Os sapos de Clóvis
António Sardinha
António Sardinha utiliza a lenda dos “sapos de Clóvis” para simbolizar o regresso dos males à França sempre que esta se afasta dos valores cristãos e monárquicos, contrapondo o lírio (lis) ao sapo como símbolos da identidade nacional.
Pontos essenciais
- António Sardinha começa por relativizar acontecimentos noticiosos internacionais e nacionais, destacando que a verdadeira novidade da semana foi o discurso de Briand em Saint-Chamont, em 20 de agosto de 1919.
- Briand apresenta-se como moderado entre monárquicos e revolucionários, mas denuncia o fim da “união sagrada” que uniu a França durante a guerra, mostrando preocupação com o crescimento do monarquismo no país.
- Sardinha critica a posição de Briand, argumentando que a república francesa só sobrevive à custa da degradação das suas energias históricas e que a unidade nacional está associada à monarquia.
- Contrasta o discurso de Briand com a celebração nacional dos mortos em Juilly, evocando o apelo “les morts, debout!” como símbolo da força moral e espiritual da França, baseada na sua tradição católica e monárquica.
- Destaca o papel dos reis e da tradição católica na defesa e reconstrução da França, sugerindo que a vitória e a integridade do país se devem à herança monárquica e religiosa.
- Homenageia figuras católicas e realistas que se sacrificaram pela França, contrapondo-as à literatura e ideologia revolucionária.
- Critica a França oficial e republicana, defendendo quer foi a França religiosa, realista e tradicional, a manter viva a alma nacional durante a guerra.
- Sardinha conclui que o discurso de Briand marca o regresso da guerra interna em França, criticando a oratória do político e apelando ao ressurgimento da “verdadeira França”, fiel às suas raízes.
OS SAPOS DE CLÓVIS
A grande novidade da semana não foram as festas da Paz em Brook, na ilha de Wight, onde, numa carreira pedestre, com um handicap de cerca de 100 metros, correram ao desafio o general Selly, o ministro da Aviação e o Bispo protestante de Peterborough, ficando desclassificado o general e sendo o ministro humilhantemente vencido pelo prelado. Nem tão-pouco me parece que fosse aquele rumor, chamemos-lhe assim, transmitido pela diplomacia italiana, de que se está preparando em segredo a união da Hungria com a Áustria e com a Baviera, para que a Mittel-Europa se reconstitua e volte a prevalecer nos antigos Impérios Centrais a hegemonia germânica. Engana-se também quem suponha que seja a atitude do Senado norte-americano, declarando anticonstitucional, pela comissão respetiva, o convénio de aliança defensiva dos Estados Unidos com a França. E muito menos se me afigura de que seria a notícia espalhada pela imprensa europeia, de que o arquiduque José se encontra disposto a retirar-se e a aguardar «como simples particular» o resultado das eleições.
Mais do que a corrida pitoresca de Brook, com um bispo dando à veneranda perna e um ministro caindo aqui, além me levanto, para no fim deixar tão mal parada a supremacia do Poder Civil perante os manejos da Reação; mais, muito mais do que o misterioso enigma que é hoje, para quem não saiba adivinhar nas entrelinhas, o destino da terra de Santo-Estêvão e de que a diplomacia italiana, devolvendo-se à política de Crispi, procura tirar um pesadelo com que perturbe a débil e assustadiça vitória dos Aliados; mais ainda do que esse estrondoso sucesso de Wilson – o «dos 14 pontos e dos 36 dentes», no frase gráfica de Gabriele d’Annunzio –, seu compadre nos bons combates pelo Direito, pela Liberdade e pela Justiça; e não falando no resultado que o arquiduque José aguardará das eleições húngaras, retirando-se ao simples estado de particular; mais do que tudo isso, mesmo muito mais do que se disse e não se disse, a grande novidade da semana, quanto a mim e salvo melhor parecer, foi o discurso pronunciado por Briand em Saint-Chamont no passado dia 20 de Agosto.
Apresentou-se Briand como o homem do ‘justo meio’ entre os direitistas que conspiram pelo regresso do Rei, nas suas próprias palavras, e os inflamados que, na esteira de Louguet e Mayrás, se atiram para a quimera sangrenta do bolchevismo. Porta-voz da concórdia na hora do perigo, como enfaticamente se intitulou, é Briand quem se apressa a denunciar como extinta a ‘união-sagrada’, que tornou viável a resistência da França. E sobre o corpo da pátria desfeita e inerme, ei-lo que levanta de novo a bandeira fratricida do partidarismo. Não oculta Briand a sua preocupação pela sorte futura da república, trabalhada por correntes diversas e irreconciliavelmente antagónicas. «Os exércitos da república é que venceram e é impossível separar a França da república.» E à roda deste motivo, o discurso do tribuno se desenrolou, arrastado e odiento, não faltando à convocação de Briand nenhum dos lugares-comuns do velho radicalismo burguês.
O que é certo é que nas reticências de Briand transparece bem um manifesto receio pela efervescência crescente do monarquismo em França. E, cândido à força de cínico, ou cínico à força de cândido, Briand não titubeia em reconhecer que, se a ‘união-sagrada’ salvou a França da derrota inevitável, não pode de modo algum consentir-se que sirva agora de conduto para que voltem outra vez ao decapitado trono de São Luís os lises augustíssimos de Santa Clotilde e de Santa Joana d’Arc. Nós concluímos, com o experimentalismo das nossas doutrinas, que sempre unidade nacional é sinónimo de Monarquia. O próprio Briand se encarrega de o demonstrar, convencendo-nos eloquentemente, se de mais elementos a nossa convicção necessitasse, que a república, se vive nos países de robusta estrutura histórica, só vive pelo vilipêndio e pela degradação das energias ancestrais de que se alimenta a alma coletiva da pátria.
Contrasta singularmente o discurso de Briand com a intenção altíssima da festa que a França inteira dedicou, há pouco mais de quinze dias, ao célebre apelo aos mortos em Juilly. «Les morts, debout!» – bradara entre os clamores desencontrados da batalha a voz desesperada de um oficial, ao achar-se sem ninguém, num arranco de desesperado heroísmo.
Não sei se, caídos, de pupila coalhada e vítrea, os mortos se ergueram de sobre o chão, gotejantes de sangue, com as feridas abrindo como grandes rosas carnudas. Não só em Juilly, mas ao longo de toda uma expiação dolorosíssima, cujo sentido espiritual parece já esquecido, o que eu sei é que a França se viu assistida unicamente dos valores morais do passado.
Acudiu-lhe a sua dupla tradição católica e monárquica, ressuscitada por um milagre súbito ante a consciência da catástrofe iminente. A integridade da Pátria, ameaçada de perdição, assegurou-se pela presença eterna de quantos a haviam outrora cimentado e fortalecido. E, para exemplo duradoiro e profundo, tão desabituada já a França do amparo paternal dos seus Reis, é ainda à extraordinária obra militar e diplomática deles que recorre, como a um tesoiro desprezado, se quer cingir-se dos loiros difíceis da vitória.
Assim, no espraiar da investida alemã, são as defesas de Luís XIV junto a Calais que detêm o passo do inimigo. A pertinácia encarniçada que, desde os mais recuados tempos, a monarquia francesa empregou na posse do bispado de Verdun é justificada pelo testemunho dos acontecimentos, marcando como nunca a importância dessa guarda avançada dos caminhos de Paris. Embora sem a continuidade e sem a inteligência de uma larga preparação dinástica, que política procura seguir Clemenceau, esforçando-se pela pulverização da Alemanha e pelo predomínio da França nas margens do Reno, senão a política secular de uma série ilustre de reis, que do seu país fizeram uma obra de génio governativo? E se os Estados Unidos intervêm na altura em que a França ia fraquejar sem remédio, deve-se à memória caluniada de Luís XVI, protetor da independência da Norte-América, o entusiasmo que facilitou a rápida organização de tão decisivo socorro. Pela unidade do princípio que encarnaram, mesmo das cinzas do túmulo, os herdeiros de São Luís preveniam das incertezas do futuro os destinos gloriosos do seu antigo reino.
E não insisto eu, entrando no campo das insondáveis imolações individuais, no procedimento sem-par da mocidade católica e realista que, entrevendo já a guerra nas páginas do inquérito memorando de Agathon, selou, pelo holocausto ardente da sua vida, a esperança com que olhava a face radiosa da França-Madre. Basta que recorde, contra a literatura embusteira da ocasião – torpemente simbolizada no Feu, de Barbusse – Le Sacrifice, de Henri Massis, e Le Réveil de l’esprit, de Vallery-Radot, ambos soldados na primeira linha das trincheiras, talvez vítimas ambos da sua desvelada obrigação de patriotas, que do amor a Cristo e às verdades da Igreja tiraram o melhor alento com que, ‘Homens da Dor’ – na imagem expressiva de Valléry-Radot, ofereciam a Deus as suas existências pelo pecado comum da França revolucionária. Por uma das apoteoses que se esvaem depressa na poeira doirada das coisas inúteis, ninguém olvidará mais a magnífica exaltação mística de Charles Péguy, entoando um novo De profundis, já cheio do estremecimento sacro da libertação, aos quatro ventos da França devastada: «Heureux ceux qui sont morts pour la Terre charnelle, / Mais pourvu que ce fût dans une juste guerre! / [...] / Heureux ceux qui sont morts dans les grandes batailles, / Couchés dessus le sol à la face de Dieu!» [“Bem-aventurados os que morreram pela terra carnal, / Mas desde que fosse numa guerra justa! / [...] / Bem-aventurados os que morreram em grandes batalhas, / Deitados no chão perante Deus!”]
E se a inspiração raciniana se acendesse novamente para levantar uma segunda galeria de figuras imortais, nós veríamos desfilar a coragem desmedida e grave de Léon de Montesquiou, de quem alguém disse que na sua campa se deveria inscrever, não o ci-git de todos os epitáfios, mas um vigoroso «Ici commande Léon de Montesquiou». Ao seu lado, como um inextinguível sinal da Cruz, pairaria, coado e imerso, o gesto último do neto de Renan, apertando o rosário e a espada à hora extrema, no mesmo anseio sublime de redenção. Rostos calmos de mulheres adoçariam com frequência essa formidável ressurreição dos Mortos. E seria a filha de Taine, levando aos hospitais o carinho tutelar da sua crença religiosa. Seria a angústia nobilíssima da senhora de Castelnau, com o marido e os três filhos em campanha, perguntando serenamente ao confessor que hesitava em lhe comunicar a morte de um deles: «Sossegue, meu Padre! Eu só desejo saber qual é que foi!»
Tal é a França da União-sagrada, escarnecida e cuspida pela França oficial, que, às vésperas da guerra, afirmava pela boca de Viviani, no congresso radical de Pau, querer apagar as estrelas no céu. É a França religiosa dos grandes bispos admiráveis, a França das irmãzinhas condecoradas, a França do clero rural, morrendo bem e ajudando a bem morrer. É a França realista de Maurras e Daudet, denunciando a cumplicidade dos poderes públicos com os planos do inimigo e pondo diariamente em relevo o crime do estrangeiro de dentro aliado ao estrangeiro de fora. É ainda a França de Maurice Barrès, carne e verbo das aspirações de tanta aspiração anónima e confusa, que conseguiu durante quatro anos manter em elevação perpétua a alma retalhada do seu país. Pois é essa França que Briand, no discurso de Saint-Chamont, acaba de denunciar como perigosa para o futuro da pátria vencedora, já que o não foi para sofrer e morrer por ela durante uma agonia sem igual na história.
As considerações que naturalmente se nos suscitam diante de uma impudência tamanha não nos alarmam nem nos surpreendem. Aqui e além, neste mundo e no outro, o espírito maçónico e democrático é, pela condição de estirpe, um espírito que divide e que esteriliza. Nós calculamos bem que, se para a França eterna, para a França que não se afundou nas vergonhas de uma república imoral e suicida, a ‘União sagrada’ significou um pacto sincero e alevantado, para aqueles que lho propuseram, receando mais pela sorte das suas situações do que pela sobrevivência da pátria, não passou de um disfarce, de uma máscara hipócrita, que antes do tempo arrancaram do rosto, não podendo suportá-la mais. E eu lembro-me, porque marca bem a vileza da atitude de Briand e dos seus sequazes, da lenda piedosa que nos conta a origem dos três lises imaculados da bandeira branca da França de São Luís, de Henrique IV e do conde de Chambord.
«Lê-se nas histórias francesas – informa um clássico – que a Clodoveu, primeiro Rei Cristão da França, quando se batizou, lhe foram enviadas do céu três flores-de-lis por armas, em lugar dos três sapos abomináveis que usava antes de receber o batismo.» Roubando à lenda o seu discreto perfume de hagiológio, pretendem os heraldistas explicar que o lis não é mais que a estilização lenta dos sapos de Clóvis. Seja, porém, como for, o lis desponta com a França cristã. E desde o ato solene de São Remígio, impondo as mãos ungidas sobre a cabeça bárbara de um chefe franco, o lis adeja, como um sorriso de graça, em tudo quanto a França missionária realiza para bem da Cristandade e aumento da Civilização. Mas logo que os lises se conspurcam e lhes falta a oculta seiva da fé em que se retemperam e remoçam, nós vemos imediatamente reaparecer os sapos hediondos de Clóvis. Expulsou a Revolução das suas insígnias os belos lises tradicionais. E o que foi o terror – o que foi o sadismo louco dos falsos erros de 89 – senão a volta dos sapos de Clóvis à França desorganizada, fora do cajado amorável dos seus monarcas e dos seus sacerdotes?
Como os lises haviam florido no estandarte preso de pano de cor, afigurava-se-nos que floririam também por sobre a França redimida pelas orações dos seus santos e pelo sacrifício dos seus heróis. O grito formidável «les morts, debout!», comemorado a 4 de Agosto em todas as comunas francesas, é o apelo inconsciente de um povo às antigas flores da Realeza, detentoras da energia ancestral que criou a pátria e a manteve, segura e unida. Iam os lises apontar de novo, entre ruínas calcinadas e lastimosas, num chão ulcerado pelo furor de mais de cem batalhas. E logo os sapos de Clóvis, renascendo da primitiva forma, lançaram sobre eles o seu hálito envenenado e pestilento. É que a história de França oscila entre dois extremos: ou o lis ou o sapo, ou Psichari ou Briand.
Aqui está, leitor amigo – à boa maneira de antanho –, porque no discurso de Briand consistiu a grande novidade da semana. Não me lograram impressionar tanto, nem as canelas venerandas de um bispo humilhando em público e raso a supremacia do poder civil, nem os engasgados apertos de mestre Wilson, «o dos 14 pontos e dos 36 dentes». Depois da guerra no exterior, a França vai regressar ao seu regime permanente de guerra no interior. Assim nas democracias consolida a paz quem não soube preparar a guerra. A oratória impudica de Briand é como o ladrido de um cão atirado contra uma sepultura. Tem a palavra agora a outra França – a verdadeira França. Chegou deveras o momento de todos gritarem: «les morts, debout!» E os mortos, como em Juilly, não faltarão certamente à chamada.
Agosto, 1919.
Mais do que a corrida pitoresca de Brook, com um bispo dando à veneranda perna e um ministro caindo aqui, além me levanto, para no fim deixar tão mal parada a supremacia do Poder Civil perante os manejos da Reação; mais, muito mais do que o misterioso enigma que é hoje, para quem não saiba adivinhar nas entrelinhas, o destino da terra de Santo-Estêvão e de que a diplomacia italiana, devolvendo-se à política de Crispi, procura tirar um pesadelo com que perturbe a débil e assustadiça vitória dos Aliados; mais ainda do que esse estrondoso sucesso de Wilson – o «dos 14 pontos e dos 36 dentes», no frase gráfica de Gabriele d’Annunzio –, seu compadre nos bons combates pelo Direito, pela Liberdade e pela Justiça; e não falando no resultado que o arquiduque José aguardará das eleições húngaras, retirando-se ao simples estado de particular; mais do que tudo isso, mesmo muito mais do que se disse e não se disse, a grande novidade da semana, quanto a mim e salvo melhor parecer, foi o discurso pronunciado por Briand em Saint-Chamont no passado dia 20 de Agosto.
Apresentou-se Briand como o homem do ‘justo meio’ entre os direitistas que conspiram pelo regresso do Rei, nas suas próprias palavras, e os inflamados que, na esteira de Louguet e Mayrás, se atiram para a quimera sangrenta do bolchevismo. Porta-voz da concórdia na hora do perigo, como enfaticamente se intitulou, é Briand quem se apressa a denunciar como extinta a ‘união-sagrada’, que tornou viável a resistência da França. E sobre o corpo da pátria desfeita e inerme, ei-lo que levanta de novo a bandeira fratricida do partidarismo. Não oculta Briand a sua preocupação pela sorte futura da república, trabalhada por correntes diversas e irreconciliavelmente antagónicas. «Os exércitos da república é que venceram e é impossível separar a França da república.» E à roda deste motivo, o discurso do tribuno se desenrolou, arrastado e odiento, não faltando à convocação de Briand nenhum dos lugares-comuns do velho radicalismo burguês.
O que é certo é que nas reticências de Briand transparece bem um manifesto receio pela efervescência crescente do monarquismo em França. E, cândido à força de cínico, ou cínico à força de cândido, Briand não titubeia em reconhecer que, se a ‘união-sagrada’ salvou a França da derrota inevitável, não pode de modo algum consentir-se que sirva agora de conduto para que voltem outra vez ao decapitado trono de São Luís os lises augustíssimos de Santa Clotilde e de Santa Joana d’Arc. Nós concluímos, com o experimentalismo das nossas doutrinas, que sempre unidade nacional é sinónimo de Monarquia. O próprio Briand se encarrega de o demonstrar, convencendo-nos eloquentemente, se de mais elementos a nossa convicção necessitasse, que a república, se vive nos países de robusta estrutura histórica, só vive pelo vilipêndio e pela degradação das energias ancestrais de que se alimenta a alma coletiva da pátria.
Contrasta singularmente o discurso de Briand com a intenção altíssima da festa que a França inteira dedicou, há pouco mais de quinze dias, ao célebre apelo aos mortos em Juilly. «Les morts, debout!» – bradara entre os clamores desencontrados da batalha a voz desesperada de um oficial, ao achar-se sem ninguém, num arranco de desesperado heroísmo.
Não sei se, caídos, de pupila coalhada e vítrea, os mortos se ergueram de sobre o chão, gotejantes de sangue, com as feridas abrindo como grandes rosas carnudas. Não só em Juilly, mas ao longo de toda uma expiação dolorosíssima, cujo sentido espiritual parece já esquecido, o que eu sei é que a França se viu assistida unicamente dos valores morais do passado.
Acudiu-lhe a sua dupla tradição católica e monárquica, ressuscitada por um milagre súbito ante a consciência da catástrofe iminente. A integridade da Pátria, ameaçada de perdição, assegurou-se pela presença eterna de quantos a haviam outrora cimentado e fortalecido. E, para exemplo duradoiro e profundo, tão desabituada já a França do amparo paternal dos seus Reis, é ainda à extraordinária obra militar e diplomática deles que recorre, como a um tesoiro desprezado, se quer cingir-se dos loiros difíceis da vitória.
Assim, no espraiar da investida alemã, são as defesas de Luís XIV junto a Calais que detêm o passo do inimigo. A pertinácia encarniçada que, desde os mais recuados tempos, a monarquia francesa empregou na posse do bispado de Verdun é justificada pelo testemunho dos acontecimentos, marcando como nunca a importância dessa guarda avançada dos caminhos de Paris. Embora sem a continuidade e sem a inteligência de uma larga preparação dinástica, que política procura seguir Clemenceau, esforçando-se pela pulverização da Alemanha e pelo predomínio da França nas margens do Reno, senão a política secular de uma série ilustre de reis, que do seu país fizeram uma obra de génio governativo? E se os Estados Unidos intervêm na altura em que a França ia fraquejar sem remédio, deve-se à memória caluniada de Luís XVI, protetor da independência da Norte-América, o entusiasmo que facilitou a rápida organização de tão decisivo socorro. Pela unidade do princípio que encarnaram, mesmo das cinzas do túmulo, os herdeiros de São Luís preveniam das incertezas do futuro os destinos gloriosos do seu antigo reino.
E não insisto eu, entrando no campo das insondáveis imolações individuais, no procedimento sem-par da mocidade católica e realista que, entrevendo já a guerra nas páginas do inquérito memorando de Agathon, selou, pelo holocausto ardente da sua vida, a esperança com que olhava a face radiosa da França-Madre. Basta que recorde, contra a literatura embusteira da ocasião – torpemente simbolizada no Feu, de Barbusse – Le Sacrifice, de Henri Massis, e Le Réveil de l’esprit, de Vallery-Radot, ambos soldados na primeira linha das trincheiras, talvez vítimas ambos da sua desvelada obrigação de patriotas, que do amor a Cristo e às verdades da Igreja tiraram o melhor alento com que, ‘Homens da Dor’ – na imagem expressiva de Valléry-Radot, ofereciam a Deus as suas existências pelo pecado comum da França revolucionária. Por uma das apoteoses que se esvaem depressa na poeira doirada das coisas inúteis, ninguém olvidará mais a magnífica exaltação mística de Charles Péguy, entoando um novo De profundis, já cheio do estremecimento sacro da libertação, aos quatro ventos da França devastada: «Heureux ceux qui sont morts pour la Terre charnelle, / Mais pourvu que ce fût dans une juste guerre! / [...] / Heureux ceux qui sont morts dans les grandes batailles, / Couchés dessus le sol à la face de Dieu!» [“Bem-aventurados os que morreram pela terra carnal, / Mas desde que fosse numa guerra justa! / [...] / Bem-aventurados os que morreram em grandes batalhas, / Deitados no chão perante Deus!”]
E se a inspiração raciniana se acendesse novamente para levantar uma segunda galeria de figuras imortais, nós veríamos desfilar a coragem desmedida e grave de Léon de Montesquiou, de quem alguém disse que na sua campa se deveria inscrever, não o ci-git de todos os epitáfios, mas um vigoroso «Ici commande Léon de Montesquiou». Ao seu lado, como um inextinguível sinal da Cruz, pairaria, coado e imerso, o gesto último do neto de Renan, apertando o rosário e a espada à hora extrema, no mesmo anseio sublime de redenção. Rostos calmos de mulheres adoçariam com frequência essa formidável ressurreição dos Mortos. E seria a filha de Taine, levando aos hospitais o carinho tutelar da sua crença religiosa. Seria a angústia nobilíssima da senhora de Castelnau, com o marido e os três filhos em campanha, perguntando serenamente ao confessor que hesitava em lhe comunicar a morte de um deles: «Sossegue, meu Padre! Eu só desejo saber qual é que foi!»
Tal é a França da União-sagrada, escarnecida e cuspida pela França oficial, que, às vésperas da guerra, afirmava pela boca de Viviani, no congresso radical de Pau, querer apagar as estrelas no céu. É a França religiosa dos grandes bispos admiráveis, a França das irmãzinhas condecoradas, a França do clero rural, morrendo bem e ajudando a bem morrer. É a França realista de Maurras e Daudet, denunciando a cumplicidade dos poderes públicos com os planos do inimigo e pondo diariamente em relevo o crime do estrangeiro de dentro aliado ao estrangeiro de fora. É ainda a França de Maurice Barrès, carne e verbo das aspirações de tanta aspiração anónima e confusa, que conseguiu durante quatro anos manter em elevação perpétua a alma retalhada do seu país. Pois é essa França que Briand, no discurso de Saint-Chamont, acaba de denunciar como perigosa para o futuro da pátria vencedora, já que o não foi para sofrer e morrer por ela durante uma agonia sem igual na história.
As considerações que naturalmente se nos suscitam diante de uma impudência tamanha não nos alarmam nem nos surpreendem. Aqui e além, neste mundo e no outro, o espírito maçónico e democrático é, pela condição de estirpe, um espírito que divide e que esteriliza. Nós calculamos bem que, se para a França eterna, para a França que não se afundou nas vergonhas de uma república imoral e suicida, a ‘União sagrada’ significou um pacto sincero e alevantado, para aqueles que lho propuseram, receando mais pela sorte das suas situações do que pela sobrevivência da pátria, não passou de um disfarce, de uma máscara hipócrita, que antes do tempo arrancaram do rosto, não podendo suportá-la mais. E eu lembro-me, porque marca bem a vileza da atitude de Briand e dos seus sequazes, da lenda piedosa que nos conta a origem dos três lises imaculados da bandeira branca da França de São Luís, de Henrique IV e do conde de Chambord.
«Lê-se nas histórias francesas – informa um clássico – que a Clodoveu, primeiro Rei Cristão da França, quando se batizou, lhe foram enviadas do céu três flores-de-lis por armas, em lugar dos três sapos abomináveis que usava antes de receber o batismo.» Roubando à lenda o seu discreto perfume de hagiológio, pretendem os heraldistas explicar que o lis não é mais que a estilização lenta dos sapos de Clóvis. Seja, porém, como for, o lis desponta com a França cristã. E desde o ato solene de São Remígio, impondo as mãos ungidas sobre a cabeça bárbara de um chefe franco, o lis adeja, como um sorriso de graça, em tudo quanto a França missionária realiza para bem da Cristandade e aumento da Civilização. Mas logo que os lises se conspurcam e lhes falta a oculta seiva da fé em que se retemperam e remoçam, nós vemos imediatamente reaparecer os sapos hediondos de Clóvis. Expulsou a Revolução das suas insígnias os belos lises tradicionais. E o que foi o terror – o que foi o sadismo louco dos falsos erros de 89 – senão a volta dos sapos de Clóvis à França desorganizada, fora do cajado amorável dos seus monarcas e dos seus sacerdotes?
Como os lises haviam florido no estandarte preso de pano de cor, afigurava-se-nos que floririam também por sobre a França redimida pelas orações dos seus santos e pelo sacrifício dos seus heróis. O grito formidável «les morts, debout!», comemorado a 4 de Agosto em todas as comunas francesas, é o apelo inconsciente de um povo às antigas flores da Realeza, detentoras da energia ancestral que criou a pátria e a manteve, segura e unida. Iam os lises apontar de novo, entre ruínas calcinadas e lastimosas, num chão ulcerado pelo furor de mais de cem batalhas. E logo os sapos de Clóvis, renascendo da primitiva forma, lançaram sobre eles o seu hálito envenenado e pestilento. É que a história de França oscila entre dois extremos: ou o lis ou o sapo, ou Psichari ou Briand.
Aqui está, leitor amigo – à boa maneira de antanho –, porque no discurso de Briand consistiu a grande novidade da semana. Não me lograram impressionar tanto, nem as canelas venerandas de um bispo humilhando em público e raso a supremacia do poder civil, nem os engasgados apertos de mestre Wilson, «o dos 14 pontos e dos 36 dentes». Depois da guerra no exterior, a França vai regressar ao seu regime permanente de guerra no interior. Assim nas democracias consolida a paz quem não soube preparar a guerra. A oratória impudica de Briand é como o ladrido de um cão atirado contra uma sepultura. Tem a palavra agora a outra França – a verdadeira França. Chegou deveras o momento de todos gritarem: «les morts, debout!» E os mortos, como em Juilly, não faltarão certamente à chamada.
Agosto, 1919.