de que não vem já longe a hora gloriosa em que retomaremos o curso interrompido das nossas gloriosas tradições.
[NOTA: Mons. Ragonesi visitou Portugal em julho de 1918, com registo fotográfico da sua presença em Lisboa em 3 de julho, participando numa receção oficial na Legação dos Estados Unidos, juntamente com membros do governo e do corpo diplomático. ]
In Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926