De Quem é a Vitória?
António Sardinha
O texto reflete sobre a crise da civilização materialista e defende que o momento de aparente catástrofe é, na verdade, uma oportunidade para o ressurgimento de uma ordem baseada em princípios cristãos e tradicionais. Critica o individualismo e o materialismo, apontando o bolchevismo como consequência, mas reconhecendo que até mesmo os erros do comunismo trazem lições e elementos positivos que pertencem à tradição cristã. Sardinha conclui que a vitória pertence às doutrinas que defendem a restauração da ordem natural e cristã, vendo o momento de crise como uma etapa necessária para a renovação e fortalecimento desses valores.
DE QUEM É A VITÓRIA?
Nesta hora de agitada renovação social, só os espíritos timoratos se enchem de pavor diante da catástrofe que se desenha no horizonte. Mas para quem tem a alma fortificada na posse dos princípios eternos, é só de confusão aparente o momento que passa. Mais do que nunca o problema se simplifica, ao contrário de quantos supõem chegado o instante final da civilização. É certo que ele chegou, não para a civilização, mas para uma civilização. Essa civilização é a civilização materialista, cheia de ídolos abomináveis, inimiga de toda a manifestação superior do Sangue, do Trabalho e da Inteligência.
Para que a verdadeira civilização triunfe nos seus fundamentos cristãos, é necessário que desapareça a bárbara civilização de ferro em que parecem ficar esmagados para sempre tantos e tantos séculos de cultura humana. Vulcano, enfarruscado e grosseiro, não pode eliminar o sorriso divino de Minerva. Eis porque nós, maximalistas da direita, nos não apavoramos em face do estridor de terramoto que vai à nossa roda, em plena ordem burguesa. Para cá do curto parêntesis que se abre agora, nós sabemos que outra ordem surgirá, mais duradoira e mais fecunda, a ordem natural e tradicional, instaurando na sociedade o nome e o reinado de Cristo.
Já o herói antigo gostava de combater envolto em claridade, ainda que a claridade fosse uma claridade de tormenta. Claridade de tormenta é já a claridade em que nós combatemos, ao crepúsculo de um mundo que se some para nunca mais voltar.
Talvez por isso os nossos corações batam mais fortes, e mais forte seja o drapejar, junto dos nossos rostos, das asas invisíveis da vitória. Onde a maioria treme de inquietação e cobardia física, nós, seguros da grande finalidade a que Deus nos chamou, limitamo-nos a verificar que só às doutrinas que defendemos assiste o direito de vencerem, não só por experiência do Passado, mas por confirmação do Futuro. O que rui não é a ideia católica e monárquica, tão velha quase como a própria dignidade da velha Europa, o que rui é a utopia democrática, denunciada duramente pela provação terrível da guerra e impotente, como jamais, para manter sobre as ruínas que provocou o seu idealismo dementado e criminoso. Foi no que concluíram os declamados «Direitos do Homem»! Concluíram na mais imoral e desenfreada plutocracia – no culto mais baixo e mais degradante de tudo quanto representa o predomínio da Matéria sobre o Espírito!
Do voltairianismo e da bancocracia dos financeiros de 1820 nasceu, durante o recuo moral e intelectual do século findo, a grave e profunda crise que tornou possível o bolchevismo.
Não lhe analisaremos as raízes, de sobejo conhecidas. O que nos importa é assinalar que mais uma vez, como no poema de Goethe, o Diabo foi o melhor agente da obra de Deus. As avenidas do porvir não se conquistariam sem uma larga demonstração do que era, na sua essência e na sua crua realidade, o tremendo erro comunista. Mergulhada na sua meia sonolência asiática, coube à Rússia a sorte dolorosa de servir de laboratório.
E que lições magníficas não nos vêm de lá, que magnífico aprendizado para nós, os tradicionalistas, igualmente empenhados em destruir a ordem individualista, e não por uma revolução – eis toda a diferença! – mas por uma restauração!
À minha frente, abre-se o livro recente de Raul Labry, Une législation communiste. Recueil des lois, décrets, arretés principaux du gouvernement bolcheviste. [1920] Folheando-o, eu penso como Labry: «Quando Lenine cair entre os escombros da sua obra, alguns elementos ficarão de pé.» Não diz Labry porquê, talvez porque lho impede a sua evidente formação racionalista. Mas, manifestamente, porque mesmo no erro existem parcelas e cintilações de verdade. E em todo o seu furor negativo, sendo uma intensa reação ideológica contra a democracia individualista, o bolchevismo guarda, no entanto, consigo valiosos fermentos de vida que não lhe pertencem, porque estruturalmente pertencem aos domínios da economia cristã.
Não nos admirou assim que, debaixo do título «A realidade do bolchevismo russo», o Osservatore Romano, do dia 8 de Fevereiro último, publicasse um artigo deveras sensacional. Ao contrário da corrente até hoje seguida no ocidente europeu, o órgão oficioso do Vaticano entende que é mais conveniente fixar-nos sobre a ação governativa do bolchevismo do que desprezá-la e iludi-la com novelas de jornalismo barato e desacreditado.
Adverte o Osservatore Romano que a estabilização do regime sovietista não significa em nada o triunfo anunciado do coletivismo, senão, muito opostamente, «a execução e a consolidação do instinto da propriedade privada», por intermédio de uma numerosíssima classe de pequenos proprietários rurais. E o Osservatore Romano acrescenta: «Aqui, em Itália, não se disse ainda isto, com medo, uns, de apresentarem Lenine com um aspeto demasiadamente favorável; por seu turno, os outros, de que o ideal comunista do socialismo fique desautorizado perante as massas.»
Encostados a tão alto e insuspeito testemunho, nós não temos senão que redobrar de fé nos nossos princípios. O bolchevismo subsiste. Mas porque subsiste? Porque, constrangido pela força dos factos, abandonou os seus teorismos primitivos, reconhecendo a propriedade privada e empenhando-se agora pela sua plena difusão. Não são outras as nossas reivindicações, em harmonia com a gloriosa encíclica Rerum novarum e com a estrutura económica da nacionalidade portuguesa. Pela restauração da enfiteuse e das sesmarias, nós facilitaremos a propriedade a quem a mereça e procure, ligando assim a família à terra e fazendo do trabalhador o gérmen de um proprietário futuro. E, para o obtermos, não pensamos em atirar as multidões para o delírio de uma orgia sangrenta.
Só as queremos organizadas, conforme as regras invioláveis da própria vida, realizando um destino mais elevado que o de um simples rebanho entregue exclusivamente ao combate dos seus apetites e paixões inferiores. E vê-se já porque, no ruído de catástrofe em que tudo desaba à nossa volta, nós olhamos serenamente o horizonte, sem receio à cavalgada fatal do Apocalipse. A hora que se aproxima, nós a saudamos como uma hora de resgate, como uma hora de libertação! O que expira, na ira sacrílega da sua revolta secular, tão antiga que é irmã da revolta de Satanás, é a soberba estulta do individualismo, andadora de maus caminhos, semeadora de más colheitas. O Diabo continua a ser o melhor obreiro da vinha do Senhor! Da destruição das formas sociais e económicas da atualidade a face da terra sairá mais remoçada e mais bela. E quando outra virtude não tivermos, console-nos, ao menos, a de termos tido a fé que acredita sem ver, porque nasce do acordo íntimo do coração e é confirmada pela luz tranquilíssima da inteligência. As nossas verdades até o bolchevismo as confessa, embora rudimentarmente, embora dominado ainda por uma falsa conceção da existência. Que importa? É uma demonstração que só nos deve encher de confiança, para que a esse maximalismo ignaro responda, em breve, um outro maximalismo, o maximalismo franco dos que confessam a Cristo e estão dispostos a regar com o seu sangue as flores sagradas da Realeza!
Para que a verdadeira civilização triunfe nos seus fundamentos cristãos, é necessário que desapareça a bárbara civilização de ferro em que parecem ficar esmagados para sempre tantos e tantos séculos de cultura humana. Vulcano, enfarruscado e grosseiro, não pode eliminar o sorriso divino de Minerva. Eis porque nós, maximalistas da direita, nos não apavoramos em face do estridor de terramoto que vai à nossa roda, em plena ordem burguesa. Para cá do curto parêntesis que se abre agora, nós sabemos que outra ordem surgirá, mais duradoira e mais fecunda, a ordem natural e tradicional, instaurando na sociedade o nome e o reinado de Cristo.
Já o herói antigo gostava de combater envolto em claridade, ainda que a claridade fosse uma claridade de tormenta. Claridade de tormenta é já a claridade em que nós combatemos, ao crepúsculo de um mundo que se some para nunca mais voltar.
Talvez por isso os nossos corações batam mais fortes, e mais forte seja o drapejar, junto dos nossos rostos, das asas invisíveis da vitória. Onde a maioria treme de inquietação e cobardia física, nós, seguros da grande finalidade a que Deus nos chamou, limitamo-nos a verificar que só às doutrinas que defendemos assiste o direito de vencerem, não só por experiência do Passado, mas por confirmação do Futuro. O que rui não é a ideia católica e monárquica, tão velha quase como a própria dignidade da velha Europa, o que rui é a utopia democrática, denunciada duramente pela provação terrível da guerra e impotente, como jamais, para manter sobre as ruínas que provocou o seu idealismo dementado e criminoso. Foi no que concluíram os declamados «Direitos do Homem»! Concluíram na mais imoral e desenfreada plutocracia – no culto mais baixo e mais degradante de tudo quanto representa o predomínio da Matéria sobre o Espírito!
Do voltairianismo e da bancocracia dos financeiros de 1820 nasceu, durante o recuo moral e intelectual do século findo, a grave e profunda crise que tornou possível o bolchevismo.
Não lhe analisaremos as raízes, de sobejo conhecidas. O que nos importa é assinalar que mais uma vez, como no poema de Goethe, o Diabo foi o melhor agente da obra de Deus. As avenidas do porvir não se conquistariam sem uma larga demonstração do que era, na sua essência e na sua crua realidade, o tremendo erro comunista. Mergulhada na sua meia sonolência asiática, coube à Rússia a sorte dolorosa de servir de laboratório.
E que lições magníficas não nos vêm de lá, que magnífico aprendizado para nós, os tradicionalistas, igualmente empenhados em destruir a ordem individualista, e não por uma revolução – eis toda a diferença! – mas por uma restauração!
À minha frente, abre-se o livro recente de Raul Labry, Une législation communiste. Recueil des lois, décrets, arretés principaux du gouvernement bolcheviste. [1920] Folheando-o, eu penso como Labry: «Quando Lenine cair entre os escombros da sua obra, alguns elementos ficarão de pé.» Não diz Labry porquê, talvez porque lho impede a sua evidente formação racionalista. Mas, manifestamente, porque mesmo no erro existem parcelas e cintilações de verdade. E em todo o seu furor negativo, sendo uma intensa reação ideológica contra a democracia individualista, o bolchevismo guarda, no entanto, consigo valiosos fermentos de vida que não lhe pertencem, porque estruturalmente pertencem aos domínios da economia cristã.
Não nos admirou assim que, debaixo do título «A realidade do bolchevismo russo», o Osservatore Romano, do dia 8 de Fevereiro último, publicasse um artigo deveras sensacional. Ao contrário da corrente até hoje seguida no ocidente europeu, o órgão oficioso do Vaticano entende que é mais conveniente fixar-nos sobre a ação governativa do bolchevismo do que desprezá-la e iludi-la com novelas de jornalismo barato e desacreditado.
Adverte o Osservatore Romano que a estabilização do regime sovietista não significa em nada o triunfo anunciado do coletivismo, senão, muito opostamente, «a execução e a consolidação do instinto da propriedade privada», por intermédio de uma numerosíssima classe de pequenos proprietários rurais. E o Osservatore Romano acrescenta: «Aqui, em Itália, não se disse ainda isto, com medo, uns, de apresentarem Lenine com um aspeto demasiadamente favorável; por seu turno, os outros, de que o ideal comunista do socialismo fique desautorizado perante as massas.»
Encostados a tão alto e insuspeito testemunho, nós não temos senão que redobrar de fé nos nossos princípios. O bolchevismo subsiste. Mas porque subsiste? Porque, constrangido pela força dos factos, abandonou os seus teorismos primitivos, reconhecendo a propriedade privada e empenhando-se agora pela sua plena difusão. Não são outras as nossas reivindicações, em harmonia com a gloriosa encíclica Rerum novarum e com a estrutura económica da nacionalidade portuguesa. Pela restauração da enfiteuse e das sesmarias, nós facilitaremos a propriedade a quem a mereça e procure, ligando assim a família à terra e fazendo do trabalhador o gérmen de um proprietário futuro. E, para o obtermos, não pensamos em atirar as multidões para o delírio de uma orgia sangrenta.
Só as queremos organizadas, conforme as regras invioláveis da própria vida, realizando um destino mais elevado que o de um simples rebanho entregue exclusivamente ao combate dos seus apetites e paixões inferiores. E vê-se já porque, no ruído de catástrofe em que tudo desaba à nossa volta, nós olhamos serenamente o horizonte, sem receio à cavalgada fatal do Apocalipse. A hora que se aproxima, nós a saudamos como uma hora de resgate, como uma hora de libertação! O que expira, na ira sacrílega da sua revolta secular, tão antiga que é irmã da revolta de Satanás, é a soberba estulta do individualismo, andadora de maus caminhos, semeadora de más colheitas. O Diabo continua a ser o melhor obreiro da vinha do Senhor! Da destruição das formas sociais e económicas da atualidade a face da terra sairá mais remoçada e mais bela. E quando outra virtude não tivermos, console-nos, ao menos, a de termos tido a fé que acredita sem ver, porque nasce do acordo íntimo do coração e é confirmada pela luz tranquilíssima da inteligência. As nossas verdades até o bolchevismo as confessa, embora rudimentarmente, embora dominado ainda por uma falsa conceção da existência. Que importa? É uma demonstração que só nos deve encher de confiança, para que a esse maximalismo ignaro responda, em breve, um outro maximalismo, o maximalismo franco dos que confessam a Cristo e estão dispostos a regar com o seu sangue as flores sagradas da Realeza!