Sinal da Raça
António Sardinha
O texto celebra um gesto do tenente Teófilo Duarte como símbolo do renascimento dos valores da Cavalaria e da esperança nacional numa época de decadência em Portugal.
SINAL DA RAÇA
Diante da exaltação magnífica do tenente Teófilo Duarte em Santa Maria de Belém, reconheçamos que se não mirrou de todo em Portugal a nobre e sagrada flor da Cavalaria! Numa sociedade como a nossa, levada pelos piores ventos de desagregação, talvez que fique sem sentido o admirável impulso de um rapaz que já fez da sua espada o mais galhardo e perigoso dos usos. Áspero e deserto como uma charneca, não compreenderá o tempo presente o gesto alucinado do moço oficial. Mas para quem se não perca nas frivolidades quotidianas da vida e goste de alevantar os seus olhos para o alto, que inesperado movimento de tragédia se não desprende da figura de Teófilo Duarte, erguendo-se, patética, na nave gloriosa que viu o regresso triunfante dos Navegadores, sem esperar que se visse ainda teatro de uma criação inverosímil de Shakespeare!
Modelado pela rijeza de uma velha gesta carolíngia, o rasgo de Teófilo Duarte é já agora um símbolo, mobilizando os recursos morais de uma geração que entrou na sua vigília de armas. Num vivo abraçado a um morto, passou mais que o episódio comovedor que a nossa sensibilidade fixou para sempre. Passou a comunhão de todos os Vivos com todos os Mortos, passou a unidade plena da História, reatando os anéis esparsos da herança tradicional abandonada, numa pátria que perdeu inteiramente o significado eterno da sua vocação. É onde Teófilo Duarte deixou de pertencer aos nossos dias.
Ali, mesmo no templo manuelino, Teófilo Duarte seria um anacronismo, uma espécie de sobrevivência curiosa, para o depoimento vacilante dos círios, até para a ourivesaria brincada das pedras, dormindo o sono dos séculos. A Renascença falara debaixo daquelas abóbadas solenes. E a Renascença, na orgia do seu individualismo máximo, como Leonardo o sonhou e quis, só exprimiria indiferença soberana pela humildade cristã do herói que trocava o amor antigo da Glória pela virtude mais humana e mais doce de servir, e servir com fidelidade.
Os loiros romanos não se ajeitavam decerto à beleza primitiva, sem atitude nem linha, do lance dramático que perturbou por momentos a majestade suspensa da Igreja. Alexandre e Trajano permaneceram impassíveis, nas reminiscências clássicas dos colunelos quinhentistas, ao voar, desfeito, pela nave, o tampão de cristal de uma urna funerária. Não vinha da luminosidade latina, cheia de medida e de ritmo, o golpe rijo que soara pelo templo. Mais gótico, mais mediévico, se tinha companheiros, na Távola-Redonda os acharia Teófilo Duarte, repetindo à meia luz dos vitrais, sobre as lájeas dos Jerónimos, o encontro em Toledo de Martim de Freitas com o cadáver do seu Rei.
Apenas, de entre o silêncio dos altares, o fantasma errante do Encoberto poderia acolher, como sua, a angústia desesperada de Teófilo Duarte. Um estreito parentesco o ligaria a ele, beijando com soluços fortes a mão do chefe inanimado, ao outro, ao D. Sebastião da visita à Batalha, virado para a comitiva atónita, em face da ossada do Príncipe Perfeito: «Este, sim! Este é que foi o melhor oficial do seu ofício!»
Último cavaleiro de uma raça que não tardaria a arrastar o signo pesado dos sonâmbulos, D. Sebastião acordaria logo do seu pó enregelado, tinindo com o montante, como se houvéssemos atingido a hora de se cumprirem as profecias. Porque o ceptro é seu de direito e o Desejado é quem reina em Portugal, país da Esperança, à beira do Cabo Poente – bem merecia que elegesse para seu Condestável o moço oficial que, na palidez de uma gente sem crenças nem rumo, mais parece um fidalgo saído da criação da sua casa, do que uma energia automática de soldado caminhando ao acaso pelas avenidas de um mundo já próximo do fim. Mas por cima de tanta geração transviada, os seus braços apertam-se. Não esteve Teófilo Duarte em Alcácer, ao lado de Luís de Brito, para ouvir da boca do Rei, empinado no seu corcel contra a moirama que crescia e ululava: «Abracêmo-nos à bandeira e morramos sobre ela!» Continua a moirama a crescer, e a bandeira ei-la de rojo. Que Teófilo Duarte a levante e assim terá obedecido ao último cavaleiro de uma raça, em quem, por milagre de Deus, a nobre e antiga flor da Cavalaria vai renascer na próxima manhã, como uma rosa mística abrindo devagar.
«Homem duro e forte; e escolhido para sofrer grandes medos e trabalhos e lazeiras por prol do bem comum...» – é como nas Ordenações Afonsinas se define o Cavaleiro. O Cavaleiro é a justiça armada, é a imagem terrena de São Miguel-Arcanjo, de capacete e lança. O herói pagão, reproduzindo para os espectáculos da História o exemplo amoral de César, não é o Cavaleiro, que faz dos votos uma lei e da fraqueza uma força. Carlyle emudece perante o Cavaleiro e debalde nos varões de Plutarco se procura um tipo superior de humanidade, que de perto se lhe assemelhe. Se Roma nos oferece o precursor do Cavaleiro, é nos mártires, legionários aguerridos da fé, com São Sebastião trocando as suas insígnias militares pela palma sempre verde do martírio.
Na cadeia infinita dos valores psíquicos é que reside o segredo misterioso do heroísmo. O heroísmo, depurado e santificado pela Igreja, gerou a Cavalaria, novo sacramento, com cerimonial larguíssimo no Pontificale-Romanum. A essência cristã do martírio manteve-a a Igreja na ideia de sacrifício que o grau da Cavalaria importa consigo. O Cavaleiro é o miles pacificus strenuus fidelis et Deo devotus da oração litúrgica. Soldado pacífico e forte, ele é o escudo da paz e o castigo de todo o poder violento. «Senhor Santo, Pai Omnipotente, Eterno Deus – reza a voz inspirada da Igreja –, Tu que és o Único que ordenas todas as coisas e as dispões rectamente, por tua salutar disposição permitiste aos homens o uso da espada sobre a terra e quiseste instituir a Ordem Militar para protecção do povo.»
Instituída a Cavalaria para protecção do povo, é para protecção do povo que existe o Exército, seu descendente legítimo.
Desde Ernesto Psichari, o centurião convertido, até Guynemer, o estranho cavaleiro do Ar, trouxe-nos a Guerra uma revivescência assombrosa do espírito da Cavalaria. O sacrifício penetrou na carne dos moços, e Deus de novo se reconheceu entre o estridor das batalhas como o verdadeiro Senhor dos Exércitos. A vocação militar, olvidada e diminuída pelos erros grosseiros da filosofia do século, recuperou esplendidamente a sua dignidade sacramental. Aborrecem-na aqueles que, na frase de Rabelais – e são a maioria –, não passaram nunca de sacos por onde entra e sai a comida. Mas quem sinta dentro de si a labareda inquieta da Religião e da Pátria, não esquece que foi Longuinos, um soldado, o primeiro que confessou a Cristo no cimo do Calvário.
Não há Pátria sem Exército, como não há Exército sem grandeza, sem sublime. O sublime do Exército é o espírito da Cavalaria. Que o espírito da Cavalaria voltou a visitar-nos, di-lo a cena espantosa de Belém. No mistério do seu sangue, Teófilo Duarte é para o eclipse demorado da nacionalidade Portugal inteiro que se baptiza outra vez. Nascido à raiz do Hermínio augusto, quem sabe se no ardor do seu atavismo não ressuscita algum avô recuado que a si próprio se imolasse junto à pira fumegante de Viriato?! Quem sabe se não acorda em Teófilo Duarte a afamada celtibérica fides dos guerreiros peninsulares, que voluntariamente os prendia entre si, obrigando-os a seguirem o chefe na morte?!
Adoçou a Cruz a fereza bárbara dos antigos costumes. Mas quando, em Santiago de Coimbra, o Regente e o Conde de Abranches juravam pela Hóstia e pelo Cálix não sobreviverem um ao outro, não era a celtibérica fides que refloria no seu juramento, como o sinal invencível da Raça?
Foi o sinal invencível da Raça que, em presença dos muros espectrais dos Jerónimos, o tenente Teófilo Duarte testemunhou à face de Deus e dos homens nestes dias amargos da Decadência. «Miles pacificus et strenuus» – a celtibérica fides do seu tronco lusitano humanizou-se pelo conceito imposto por Cristo ao sacrifício. Na dureza dos cultos primitivos o sacrifício entendia-se, cruento, porque só a hecatombe libertava e redimia. Sem forçar com motivos literários a significação de um acto que não é já de Teófilo Duarte, mas de toda a sua geração, a celtibérica fides, renovada e ungida pelo espírito da Cavalaria, não é seguir os chefes na morte, mas servir-lhes obra na vida. Não é outro o sacrifício, como Cristo pregado na Cruz no-lo ensina, como no-lo ensina a solidariedade que os netos devem ao pensamento dos Antepassados.
Subvertido o país na insânia romântica do individualismo, quebrou-se o elo que encadeava os vivos aos mortos. Abraçado a um morto, aprendamos nós a lição de Teófilo Duarte em Santa Maria de Belém, restaurando na nossa história a celtibérica fides dos Avós, pelo regresso consciente e deliberado aos laços tradicionais interrompidos. E, senhor dos beijos do sol, que é o claro amigo dos heróis, não deixe nunca Teófilo Duarte de se recordar que Deus permitiu aos homens o uso da espada sobre a terra para que a Ordem Militar se instituísse e com ela o povo tivesse protecção.
in Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926
(*) Após o assassínio do presidente Sidónio Pais, o então tenente Teófilo Duarte, governador de Cabo Verde, veio imediatamente para Lisboa e, logo que desembarcou, dirigiu-se para o Mosteiro dos Jerónimos, onde entrou exclamando: «Podem sair. Para o guardar, basto eu!». Muito emocionado, partiu o cristal da urna a golpes de espada e abraçou o cadáver.