Amizade peninsular
António Sardinha
Fotografia a que António Sardinha se refere neste texto. Foi tirada na reunião que o Marquês de Quintanar promoveu e ofereceu a alguns exilados portugueses, no Hotel Ritz em Madrid, com nomes do meio literário madrileno. Esta fotografia foi publicada no jornal "La Tribuna" e foi reproduzida em "A Monarquia" no dia 3 de Agosto de 1920. Aqui reproduzida a partir de Maria da Conceição Cabrita ("Revista Militar", 2010).
Caminham no melhor dos terrenos os nossos propósitos de aproximação peninsular. As "direitas" dos dois países, que o sejam verdadeiramente por afinidade e por doutrina, não tardarão a encontrar-se numa grande festa comum, alicerce para outros empreendimentos de mais larga significação. A data fixada será o centenário de Magalhães, já oficialmente decretado pelo governo espanhol.
Circunstância notável para se assinalar é a de pertencer hoje a um integralista ilustre a representação do nome e do sangue de Fernão de Magalhães – o heróico e tão caluniado português que, embora ao serviço de Carlos V, tão altos serviços prestou aos destinos da civilização e da Cristandade. Membro hoje da Junta Central do Integralismo Lusitano, o conde de Vilas-Boas sentir-se-á certamente satisfeito ao saber que é à roda da memória do seu glorioso ascendente que, numa espécie de reabilitação póstuma, se dará esse extraordinário passo.
Não lhe faltará ambiente favorável – atmosfera entusiástica. Ainda ultimamente os minutos de palestra oferecidos no Hotel Ritz, em Madrid, a alguns dos nossos mais queridos amigos exilados, pelo senhor marquês de Quintanar, prova bem como avança, seguro do mais absoluto êxito, um intento nosso que é de meses apenas.
O senhor marquês de Quintanar – gentil-homem de raça e de espírito – acaba de publicar, em volume, com uma significativa carta do conde de Romanones, os seus conhecidos e belos artigos sobre «Portugal y el hispanismo». Não se esqueceu a sensação que produziram as suas revelações acerca do procedimento do antigo rei de Portugal durante a insurreição de 1919. Pois acrescenta-lhes agora um comentário, bastante para meditar nas suas reticências, a carta do conde de Romanones. Mas nós falávamos da tarde oferecida no Ritz a alguns dos nossos amigos emigrados. Como se não tratava de um ágape de evidente internacionalismo maçónico, os jornais portugueses não lhe dispensaram a mínima referência, apesar do eco minucioso que encontrou aqui, na imprensa, desde uma extrema à outra, do ABC a El Sol, da Época ao Heraldo. A Tribuna inseriu até uma interessante fotografia, que há-de ficar como documento precioso para o esforço que o senhor marquês de Quintanar está desenvolvendo à volta das campanhas peninsularistas do Integralismo.
Reunindo à hora do chá no Ritz bastantes personalidades em destaque no meio literário madrileno, o pensamento do senhor marquês de Quintanar apresenta-se claramente no seu desejo de ligar por uma mais forte comunhão de inteligências e de sensibilidades aqueles a quem o amor conjunto da Espanha e de Portugal já tornava irmãos mesmo antes de se conhecerem.
Fixemos o facto, sobretudo no momento em que uma mercenária das letras, uma tal senhora Colombina, se intitula em Lisboa ‘embaixadora da mentalidade espanhola’.
Dos nossos amigos, a convite do senhor marquês de Quintanar, estiveram no chá do Ritz – Luís de Almeida Braga, António Sardinha e Vasco de Mendonça, não permitindo o luto recente do dr. Alberto de Monsaraz que assistisse a tão delicada e inolvidável festa. Mais dois portugueses, o dr. Álvaro dos Reis Torgal e Constantino Sotomaior, completavam a representação lusitana. Apresentou-os o senhor marquês de Quintanar aos outros convidados, entre os quais se encontravam, em primeira linha, as escritoras, condessa de Pardo Bazan e D. Branca de los Ríos Lampérez, sobrinha de Amador de los Ríos e directora da Raza Española. Via-se mais na assistência o marquês de Figueiroa, membro da Academia, senador do Reino, antigo ministro da Gracia y Justicia, o marquês de Castelbrabo, que com o seu nome de família Álvaro Alcalá Galiano afirma no ABC tão finas e saborosas crónicas, o marquês de Valdeiglesias, director da Época, D. Vicente Lampérez, o insigne historiador da arquitectura medieval na península, José María Salaverría, o escritor tão querido pelo seu espanholismo incondicional, o poeta Goy da Silva, tradutor de Eugénio de Castro, André González Blanco, tradutor de Eça de Queiroz, os beneméritos editores Saturnino e Rafael Calleja, etc.
Alberto Monsaraz enviou uma poesia, escrita para o acto, que saíra na Raza Española e que a condessa de Pardo Bazán leu atenciosissimamente, dominando o português com inesperada soberania. Fez-se depois a fotografia, saída na Tribuna.
Como indício do muito que não demorará a cristalizar em acontecimentos sonoros, a reunião do Ritz vale pelo mais belo de todos os auspícios. Bem haja o marquês de Quintanar, que tão superiormente dignifica a sua ancestralidade portuguesa! Não lhe regateemos as nossas fervorosas homenagens.
E com a boa notícia da festa que se prepara para a comemoração do centenário de Magalhães, por aqui nos suspendemos hoje, não sem aludir ao excelente artigo de Salaverría – «España y Portugal» – no ABC dois dias depois da reunião do Ritz.
É um depoimento esse que marcará no nosso itinerário uma milha mais, pela desassombrada e justiceira condenação que a Salaverría merece o indiferentismo da quase totalidade dos espanhóis pelos portugueses, seus meios irmãos. A Espanha culta começa a mirar com interesse Portugal. E o Integralismo Lusitano pode afirmar com verdade que em semelhante capítulo a obra lhe cabe quase por completo.
(Madrid, 10.05.1920)
[ negrito acrescentado ]