ESTUDOS PORTUGUESES
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      • Alberto Sampaio, 1841-1908
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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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A minha adesão à República

António Sardinha
RESUMO
  • Contexto e Motivação. António Sardinha, monárquico convicto e exilado político, vê-se alvo de rumores propagados pela imprensa adversária, que o acusam injustamente de ter aderido à república portuguesa. Face a estas calúnias, o autor sente-se na obrigação de esclarecer publicamente a sua posição, sublinhando o absurdo das acusações. Mesmo no exílio e sendo vítima de perseguições persistentes, Sardinha reafirma a sua integridade e fidelidade à causa monárquica.
  • O Episódio da Legação de Portugal em Madrid. O autor relata a sua ida à Legação de Portugal em Madrid, em setembro de 1918, motivada por uma ordem de internamento originada pelo governo português junto das autoridades espanholas. Sardinha esclarece, em exposição formal, que a sua residência em Badajoz se deve fundamentalmente à proximidade com Elvas, onde reside a sua família, e à necessidade de acompanhar a sua esposa, gravemente doente. Reforça que não está envolvido em atividades conspiratórias, sendo inclusive recomendado por autoridades espanholas, e que, desde maio daquele ano, se desvinculou de qualquer ligação com a emigração monárquica.
  • Perseguições e Denúncias. Ao longo do texto, Sardinha denuncia as ações do cônsul de Portugal em Badajoz, acusando-o de conspirar com elementos radicais e de instrumentalizar a polícia portuguesa para atividades de espionagem em território espanhol. Critica ainda a submissão do governo republicano às pressões de pequenos grupos do Partido Democrático de Elvas, que não permitiam a sua permanência em Badajoz. Relata episódios de vigilância, vexames e perseguições, ilustrando o abuso dos poderes diplomáticos portugueses contra cidadãos exilados.
  • Reafirmação do Compromisso Monárquico. Sardinha reafirma publicamente a sua convicção monárquica e a total oposição à república, declarando que o reconhecimento formal do regime republicano existe apenas para o combater e destruir. Relata a sua separação oficial da política de emigração monárquica e o rompimento com antigos aliados, evidenciando independência de pensamento e ação. Expressa indignação face ao tratamento recebido e renova os seus compromissos monárquicos, mantendo, mesmo em exílio, a confiança na vitória da causa que defende.
  • Conclusão: Oposição e Esperança. António Sardinha conclui com uma crítica severa ao governo republicano, à atuação diplomática portuguesa e ao clima político do país. Reitera os seus princípios e compromissos monárquicos perante Deus e os homens. A sua posição permanece firme, pautada pela defesa da dignidade, denúncia das injustiças e a esperança de que, apesar do exílio, a monarquia e a verdade prevalecerão.



​​A MINHA ADESÃO A REPÚBLICA 
​
Correu há tempos na imprensa jacobina a atoarda de que eu comparecera na Legação de Portugal em Madrid e ali declarara que não só reconhecia a república, mas que me tinha desligado de todas as minhas anteriores responsabilidades políticas. Calculei que toda a gente se tivesse rido, como eu me ri, como se riram os meus queridos companheiros de A Monarquia. Mas, afinal, parece que houve pessoas sinceramente alarmadas com o caso. E o maior sinal que se invocava, para aceitação do estúpido boato, era que o Mundo, ao reproduzi-lo, não me chamava já nem «traidor», nem «germanófilo», nem as outras coisas feias do costume. Então, entre os talassas do meu conhecimento, o escândalo atingiu, ao que me informam, proporções consideráveis. Coitados! Esqueciam-se de que eles, fiéis ao seu passado de coerência e dignidade, continuavam e continuam comodamente em Portugal, enquanto que eu, aderindo à república, ainda não vi por isso terminado o meu exílio. Foram sempre assim esses integérrimos senhores!

Não oculto que me soube deliciosamente a atitude da imprensa jacobina perante a espectativa do meu ingresso no regime. Eu apareci-lhe logo vestido de branco, limpo das mil impurezas que dantes despejavam sobre mim. Na iminência de um novo desvergonhado, dispunham-se a conceder-me carta de homem-de-bem. Senti que talvez estivesse a esta hora ministro, se realmente o Sr. Couceiro da Costa pudesse transmitir com segurança para Lisboa a notícia, tão bem afagada, da minha adesão. Mas desiluda-se a Manhã, desiluda-se o Mundo! Se eu me passasse para o outro lado do campo, passava-me primeiro para o senhor D. Manuel de Saxe-Coburgo Gota e dele receberia a indicação necessária para enfileirar certamente junto do Sr. Silva Antunes ou do Sr. Francisco Fernandes. Porque, na hipótese figurada, era o lugar que de direito me pertencia.

Não vale, pois, a pena bordar acerca do assunto maiores e mais largas considerações. Agora o que não perco é o ensejo para esclarecer o único ponto verdadeiro que existe na questão. É o que se refere à minha ida à Legação de Portugal em Madrid. Efectivamente, fui ali, mas em Setembro – há mais de três meses.
​
Os motivos que me levaram a dar esse passo constam da exposição que na mesma data entreguei ao senhor encarregado de negócios, não obtendo outra resposta senão a que Sua Exa., ou alguém por ele, mandou inserir em Dezembro – e o facto ocorreu em Setembro – nas folhas que vejo serem de sua especial predilecção. Segue a exposição aludida, não publicando unicamente a parte em que se mencionam terceiras pessoas, por nada terem, no momento actual, com o incidente que se debate:
 
«Exmo. Sr. Encarregado dos Negócios de Portugal em Madrid:
Residente em Badajoz, com conhecimento e autorização da Dirección General de Seguridad, há mais de dois meses, recebi ultimamente ordem terminante de internamento, a pedido do governo de Portugal ao governo de Espanha. Não oculto a minha situação de emigrado político, não oculto a inalterabilidade da minha convicção monárquica, mas também não oculto a estranheza perante a injustiça com que mesmo de longe me procuram atingir na minha tranquilidade e até mesmo nas minhas conveniências materiais.
Os motivos da minha residência em Badajoz passo eu a expô-los a V. Exa., seguro ainda de que se trata de um equívoco ou de um erro de informação. Meço bem a responsabilidade do passo que dou, como homem de honra que me prezo de ser, e assiste-me o direito de supor que V. Exa. o interpretará no seu exacto e verdadeiro sentido.
Facilmente V. Exa. se informará de que eu sou natural de Monforte, próximo a Elvas, e que em Elvas possuo, pelo meu casamento, a base principal dos meus interesses. Ali costumo residir durante boa parte do ano e ali se encontra residindo minha Mulher. O estado de saúde em que ela se encontra, talvez próxima a uma intervenção cirúrgica, inibe-a de me acompanhar para longe. De modo que semelhante circunstância, aliada à utilidade evidente de um contacto mais directo com o que me pertence, é que constitui a razão fundamental da minha residência em Badajoz.
Apenas tiveram desse facto conhecimento, logo em breve alguns elementos irrequietos pensaram em me afastar de ali com o pretexto de que eu conspirava. Eu direi a V. Exa., sem quebra do respeito que me devo nem ofensa à integridade dos princípios que professo, que a partir de tantos de Maio passado, me separei da política da emigração. De resto, para conspirar, Badajoz não seria para mim a melhor posição. Sou ali bastante conhecido e nem poderia recorrer ao simples e elementar disfarce da mudança de nome. Acresce mais que eu fora recomendado para Badajoz pelo meu Exmo. amigo Sr. Conde de la Mortera durante o ministério presidido por seu Pai. Depois, caído ele, tomara a responsabilidade total da minha conduta o senador do Reino D. Manuel María Albarrán. V. Exa. concede-me, sem esforço certamente, que eu não violaria nunca, pelo menor dos meus actos, o melindre em que implicitamente me coloquei para com a minha correcção e para com o meu reconhecimento.
Chegou, entretanto, a ordem de internamento e o Senhor Governador da Província, sem ma comunicar, procedeu a um inquérito que resultou o mais honroso para mim. Transmitindo-o para o Ministério de la Gobernación, a ordem repetiu-se com a mais extrema das insistências. Convencido de que praticava uma «iniquidade» – como ele próprio a classificou –, o Senhor Governador de Badajoz só então me fez ver a necessidade que havia de eu sair da sua província. Defesa não a fiz, porque o Senhor Governador se antecipava a fazê-la por mim. E a prova vê-la-á V. Exa. nos dois documentos que junto – um do Senhor Governador, e o outro do Inspector de Vigilância na província de Badajoz.
Tão depressa cheguei a Madrid, corri a essa Legação, onde V. Exa. sabe muito bem que nunca entrei em outras situações análogas, e corri para conhecer as causas do meu internamento. Com uma atenção que registo e que não esqueço, foi-me dito que o governo de Portugal procedera contra mim, não só por ser o agente de ligação dos monárquicos emigrados em Espanha com os monárquicos residentes em Portugal, como também pelo facto de receber com frequência visitas de indivíduos suspeitos e até perigosos. Não me cabe definir aqui o sentimento de revolta que experimentei. Limito-me a dizer a V. Exa. que sorri ao conhecer os nomes desses «indivíduos perigosos». Apenas um deles me foi dito, V. Exa. viu a naturalidade com que logo enunciei os outros. Tratava-se, ou de um equívoco ridículo pela ingenuidade, ou de um propósito tão caracterizado por si, que me abstenho de o qualificar.
Eu já aludi à circunstância de ter família em Elvas. Em Elvas tenho amigos e parentes, acentuo. De Elvas a Badajoz são 18 quilómetros e é constante a comunicação entre as duas cidades. Acontece assim que, vivendo eu em Badajoz, não só as pessoas das minhas relações me visitavam, ou, se me encontravam na rua, ficavam naturalmente conversando comigo, sem rodeios nem mistérios, numa praça, num café, onde o acaso nos proporcionasse o encontro. É tão minguada, em todo o caso, a lista das referidas pessoas, que eu quase de cor a reconstituo. [...]
Pondero a V. Exa. que os indivíduos citados vão sempre a Badajoz com salvo-condutos passados pela administração do concelho de Elvas. Se, porventura, são meus agentes, são-no com consentimento das autoridades da República.
Claro que eu não falo em tantos conhecidos que diariamente avistava em Badajoz. Falo só nos que propositadamente me visitavam. Porque os outros são tantos, que difícil seria, e irrisório mesmo, pretendê-los reduzir agora a catálogo.
Vê V. Exa. a insubsistência da parte fundamental da acusação. Quanto à acção que se me atribui como órgão de ligação entre os monárquicos emigrados e os de Portugal, desminto-a absolutamente sob minha honra, como sob minha honra declaro que, desde 23 de Junho, data em que cheguei a Badajoz, nunca mais dali saí, podendo demonstrar assim como é falsa a notícia de que eu saía frequentemente de Badajoz a ter reuniões secretas.
Esta é, Exmo. Senhor, a verdade. Porque é a verdade, não hesito em esclarecê-la, chamando a atenção dessa legação, que não é nenhum centro de partido, para o procedimento iníquo havido contra mim. Sei o que me devo e o que devo aos outros. Conhece V. Exa. a causa da minha residência em Badajoz. Sabe V. Exa. que nunca, por isso mesmo, abusaria da hospitalidade que ali me foi concedida. Mantenho firme, repito, a sinceridade e a inteireza das minhas convicções políticas. V. Exa. compreenderá, portanto, no seu justo significado a presente exposição, dando-lhe a resposta e o destino que melhor entender.
Madrid, 2 de Setembro de 1918.
(a) António Maria de Sousa Sardinha
.»
 
Eis aqui o único documento que existe, meu, na legação de Portugal em Madrid. Firmado num direito natural de reclamação, não importa, nem por sombras, uma diminuição de intransigência ou de dignidade política. Não me arrependo de ter dado esse passo, sobretudo numa hora de amargura bem funda, com minha Mulher doente e ela mesma à cabeceira de uma pessoa da sua família, queridíssima. O que ocorreu na legação entre mim e os Srs. Dr. Vasco de Quevedo e major Pereira Lourenço fica para segunda conversa. Para segunda conversa fica também a reprodução dos outros dois documentos a que aludo na exposição transcrita.

Mais devagar esclarecerei então as perseguições de que tenho sido vítima mesmo debaixo da protecção da bandeira espanhola, volvendo-me de réu em acusador.

Acusarei de facto o cônsul de Portugal em Badajoz de conspirar com os elementos radicais daquela cidade.

Acusarei o governo do Senhor Sá Cardoso de ceder às pressões dos democráticos de Elvas e reclamar sem fundamento de espécie nenhuma o meu internamento ao governo de Espanha só porque meia-dúzia de correligionários seus não permitem a minha estada em Badajoz.

Denunciarei ainda a permanência de um polícia português em Badajoz às ordens do cônsul espiando e mentindo, num manifesto atropelo do respeito devido às autoridades de Sua Majestade Católica. Perguntarei eu depois se em Espanha governam os «formigas» de Elvas ou se governa o seu legítimo governo.

E ponto, por hoje. A nada se reduz a atoarda da minha adesão à república. Três vezes somente fui à legação. A primeira para me informar do que havia contra mim; a segunda para entregar a minha reclamação; e a terceira, em começos de Outubro, para saber se de Lisboa viera alguma resposta. Tudo mais é um boato sem consistência, tão estúpido como desprezível. E visto que, apesar de germanófilo, de traidor e outras coisas feias, se empenham tanto em que reconheça a república bem alto, à face de Deus e dos homens, eu declaro que a reconheço mas para a combater e destruir!
 


II

Desfiemos agora por miúdos todo o complicado folhetim policial que facilmente se adivinha nas reticências da minha reclamação à legação de Portugal em Madrid. Desde já acentuo que sempre evitei trazer a público as revelações de carácter grave a que terei de recorrer, para completo esclarecimento da minha situação em Espanha. Se o faço, é porque atingido, embora tolamente, na minha honra política e na dignidade do meu sacrifício, me assiste na maior extensão um pleníssimo direito de defesa. Vai a responsabilidade para quem, sem necessidade, me provocou no meu silêncio, mantido, através das mais baixas tropelias, por bem compreensíveis motivos do mais rudimentar sentimento patriótico. Mas calar-me em face de atitude sem classificação havida para comigo, ou não dizer tudo o que é imperioso que se diga, representava, para gente sem escrúpulos, alguma coisa como que receio da minha parte em que se revelasse ou se detalhasse o assunto. Chamaram por mim. Pois aqui estou, e como sempre de cara descoberta!

As cadeias ainda se não abriram, nem aos exilados se permitiu o regresso a Portugal. É cedo por isso para relatar em todas as suas minudências o papel que porventura me coube no movimento monárquico do ano que passou. Basta que principie por onde devo principiar. E é que, emigrado em Espanha, a minha situação legalizou-se imediatamente perante a Dirección General de Seguridad, sendo-me concedida em 25 de Fevereiro de 1919 pela Jefatura local da província de Madrid a cédula de inscrição exigida por lei. Documentado e acolhido à sombra da bandeira espanhola como «refugiado político», um mês depois solicitei da mesma Dirección General de Seguridad autorização para ir a Badajoz visitar minha família.

Tão depressa ali cheguei, logo da Inspecção de Vigilância me foi comunicada ordem terminante de saída. Apresentei os meus documentos e graças a eles demorei-me o tempo que entendi que me devia demorar.

Durante essa minha curta estada em Badajoz, tanto do cônsul de Portugal como do Inspector de Vigilância, naturalmente a requerimento do primeiro, a espionagem foi constante e tão molesta que até uma noite, com manifesta violência, encontrando-me eu já recolhido, não hesitaram em me importunar dois agentes da seguridad, sem respeito ao menos pela tranquilidade da minha Mulher. Informaram-me logo de onde partia o golpe. Partia de meia-dúzia de democráticos de Elvas, em cuja administração de concelho se negou salvo-conduto a minha Mãe para me vir ver, sendo-o concedido a minha Mulher, rodeado de restrições verdadeiramente vexatórias. Entretanto, estalava a greve dos fins de Março com evidente carácter revolucionário – e uma circunstância de mero acaso trouxe-me em Badajoz o fio que ligava o cônsul de Portugal na mesma cidade aos elementos republicanos e socialistas dali.

Atrás desse fio, eu pude reconstituir, com o interesse que, monárquico de princípio e de cultura, me merece a sorte de todas as monarquias, o largo plano de entendimento que, por intermédio do cônsul de Portugal, prendia para a mesma obra de perturbação os agitadores de aquém e além fronteiras.

Não contribuíu pouco para tão preciosa descoberta o facto de eu haver encontrado um cabecilha republicano de Elvas na redacção de um periódico radical de Badajoz, La región extremeña. Naturalmente inspirado pelos jacobinos elvenses, esse periódico, aludindo à minha presença em Badajoz, fantasiava toda uma complicada fita de assaltos imaginários a Elvas. Procurei os redactores para lhes significar a minha estranheza e o meu protesto. Pois, ao entrar um pouco inesperadamente na redacção, achei-me frente a frente com um indivíduo muito do meu conhecimento, que nem soube ocultar o seu desespero por se ver surpreendido.

Coleccionando lentamente os dados que o acaso me ia proporcionando, não tardei muito a apurar que na Casa del Pueblo, de Badajoz, apareciam de quando em quando propagandistas portugueses. E o à-vontade, em plena Espanha monárquica, desses contrabandistas do revolucionarismo peninsular, devia-se em Badajoz à manifesta conivência de um graduado funcionário policial, que «era republicano», segundo a informação de um seu correligionário. Preciso elucidar que o referido funcionário foi mais tarde transferido de Badajoz por actos de provada imoralidade. Era republicano, não nos restam dúvidas!

Magnificamente entendidos os de cá e os de lá, em Badajoz não me faltaram nem vexames nem perseguições, crescentes desde a hora em que eu me pus na peugada do complot a que presidia o cônsul de Portugal. Tornava-se imperioso afastarem-me dali, e a meia-dúzia de «formigas» de Elvas exigia absolutamente que se não consentisse a minha permanência em Badajoz. Ocorria deste modo uma situação verdadeiramente paradoxal: o caso quase inacreditável de um monárquico acossado em Espanha pelos inimigos mais encarniçados das instituições espanholas. Mas a república portuguesa dispunha dos meios legítimos, próprios de todos os estados constituídos. E o que o governo de Espanha ignorava era que se abusava da cortesia internacional, exclusivamente para se satisfazer o ódio baixo de três ou quatro partidários inclassificáveis.

Com as coisas nestes termos, retirei-me para Madrid, na primeira metade de Abril. Com o acesso ao poder do governo Maura-Cierva, deu-se a greve dos telégrafos. Interrompidas as comunicações, o Diário de Notícias enviou para Elvas um correspondente especial, a fim de mais rapidamente fazer a informação. Do que se havia de lembrar esse interessante senhor? De me pôr a viajar de Madrid para Badajoz e de Badajoz para Madrid. Ora quem examinar a minha «cedula personal», verá que, voltando eu a Madrid em 11 de Abril, só me ausentei com demora em 22 de Junho.

A que obedecia, pois, a extravagante ideia do correspondente do Diário de Notícias? Ao propósito evidente de insinuar que eu andava em trabalhos de conjura. E tanto assim é que na mesma ocasião se expediam telegramas para Lisboa, para o Ministério dos Estrangeiros, denunciando-me como passador de armamento na fronteira.

Nunca fugi a responsabilidades que me caibam. Não assumo, porém, aquelas que não são minhas. Não se interprete, por consequência, a minha exposição como requerimento de benevolência. É talvez antes um depoimento cerrado contra os que em Portugal monopolizam o poder. O que eu desejo se infira de tudo quanto ligeiramente se expõe é o facto sem qualificação de as autoridades consulares do nosso país só servirem para prolongar os ódios internos, numa total ausência do que se possa chamar o respeito de si mesmas e da nacionalidade que representam. É o que sucede com o cônsul de Portugal em Badajoz, que abusa de mais a mais da bandeira que o cobre, facilitando e preparando trabalhos tendentes a destruir o regime monárquico em Espanha. Não nos admiramos, porém, com isso! Porque há mais e mais bonito. Será a matéria dos artigos subsequentes, asseverando desde já que estou pronto a fornecer a quem de direito as provas decisivas de tudo quanto afirmar no decorrer da presente exposição. E até amanhã!


 
III

O empenho de me afastarem de Badajoz inspira com a maior transparência o telegrama enviado para Lisboa.

Unidos o cônsul de Portugal naquela cidade com os seus camaradas de conspiração, a minha presença ali manifestamente que os molestava, juntando-se para mais a sanha torpe da «formiga» elvense que, não me atingindo de outro modo, pretendia embaraçar com a sua pressão constante a minha permanência junto dos meus.
Já convencido disso, ao pensar em Junho numa hipotética demora em Badajoz, pedi a uma alta personalidade espanhola, que me honrava com a sua estima, uma recomendação para o governador da província, Sr. D. Ramón Alvarado. Não oculto que senti vergonha, quando, ao formulá-lo, naturalmente justifiquei as razões do meu pedido. É que fora da pátria, apesar das barreiras que para sempre nos separam, somos todos para o estrangeiro o mesmo Portugal. E há, realmente, coisas tão espantosas, ou pela sua estupidez, ou pela sua crueldade, que só em Portugal, na atmosfera em que aí nos corre a vida, se podem admitir e compreender.

Obtive, e com o melhor interesse, a recomendação que desejava, apresentei-me na Dirección General de Seguridad a solicitar a licença de que necessitava para me ausentar. Foi-me concedida sem reservas. Estávamos a 22 de Junho. No dia 23 saí para Badajoz. E logo no dia 25, da Inspección de Vigilancia da referida cidade, solicitavam a minha pronta e imediata apresentação.
Fi-lo sem perda de um minuto; e como me achava documentado, pediram-me para no mesmo dia procurar o Senhor Governador. Ora o Governador, para quem vinha recomendado, encontrava-se fora. Falando com o secretário do Gobierno Civil, que o substituíu, com toda a delicadeza por ele me foi dito que o ministro da Gobernación ordenava o meu internamento. Trocámos umas explicações, mostrei a minha «cédula personal», e chegou-se à conclusão de que a ordem de internamento chegara quase quinze dias antes de eu chegar a Badajoz.

O cúmulo, na verdade! O que havia sucedido já se adivinha. Como não oculto de ninguém as minhas idas a Badajoz, o cônsul de Portugal, prevenido por alguns dos meus amigos de Elvas, apressou-se com o seu zelo costumado a preparar-me a recepção. Felizmente o funcionário policial, seu colaborador, já tinha saído de Badajoz.

Na Inspección de Vigilância substituira-o um perfeito e completo cavalheiro. E, ao elucidar eu o secretário do Gobierno Civil sobre a sem-razão da ordem de internamento, deu-me por única resposta que ficasse tranquilo, pois se tratava, palpavelmente, de uma tropelia acerca da qual ia esclarecer o ministro.

Como o Governador continuasse ausente e receando eu nova insistência na ordem de internamento, utilizei-me de outra recomendação que possuía para o senador do Reino pela província de Badajoz, Sr. D. Manuel Albarrán. Tomou este senhor a responsabilidade total da minha conduta.

E quando chegou o Governador e lhe entreguei a recomendação especial que trazia de Madrid, pareceu-me por algum tempo assegurada a minha estada em Badajoz, porque as investidas do cônsul encontravam agora quem as reduzisse às suas merecidas proporções.

Caiu, entretanto, governo presidido por D. António Maura. Retirando-se de Badajoz o Governador a quem fora recomendado, começou novamente o trabalho do cônsul para que me internassem. De Elvas apertavam-no. E a ele próprio apertava-o a circunstância já sabida de eu me achar no conhecimento das suas excelentes relações com os elementos radicais de Badajoz. É nesta altura que aparece um dos personagens mais importantes do folhetim, o célebre «33», um tal Alexandre, salvo erro, polícia civil de Portalegre, destacado para Badajoz, a fim de vigiar os «conspiradores monárquicos».

Daqui pergunto: a que título exerce um polícia português espionagem numa cidade espanhola? Tanto mais um polícia assaltante de casas particulares, que se em Portugal houvesse justiça o seu lugar seria há muito tempo na cadeia. Pois o «33», para justificar as pesetas que recebia, não existindo conspiração, tratou de inventá-la. E assim informava com frequência para Portugal que eu preparava uma incursão pela fronteira de Badajoz, tendo já contratados para esse efeito nada menos do que duzentos extremenhos. Os leitores imaginam-me à frente da minha tropa, com uma espada de cana, marchando, aguerrido, contra os postos do Caia. É como, em frouxos de riso, eu me imagino. Imaginou-o, porém, de modo contrário, o governo do Sr. Sá Cardoso, que, sempre empenhado numa conspiraçãozinha que lhe sirva de balão de oxigénio, se apressou a dar as suas ordens para Elvas, com o fim de se dispor a resistência e se repelir o ataque.

Surtia resultado a manobra do «33». As pesetas continuavam a correr; e, vigiado por todos os lados, até agora pelos jacobinos espanhóis de Badajoz, facilmente o cônsul alarmou a legação com o perigo da minha permanência perto da raia. De Elvas insistia-se, e insistia-se tanto que um dos meus «amigos» dali, não hesitou em exclamar, vendo-me uma vez: «Mas ainda esse homem cá está!» Parecia que em Espanha mandavam os republicanos de Portugal. E o que é triste, é que não só parecia, mas era, infelizmente, verdade!

A favor de semelhante conjura, a resolução da crise ministerial espanhola ofereceu aos meus inimigos mais uma probabilidade de vitória, visto haver retirado de Badajoz o governador maurista. Mas enganaram-se nas suas suposições. O governador, imediatamente nomeado, ao receber nova ordem para o meu internamento, ordenou, sem me conhecer e sem eu o saber, um inquérito sobre os meus actos.

Em face dele, defendeu-me quanto pôde. E só no extremo último, quando as ordens de Madrid se sucediam umas às outras num tom que já não permitia margem a qualquer espécie de contestação, é que o Senhor Governador de Badajoz me indicou, visivelmente contrariado, a necessidade que havia em que eu me retirasse da sua província. A ocasião para mim era a pior, com minha Mulher doentíssima e retida à cabeceira de seu Pai, também doente e com uma certa gravidade. Meditando a situação angustiosa em que me colocavam, decidi-me a partir para Madrid, resolvido a esclarecer na Legação os motivos de uma perseguição tão sistemática como desenfreada. Ingenuamente – como se não tivesse já obrigação de os conhecer por dentro e por fora! – admitira a hipótese de que ali seriam alheios à cabala que se tecera no consulado de Badajoz, actuando apenas sobre factos, que, uma vez destituídos na sua evidente falsidade, destruiriam consigo as razões do procedimento ditado contra mim.

Em tão lastimável suposição, pedi ao Senhor Governador de Badajoz e ao Inspector da Vigilância da respectiva província os documentos, a que me refiro na minha exposição à Legação de Portugal, e que transcrevo na íntegra. São como seguem:
 
«Gobierno civil de la Provincia de Badajoz. Secretaría. El exdiputado monárquico portugués Don António Sardinha, que ha residido en esta Capital en concepto de emigrado político, marcha internado a Madrid y durante su permanencia en esta provincia ha observado buena conducta y no ha dado motivos de quejas de ninguna clase, según informes de la policía.
Badajoz, 30 de Agosto 1918. El Gobernador. (a) Felipe Ruza. (Com o selo do Governo Civil de Badajoz)
.»
 
«Jefatura de Policía de la Provincia de Badajoz. Don José de Zárate, Jefe de Vigilancia de la Provincia de Badajoz: Certifico que el sr. Don António Sardinha, exdiputado monárquico que residía en esta Capital en concepto de emigrado político, ha observado durante su permanencia en esta una conducta absolutamente correcta y en motivo ni en caso alguno ha dado lugar a la menor suposición de que mantenía relaciones o realizaba trabajos de conspiración, ni propaganda política de ninguna clase. Y para que conste, a ruego del interesado, expido el presente en Badajoz a 30 de Agosto de 1919. El Jefe de policía, (a) José de Zárate (com o selo da ‘Repartición de Vigilancia’).»

Munido com estes dois expressivos documentos, esperava eu que a legação reflectisse um tudo nada e não quisesse deixar por menos verdadeiras as autoridades da província de Badajoz. Iludia-me tolamente! A denúncia do «33» podia mais que o testemunho do senhor governador de Badajoz e que o do senhor inspector de vigilância. Mais que o testemunho dos representantes do governo de Sua Majestade Católica, podia a interdição dos republicanos de Elvas, não permitindo a minha permanência em Badajoz. E enquanto eu, monárquico, saía expulso de Badajoz, nesta cidade ficava, rindo-se, o cônsul de Portugal, cúmplice em mais de um entendimento com as combinações revolucionárias dos republicanos dali.

Mas o folhetim não terminou ainda. No momento presente vou a caminho de Madrid. É mais de uma noite de viagem monótona e fastidiosa. Descansemos um pouco, até que no capítulo imediato nos apresentemos os dois na Calle Alfonso XI – pobre Alfonso do Salado! – para que se verifique, solene e amplamente, a cena tocante da minha adesão à república. Puxem do lenço, visto ser caso para lágrimas!
 


IV

Quarto capítulo, decifração do enigma... Cheguei à Vila-Coronada num domingo, 31 de Agosto. E logo no dia seguinte procurava na legação de Portugal o representante em Madrid da nossa república. Saira para Lisboa esse senhor, o Dr. Couceiro da Costa, ficando a substituí-lo, como encarregado dos negócios, o Sr. Dr. Vasco de Quevedo. Eu conhecia de há muito o Dr. Vasco de Quevedo. Foramos ambos laureados numa festa literária hispano-portuguesa, realizada por Setembro de 1909 em Salamanca. Mostrava-se o Dr. Vasco de Quevedo nessa altura infinitivamente sabedor das pequenas coisas doiradas, em que se resume o protocolo nas Côrtes que ainda são Côrtes. Como o seu palacianismo extreme veio a cair nos braços da nossa demagogia, não me importa a mim averiguá-lo. O que importa é acentuar que o conhecia de há muito, e sempre as nossas relações tinham sido, sem intimidade, as da mais pura e mais inquebrantável correcção.
Ora, quando começou o meu exílio, achava-se à frente da legação em Madrid o Sr. Vasco de Quevedo. Nunca o procurei, nunca nos topámos cara a cara. Respeitei o melindre da minha e da sua situação. E tanto assim que nem em Março, ao ser tratado em Badajoz pela maneira que fica relatada, dirigi à legação qualquer espécie de reclamação ou protesto. Acusado de sidonista e não sei de que mais – eu sei, mas não digo! –, o Dr. Vasco de Quevedo é entretanto demitido e chamado a Lisboa. Um simples acaso pôs-nos então em face um do outro. Cumprimentei-o como de costume, explicando-lhe que nunca em Madrid tentara avistá-lo, pela justa compreensão dos planos antagónicos, em que ele e eu nos achávamos colocados. Fazia-o agora sem medo, visto que ele, Dr. Vasco de Quevedo, passava a ser em Espanha, como eu, um simples particular. Respondeu-me amavelmente e com visível espontaneidade, que os amigos continuavam sendo sempre para ele amigos, qualquer que fosse a sua posição política. E, para o comprovar com factos, ao retirar-se para Lisboa, deixava-me o seu cartão no hotel em que eu me hospedava.

Aclarados depois os motivos que levaram a república a demitir o Sr. Vasco de Quevedo, regressou o mesmo senhor ao antigo lugar de Madrid, exactamente na ocasião em que eu me preparava para... para aderir à república. E em vez do Sr. Couceiro da Costa, foi o Sr. Vasco de Quevedo quem me recebeu nessa data, bem nítida em mim, de 1 de Setembro. Comecei por lhe afirmar que falava, não à pessoa das minhas relações, mas à entidade oficial. E expus-lhe com todo o rigor nos detalhes o caso da minha expulsão de Badajoz. Facultando-lhe o exame dos documentos que provavam o meu total alheamento a quaisquer trabalhos de organização revolucionária, entendia caber-me o direito de saber porque a legação procedia assim tão arbitrariamente contra mim, quando, de mais a mais, as razões da minha residência em Badajoz se determinavam, não só pela proximidade da região onde vivia minha família e onde eu tinha os meus interesses, mas ainda pela saúde de minha Mulher, inibida de me acompanhar. Salientei ainda a circunstância de nunca ter transposto as portas da legação acrescentando que o meu procedimento de modo nenhum envolvia uma quebra de dignidade política. Não conspirava, e achava-me desde Maio desligado politicamente dos dirigentes da emigração. De resto, a minha situação de recomendado em Badajoz significava para mim um compromisso de honra, que de maneira alguma violaria. E, se por acontecimentos futuros eu me visse obrigado a tal, retirar-me-ia primeiro de Badajoz.
Ouviu-me com atenção o Sr. Vasco de Quevedo – e, mostrando o seu aborrecimento pela conduta ditada contra mim, declarou-me que nada tinha com isso, indo, porém, apresentar-me com todo o gosto ao sub-adido militar Sr. Major Pereira Lourenço, e por cujas mãos corriam os serviços de espionagem entre os emigrados. Com efeito, o Sr. Major não tardou a aparecer. E com o monóculo superiormente entalado no olho direito, afirmou-me com toda a simpatia que «estávamos os dois em Portugal, que falasse à vontade e com franqueza, na convicção de que era um português quem me escutava». Repeti a minha exposição, inquirindo novamente as causas originárias do meu internamento. Tomou o Sr. Major uma atitude um pouco severa; e, em ar de supremo favor, esclareceu-me de que eu fora internado a pedido directo do governo de Portugal ao governo de Espanha. «E porquê?», perguntei, sem saber se rir se protestar. «Porque o senhor é o elemento de ligação entre o senhor Paiva Couceiro e os monárquicos do sul do nosso país. Recebe com frequência visitas de indivíduos suspeitos e perigosos, saindo também várias vezes de Badajoz a ter reuniões secretas.»

Estava bem à mostra o romance urdido pelo «33» e pelo nosso cônsul em Badajoz. Não me perturbei e interroguei ainda: «Mas pode V. Exa. dizer-me quem são esses indivíduos?» «De memória é difícil. De mais a mais o seu dossier é volumoso... No entanto, recordo-me de um que julgo ser um rapaz de quem fui companheiro de casa.» E o Sr. Major pronunciou um nome. Aqui não me contive que não risse, e a valer. Sem se desconcertar, o Sr. Major, amabilissimamente, acrescentou: «Só de uma vez recebeu o senhor a visita de 14 pessoas.» «Decerto, atalhei. E foram. E foram mais ou menos as seguintes...» E, sem esforço, esbocei uma lista aproximada dos parentes e amigos que me procuram nas suas idas a Badajoz. «Isso! Isso!», confirmava a cabeça do Sr. Major, mantendo sempre com superior serenidade o mavórtico monóculo. «Pois, Sr. Major, é tudo quanto há! As visitas que eu recebo são visitas de pessoas que, em política, são simples profissionais de canto de botica, quando muito. Acontece que se vão a Badajoz, vão documentados pela administração do concelho de Elvas, onde residem. E o que é de pasmar é que a legação colabore numa mistificação como essa.»

O jogo descobrira-se.

O célebre «33», para justificar o ganho das pesetas, enquanto continua vago o lugar que de direito lhe pertence numa cadeia comum – o célebre 33 mandava para o consulado a relação de quem me falava e não falava. O cônsul, apertado pela «formiga» de Elvas e pelo próprio desejo de se livrar de mim, informava a legação diariamente da ameaça que para a república representava a minha permanência em Badajoz, e por sua vez a legação reclamava. Como a atitude do Senhor Governador de Badajoz, respondendo sempre pela minha conduta, não correspondia às pressões do cônsul e os republicanos elvenses se sentiam incomodados com a minha presença, a 18 quilómetros – «Ainda esse homem cá está!», exclamara o outro, como se isto fosse deles, ao ver-me tranquilamente passeando –, o que sucedeu, o que imaginam os senhores que sucedeu? Nada menos, nada mais do que uma reclamação directa do governo português ao governo de Espanha a meu respeito!

E assim um 33 qualquer, polícia exercendo espionagem num país estrangeiro com ofensa manifesta à soberania do mesmo país, podia mais que as informações das autoridades respectivas. Assim um governo, abusando da sua qualidade de governo, não duvidava em lançar mão de um recurso extremo, baseado somente no estreito ódio político de meia-dúzia de indivíduos, cuja entrada em Espanha devera ser proibida pelos seus entendimentos mais que palpáveis com gente suspeita de Badajoz.

E aproxima-se o desfecho fatal. Suspenda o leitor a sua curiosidade por vinte-e-quatro horas. Fica-lhe, para se entreter, o monóculo do Sr. Major, enquanto eu me abismo nos mistérios insondáveis da fantasia do «33», calculando, certamente muito por baixo, o que não se dirá de mim em todo o volumoso dossier – informação obsequiosa do Sr. Major – existente na legação de Portugal em Madrid. Divirto-me a pensar que entrarei na história com esse documento famoso. E a pena sugestionável de algum biógrafo que o futuro me reserve por favor dos deuses, achará ali sobejos motivos para exercitar o seu estilo, descrevendo a minha expedição contra Elvas, à frente de duzentos espanhóis alugados, o «duro» então estava mais barato!, precisamente através dos mesmos campos que tinham conhecido a derrota de Afonso Henriques, mas onde, passados tantos séculos, ia relampejar, gloriosa e vingadora, a minha improvisada espada de guerreiro. Ora o diabo do «33»! Que bela imaginação cinematográfica se não perde no homenzinho!»

 
V

A pouco mais se estendeu a conversa na legação. O Sr. Major, sempre detrás do seu monóculo, informou-me ainda que as minhas frequentes saídas de Badajoz obedeciam ao propósito de me encontrar em Mérida com os outros «conspiradores», residentes na província. Já impacientado, afirmei ao Sr. Major que nem eu saira de Badajoz, desde que ali chegara em Junho, nem na província havia conspiradores. Mas o Sr. Major insistia, por cima das declarações das legítimas autoridades espanholas, acreditando mais no zelo policial do afamado «33». Ali mesmo teria desistido de qualquer pretensão respeitante à tranquilidade da minha permanência em Badajoz, se em mim não mandasse poderosamente o desejo de não agravar pelo meu afastamento o estado moral de minha Mulher.

Interveio então o Sr. Vasco de Quevedo, pedindo-me que lhe dirigisse por escrito uma exposição de quanto lhe relatara, acrescentando que a enviaria para Lisboa com a melhor informação. De facto, passados quatro dias, a 5 de Setembro, eu voltava com o documento, que A Monarquia já publicou e onde se verá que, desde o princípio ao fim, não só se mantém íntegra a inalterabilidade dos meus princípios, como me acoberto de toda e qualquer ilação menos verdadeira a que porventura se forçasse uma atitude tão clara como a minha.

Não examino eu agora o conteúdo da minha exposição. Só observo que a factos supostos tendenciosamente falsos respondi com factos reais e fáceis de se comprovar. Assim, perante a acusação de que eu era em Badajoz o agente do Sr. Paiva Couceiro, ao asseverar que desde Maio do ano findo me separara da política de emigração, eu não o fazia para facilitar a boa-vontade do governo republicano acerca das minhas reclamações e limitava-me com isso a definir a situação de absoluta independência em que me encontrava para com o mencionado senhor. É interessante referir que, exactamente no momento em que me expulsavam de Badajoz como agente do Sr. Paiva Couceiro, explodia entre nós dois uma discordância que se tornou pública e que trouxe consigo o corte total das nossas relações. Nem de leve na legação aludi a esse incidente, que, todavia, não me dispenso de discutir e aclarar devidamente no instante que me pareça mais oportuno. É, porém, presumível que a camarilha do chamado «Paladino» procure interpretar a minha ida à legação no sentido que melhor lhe convenha. Eis porque entendo de necessidade deixar aqui transcrita a carta de 4 de Junho em que me desliguei oficialmente da emigração:
 
Meu Exmo. e muito prezado amigo:
V. Exa. sabe como o estimo e admiro; tomará por isso as minhas palavras no seu verdadeiro sentido. Não há nelas azedume nem decepção. Há apenas o desejo de me libertar de compromissos que me prendem o pensamento e me constrangem à aceitação de pessoas e factos, que eu entendo ser um dever de consciência e patriotismo combater. Não me leve, pois, a mal que eu me ponha à margem da organização monárquica existente e que só reconheça como única entidade a que submeter-me a Junta Central do Integralismo Lusitano.
Pelos motivos expostos deposito nas mãos de V. Exa. o encargo tão honroso que me confiara. Acresce que, sob o título Soluções nacionais, os meus amigos vão publicar em volume o esboço do programa que V. Exa. me pediu. Como ele me não pertence, não me é lícito avançar mais do que já avancei. E termino. Escrevo esta carta com uma certa dor. É que o estimo e o admiro, repito. Mas, inabalavelmente decidida, a minha resolução não podia ser outra.
Um forte aperto de mão de quem é de V. Exa. amigo e admirador muito grato,
Madrid, 7 de Junho de 1919.
António Sardinha.

 
Esclarecido um ponto que reputo de importância, é mais que tempo de concluir. Entregue em 5 de Setembro a minha exposição à legação de Portugal, não tornei lá senão em começos de Outubro, não já tanto pela necessidade de regressar a Badajoz, onde nada me impedia de ir, embora continuasse de pé a dificuldade da minha permanência ali, mas, sobretudo, pela curiosidade de saber o que se respondera de Lisboa. Entretanto, a legação estivera em San Sebastián, de onde nos últimos dias de Setembro o Dr. Vasco de Quevedo me dissera por carta que a minha exposição seguira para Lisboa, sem que até à data houvesse recebido a menor referência a ela. E para me testemunhar o seu interesse, acrescentava que do melhor grado me mostraria o borrão do ofício de que a fizera acompanhar.

Leu-mo, efectivamente, quando regressado de San Sebastián, eu fui à legação pela terceira e última vez. De Lisboa guardava-se o mesmo silêncio. Para se justificar, o Dr. Vasco de Quevedo lançou mão do copiador dos ofícios e então eu conheci a informação que Sua Exa. se dignara dispensar-me. Não me é lícito apreciá-la como talvez devesse. O que não oculto é o desagrado com que a ouvi ler. O Dr. Vasco de Quevedo não tinha coragem nem de dizer que não, nem de dizer que sim. Escapava-se a toda a responsabilidade de uma maneira tão desastrada que formulei o meu juízo definitivamente. Trocaram-se mais umas palavras, o Dr. Vasco de Quevedo prometeu-me insistir para Lisboa, sem que eu lho pedisse ou lho agradecesse, e eu, despedindo-me, saí da legação, onde, era à volta de 15 de Outubro, nunca mais voltei.

Pois, decorridos mais de dois meses, como resposta a um documento, cujos fins se deixam suficientemente explanados e explicados, aparece com um anonimato repulsivo a notícia da minha quase adesão à república! Calar-me seria mostrar receio de que o incidente se restituísse à sua luz própria. Para mais, já os talassas se agitavam, folgando em terem um pretexto para sovar quem os despreza no seu monarquismo de chá e torradas. Só me detinha um pouco o escrúpulo de ter que revelar, com risco de ser ouvido no estrangeiro, a imprudência de um governo que, em desprestígio das autoridades espanholas, não duvida formular uma reclamação diplomática, fundada unicamente na mentira e no ódio. Esse escrúpulo desvanece-se, porém, ao sentir-me enxovalhado na dignidade do meu sacrifício e do meu patriotismo. Não é necessário acentuar o que transparece de vileza inclassificável em semelhante procedimento. Deixam sem resposta uma exposição, cheia toda ela de razão e de coerência. E, indirectamente, falseando a essência das coisas, mandam-me convidar em letra redonda para eu ingressar no regime. Claro que nunca mais seria nem «germanófilo» nem «traidor». Seria uma escora tão venerável da república, pelo menos, como o Sr. Melo Barreto, que, passando em Julho por Badajoz, já ministro dos estrangeiros, perguntou desvanecidamente ao barbeiro se já fizera a barba a algum ministro. Eu é que me iludi! Com gente de tal natureza, não podia haver atenções nem contemplações. Devia ter começado por onde me resolvo a acabar. E é por acusar o cônsul de Portugal em Badajoz de conspirar com os inimigos da monarquia espanhola.

E é por acusar a existência na mesma cidade de um agente policial português desempenhando funções que por título nenhum lhe pertencem. E é finalmente por revelar o estupendo facto de não me ser permitida a residência em Badajoz, porque meia-dúzia de «formigas» o não consentem e se impõem nesse sentido ao governo do nosso desgraçado país, que não hesita, para lhes obedecer, em abusar da sua situação de poder constituído, exercendo, mesmo de longe e à sombra da bandeira espanhola, as perseguições do que só é capaz um governo da nossa república.
E termino. É esta a história alegre da minha adesão. Como remate exigido, teria talvez a propósito um sereno e altivo acto de fé. Mas não se misture o divino com o profano, o sério com o jocoso. É só um o caminho da minha inteligência – o destino superior da minha vida. Não abdico dele no exílio, onde o confesso mais crente do que nunca na vitória final, como não abdicaria dele, nem a ferros, nem às portas da morte. Renovo em público os meus juramentos e os meus compromissos. E à face de Deus e dos homens, concluo como comecei, declarando que sim, que reconheço a república, mas para a combater e destruir!
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1920.

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ERRATA: Madrid, 2 de Setembro de 1919
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António Sardinha - Glossário dos Tempos, ed. de 1942.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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