A questão de Marrocos
António Sardinha
RESUMO
A Questão de Marrocos: Reflexões de António Sardinha e Contexto Histórico.
A Questão de Marrocos: Reflexões de António Sardinha e Contexto Histórico.
- A Europa termina no Atlas. Marrocos, e em especial Tânger, tem um significado estratégico importante para Portugal e Espanha. António Sardinha argumenta que, se Portugal tivesse entrado na guerra com objetivos claros, Tânger seria um alvo a ser alcançado. Lamenta que os portugueses não tenham percebido o verdadeiro valor estratégico de Marrocos, um erro partilhado pelos espanhóis. A visão depreciativa de que "a África começa nos Pirinéus" é contrastada com o ensinamento histórico de que a Europa termina no Atlas, destacando o papel político e militar fundamental que Marrocos representa para as nações ibéricas.
- A História da Península e o Papel de França. Moniz Barreto observou que as populações da Península dominam ou são dominadas pelas que habitam a África fronteiriça, e advertiu que seria mais um capítulo na "crónica lamentável da decadência peninsular" se a região marroquina, outrora conquistada por Portugal e Espanha, caísse nas mãos de terceiros, nomeadamente a França. A França, ao garantir uma fatia significativa de Marrocos, acrescentou mais um episódio negativo à história da Península.
- Tânger: Internacionalização e o Papel das Potências. O relatório de Maurice Long sugere que a internacionalização de Tânger não passará de uma mera representação das colónias estrangeiras no município, mantendo o sultão como soberano nominal, mas colocando o controlo efetivo nas mãos da França. Tal proposta alarmou os setores mais esclarecidos da Espanha, que alertaram para o perigo que essa manobra representaria para as futuras relações hispano-francesas.
- Irredentismo e a Identidade Peninsular. O conceito de irredentismo é explorado a partir das reflexões de Edmundo González Blanco, que defende a constituição de uma grande nacionalidade líbio-ibérica, não como um Estado único, mas como uma comunhão de Estados e Pátrias unidas pelos laços de origem e cultura. Para o autor, Portugal e Espanha, frente à pressão das repúblicas da América Latina, necessitam reconhecer que partilham um tipo civilizacional distinto — o tipo ibérico ou peninsular.
- O Destino de Tânger e o Futuro Peninsular. António Sardinha resigna-se à aceitação do irredentismo peninsular relativamente a Tânger, reconhecendo os laços históricos de ocupação e domínio que justificariam a sua pertença a Portugal. Contudo, lamenta que os sacrifícios de Portugal na Grande Guerra não tenham sido reconhecidos, nem sequer houve qualquer reivindicação de Tânger durante o Congresso da Paz. Diante da impossibilidade de recuperar Tânger, defende que Portugal não deve ser indiferente ao seu destino.
- Lições da História e Advertências. O relatório de Barthou enaltece as riquezas de Marrocos e Sardinha lamenta que Portugal e Espanha nunca tenham conseguido construir uma forte aliança, preferindo sempre políticas de conquista e absorção. Na divisão de Marrocos, Portugal teria por direito a região atlântica, enquanto à Espanha caberia o Levante. A falta de uma aliança explicaria, em parte, o insucesso das ambições peninsulares em África.
- Reflexão Final e Perspetivas. Moniz Barreto previa que a incapacidade dos muçulmanos do Magrebe para formar um Estado forte teria consequências para toda a região, em especial para a Espanha, para quem o controlo do Estreito é vital para a sua segurança nacional. Portugal e Espanha encontram-se, pois, desarmados e sem influência suficiente para protestar ou influenciar o destino da região. António Sardinha termina com uma nota de pessimismo e outra de esperança: após o fim da Grande Guerra, uma nova guerra poderá surgir em breve, em resultado das decisões tomadas em Versalhes. Sardinha deseja que Portugal, entretanto reorganizado e fortalecido, possa restaurar-se das calamidades sofridas e, quem sabe, recuperar Tânger e reassumir o papel de protagonista no Atlântico, tornando-o, como sonhou D. João IV, um verdadeiro “mare nostrum” português.
A QUESTÃO DE MARROCOS
Conversemos hoje de Marrocos. Para os portugueses nada há como o mês de Agosto para se falar de Marrocos. Agosto é o mês de Ceuta e o mês de Alcácer-Quibir – o mês que encerra na marcha lenta dos seus dias como que o ciclo completo da nossa passagem pelo ‘Algarve de Além-Mar’.
Pois a questão de Marrocos está no tabuleiro da diplomacia e, especialmente, o problema intrincado da posse de Tânger. Se tivéssemos ido para a guerra com objetivos claros, com clara finalidade patriótica, naturalmente Tânger seria um dos alvos a atingir. Mas nós nunca nos capacitámos da valia de Marrocos. Não só para nós, portugueses, como para os nossos irmãos espanhóis. Ao contrário do ar depreciativo com que muito espírito progressivo costuma afirmar que a África começa nos Pirenéus, as ciências ensinam-nos que, realmente, a Europa onde acaba é no Atlas. A importância política e militar que para os dois povos peninsulares significa o retalhado sultanato, nosso vizinho, encontra-se bem inscrita nas páginas patentes da história. Já em 1891, num admirável estudo, publicado na Revista de Portugal sob o título «A situação geral da Europa e a política exterior de Portugal», Moniz Barreto observa: «Um ilustre historiador inglês pôde afirmar ser lei da história que as populações da Península dominem ou sejam dominadas pelas que estanciam na região africana que lhes fica fronteira.»
E logo a seguir o malogrado crítico acrescenta, num rasgo de veemência, como se adivinhasse a triste realidade presente: «Seria mais um capítulo a ajuntar à crónica lamentável da decadência peninsular, se essa região marroquina, aberta à ação dos dois povos cristãos pela espada de D. João I e dos conquistadores de Ceuta, ilustrada pela valentia dos fronteiros de África, dourada pela fama robusta de D. Afonso V e pela glória nascente de D. João II, consagrada pelo apostolado de Raimundo Lullio, pelo martírio do Infante Santo, pelo sangue de D. Sebastião, venha a cair, como Tunis, arrancada por nós aos bárbaros, nas mãos daqueles que no século XVI se ligavam aos inimigos da cultura europeia em proveito das suas conveniências políticas e dos seus interesses comerciais no Levante.»
É sangrenta, mas verdadeira, a referência de Moniz Barreto à França, que, desde os alvores da Renascença, se tornou, no coração da Europa, um elemento de perturbação e cobiça insaciável. Nas mãos da França caiu o melhor bocado de Marrocos, adicionando-se assim mais esse capítulo à longa crónica da decadência peninsular. Sem natalidade e sem oiro, não sabemos como a França, falta de braços e de numerário, procurará resolver os instantes problemas que o seu imperialismo sôfrego lhe acarreta de futuro. O que sabemos é que o regímen de internacionalização, a que se sujeitou Tânger pelo artigo 7.º do tratado de 1912, se encontra em riscos de ser sofismado por parte da França, atacada agora do mal que tanto lhe doía nos alemães.
Não se deduz outra coisa do informe apresentado pelo deputado Maurice Long, relator da Comissão Parlamentar do Tratado de Paz, no capítulo referente aos assuntos de Marrocos. Sustenta Maurice Long que a internacionalização de Tânger, pelo espírito do tratado de 1912, não importará em nada mais que uma representação dada às diversas colónias estrangeiras no município a constituir-se em Tânger. Deste modo, Tânger e os seus arredores ficam debaixo da soberania nominal do sultão e da efetiva da França.
O informe de Maurice Long causou alarme nos meios espanhóis mais esclarecidos. A distinta individualidade que, sob o pseudónimo de Pedro Tardo, envia de Paris para o diário madrileno El Debate interessantíssimas notas de política exterior, comentava, a propósito dos malabarismos interpretativos de Maurice Long, que «se o governo francês intentasse pôr em prática o informe de M. Long, ninguém criaria um abismo como esse nas futuras relações hispano-francesas». E Pedro Tardo, esquecendo-se evidentemente de Portugal, concluía que «aos irredentismos forjados pelo Tratado de Versailles se somaria mais um».
Não percebo bem como a anexação de Tânger pela França constituiria, em presença da Espanha, um irredentismo a resolver. Compreendo que a posse de Tânger seja para a Espanha um ponto primacial no seu programa expansivo – uma condição de vida para o desenvolvimento da sua preponderância em Marrocos. Agora o que me parece a mim é que se força bastante o aspeto da questão atribuindo-se-lhe um carácter irredentista que não lhe cabe absolutamente. Se há irredentismo é em relação a Portugal, e não em relação à Espanha. Tânger, hoje internacionalizada, deveria pertencer-nos, exactamente porque já nos pertenceu e porque deixámos nela, tanto nos habitantes, como na própria fisionomia da cidade, os sinais inconfundíveis da nossa supremacia e da nossa penetração.
Eu não ignoro talvez o sentido em que Pedro Tardo empregou a palavra irredentismo. E não o ignoro, porque de há muito sou da opinião de Edmundo González Blanco no seu livro España ante el conflicto europeo, apontando como «um novo ideal reconstituinte e de saude para Espanha... a constituição de uma grande nacionalidade líbio-ibérica conforme as leis da sua natureza histórica e antropológica». Claro que por nacionalidade ‘libio-ibérica’ teremos que entender, não um Estado apenas, não uma pátria única, mas uma comunhão de Estados e de Pátrias, que, unidos pelo mesmo vínculo de origem e de cultura, espontaneamente se aliavam para manterem no mundo os direitos do seu sangue e da sua vocação social.
Ora, Portugal e Espanha, solicitados do outro lado do mar pela pressão cada vez mais forte das repúblicas da América indevidamente chamada ‘latina’, precisam de reconhecer quanto antes que, se ao tipo anglo-saxão corresponde um modo especial de civilização e de expansibilidade, há um tipo ibérico, peninsular, ou hispânico, como queiram, mais dotado do que aquele, porque se reproduz com mais fecundidade e deixou atrás de si uma sementeira infinita de nações.
Esse tipo é o tipo do homo-mediterranensis, em que indubitavelmente o berbere se filia. Nosso parente pelos mais apertados elos étnicos e institucionais, só o separa de nós o grau de sociabilidade atrasada em que o muçulmanismo o deixou. De resto, tanto na sua tendência monogamica, como no sistema comunal das suas aldeias, o berbere, já hoje deslindado nos mais confusos dos seus ramos genealógicos, não pode subtrair-se ao direito que nos assiste de o trazermos até nós. Se a invasão maometana na Península se moderou ao contacto das populações vencidas, é que os exércitos conquistadores compunham-se sensivelmente de uma maioria desproporcionada de berberes. Daí a expressão felicíssima com que um insigne arabista espanhol designou como ‘guerras civis’, como puras ‘guerras de religião’, o duelo secular da Reconquista.
É com este critério que eu me resigno a aceitar o ‘irredentismo’ assinalado por Pedro Tardo, a propósito da disputa, que se me assegura iminente, em torno da soberania de Tânger. Irredentismo, relativamente, não à Espanha, mas à Península, acrescendo circunstâncias históricas de ocupação e senhorio em favor de Portugal. Títulos nominais que ninguém respeitará, que tristeza se não sente, ao vermos como o nosso sacrifício, dos maiores sem dúvidas na Grande Guerra, não pesa na balança dos quatro burgueses de Versalhes, para que, ao menos, devolvendo-se-nos um torrão que já foi nosso, se nos rasgasse uma possibilidade de reparação para a nossa incalculável ruína económica! E a tristeza é mais funda e mais dolorosa, se nos lembrarmos que nem uma boca se abriu reclamando Tânger – para que diabo servirá isso?! – entre as repimpadas serenidades que nos representaram no Congresso da Paz!
Impossibilitados assim de ficarmos com Tânger, não nos é lícito, em todo o caso, permanecermos indiferentes perante a sua sorte. Ou a internacionalização se mantém – ou que Tânger não seja alienada, em benefício da França, às legítimas pretensões peninsulares. Não é o que a França deseja e quer. Mas será o que a Espanha se há-de empenhar, decerto, em obter. A questão assume, no entanto, o seu período agudo. Depois do informe de Maurice Long, segue-se com mais larga significação o do antigo ministro Barthou. Coincidem as vistas de ambos. E a imprensa espanhola, nos seus variados sectores, surge-nos fundamente preocupada. «O regimen de um Tânger francês – afirma El Debate – resultaria incompatível com a presença da Espanha no Noroeste africano, presença que é necessária para a sua vida autónoma.» E o jornalista remata o seu pensamento: «Eis porque os olhos dos espanhóis patriotas se não devem apartar de Tânger, como se não devem apartar do estreito calpense, nem de Portugal, nem das nações da América que falam o idioma castelhano.»
O relatório de Barthou é todo um hino entusiástico aos tesoiros inesgotáveis de Marrocos. Sem me abandonar a lamentações doentias, como eu meço bem que erro mortal não tem sido para as duas pátrias o facto de sempre a política peninsular se haver dirigido, não pela ideia de uma aliança forte e amiga, mas pela ideia negativa da conquista e de absorção! Mais uma vez as suas consequências se acham a descoberto! Na partilha de Marrocos, naturalmente, caber-nos-ia a região atlântica, como a região levantina caberia à Espanha. Conseguiríamos agora o que o império do Mar não nos deixou conseguir em outros tempos, embora D. Sebastião, desacreditado e incompreendido, tentasse, ainda que tarde, imprimir emenda ao rumo que Portugal levava, exaurido na moleza e nas sangrias do Oriente. Mas tudo se desfez na poeira de um sonho que se tocou de perto e esteve quase a fixar-se em realidade! Só nos resta a interrogação da atitude da Espanha, quando terminantemente o problema se ponha.
Porque, repito, não sendo nossa, não nos é indiferente que Tânger seja da Espanha ou da França. Tânger, em poder da França, é evidentemente a Península terra de passagem – zona aberta a penetrações desnacionalizadoras e perigosas. E eu penso como, já em 1891, Moniz Barreto pensava: «A unidade moral da Península significa a segurança das nações que a constituem, e mais uma garantia para a causa da paz e da cultura europeia. A França em Tânger é o desafio, a expoliação, a ameaça permanente, como que um outro Gibraltar a prender-nos os movimentos.» Que visão de profeta não iluminava Moniz Barreto ao caracterizar o conflito, positivamente nos termos em que ele se desenha!
«Quem tiver estudado a história da Europa nos últimos trinta anos, sabe que, ao mesmo tempo que as condições do equilíbrio aumentavam, os problemas constitucionais da diplomacia europeia se têm definido e encaminhado para uma solução que ninguém pode garantir que seja pacifica», ponderava Moniz Barreto. «Entre esses problemas constitucionais conta-se aquilo a que se pode chamar desde já a Questão do Ocidente. A incapacidade a um tempo social e étnica dos muçulmanos do Magrebe para se constituírem num grande Estado viável e progressivo, envolve na extremidade ocidental do Mediterrâneo consequências análogas às que condições análogas determinam na extremidade oriental. A questão dos estreitos reproduz-se na ponta oposta do mar em que se elaborou a velha cultura europeia e atrai a atenção de todos os que têm interesses presos à situação das passagens marítimas. E entre esses, a Espanha, para quem a questão do Estreito é não só de liberdade comercial, mas de segurança nacional, não pode ser a última a precaver-se.»
Eis o que está para nós, Portugal e Espanha, em risco de suceder. Desarmados, inermes, nem temos voz para o nosso protesto, nem força com que o hajamos de sustentar. Mas, discursando num cemitério belga, o pitoresco Wilson já anunciou que esta guerra fora a penúltima. Resta-nos a última. Ninguém dá mais de dez anos para que os fermentos de ódio, espalhados pelos quatro burgueses da Versalhes, se desflagrem numa nova rajada de sangue e de destruição. O equilíbrio, alvo sapiente das velhas monarquias europeias, desfeito pela violência, só pela violência se recuperará. Com a Córsega, Nice e a Sabóia inscritas na bandeira do seu irredentismo, a Itália, potência mediterrânea a competir com a França, não irá mais no logro da guerra finda. Qual a atitude da Espanha? A da neutralidade – impossível. Pedro Tardo já o entrevê, aludindo de leve às consequências da cobiça gaulesa pelo que respeita a Tânger. Dez anos é pouco tempo, mas em dez anos salva-se um país. Deus permitisse que Portugal, reorganizado pela ação vigorosa e consciente da sua Realeza tradicional, pudesse então restaurar-se das desgraças e das ignomínias em que a vitória agora sordidamente o abandonou! Tânger seria decerto uma das recompensas. E com Tânger, um passo andado para que, cingido entre tantas nações de origem peninsular, o Atlântico se tornasse deveras, como já foi, e como o sonhou el-rei D. João IV, um verdadeiro lago português, um indisputado «mare nostrum».
Agosto, 1919.
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