Quatro anos depois
António Sardinha
A hipertrofia do Estado que conduz a Alemanha à aspiração da Monarquia universal, o que é senão o mesmo sonho vesânico que da parte de cá das trincheiras ilude o alcance da guerra, fazendo-o servir a vitória mais que hipotética de uma hipotética democracia para uso de toda a humanidade? À raiz, descobre-se, bem caracterizada, de uma banda e de outra, essa noção pagã do Número e da Força, alheia às realidades mais imediatas, cuidando somente em se dilatar e afirmar, na violação de quantas normas e de quantos limites a verdadeira felicidade dos povos exige para sua garantia legítima.
- António Sardinha
- António Sardinha
Uma reflexão sobre as consequências da Primeira Guerra Mundial, escrita quatro anos após o início do conflito. António Sardinha analisa as transformações sociais e civilizacionais provocadas pela guerra, criticando o materialismo, o individualismo e a decadência moral da Europa, comparando-a à queda do Império Romano. Defende que a guerra surge como uma purgação necessária, restaurando virtudes esquecidas, mas denuncia também a falência das ideologias modernas e o uso destrutivo da ciência sem consciência. A crise europeia só poderá ser superada com o regresso aos valores tradicionais e à moral cristã, sendo a Cruz o símbolo da restauração dos fundamentos da civilização
Pontos essenciais
- Reflexão sobre os efeitos da guerra: Quatro anos após o início do conflito, António Sardinha questiona se já é possível tirar conclusões sobre as profundas mudanças sociais e civilizacionais provocadas pela guerra.
- Crítica ao materialismo e individualismo: Denuncia o excesso de materialismo, cupidez e luxo, comparando a decadência europeia à do Império Romano, e aponta a ausência de princípios morais como causa da crise.
- A guerra como laboratório e purgação: A guerra é vista como um processo de renascimento das virtudes dos povos, restaurando o espírito de sacrifício e disciplina, perdido numa sociedade focada apenas no bem-estar material.
- Paralelo histórico: Utiliza exemplos históricos, como Roma e citações de Ferrero e Tito Lívio, para ilustrar a degeneração dos costumes e a incapacidade de enfrentar os próprios vícios e remédios necessários.
- A guerra como resultado da ausência de lei moral: Mais do que vaidade e cobiça, a guerra é consequência da falta de princípios éticos, sendo comparada à agonia do Império Romano.
- Crise extrema na Europa: Sardinha identifica uma crise profunda, sugerindo que apenas um retorno às regras tradicionais pode salvar a Europa.
- Hipertrofia do Estado e ideologias falidas: Critica tanto o sonho imperialista alemão quanto a utopia democrática, apontando a falência das ideologias modernas (Ciência, Progresso, Liberdade).
- Ciência sem consciência: Alerta para o uso destrutivo da ciência, que se tornou tirânica sem orientação moral, e critica a ilusão de progresso sem valores.
- Desordem e sofrimento social: O desenvolvimento da riqueza traz insatisfação e desequilíbrio, levando ao esgotamento, suicídio e perda de carácter, que Sardinha chama de “strenua inertia”.
- Interpretações da guerra: Critica visões simplistas que veem a guerra apenas como disputa de imperialismos ou choque de culturas, defendendo uma análise mais profunda.
- Ressurgimento da lei moral e do Cristianismo: Sardinha conclui que só o Cristianismo permanece de pé após a catástrofe, sendo a Cruz o símbolo da restauração dos valores fundamentais da civilização.
QUATRO ANOS DEPOIS
Quatro anos depois de declarada a guerra – é justo que a nós mesmos perguntemos se do tremendo conflito, sempre suspenso nos campos de batalhas, alguma conclusão já haverá a tirar. Dia a dia, hora a hora, a face da Europa tem-se modificado. E, quase insensivelmente, essa modificação não abrange já só as suas linhas fisionómicas. Desce mais fundo, ao ponto de alterar e transformar por completo as bases sociais em que durante um século tranquilamente nos repousámos, preparando de longe, no ilusionismo das abstrações anarquizadoras, o crepúsculo de sangue e de fogo em que parece subverter-se quase uma civilização inteira.
É a guerra um laboratório e uma purgação. Dela costuma sair sempre renascida a alma eterna dos povos, acordada para o exercício das suas antigas virtudes. Quando a prosperidade das nações se traduz apenas no bem-estar material, a guerra surge inevitavelmente para restituir ao predomínio aquele espírito de sacrifício e aquela aceitação corajosa da disciplina em que a sociedade encontra os seus mais fortes motivos de viver.
Conhece-se a apologia que a Proudhon mereceu a guerra como força purificadora dos indivíduos e das coletividades. Toma a guerra nestes termos um sentido místico – o sentido oculto da tragédia grega, com a Fatalidade apertando no seu anel duríssimo a curva larga do Universo. Dobremo-nos ao vento da desgraça em que a Europa se desfaz na mais impetuosa de todas as insânias! A última palavra – a palavra definitiva – não pertencerá nem às razões do acaso nem às razões do comando. Arrastamo-nos num mundo de dissolução – num mundo que a si próprio se condenou. A guerra não é mais que a lei natural da harmonia impondo-se a uma civilização já caduca, embora brilhante.
Enquanto não restaurarmos as condições normais da vida, a guerra não deixará de pesar sobre as nossas cabeças como a intervenção de Deus que castiga, mas que redime.
Se nós pensamos em retomar o curso ordinário da existência no mesmo pé em que ela se desenrolava antes de declarada a guerra, enganamo-nos – e enganam-se profundamente os que supõem na paz a conquista de um regresso a esse passado de há quatro anos, de que nos separa um abismo e que nunca mais voltará.
Consequência de uma falsa organização económica e política, a guerra veio precisamente denunciar-nos as causas da perturbação constante em que a Europa, debaixo de uma aparência de riqueza e ventura, ia engendrando a catástrofe que lhe apressaria a ruína e talvez o fim da sua preponderância. Abusámos do amor do lucro e do esplendor do oiro. Civilização materialista, a nossa civilização, na sua febre a cem graus, levou-nos quase a um epílogo idêntico ao do Império Romano. Desassistidos inteiramente de um robusto e coesivo princípio moral, nós morremos vítimas da cupidez e do luxo, da paixão exaustiva do ganho e da insensibilidade manifesta do coração.
Os excessos do individualismo acarretaram consigo a organização da sociedade que nós expiámos tão duramente na carne da nossa carne, no sangue do nosso sangue. Insuspeito pela sua formação intelectual, Guglielmo Ferrero compara o progresso do mundo moderno à corrupção da Roma clássica. E a propósito recorda a passagem célebre de Tito Lívio. Quando era pobre e pequena, Roma fora na sua origem um exemplo único de todas as virtudes; corrompeu-se depois, degenerando e apodrecendo no meio de todos os vícios; e a pouco e pouco chegámos ao estado atual em que nós não podemos suportar nem os males de que sofremos, nem os remédios que precisamos para nos curar. Nec vitia nostra, nec remedia parti possumus. Singular definição a do historiador latino, em que a nossa sociedade se contempla e reproduz no mais fiel dos retratos! Diagnosticamos igualmente, como o romano da decadência, o cancro que nos rói, mas não nos atrevemos a extirpá-lo, repartidos entre o duplo terror da agonia que nos aguarda e da provação que seria imperioso afrontar se nos quiséssemos resgatar ainda a tempo. E assim, no mais dramático dos conflitos, abandonamo-nos à marcha cega dos acontecimentos, como Édipo caminhando debaixo da dureza inflexível do Destino.
Há a verificar, na verdade, que a Europa atingiu no giro da história um período extremo de crise, de que só uma devolução sensível às regras coordenadoras da tradição a conseguirá, porventura, arrancar. Proclamam-no de todos os lados as inteligências avisadas, a quem não escapa o drama oculto do terrível duelo coletivo em que nos debatemos.
A hipertrofia do Estado que conduz a Alemanha à aspiração da Monarquia universal, o que é senão o mesmo sonho vesânico que da parte de cá das trincheiras ilude o alcance da guerra, fazendo-o servir a vitória mais que hipotética de uma hipotética democracia para uso de toda a humanidade? À raiz, descobre-se, bem caracterizada, de uma banda e de outra, essa noção pagã do Número e da Força, alheia às realidades mais imediatas, cuidando somente em se dilatar e afirmar, na violação de quantas normas e de quantos limites a verdadeira felicidade dos povos exige para sua garantia legítima. Na falência estrondosa das mil e uma ideologias apregoadas ao longo do século que findou – a ideologia da Ciência, a ideologia do Progresso, a ideologia da Liberdade –, é ainda Ferrero quem se interroga num sobressaltado inquérito às circunstâncias presentes, ao ver pelo chão, escavacada, a torre de Orgulho com que a vaidade dos homens julgou, por uns breves instantes, repetir a cena mitológica dos titãs escalando as alturas interditas do Mistério.
«Mas quem sabe? Talvez que esse feliz momento não durasse sempre, porque a hora viria naturalmente em que os homens haviam de experimentar de novo a necessidade da antiga sabedoria, da antiga prudência. Seja ao menos permitido a um filósofo e a um historiador perguntar se esta soberba, mas desvairada liberdade, que nós disfrutamos, convém a todos os tempos, ou unicamente àqueles em que as nações, nascendo, podem achar no seu berço, como a América o achou no dela, um pequeno dote de nove milhões de quilómetros quadrados ainda por explorar.» Eis como, em meia dúzia de palavras, Ferrero coloca angustiosamente o problema, não escondendo a desilusão amarga em que abala, sorrindo, mais de uma ficção generosa da sua mentalidade de liberalista ardente e sincero. A civilização, a verdadeira, a salutar, aparece-nos, assim, na razão inversa do individualismo e em proporção directa com a disciplina, se, de causa fecunda do desenvolvimento social, a não desejamos tornada numa fonte de desordem permanente e irreparável.
Fonte de desordem, na sua feição acentuadamente materialista, o que é a civilização contemporânea, cujos benefícios, pela ambição desenfreada e pelos interesses mais espessos e mais grosseiros, a guerra actual aí nos está acusando? Ninguém melhor a simbolizou de que o Renan do L’avenir de la science, ao exprimir o monstruoso voto de que num futuro bem próximo os sábios viessem a dominar olimpicamente as multidões pelo terror dos seus infinitos recursos científicos.
A ciência empregada, fria e sistematicamente, como meio de destruição, se em Renan não passou de uma cínica abstracção de sofista, é hoje, diante dos nossos olhos e nos espectáculos quotidianos da guerra, o desfecho sem nome de uma civilização que, pela embriaguês da sua loucura, se esqueceu de todo da triste instabilidade das coisas humanas. Julgando-nos vencedores da Matéria, somos pelo contrário os seus escravos miseráveis. Levantámos aranhiços de aço, no silêncio dos gabinetes descobriram-se as fórmulas mais inesperadas, as mais inesperadas combinações. Pois bem! Quando o homem não tardaria a proclamar-se o imperador do Mundo, o dominador da Natureza, o aço que ele domara, os elementos que a sua mão fechava e condúzia no espaço estrito de uma retorta, revoltam-se de súbito, ao som da gargalhada sinistra de Mefistófeles, e despedaçam, esfacelam, pulverizam o inebriado triunfador da véspera.
Ciência sem consciência é a mais execrável de todas as tiranias. Nós lhe padecemos o jugo de ferro, porque não quisemos ouvir o conselho prudente do Eclesiastes, que foi Rei em Jerusalém. Atrás das promessas mentirosas de um estreito ideal optimista, só cuidamos do prazer e da riqueza, na persuasão ingénua de que era a marcha do Progresso que nós acompanhávamos. Mas nunca os instintos bateram mais fortes, dentro de nós, nunca na escuridão das criptas ancestrais o gorila aguçou com mais apetite os dentes ansiosos de carnagem! Olvidamos as verdades eternas. E, na infantil libertação dos nossos espíritos, mandaram em nós os mitos mais abominantes, as mais desprezíveis superstições. Como em Roma antigamente, os bárbaros não demorariam a ensombrar, com as suas figuras de pesadelo, a elegância rara de Petrónio abrindo as veias desdenhosamente, enquanto devagar floriam as verbenas...
Concordemos que Ferrero tinha razão, recordando a velha passagem de Tito Lívio: «Nec vitia nostra, nec remedia parti possumus!» O paralelo é perfeito entre as duas épocas da história. Deixou lembrança de si uma certa Sollia Paolina só porque, segundo o clássico, em jóias e outros objectos de adorno possuía mais de um milhão. Quantas Sollias Paolinas não enxameiam a carcassa perfumada da nossa sociedade, que se abrasa num dilúvio de chamas, sem que na carreira doida da perdição o luxo se sacrifique à fome e o oiro encontre na caridade os seus direitos de soberania?! E Ferrero repara que o desenvolvimento da riqueza acarreta invariavelmente um acréscimo proporcional de exigências e de insatisfações.
Ao desequilíbrio que resulta deste fenómeno de ordem social e moral chamavam os de outro tempo corrupção, degradação dos costumes. Opostamente, nós, os de hoje, chamamos-lhes prosperidade, civilização, progresso. Na luta brava da concorrência e do ganho, surge, com a diminuição assustadora do carácter o esgotamento, a neurastenia, o suicídio, denunciando o cansaço da vontade e a impossibilidade crescente do espírito em se sobrepor ao frenesim que nos arrasta e envolve nas suas espiras fatais. Horácio fala de semelhante estado de alma, espécie de nervosismo exasperado que nada contém nem nada apazigua. «Strenua inertia», inércia agitada, ou agitação baldada, é como o poeta o designa, na concisão admirável da sua língua materna. A mesma strenua inertia – mal do século, dor de viver – nos toca de perto a todos, oferecendo-nos em holocausto à Némesis tremenda da Fábula, agora ressurgida no romance de Paul Bourget, como a parte que em reparação cada um de nós deve à harmonia sagrada do universo.
Ateada pela nossa insensatez, eis como a guerra nasceu. Nasceu da vaidade e da cobiça dos homens, é certo. Mas muito mais do que a vaidade e a cobiça, desencadeou-a a ausência absoluta da lei moral. A aproximação que Ferrero, o historiador insigne de Roma, estabeleceu entre o agonizar do Império e a agonia lenta de uma civilização que imaginávamos imorredoira, é o único e definivo comentário a acrescentar a quatro anos de convulsões fratricidas, com a Europa lavrada de alto a baixo pela charrua infatigável da Morte. Não nos cansemos a formular nem outra resposta nem outra conclusão a quantos, desvairados pela disparidade aparente dos factos, persistem ainda em considerar a guerra como longe de atingir o seu verdadeiro e rigoroso significado.
Interpretam-na como o desflagrar encarniçado de simples imperialismos económicos. Entendem-na muitos como o embate de culturas hostis ou de raças secularmente antagónicas. Talvez juízos esses em que o aspecto apaixonado da questão prevalece pretenciosamente sobre a sua unidade profunda!
Como Proudhon a viu e compreendeu, a guerra é sempre a justiça violada que intervém quando menos se espera. A guerra actual, descendo da concepção proudhoniana, representa a vitória do Sublime numa sociedade que se abastardara nas baixezas do optimismo mais baixo e mais degradante. Perdido o equilíbrio do mundo, é um mundo novo que dolorosamente se gera. Gera-se na dor, porque o outro – este a que pertencemos – se suicidou no prazer. O espectro de Roma adeja na noite imensa. E na noite imensa a lei moral desperta, personificada na Cruz.
Só o Cristianismo está de pé no desabar total da catástrofe. Na queda do Império, a Cruz lhe recebeu o testamento e lhe santificou a herança. As duas épocas abraçam-se, quase se confundem. E como há mil e tantos anos a semente do resgate saía das catacumbas, também ela hoje parece sair dessas novas catacumbas – as trincheiras. Tal é o sentido da guerra, na sua essência transcendente e profunda. São os direitos da alma que se recuperam da idolatria abominável do Bezerro-de-oiro. Possa a civilização restaurar-se nos seus fundamentos e o reino de Deus de boa vontade se dará a conhecer aos homens sobre a terra!
Agosto, 1918.
In Durante a Fogueira - Páginas da Guerra, 1927.
É a guerra um laboratório e uma purgação. Dela costuma sair sempre renascida a alma eterna dos povos, acordada para o exercício das suas antigas virtudes. Quando a prosperidade das nações se traduz apenas no bem-estar material, a guerra surge inevitavelmente para restituir ao predomínio aquele espírito de sacrifício e aquela aceitação corajosa da disciplina em que a sociedade encontra os seus mais fortes motivos de viver.
Conhece-se a apologia que a Proudhon mereceu a guerra como força purificadora dos indivíduos e das coletividades. Toma a guerra nestes termos um sentido místico – o sentido oculto da tragédia grega, com a Fatalidade apertando no seu anel duríssimo a curva larga do Universo. Dobremo-nos ao vento da desgraça em que a Europa se desfaz na mais impetuosa de todas as insânias! A última palavra – a palavra definitiva – não pertencerá nem às razões do acaso nem às razões do comando. Arrastamo-nos num mundo de dissolução – num mundo que a si próprio se condenou. A guerra não é mais que a lei natural da harmonia impondo-se a uma civilização já caduca, embora brilhante.
Enquanto não restaurarmos as condições normais da vida, a guerra não deixará de pesar sobre as nossas cabeças como a intervenção de Deus que castiga, mas que redime.
Se nós pensamos em retomar o curso ordinário da existência no mesmo pé em que ela se desenrolava antes de declarada a guerra, enganamo-nos – e enganam-se profundamente os que supõem na paz a conquista de um regresso a esse passado de há quatro anos, de que nos separa um abismo e que nunca mais voltará.
Consequência de uma falsa organização económica e política, a guerra veio precisamente denunciar-nos as causas da perturbação constante em que a Europa, debaixo de uma aparência de riqueza e ventura, ia engendrando a catástrofe que lhe apressaria a ruína e talvez o fim da sua preponderância. Abusámos do amor do lucro e do esplendor do oiro. Civilização materialista, a nossa civilização, na sua febre a cem graus, levou-nos quase a um epílogo idêntico ao do Império Romano. Desassistidos inteiramente de um robusto e coesivo princípio moral, nós morremos vítimas da cupidez e do luxo, da paixão exaustiva do ganho e da insensibilidade manifesta do coração.
Os excessos do individualismo acarretaram consigo a organização da sociedade que nós expiámos tão duramente na carne da nossa carne, no sangue do nosso sangue. Insuspeito pela sua formação intelectual, Guglielmo Ferrero compara o progresso do mundo moderno à corrupção da Roma clássica. E a propósito recorda a passagem célebre de Tito Lívio. Quando era pobre e pequena, Roma fora na sua origem um exemplo único de todas as virtudes; corrompeu-se depois, degenerando e apodrecendo no meio de todos os vícios; e a pouco e pouco chegámos ao estado atual em que nós não podemos suportar nem os males de que sofremos, nem os remédios que precisamos para nos curar. Nec vitia nostra, nec remedia parti possumus. Singular definição a do historiador latino, em que a nossa sociedade se contempla e reproduz no mais fiel dos retratos! Diagnosticamos igualmente, como o romano da decadência, o cancro que nos rói, mas não nos atrevemos a extirpá-lo, repartidos entre o duplo terror da agonia que nos aguarda e da provação que seria imperioso afrontar se nos quiséssemos resgatar ainda a tempo. E assim, no mais dramático dos conflitos, abandonamo-nos à marcha cega dos acontecimentos, como Édipo caminhando debaixo da dureza inflexível do Destino.
Há a verificar, na verdade, que a Europa atingiu no giro da história um período extremo de crise, de que só uma devolução sensível às regras coordenadoras da tradição a conseguirá, porventura, arrancar. Proclamam-no de todos os lados as inteligências avisadas, a quem não escapa o drama oculto do terrível duelo coletivo em que nos debatemos.
A hipertrofia do Estado que conduz a Alemanha à aspiração da Monarquia universal, o que é senão o mesmo sonho vesânico que da parte de cá das trincheiras ilude o alcance da guerra, fazendo-o servir a vitória mais que hipotética de uma hipotética democracia para uso de toda a humanidade? À raiz, descobre-se, bem caracterizada, de uma banda e de outra, essa noção pagã do Número e da Força, alheia às realidades mais imediatas, cuidando somente em se dilatar e afirmar, na violação de quantas normas e de quantos limites a verdadeira felicidade dos povos exige para sua garantia legítima. Na falência estrondosa das mil e uma ideologias apregoadas ao longo do século que findou – a ideologia da Ciência, a ideologia do Progresso, a ideologia da Liberdade –, é ainda Ferrero quem se interroga num sobressaltado inquérito às circunstâncias presentes, ao ver pelo chão, escavacada, a torre de Orgulho com que a vaidade dos homens julgou, por uns breves instantes, repetir a cena mitológica dos titãs escalando as alturas interditas do Mistério.
«Mas quem sabe? Talvez que esse feliz momento não durasse sempre, porque a hora viria naturalmente em que os homens haviam de experimentar de novo a necessidade da antiga sabedoria, da antiga prudência. Seja ao menos permitido a um filósofo e a um historiador perguntar se esta soberba, mas desvairada liberdade, que nós disfrutamos, convém a todos os tempos, ou unicamente àqueles em que as nações, nascendo, podem achar no seu berço, como a América o achou no dela, um pequeno dote de nove milhões de quilómetros quadrados ainda por explorar.» Eis como, em meia dúzia de palavras, Ferrero coloca angustiosamente o problema, não escondendo a desilusão amarga em que abala, sorrindo, mais de uma ficção generosa da sua mentalidade de liberalista ardente e sincero. A civilização, a verdadeira, a salutar, aparece-nos, assim, na razão inversa do individualismo e em proporção directa com a disciplina, se, de causa fecunda do desenvolvimento social, a não desejamos tornada numa fonte de desordem permanente e irreparável.
Fonte de desordem, na sua feição acentuadamente materialista, o que é a civilização contemporânea, cujos benefícios, pela ambição desenfreada e pelos interesses mais espessos e mais grosseiros, a guerra actual aí nos está acusando? Ninguém melhor a simbolizou de que o Renan do L’avenir de la science, ao exprimir o monstruoso voto de que num futuro bem próximo os sábios viessem a dominar olimpicamente as multidões pelo terror dos seus infinitos recursos científicos.
A ciência empregada, fria e sistematicamente, como meio de destruição, se em Renan não passou de uma cínica abstracção de sofista, é hoje, diante dos nossos olhos e nos espectáculos quotidianos da guerra, o desfecho sem nome de uma civilização que, pela embriaguês da sua loucura, se esqueceu de todo da triste instabilidade das coisas humanas. Julgando-nos vencedores da Matéria, somos pelo contrário os seus escravos miseráveis. Levantámos aranhiços de aço, no silêncio dos gabinetes descobriram-se as fórmulas mais inesperadas, as mais inesperadas combinações. Pois bem! Quando o homem não tardaria a proclamar-se o imperador do Mundo, o dominador da Natureza, o aço que ele domara, os elementos que a sua mão fechava e condúzia no espaço estrito de uma retorta, revoltam-se de súbito, ao som da gargalhada sinistra de Mefistófeles, e despedaçam, esfacelam, pulverizam o inebriado triunfador da véspera.
Ciência sem consciência é a mais execrável de todas as tiranias. Nós lhe padecemos o jugo de ferro, porque não quisemos ouvir o conselho prudente do Eclesiastes, que foi Rei em Jerusalém. Atrás das promessas mentirosas de um estreito ideal optimista, só cuidamos do prazer e da riqueza, na persuasão ingénua de que era a marcha do Progresso que nós acompanhávamos. Mas nunca os instintos bateram mais fortes, dentro de nós, nunca na escuridão das criptas ancestrais o gorila aguçou com mais apetite os dentes ansiosos de carnagem! Olvidamos as verdades eternas. E, na infantil libertação dos nossos espíritos, mandaram em nós os mitos mais abominantes, as mais desprezíveis superstições. Como em Roma antigamente, os bárbaros não demorariam a ensombrar, com as suas figuras de pesadelo, a elegância rara de Petrónio abrindo as veias desdenhosamente, enquanto devagar floriam as verbenas...
Concordemos que Ferrero tinha razão, recordando a velha passagem de Tito Lívio: «Nec vitia nostra, nec remedia parti possumus!» O paralelo é perfeito entre as duas épocas da história. Deixou lembrança de si uma certa Sollia Paolina só porque, segundo o clássico, em jóias e outros objectos de adorno possuía mais de um milhão. Quantas Sollias Paolinas não enxameiam a carcassa perfumada da nossa sociedade, que se abrasa num dilúvio de chamas, sem que na carreira doida da perdição o luxo se sacrifique à fome e o oiro encontre na caridade os seus direitos de soberania?! E Ferrero repara que o desenvolvimento da riqueza acarreta invariavelmente um acréscimo proporcional de exigências e de insatisfações.
Ao desequilíbrio que resulta deste fenómeno de ordem social e moral chamavam os de outro tempo corrupção, degradação dos costumes. Opostamente, nós, os de hoje, chamamos-lhes prosperidade, civilização, progresso. Na luta brava da concorrência e do ganho, surge, com a diminuição assustadora do carácter o esgotamento, a neurastenia, o suicídio, denunciando o cansaço da vontade e a impossibilidade crescente do espírito em se sobrepor ao frenesim que nos arrasta e envolve nas suas espiras fatais. Horácio fala de semelhante estado de alma, espécie de nervosismo exasperado que nada contém nem nada apazigua. «Strenua inertia», inércia agitada, ou agitação baldada, é como o poeta o designa, na concisão admirável da sua língua materna. A mesma strenua inertia – mal do século, dor de viver – nos toca de perto a todos, oferecendo-nos em holocausto à Némesis tremenda da Fábula, agora ressurgida no romance de Paul Bourget, como a parte que em reparação cada um de nós deve à harmonia sagrada do universo.
Ateada pela nossa insensatez, eis como a guerra nasceu. Nasceu da vaidade e da cobiça dos homens, é certo. Mas muito mais do que a vaidade e a cobiça, desencadeou-a a ausência absoluta da lei moral. A aproximação que Ferrero, o historiador insigne de Roma, estabeleceu entre o agonizar do Império e a agonia lenta de uma civilização que imaginávamos imorredoira, é o único e definivo comentário a acrescentar a quatro anos de convulsões fratricidas, com a Europa lavrada de alto a baixo pela charrua infatigável da Morte. Não nos cansemos a formular nem outra resposta nem outra conclusão a quantos, desvairados pela disparidade aparente dos factos, persistem ainda em considerar a guerra como longe de atingir o seu verdadeiro e rigoroso significado.
Interpretam-na como o desflagrar encarniçado de simples imperialismos económicos. Entendem-na muitos como o embate de culturas hostis ou de raças secularmente antagónicas. Talvez juízos esses em que o aspecto apaixonado da questão prevalece pretenciosamente sobre a sua unidade profunda!
Como Proudhon a viu e compreendeu, a guerra é sempre a justiça violada que intervém quando menos se espera. A guerra actual, descendo da concepção proudhoniana, representa a vitória do Sublime numa sociedade que se abastardara nas baixezas do optimismo mais baixo e mais degradante. Perdido o equilíbrio do mundo, é um mundo novo que dolorosamente se gera. Gera-se na dor, porque o outro – este a que pertencemos – se suicidou no prazer. O espectro de Roma adeja na noite imensa. E na noite imensa a lei moral desperta, personificada na Cruz.
Só o Cristianismo está de pé no desabar total da catástrofe. Na queda do Império, a Cruz lhe recebeu o testamento e lhe santificou a herança. As duas épocas abraçam-se, quase se confundem. E como há mil e tantos anos a semente do resgate saía das catacumbas, também ela hoje parece sair dessas novas catacumbas – as trincheiras. Tal é o sentido da guerra, na sua essência transcendente e profunda. São os direitos da alma que se recuperam da idolatria abominável do Bezerro-de-oiro. Possa a civilização restaurar-se nos seus fundamentos e o reino de Deus de boa vontade se dará a conhecer aos homens sobre a terra!
Agosto, 1918.
In Durante a Fogueira - Páginas da Guerra, 1927.