Pratiquemos um acto de Inteligência!
António Sardinha
Para mim, a Nacionalidade não morreu. Dorme apenas, guardada na integridade da sua alma de maravilha pelas virtudes místicas do Sebastianismo, de que há extrair uma filosofia completa, - a filosofia da Esperança.
António Sardinha
António Sardinha
RESUMO
António Sardinha reflete sobre o papel da nova geração portuguesa como testemunha da verdade nacional, defendendo o tradicionalismo como caminho para a renovação da pátria. O autor destaca que somente por meio de uma doutrina unificadora, baseada na compreensão e na ação, será possível restaurar a integridade histórica de Portugal e revitalizar a sua literatura. Confessando-se católico e monárquico, reafirma o compromisso com o legado civilizador do povo português e incentiva a juventude a seguir em frente com coragem, fé e sinceridade rumo a um futuro renovado.
Reflexão sobre a Tradição e a Renovação Literária em Portugal
- Introdução: O Papel da Nova Geração. António Sardinha inicia a sua reflexão destacando o papel fundamental da nova geração portuguesa como testemunha da verdade nacional. Defende que a juventude deve assumir uma atitude corajosa, movida pela fé e sinceridade, no sentido de resgatar os valores que definem a identidade portuguesa. Para Sardinha, apenas através de uma doutrina unificadora, que una a compreensão e a ação, será possível restaurar a integridade histórica de Portugal e revitalizar a sua literatura. Assumindo-se como católico e monárquico, reafirma o seu compromisso com o legado civilizador dos portugueses e incentiva os jovens a prosseguirem com coragem rumo a um futuro renovado.
- A Crise da Nacionalidade e da Inteligência. Aborda a crise da nacionalidade portuguesa, que define como um eclipse prolongado da sua ideia diretriz, outrora católica e monárquica. A perda da continuidade histórica levou à desagregação das razões de ser de Portugal. O autor cita Antero de Quental para ilustrar o sentimento de decomposição literária, mas contrapõe que a nacionalidade não está morta, apenas adormecida, guardada pelo Sebastianismo — filosofia da esperança do povo português. Para Sardinha, o Sebastianismo é um fator de confiança no futuro nacional, desde que Portugal recupere as condições que garantem a existência coletiva do seu povo. A crise literária portuguesa resulta, segundo Sardinha, da diminuição da inteligência criadora. O racionalismo exacerbado do século anterior e o avanço do industrialismo contribuíram para o declínio das faculdades intelectuais, promovendo uma cultura utilitária e superficial. Sardinha defende que a renovação passa pela reabilitação das disciplinas da inteligência, inspirando-se e apelando à valorização das forças espirituais como motores da restauração nacional.
- O Tradicionalismo e a Renovação da Pátria. Segundo Sardinha, não é possível uma renascença literária sem o sentimento vivo da nacionalidade, assim como não existe nacionalidade sem uma restauração cultural. O individualismo introduzido pela Revolução Francesa é, na sua perspetiva, o principal responsável pelo enfraquecimento dos laços morais e sociais portugueses. O regresso à tradição — entendida não como retorno a um passado fossilizado, mas como continuidade viva e dinâmica dos valores herdados — é apresentado como solução. Para o autor, a tradição é uma linha harmónica que liga gerações, promovendo uma permanência no desenvolvimento e assegurando a solidariedade entre vivos e mortos. O tradicionalismo, entendido não como uma filosofia abstrata, mas como um método positivo de ação e de governo, deve comandar a renovação nacional. Sardinha destaca que a tradição garante a continuidade dos valores fundamentais da pátria e que o progresso só é possível quando assente numa transmissão intergeracional. O papel do regionalismo é igualmente valorizado, não como expressão artística restrita, mas como elemento de exaltação lírica que concilia os limites geográficos com a aspiração universal da cultura portuguesa.
- Críticas à Sociedade Contemporânea e à Elite Intelectual. Critica duramente a sociedade contemporânea, dominada pelo plutocratismo e pelo culto das sensações, que afasta os portugueses da verdadeira cultura e responsabilidade nacional. Faz referência aos chamados "Kamtchatkas", representantes de uma estética artificial e decadente, que não contribuem para o desenvolvimento da identidade nacional. Para Sardinha, essa elite cosmopolita e desligada das raízes contribui para o desenraizamento e fragilidade cultural do país. Denuncia a influência negativa das correntes estrangeiras e do industrialismo na sensibilidade e inteligência nacionais, defendendo que a crise atual é resultado da importação acrítica de modelos exteriores e da exclusão das humanidades clássicas do ensino. Propõe como solução o regresso às fontes da tradição e a restauração do ensino das humanidades, condição essencial para o ressurgimento intelectual e literário de Portugal.
- Renovação do Pensamento e da Sensibilidade. Defende que a renovação nacional depende da conjugação da ordem da inteligência e da ordem do coração. Propõe uma crítica rigorosa à história nacional, rejeitando o sectarismo e o panfletarismo, apelando à claridade e à compreensão crítica como caminhos para recuperar a tradição intelectual portuguesa. A restauração do pensamento nacional passa por valorizar o contributo de Portugal para a civilização europeia e mundial, lembrando a importância histórica das descobertas. A sensibilidade literária portuguesa, marcada pelo lirismo ancestral, deve ser revitalizada pela redescoberta das raízes populares e pela superação dos modelos greco-romanos e das influências ultrarromânticas. Sardinha distingue o romantismo português do francês, vendo-o como uma revivescência da sensibilidade mais íntima e genuína dos portugueses. Defende uma síntese entre romantismo e simbolismo, baseada na emoção das ideias — união da inteligência com a sensibilidade —, como chave para o futuro da poesia e da literatura nacionais.
- O Testemunho da Verdade e a Missão da Nova Geração. António Sardinha conclui reafirmando o papel da nova geração como enviada para dar testemunho da verdade portuguesa. Defende que o renascimento nacional só será possível mediante a prática de um ato de inteligência, alicerçado numa doutrina que una compreensão e ação. O nacionalismo e o tradicionalismo são apresentados como as disciplinas fundamentais para a reorganização do Estado e para a renovação literária. Sardinha acredita firmemente que a restauração da nacionalidade precede e condiciona a restauração da literatura. Encoraja a juventude a trilhar o caminho da sinceridade e do heroísmo, unindo pensamento e ação para lançar as bases de um novo Portugal, fiel ao seu passado e aberto ao futuro. Sardinha termina reafirmando a sua identidade católica e monárquica, assumindo o compromisso de prolongar e enriquecer o património civilizador da sua raça. Apela a que a geração nova prepare os corações para o desafio da renovação nacional, acreditando que Portugal ressurgirá quando aceitar a missão de continuar, com razão e vontade, a obra dos seus antepassados.
PRATIQUEMOS UM ACTO DE INTELIGÊNCIA!
Pratiquemos um acto de inteligência![1] (Carta a Álvaro Maia)
Meu prezado Amigo:
Fala-me você no seu inquérito dos sintomas políticos, morais, religiosos e artísticos, observados ultimamente na nossa vida nacional. E em nome desses sintomas pergunta-me o meu prezado amigo se nós nos encontramos em vésperas de uma renovação literária. É complexa a questão que me apresenta, porque ela importa consigo, nada mais, nada menos, do que uma espécie de exame de consciência, em que Portugal inteiro tivesse de se confessar pecador contra si mesmo. Sintomas – realmente concretos, nítidos – não os vejo. O que vejo é a crise da Nacionalidade através de aquilo que poderei chamar a sua ideia directriz.
A crise da Nacionalidade e a crise da Inteligência
Entende-se bem o que eu defino por ideia directriz de uma nacionalidade. É, sem outras considerações escusadas, o princípio orgânico que presidiu à sua formação e ao seu desenvolvimento. Católica e monárquica a ideia directriz da nacionalidade portuguesa, acha-se, evidentemente, não direi no crepúsculo, mas em eclipse demorado. Perdeu-se com a nossa continuidade histórica todo o íntimo conjunto das nossas razões de ser. E assim eu responderia à primeira base do seu inquérito, se fosse pessimista, com as memorandas palavras de Antero de Quental em 1880 a José Félix Pereira: «A literatura portuguesa está em decomposição. Ainda há quem escreva coisas literárias: mas literatura nacional, acabou. O que não admira onde a nacionalidade é coisa morta, o que poderá ser a literatura?»
Existe, indubitavelmente, uma teoria crítica no singular depolmento de Antero. E eu apresso-me a afirmar-lhe que o perfilho quase totalmente, mesmo nas suas aplicações à hora actual – só, difiro dele na fé inquebrantável que deposito nos destinos superiores da Pátria. Para mim – para meu nacionalismo reflectido e sistemático – a Nacionalidade não morreu. Dorme apenas, guardada, na integridade da sua alma de maravilha pelas virtudes místicas do Sebastianismo, de que há a extrair uma filosofia completa – a filosofia da Esperança. O Sebastianismo é por isso a filosofia da nossa Raça, como o Quixotismo, no seu alto e assombroso sentido trágico, é a filosofia da raça castelhana.
Pois o Sebastianismo, na sua parte positiva, como interpretação psicológica da nossa história, ensina-nos a crer no grande amanhã de Portugal e, demonstra-nos como o poderemos tornar uma realidade imediata, desde que restituamos o nosso país às condições invioláveis da sua existência colectiva – ao que, cientificamente, designaremos por «meio-vital» da Nacionalidade. Eis porque não admito o pessimismo de Antero, lavrando-nos inexoravelmente como que o nosso termo de óbito. Mas concordo com o seu juízo duro, embora exacto, quando reconhece que a nossa literatura já, estava em decomposição haverá uns bons quarenta anos.
Apesar de tudo – apesar de dispersa na desconexão de simples casos individuais, era ainda uma das primeiras literaturas da Europa! Hoje é o que nós sabemos, com as ridículas impertinências estéticas de uns quantos arrivistas dos ritmos, nobres do Espírito, passeando-se de braço dado com damas dignas da caricatura insigne de Molière.
Coisas literárias fazem-se – coisas literárias escrevem-se. Mas literatura, desgraçadamente, não se descobre entre nós. E não se descobre, porquenos falta cultura, porque a falta de cultura noslevou, por mais de um século de baixa superstição, estrangeirista, à incaracterização metódica da nossa personalidade. Ora, meu prezado amigo – «ao começo era a Inteligência», como quem diz, o acto criador. Sem cultura não há Inteligência. Sem inteligência a criação artística dificulta-se, depaupera-se, desaparece, para lhe suceder prontamente a composição. Mas a diferença que vai da criação, à composição é a mesma diferença fundamental, que vai de Corneille às senhoras de Rambouillet ou, mais caseiramente, do lirismo excepcional de António Nobre ao maneirismo de chinó e mais postiços do Elogio-Mútuo, Lugar-Comum & C.
Ao anoitecer de uma civilização
A crise da Nacionalidade e, como tal, a crise da nossa literatura, relaciona-se, pois, com a crise geral da Inteligência em toda a mentalidade contemporânea. Não se tome, todavia, por Inteligência o superficial e enfático racionalismo do século passado. O seu processo está instruído e concluído, graças, principalmente, a William James e a Henri Bergson. Não é dizer com isto que o pragmatismo se deva abraçar como solução filosófica. Como solução filosófica, traduzindo a anarquia mental do nosso tempo, reduz-se a uma espécie de «proteismo» perigoso –, ele mesmo depreciador das virtudes da Inteligência –, a uma como que perigosa «filosofia da mobilidade», segundo a expressão felicíssima de Julien Benda.
O que no pragmatismo nos convém utilizar é a sua crítica certeira à omnipotência concedida à Razão – com R grande –, pelas erróneas metafisicas de há cem anos a esta parte. Porque «Inteligência» e «Razão» não se podem nem se devem confundir como termos sinónimos. A Razão supõe consigo um conceito apriorístico da Existência, deduzido de um todo abstracto e uniforme. A Inteligência, pelo contrário, dispondo do sentido das «relatividades», eleva-se dos factos às leis e exerce-se salutarmente pela investigação e pela verificação das determinantes que regem os fenómenos, e do gráu de relações que os une entre si. Nunca a Inteligência teve inimigo pior que o racionalismo! O seu desprestígio – o enfraquecimento das suas faculdades lógicas, não se filiam em outras causas que não sejam derivadas das mil e umas ideologias com que a Razão-Pura nos abastardou e corrompeu a limpidez do pensamento.
Não deixou de contribuir pouco para isso o in dustrialismo moderno. Assim no-lo demonstra magnificamente o publicista francês René Lote no seu livro recente, Minerve et Vulcain, em que estuda com a maior larguesa a influência depressiva do industrialismo sobre a cultura mental. «Nos idéologues – estampa René Lote logo à entrada do prefácio –, sont décidément bien coupables: non seulement ils ont fait tort à la France et compromis sa securité par une prédication depure utopie, mais ils ont fait tort à l’esprit humain tout entier et compromis avenir de l’intelligence.»
Consequência do materialismo cerrado de toda uma época de absoluto frenesim individualista, é esse o pecado sem perdão da Democracia na sua ânsia exclusiva dos bens materiais da vida, porque não deseja nem admite outros! René Lote solta com veemência o seu grito de alarme e não é ligeiramente que ele considera a sociedade, através dos resultados deploráveis do progresso material, como reduzida a uma escola permanente de parvenus. Já se compreende porquê! Primeiro, pelo irreprimível espírito de mediocridade – «la démocratie, c’est envie!», lá dizia o insuspeitíssimo Proudhon –, que o individualismo democrático promove incessantemente no seu horror inato à selecção e à hierarquia. Depois, pelo baixo critério utilitário que se apoderou da ciência com a sua pretendida vulgarização, que, no fundo se resume numa nova ordem de industrialismo – no industrialismo da Inteligência, de que a Imprensa, de que o Jornalismo – com licença, meu prezado Amigo! – é hoje o fruto lastimável e pernicioso.
Assistimos, com efeito, ao crepúsculo de uma civilização, bárbara de ferro, metalizada até às entranhas, que no bolchevismo encontra o seu epílogo natural e legítimo. Vulcano vai ofuscar a nobre serenidade do sorriso de Minerva! São as consequências da crise apontada por René Lote e por tantos outros publicistas, entre eles Gonzague Truc no seu último volume Le retour à la Scholastique. Coincidem todos em assinalar o industrialismo como factor principal do desarranjo da mentalidade contemporânea, E perante o espectáculo da França desconjuntada e quase esvaída de sangue, não é apenas ao trabalho das fábricas e das oficinas – à floresta das máquinas resfolegando e silvando, que confiam a tarefa sagrada da restauração do seu país. Confiam-na, sobretudo, às disciplinas da Inteligência, iniciando pela sua reabilitação a imprescindível e demandada obra de reforma.
Traslademos a Portugal tão profundos e oportunos ensinamentos. É também pela reabilitação das disciplinas da Inteligência que entre nós a grande cruzada carece igualmente de se iniciar. «Au commencement de toutes les choses, le verbe», insculpe Georges Valois no pórtico da sua Économie Nouvelle. «L’action prend la direction que lui donne l’esprit, qui projette ses pensées et ses images devant les désirs, les passions et énergie de homme. Vous voulez refaire un État, restaurer une nation? Faites appel aux puissances de l’esprit.» E logo adiante acrescenta: «La première question est de savoir si les forces spiritueles animent la France. Si elles ne soufflent pas sur ce pays, lois, décrets, projets d’organisation, plans et méthodes demeureront inéfficaces à modeler une pâte sans levain». Outro tanto acontece em Portugal. É das forças espirituais – é das forças da Alma, é das forças do Pensamento, da Sensibilidade e da Vontade – que, substancialmente, nos interessa ocupar-nos. Existem? Não existem? À Inteligência pertence a resposta.
Nacionalismo e Tradicionalismo
Porque à Inteligência pertence a resposta, é que no nosso país não é possível nem uma renascença literária sem o sentimento vivo da Nacionalidade, nem uma nacionalidade sem a sua prévia restauração nos domínios ia cultura. A uma ideia oponhamos outra ideia. É da ideia individualista da Revolução que descende, sobretudo, o abastardamento dos nossos laços morais e sociais. Há-de ser pela ideia coordenadora da Tradição que Portugal regressará à posse dos seus destinos imorredoiros. Como? Reduzindo à sua necessária unidade intelectual, de maneira a constituir doutrina, tudo quanto nos reste do génio e do arcabouço da Nacionalidade. O que é imperioso, como na profecia célebre da Bíblia, é que às ossadas frias e dispersas as anime o vento do Espírito, porque, «ao começo era o Verbo» – e o Verbo não é senão a Inteligência, senhora do Mundo, sua constante renovadora. Voltemos, pois, ao princípio – às origens invioláveis da Nacionalidade – áquilo em que, consiste a sua realidade intransmissível. E o «meio-vital» da Nacionalidade se temperará e com ele a sua correspondente «ideia-directriz»!
Católica e monárquica – insisto – essa, ideia-directriz impõe-nos um credo que se reduz a um, único artigo de fé: nacionalismo e só nacionalismo! Carecemos, portanto, de uma doutrina que, discipline e que sistematize – doutrina que seja ao mesmo tempo trabalho de verificação histórica, e de aplicação sociológica. Possuímos, de um lado, os dois elementos naturais – Terra e Raça; do outro lado, encontramo-nos com a Nação desorganizada na sua forma orgânica superior – o Estado. Em conformidade com as determinantes da Terra e da Raça restabeleça-se o Estado em toda a plenitude das suas verdadeiras características. É um axioma científico, mais que difundido hoje, esse axioma de que as instituições de um povo são a criação da sua existência secular. Teremos assim que nos inscrever contra as abstracções e os caprichos do romantismo político e sentimental. De modo que, partindo de uma outra concepção da sociedade, que não é democrática, baseada na dispersão individualista, haveremos logicamente de concluir no tradicionalismo, não como corrente filosófica, mas como método positivo de acção e de governo.
O nacionalismo precisa, por consequência, de se completar com o tradicionalismo. Mas o que se entende por Tradição? Mas o que é o Tradicionalismo? O que se quererá significar com a frase tão repetida, tão na boca de toda a gente – amigos ou adversários: regressar ao Passado? Sosseguem desde já os cérebros imbuídos da anacrónica mitologia do Progresso-Indefinido, que ninguém se esforça em ressuscitar artificialmente o que nunca, se acomodaria nem às exigências nem às condições, da vida moderna! A Tradição, para os tradicionalistas, não é de maneira alguma um ponto inerte na história. É antes uma linha harmónica e ininterrupta, encadeando entre si as gerações e as idades, os acontecimentos e os homens. Enquanto, que para a Democracia a sociedade existe apenas como uma poeira avulsa de indivíduos – tristes átomos revoltos de um breve e descolorido momento, para o tradicionalista, em concordância com osdados fornecidos pela realidade quotidiana, a célula social é a Família, não sendo a Pátria mais do que um sólido agrupamento de províncias, por sua vez composta de agrupamentos de municípios, que são já por si um agrupamento vigoroso de famílias. Assim o indivíduo só conta para um tradicionalista como membro de uma família, integrado territorialmente no seu município e profissionalmente na sua corporação.
Ora a Tradição, assegurando a continu idade dos diversos valores de que em conjunto resulta a Pátria, pode definir-se justamente como a permanência no desenvolvimento. Sendo, pois, a permanência no desenvolvimento – uma linha, e não um ponto –, a Tradição parece-nos caracterizada cientificamente, em relação a uma época, como, a soma dos conhecimentos e das conquistas obtidas anteriormente e logo, sem quebr nem suspensão, comunicados à época seguinte. E no que consiste a solidariedade dos Vivos com os Mortos, segundo a grande palavra de Auguste Comte. E só por este critério se compreende e justifica o dito de Pascal: «l’humanité est un homme qui ne meurt pas et qui apprend toujours». Portanto, se há «progresso», o «progresso» importa consigo a ideia fundamental da Tradição. O «progresso», como aditivo que é, por via de regra, depende sempre de uma transmissão recebida, que só por intermédio da Tradição se torna, realmente, possível. Mesmo quando o «progresso» exerça excepcionalmente uma função subtractiva, não a exerce senão para robustecer a Tradição, depurando-a dos seus elementos atrofiados ou inferiores. Porque a Tradição, como a própria vida, reelabora-a incessantemente. Donde se verifica serem exactas as observações do tradicionalista Galéot no seu livro De l’organisation des activités humaines, ao acentuar que o papel do «progresso» é preparar, «melhores tradições», sem que com isso Galéot nem de longe incorra nos devaneios e nos improvisos da chamada «filosofia do Progresso».
Pelo contrário, Galéot opõe com crítica segura: ao conceito corrente de «evolução» o conceito antagónico de «tradição», repelindo assim terminantemente o romance do «devenir» social, deduzido dos exageros, das teorias transformistas. Das teorias transformistas se socorreu e se socorre ainda agora, com efeito, a utopia da «bondade-natural» do homem, herdada de Jean-Jacques Rousseau e alicerce de todo o grosseiríssimo erro democrático. Corrigidos os excessos do transformismo, é no próprio campo das doutrinas evoluciooistas que se entra a reconhecer a constância da natureza humana – exceptuadas, claro, as modificações acidentais, despidas sempre de qualquer sentido evolutivo. Eis, porque nos não deve surpreender que Felix Le Dantec escrevesse no seu L’égoïsme que «é a tradição, e não hereditariedade própriamente dita, quem faz que nós sejamos homens do nosso tempo». E porquê? Porque – esclarece Dantec –, as «nossas adaptações são simplesmente individuais, e não específicas; o fundo de todos nós, o fundo da espécie, é imutável ou varia pouco».
Encarada e defendida a Tradição nestes justos termos, ela afirma-se-nos desde logo como uma força viva, com tanto de inalienável como de fixa. «Por duas vezes os mortos nos geram» – comenta, Galéot; «geram-nos no nosso ser físico e nos conhecimentos e mais disciplinas reguladoras da nossa existência. Se as gerações separadas por um intervalo de longos séculos – os antigos e os modernos, dispõem, por exemplo, de técnicas e de modos de vida diferentes, não é a uma evolução interna que eles o devem; devem-no mas é à tradição. É pela tradição que se assegura aos que vierem últimos uma sorte melhor e uma melhor compreensão do mundo material e moral. Mesmo os aperfeiçoamentos mais recentes e as mais recentes descobertas lhe são devidas pois sem tradição, sem a acumulação das verdades positivas, ou de tanto erro rectificado não teriam sido possíveis nem se haveriam concebido». De forma que a definirmos Tradição – espécie de razão colectiva, subconsciente –, a definiremos melhor como construindo um sistema de normas gerais de actividade», ainda segundo Galéot.
Pois em nome das normas gerais de actividade, que representa para Portugal a tradição portuguesa é que o nosso nacionalismo, tornado mandato imperativo da Pátria em perigo, reorganizará amanhã a Nacionalidade, da Família ao Município e à Corporação, do Município e da orporação ao Estado, integra o na sua forma histórica superior – a Monarquia. E que tem o meu prezado Amigo como o Nacionalismo, aliado o Tradicionalismo, nos oferece as desejadas disciplinas do ressurgimento.
As disciplinas do Ressurgimento
Como a renovação da Nacionalidade é condicionada pela devolução de Portugal à sua ideia-directriz naturalmente a renovação literária terá que se produzir ao contacto forte da Terra e da Raça. Nasce de aqui o problema do Regionalismo, tão estreitamente ligado no seu aspecto artístico a problema da descentralização económica e administrativa.
Na verdade, o sentimento do Universo e a aspiração do Infinito podem traduzir-se através dos nossos limites, que no determinismo do Sangue e da Palsagem, que na lição dos Horizontes e dos Mortos possuem a sua fonte perene de exaltação – um potencial inesgotável da mais rica e abundante energia lírica. Não é restringir-nos a um mero enunciado das emoções que em nós despertam, por exemplo, as cegonhas voando por sobre o perfil caiado da vila que nos viu nascer. Deus nos livre disso, porque seria cairmos numa espécie de reportagem cenográfica, boa para operetas e bilhetes postais ilustrados! Há a contar com a inquietação do nosso tempo, lembrando-nos a toda a hora de que o regionalismo não é por si uma expressão artística, mas unicamente um elemento de expressão. Conciliar o seu particularismo com a crepitação das nossas asas interiores é traçar o molde em que a obra de arte humanamente se tornará possível. «L’intelligence s’élargit, le point de vue devient cosmopolite et la race, sans sortir de chez soi, participe aux troubles, aux erreurs aux sensibilités des races plus eloignées.» O depoimento pertence a Léon Daudet e condensa, quanto a mim, o preceito crítico através do qual se deve examinar esta palpitante questão do Regionalismo.
Porque o Regionalismo – insisto – não é, de modo nenhum, uma estreita nomenclatura de costumes e perspectivas locais. É, sobretudo, uma concepção vívida da Existência – enraizada nas nossas veias por aquela regra que, de avós a netos, a Terra e a Raça nos impuseram à percepção e ao temperamento. Enganam-se os que interpretação o Regionalismo como a reprodução miúda, quase fotográfica, da nossa pequena pátria, onde, com a meninice, se recolheram as primeiras e as mais indeléveis impressões. A filosofia do Regionalismo – digamo-lo assim – está admiravelmente contida em certa passagem conhecidíssima de Henri Bordeaux: «a aptidão dos lugares para conformar as almas». Não se caracteriza por isso, o Regionalismo como constituindo um catálogo de temas modestos, em que o escrúpulo da notação exterior haja de subordinar e apagar esse quantum de sínteses, ou experiência espiritual que sempre a Arte – qualquer que seja a sua forma – deverá importar consigo.
O que sucede com o Regionalismo, artisticamente considerado, é o que sucede com o Nacionalismo, encarado debaixo de igual ponto de vista. Ao proclamá-las como disciplinas imprescindíveis para o ressurgimento das nossas letras, ninguém suponha que eu as pretendo enclausurar numa estéril restrição formalista, em que os motivos, sejam sabidos de antemão; e de antemão, como na ditadura da Arcádia, tabelizados os géneros e policiadas as emoções. O que é imperioso é que na comunhão geral de todas as raças, dentro da mesma corrente ou tendência de espírito, guarde cada uma a sua personalidade inalienável, mantendo-a ciosa e inalteravelmente, por oposto que se manifeste o sopro ideológico ou lírico que a enche de estremecimentos criadores. Observa algures o crítico F. Baldensperger no seu livro La littérature que as literaturas, ainda que não nacionais na origem, terminam invariavelmente por se nacionalizarem. Trata-se de uma lei psicológica tão certa, tão comprovada, que quando não se acate, cai-se irremediavelmente no «artificial» e no «medíocre», em que a criação artística, filha primogénita da Inteligência, é substituída de pronto pela «composição», filha de uma maior ou menor possibilidade de execução e de gosto. Tão depressa a «execução» e o «gosto» subordinem, como simples parte formal que são, a unidade da concepção não há mais «literatura», conquanto haja – na frase de Antero – «coisas literárias».
Suponho não ser outro o plano em que o meu Amigo se coloca no seu inquérito e ao qual corresponde exactamente o estado lastimoso das nossas letras, onde, com o alastramento do fenómeno democrático em todas as manifestações da vida portuguesa, só predomina o «sensível» em lugar do humano, o «agradável» em lugar do «profundo». E porquê? Por um a cadeia infinita de causas, cujo inventário, por muito sucinto que ele fosse, u portaria o esboço de um volume de bastantes págmas.
É esse realmente, um estudo a fazer – espécie de roteiro indispensável para a boa formação intelectual das gerações que sobem atrás da nossa, já cheias do estremecimento divino do futuro. Paul Bourget deixou-nos um modelo admirável nos seus Essais de psychologie contemporaine. Transpondo para o nosso pequeno ambie te as reflexões doilustre mestre francês, se os efeitos se nos mostram os mesmos, necessariamente que as mesmas serão as determinantes. Assim a visível decadência das nossas letras não tem explicação diversa daquela que o sociólogo ou o historiador procurarão para a decomposição social e política em que Portugal se afunda e perde de dia para dia, de hora para hora. O mal data de há um século – vem do inàividualismo frenético da Revolução-Francesa, introduzido na nossa raça por pecado mortal de sensibilidade.
Não é que eu condene em absoluto o Romantismo, quando expresso em Garrett e Herculano. O que eu condeno é a importação das ideologias deprimentes da França de 89, por cujas funestas consequências se desorganizou a estrutura rija da Nacionalidade – já pelo Parlamentarismo no político, já pelo Código-Civil no social, já pelo Regalismo no religioso. São aspectos de um só problema – que unitariamente, que, integralmente, carece de, se ponderar. Não aludindo às causas anteriores de desnaturação e deslocamento que Portugal sofreu com a miragem erudita da Renascença e com os nefastos geometrismos da ditadura pombalina, é, aí, sem contestação séria, que nós precisamos de remontar, para que se compreenda e abrace em toda a sua amplitude a crise tremendíssima de que hoje somos os herdeiros, bem longe de sermos os responsáveis.
Já se entende porque eu principiei por afirmar que sintomas no sentido político em que o meu prezado Amigo os deseja e toma não os distingo nem se apalpam bem. Porém, no sentido contrário abundam de mais os referidos sintomas, tanto políticos e sociais, como religiosos e artísticos. Ausência de tudo – ausência do Estado (o Estado em Portugal não é mais que o «comunismo burocrático», de que já falava Oliveira Martins), ausência de Colectividade, ausência de Religião e ausência de Arte. Consequentemente, ausência de Nacionalidade, resumirá quem me leia. Ora o engano é esse! Crise da Nacionalidade será, efectivamente, mas não dissolução ou morte dela. O que se dissolve e extingue entre nós, num precipitado desfecho de tragédia, é a conformação individualista da sociedade que, impondo-se ao país contra o seu forte arcaboiço secular, o não deixou viver durante niais de cem anos em harmonia com a, direcções naturais do seu génio. Não confundamos, pois, uma questão com outra! Claro que Portugal corre risco de morte, se o não desembaraçarmos a tempo da túnica de Nessus. Mas, admitindo que o golpe cirúrgico se vibra com oportunidade, restar-nos-ão, pela Raça em si e pela índole resistente do país – recursos capazes de serem levados ao caminho – de uma segura ressurreição nacional? Eis onde o meu nacionalismo intervem e com ele o conjunto – de verdades que constituem a verdade portuguesa.
Da verdade portuguesa fazem parte, como disciplinas do Ressurgimento, o Regionalismo e o Nacionalismo na literatura e na arte. Qual seja o significado tanto de um como do outro já nós o sabemos. Não são mais que o respeito devido ao nosso condicionalismo hereditário, marcando a posição da nossa sensibilidade pessoal dentro da sensibilidade da nossa época. Bem regionalista foi Mistral, e os seus poemas são asas palpitando ao vento forte de todo o mundo! Barrès dizia de uma vez que o maior poeta para ele seria o que sentisse a mais larga porção de universo dentro do horizonte mais estreito, mais apertado. Eis o senso exacto do Regionalismo, que, elevado a um grau superior, nos entrega a chave do Nacionalismo. Confessemos a Raça na perpetuidade emotiva dos ritmos do nosso coração – confessemos o sangue antigo no bater inquieto das nossas interrogações! Se há, um patriotismo territorial e moral, porque não haverá igualmente um patriotismo literário e artístico? Ponderem-no bem os desgarrados do senumento que da sua volta às fontes eternas da inspiração ancestral resulte o prestígio suspirado de uma renas-cença nas nossas letras!
Belphegor em Kamtchatka
O acordo com essas realidades íntimas, porque se define e mantém o segredo da nossa individualidade não nos permite que sejamos pela chamada «internacional artística». E falsa a teoria da Arte nela Arte como é falsa toda a Estética que não se fundamenta na vida como vida e apenas a mire e longe, estilizada e retocada, segundo o requeirain os caprichos de certos pitorescos senhores que novos Des Esseintes, mas de pícara extracção, só gostam da natureza vista através dos vidros de cor. Alcunha-os Léon Daudet de Kamtchatkas, servmdo-se, com o seu raro poder de tipificação, da afastadíssima península asiática, para no-los apresentar como extremistas da sensibilidade e do gosto, refugiados lá no cabo do mundo fantástico em que se asseia e compraz a sua originalidade rebuscada e doentia. Caudatários de Baudelaire, com Jean Lorrain por sacristão, escolheram Oscar Wilde por seu príncipe, coroado de paradoxos. Detestam as plebes e isolam-se entre cisnes – as mãos mergulhadas em gomis lavrados pelos mais preciosos cinzeladores florentinos. E o que é triste é que a sociedade contemporânea lhes facilita o exibicionismo simiesco, quando não passam, ou de puros anormais, já ao alcance da patologia, ou de arrivistas sem talento que na rosa vermelha do escândalo depõem a sua única possibilidade de sucesso. Contudo, não diminuamos a importância dos Kamtchatkas! E certo que em Portugal não contam para nada e raros excedem as linhas banais de uma banal caricatura. Correspondem, no entanto, a uma depressão grave no equilíbrio psíquico das classes elevadas. Classes em que se perdem por completo a noção de responsabilidade e a tradição de cultura, encontram-se em Portugal, como, de resto, em toda a parte para onde quer que nos voltemos, inteiramente nas mãos dos judeus da Finança. De Belphégor intitulou Julien Benda um notável ensaio sobre a estética da actual sociedade francesa. Belphegor era o deus semita dos cartagineses, a que Benda, não sei por que discretas razões, atribui exclusivamente os defeitos atribuídos em geral aos israelitas. Assim admite – nas suas próprias palavras – duas espécies de Judeus: os judeus severos e moralistas e os judeus ávidos de sensações, ou seja como quem diz, «os Hebreus e os Cartagineses, Jahveh e Belphegor, Spinoza e Bergson». Não discutamos as diferenças propostas por Benda. Registemos somente que ele reconhece a especial adoração dos «cartagineses» pelo indistinto, pela sede alexandrina do não definido, do misterioso, em que é transparente a «confusão do sujeito com o objecto». E não hesita em aceitar, muito embora as considere explicação insuficiente, as relações que existem entre a moderna sociedade francesa e a incalculável preponderância que os mencionados «cartagineses» desempenham dentro dela.
Concordemos que isso de «cartagineses» é muito bem achado! E se por «cartagineses» entendermos genericamente os «plutocratas», o judaísmo não assume para nós um sinónimo diverso do de plutocratismo. É mais um facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico ou confessional. Mas não nos alarguemos em reflexões que talvez fossem de propósito. O que é indubitável é que Cartago reina. E porque Cartago reina, o seu reinado estende-se ao nosso país, onde, se esgaravatarmos bem à raiz de certas famílias que imprimem direcções de elegância e de opulência, daremos logo de cara com a visão bem pouco odorífera do ghetto!
Manda Cartago! E na sua feira de celebridades histriónicas, os Kamtchatkas desfilam, acariciados e procurados, como animais de preciosa estimação. É a culpa original de uma sociedade de mesuços morais, sem árvore genealógica nem fogo no lar, levando a vida num desenraizamento afectivo, em que se revela sempre, por uma obsecante protecção atávica, a toada do nómada, errando debaixo do céu imenso do deserto, à busca do que se não tem e que não se sabe bem o que seja.
Ora até nós – pequeno arrabalde da moderna Cartago, também chegou o «alexandrinismo», a que se refere Julien Benda. Mais doméstico, com ressortes mais caseiros do que o outro que se estadeia por fora, Fialho baptizou-o de «gagaísmo». Era ainda criança, mal saído das faixas. Hoje já se reveste de ares impertinentes, arrogando-se a suprema nata do inédito e do incomparável. Onde se instalou? Instalou-se por detrás dos biombos do five-o’clock, com o carnet-mondain representando interminavelmente a farça do Fidalgo aprendiz – acomodada, escusado é dizê-lo, às luzes do presente século. Nada mais abominável nem mais decrépito, na verdade, de que essa ta, tuada literatura de salões, em que na nossa pobre terra se desfaz o pouco que nos resta de sensibilidade e de inteligência!
«Alexandrinismo», com a preocupação mórbida do subjectivo, do indeterminado? Não! Antes manuelismo – bastardia remota do manuelino. E escrevo «manuelismo», porque, além das preferências drásticas, peculiares ao que se convencionou tratar por «boa sociedade» – à francesa, eu não conheço expressão que melhor me traduza o estado de espírito de certos meios, onde passam e repassam agora, como último arranco da palinódia constitucionalista, os derradeiros rebentos de Cohen, Gouvarinho & C. – de toda a incrível fauna psicológica, com que Eça povoou os seus Maias. E para que a minúscula feira de vaidades se cosmopolitize completamente, não faltam à chamada os Kamtchatkas indígenas, sobraçando os imprescindíveis gomis florentinos, em cujas águas se dessedentam os licornes dos seus «paraísos-artificiais acabadinhos e monótonos – sempre os mesmos! –, como as paisagens de xarão que nos vêm da China.
Pobres Kamtchatkas! Ninguém atentaria neles – expostos natos do talento e do equilíbrio, se Cartago, detestando a compreensão, não adorasse a sensação. Porque se existem ideias sociais de desordem, existe simultaneamente uma desordem afectiva, uma anarquia de espírito, em que as categorias superiores do conhecimento se pervertem e a si próprios se eliminam sob o pretexto de uma subtilização de tudo o que é definido, concreto e coordenado. É um dos mais sérios sintomas da dissolução do nosso tempo – como o da paixão pela música, por exemplo. Os Kamtchatkas o indiciam exuberantemente com o seu lirismo invertebrado de simples evadidos hospitalares. E acarinham-nos, aclamam-nos, convencem-nos de que são génios para raros apenas, em lugar de lhes aplicarem uma psicoterapia rigorosa! Porquê? Porque, se o industrialismo contemporâneo, filho da cultura materialista da última centúria, contribuiu soberanamente para o afrouxamento da Inteligência – mudada a emoção em impressão, também a Sensibilidade se materializou, volvendo-se em baixo elemento de luxúria sentimental, num como que objecto exclusivo de gosto para os sentidos, na tal «boa-sociedade» em que Belphegor pontifica e impera, por intermédio dos seus sacerdotes, que são os altos e empedernidos barões da Finança.
Pelo que expresso, achamo-nos em frente de um poderoso factor de perturbação não só da consciência artística, mas da mesma consciência nacional, factor esse, meu prezado Amigo, que é nosso dever: sumariar! São os frutos da peregrina teoria da Arte pela Arte, desmacarando-se sem rebuços em quanto contenha de grosseiro, de sensualista de imediato! Abaixo com Belphegor – divindade púnica que nos escraviza nos domínios do Trabalho e nos subalterniza nas criações livres do Espírito! Se a superstição democrática é inimiga natural da hierarquia, o plutocratismo, seu gémeo e seu senhor, impossibilita-nos de qualquer selecção, obscurecendo-nos a Inteligência e corrompendo-nos a Sensibilidade.
Conta-se dos perros da vera Kamtschatka que levam as noites, mais que nenhuns, ladrando furiosamente à lua. Desterremos para esses confins gelados da Ásia os biombos exóticos de Belphegor, seguidos do seu povo de pequeninos Mallarmés insensatos! E lá o lugar que de direito lhes pertence, uivando ao plenilúnio, de lira suspensa, desgrenhadamente. E depois que a Inteligência se liberte! Que a Sensibilidade se reabilite! Assim restauraremos as potências da Alma, sem as quais não sei de forças capazes de elevarem o homem à posse de outro destino maior que não seja o de um miserável saco, por onde quotidianamente entra e sai a comida – na palavra dura, mas justa, de Erasmo!
Renovação do pensamento e depuração do sentimento
Estabelecidas as condições em que uma renascença literária é possível em Portugal, cumpre-nos examinar as probabilidades que porventura lhe facilitam o êxito. Padece o nosso país de uma crise de inteligência em que a própria ideia de nacionalidade se incaracteriza e diminui até ao seu quase total desvanecimento. Surge imediatamente a crise da sensibilidade, entregando-nos de mãos atadas à ditadura do estrangeirismo invasor. Voltemos às nascentes ocultas da Raça, e que nos seus reservatórios ignorados o génio ancestral levante de novo o seu bafejo genesíaco! Antes de mais nada, há que incorporar-nos na verdadeira cultura do nosso tempo. Sabe-se como essa cultura é hoje abertamente espiritualista tanto nos francos domínios da ciência experimental, como na finalidade geral que inspira às demais manifestações da mentalidade contemporânea. Mas não basta sómente integrar-nos na corrente da época. É necessário que nos integremos com o conhecimento de nós mesmos, om a plena consciência do que somos e do que valemos, como colaboradores que já fomos, e decisivos, daquilo que orgulhosamente definimos por «civilização».
Está por fazer a história das «ideias portuguesas», em que se compute o largo esforço intelectual com que a nossa pátria contribuiu para os benefícios da humanidade. Desgraçadamente, sofremos como a Espanha, nossa irmã, o descrédito de uma calúnia sistemática e já secular. Não é este o sítio próprio para inventariarmos os serviços que o Mundo inteiro deve a Portugal – nação essencialmente apostólica. Lembrêmo-nos sómente que nós deslocámos o eixo da civilização, desde eras imemoriais fixado no Mediterrâneo, para o Atlântico, aberto pelas nossas caravelas aos sorrisos largos do futuro. O que importa isso? Importa talvez o acontecimento mais extraordinário e mais fecundo da vida do homem sobre a terra – não falando no advento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Meditando bem num facto à primeira vista tão singelo, verificar-se-á que a idade moderna é toda filha do inquieto espírito lusitano, criador assim de uma obra tão bela e tão desinteressada, se considerarmos que, ao lançar-lhe os fundamentos, os lançou, embebendo-os na água pura da Fé.
Não abarcando, porém, propósitos tão vastos, impõe-se-nos a obrigação consoladora de aprendermos que o nosso passado, no terreno da Inteligência, não é a vergonhosa página de obscurantismo declamada a cada hora contra as instituições católicas e monárquicas, a quem Portugal agradece a sua decaída grandeza. Tivemos na Idade Média com Santo António e João XXI (Petrus Hispanus) uma significação filosófica, que seria mantida com brilho nos séculos seguintes. São os irmãos Gouveias os preceptores mais acreditados da renascença francesa. Em todos os ramos do saber, os portugueses se afirmam, os portugueses se destacam. Serafim de Freitas – um frade – refuta Grotius e deixa-nos a concepção jurídica do imperialismo lusitano, baseado na ideia de Cristandade. É de um jesuíta – do Pe. Manuel Álvares – a gramática latina por que aprende durante duzentos anos a Europa letrada. Não somos só soldados e navegadores, somos também eruditos e sábios. Curvêmo-nos diante dos jesuítas que mais do que ninguém mantiveram a dignidade do património da cultura nacional.
É esse património que nos cabe restaurar. Primeiro que tudo, restaurando o ensino das humanidades, para que o espírito da Língua desperte de novo nas nossas letras e o gosto literário se forme bem cedo, logo nas bancadas dos liceus. O problema das humanidades é um problema da hora actual, posto sobre a mesa de quantos se dedicam às altas coisas do estudo. Foi a sua imprudente eliminação um dos factores que mais concorreu, para o eclipse da Inteligência no momento que passa. Será pelo regresso das disciplinas clássicas que se adiantará metade do caminho na resolução de um assunto tão grave e angustioso. Não podemos nós em Portugal ficarmos atrás do movimento que, com esse fim, se nota por toda a parte. Restaurar as humanidades é restaurar as categorias mentais da Nacionalidade. Para quem cuide a valer da restauração do pensamento português, por aí terá de começar.
Vem de seguida – e é o encargo que mais de perto nos toca – a revisão da história, corrompida inteiramente pelo critério sectário do romantismo político. Aprendamos em Fustel de Coulanges o sentido exacto da história! A história não é de modo nenhum um panfleto de partido. E o que tem sido a história em Portugal senão uma diatribe odienta, desde a Dedução Cronológico-analítica, até às várias «histórias», de mil e um folhetinistas que presumem de historiadores? A essa acção negativa no campo da história correspondamos nós – como supremo dom da virtude de entender – com um trabalho de ampla e higiénica crítica. A Crítica é a claridade máxima na compreensão – é a própria Inteligência, alargando-se para completar a realidade ou vivificá-la ainda mais. Só pela Crítica nós nos reapossaremos da nossa velha tradição de cultura! Só pela Crítica nos poderemos emancipar de sofismas e de superstições, restituindo-nos ao antigo vigor intelectual da Raça!
Escreveu de uma ocasião o insigne Menéndez Pelayo: «Onde se não conserva piedosamente a herança do passado, pobre ou rica, grande ou pequena, não esperemos que brote um pensamento original ou uma ideia dominadora. Um povo jovem pode improvisar tudo, menos a cultura intelectual. Um povo velho não pode renunciar a ela sem extinguir a parte mais nobre da sua vida e cair numa segunda infância muito próxima da imbecilidade senil.» É o nosso caso – é o caso de Portugal. Tratando-se do ressurgimento da nossa mentalidade, a estrada não é outra. Unicamente pela Crítica, função elevadíssima do espírito, nós voltaremos à plenitude do prestígio perdido. Então, senhores da nossa individualidade, sem mais receio de que nos perturbem os perfumes pérfidos do festim, tomaremos o lugar que nos pertence no banquete das ldeias, para seguirmos discorrendo dos mistérios de Deus e do destino insondável dos homens.
Ora se há a ordem da Inteligência – segundo Descartes –, há também a ordem do Coração, segundo Pascal. Se da Inteligência restaurada depende, com a renovação da Nacionalidade, a desejada, renovação literária, não depende ela menos da depuração da Sensibilidade. Nós somos as vítimas do pecado mortal de nossos avós românticos, não pelo Romantismo em si, propriamente, mas pela porta aberta que constituiu para o ultrarromantismo que, tanto em literatura como em política, representa para nós a herança nefasta da Revolução Francesa.
E não pelo romantismo, propriamente, porque não devemos envolver numa crítica fácil e generalizadora a debatida questão do romantismo, como agente sentimental de toda a anarquia mansa do século findo. O lirismo é para nós, é para a nossa raça, um dos sinais mais inconfundíveis. Cabe-lhe quase como coisa sua, sobretudo desde que os estudos recentes de Ribera y Tarragó e de Asín Palacios, corroborando certas intuições admiráveis de Menéndez Pelayo, assinalam o noroeste da Península (Galiza e Entre-Douro-e-Minho) como sendo berço da florescência poética que mais tarde desabrochou no provençalismo e no dolce stil nuovo de Dante e de Petrarca. Forma ancestral da nossa sensibilidade, o lirismo que enche de ternura e de mágoa o Romanceiro e os Cancioneiros, ganhando expressão prosificada no Amadis de Gaula e mais tarde definitivamente na Menina e Moça, criaria a novela de amor, que se influe na literatura europeia com a Diana, de Jorge de Montemor (de nada vale para o caso o haver sido escrita em castelhano), acabaria com Camilo Castelo Branco de fixar em traços imorredoiros a condição apaixonada do nosso excepcional temperamento de emotivos.
Inteiramente sufocada pelos falsos modelos greco-romanos da Renascença e da Arcádia, a nossa sensibilidade só viveria na alma do povo, enquanto a intuição do bom avô Garrett lhe não descobrisse – oculto sentido de maravilha. É onde reside a característica do romantismo português, que carece de ser tomado não à maneira francesa, como uma «dissolução entusiástica da personalidade» (a frase é de Pierre Lasserre), mas como a revivescência do que há de mais íntimo e de mais inalienável na composição psicológica do génio da nossa raça. Olhado debaixo deste aspecto, o Romantismo torna-se para nós, como humano que é, uma espécie de classicismo. Foi o que Garrett compreendeu, ou melhor, adivinhou, quando em três versos bem modestos do seu D. Branca nos legou toda uma teoria de rejuvenescimento literário: «Nossas lindas ficções, nossa engenhosa / Mitologia nacional e própria / Tome enfim o lugar que lhe compete.»
Há, incontestavelmente, no Romanceiro uma como que mitologia, não direi do Ocidente, mas, pelo menos, peninsular. Recordemo-nos do exemplo de Wagner embebendo no folclore e na simbologia popular as raízes da sua formidável criação artística. Por aí é nosso dever medir a amplitude da visão de Garrett. Traída pela farândola anacreôntica do ultrarromantismo, só alcançaria corpo na cruzada três vezes santa dos homens da Portugália – não aludindo a tantos antecessores seus já falecidos, como António Tomás Pires e Vieira Natividade. Pela sua dedicação iluminada se salvou o património emotivo da Nacionalidade, ajudando-nos com toda a segurança – aos que se esforçam hoje por abrir uma estrada nova nas nossas letras – a concretizar o verdadeiro itinerário do «neo-garretianismo», que Luís de Almeida Braga, numa fórmula feliz, designou de romantismo clássico, querendo sem dúvida significar com isso: emoção das ideias.
Na emoção das ideias consiste, com efeito, o segredo soberano da poesia, o seu profundo poder comunicativo, como consórcio que é da Inteligência com a Sensibilidade. Faliu o Romantismo por não se dirigir à alma, mas sim à imaginação. Tentando baldadamente a corrigenda necessária, pretendeu depois o Simbolismo proclamar os direitos da alma, para os confundir, afinal, com o império do subconsciente, que imolou demais a mais a essência espiritualista do símbolo ao exibicionismo detalhadíssimo da sua exteriorização. Ora na aliança medida das duas tendências – Romantismo, penetração da vida interior, e Simbolismo, dramatização, dos conflitos eternos do pensamento e do sentimento (Shakespeare há-de permanecer sempre comoa maior e melhor demonstração) –, residirá decerto aquela síntese criadora, a que se há-de acolher voluntariamente o poeta de amanhã.
Outra coisa não desejo eu exprimir ao falar em emoção das ideias. É o enlace definitivo das duas ordens do conhecimento humano – a do coração, conforme Pascal, e a do entendimento, conforme Descartes. Como regra, é a que salutarmente terão de aceitar os poucos que trabalham por um sincero renascimento nas letras pátrias. A condição básica é o regresso ao veio obliterado do nosso tesouro tradicional. Que o conselho de Garrett se decore e inscreva dentro do mais querido da nossa aspiração de escritores! Não se trata de um «nacionalismo» de bonecos de estampar, com os «pés monárquicos» de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, por exemplo, a pisarem «terras republicanas» de Veneza. O nacionalismo que preconizamos, mais carinhosamente baptizado de neo-garrettianismo, procura unicamente ser a boca das nossas vozes hereditárias, realizando o acordo da nossa posição particular de portugueses com a posição geral da nossa época. É ainda o caso de Shakespeare, romântico, clássico e simbolista, como humano que é, ao mesmo tempo que inglês e de todo o mundo.
«Para dar testemunho da verdade...»
Como houve um homem, mandado por Deus, para dar testemunho da Verdade, também entre nós a nova geração foi mandada por Deus para dar testemunho da verdade portuguesa. Nas suas tendências mais significativas é deliberadamente contra-revolucionáriaessa geração que bem se poderá chamar a geração do resgate. Provou-o já de armas na mão, provou-o no tédio arrastado das prisões. Assistimos, deste modo, em Portugal renascimento do patriotismo – não do patriotismo, lugar-comum de oratória barata, vaculdade pomposa de sessão solene, que não passa de um tropo de efeito, mas do patriotismo na sua forma orgânica e positiva, que é o respeito devido à integridade histórica da Nacionalidade. Não nos admiremos assim que estejam em crepúsculo nas camadas moças do nosso país as anacrónicas ideologias da Revolução Francesa, É, de resto, uma corrente que se observa por toda a parte, na Europa culta.
Mas o esforço da mocidade da nossa terra resultará inútil, por generoso que seja, se a gente nova não práticar afoitamente um acto de Inteligência, parapeitando-se à sombra de uma doutrina que a unifique e esclareça nos seus nobilíssimos impulsos de sacrifício e de redenção. No dia em que isso aconteça, o sono do Encoberto terá findado e nós presenciaremos a Ressurreição dos Mortos por esse Portugal além, como se fosse o romper de uma segunda alvorada de Ourique! Explica-se porquê. Qualquer que seja a sua origem, é sempre uma ideia, é sompre o pensamento que nós encontramos à raiz dos nossos actos. «Travaillons donc à bien penser!» – já aconselhava Pascal. Eis porque a necessidade de uma doutrina é mais que evidente diante dos nossos olhos. Sem uma doutrina, a acção nunca consegue obter uma finalidade concreta, corre constantemente o perigo de se perder nas improvizações do caminho. Medite-o bem a gente nova do nosso país, porque uma extraordinária epopeia lhe está reservada – a de repetir por feitos próprios a gesta do Sangue antigo e sobre os alicerces da pátria velha lançar os fundamentos de um outro Portugal!
Conjuguemos, pois, os dois elementos que nos facilitam a única solução possível: o nacionalismo e o tradicionalismo. Pelo nacionalismo a disciplina da Terra e a alma da Raça entregam-nos a nascente oculta da nossa espantosa energia de povo. Por seu turno o tradicionalismo, condensando-a como um sistema, dentro de si, toda a experiência secular dos que vieram antes de nós, é o fio de continuidade que, devolvendo-nos a nós mesmos, nos abre de par em par as portas do futuro, sem esquecermos as lições do passado.
Já Você vê, meu prezado Amigo, como eu condiciono a renovação da Nacionalidade. Condiciono-a por uma doutrina que a explique e a acorde novamente para a consciência dos seus destinos imortais. Como não sei de literatura sem nacionalidade, também a literatura portuguesa não se renovará sem se renovar a nacionalidade portuguesa. Assim o julgou igualmente o meu bom Amigo, ao lançar as bases do seu inquérito. Falou-me em «sintomas». São negativos os sintomas, desgraçadamente. Mas para lá dos horizontes bruxoleia uma claridade. Restituamos Portugal ao seu «meio-vital» obliterado – à sua «ideia-directriz» em eclipse total. Não é outro o acto de Inteligência que eu peço à geração nova para praticar.
Geração dos grandes acontecimentos, so um caminho lhe cabe – é o caminho direito da sinceridade e do heroísmo. Heroísmo do pensamento, que é irmão do heroísmo da espada, desbaratando os mitos grosseiros da Democracia como os cavaleiros de outrora desbaratavam os dragões erguidos às portas dos palácios simbólicos... Não olvide a gente moça da nossa terra, que Deus a mandou ao mundo para dar testemunho da verdade! É como o entende e sente, ao limiar do ano de Graça de 1920, quem nem um momento desfaleceu, por mais rudes embates que a sua fé nacionalista houvesse de sofrer. «O homem nasceu para compreender», preceituam os intelectualistas. «O homem nasceu para agir», emendam os pragmatistas. Mas, como ao começo já era o Verbo, e o Verbo se fez carne para habitar entre nós, o homem para o que nasceu foi para compreender e para agir depois.
Não separemos a compreensão da acção – a Inteligência da Actividade! É, pois, uma obra de cultura a obra que, antes de mais nada, a geração nova terá de empreender, realizando cada um dentro de si, por uma segura regra mental e moral, aquele tipo superior de pátria, sem o qual a Pátria não é mais do que uma figura vã de retórica. E Portugal ressurgirá – firmemente o creio! – quando, aceitando o convite varonil de Maurras, nos dispusermos a continuar pelo raciocínio e pela vontade aquilo que nossos Avós consolidaram pelo costume e pelo sentimento.
E termino. O roteiro de renovação literária que Você, meu prezado Amigo, se meteu a anunciar, não pode ser diverso do que lhe deixo aqui toscamente esboçado. Nacionalidade – antes de tudo e sobre tudo! E o nacionalismo surgirá a reaportuguesar Portugal, desde o Estado à Família, desde a política à literatura. Tão depressa a Nacionalidade se possua confiadamente, tão depressa nós possuiremos uma literatura que o seja deveras. O que se nos exige, como passo inicial, é que testemunhemos a verdade. Para testemunhar a verdade da sua Terra, mandou Deus a geração nova. Para testemunhar a mesma verdade, praticando o acto de Inteligência que eu peço à geração nova para praticar, é que eu me confesso católico e monárquico.
Confessando-me católico e monárquico, confesso o património civilizador da minha Raça e a parte que me cabe dentro dele para o prolongar e enriquecer ainda mais. Preparemos os corações, saindo pela noite funda ao encontro da madrugada! E enquanto não soar a hora definitiva, a hora de nos reconhecermos todos no Sangue e na Terra, em Cristo e na Grei, que o seu inquérito, meu prezado Amigo, pelo perfume de alta segurança intelectual que irradia, possa servir de pedra de encosto aos que, porventura, hajam de fraquejar pelo caminho!
Badajoz – exílio, Janeiro de 1920.
[1] Em 1920, estando António Sardinha exilado em Badajoz, abriu o Diário de Notícias nas suas colunas, por iniciativa de Álvaro Maia, ao tempo redactor desse jornal, um Inquérito Literário em que depuseram todos ou quase todos os nossos mais representativos escritores. Quis o Notícias ouvir a opinião de Sardinha sobre as modernas tendências da literatura portuguesa: e o extraordinário doutrinador apressou-se a dá-la, no interessante estudo que se vai ler, escrito em forma de «Carta a Álvaro Maia». Razões que desconhecemos suspenderam em 1920 a publicação do Inquérito: daí o facto de só agora, passados mais de oito anos, vir a lume tão notável ensaio. [nota da edição de 1929, pp. 143-144]
[ In António Sardinha, Purgatório das Ideias - Ensaios de Crítica, 1929. ]
Excertos
A "Inteligência" contra a "Razão-Pura"
A "Inteligência" contra a "Razão-Pura"
A Razão supõe um conceito apriorístico da Existência, deduzido dum todo abstrato e uniforme. A Inteligência, pelo contrário, dispondo do sentido das "relatividades", eleva-se dos factos às leis e exerce-se salutarmente pela investigação e pela verificação das determinantes que regem os fenómenos, e do grau de relações que os une entre si. Nunca a Inteligência teve inimigo pior que o racionalismo!
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A uma ideia opunhamos outra ideia. É da ideia individualista da Revolução que descende, sobretudo, o abastardamento dos nossos laços morais e sociais. Há-de ser pela ideia coordenadora da Tradição que Portugal regressará à posse dos seus destinos imorredoiros.
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O que eu condeno é a importação das ideologias deprimentes da França de 89, por cujas funestas consequências se desorganizou a estrutura rija da Nacionalidade, - pelo Parlamentarismo no político, pelo Código-Civil no social, pelo Regalismo no religioso. São aspectos de um só problema que unitariamente, que, integralmente, carece de se ponderar. Não aludindo às causas anteriores de desnaturação e deslocamento que Portugal sofreu com a miragem erudita da Renascença e com os nefastos geometrismos da ditadura pombalina, é ai, sem contestação séria, que nós precisamos de remontar, para que se compreenda e abrace em toda a sua amplitude a crise tremendíssima de que hoje somos os herdeiros, bem longe de sermos os responsáveis.
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É falsa toda a estética que não se fundamenta na vida como vida e apenas a mire de longe, estilizada e retocada, segundo o requeiram os caprichos de certos pitorescos senhores que, novos Des Esseintes, mas de pícara extracção, só gostam da natureza vista através dos vidros de cor.
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Sebastianismo - Filosofia da Esperança
Para mim, a Nacionalidade não morreu. Dorme apenas, guardada na integridade da sua alma de maravilha pelas virtudes místicas do Sebastianismo, de que há a extrair uma filosofia completa, - a filosofia da Esperança.
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Tivemos na Idade Média com Santo António e João XXI (Petrus-Hispanus) uma significação filosófica, que seria mantida com brilho nos séculos seguintes. São os irmãos Gouveias os preceptores mais acreditados da renascença francesa. Em todos os ramos do saber, os portugueses se afirmam, os portugueses se destacam. Serafim de Freitas, — um frade —, refuta Grotius e deixa-nos a concepção jurídica do imperialismo lusitano, baseado na ideia de Cristandade. É de um jesuíta, - do P.e Manuel Álvares -, a gramática latina por que aprende durante duzentos anos a Europa letrada. Não somos só soldados e navegadores, - somos também erúditos e sábios. Curvemo-nos diante dos jesuítas que mais do que ninguém mantiveram a dignidade do património da cultura nacional.
É esse património que nos cabe restaurar. Primeiro que tudo, restaurando o ensino das humanidades, para que o espírito da Língua desperte de novo nas nossas letras e o gosto literário se forme bem cedo, logo nas bancadas dos liceus. O problema das humanidades é um problema da hora actual, posto sobre a mesa de quantos se dedicam às altas coisas do estudo. Foi a sua imprudente eliminação um dos factores que mais concorreu para o eclipse da Inteligência no momento que passa. Será pelo regresso das disciplinas clássicas que se adiantará metade do caminho na resolução dum assunto tão grave e angustioso.
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Vem de seguida, — e é o encargo que mais de perto nos toca —, a revisão da história, corrompida inteiramente pelo critério sectário do romantismo político. Aprendamos em Fustel de Coulanges o sentido exacto da história! A história não é de modo nenhum um panfleto de partido. E o que tem sido a história em Portugal senão uma diatribe odienta, desde a Deducção Chronológico-analytica, até às várias "histórias" de mil e um folhetinistas que presumem de historiadores? A essa acção negativa no campo da história correspondamos nós, como supremo dom da virtude de entender, com um trabalho de ampla e higiénica crítica. A Crítica é a claridade máxima na compreensão, — é a própria Inteligência, alargando-se para completar a realidade ou vivificá-la ainda mais. Só pela Crítica nós nos reapossaremos da nossa velha tradição de cultura! Só pela Crítica nos poderemos emancipar de sofismas e de superstições, restituindo-nos ao antigo vigor intelectual da Raça!
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... Unicamente pela Crítica, função elevadíssima do espírito, nós voltaremos à plenitude do prestígio perdido. Então, senhores da nossa individualidade, sem mais receio de que nos perturbem os perfumes pérfidos do festim, tomaremos o lugar que nos pertence no banquete das Ideias, para seguirmos discorrendo dos mistérios de Deus e do destino insondável dos homens.
Ora se há a ordem da Inteligência, - segundo Descartes, — há também a ordem do Coração, segundo Pascal. Se da Inteligência restaurada depende, com a renovação da Nacionalidade, a desejada renovação literária, não depende ela menos da depuração da Sensibilidade. Nós somos as vítimas do pecado mortal de nossos avós românticos, não pelo Romantismo em si, propriamente, mas pela porta aberta que constituiu para o ultra-romantismo que, tanto em literatura como em política, representa para nós a herança nefasta da Revolução Francesa.
E não pelo romantismo, propriamente, porque não devemos envolver numa crítica fácil e generalizadora a debatida questão do romantismo, como agente sentimental de toda a anarquia mansa do século findo. O lirismo é para nós, é para a nossa raça, um dos sinais mais inconfundíveis. Cabe-lhe quase como coisa sua, sobretudo desde que os estudos recentes de Ribera y Tarragó e de Asin Palacios, corroborando certas intuições admiráveis de Menéndez y Pelayo, assinalam o noroeste da Península (Galiza e Entre Douro-e-Minho) como sendo o berço da florescência poética que mais tarde desabrochou no provençalismo e no dulce stil nuovo de Dante e de Petrarca. Forma ancestral da nossa sensibilidade, o lirismo que enche de ternura e de mágoa o Romanceiro e os Cancioneiros, ganhando expressão prosoficada no Amadis de Gaula e mais tarde definitivamente na Menina e Moça, criaria a novela de amor, que se influi na literatura europeia com a Diana, de Jorge de Montemor, (de nada vale para o caso o haver sido escrita em castelhano) acabaria com Camilo Castelo Branco de fixar em traços imorredoiros a condição apaixonada do nosso excepcional temperamento de emotivos.
Inteiramente sufocada pelos falsos modelos greco-romanos da Renascença e da Arcádia, a nossa sensibilidade só viveria na alma do povo, enquanto a intuição do bom avô Garrett lhe não descobrisse o oculto sentido de maravilha. É onde reside a característica do romantismo português, que carece de ser tomado, não à maneira francesa, como uma «dissolução entusiástica da personalidade» (a frase é de Pierre Lasserre), mas como a revivescência do que há de mais íntimo e de mais inalienável composição psicológica do génio da nossa raça. Olhado debaixo deste aspecto, o Romantismo torna-se para nós, como humano que é, uma espécie de classicismo. Foi o que Garrett compreendeu, ou melhor, adivinhou, quando em três versos bem modestos do seu D. Branca nos legou toda uma teoria de rejuvenescimento literário:
«Nossas lindas ficções, nossa engenhosa
Mitologia nacional e própria
Tome enfim o lugar que lhe compete».
Há, incontestavelmente, no Romanceiro uma como que mitologia, não direi do Ocidente, mas, pelo menos, peninsular. Recordemo-nos do exemplo de Wagner embebendo no folcklore e na simbologia popular as raizes da sua formidável criação artística. Por aí é nosso dever medir a amplitude da visão de Garrett. Traída pela farândola anacreôntica do ultra-romantismo, só alcançaria corpo na cruzada três vezes santa dos homens da Portugália, - não aludindo a tantos antecessores seus já falecidos, como António Tomás Pires e Vieira Natividade. Pela sua dedicação iluminada se salvou o património emotivo da Nacionalidade, ajudando-nos. com toda a segurança, — aos que se esforçam hoje por abrir uma estrada nova nas nossas letras, a concretizar o verdadeiro itinerário do «neo-garretianismo», que Luís de Almeida Braga, numa fórmula feliz, designou de romantismo clássico, querendo sem dúvida significar com isso: — emoção das ideias.
Na emoção das ideias consiste, com efeito, o segredo soberano da poesia, o seu profundo poder comunicativo, como consórcio que é da Inteligência com a Sensibilidade. Faliu o Romantismo por não se dirigir à alma, mas sim à imaginação. Tentando baldadamente a corrigenda necessária pretendeu depois o Simbolismo proclamar os direitos da alma, para os confundir, afinal, com o império do sub-consciente, que imolou demais a mais a essência. espiritualista do símbolo ao exibicionismo detalhadíssimo da sua exteriorização. Ora na aliança medida das duas tendências, - Romantismo, penetração da vida interior, e Simbolismo, dramatização dos conflitos eternos do pensamento e do sentimento (Shakespeare há-de permanecer sempre como a maior e melhor demonstração) -, residirá decerto aquela síntese criadora, a que se há-de acolher voluntariamente o poeta de amanhã.
Outra coisa não desejo eu exprimir ao falar em «emoção das ideias». É o enlace definitivo das duas ordens do conhecimento humano, — a do coração, conforme Pascal, e a do entendimento, conforme Descartes. Como regra, é a que salutarmente terão de aceitar os poucos que trabalham por um sincero renascimento nas letras pátrias. A condição básica é o regresso ao veio obliterado do nosso tesoiro tradicional. Que o conselho de Garrett se decore e inscreva dentro do mais querido da nossa aspiração de escritores! Não se trata de um «nacionalismo», de bonecos de estampar, com os «pés monárquicos» de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, por exemplo, a pisarem «terras republicanas» de Veneza. O nacionalismo, que preconizamos, mais carinhosamente baptizado de neo-garretianismo, procura unicamente ser a boca das nossas vozes hereditárias, realizando o acordo da nossa posição particular de portugueses com a posição geral da nossa época. É ainda o caso de Shakespeare, romântico, clássico e simbolista, como humano que é, ao mesmo tempo que inglês e de todo o mundo.
....
Não olvide a gente moça da nossa terra, que Deus a mandou ao mundo para dar testemunho da verdade! E como o entende e sente, ao limiar do ano de Graça de 1920, quem nem um momento desfaleceu, por mais rudes embates que a sua fé nacionalista houvesse de sofrer. «O homem nasceu para compreender», preceituam os intelectualistas. «O homem nasceu para agir», emendam os pragmatistas. Mas, como ao começo já era o Verbo e o Verbo se fez carne para habitar entre nós, o homem para o que nasceu foi para compreender e para agir depois.
Não separemos a compreensão da acção, — a Inteligência da Actividade! É, pois, uma obra de cultura a obra que antes de mais nada a geração nova terá de empreender, realizando cada um dentro de si, por uma segura regra mental e moral, aquele tipo superior de pátria, sem o qual a Pátria não é mais do que uma figura vã de retórica. E Portugal ressurgirá, — firmemente o creio!
...
Confessando-me católico e monárquico, confesso o património civilizador da minha Raça e a parte que me cabe dentro dele para o prolongar e enriquecer ainda mais. Preparemos os corações, saindo pela noite funda ao encontro da madrugada! E enquanto não soar a hora definitiva, a hora de nos reconhecermos todos no Sangue e na Terra, em Cristo e na Grei, que o seu inquérito, meu prezado Amigo, pelo perfume de alta segurança que irradia, possa servir de pedra de encosto aos que, porventura, hajam de fraquejar pelo caminho!
Badajoz — exílio, Janeiro de 1920.
É esse património que nos cabe restaurar. Primeiro que tudo, restaurando o ensino das humanidades, para que o espírito da Língua desperte de novo nas nossas letras e o gosto literário se forme bem cedo, logo nas bancadas dos liceus. O problema das humanidades é um problema da hora actual, posto sobre a mesa de quantos se dedicam às altas coisas do estudo. Foi a sua imprudente eliminação um dos factores que mais concorreu para o eclipse da Inteligência no momento que passa. Será pelo regresso das disciplinas clássicas que se adiantará metade do caminho na resolução dum assunto tão grave e angustioso.
...
Vem de seguida, — e é o encargo que mais de perto nos toca —, a revisão da história, corrompida inteiramente pelo critério sectário do romantismo político. Aprendamos em Fustel de Coulanges o sentido exacto da história! A história não é de modo nenhum um panfleto de partido. E o que tem sido a história em Portugal senão uma diatribe odienta, desde a Deducção Chronológico-analytica, até às várias "histórias" de mil e um folhetinistas que presumem de historiadores? A essa acção negativa no campo da história correspondamos nós, como supremo dom da virtude de entender, com um trabalho de ampla e higiénica crítica. A Crítica é a claridade máxima na compreensão, — é a própria Inteligência, alargando-se para completar a realidade ou vivificá-la ainda mais. Só pela Crítica nós nos reapossaremos da nossa velha tradição de cultura! Só pela Crítica nos poderemos emancipar de sofismas e de superstições, restituindo-nos ao antigo vigor intelectual da Raça!
...
... Unicamente pela Crítica, função elevadíssima do espírito, nós voltaremos à plenitude do prestígio perdido. Então, senhores da nossa individualidade, sem mais receio de que nos perturbem os perfumes pérfidos do festim, tomaremos o lugar que nos pertence no banquete das Ideias, para seguirmos discorrendo dos mistérios de Deus e do destino insondável dos homens.
Ora se há a ordem da Inteligência, - segundo Descartes, — há também a ordem do Coração, segundo Pascal. Se da Inteligência restaurada depende, com a renovação da Nacionalidade, a desejada renovação literária, não depende ela menos da depuração da Sensibilidade. Nós somos as vítimas do pecado mortal de nossos avós românticos, não pelo Romantismo em si, propriamente, mas pela porta aberta que constituiu para o ultra-romantismo que, tanto em literatura como em política, representa para nós a herança nefasta da Revolução Francesa.
E não pelo romantismo, propriamente, porque não devemos envolver numa crítica fácil e generalizadora a debatida questão do romantismo, como agente sentimental de toda a anarquia mansa do século findo. O lirismo é para nós, é para a nossa raça, um dos sinais mais inconfundíveis. Cabe-lhe quase como coisa sua, sobretudo desde que os estudos recentes de Ribera y Tarragó e de Asin Palacios, corroborando certas intuições admiráveis de Menéndez y Pelayo, assinalam o noroeste da Península (Galiza e Entre Douro-e-Minho) como sendo o berço da florescência poética que mais tarde desabrochou no provençalismo e no dulce stil nuovo de Dante e de Petrarca. Forma ancestral da nossa sensibilidade, o lirismo que enche de ternura e de mágoa o Romanceiro e os Cancioneiros, ganhando expressão prosoficada no Amadis de Gaula e mais tarde definitivamente na Menina e Moça, criaria a novela de amor, que se influi na literatura europeia com a Diana, de Jorge de Montemor, (de nada vale para o caso o haver sido escrita em castelhano) acabaria com Camilo Castelo Branco de fixar em traços imorredoiros a condição apaixonada do nosso excepcional temperamento de emotivos.
Inteiramente sufocada pelos falsos modelos greco-romanos da Renascença e da Arcádia, a nossa sensibilidade só viveria na alma do povo, enquanto a intuição do bom avô Garrett lhe não descobrisse o oculto sentido de maravilha. É onde reside a característica do romantismo português, que carece de ser tomado, não à maneira francesa, como uma «dissolução entusiástica da personalidade» (a frase é de Pierre Lasserre), mas como a revivescência do que há de mais íntimo e de mais inalienável composição psicológica do génio da nossa raça. Olhado debaixo deste aspecto, o Romantismo torna-se para nós, como humano que é, uma espécie de classicismo. Foi o que Garrett compreendeu, ou melhor, adivinhou, quando em três versos bem modestos do seu D. Branca nos legou toda uma teoria de rejuvenescimento literário:
«Nossas lindas ficções, nossa engenhosa
Mitologia nacional e própria
Tome enfim o lugar que lhe compete».
Há, incontestavelmente, no Romanceiro uma como que mitologia, não direi do Ocidente, mas, pelo menos, peninsular. Recordemo-nos do exemplo de Wagner embebendo no folcklore e na simbologia popular as raizes da sua formidável criação artística. Por aí é nosso dever medir a amplitude da visão de Garrett. Traída pela farândola anacreôntica do ultra-romantismo, só alcançaria corpo na cruzada três vezes santa dos homens da Portugália, - não aludindo a tantos antecessores seus já falecidos, como António Tomás Pires e Vieira Natividade. Pela sua dedicação iluminada se salvou o património emotivo da Nacionalidade, ajudando-nos. com toda a segurança, — aos que se esforçam hoje por abrir uma estrada nova nas nossas letras, a concretizar o verdadeiro itinerário do «neo-garretianismo», que Luís de Almeida Braga, numa fórmula feliz, designou de romantismo clássico, querendo sem dúvida significar com isso: — emoção das ideias.
Na emoção das ideias consiste, com efeito, o segredo soberano da poesia, o seu profundo poder comunicativo, como consórcio que é da Inteligência com a Sensibilidade. Faliu o Romantismo por não se dirigir à alma, mas sim à imaginação. Tentando baldadamente a corrigenda necessária pretendeu depois o Simbolismo proclamar os direitos da alma, para os confundir, afinal, com o império do sub-consciente, que imolou demais a mais a essência. espiritualista do símbolo ao exibicionismo detalhadíssimo da sua exteriorização. Ora na aliança medida das duas tendências, - Romantismo, penetração da vida interior, e Simbolismo, dramatização dos conflitos eternos do pensamento e do sentimento (Shakespeare há-de permanecer sempre como a maior e melhor demonstração) -, residirá decerto aquela síntese criadora, a que se há-de acolher voluntariamente o poeta de amanhã.
Outra coisa não desejo eu exprimir ao falar em «emoção das ideias». É o enlace definitivo das duas ordens do conhecimento humano, — a do coração, conforme Pascal, e a do entendimento, conforme Descartes. Como regra, é a que salutarmente terão de aceitar os poucos que trabalham por um sincero renascimento nas letras pátrias. A condição básica é o regresso ao veio obliterado do nosso tesoiro tradicional. Que o conselho de Garrett se decore e inscreva dentro do mais querido da nossa aspiração de escritores! Não se trata de um «nacionalismo», de bonecos de estampar, com os «pés monárquicos» de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, por exemplo, a pisarem «terras republicanas» de Veneza. O nacionalismo, que preconizamos, mais carinhosamente baptizado de neo-garretianismo, procura unicamente ser a boca das nossas vozes hereditárias, realizando o acordo da nossa posição particular de portugueses com a posição geral da nossa época. É ainda o caso de Shakespeare, romântico, clássico e simbolista, como humano que é, ao mesmo tempo que inglês e de todo o mundo.
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Não olvide a gente moça da nossa terra, que Deus a mandou ao mundo para dar testemunho da verdade! E como o entende e sente, ao limiar do ano de Graça de 1920, quem nem um momento desfaleceu, por mais rudes embates que a sua fé nacionalista houvesse de sofrer. «O homem nasceu para compreender», preceituam os intelectualistas. «O homem nasceu para agir», emendam os pragmatistas. Mas, como ao começo já era o Verbo e o Verbo se fez carne para habitar entre nós, o homem para o que nasceu foi para compreender e para agir depois.
Não separemos a compreensão da acção, — a Inteligência da Actividade! É, pois, uma obra de cultura a obra que antes de mais nada a geração nova terá de empreender, realizando cada um dentro de si, por uma segura regra mental e moral, aquele tipo superior de pátria, sem o qual a Pátria não é mais do que uma figura vã de retórica. E Portugal ressurgirá, — firmemente o creio!
...
Confessando-me católico e monárquico, confesso o património civilizador da minha Raça e a parte que me cabe dentro dele para o prolongar e enriquecer ainda mais. Preparemos os corações, saindo pela noite funda ao encontro da madrugada! E enquanto não soar a hora definitiva, a hora de nos reconhecermos todos no Sangue e na Terra, em Cristo e na Grei, que o seu inquérito, meu prezado Amigo, pelo perfume de alta segurança que irradia, possa servir de pedra de encosto aos que, porventura, hajam de fraquejar pelo caminho!
Badajoz — exílio, Janeiro de 1920.
PRATIQUEMOS UM ACTO DE INTELIGÊNCIA
(Carta a Álvaro Maia)
Meu prezado Amigo:
Fala-me você no seu inquérito dos sintomas políticos, morais, religiosos e artísticos, observados ultimamente na nossa vida nacional. E em nome desses sintomas pergunta-me o meu prezado amigo se nós nos encontramos em vésperas de uma renovação literária. É complexa a questão que me apresenta, porque ela importa consigo, nada mais, nada menos, do que uma espécie de exame de consciência, em que Portugal inteiro tivesse de se confessar pecador contra si mesmo. Sintomas, - realmente concretos, nítidos, não os vejo. O que vejo é a crise da Nacionalidade através de aquilo que poderei chamar a sua ideia directriz.
Meu prezado Amigo:
Fala-me você no seu inquérito dos sintomas políticos, morais, religiosos e artísticos, observados ultimamente na nossa vida nacional. E em nome desses sintomas pergunta-me o meu prezado amigo se nós nos encontramos em vésperas de uma renovação literária. É complexa a questão que me apresenta, porque ela importa consigo, nada mais, nada menos, do que uma espécie de exame de consciência, em que Portugal inteiro tivesse de se confessar pecador contra si mesmo. Sintomas, - realmente concretos, nítidos, não os vejo. O que vejo é a crise da Nacionalidade através de aquilo que poderei chamar a sua ideia directriz.
A crise da Nacionalidade e a crise da Inteligência
Entende-se bem o que eu defino por ideia directriz de uma nacionalidade. E, sem outras considerações escusadas, o princípio orgânico que presidiu à sua formação e ao seu desenvolvimento.
Católica e monárquica a ideia directriz da nacionalidade portuguesa, acha-se, evidentemente, não direi no crepúsculo, mas em eclipse demorado.
Perdeu-se com a nossa continuidade histórica todo o íntimo conjunto das nossas razões de ser. E assim eu responderia à primeira base do seu inquérito, se fosse pessimista, com as memorandas palavras de Antero de Quental em 1880 a José Felix Pereira: — «A literatura portuguesa está em decomposição. Ainda há quem escreva coisas literárias: mas literatura nacional, acabou. O que não admira: onde a nacionalidade é coisa morta, o que poderá ser a literatura?»
Existe, indubitavelmente, uma teoria crítica no
Católica e monárquica a ideia directriz da nacionalidade portuguesa, acha-se, evidentemente, não direi no crepúsculo, mas em eclipse demorado.
Perdeu-se com a nossa continuidade histórica todo o íntimo conjunto das nossas razões de ser. E assim eu responderia à primeira base do seu inquérito, se fosse pessimista, com as memorandas palavras de Antero de Quental em 1880 a José Felix Pereira: — «A literatura portuguesa está em decomposição. Ainda há quem escreva coisas literárias: mas literatura nacional, acabou. O que não admira: onde a nacionalidade é coisa morta, o que poderá ser a literatura?»
Existe, indubitavelmente, uma teoria crítica no
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rer une nation? Faites appel aux puissances de l'esprit..." E logo adiante acrescenta: — "La première question est de savoir si les forces spirituelles animent la France. Si elles ne soufflent pas sur ce pays, lois, décrets, projects d'organisation, plans et méthodes demeureront inefficaces à modeler une pâte sans levain". Outro tanto acontece em Portugal. É das forças espirituais, — é das forças da Alma, é das forças do Pensamento, da Sensibilidade e da Vontade que, substancialmente, nos interessa ocupar-nos. Existem? Não existem? À Inteligência pertence a resposta.
Nacionalismo e Tradicionalismo
Porque á Inteligência pertence a resposta, é que no nosso país não é possivel nem uma renascença literária sem o sentimento vivo da Nacionalidade, nem uma nacionalidade sem a sua prévia restauração nos domínios da cultura. A uma idéia opunha-mos outra idéia. E da idéia individualista da Revolução que descende, sobretudo, o abastardamento dos nossos laços morais e sociais. Há-de ser pela idéia coordenadora da Tradição que Portugal regressará á posse dos seus destinos imorredoiros.
Como? Reduzindo á sua necessária unidade inte-. lectual, de maneira a constituir doutrina, tudo quanto nos reste do génio e do arcabouço da Nacionalidade. O que é imperioso, como na profecia célebre da Biblia, é que ás ossadas frias e
Como? Reduzindo á sua necessária unidade inte-. lectual, de maneira a constituir doutrina, tudo quanto nos reste do génio e do arcabouço da Nacionalidade. O que é imperioso, como na profecia célebre da Biblia, é que ás ossadas frias e
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dispersas as anime o vento do Espírito, porque, «ao começo era o Verbo»,— e o Verbo não é senão a Inteligência, senhora do Mundo, sua constante renovadora.Voltemos, pois, ao princípio, — às origens invioláveis da Nacionalidade, - àquilo em que consiste a sua realidade intransmissível. E o "meio-vital" da Nacionalidade se temperará e com ele a sua correspondente "ideia-directriz"!
Católica e monárquica, - insisto -, essa "ideia-directriz" impõe-nos um credo que se reduz a um único artigo de fé: - nacionalismo e só nacionalismo! Carecemos, portanto, de uma doutrina que discipline e que sistematize, - doutrina que seja ao mesmo tempo trabalho de verificação histórica e de aplicação sociológica. Possuímos, de um lado, os dois elementos naturais, - Terra e Raça ["Raça" é sinónimo de "Grei" ou "Povo"]; do outro lado, encontramo-nos com a Nação desorganizada na sua forma orgânica superior, — o Estado. Em conformidade com as determinantes da Terra e da Raça restabeleça-se o Estado em toda a plenitude das suas verdadeiras características. É um axioma científico, mais que difundido hoje, esse axioma de que a instituições de um povo são a criação da sua existência secular. Teremos assim que nos inscrever contra as abstracções e os caprichos do romantismo político e sentimental. De modo que, partindo de uma pura concepção da sociedade, que não é democrática, baseada na dispersão individualista, haveremos logicamente de concluir no
[152]
tradicionalismo, não como corrente filosófica, mas como método positivo de acção e de governo.
O nacionalismo precisa, por consequência, de se completar com o tradicionalismo. Mas o cue se entende por Tradição? Mas o que é o Tradicionalismo? O que se quererá significar com a frase tão repetida, tão na boca de toda a gente, amigos ou adversários: - regressar ao Passado? Sosseguem desde já os cérebros imbuídos da anacrónica mitologia do Progresso-Indefinido, que ninguém se esforça em ressuscitar artificialmente o que nunca se acomodaria nem às exigências nem às condições da vida moderna! A Tradição, para os tradicionalistas, não é de maneira alguma um ponto inerte na história. É antes uma linha harmónica e ininterrupta, encadeando entre si as gerações e as idades, os acontecimentos e os homens. Enquanto que para a Democracia [sinónimo de representação individualista, ideológica], a sociedade existe apenas como uma poeira avulsa de indivíduos, - tristes átomos revoltos de um breve e descobrido momento, para o tradicionalista, em concordância com os dados fornecidos pela realidade quotidiana, a célula social é a Família, não sendo a Pátria mais do que um sólido agrupamento de províncias, por sua vez composta de agrupamentos de municípios, que são já por si um agrupamento vigoroso de famílias. Assim o indivíduo só conta para um tradicionalista como membro duma família, integrado territorialmente no seu município e profissionalmente na sua corporação.
dispersas as anime o vento do Espírito, porque, «ao começo era o Verbo»,— e o Verbo não é senão a Inteligência, senhora do Mundo, sua constante renovadora.Voltemos, pois, ao princípio, — às origens invioláveis da Nacionalidade, - àquilo em que consiste a sua realidade intransmissível. E o "meio-vital" da Nacionalidade se temperará e com ele a sua correspondente "ideia-directriz"!
Católica e monárquica, - insisto -, essa "ideia-directriz" impõe-nos um credo que se reduz a um único artigo de fé: - nacionalismo e só nacionalismo! Carecemos, portanto, de uma doutrina que discipline e que sistematize, - doutrina que seja ao mesmo tempo trabalho de verificação histórica e de aplicação sociológica. Possuímos, de um lado, os dois elementos naturais, - Terra e Raça ["Raça" é sinónimo de "Grei" ou "Povo"]; do outro lado, encontramo-nos com a Nação desorganizada na sua forma orgânica superior, — o Estado. Em conformidade com as determinantes da Terra e da Raça restabeleça-se o Estado em toda a plenitude das suas verdadeiras características. É um axioma científico, mais que difundido hoje, esse axioma de que a instituições de um povo são a criação da sua existência secular. Teremos assim que nos inscrever contra as abstracções e os caprichos do romantismo político e sentimental. De modo que, partindo de uma pura concepção da sociedade, que não é democrática, baseada na dispersão individualista, haveremos logicamente de concluir no
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tradicionalismo, não como corrente filosófica, mas como método positivo de acção e de governo.
O nacionalismo precisa, por consequência, de se completar com o tradicionalismo. Mas o cue se entende por Tradição? Mas o que é o Tradicionalismo? O que se quererá significar com a frase tão repetida, tão na boca de toda a gente, amigos ou adversários: - regressar ao Passado? Sosseguem desde já os cérebros imbuídos da anacrónica mitologia do Progresso-Indefinido, que ninguém se esforça em ressuscitar artificialmente o que nunca se acomodaria nem às exigências nem às condições da vida moderna! A Tradição, para os tradicionalistas, não é de maneira alguma um ponto inerte na história. É antes uma linha harmónica e ininterrupta, encadeando entre si as gerações e as idades, os acontecimentos e os homens. Enquanto que para a Democracia [sinónimo de representação individualista, ideológica], a sociedade existe apenas como uma poeira avulsa de indivíduos, - tristes átomos revoltos de um breve e descobrido momento, para o tradicionalista, em concordância com os dados fornecidos pela realidade quotidiana, a célula social é a Família, não sendo a Pátria mais do que um sólido agrupamento de províncias, por sua vez composta de agrupamentos de municípios, que são já por si um agrupamento vigoroso de famílias. Assim o indivíduo só conta para um tradicionalista como membro duma família, integrado territorialmente no seu município e profissionalmente na sua corporação.
[153]
Ora a Tradição, assegurando a continuidade dos diversos valores de que em conjunto resulta a Pátria, pode definir-se justamente como a permanência no desenvolvimento. Sendo, pois, a permanência no desenvolvimento,— uma linha, e não um ponto, a Tradição, - parece-nos caracterizada cientificamente, em relação a uma época, como a soma dos conhecimentos e das conquistas obtidas anteriormente e logo, sem quebra nem suspensão, comunicados á época seguinte. É no que consiste a solidariedade dos Vivos com os Mortos, segundo a grande palavra de Auguste Comte. E só por êste critério se compreende e justifica o dito de Pascal: — «l'humanité est un homme qui ne meurt pas et qui apprend toujours». Portanto, se há «progresso», o «progresso» importa consigo a ideia fundamental da Tradição. O «progresso», como aditivo que é, por via de regra, depende sempre duma transmissão recebida, que só por intermédio da Tradição se torna, realmente, possível. Mesmo quando o «progresso» exerça excepcionalmente uma função subtractiva, não a exerce senão para robustecer a Tradição, depurando-a dos seus elementos atrofiados ou inferiores. Porque a Tradição, como a própria vida, reelabora-a incessantemente. De onde se verifica serem exactas as observações do tradicionalista [A. L.] Galéot no seu livro De l'organisation des activités humaines [Paris, Nouvelle librairie nationale, 1919], ao acentuar que o papel do "progresso" é preparar "melhores tradições", sem que com isso Galéot nem
Ora a Tradição, assegurando a continuidade dos diversos valores de que em conjunto resulta a Pátria, pode definir-se justamente como a permanência no desenvolvimento. Sendo, pois, a permanência no desenvolvimento,— uma linha, e não um ponto, a Tradição, - parece-nos caracterizada cientificamente, em relação a uma época, como a soma dos conhecimentos e das conquistas obtidas anteriormente e logo, sem quebra nem suspensão, comunicados á época seguinte. É no que consiste a solidariedade dos Vivos com os Mortos, segundo a grande palavra de Auguste Comte. E só por êste critério se compreende e justifica o dito de Pascal: — «l'humanité est un homme qui ne meurt pas et qui apprend toujours». Portanto, se há «progresso», o «progresso» importa consigo a ideia fundamental da Tradição. O «progresso», como aditivo que é, por via de regra, depende sempre duma transmissão recebida, que só por intermédio da Tradição se torna, realmente, possível. Mesmo quando o «progresso» exerça excepcionalmente uma função subtractiva, não a exerce senão para robustecer a Tradição, depurando-a dos seus elementos atrofiados ou inferiores. Porque a Tradição, como a própria vida, reelabora-a incessantemente. De onde se verifica serem exactas as observações do tradicionalista [A. L.] Galéot no seu livro De l'organisation des activités humaines [Paris, Nouvelle librairie nationale, 1919], ao acentuar que o papel do "progresso" é preparar "melhores tradições", sem que com isso Galéot nem
[154]
de longe incorra nos devaneios e nos improvisos da chamada "filosofia do Progresso".
Pelo contrário, Galéot opõe com crítica segura ao conceito corrente de "evolução" o conceito antagónico de "tradição", repelindo assim terminantemente o romance do "devenir" social, deduzido dos exageros, das teorias transformistas. Das teorias transformistas se socorreu e se socorre ainda agora, com efeito, a utopia da "bondade-natural" do homem, herdada de Jean-Jacques Rousseau e alicerce de todo o grosseiríssimo erro democrático. Corrigidos os excessos do transformismo, é no próprio campo das doutrinas evolucionistas que se entra a reconhecer a constância da natureza humana,— exceptuadas, claro, as modificações acidentais, despidas sempre de qualquer sentido evolutivo. Eis porque nos não deve surpreender que Félix Le Dantec [1869-1917] escrevesse no seu L'Egoïsme [L' Égoïsme, seule base de toute société - Étude des déformations resultant de la vie en commun. Paris, Flammarion, 1912] que "é a tradição, e não hereditariedade propriamente dita, quem faz que nós sejamos homens do nosso tempo". E porquê? Porque, - esclarece Dantec —, as "nossas adaptações são simplesmente individuais, e não especificas; o fundo de todos nós, o fundo da espécie, é imutável ou varia pouco".
Encarada e defendida a Tradição nestes justos termos, ela afirma-se-nos desde logo como uma força viva, com tanto de inalienável como de fixa. "Por duas vezes os mortos nos geram, — comenta Galéot; — geram-nos no nosso ser físico e nos conhecimentos e mais disciplinas reguladoras da nossa
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existência. Se as gerações separadas por um intervalo de longos séculos,- os antigos e os modernos, dispõem, por exemplo, de técnicas e de modos de vida diferentes, não é a uma evolução interna que eles o devem; devem-no mas é à tradição. É pela tradição que se assegura aos que vierem últimos uma sorte melhor e uma melhor compreensão do mundo material e moral. Mesmo os aperfeiçoamentos mais recentes e as mais recentes descobertas lhe são devidas, pois sem tradição, sem a acumulação das verdades positivas, ou de tanto erro rectificado, não teriam sido possíveis nem se haveriam concebido". De forma que a definirmos Tradição, — espécie de razão colectiva e sub-consciente, a definiremos melhor como constituindo um sistema de "normas gerais de actividade", ainda segundo Galéot.
Pois, em nome das "normas gerais de actividade" que representa para Portugal a tradição portuguesa é que o nosso nacionalismo, tornado mandato imperativo da Pátria em perigo, reorganizará amanhã a Nacionalidade, da Família ao Município e à Corporação, do Município e da Corporação ao Estado, integrado na sua forma histórica superior, — a Monarquia. E aqui tem o meu prezado Amigo como o Nacionalismo, aliado com o Tradicionalismo, nos oferece as desejadas disciplinas do ressurgimento.
de longe incorra nos devaneios e nos improvisos da chamada "filosofia do Progresso".
Pelo contrário, Galéot opõe com crítica segura ao conceito corrente de "evolução" o conceito antagónico de "tradição", repelindo assim terminantemente o romance do "devenir" social, deduzido dos exageros, das teorias transformistas. Das teorias transformistas se socorreu e se socorre ainda agora, com efeito, a utopia da "bondade-natural" do homem, herdada de Jean-Jacques Rousseau e alicerce de todo o grosseiríssimo erro democrático. Corrigidos os excessos do transformismo, é no próprio campo das doutrinas evolucionistas que se entra a reconhecer a constância da natureza humana,— exceptuadas, claro, as modificações acidentais, despidas sempre de qualquer sentido evolutivo. Eis porque nos não deve surpreender que Félix Le Dantec [1869-1917] escrevesse no seu L'Egoïsme [L' Égoïsme, seule base de toute société - Étude des déformations resultant de la vie en commun. Paris, Flammarion, 1912] que "é a tradição, e não hereditariedade propriamente dita, quem faz que nós sejamos homens do nosso tempo". E porquê? Porque, - esclarece Dantec —, as "nossas adaptações são simplesmente individuais, e não especificas; o fundo de todos nós, o fundo da espécie, é imutável ou varia pouco".
Encarada e defendida a Tradição nestes justos termos, ela afirma-se-nos desde logo como uma força viva, com tanto de inalienável como de fixa. "Por duas vezes os mortos nos geram, — comenta Galéot; — geram-nos no nosso ser físico e nos conhecimentos e mais disciplinas reguladoras da nossa
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existência. Se as gerações separadas por um intervalo de longos séculos,- os antigos e os modernos, dispõem, por exemplo, de técnicas e de modos de vida diferentes, não é a uma evolução interna que eles o devem; devem-no mas é à tradição. É pela tradição que se assegura aos que vierem últimos uma sorte melhor e uma melhor compreensão do mundo material e moral. Mesmo os aperfeiçoamentos mais recentes e as mais recentes descobertas lhe são devidas, pois sem tradição, sem a acumulação das verdades positivas, ou de tanto erro rectificado, não teriam sido possíveis nem se haveriam concebido". De forma que a definirmos Tradição, — espécie de razão colectiva e sub-consciente, a definiremos melhor como constituindo um sistema de "normas gerais de actividade", ainda segundo Galéot.
Pois, em nome das "normas gerais de actividade" que representa para Portugal a tradição portuguesa é que o nosso nacionalismo, tornado mandato imperativo da Pátria em perigo, reorganizará amanhã a Nacionalidade, da Família ao Município e à Corporação, do Município e da Corporação ao Estado, integrado na sua forma histórica superior, — a Monarquia. E aqui tem o meu prezado Amigo como o Nacionalismo, aliado com o Tradicionalismo, nos oferece as desejadas disciplinas do ressurgimento.
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As disciplinas do Ressurgimento
Como a renovação da Nacionalidade é condicionada pela devolução de Portugal à sua ideia-directriz [Católica e Monárquica], naturalmente a renovação literária terá que se produzir ao contacto forte da Terra e da Raça. Nasce de aqui o problema do Regionalismo, tão estreitamente ligado no seu aspecto artístico ao problema da descentralização económica e administrativa.
Na verdade, o sentimento do Universo e a aspiração do Infinito podem traduzir-se através dos nossos limites, que no determinismo do Sangue e da Paisagem, que na lição dos Horizontes e dos Mortos possuem a sua fonte perene de exaltação, - um potencial inesgotável da mais rica e abundante energia lírica. Não é restringir-nos a um mero enunciado das emoções que em nós despertam, por exemplo, as cegonhas voando por sobre o perfil caiado da vila que nos viu nascer. Deus nos livre disso, porque seria cairmos numa espécie de reportagem cenográfica, boa para operetas e bilhetes postais ilustrados! Há a contar com a inquietação do nosso tempo, lembrando-nos a toda a hora de que o regionalismo não é por si uma expressão artística, mas unicamente um elemento de expressão. Conciliar o seu particularismo com a crepitação das nossas asas interiores é traçar o molde em que a obra de arte humanamente se
[157]
tornará possível. «L'intelligence s'élargit, le point de vue devient cosmopolite et la race, sans sortir de chez soi, participe aux troubles, aux erreurs, aux sensibilités des races plus eloignées». O depoimento pertence a Léon Daudet e condensa, quanto a mim, o preceito crítico através do qual se deve examinar esta palpitante questão do Regionalismo.
Porque o Regionalismo, - insisto -, não é, de modo nenhum, uma estreita nomenclatura de costumes e perspectivas locais. É, sobretudo, uma concepção vívida da Existência, - enraizada nas nossas veias por aquela regra que, de avós a netos, a Terra e a Raça nos impuseram à percepção e ao temperamento. Enganam-se os que interpretam o Regionalismo como a reprodução miúda, quase fotográfica, da nossa pequena pátria, onde, com a meninice, se recolheram as primeiras e as mais indeléveis impressões. A filosofia do Regionalismo, - digamo-lo assim - , está admiravelmente contida em certa passagem conhecidíssima de Henri Bordeaux: — "a aptidão dos lugares para conformar as almas". Não se caracteriza por isso, o Regionalismo como constituindo um catálogo de temas modestos, em que o escrúpulo da notação exterior haja de subordinar e apagar esse quantum de sinteses, ou experiência espiritual que sempre a Arte, qualquer que seja a sua forma, deverá importar consigo.
O que sucede com o Regionalismo, artisticamente considerado, é o que sucede com o Nacio-
[158]
nalismo, encarado debaixo de igual ponto de vista.
Ao proclamá-las como disciplinas imprescindíveis para o ressurgimento das nossas letras, ninguém suponha que eu as pretendo enclausurar numa estéril restrição formalista, em que os «motivos» sejam sabidos de antemão; e de antemão, como na ditadura da Arcadia, tabelizados os géneros e policiadas as emoções. O que é imperioso é que na comunhão geral de todas as raças, dentro da mesma corrente ou tendência de espírito, guarde cada uma a sua personalidade inalienável, mantendo-a ciosa e inalteravelmente, por oposto que se manifeste o sopro ideológico ou lírico que a enche de estremecimentos criadores. Observa algures o critico F. Baldensperger no seu livro La littérature que as literaturas, ainda que não nacionais na origem, terminam invariavelmente por se nacionalizarem. Trata-se duma lei psicológica tão certa, tão comprovada, que quando não se acate, cai-se irremediavelmente no «artificial» e no «mediocre», em que a criação artística, filha primogénita da Inteligência, é substituída de pronto pela «composição», filha de uma maior ou menor possibilidade de execução e de gosto. Tão depressa a «execução» e o «gosto» subordinem, como simples parte formal que são, a unidade da concepção, não há mais «literatura», conquanto haja, - na frase de Antero -, «coisas literárias».
Suponho não ser outro o plano em que o meu Amigo se coloca no seu inquérito e ao qual corres-
[159]
ponde exatamente o estado lastimoso das nossas letras, onde, com o alastramento do fenómeno democrático em todas as manifestações da vida portuguesa, só predomina o «sensível» em lugar do «humano», o «agradável» em lugar do «profundo». E porquê? Por uma cadeia infinita de causas, cujo inventário, por muito sucinto que ele fosse, importaria o esboço de um volume de bastantes páginas.
É esse, realmente, um estudo a fazer, - espécie de roteiro indispensável para a boa formação intelectual das gerações que sobem atrás da nossa, já cheias do estremecimento divino do futuro. Paul Bourget deixou-nos um modelo admirável nos seus Essais de psychologie contemporaine. Transpondo para o nosso pequeno ambiente as reflexões do ilustre mestre francês, se os efeitos se nos mostram os mesmos, necessariamente que as mesmas serão as determinantes. Assim a visível decadência das nossas letras não tem explicação diversa daquela que o sociólogo ou o historiador procurarão para a decomposição social e política em que Portugal se afunda e perde de dia para dia, de hora para hora. O mal data de há um século,— vem do individualismo frenético da Revolução-Francesa, introduzido na nossa raça por pecado mortal de sensibilidade.
Não é que eu condene em absoluto o Romantismo, quando expresso em Garrett e Herculano. O que eu condeno é a importação das ideologias deprimentes da França de 89, por cujas funestas
[160]
consequências se desorganizou a estrutura rija da Nacionalidade, - pelo Parlamentarismo no político, pelo Código-Civil no social, pelo Regalismo no religioso. São aspectos de um só problema que unitariamente, que, integralmente, carece de se ponderar. Não aludindo às causas anteriores de desnaturação e deslocamento que Portugal sofreu com a miragem erudita da Renascença e com os nefastos geometrismos da ditadura pombalina, é ai, sem contestação séria, que nós precisamos de remontar, para que se compreenda e abrace em toda a sua amplitude a crise tremendíssima de que hoje somos os herdeiros, bem longe de sermos os responsáveis.
Já se entende porque eu principiei por afirmar que sintomas no sentido politico em que o meu prezado Amigo os deseja e toma não os distingo nem se apalpam bem. Porém, no sentido contrário abundam de mais os referidos sintomas, tanto políticos e sociais, como religiosos e artísticos. Ausência de tudo, — ausência do Estado, (o Estado em Portugal não é mais que o "comunismo burocrático", de que já falava Oliveira Martins), ausência de Coletividade, ausência de Religião e ausência de Arte. Consequentemente, - ausência de Nacionalidade, resumirá quem me leia. Ora o engano é esse! Crise da Nacionalidade, - será efectivamente, mas não dissolução ou morte dela. O que se dissolve e extingue entre nós, num precipitado desfecho de tragédia, é a conformação individualista da
[161]
sociedade que, impondo-se ao país contra o seu forte arcaboiço secular, o não deixou viver durante mais de cem anos em harmonia com as direcções naturais do seu génio. Não confundamos, pois, uma questão com outra! Claro que Portugal corre risco de morte, se o não desembaraçarmos a tempo da túnica de Nessus. Mas, admitindo que o golpe cirúrgico se vibra com oportunidade, restar-nos-ão, pela Raça em si e pela indole resistente do país, recursos capazes de serem levados ao caminho de uma segura ressurreição nacional? Eis onde o meu nacionalismo intervém e com ele o conjunto de verdades que constituem a verdade portuguesa.
Da verdade portuguesa fazem parte, como disciplinas do Ressurgimento, o Regionalismo e o Nacionalismo na literatura e na arte. Qual seja o significado tanto de um como do outro já nós o sabemos. Não são mais que o respeito devido ao nosso condicionalismo hereditário, marcando a posição da nossa sensibilidade pessoal dentro da sensibilidade da nossa época. Bem regionalista foi Mistral, e os seus poemas são asas palpitando ao vento forte de todo o mundo! Barrès dizia duma vez que o maior poeta para ele seria o que sentisse a mais larga porção de universo dentro do horizonte mais estreito, mais apertado. Eis o senso exacto do Regionalismo, que, elevado a um grau superior, nos entrega a chave do Nacionalismo. Confessemos a Raça na perpetuidade emotiva dos ritmos do nosso coração, - confessemos o sangue antigo
[162]
no bater inquieto das nossas interrogações! Se há um patriotismo territorial e moral, porque não haverá igualmente um patriotismo literário e artístico? Ponderem-no bem os desgarrados do sentimento e que da sua volta às fontes eternas da inspiração ancestral resulte o prestígio suspirado duma renascença nas nossas letras!
Na verdade, o sentimento do Universo e a aspiração do Infinito podem traduzir-se através dos nossos limites, que no determinismo do Sangue e da Paisagem, que na lição dos Horizontes e dos Mortos possuem a sua fonte perene de exaltação, - um potencial inesgotável da mais rica e abundante energia lírica. Não é restringir-nos a um mero enunciado das emoções que em nós despertam, por exemplo, as cegonhas voando por sobre o perfil caiado da vila que nos viu nascer. Deus nos livre disso, porque seria cairmos numa espécie de reportagem cenográfica, boa para operetas e bilhetes postais ilustrados! Há a contar com a inquietação do nosso tempo, lembrando-nos a toda a hora de que o regionalismo não é por si uma expressão artística, mas unicamente um elemento de expressão. Conciliar o seu particularismo com a crepitação das nossas asas interiores é traçar o molde em que a obra de arte humanamente se
[157]
tornará possível. «L'intelligence s'élargit, le point de vue devient cosmopolite et la race, sans sortir de chez soi, participe aux troubles, aux erreurs, aux sensibilités des races plus eloignées». O depoimento pertence a Léon Daudet e condensa, quanto a mim, o preceito crítico através do qual se deve examinar esta palpitante questão do Regionalismo.
Porque o Regionalismo, - insisto -, não é, de modo nenhum, uma estreita nomenclatura de costumes e perspectivas locais. É, sobretudo, uma concepção vívida da Existência, - enraizada nas nossas veias por aquela regra que, de avós a netos, a Terra e a Raça nos impuseram à percepção e ao temperamento. Enganam-se os que interpretam o Regionalismo como a reprodução miúda, quase fotográfica, da nossa pequena pátria, onde, com a meninice, se recolheram as primeiras e as mais indeléveis impressões. A filosofia do Regionalismo, - digamo-lo assim - , está admiravelmente contida em certa passagem conhecidíssima de Henri Bordeaux: — "a aptidão dos lugares para conformar as almas". Não se caracteriza por isso, o Regionalismo como constituindo um catálogo de temas modestos, em que o escrúpulo da notação exterior haja de subordinar e apagar esse quantum de sinteses, ou experiência espiritual que sempre a Arte, qualquer que seja a sua forma, deverá importar consigo.
O que sucede com o Regionalismo, artisticamente considerado, é o que sucede com o Nacio-
[158]
nalismo, encarado debaixo de igual ponto de vista.
Ao proclamá-las como disciplinas imprescindíveis para o ressurgimento das nossas letras, ninguém suponha que eu as pretendo enclausurar numa estéril restrição formalista, em que os «motivos» sejam sabidos de antemão; e de antemão, como na ditadura da Arcadia, tabelizados os géneros e policiadas as emoções. O que é imperioso é que na comunhão geral de todas as raças, dentro da mesma corrente ou tendência de espírito, guarde cada uma a sua personalidade inalienável, mantendo-a ciosa e inalteravelmente, por oposto que se manifeste o sopro ideológico ou lírico que a enche de estremecimentos criadores. Observa algures o critico F. Baldensperger no seu livro La littérature que as literaturas, ainda que não nacionais na origem, terminam invariavelmente por se nacionalizarem. Trata-se duma lei psicológica tão certa, tão comprovada, que quando não se acate, cai-se irremediavelmente no «artificial» e no «mediocre», em que a criação artística, filha primogénita da Inteligência, é substituída de pronto pela «composição», filha de uma maior ou menor possibilidade de execução e de gosto. Tão depressa a «execução» e o «gosto» subordinem, como simples parte formal que são, a unidade da concepção, não há mais «literatura», conquanto haja, - na frase de Antero -, «coisas literárias».
Suponho não ser outro o plano em que o meu Amigo se coloca no seu inquérito e ao qual corres-
[159]
ponde exatamente o estado lastimoso das nossas letras, onde, com o alastramento do fenómeno democrático em todas as manifestações da vida portuguesa, só predomina o «sensível» em lugar do «humano», o «agradável» em lugar do «profundo». E porquê? Por uma cadeia infinita de causas, cujo inventário, por muito sucinto que ele fosse, importaria o esboço de um volume de bastantes páginas.
É esse, realmente, um estudo a fazer, - espécie de roteiro indispensável para a boa formação intelectual das gerações que sobem atrás da nossa, já cheias do estremecimento divino do futuro. Paul Bourget deixou-nos um modelo admirável nos seus Essais de psychologie contemporaine. Transpondo para o nosso pequeno ambiente as reflexões do ilustre mestre francês, se os efeitos se nos mostram os mesmos, necessariamente que as mesmas serão as determinantes. Assim a visível decadência das nossas letras não tem explicação diversa daquela que o sociólogo ou o historiador procurarão para a decomposição social e política em que Portugal se afunda e perde de dia para dia, de hora para hora. O mal data de há um século,— vem do individualismo frenético da Revolução-Francesa, introduzido na nossa raça por pecado mortal de sensibilidade.
Não é que eu condene em absoluto o Romantismo, quando expresso em Garrett e Herculano. O que eu condeno é a importação das ideologias deprimentes da França de 89, por cujas funestas
[160]
consequências se desorganizou a estrutura rija da Nacionalidade, - pelo Parlamentarismo no político, pelo Código-Civil no social, pelo Regalismo no religioso. São aspectos de um só problema que unitariamente, que, integralmente, carece de se ponderar. Não aludindo às causas anteriores de desnaturação e deslocamento que Portugal sofreu com a miragem erudita da Renascença e com os nefastos geometrismos da ditadura pombalina, é ai, sem contestação séria, que nós precisamos de remontar, para que se compreenda e abrace em toda a sua amplitude a crise tremendíssima de que hoje somos os herdeiros, bem longe de sermos os responsáveis.
Já se entende porque eu principiei por afirmar que sintomas no sentido politico em que o meu prezado Amigo os deseja e toma não os distingo nem se apalpam bem. Porém, no sentido contrário abundam de mais os referidos sintomas, tanto políticos e sociais, como religiosos e artísticos. Ausência de tudo, — ausência do Estado, (o Estado em Portugal não é mais que o "comunismo burocrático", de que já falava Oliveira Martins), ausência de Coletividade, ausência de Religião e ausência de Arte. Consequentemente, - ausência de Nacionalidade, resumirá quem me leia. Ora o engano é esse! Crise da Nacionalidade, - será efectivamente, mas não dissolução ou morte dela. O que se dissolve e extingue entre nós, num precipitado desfecho de tragédia, é a conformação individualista da
[161]
sociedade que, impondo-se ao país contra o seu forte arcaboiço secular, o não deixou viver durante mais de cem anos em harmonia com as direcções naturais do seu génio. Não confundamos, pois, uma questão com outra! Claro que Portugal corre risco de morte, se o não desembaraçarmos a tempo da túnica de Nessus. Mas, admitindo que o golpe cirúrgico se vibra com oportunidade, restar-nos-ão, pela Raça em si e pela indole resistente do país, recursos capazes de serem levados ao caminho de uma segura ressurreição nacional? Eis onde o meu nacionalismo intervém e com ele o conjunto de verdades que constituem a verdade portuguesa.
Da verdade portuguesa fazem parte, como disciplinas do Ressurgimento, o Regionalismo e o Nacionalismo na literatura e na arte. Qual seja o significado tanto de um como do outro já nós o sabemos. Não são mais que o respeito devido ao nosso condicionalismo hereditário, marcando a posição da nossa sensibilidade pessoal dentro da sensibilidade da nossa época. Bem regionalista foi Mistral, e os seus poemas são asas palpitando ao vento forte de todo o mundo! Barrès dizia duma vez que o maior poeta para ele seria o que sentisse a mais larga porção de universo dentro do horizonte mais estreito, mais apertado. Eis o senso exacto do Regionalismo, que, elevado a um grau superior, nos entrega a chave do Nacionalismo. Confessemos a Raça na perpetuidade emotiva dos ritmos do nosso coração, - confessemos o sangue antigo
[162]
no bater inquieto das nossas interrogações! Se há um patriotismo territorial e moral, porque não haverá igualmente um patriotismo literário e artístico? Ponderem-no bem os desgarrados do sentimento e que da sua volta às fontes eternas da inspiração ancestral resulte o prestígio suspirado duma renascença nas nossas letras!
Belphegor em Kamtchatka
O acordo com essas realidades íntimas, porque se define e mantém o segredo da nossa individualidade, não nos permite que sejamos pela chamada "internacional artística". É falsa a teoria da Arte pela Arte, como é falsa toda a Estética que não se fundamenta na vida como vida e apenas a mire de longe, estilizada e retocada, segundo o requeiram os caprichos de certos pitorescos senhores que, novos Des Esseintes, mas de pícara extracção, só gostam da natureza vista através dos vidros de cor. Alcunha-os Léon Daudet de Kamtchatkas, servindo-se, com o seu raro poder de tipificação, da afastadíssima península asiática, para no-los apresentar como extremistas da sensibilidade e do gosto, refugiados lá no cabo do mundo fantástico em que se passeia e compraz a sua originalidade rebuscada e doentia. Caudatários de Baudelaire, com Jean Lorrain por sacristão, escolheram Oscar Wilde por seu príncipe, coroado de paradoxos. Detestam as plebes e isolam-se entre cisnes, — as mãos mergu
[163]
lhadas em gomis lavrados pelos mais preciosos cinzeladores florentinos. E o que é triste é que a sociedade contemporânea lhes facilita o exibicionismo simiesco, quando não passam, ou de puros anormais, já ao alcance da patologia, ou de arrivistas sem talento que na rosa vermelha do escândalo depõem a sua única possibilidade de sucesso. Contado, não diminuamos a importância dos Kamtchatkas! E certo que em Portugal não contam para nada e raros excedem as linhas banais de uma banal caricatura. Correspondem, no entanto, a uma depressão grave no equilíbrio psíquico das classes elevadas. Classes em que se perdem por completo a noção de responsabilidade e a tradição de cultura, encontram-se em Portugal, como, de resto, em toda a parte para onde quer que nos voltemos, inteiramente nas mãos dos judeus da Finança. De «Belphegor» intitulou Julien Benda um notável ensaio sobre a estética da actual sociedade francesa. Belphegor era o deus semita dos cartagineses, a que Benda, não sei porque discretas razões, atribui exclusivamente os defeitos atribuídos em geral aos israelitas. Assim admite, - nas suas próprias palavras -, duas espécies de Judeus: - os judeus severos e moralistas e os judeus ávidos de sensações, ou seja como quem diz, «os Hebreus e os Cartagineses, Jahveh e Belphegor, Spinoza e Bergson». Não discutamos as diferenças propostas por Benda. Registemos somente que ele reconhece a especial adoração dos «cartagineses› pelo indistinto, pela
[164]
sede alexandrina do não definido, do misterioso, em que é transparente a "confusão do sujeito com o objecto".
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lhadas em gomis lavrados pelos mais preciosos cinzeladores florentinos. E o que é triste é que a sociedade contemporânea lhes facilita o exibicionismo simiesco, quando não passam, ou de puros anormais, já ao alcance da patologia, ou de arrivistas sem talento que na rosa vermelha do escândalo depõem a sua única possibilidade de sucesso. Contado, não diminuamos a importância dos Kamtchatkas! E certo que em Portugal não contam para nada e raros excedem as linhas banais de uma banal caricatura. Correspondem, no entanto, a uma depressão grave no equilíbrio psíquico das classes elevadas. Classes em que se perdem por completo a noção de responsabilidade e a tradição de cultura, encontram-se em Portugal, como, de resto, em toda a parte para onde quer que nos voltemos, inteiramente nas mãos dos judeus da Finança. De «Belphegor» intitulou Julien Benda um notável ensaio sobre a estética da actual sociedade francesa. Belphegor era o deus semita dos cartagineses, a que Benda, não sei porque discretas razões, atribui exclusivamente os defeitos atribuídos em geral aos israelitas. Assim admite, - nas suas próprias palavras -, duas espécies de Judeus: - os judeus severos e moralistas e os judeus ávidos de sensações, ou seja como quem diz, «os Hebreus e os Cartagineses, Jahveh e Belphegor, Spinoza e Bergson». Não discutamos as diferenças propostas por Benda. Registemos somente que ele reconhece a especial adoração dos «cartagineses› pelo indistinto, pela
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sede alexandrina do não definido, do misterioso, em que é transparente a "confusão do sujeito com o objecto".
1920_-_antónio_sardinha_-_pratiquemos_um_acto_de_inteligência.pdf
In Purgatório das Ideias , Lisboa, Ferin, 1929, pp. 143-180.
In Purgatório das Ideias , Lisboa, Ferin, 1929, pp. 143-180.
Refs.
- René Lote (1883-1944), Minerve et Vulcain. L'industrialisme et la culture intellectuelle, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1919.
- Gonzague Truc (1877-1972), Le retour à la Scolastique, Paris, La Renaissance du Livre, 1919 [1919_-_gonzague_truc_-_le_retour_à_la_scolastique.pdf]
- George Valois (1878-1945), L' Économie nouvelle, Paris, Nouvelle Librairie Nationale, 1919 (2ª ed. 1920).
- A. L. Galéot, De l'organisation des activités humaines. Paris, Nouvelle librairie nationale, 1919.
- Félix Le Dantec (1869-1917) - L' Égoïsme, Paris, Flammarion, 1912. [1912_-_felix_le_dantec_-_legoisme_seule_base_de_toute_societe.pdf]
- Paul Bourget (1852-1935) - Essais de psychologie contemporaine, Paris, Alphonse Lemerre, ed. 1920 [1920_paul_bourget_essais_de_psychologie.pdf]
- Fernand Baldensperger (1871-1958), La Littérature: création, succès, durée, Paris, Ernest Flammarion, 1913 [1913-fernand_baldensperger_-_la_litterature.pdf]