A Moral da Derrota
António Sardinha
O texto reflete sobre a importância da serenidade e da perseverança diante das adversidades, usando o exemplo simbólico de Frei Luís de León para ilustrar a força moral de quem luta por princípios e não por interesses pessoais. Sardinha defende o Integralismo Lusitano como movimento de renovação nacional, valorizando o sacrifício, a disciplina e a união em torno da ideia monárquica. Critica a crise dos regimes das oligarquias partidárias ao serviço da plutocracia, defendendo que só uma Monarquia tradicional, municipalista, pode restaurar Portugal, promovendo estabilidade, descentralização e valorização nacional. Conclui reafirmando a confiança nos destinos da Pátria e a necessidade de agir com fé e convicção.
A MORAL DA DERROTA
Quando Frei Luís de León voltou à sua cátedra de Salamanca, depois de uma ausência demorada nos cárceres do Santo-Ofício, a turba rumorosa dos escolares enchia a sala acanhada, para ouvir de novo essa abelha divina, interpretando, na linguagem dos poetas e dos místicos, a letra sagrada das Escrituras. A cidade saíra a recebê-lo na pompa só destinada aos seus grandes doutores. E comprimida agora na aula modesta e ao longo do claustro suspenso na suspensão das próprias respirações, conta-se que Frei Luís singelamente, contra a expectativa do seu auditório, deu começo à lição com as palavras do costume: «Como íamos dizendo no último dia...»
Fundamentando-se em razões mais ou menos plausíveis, parece haver hoje quem conteste a veracidade do facto, que, todavia, uma tradição ininterrupta de séculos acreditou como autêntico. Mas tivesse, ou não, o glorioso escritor pronunciado a frase que se lhe atribui, a serenidade de espírito que ela vigorosamente nos comunica não lhe pertence em património absoluto. Pertence, como um sinal de consciência, a quantos, capazes de sofrerem paixão e morte pela obra de resgate que Deus lhes apontou para sua vocação social, não ignoram nunca que os homens passam depressa com o seu tropel de ódios, com o seu cortejo de violências, mas que não passa jamais toda a afirmação que é feita com amor e servida com sinceridade. Enquanto o ouro se funde e desaparece imediatamente na provação a que por experiência o sujeitem, nós vemos sempre a verdade renascer mais bela e mais forte, à flor dos seus eclipses, como se das emboscadas e das deserções que lhe obstruem o caminho tirasse uma energia inesperada e fecunda.
Acusado e cuspido na fé que a sua inteligência abraçava e o seu pensamento defendia, Frei Luís de León, regressando triunfante à cátedra da sua amada Salamanca, é um símbolo expressivo que gostosamente se depara à minha pena para fixar a comovida alegria com que nós regressamos também ao nosso posto, que é ao mesmo tempo cátedra e trincheira. Não nos desperdiçaremos a invetivar os crimes que à roda do nosso silêncio se desenrolaram. E para as omissões imperdoáveis de direção que nos poderiam ter atirado para uma catástrofe sem remédio, só buscaremos uma esponja em que se absorvam depressa. Responsabilidades não as sentimos, felizmente, pesar sobre nós. O que sentimos é a nossa hoste mais grossa e mais unida, talvez, porque a sua bandeira não é uma pessoa, mas sim um princípio!
Há quatro anos que nas colunas de uma revista de parca tiragem o Integralismo Lusitano lançava ao país os enunciados basilares da verdadeira ressurreição nacional. Não recapitulo as jornadas já percorridas, nem tão-pouco aludo à glória recente dos nossos companheiros, demonstrando como ninguém a adesão total das suas existências à causa que, sendo da Pátria, é soberana nos domínios da nossa vontade e das nossas aspirações. Santificada por heróis nos campos da guerra europeia, na expiação coletiva de Monsanto, tão rica de um oculto sentido espiritual, coube-lhe uma parte que orgulhosamente reclamamos para nós: a parte do soldado, a parte da obediência, a parte do sacrifício.
O Pelicano deixou de ser assim um alto emblema heráldico, estilizando a sua agonia contente sobre a cruz sangrenta de Cristo, para se tornar, em perpétua transubstanciação connosco, numa espécie de eucaristia nova, que é carne com a nossa carne e alma com a nossa alma. Não é outra a moral da derrota, regra certíssima de conduta nos trabalhos futuros, aprendizado permanente de disciplina e de renúncia, por onde a vitória há de surgir, reparadora e linda, quando sejamos dignos de repousar debaixo da vibração das suas grandes asas diáfanas!
Ainda agora, ou condenados a penas extremas ou arrastando os seus passos no exílio «sôbolos rios que vão em Babilónia», os nossos amigos – nós chamamos nossos amigos, não só aos que professaram na comunhão integralista, mas a todos os que, num admirável desprendimento à antiga, trouxeram às aras da Pátria a semente invencível do seu holocausto e da sua fidelidade –, ainda agora os nossos amigos, ou presos, ou emigrados, são o penhor imorredoiro de que se acha de pé o trono dos Reis de Portugal. O que é imperioso como o mais imperioso dos deveres é que nunca mais nos atiremos para os acasos de uma luta suicida, levando lealdade, abnegação, heroísmo, mas não levando a ideia política, não levando uma mística, não levando a noção monárquica da Monarquia. «Os homens pensam primeiro», observa algures Jacques Bainville no seu elucidativo breviário, Histoire de trois générations. «Em seguida se determinam segundo a sua maneira de pensar. Eis porque importa pensar bem. Os erros dos governos e dos povos são sempre os erros da sua inteligência.» Era o que, por seu lado, já entendia Pascal, ao aconselhar-nos que, como base de ação, nos esforçássemos sobretudo em «bien penser».
Tais são os motivos por que se impõe, antes de mais nada, aos que persistem em se confessar monárquicos – não por uma estreita pertinácia de partido, mas por decisão deliberada da sua honestidade patriótica –, o ingresso pronto nas fileiras do Integralismo Lusitano, para que o nosso movimento encontre em terreno mais amplo as garantias de que carece para restaurar Portugal pela Monarquia. Não lho ordena somente o ponto agudo que o problema português atingiu.
Ordena-lho a própria defesa da sociedade, ameaçada de morte nos seus alicerces mais fundos pela loucura sinistra que parece subverter o mundo inteiro.
Materialista tanto na sua essência como nas suas formas variadas, a civilização moderna está em crise. Em crise estão as democracias nossas contemporâneas – ou se revistam com hipocrisia de manto e coroa, ou se apresentem pitorescamente de sobrecasaca e chapéu alto. Obrigadas pelo bolchevismo à conclusão legítima dos seus sofismas, já nada se segura no declive rápido por onde se despenharam. Capitalismo, parlamentarismo, plutocracia e burocracia, individualismo económico e individualismo social, não tardarão a descer como larvas às trevas inferiores do sepulcro. Até o próprio Clemenceau, alarmado, abertamente o proclama, reconhecendo a incapacidade da burguesia para evitar ou atrasar a sua falência miserável.
Que resta, pois? Ou a ditadura de Lenine, que, na expressão vigorosa de Vázquez de Mella, faz os ricos pobres, sem fazer os pobres ricos; ou a unidade forte do Poder, restituindo o equilíbrio à velha Europa pela sua volta à ordem tradicional bruscamente quebrada.
Escrevo de um país onde o Estado entrou em franca decomposição, porque é o Estado democrático de toda a parte, com o acompanhamento inevitável das suas clientelas insaciáveis e corruptoras. Mas aqui a nação resolve-se a retomar os seus direitos contra as oligarquias preponderantes. E não demorará muito que a outra Espanha – a Espanha que trabalha e quer viver – se sobreponha à Espanha que politiqueia e que não é hoje mais do que um abcesso, já próximo da sua extirpação.
«A necessidade de varrer, e varrer bem – o sublinhado não é nosso – há de satisfazer-se no momento oportuno», prevenia La Correspondencia Militar logo depois da queda voluntária de Maura. Ora o momento oportuno desenha-se perto, se é que não desceu já para cá do horizonte. Apela para ele «a outra Espanha» – a Espanha da política sábia da neutralidade, que lhe trouxe ouro e lhe poupou sangue, a Espanha da actividade milagrosa dos sindicatos católico-agrários, a Espanha que se consagrou ao Coração de Jesus e que, pela boca do seu Rei, perante uma assembleia de engenheiros, pedindo ao Monarca os elementos imprescindíveis para um largo plano de alevantamento pátrio, não se acobardou em declarar que «a Realeza é a tutela paternal dessas nobrezas espirituais – virtude, talento e valor – em que se resumem os frutos excelsos de uma raça».
A hora é da Espanha – da Espanha caluniada, da Espanha da ‘legenda negra’, mas que, sempre fiel a uma formidável estrutura histórica, descobriu nas suas reservas hereditárias o segredo de um ressurgimento, em que ninguém sonhava, vendo-a caída e inerme, como uma mulher de luto, quando os Estados Unidos lhe arrebataram as derradeiras colónias no ano trágico de 98. E aonde, para se salvar, irá a outra Espanha pedir apoio, senão às qualidades esquecidas das suas instituições monárquicas, senão à unidade forte do Poder pela dissolução completa do tipo napoleónico do Estado, que a estrangula, mutila e enfraquece? Eu creio que da Península se levanta um vento novo, como se acordássemos outra vez para a Cruzada. Já se estende para além dos Pirenéus. E a regência de um arquiduque, devolvendo à Hungria, com o assentimento dos Aliados, a tranquilidade perdida, é o primeiro indício da grande mudança que se dará no curso dos acontecimentos.
Assim se compreende que eu insista, e insista com urgência, para que os monárquicos portugueses se acolham a uma bandeira, que é de todos, porque é da Pátria. As nossas doutrinas, nascidas da experiência dos séculos, obtêm uma confirmação consoladora nas angustiosas circunstâncias actuais. Só elas guardam com o princípio que criou Portugal os quadros precisos para que a sindicalização inevitável da sociedade se realize dentro do molde cristão e corporativo. Renovadores que somos, sorriam-se de nós compassivamente os espíritos progressivos da nossa terra. Pois, como exemplo, as soluções apresentadas por Pequito Rebelo, numa campanha seguida de dois anos para a resolução da nossa questão agrária, foram, de um modo geral, também as soluções apresentadas em Espanha pelo ilustre ministro do Fomento no ministério transato de Maura, Sr. Ossório y Gallardo, para a resolução do problema rural na Andaluzia.
Eis porque – «como íamos dizendo no último dia» – só na Monarquia Orgânica, tradicional e antiparlamentarista reside a salvação da nossa Pátria. Monarquia descentralizadora tanto no administrativo como no económico, é a monarquia sempre moça dos Concelhos e da Casa dos Vinte-e-Quatro. Só ela dispõe de recursos de força e de flexibilidade para que haja governos estáveis e contínuos, sustentados e prestigiados pelo Rei na consecução do interesse nacional, que é o interesse da sua dinastia. Sem governos estáveis e contínuos, atuando fora da política e recrutados pelo critério técnico da competência nas classes devidamente organizadas, a valorização de Portugal não é possível. No entanto, a riqueza nacional é incalculável, embora, por desconhecida e inaproveitada, se considere o nosso país como um país à beira da insolvência e da ruína.
A Nação reconstituída pelo Município e pela Província, a Família unificada e enraizada pela indissolubilidade do matrimónio e pela vinculação da terra, a Produção dignificada e emancipada pelo estatuto coletivo do Trabalho, com o Rei velando ao alto sobre o tecido robusto dos lares e das oficinas, pela coordenação interna da Pátria e pela manutenção do seu valimento externo – era o que dizíamos no último dia, é o que continuamos dizendo sempre na flama ardente da nossa ardente fé nacionalista!
A mim mesmo o repito, como numa oração recolhida, com a lua de Agosto entrando-me pela janela aberta, e, vizinha vigilante e morena, a torre plateresca da catedral de Badajoz marcando com os seus sinos a marcha lenta das minhas vigílias de exilado. E porque Deus, poupando-me a golpes mais rudes, não quis que o meu sangue corresse, que nunca a ausência me sirva de desculpa para que, lá longe, o meu lugar permaneça deserto! Chamaram por mim, debruçado para a melancolia do Guadiana na tristeza desta paisagem só feita para a meditação das grandes tristezas. E confessando a Raça com o meu ardor de lusitano, olhos pregados na colina santa de Elvas – e dentro de alma, forte como nunca, a minha confiança nos destinos eternos da Pátria – que a resposta seja repetir singelamente como Frei Luís de León, de regresso à cátedra da sua amada Salamanca: «Ora, como íamos dizendo no último dia...»
Fundamentando-se em razões mais ou menos plausíveis, parece haver hoje quem conteste a veracidade do facto, que, todavia, uma tradição ininterrupta de séculos acreditou como autêntico. Mas tivesse, ou não, o glorioso escritor pronunciado a frase que se lhe atribui, a serenidade de espírito que ela vigorosamente nos comunica não lhe pertence em património absoluto. Pertence, como um sinal de consciência, a quantos, capazes de sofrerem paixão e morte pela obra de resgate que Deus lhes apontou para sua vocação social, não ignoram nunca que os homens passam depressa com o seu tropel de ódios, com o seu cortejo de violências, mas que não passa jamais toda a afirmação que é feita com amor e servida com sinceridade. Enquanto o ouro se funde e desaparece imediatamente na provação a que por experiência o sujeitem, nós vemos sempre a verdade renascer mais bela e mais forte, à flor dos seus eclipses, como se das emboscadas e das deserções que lhe obstruem o caminho tirasse uma energia inesperada e fecunda.
Acusado e cuspido na fé que a sua inteligência abraçava e o seu pensamento defendia, Frei Luís de León, regressando triunfante à cátedra da sua amada Salamanca, é um símbolo expressivo que gostosamente se depara à minha pena para fixar a comovida alegria com que nós regressamos também ao nosso posto, que é ao mesmo tempo cátedra e trincheira. Não nos desperdiçaremos a invetivar os crimes que à roda do nosso silêncio se desenrolaram. E para as omissões imperdoáveis de direção que nos poderiam ter atirado para uma catástrofe sem remédio, só buscaremos uma esponja em que se absorvam depressa. Responsabilidades não as sentimos, felizmente, pesar sobre nós. O que sentimos é a nossa hoste mais grossa e mais unida, talvez, porque a sua bandeira não é uma pessoa, mas sim um princípio!
Há quatro anos que nas colunas de uma revista de parca tiragem o Integralismo Lusitano lançava ao país os enunciados basilares da verdadeira ressurreição nacional. Não recapitulo as jornadas já percorridas, nem tão-pouco aludo à glória recente dos nossos companheiros, demonstrando como ninguém a adesão total das suas existências à causa que, sendo da Pátria, é soberana nos domínios da nossa vontade e das nossas aspirações. Santificada por heróis nos campos da guerra europeia, na expiação coletiva de Monsanto, tão rica de um oculto sentido espiritual, coube-lhe uma parte que orgulhosamente reclamamos para nós: a parte do soldado, a parte da obediência, a parte do sacrifício.
O Pelicano deixou de ser assim um alto emblema heráldico, estilizando a sua agonia contente sobre a cruz sangrenta de Cristo, para se tornar, em perpétua transubstanciação connosco, numa espécie de eucaristia nova, que é carne com a nossa carne e alma com a nossa alma. Não é outra a moral da derrota, regra certíssima de conduta nos trabalhos futuros, aprendizado permanente de disciplina e de renúncia, por onde a vitória há de surgir, reparadora e linda, quando sejamos dignos de repousar debaixo da vibração das suas grandes asas diáfanas!
Ainda agora, ou condenados a penas extremas ou arrastando os seus passos no exílio «sôbolos rios que vão em Babilónia», os nossos amigos – nós chamamos nossos amigos, não só aos que professaram na comunhão integralista, mas a todos os que, num admirável desprendimento à antiga, trouxeram às aras da Pátria a semente invencível do seu holocausto e da sua fidelidade –, ainda agora os nossos amigos, ou presos, ou emigrados, são o penhor imorredoiro de que se acha de pé o trono dos Reis de Portugal. O que é imperioso como o mais imperioso dos deveres é que nunca mais nos atiremos para os acasos de uma luta suicida, levando lealdade, abnegação, heroísmo, mas não levando a ideia política, não levando uma mística, não levando a noção monárquica da Monarquia. «Os homens pensam primeiro», observa algures Jacques Bainville no seu elucidativo breviário, Histoire de trois générations. «Em seguida se determinam segundo a sua maneira de pensar. Eis porque importa pensar bem. Os erros dos governos e dos povos são sempre os erros da sua inteligência.» Era o que, por seu lado, já entendia Pascal, ao aconselhar-nos que, como base de ação, nos esforçássemos sobretudo em «bien penser».
Tais são os motivos por que se impõe, antes de mais nada, aos que persistem em se confessar monárquicos – não por uma estreita pertinácia de partido, mas por decisão deliberada da sua honestidade patriótica –, o ingresso pronto nas fileiras do Integralismo Lusitano, para que o nosso movimento encontre em terreno mais amplo as garantias de que carece para restaurar Portugal pela Monarquia. Não lho ordena somente o ponto agudo que o problema português atingiu.
Ordena-lho a própria defesa da sociedade, ameaçada de morte nos seus alicerces mais fundos pela loucura sinistra que parece subverter o mundo inteiro.
Materialista tanto na sua essência como nas suas formas variadas, a civilização moderna está em crise. Em crise estão as democracias nossas contemporâneas – ou se revistam com hipocrisia de manto e coroa, ou se apresentem pitorescamente de sobrecasaca e chapéu alto. Obrigadas pelo bolchevismo à conclusão legítima dos seus sofismas, já nada se segura no declive rápido por onde se despenharam. Capitalismo, parlamentarismo, plutocracia e burocracia, individualismo económico e individualismo social, não tardarão a descer como larvas às trevas inferiores do sepulcro. Até o próprio Clemenceau, alarmado, abertamente o proclama, reconhecendo a incapacidade da burguesia para evitar ou atrasar a sua falência miserável.
Que resta, pois? Ou a ditadura de Lenine, que, na expressão vigorosa de Vázquez de Mella, faz os ricos pobres, sem fazer os pobres ricos; ou a unidade forte do Poder, restituindo o equilíbrio à velha Europa pela sua volta à ordem tradicional bruscamente quebrada.
Escrevo de um país onde o Estado entrou em franca decomposição, porque é o Estado democrático de toda a parte, com o acompanhamento inevitável das suas clientelas insaciáveis e corruptoras. Mas aqui a nação resolve-se a retomar os seus direitos contra as oligarquias preponderantes. E não demorará muito que a outra Espanha – a Espanha que trabalha e quer viver – se sobreponha à Espanha que politiqueia e que não é hoje mais do que um abcesso, já próximo da sua extirpação.
«A necessidade de varrer, e varrer bem – o sublinhado não é nosso – há de satisfazer-se no momento oportuno», prevenia La Correspondencia Militar logo depois da queda voluntária de Maura. Ora o momento oportuno desenha-se perto, se é que não desceu já para cá do horizonte. Apela para ele «a outra Espanha» – a Espanha da política sábia da neutralidade, que lhe trouxe ouro e lhe poupou sangue, a Espanha da actividade milagrosa dos sindicatos católico-agrários, a Espanha que se consagrou ao Coração de Jesus e que, pela boca do seu Rei, perante uma assembleia de engenheiros, pedindo ao Monarca os elementos imprescindíveis para um largo plano de alevantamento pátrio, não se acobardou em declarar que «a Realeza é a tutela paternal dessas nobrezas espirituais – virtude, talento e valor – em que se resumem os frutos excelsos de uma raça».
A hora é da Espanha – da Espanha caluniada, da Espanha da ‘legenda negra’, mas que, sempre fiel a uma formidável estrutura histórica, descobriu nas suas reservas hereditárias o segredo de um ressurgimento, em que ninguém sonhava, vendo-a caída e inerme, como uma mulher de luto, quando os Estados Unidos lhe arrebataram as derradeiras colónias no ano trágico de 98. E aonde, para se salvar, irá a outra Espanha pedir apoio, senão às qualidades esquecidas das suas instituições monárquicas, senão à unidade forte do Poder pela dissolução completa do tipo napoleónico do Estado, que a estrangula, mutila e enfraquece? Eu creio que da Península se levanta um vento novo, como se acordássemos outra vez para a Cruzada. Já se estende para além dos Pirenéus. E a regência de um arquiduque, devolvendo à Hungria, com o assentimento dos Aliados, a tranquilidade perdida, é o primeiro indício da grande mudança que se dará no curso dos acontecimentos.
Assim se compreende que eu insista, e insista com urgência, para que os monárquicos portugueses se acolham a uma bandeira, que é de todos, porque é da Pátria. As nossas doutrinas, nascidas da experiência dos séculos, obtêm uma confirmação consoladora nas angustiosas circunstâncias actuais. Só elas guardam com o princípio que criou Portugal os quadros precisos para que a sindicalização inevitável da sociedade se realize dentro do molde cristão e corporativo. Renovadores que somos, sorriam-se de nós compassivamente os espíritos progressivos da nossa terra. Pois, como exemplo, as soluções apresentadas por Pequito Rebelo, numa campanha seguida de dois anos para a resolução da nossa questão agrária, foram, de um modo geral, também as soluções apresentadas em Espanha pelo ilustre ministro do Fomento no ministério transato de Maura, Sr. Ossório y Gallardo, para a resolução do problema rural na Andaluzia.
Eis porque – «como íamos dizendo no último dia» – só na Monarquia Orgânica, tradicional e antiparlamentarista reside a salvação da nossa Pátria. Monarquia descentralizadora tanto no administrativo como no económico, é a monarquia sempre moça dos Concelhos e da Casa dos Vinte-e-Quatro. Só ela dispõe de recursos de força e de flexibilidade para que haja governos estáveis e contínuos, sustentados e prestigiados pelo Rei na consecução do interesse nacional, que é o interesse da sua dinastia. Sem governos estáveis e contínuos, atuando fora da política e recrutados pelo critério técnico da competência nas classes devidamente organizadas, a valorização de Portugal não é possível. No entanto, a riqueza nacional é incalculável, embora, por desconhecida e inaproveitada, se considere o nosso país como um país à beira da insolvência e da ruína.
A Nação reconstituída pelo Município e pela Província, a Família unificada e enraizada pela indissolubilidade do matrimónio e pela vinculação da terra, a Produção dignificada e emancipada pelo estatuto coletivo do Trabalho, com o Rei velando ao alto sobre o tecido robusto dos lares e das oficinas, pela coordenação interna da Pátria e pela manutenção do seu valimento externo – era o que dizíamos no último dia, é o que continuamos dizendo sempre na flama ardente da nossa ardente fé nacionalista!
A mim mesmo o repito, como numa oração recolhida, com a lua de Agosto entrando-me pela janela aberta, e, vizinha vigilante e morena, a torre plateresca da catedral de Badajoz marcando com os seus sinos a marcha lenta das minhas vigílias de exilado. E porque Deus, poupando-me a golpes mais rudes, não quis que o meu sangue corresse, que nunca a ausência me sirva de desculpa para que, lá longe, o meu lugar permaneça deserto! Chamaram por mim, debruçado para a melancolia do Guadiana na tristeza desta paisagem só feita para a meditação das grandes tristezas. E confessando a Raça com o meu ardor de lusitano, olhos pregados na colina santa de Elvas – e dentro de alma, forte como nunca, a minha confiança nos destinos eternos da Pátria – que a resposta seja repetir singelamente como Frei Luís de León, de regresso à cátedra da sua amada Salamanca: «Ora, como íamos dizendo no último dia...»
In Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926