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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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O Espólio de Fradique

António Sardinha

RESUMO
​
​Uma análise das influências, do ambiente e do legado intelectual de Fradique Mendes [ Eça de Queirós ]
  • Fradique Mendes faleceu em Paris, no inverno de 1888, de uma morte súbita. O episódio que levou ao seu falecimento envolveu o general Terran d’Azy, que por engano levou a peliça de Fradique, deixando-o exposto ao frio. O resultado desse equívoco é conhecido: Fradique, ao encontrar-se com a peliça de uma pessoa que detestava, preferiu enfrentar o frio de Paris sem proteção, o que lhe trouxe uma tosse persistente e, posteriormente, uma forma rara de pleurisia, diagnosticada pelo Dr. Labert. O enterro de Fradique reuniu algumas das maiores figuras das artes e do saber francês, refletindo o respeito que lhe era devido, apesar dos seus luxos, do seu ceticismo e da sua tendência a ajudar os necessitados. O seu túmulo no Père Lachaise permanece adornado por rosas, e todos os anos, pela Festa dos Mortos, um ramo de violetas de Parma é colocado próximo à sepultura de Balzac, em homenagem ao autor preferido de Fradique. A curiosidade em torno dos manuscritos de Fradique nunca se dissipou. Considerado por Alceste, psicólogo da Gazette de France, como um pensador forte e pessoal, Fradique deixou poucos trabalhos impressos: as "Lapidárias" e o poemeto "Laus Veneris tenebrosae". As "Lapidárias" refletem influências de Victor Hugo e Leconte de Lisle, enquanto o poemeto revela ecos de Baudelaire e Swinburne, marcando a fase esotérica dos círculos frequentados por Fradique. Tal talento, dono de vasta inteligência e sensibilidade refinada, deixou manuscritos guardados num cofre espanhol do século XV, apelidado por ele de "vala comum". No testamento, ordenou que esses originais fossem entregues à Madame Lobrinska, figura enigmática e culta, que, após enviuvar, recolheu aos seus domínios na Rússia e nunca mais retornou a Paris. Madame Lobrinska, herdeira dos papéis de Fradique, recusou revelar o conteúdo dos manuscritos, alegando respeito ao carácter íntimo e secreto que Fradique desejava preservar. Tal recusa manteve o mistério em torno do espólio, que acabou perdido após a morte de Madame Lobrinska e o saque dos domínios de Starobelsk pelos campesinos de Karkoff. Restou apenas a correspondência resgatada por Eça de Queiroz, que procurou, através das cartas, reconstruir a linha tónica do pensamento de Fradique.
  • Descendente de D. Lopo Mendes, Fradique vinha de uma família insular rica e tradicional, com passagem pelas Crónicas e pela Torre do Tombo. Órfão desde cedo, foi criado por sua avó materna, D. Angelina Fradique, figura excêntrica e erudita. A sua educação foi marcada pela diversidade de influências: catecismo e latim com um capelão beneditino, entusiasmo jacobino com um coronel francês, e racionalismo alemão com um parente de Kant. Aos dezasseis anos, foi enviado a Coimbra para estudar Humanidades, iniciando uma trajetória de viagens e experimentação que lhe conferiu uma visão cosmopolita e um sentimento de vazio existencial. Fradique, tal como Antero de Quental, viveu o conflito entre a ideologia e a realidade, sendo vítima da crise de identidade que marcou a sua geração, a primeira em Portugal a romper conscientemente com a tradição. O tipo mental de Fradique, embora sem a unidade interior de Antero, partilhava o mesmo desenraizamento e busca por novos mestres e modelos intelectuais, influenciado pelo lirismo épico de Hugo, pelo cosmopolitismo de Baudelaire, de Leconte de Lisle, e pelo pessimismo de Bourget. O dandismo de Fradique, tanto de inteligência quanto de sensibilidade, era a expressão de um pessimismo profundo, que se defendia do nihilismo interior através da estética e da análise. Influenciado por Renan, adotou uma postura de espectador diante das tragédias do século, resignando-se com amabilidade às durezas da vida. O renanismo de Fradique manifestava-se na ausência de afirmação, no diletantismo das formas e ideias, e na busca de uma beleza e dignidade na existência, mesmo reconhecendo o Nada como destino final. Apesar do cosmopolitismo, Fradique acabou por desenvolver um nacionalismo intenso e apaixonado, evidenciado na compra da quinta do Saragoça em Sintra e na sua valorização das tradições e da paisagem portuguesa. O seu patriotismo era sentido com inteligência e emoção, rejeitando o poliglotismo e o desenraizamento cultural. Fradique criticava a degeneração dos costumes e sabores portugueses, atribuindo-a à influência do Constitucionalismo e do Parlamentarismo. Fradique concluiu defendendo o retorno à autenticidade nacional.
  • Interpretação de António Sardinha acerca da Geração de Fradique. A geração de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queirós, desempenhou um papel crucial na crítica ao Liberalismo e na aproximação às grandes correntes europeias de pensamento, onde sobressaem as influências de Balzac e Proudhon, fundamentais para a formação de uma consciência contra-revolucionária em Portugal. Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, inicialmente críticos e analíticos, evoluíram para uma posição construtiva observável em "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras". A "Correspondência de Fradique Mendes", publicada inicialmente na Revista de Portugal, revela a sua psicologia, o seu renanismo, e o seu entendimento profundo das religiões e da cultura nacional. O seu diletantismo superior, embora contestado por Eça, é caracterizado pela busca paciente de verdades parciais em cada opinião, refletindo a incapacidade sintética e construtiva do seu pensamento. O seu nacionalismo não se limitava ao esteticismo; era fundamentado em história e sociologia, conduzindo-o a uma posição de inatual e antecipado, mas incapaz de se afirmar plenamente por excesso de análise e ausência de síntese. A sua crítica ao Liberalismo e ao Parlamentarismo era baseado na experiência das gerações. Fradique amava o povo e a paisagem portuguesa, vendo neles a permanência dos valores autênticos da pátria. O seu espólio, envolto em mistério e perdido nas cinzas do tempo, permanece como símbolo de uma geração que procurou reconstruir o sentido nacional e intelectual de Portugal. O estudo do espólio de Fradique Mendes, revela não apenas o percurso singular de um intelectual, mas também o processo de transformação da consciência nacional portuguesa, marcada pelo conflito entre tradição e modernidade, análise e síntese, cosmopolitismo e nacionalismo.

... Antero, Oliveira Martins e Eça de Queiroz são verdadeiros professores de nacionalismo, enriquecendo com a sua experiência e a sua angústia de antecipados a admirável síntese nacionalista que, num futuro bem próximo, encherá a consciência coletiva da Pátria de um sentido novo e de um vigor inesperado. 

​
António Sardinha



​O ESPÓLIO DE FRADIQUE
Exatamente quando a nova geração aflorava de entre as rendas do berço é que Fradique Mendes se deixou morrer em Paris nesse fatal Inverno de 1888, da mesma morte que ele e César foram os dois a apetecer – inopinatam atque repentinam. A culpa teve-a, sem querer, o velho general Terran d’Azy, levando, por engano, a rica peliça de Fradique, ao sair de uma festa em casa da condessa de La Ferté, companheira de Fradique na sua celebrada viagem à Islândia. O que veio a suceder depois é desgraçadamente do conhecimento de todos. 

Posto que confortável e rica, Fradique sentiu uma repugnância invencível ao encontrar-se no vestiário do palácio La Ferté com a peliça de uma pessoa que sinceramente detestava sempre pela sua rabugice e pelo seu catarro. A noite estava, porém, seca e límpida. Sem uma hesitação, Fradique, em casaca, preferiu atravessar a pé a Praça da Concórdia. Não reparou na aragem, que corria finíssima – uma aragem certamente afiada durante léguas e léguas ao longo das planícies do Norte e que já o velho André Vasali comparava a um punhal traiçoeiro...

Na manhã seguinte, quando o seu criado Smith, velho escocês do clã dos Macduffs, às nove horas bem batidas lhe entrou no quarto – gritando, como de costume: «Morning, Sir!» – Fradique, despertando, achou-se tomado de uma tosse impertinente, ainda que leve. Não se preocupou muito Fradique, seguro da sua robustez que resistira às inclemências dos mais contraditórios climas do mundo. E cumprindo imperturbavelmente o seu imperturbável horário, marchou caminho de Fontainebleau, instalado no alto de um mail-coach, e atraído pela camaradagem espirituosa de alguns amigos. À noite, ao recolher, queixou-se de arrepios. Dois dias passados, Fradique «tinha vivido», como costumavam dizer os antigos, expirando com tanta serenidade, que Smith, durante minutos, supôs que seu amo adormecera simplesmente. Ao caracterizar a doença – uma forma raríssima de pleurisia –, o dr. Labert não se conteve que não exclamasse: - «Toujours de la chance, ce Fradique!»

Debaixo de um céu cinzento de neve, as ruas de Paris viram atrás dos restos de Fradique um punhado das mais gloriosas figuras da França nas coisas da arte e do bom-saber. Houve quem o chorasse – rostos lindos e misérias ignoradas. Porque, Fradique, apesar de cético, gostava de acudir aos males humanos, embora envolto em cabaias de seda. Deixaram-no tranquilamente no Père Lachaise – informam-me que não longe da sepultura de Balzac, onde todos os anos, pela Festa dos Mortos, Fradique mandava poisar um ramo de violetas de Parma, em lembrança das flores mais amadas pelo grande autor de La Comédie Humaine. Por sua vez, nunca as rosas se secam sobre o bocado de mármore que cobre as cinzas de Fradique. 

Não se apagaram ainda os ecos da curiosidade levantada à volta dos seus manuscritos. Pensador verdadeiramente pessoal e forte – como o definiu na Gazette de France esse subtilíssimo psicólogo que se escondia sob o pseudónimo de Alceste –, de Fradique quase se poderia dizer o que Dumas Filho dizia a Bourget de Flaubert: «Foi um gigante que deitou ao chão uma floresta, para fazer uma boceta.» Impresso, nada mais se lhe conhece, realmente, do que as Lapidárias, publicadas na Revolução de Setembro, e o precioso poemeto Laus Veneris tenebrosae, aparecido aí pelos fins de 69, às vésperas da Outra-Guerra, na Revue de Poésie et d’Art. As Lapidárias marcavam nas influências recebidas a transição do Víctor Hugo da Légende des Siècles para o Leconte de Lisle dos Poèmes Barbares et Antiques. Mordido muito de perto pelo lirismo rebelde de Swinburne, no Laus Veneris Tenebrosae, Fradique Mendes sacrificaria um pouco à moda esotérica dos cenáculos que frequentava, recordado, sem dúvida, dos Franciscae meae laudes de Baudelaire, peça curiosamente trabalhada em estilo de baixa-latinidade e dirigida por Baudelaire – «o maganão das Flores do mal», na frase do próprio Fradique –, «a uma modista erudita e devota». Mas, pequenos desperdícios de um dos maiores talentos do seu tempo, o que era isso, afinal, para quem, como Fradique, possuidor de uma vasta e compreensiva inteligência, dispunha também dos maiores tesoiros da sensibilidade e do requinte. O que se apurou na roda dos seus íntimos é que Fradique deixara manuscritos. Eça de Queirós assevera-nos com uma segurança que pressupõe quase palavra de honra, que na casa da Rua de Varennes os entrevira mais de uma vez adentro de um cofre espanhol do século XV, a que Fradique chamava, com distraído desdém, a «vala comum». Ora no seu testamento Fradique ordenou terminantemente que os misteriosos originais do cofre se entregassem à mesma Libuska, de quem tanto falava nas suas cartas a Mme. de Jouarre, a ponto de que no-la tornou uma imagem familiar «com os seus veludos brancos de Veneziana e os seus olhos claros de Juno». 

Casada com um diplomata silencioso e vago, que morrera em Paris de uma anemia vagarosa, e que escrevia capitene (pertencera na Rússia às Guardas-imperiais) em vez de capitaine, Varia Lobrinska era da família dos príncipes de Palidoff. Tão depressa enviuvou, Madame Lobrinska, rodeada de aias e de crepes, recolheu aos seus domínios de Starobelsk, no governo de Karkoff. Voltou, porém, com a flor dos castanheiros – e a sua risonha e luxuosa viuvez nunca mais abandonou Paris. Andava então Fradique preocupado com o estudo das literaturas eslavas, perdido de todo com a beleza de um dos seus mais antigos poemas – O Julgamento de Libuska, que se descobrira por acaso nos arquivos do castelo de Zelene-Hora. No salão de Mme. de Jouarre, Mme. Lobrinska e Fradique travaram relações. Naturalmente, na conversa, houve alusões ao poema. Por gentileza dos condes de Colloredo, seus parentes e senhores de Zelene-Hora, Madame Lobrinska estava na posse de uma raríssima reprodução das duas folhas de pergaminho em que se encontrava essa velha epopeia. Releram ambos, juntos, o texto heroico, oferta preciosa dos condes de Colloredo. E um instante veio – não sei se se lembram – em que, como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo» ...

Fradique começou a tratar Madame Lobrinska por Libuska – a rainha que nos aparece no Julgamento, de branco vestida, como Beatriz, e mais resplandecente do que a própria sabedoria. Por seu lado, Madame Lobrinska tratava por Lucifer a Fradique. 

Chegou, entretanto, o Novembro funesto, aquele Novembro funesto em que Lucifer, ou seja, Fradique Mendes, morreu, como César, de morte inopinatam atque repentinam. E com solene tristeza Madame Lobrinska recolheu de novo ao seu senhorio de Starobelsk, no governo de Karkoff. Murmurou-se por Paris, em sorrisos discretos, que a filha dos Palidoff ia chorar, entre o silêncio respeitoso dos seus mujiks, a sua segunda viuvez – «até que viessem os lilases...» – acrescentava-se com malícia. Mas os lilases vieram, vieram outra vez as flores dos castanheiros – e Madame Lobrinska não voltou.

Será talvez bom recordar que o marido de Madame Lobrinska arrastara seis anos de diplomacia estagnada no Rio de Janeiro, esperando – conta Eça de Queirós, de quem me estou socorrendo como autoridade de peso para o presente estudo – por aquela apetecida legação da Europa que o príncipe de Gortchakoff, Chanceler do Império, afirmava pertencer a Madame Lobrinska par droit de beauté et de sagesse. Essa legação nunca chegou. E no seu longínquo exílio, perfumado de uma inexprimível saudade da neve, Madame Lobrinska decidiu aprender o português. Aprendeu-o tão saborosamente que Fradique mostrou a Eça uma tradução da elegia de Lavoski – A colina do Adeus – como senda um mimo de pureza e de estilo. Pena é que a tradução de Madame Lobrinska se tivesse extraviado, porque assim apreciaríamos melhor os recursos de emoção da mulher a quem, por extraordinária homenagem, Fradique legou a posse dos seus manuscritos. 

Discute-se o que fossem os manuscritos de Fradique. Eça, apenas começou a colecionar-lhe as cartas, dirigiu-se imediatamente a Madame Lobrinska, comunicando-lhe o seu grande desejo de fixar num estudo de larga e carinhosa crítica a psicologia excecional do glorioso amigo morto. Solicitava para isso o romancista dos Maias e da Ilustre Casa à herdeira enigmática dos papéis de Fradique, se não uns excertos dos originais acumulados no cofre espanhol do século XV, «ao menos algumas revelações sobre a sua natureza». Madame Lobrinska respondeu com polidas palavras que, na recusa que delicadamente envolviam, mostravam bem, na própria expressão de Eça – que debaixo dos claros olhos de Juno existia uma razão claríssima de Minerva. 

​Em letra grossa e redonda, numa imensa folha de papel de linho, onde, por sob uma corola de oiro, se lia a oiro a divisa Per terram ad caelum, a Libuska de Fradique-Lucifer persistia em manter o mistério, cada vez mais denso, em que jazia o espólio literário do autor das Lapidárias. «Os papéis de Carlos Fradique – dizia Madame Lobrinska naquele mesmo português natural e doce da sua tradução da Colina do Adeus – tinham-lhe sido confiados, a ela que vivia longe da publicidade e do mundo que se interessa e lucra na publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o carácter íntimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera; e nestas condições o revelar a sua natureza seria manifestamente contrariar o recatado e altivo sentimento que ditara esse legado!...» E com firmeza inexorável assim fechava a uma curiosidade piedosa o cofre espanhol do século XV – a interdita «vala-comum» do orgulho de Fradique, a esta hora desfeito na poeira das coisas sem nome, depois do assalto dos camponeses de Karkoff aos domínios de Starobelsk. 

Perante a negativa obstinada de Madame Lobrinska, várias suposições se desenharam entre os companheiros de Fradique acerca do que se conteria dentro desse cofre, mantido em tão severo e religioso resguardo. Aventavam alguns de que se tratava de dois trabalhos em esboço, a que Fradique aludia com frequência, como sendo o tema mais cativante para a sensibilidade e para o pensamento da sua época – terrível época de transição –, uma Teoria da Vontade e uma Psicologia das Religiões. Teixeira de Azevedo, porém – o Teixeira de Azevedo que em outros tempos espavoria os cónegos da sua vizinhança declamando noite velha a Charogne de Baudelaire –, cuidava, ao contrário de muitos, que nos papéis de Fradique o que devia existir era um romance de fortes pinceladas épicas, ressuscitando um tipo de civilisação extinta, conforme o modelo de Flaubert na Salammbô.

Fundava-se Teixeira de Azevedo, para a sua afirmação, numa carta de Fradique a Oliveira Martins, aí por volta de 1880: «Que dirá você, dileto Oliveira Martins – confidenciava então o poeta bizarro das Lapidárias –, se um dia, desprecavidamente, no seu lar receber um tomo meu, impresso com solenidade e começando por estas linhas: “Era em Babilónia, no mês de Sivanú, depois da colheita do bálsamo”?...» Mais senhor do facto, e como Fradique amando os grandes espetáculos cosmopolitas, com a retina avezada a distinguir de um golpe o traço que marca, o aspeto que caracteriza, Ramalho Ortigão participava de outro parecer. Só Memórias se aferrolhariam no cofre espanhol do século XV, pela singela e pronta razão de que «só a Memórias se pode coerentemente impor a condição de permanecerem secretas». 

Fosse como fosse, eu inclino-me antes para a opinião de Eça de Queirós. Fradique não nos deixou nem um volume de psicologia nem um romance epo-histórico. E muito menos Memórias – elucida Eça – inexplicáveis num homem que se estonteava no amor da ideia abstrata. Neste ponto discordo eu do ilustre editor da Correspondência de Fradique. Fradique, para mim, não se estonteava com o amor da ideia abstrata. Vítima como a sua geração do conflito entre a ideologia e a realidade, Fradique, se o tomarmos como uma figura-símbolo, é precisamente como Antero um formidável e dolorosíssimo crucificado mental. Se Antero, pelas exigências de uma profunda estrutura católica, se lançou arrojadamente na selva obscura da sua noite filosófica, Fradique, refletindo hereditariedades mais antagónicas, decidiu-se por essa espécie de renúncia que é sempre o dandismo da inteligência e o sibaritismo da sensibilidade. 

Fixemo-nos num detalhe da maior importância para a ressurreição psíquica daquilo que, em verdade, significou Fradique Mendes, até ao dia de hoje festejado como um dizedor de ironias cintilantes, mas sem dúvida o exemplar mais representativo da influência do chamado mal du siècle na sociedade portuguesa, contemporânea da Regeneração. Quando Eça, pelo braço do Vidigal, visitou Fradique no antigo Central, ao Cais do Sodré, nos aposentos do varão insigne o calor desfolhava um ramo de rosas sobre volumes de Darwin e do Padre Manuel Bernardes. Rosas, Darwin e Manuel Bernardes: o encanto das flores e o encanto do estilo, sorvido como um perfume breve, como uma luxúria passageira; ao contacto da dureza feroz, brutalíssima, da vida sem Deus, a geração de Fradique procurava enganar-se, inventando ídolos: sua existência se decompunha como a Charogne de Baudelaire – «Alors, o ma beauté...!» –, procurássemos-lhe ao menos o hálito embriagante, embora efémero e mentiroso. Darwin pesava, na sua negação feroz, em cima dos nervos e da alma de uma mocidade que trazia nas suas veias a inquietação sagrada dos grandes avós do romantismo. Antero, porque reagiu e protestou, suicidou-se, por fim, sem descobrir a fórmula de conciliação em que a razão e o sentimento se abraçassem embaladoramente. Fradique, mercê de circunstâncias de que investigaremos os motivos, seguiu por caminhos na aparência diversos, mas os mesmos no fundo e na essência. Optando pelo «aroma dos vasos vazios» – na palavra amargurada de Renan –, Fradique demite-se do mundo um pouco à Petrónio, e muito à imagem e semelhança do céptico dos Souvenirs d’enfance et de jeunesse. 

Porque o caso de Fradique é nas nossas letras um caso de renanismo puro, é que a mim se me afigura que Fradique não foi nada um homem da ideia abstracta. O que havia em Fradique era um excesso de inteligência – um gosto indominável de análise. Fradique não praticou a regra que Antero preceituava em mais de uma das suas cartas: «Saber até qual limite se pode saber». Ora como a inteligência por si é impotente para resolver a tortura do coração e do entendimento, Fradique, compondo a sua atitude segundo a atitude de Renan, decidiu-se a ser em vez de uma das dramatis personae da tragédia do século, como Amiel ou o poeta dos Sonetos, um espectador amável, resignando-se com amabilidade às cruezas sórdidas da vida. Nem por isso o seu calvário seria menos cruciante, nem nele teremos menos que aprender. 

O processo do «espírito-de-análise» informa-o com mão de mestre nos seus Essais de psychologie contemporaine esse mestre de verdade que é Paul Bourget. Verificar-lhe as consequências funestas na mentalidade nacional é estudar em conjunto a geração de Fradique, não só culminante em Portugal, mas, sem dúvida, na sua expressão literária, uma das mais representativas da Europa Ocidental. Em semelhante estudo, que num dia mais sereno constituirá para mim uma das minhas mais queridas realizações – em semelhante estudo se há-de gravar como em nenhum a genealogia direta e forte da poderosa corrente tradicionalista que hoje absorve o melhor das inteligências moças no nosso país. Antero, Oliveira Martins e Eça de Queiroz são verdadeiros professores de nacionalismo, enriquecendo com a sua experiência e a sua angústia de antecipados a admirável síntese nacionalista que, num futuro bem próximo, encherá a consciência coletiva da Pátria de um sentido novo e de um vigor inesperado. 

Como os seus amigos de perto, Fradique é também um inatual, é também um antecipado. O seu cosmopolitismo intelectual conduziu-o pelo culto íntimo da emoção estética às portas de um completo sistema de nacionalismo artístico e político. Admiram-se que eu, ao escrever do paradoxal Fradique, acrescente ao paradoxo constante do seu temperamento um paradoxo mais: Fradique, mestre da Contrarrevolução? Pois, sem paradoxo, o acrescento e afirmo. Ignoro o que conteria o misterioso cofre espanhol do século XV, a preciosa vala-comum do orgulho preciosíssimo de Fradique. No entanto, se Madame Lobrinska tivesse atendido às solicitações de Eça de Queiroz, do fundo da trabalhada e cobiçada caixa não sairia nem uma Teoria da Vontade nem uma Psicologia das Religiões. Talvez saísse antes, embora em esqueleto, embora mero borrão, um livro que se leria agora com espantosa oportunidade: Filosofia da reação na política e na arte.

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Importa conhecer porque, ao ocupar-me do espólio de Fradique, eu me manifesto assim com tão tranquila segurança. Infelizmente para mim, infelizmente para todos nós, com o falecimento em Abril de 1901 – quando floriam outra vez os lilases – de Madame Lobrinska, nunca mais regressada da sua neve e dos seus crepes, o cofre espanhol do século XV não ficou preservado contra o desinteresse sacrílego de qualquer herdeiro indiferente da filha dos Palidoff. Por intermédio de um diplomata russo que eu convivi em Vigo, jogando um eterno poker e pressagiando o fim das civilizações através da teoria matemática das linhas descontínuas – por intermédio desse expatriado, como eu, o mais que pude apurar foi que o domínio de Starobelsk ardera ultimamente, em seguida a um assalto enraivado dos campesinos de Karkoff, sendo até violadas as sepulturas do carneiro senhorial – que triste sorte a da Libuskaadorável do Julgamento! – e não ficando da residência opulenta mais que um monte gigantesco de ruínas acarvoadas. 

Perdidos os elementos diretos e positivos para a reconstituição do pensamento de Fradique, em que de há muito e com enlevado amor me empenhava, não me ficou outro recurso senão o de surpreender com a possível exatidão a linha tónica do seu espírito nas cartas que a piedade enternecida de Eça conseguiu salvar de um olvido deprimente.

Ao determinar a psicologia de Fradique, eu considerei-a já como uma demonstração de puro renanismo. Não é difícil de o documentar, desde que se entenda o que por renanismo se deverá entender. Entende-se, naturalmente, por ausência gostosa de afirmação, por diletantismo guloso das formas e das ideias, sem preferir, sem escolher, porque se para uns «ao Começo era a Ação», para Renan e para Fradique, ao Começo e ao Fim era simplesmente – o Nada. Mas perguntar-me-ão: «Dado um tal negativismo estrutural, dada uma tal impossibilidade de vontade e de crença, como é que se pretende enfileirar Carlos Fradique Mendes entre os doutores da Contrarrevolução?» Pelas mesmas causas, conquanto que em órbita e plano diversos, porque Renan é autor da Réforme morale et intelectuelle e figura, na livraria de todo o bom reacionário, ao lado de Bonald e de Maistre, alternando com Auguste Comte, Le Play e Taine. Não nos precipitemos, porém, olhando, antes de mais nada, aos antecedentes e à formação de Fradique – ao que Léon Daudet chamaria o seu «hérédo».

Representante da varonia ilustre daquele navegador D. Lopo Mendes, que, filho segundo da antiga casa da Trofa – Eça, manifestamente equivocado sobre a lição errada de algum Nobilíário, escreve «Troba», e não «Trofa» – acabou em donatário de uma das melhores capitanias dos Açores, Carlos Fradique Mendes descendia de uma velha e rica família insular com passagem larga nas Crónicas e na Torre do Tombo. O pai, assevera Eça que fora um homem magnificamente belo embora de inclinações rudes – o que lhe custou uma morte prematura, de um desastre, na caça. Por seu lado, «airosa, pensativa e loura», a mãe de Fradique merecera de um poeta melancólico da Terceira a designação lírica de «Virgem d’Ossian». É ainda Eça quem nos conta que morrera de uma febre apanhada no campo, «onde andava bucolicamente, num dia de sol forte, cantando e ceifando feno». Ninguém mais restava a Fradique além de um tio, Tadeu Mendes, que vivia em Paris, preparando com Luís Napoleão e com Morny a salvação da Sociedade, com S maiúsculo – ninguém mais restava a Fradique, pequeno e órfão, senão sua avó materna, D. Angelina Fradique, «velha estouvada, erudita exótica» (vide A Correspondência de Fradique Mendes, a págs. 15, quarta edição), que colecionava aves empalhadas, traduzia Klopstock e perpetuamente sofria dos «dardos d’Amor». Eça é o primeiro a notar que a primeira educação de Fradique se acentuara lago como «singularmente emaranhada». O capelão de D. Angelina, egresso beneditino, iniciou Fradique nos mistérios do Catecismo e do Latim inculcando-lhe, entre outros princípios sólidos – no dizer de Eça –, o horror à Maçonaria. Creio bem que mais tarde, quando Balzac, Proudhon e Renan levassem Fradique ao limiar da Contra Revolução, o pobre frade, ardendo em ira sagrada contra os pedreiros-livres, passaria no espírito do poeta das Lapidárias como uma imagem tutelar, enternecidamente reabilitada...

Pois dos cuidados do capelão da casa resvalou Fradique, sem mais transição, para os de um coronel francês que nas barricadas de Julho provara, de peito às balas, o entusiasmo brusco da sua brusca exaltação jacobina. Nas leituras inocentes da meninice de Fradique, o Feliz independente do mundo e da fortuna viu-se substituído pelas Ruínas de Palmira e pela Pucelle. Voltaire e Volney escorraçavam o nosso diáfano Padre Teodoro de Almeida. E para que a confusão resultasse mais completa, um alemão, «que ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na vernaculidade de Filinto Elísio», e se apresentava como parente de Kant, avocou a criança ao seu raciocínio quadrado, envolvendo Fradique nas enxúndias filosóficas da Crítica da Razão-Pura, muito antes de lhe sombrear o buço no lábio superior.

Só a reacção instintiva do temperamento de Fradique o salvou da morte certa que em tão verdes anos lhe provocaram os preceptores da sua inteligência. Herdara do pai o gosto da vida rústica, aos saltos pelos montes, com os galgos atrás. Assim se defendeu até que aos dezasseis anos a avó o mandou para Coimbra a estudar Humanidades, deixando à responsabilidade de Eça a inconfidência que comete a págs. 16 da já citada quarta edição de A Correspondência, quando atribui a propósitos menos honestos essa resolução da virtuosa senhora.

Não seguiremos agora Fradique ao longo da sua irrequieta existência de escolar. Nem tão-pouco nos deitaremos a correr com ele as sete partidas da Esfera, depois que a avó lhe morreu, repentinamente, debaixo de um caramanchão de rosas, por uma sesta lenta de Junho, ouvindo o seu cocheiro – é de Eça o detalhe – repicar a viola com os dedos enlaçados de anéis. O farto milhão de cruzados da sua herança bastava a Fradique para uma ostentação calculada de príncipe. Viajou as viagens mais inacreditáveis, cortando o mar de banda a banda – desde as civilizações adormecidas do Oriente ao tumulto modernista de uma rua de Chicago, tudo a sua ânsia de ver experimentou com gulosa sobranceria, tudo, afinal, lhe deixou no fundo da alma aquele perfume das urnas vazias que seria a chaga sempre aberta da sua aparente felicidade.

Com um ancestralismo tão contraditório Fradique, não encontrou na sua infância a disciplina que naturalmente desse uma direção fecunda ao seu eu tão carregado de originalidade, tão rico de emoção, tão cheio do sentido elevado das coisas. Dispondo de si e dispondo de dinheiro, com uma mocidade abundante e atraente, Fradique, ao desembocar nas avenidas do mundo, viveu num âmbito mais largo o conflito que Antero superiormente descreve na sua Carta autobiográfica a Wilhelm Storck.
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«O facto mais importante da minha vida durante aqueles anos – confessa ao seu tradutor o poeta dos Sonetos –, e provavelmente o mais decisivo dela, foi a espécie de revolução intelectual e moral que em mim se deu, ao sair, pobre criança arrancada do viver quase patriarcal de uma província remota e imersa no seu plácido sono histórico, para o meio da irrespeitosa agitação intelectual de um centro (Coimbra), onde mais ou menos vinham repercutir-se as desencontradas correntes do espírito moderno.» E Antero continua: «Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza tanto mais pungentes, quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição.»

Fradique, da camada e da convivência de Antero, acha-se abrangido nas palavras impressionantes de um dos seus mais escutados amigos. A unidade interior de Antero não a possuía Fradique, já pelo descoordenado da sua hereditariedade, já pelo franco desenraizamento que bem cedo começava a operar na sua psicologia. Tanto pelas tiradas revolucionárias do coronel das barricadas de Julho, como pelos kantismos de segunda mão com que o adormentava o primo do filósofo de Koenigsberg, colaborador de D. Angelina Fradique nos seus contrabandos de Klopstock para o casticismo férreo de Filinto. Mas, modalidades à parte, o tipo mental de Fradique é o tipo mental de Antero, quando este considera a sua geração como a primeira que em Portugal saíra da velha estrada da tradição consciente e resolutamente.

«Era o tempo em que eu e os meus camaradas de Cenáculo – reforça Eça –, deslumbrados pelo lirismo épico da Légende des Siècles, «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey – decidíramos abominar e combater a rijos brados o lirismo íntimo que, enclausurado nas duas polegadas de coração, não compreendendo de entre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias de Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monótona e interminável inconfidência de glórias e martírios de amor.» Um pouco mais velho, Fradique, partindo do Hugo das Légendes, descobrira já Leconte de Lisle e Baudelaire. O seu cosmopolitismo vincava-se artisticamente na escolha do «motivo raro, pela predileção concedida ao diabolista das Fleurs du Mal e às decorações bizarras dos Poèmes antiques e dos Poèmes barbares. No fundo, a ironia que lhe havia de entregar um cetro de elegância intelectual não passava de uma forma macia de pessimismo que, tornado espectro metafísico invencível, obrigaria Antero a despedaçar a cabeça com um tiro de revólver junto a uma inscrição, onde precisamente, ao alto, se lia, por contraste arrepiante, a palavra «esperança».

Como prova do pessimismo de Fradique – e o pessimismo de Fradique é o pessimismo tão bem caracterizado nos mais miúdos e variados aspetos por Paul Bourget nos Essais de psychologie contemporaine – eu assinalo, sobretudo, o seu dandismo estreme. Dandismo de inteligência, dandismo de sensibilidade, diletantismo no pensar e no sentir. A vida, para Fradique, não se vivia – saboreava-se, transformando-se quanto possível num manjar precioso e esquisito. Não é que Fradique se abandonasse às solicitações de um petronismo vulgar. Pelo contrário, desviado das grandes verdades tradicionais, sem a ilusão compensadora do humanitarismo revolucionário, Fradique não se resignava a ser um cínico, porque, apesar de tudo, uma voz secreta teimava em falar dento dele. Daí o dandy – procurando defender-se do seu niilismo interior pela miragem bem fugaz dos Paraísos artificiais. Choremos por Fradique, no entanto, que nem ao menos acreditava no ópio, no haschich, como Baudelaire, «o maganão – como lhe chamava – das Flores do Mal».

Breve se lhe desfariam os «Paraísos artificiais», transposta a fase de perturbação literária, de que o poemeto Laus Veneris Tenebrosae denuncia o período agudo. Não duraria mais a influência de Leconte de Lisie, marcando para as sensações da sua exigência estética o cânon apolíneo da beleza marmórea e impassível. Ai de nós, ai de Fradique – o demónio da ciência picara-lhe venenosamente o entendimento e não era por acaso que nos aposentos do Hotel Central, ao lado do Padre Manuel Bernardes – contista entre os contistas da nossa terra – espreitava a lombada agressiva de um volume de Darwin! O evolucionismo nos seus excessos devastadores abrigava-se, como uma serpe entre relva macia – latet anguis in herbis – debaixo do gosto apurado de Carlos Fradique Mendes, descendente de D. João Mendes, da casa Trofa – e não Traba, como reincide Eça –, e donatário no século XV de uma das capitanias mais famosas dos Açores.

Com esse medo tão peculiar do seu tempo, por toda a decaída mitologia racionalista, Fradique não obteve a necessária estabilidade do seu ser, senão aportando definitivamente ao renanismo. O esmero de Renan pelo brunido do estilo transparece em Fradique no cuidado da frase castiça e própria. É de Renan a curiosidade, tão evidente em Fradique, pelas grandes necrópoles adormecidas, pelas civilizações sagradas do Oriente. Ainda que rijo e transbordante de seiva – a inesgotável seiva insular, de um bom tronco de descobridores –, o diletantismo intelectual de Fradique empurrou-o lentamente, como a Renan, para a inércia da bondade, para o uso e abuso da crítica, que esteriliza o impulso e reduz o homem a um simples espectador de si mesmo. «Se Napoleão fora tão crítico como eu – costumava declarar o autor da Histoire du Peuple d’Israël –, não daria nunca o golpe de Brumário». Outro tanto, em mais diminuta escala, ocorria com Fradique, que, excepcionalmente dotado em face dos contemporâneos, não deixou atrás dele mais que uma panóplia de observações cheias de luminosidade e de sarcasmo.

Mas a aparentar Fradique com Renan surgem-nos mais subsídios ainda. Lembram-se decerto daquela esplêndida carta dirigida a Guerra Junqueiro, sobre o essencial das religiões, como sendo, não o seu conteúdo teogónico ou teológico, e sim o seu revestimento litúrgico, a sua parte pura e exclusivamente formal. Registamos factos, não discutimos doutrina. E até, em certo modo, a origem açoriana de Fradique, refletindo na sua ancestralidade as longas reminiscências do mar, contribuiria para que o seu espírito – urna vazia chorando a ausência dos antigos perfumes – se aquietasse no relativismo doce de Renan, tão impregnado do Oceano, como bretão que era, e dos mais secularmente enraizados.

Um comentador superficial atalhará nesta altura: Que afinidade existe, porém, entre Fradique, mundano completo e rematado, e Renan, pessimista, embora de um pessimismo tão condescendente, como a sua condescendência natural de cura-de-almas transviado? Eu já indiquei o dandismo como um sinal da filosofia pessimista de Fradique. Recordemo-nos de que o dandismo foi para a literatura doente dos últimos cinquenta anos um tema constante e por vezes superiormente tratado. Barbey d’Aurevilly celebrou-o num livro com tanto de esquecido como de notável. Nas evocações doloridas da época, Lord Brummel figura ao lado de Luís da Baviera e de Charles Baudelaire, como o crucificado do seu orgulho desmedido, que na mentira transitória das formas pretendia ocultar o vácuo que o esperava de perto, ensinando-lhe, pelo dedo da Morte, os caminhos inevitáveis do Nada. Pessimismo, diabolismo e dandismo, são assim aspetos mais ou menos agravados da espessa noite negativista que, graças ao Senhor, já viemos encontrar no declínio.

Ao diletantismo de Renan pediremos, pois, o sinónimo correspondente ao dandismo de Fradique. Renan-sofista, adivinhando em tuda a goela insaciável do Nada, é o molde moral em que se enquadra sem constrangimento Fradique-dandy, afetando posturas irónicas diante de «Ramézes fotografado». O fim inopinatum atque repentinum que Fradique tanto apetecera para si como já o apetecera César, o que é senão uma confissão de nihilismo espiritual, com toda a sua relutância perante a face da Dor sem sentido para uma criatura que perdera o sentido das verdades supremas da Fé! É nesse aspeto que Renan se nos revela extraordinariamente grande. Canta-no-lo Jean Psichari, no romance recente Soeur Anthelmine. Genro de Renan, de Jean Psichari – incrédulo e sofista como o sogro – nasceu Ernesto Psichari, o convertido admirável de Le Voyage du Centurion, morto gloriosamente em combate, com o rosário enlaçado à espada, durante a retirada de Charleroi.

Pois no capítulo «Les deux Ernest» – o avô e o neto – Jean Psichari testemunha-nos a coragem assombrosa do velho Renan, defendendo-se até à última da preocupação finalista e gritando com uma voz sem réplica: «Je sais qu’une fois mort rien ne restera de moi-même; je sais que je ne serais plus rien! Rien! Rien!» E Psichari acrescenta: «A gradação das maiúsculas crescentes não nos transmite senão imperfeitamente a forma dessa afirmação máscula, heroica e vibrante». A resposta à voz sem réplica de Renan deu-lha vinte anos depois seu neto – o seu representante direto. Certamente, se Fradique tivesse um filho, o filho desse filho responderia com um ato pleno de fervor à sua renúncia espontânea e desdenhosa. Não é isto, porém, o que no momento presente nos importa. O que nos importa é demonstrar a afinidade do dandismo de Fradique com o pessimismo de Renan. No episódio da morte do segundo ressalta tracejado com energia o vínculo que estreitamente os ligava entre si. Morrer bem – Plaudite cives!, exclamava Augusto, agonizante – foi a preocupação de Renan, como foi a preocupação de Fradique, pondo como maior ambição o retirar-se da cena do mundo com dignidade e sem desalinho.
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Nesta forma de pessimismo concluira Fradique, desviado quase desde o berço da estrada serena da Tradição. Suponho inútil definir o que seja, sociológica e filosoficamente encarada.

​Evidentemente que não é mais que o tesoiro amontoado da experiência das gerações, baseando o desenvolvimento da sociedade na lei fundamental da continuidade. A quimera individualista do Romantismo, atuando irracionalmente por intermédio de um falso conceito do Homem, pretendeu conceber a sociedade não como uma criação, mas como uma construção. As consequências afloraram depressa, no coice dos mais desfreados teorismos. Deslocado dos seus alicerces naturais e históricos, Portugal ressentiu-se logo da estranha e impetuosa paranoia que se importara de França. A desnacionalização começou com as reformas líricas da gente da emigração liberal. Mas à geração de Fradique pertenceu o papel, a um tempo destruidor e renovador. Por ela é que Portugal tomou deveras contacto com as grandes correntes do pensamento europeu. A Carta-autobiográfica de Antero é, a semelhante respeito, um documento não só pessoal, mas coletivo.
Pesa sobre Antero e os seus amigos a acusação de que ninguém preparou tanto como eles a miséria dos tempos atuais. É um erro – se não lhe quisermos chamar uma calúnia – só filho da profunda ausência da cultura que manda em senhora absoluta no nosso infortunado país. É indubitável que a geração de Antero – no seu próprio testemunho – foi a primeira que em Portugal saiu conscientemente do leito seguro da Tradição. Mas, ao sair, encontrou-se ávida de mestres que lhe utilizassem o entusiasmo, com o pensamento forte de um Balzac em literatura e de um Proudhon em economia. Por Balzac e por Proudhon – hoje unidos, como doutores da Contra Revolução, no mesmo alvo de restauração social e intelectual – a geração de Fradique descobriria as cumeadas, de onde novamente se havia de avistar, no seu esplendor perdido, a antiga pátria tradicional. O que roía e desfibrava Portugal senão o Liberalismo? Na geração de Fradique o Liberalismo acharia, embora ainda nas suas rudimentares manifestações destrutivas, o primeiro adversário que o atacou de frente e com resoluta coragem.

Oferece-nos a correspondência de Antero, como elemento persuasivo, um trecho singularmente interessante, em que o nome de Balzac aparece abraçado ao nome de Proudhon. Numa carta de 1866 dirigida ao seu amigo Germano Vieira Meireles, já Antero reparava: «Os romances de Balzac são uma verdadeira história íntima do nosso século e tenho admirado como em certas coisas capitais (como a influência da bancocracia, a anarquia do livre-câmbio, as ilusões do constitucionalismo, etc.) a sua observação despreocupada da sociedade se encontra e concorda com a crítica sistemática do grande Proudhon.» Será por Proudhon, realmente – pelo vigor desapiedado das suas análises à falsa e criminosa economia liberal, que não só Antero, mas, com Antero, Oliveira Martins, se aproximarão no futuro da ideia integral de Pátria, restituída às condições vitais do seu renascimento pelo regresso às duas grandes verdades que encheram de um clarão imorredoiro a obra de Balzac.

Na imaginação de Oliveira Martins podia imenso a fantasia romântica de um Michelet. Mas Proudhon corrigiu-lhe os exageros apaixonados da improvisação, e o Portugal Contemporâneo cedo evidenciou a regra segura que entregaria solidamente ao Oliveira Martins do Projecto de lei do Fomento Real a compreensão económica da Nacionalidade. Assim se percebe que, agradecendo em Março de 1888 a Frederico Dinis de Ayala o seu livro Goa antiga moderna, Antero comentasse: «Por outro lado, a política antiportuguesa do partido regenerador nesta questão, é mais uma completa manifestação da incompatibilidade do liberalismo com o nacionalismo, cujas raízes e essências são muito outras.»

De nada mais se carece para sustentarmos com rigorosa irrefutabilidade o sentido francamente contrarrevolucionário da geração de Eça e de Antero – que é a geração de Fradique. Uma única excepção haverá a destacar – é a de Guerra Junqueiro. Mas Guerra Junqueiro, psicológica e literariamente um caso de puro hebraísmo, não tardará muito a ser restituído às proporções medianas da sua estatura intelectual, agrandada tão somente pela paixão política de um país onde a noção das coisas do pensamento se mede, por via de regra, através daquela pitoresca inocência mental que já foi o maior título de celebridade de M. Homais, boticário em Ruão. De resto, a exceção só me confirma no meu juízo. E é socorrido por semelhante critério que um espírito bem intencionado precisa de examinar – como superiormente o fez Hemetério Arantes – o exato significado da conversão de Ramalho Ortigão ao tradicionalismo político. É que a sua ação de panfletário incansável não traduzira de modo nenhum uma demolição por demolição. Obedecera antes ao inato gosto de medida e de arranjo, que Ramalho nos comunicou mais tarde, ao atingir o polo positivo da sua mentalidade.

O que sucedeu com Ramalho, sucedeu com Eça. O Eça inexorável da primeira fase é o Eça que escalpeliza uma sociedade de postiços, em que a mentira se aninhara debaixo do disfarce de uma aparência de honradez. Nós sabemos, por pesada herança, o que o Constitucionalismo representou para a ruína de Portugal! Eça não o poupou, com o ímpeto irresistível dos que atacam de cara, sem olhar aos golpes que descarregam. Como observador, observou – não concluiu. Forjaram-lhe as conclusões, quando o supuseram batendo-se para perpétua glória dos Imortais-Princípios. Se Eça hoje vivesse, ver-se-ia onde é que Eça tomava lugar. Tomava lugar, não com os homens, mas com as gerações – não com os bandos, mas com a Nacionalidade. Eis porque não me excedo, asseverando que a solução que Ramalho deu ao conflito da sua inteligência não é uma solução meramente individual, como individual não é a Carta autobiográfica de Antero. É a solução que se daria Eça, que se daria Oliveira Martins, que se daria Antero de Quental – se é que se a não deram! –, se, por acaso, a presença dolorosa dos factos os tivesse acabado de esclarecer.

Quanto a Eça – porque de Oliveira Martins, de Antero e de Ramalho a prova encontra-se feita –, quanto a Eça, ainda agora sordidamente enegrecido no seu nome como um desnacionalizado e um desnacionalizador, não é difícil a qualquer criatura de boa-vontade destruir sem esforço essa calúnia inqualificável. Quem compreendeu, como Eça, a psicologia de Eduardo Prado, não nos deixa suspeitas àcerca da sua, em matéria contrarrevolucionária. Não olvidemos que Eça, por influxo de Antero, se havia educado na convivência forte dos livros de Proudhon. Não é demais repetir que Proudhon é hoje um dos doutores mais vulgarizados da Contra Revolução. Pois Eça já o citava, despreocupadamente, como tal. Nas Notas contemporâneas, Eça define o jacobinismo segundo Proudhon, a quem chama uma espécie de Santo Agostinho ou de São Tomás da igreja socialista! De olhos poisados em tão autorizada fonte, o jacobinismo é, de feito, para Eça, não uma doutrina, mas «uma doença maligna de coração e de cérebro».

O sinal mais evidente de que são bem portuguesas no fundo as intenções de Eça de Queiroz, está na Revista de Portugal – um dos raros órgãos de cultura com que entre nós se pretendeu coalhar nacionalismo consciente e elevado. Foi na Revista de Portugal, por exemplo, que Alberto Sampaio – o nosso Fustel – publicou algumas páginas suas sobre a nossa organização social depois dos romanos e antes de Afonso Henriques – prefácio largo e monumental à História de Alexandre Herculano. Na Revista de Portugal saíram, antes de enfeixados em volume, Os filhos de D. João I. Por lá deixou vestígios da sua erudição o insigne Martins Sarmento. E à Revista de Portugal pertence a glória de guardar os ensaios críticos do malogrado Moniz Barreto e as suas crónicas de política internacional, tão ricas de actualidade e de ensinamentos. E já não falo da circunstância de ser ali que as cartas do nosso chorado Fradique viram a publicidade pela primeira vez.
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Eça inquiriu – e inquiriu com finalidade filosófica – das causas da nossa decadência. Escutemo-lo num breve trecho: «O pai de um amigo meu, em 1836 ou 1848, num ódio repentino a tudo o que lhe lembrava o velho Portugal, foi-se à sua mobília antiga, de pau preto torneado e de assentos de couro lavrado, e num só dia vendeu, queimou, sepultou em sótãos, dispersou todas essas formas vetustas que lhe vinham do passado; depois correu a um estofador da esquina, e comprou ao acaso, num lote, uma mobília francesa. O que este homem fez, todo o Portugal o fez. Num rompimento desesperado com o velho regime, tudo quebrou, tudo estragou, tudo vendeu. Achou-se de repente nu; e como não tinha já o carácter, a força, o génio, para de si mesmo tirar uma nova civilização, feita ao seu feitio, e ao seu corpo, embrulhou-se à pressa numa civilização já feita, comprada num armazém, que lhe fica mal, e lhe não serve nas mangas.»

Pertence a transcrição ao capítulo «O Francesismo» das Últimas Páginas. Para quem acuse levianamente Eça de Queiroz, e com Eça a sua geração, de estrangeirismo e desenraizamento, Eça responde-lhe aí com o coração nas mãos, num largo e carinhoso exame de consciência. Nascido e medrado, numa sociedade toda torcida e aleijada pela obsessão das formas gaulesas – é bom que nos recordemos da infância de Fradique! –, Eça de Queiroz é uma vítima, como vítima foi a sua geração, a quem forçaram a pensar e a sentir em mau francês. Por isso O Francesismo é, quanto a mim, o testamento de Eça de Queiroz. Se Eça não concluiu – repito –, é que a sua energia se consumiu inteiramente a limpar as cavalariças de Augias. Mas concluiu por si e por ele – insisto novamente – Ramalho Ortigão. Atravessava-se uma época de análise – a outros seria permitido o suor da reconstrução. No entanto, não contribuiu pouco para ela Eça de Queiroz, não sendo demais que dispensemos ainda ao seu nacionalismo alguns momentos de atenção cuidadosa.

Fixemo-nos n’A ilustre casa de Ramires, e tanto no basta. Em A ilustre casa de Ramires legou-nos a mais completa e mais escrupulosa monografia que se conhece de uma família portuguesa. Já o crítico António Arroio nas Notas sobre Portugal o acentuava inteligentemente. Com a perceção amorável da nossa paisagem, A Ilustre Casa denuncia na obra de Eça a posse soberana do estilo e das suas adestradas faculdades de romancista. Fechava-se para Eça a hora do sarcasmo depurador, vinha-lhe ao espírito uma ânsia nobre – a ânsia de se amoldar à imagem e semelham, a da pátria em que nascera. As figuras de Os Maias, do Padre Amaro, de A Relíquia, de O primo Basílio, cerravam a galeria hipócrita e criminosa do Portugal da Carta, que amordaçara e desnaturara o Portugal de Ourique. O escritor dirigia-se agora ao Portugal português. Dirige-se com tanto enternecimento, com tanta religiosidade, que n’A ilustre Casa quase chega a existir virtude na maneira discreta como Gracinha cai.

Em Gonçalo Mendes ergueu Eça um símbolo, e um símbolo tocante. É bem o símbolo de uma raça apática, transviada do rumo superior dos seus destinos. Mas lá no fundo não se extinguiram ainda as boas energias ancestrais. Dormem apenas. E um pequeno incidente, uma mais sacudida comoção moral, é bastante para que a cachoeira represada se despenhe outra vez e Gonçalo assista dentro de si à ressurreição daqueles tantos Ramires arcaicos que lhe ganharam o solar e lhe estilizaram o apelido.

Já se desenhava detrás a volta de Eça de Queirós à Terra e ao Sangue. De certo modo, a disposição literária de que nasceram os capítulos mais sadios de A Cidade e as Serras indica-nos o começo desse batismo novo, em que o escritor iria reconciliar a riqueza da sua pena com a formação natural do seu temperamento. Há uma passagem em A Cidade e as Serras, que reputo expressiva. É a passagem em que os convivas do 202 – Eça esqueceu-se de enumerar Fradique entre eles – ouvem atentamente, através do Paris subterrâneo, os ecos de uma cançoneta excitante que um aparelho próprio lhes transmite de qualquer teatro em voga nos carnets do canalhismo elegante. Chegam aos ouvidos ávidos das relações cosmopolitas de Jacinto Galeão as reticências maliciosas da cançonetista. É o brilho mórbido da civilização, é o farelo imundo que se escondia dentro dos pomos célebres de Chateaubriand. Saudoso dos horizontes familiares, o estoira-vergas do Zé-Fernandes, do vão de uma janela, via seguir a lua alta, por cima dos Campos Elísios. Recorda-se então do luar na serra chovendo a jorros sobre as aldeias quietas. São dois traços somente. Mas, em dois traços rápidos, é dado o contraste entre o Paris gasto e inútil, embora doirado, e a vida simples de ação e bondade, ao ar livre, no coração da natureza. Julgo ser este episódio o verdadeiro nó que prende o Eça analista ao Eça construtivo. Claro que já antes disso, aqui e além, talvez mais por instinto do que por deliberação, Eça nos fora apontando as jornadas do seu itinerário nacionalista. Todavia, parece que não me engano, ao supor que no episódio referido se traduz intencionalmente a mudança íntima do escritor.

E surge-me aqui o ensejo para inserir com oportunidade um detalhe duplamente curioso e impressionante, porque nos elucida sobre os processos que Eça empregava na composição, ao mesmo tempo que nos ensina com que amor profundo o escritor se embebia nas coisas do nosso passado. Anda na memória de todos a morte do bastardo de Baião, n’A Ilustre Casa. É, sem discordância, uma das maravilhas mais extraordinárias da prosa portuguesa. Pois Eça não ideou a cena espantosa. Unicamente a extraiu das letras encaracoladas de um códice medieval, a que Herculano alude numa das notas à sua História, insuflando-lhe Eça toda a espantosa realidade que a anima e que é sempre a minha tortura quando a leio. O caso deu-se, efetivamente. Deu-se na mesma ocasião em que a novela o coloca, reinando precisamente D. Afonso I e estando as Senhoras-Infantas cercadas em Montemor. Cercava-as por ordem de el-rei um tal Martim Anes de Riba-de-Avizela. Derrotado, Martim Anes meteu-se por um paúl – dos muitos que ainda há no vale do Mondego. Canta o Nobiliário, chamado «do Colégio dos Nobres», que, ao arrancarem-no de lá, vinha agonizante, porque as sanguessugas o tinham chupado todo.

Em nada se diminui o valor da criação formidável de Eça de Queirós. Em arte, o que não é real é pelo menos verídico. Quando se cai nos domínios da pura invenção, já se não é Eça – é-se simplesmente Júlio Dantas. Eça, como grande mestre, soube tirar da verdade aquela beleza dominadora que os medíocres costumam baldadamente pedir à fantasia. Justo é que nós o amemos, não como o Eça implacável da ironia que não perdoa, mas como o obreiro enternecido de um Portugal Maior que está para renascer. Sentiu Eça o seu país com o coração e como talento. No São Cristóvão, a missa ao Diabo, por entre o escuro da noite e da floresta, é toda embebida de um conhecimento largo do nosso folclore. Eça comprazia-se cada vez mais no estudo das nossas tradições populares. E um ligeiro facto nos demonstrará como na sua última fase o próprio criticismo do escritor se modificava e adoçava ao tocar na arca-santa da pátria.

Recordêmo-nos de que foi na Revista de Portugal que a correspondência de Fradique apareceu a público. No estudo que a precede, Eça de Queiroz, a propósito dos apontamentos recolhidos por Fradique sobre cultos primitivos, na sua viagem ao Zambeze, transmite-nos um bocado de conversação tido de uma vez na Rua de Varennes numa noite de ruidosa invernia. Ao calor do fogão e do café, circulava nos lábios a tese predileta de Fradique-Renan acerca da essência das religiões. Com aquele traço sóbrio e incisivo que foi sempre o encanto da palavra de Fradique, o neto de D. Lopo Mendes levantava diante dos olhos dos seus convivas todo o mistério fundíssimo da selva africana. Ele, seduzido, não se conteve: «Fradique! Porque não descreve Você essa sua viagem a África? Veio de seguida o pasmo, a surpresa de Fradique – um pasmo e uma surpresa sem afetação. Era a vez primeira – explica Eça – que eu sugeria ao meu amigo a ideia de compor um livro.» E o futuro revelador da Correspondência não encontra outra maneira de exprimir o espanto que assomou à face de Fradique, de ordinário imperturbável, senão comentando: «Foi como se lhe tivesse proposto uma epopeia sobre o senhor D. João VI». Isto lê-se na Revista de Portugal. Já se não lê, porém, em A Correspondência de Fradique Mendes, editada em volume. Talvez tocado por uma visão mais justiceira da história, Eça de Queirós deixou em paz o senhor D. João VI – quem sabe se Eduardo Prado lho ensinara, pelo menos, a respeitar? –, e rectificou honestamente: «Ele (Fradique) ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propusesse marchar descalço, através da noite tormentosa, até aos bosques de Marly.»
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E Fradique? E o seu espólio? Embora pudesse parecê-lo, não me esqueci nem de Fradique nem do seu espólio. Para melhor se conhecer Fradique, até agora reputado simplesmente como um profissional de humorismos bizarros, nós necessitávamos de conhecer o seu meio – de conhecer o seu ambiente. Nada mais falseado, em verdade, do que o ambiente em que se movimentou a geração de Fradique. É considerada como negadora, como iconoclasta, essa geração. Foi-o, efetivamente. Mas foi-o da ideologia liberalista, foi-o das mentiras e dos ídolos que abastardavam a essência eterna da Pátria. Era cedo ainda para que o seu esforço se polarizasse no sentido orgânico de uma doutrina. Bastou-lhe, porém, a observação; e a iluminá-la, a conduzi-la a desbravar-lhe o caminho, velava por ela o génio rude e intenso de Proudhon.

A Proudhon – um incrédulo – deve a Igreja uma das mais vibrantes defesas do poder temporal dos Papas. Não nos causa estranheza assim que, à frente do livro de Jacques Bainville, Bismarck et la France, a memória de Proudhon se enlace comovedoramente à memória dos zuavos pontifícios caídos no campo da batalha. Pela influência máscula do pensamento proudhoniano, Antero, também fora da Igreja, defenderia o Syllabus num opúsculo já hoje raro, antecipando-se bem quarenta anos às apologias célebres de Charles Maurras, - um agnóstico. Intitulava-se esse folheto: Defesa da Carta Encíclica de S. S. Pio IX contra a chamada opinião liberal. É um protesto contra a falta de lógica com que as folhas liberais atacavam o Syllabus – informa Antero na sua Carta autobiográfica –, declarando-se ao mesmo tempo fiéis católicas.

A total ausência de cultura em Portugal não permitiu que se visse logo, através de Proudhon, a razão doutrinária do anticonstitucionalismo da geração de 60. Tomou-se como um simples ato de fé republicana – como hoje se diria em boa linguagem comicieira. Antero, Eça de Queirós, Oliveira Martins, ao falarem-lhes em soluções, aceitariam então – admite-se –, teoricamente a república. Quando, porém, mais tarde, o seu espírito, fechado o período analítico, se procurou aquietar na desejada e repousadora síntese – Inveni portum!, como exclamaria Lemaître, ao atingi-la alvoroçadamente –, foi na Monarquia-monárquica, conquista da civilização e da história, que sem dificuldade a descobriram. De resto, bem cedo Antero se impressionou com as analogias existentes entre Balzac e Proudhon. Não nos espanta, por isso, que, pela mão de Proudhon, chegasse aquele sereno ancoradoiro, de que Balzac reflete a tranquilidade no prefácio imortal da Comédie Humaine.

Ora Fradique, nada proudhoniano, mais sibarita que pensador, mais observador que sociólogo, teve de comum com os seus amigos um ponto de partida: Balzac. É certo que Fradique, com rara agudeza crítica, qualificava o estilo de Balzac «de uma exuberância desordenada e barbárica», mas não se olvidava nunca de lhe mandar pôr sobre a campa, no dia dos Mortos, um ramo de violetas de Parma – dessas violetas que em sua vida Balzac tanto amara. Também, por acusar Renan de falta de solidez e nervo, nós não devemos atirar para o limbo das hipóteses inúteis o seu mais que evidente «renanismo». Ao acaso, nas menores manifestações de Fradique, ele se nos apresenta bem definido, bem caracterizado. E será por esse fio que nós veremos como Fradique, isento da pressão de Proudhon, chegaria por interessante paralelismo a verificações sociais e políticas, idênticas às dos seus amigos.

«Touriste da inteligência» se confessava espontaneamente Fradique. O crítico mais meticuloso, ao receber a sua confissão, não hesitava em classificá-la logo de «renanista». De renanismo, com efeito, corre eivado quase tudo o que possuímos de Fradique. É bem de Renan um excerto como este, arrancado por Eça a uma carta de Fradique a GF: «Todos nós que vivemos neste globo formamos uma imensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma Natureza inconsciente, impassível, mortal como nós, que não nos entende, nem sequer nos vê, e de onde não podemos esperar nem socorro nem consolação. Só nos resta, para nos dirigir na rajada que nos leva, esse secular preceito, suma divina de toda a experiência humana – «ajudai-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam, cada um ceda metade do seu pão àquele que tem fome; estenda metade do seu manto àquele que tem frio; acuda com o braço àquele que vai tropeçar; poupe o corpo daquele que já tombou; e se algum mais bem seguro e provido para o caminho necessitar apenas simpatia de almas, que as almas se abram para ele transbordando dessa simpatia... Só assim conseguiremos dar alguma beleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte.»

E tal como em Renan, em Carlos Fradique Mendes a esperança de um maior grau de consciência no Universo, como o único meio de vencer o dilema fatal da Vida, alternava, sem reticências nem transições demoradas, com o seu profundo orgulho na arte nobre do pensamento. «O homem, como os amigos reis do Oriente – dizia Fradique em 1883 a Oliveira Martins –, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão única e serenamente ocupado no duro ofício de reinar – isto é, de pensar.» E era ainda o seu excessivo culto pelo prestígio da Inteligência que levava Fradique, seguindo as pisadas de Renan e contra os preconceitos preponderantes na sua época, a condenar asperamente a Democracia.
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Eça guardou-nos um retalho precioso das ideias de Fradique sobre «o grande erro da nossa civilização». Foi numa manhã de Maio, no jardim das Tulherias. Apoiado no braço do que viria a ser no futuro o seu biógrafo enternecido, Fradique abria-se vagarosamente, condenando «a extrema democratização da ciência, o seu universal e ilimitado derramamento através das plebes». No horizonte já se desenhava a terrível catástrofe – a catástrofe tremenda. E Fradique ia alongar-se, quando, «ao transpormos a grade para a Praça da Concórdia – escreve Eça –, o Filósofo que assim lançava, por entre as tenras verduras de Maio, estas predições de desastre e de fim, estaca, emudece». Ao trote fino de uma égua passava um coupé, onde, de relance, flabelaram uns cabelos saborosamente cor de mel. Fradique interrompe a sua apocalipse e atira-se num fiacre arquejante para os lados do Cais de Orsay...

Ora, ao crepúsculo desse mesmo dia, Eça entrava em casa de Fradique, à Rua de Varennes – no velho palácio dos Tredennes. Fradique, de mãos enterradas na quinzena de seda, olhava melancolicamente para o jardim, já a esfumar-se na sombra. Ao alto, forrando a sala, quatro ricas tapeçarias de Lucas Cornélio ressuscitavam os Trabalhos de Hércules. Pois com a maior naturalidade, como se o diálogo das Tulherias tivesse continuado pelo dia fora, Fradique, sem mais preâmbulos, prosseguiu:

 - «Não lho acabei de dizer há pouco. A Ciência, meu caro amigo, tem que recolher-se novamente aos Santuários. Não há outro meio de nos salvarmos da anarquia moral. Tem de ser recolhida aos Santuários, repito, e entregue a um sacro colégio intelectual que a guarde contra as curiosidades das plebes.... Há a fazer com esta ideia um programa para as gerações novas!» Digam-me agora os senhores se é ou não é Renan puro, Renan genuíno – Renan dos Drames Philosophiques? Em Fradique transparecia, de uma maneira inconfundível, uma das mais queridas aspirações de Renan, ao enunciar assim o desejo de um mundo regido por um areópago solene de sábios. Assustado com o crescer vozeante e ignaro das massas, já Renan apelara para um sumo-sacerdócio da ciência, dominando as multidões pelo terror dos seus poderes ilimitados e misteriosos. Na ausência de Deus, regressavam os deuses... E, ilusionado como Renan pelo prestígio mitológico de um intelectualismo prestes a desfazer-se, Fradique sofria-lhe as consequências na terrível escuridade da sua terrível noite interior. Derivava daí a sua impossibilidade quase orgânica de afirmação, a que Teixeira de Azevedo, com precisão notabilíssima, chamava linfatismo crítico. Comparando-o um pouco a Descartes – Renan encontrava-se muito perto, para que a semelhança se surpreendesse com exatidão –, Oliveira Martins fixara num relance de visão feliz o traço próprio da fisionomia mental e moral de Fradique naquela sua carta, de Novembro de 1877, a Eça de Queiroz: - «Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excelentes, concorressem a realizar. E receio que em lugar do Discurso sobre o Método venha só a deixar um vaudeville.»

Nada mais dolorosamente verdadeiro! Nada em que melhor se estampe o diletantismo de Fradique! Eu sei que Eça o não teve como diletante – que, até numa defesa acalorada do seu amigo, se insurge contra essa designação em que frequentemente o abrangiam. «O diletante, com efeito – pondera Eça – corre entre as ideias e os factos, como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extraindo o seu mel; quero dizer, de cada opinião recolhendo essa ‘parcela de verdade’, que cada um invariavelmente contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.» Mas o que é isto senão o diletantismo na sua forma superior, no seu abuso da relatividade, na sua incapacidade sintética e construtiva! Não! Não nos iludamos! Fradique foi um diletante! E como diletante, saboreando os benefícios de uma alta e invulgar cultura, é em Renan que nos cabe procurar o tipo intelectual que mais justamente lhe corresponde.

Depois, é mediante esta identificação de Fradique com o pensamento e com a psicologia de Renan que nós pudemos explicar o que, de outro modo, continuaria inexplicável em Fradique: o seu nacionalismo, em mais de um caso assinalado com paixão fervorosa numa pessoa como ele, que parecia distraído de todo pela perturbação das grandes urbes cosmopolitas. Provou-o Fradique magnificamente ao comprar a quinta do Saragoça em Sintra. Comprava-a, exprimia-se ele a F. G., «com desacostumada emoção» – acentua Eça – para ter terra em Portugal, e para se prender pelo forte vínculo da propriedade ao solo augusto de onde um dia tinham partido, levados por um ingénuo impulso de ideias grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de quem ele herdara o sangue e a curiosidade do além.» São palavras repassadas de uma humildade religiosa, de uma ternura tão rara e tão íntima, que, sem querer, me trazem à lembrança as de Renan, ao invocar a memória dos da sua estirpe, agarrados secularmente ao torrão e fazendo economias de sensibilidade e de entendimento, de cujo tesoiro acumulado ele seria o usufrutuário venturoso.

Em Portugal descobria Fradique um sanatório para as suas torturas dialéticas de sofista insaciável. Nada de ideias! – exclamava ele diante de um prato «complicado e profundo de bacalhau, pimentos e gão de bico», em certa taberna da Mouraria, aonde Eça de Queiroz o levara. Ao acaso, lançara-se o nome de Renan – sua chaga viva, seu espelho preferido. Fradique mirou-se, horrorizado, e protestou com veemência. «Nada de ideias! Nada de ideias! Deixem-me saborear esta bacalhoada em perfeita inocência de espírito, como no tempo do senhor D. João V, antes da Democracia e da crítica!»

Antes da Democracia e da Crítica! Eis um conceito que resume todo o segredo da personalidade de Fradique. Fio débil num enigma tão enleante, mostra-nos, contudo, como Fradique reagia contra as baixas superstições do seu tempo. E é-nos lícito admitir, por esta via, que o nacionalismo de Fradique não se reduzia a ser unicamente um nacionalismo pictural – um simples nacionalismo de esteta, buscando-se sempre a nota bizarra e imprevista.

Insofismavelmente no-lo indica a antipatia de Fradique pela vida de Lisboa, que, numa rápida faísca daquele seu humorismo tão cáustico e tão brilhante, definiu, de uma vez para sempre, como «uma cidade traduzida do francês para calão». Conta Eça que, ao desembarcar em Santa Apolónia – a morte poupou a Fradique o pavor da estação «manuelina» do Rossio! –, o tormento profundo de Fradique era descobrir, por debaixo das espessas e ignóbeis camadas de um torpe francesismo de importação, o que, por acaso, restasse ainda do autêntico, do castiço Portugal. Começava logo por se desgostar com a comida. E então, num sentimento minucioso das coisas de algum dia, Fradique perguntava – e perguntava doloridamente: «Onde estão os pratos veneráveis do Portugal português (do Portugal português, reparem!), o prato com macarrão do século XVIII, a almôndega indigesta e divina do tempo das Descobertas, ou essa maravilhosa cabidela de frango, petisco dileto de Dom João IV, de que os fidalgos ingleses que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surpreendente notícia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles pôs em calão as comédias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democráticos do boulevard... Desastre estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitela de Lafões, os legumes, os doces, os vinhos, degeneraram, insipidaram... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois destes enxertos funestos no velho tronco lusitano, os frutos têm perdido o sabor como os homens têm perdido o carácter. «Os frutos perderam em Portugal o sabor, como os homens perderam o carácter, desde o advento do Parlamentarismo, desde o Constitucionalismo...» E para que não nos cresçam dúvidas, Fradique trata as imortais conquistas da Liberdade de «enxertos funestos no velho tronco lusitano». É toda uma teoria contrarrevolucionária que se enuncia, neste desprendimento elegante de Fradique. Suponho que se Madame Lobrinska tivesse permitido a Eça que remexesse no cofre espanhol do século XV, não saia de lá nem uma Teoria da vontade, nem uma Psicologia das Religiões – repito. O que saía, detalhando uma Filosofia da Reação, quase se adivinha esse horror de inteligência e de instinto com que Fradique encarava a comédia-bufa do nosso ultrarromantismo político.

Documentou-o Fradique em muita passagem sua, mas, sobretudo, em duas das suas mais celebradas cartas – a carta endereçada a M. E. Mollinet, conspícuo diretor da Revue de biographie et d’histoire, e a última carta que se lhe conhece, dirigida a Madame de Jouarre, sua madrinha e em cujo nome palpita ainda uma doce reminiscência de Renan. Na verdade, Fradique tipificou magnificamente o Constitucionalismo no Conselheiro Pacheco e no Padre Salgueiro. O Padre Salgueiro, amanuense de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Pacheco – o de imenso talento, sempre calado sempre recolhido nas profundidades de si mesmo – marcam uma época e vitalizam uma mentira. E se lhes juntarmos D. Paulina – a da casa de hóspedes – e o comendador Pinho, barão presumível de São Francisco, a Regeneração fica simbolizada em quatro figuras, que são outros tantos resumos de génio num tratado de experiência humana. Julgo demais examiná-las à luz do critério que ilumina o presente ensaio. Somente aconselho a sua meditação refletida, em seguida a uma leitura não menos refletida do Portugal contemporâneo, ou das Farpas. Então se verificará a admirável coincidência doutrinária que presidiu no ambiente de Fradique à demolição consciente e sistemática do Liberalismo. Essa demolição, revestindo em Fradique termos mais brandos, podia ele tê-la bebido no Renan da Reforme intellectuelle et morale. E se traduz alguma influência remota de Proudhon – Proudhon, com a sua rusticidade ardorosa, arranharia os nervos aristocráticos de Fradique –, é ao aludir, num período passageiro, às crenças do Rev. Salgueiro. «Não admira, porém, na obra pontifical de Pio IX – esclarece Fradique –, nem a Infalibilidade, nem o Syllabus; porque se preza de liberal, deseja mais progresso, bendiz os benefícios da instrução, assina O Primeiro de Janeiro». Singular geração essa em que, de Antero a Fradique, se compreendia e respeitava o Syllabus quando, adentro da Igreja, prelados como o de Viseu se recusavam publicamente a defendê-lo!

Pena é que não chegasse a aparecer o volume Versos e Prosas de Fradique Mendes, anunciado por Eça na Correspondência. Mais espaçadamente ali se confirmaria o intenso nacionalismo do glorioso amigo de Ana de Léon – tanto mais que Eça proclama como verdadeiros «Ensaios Históricos» as cartas de Fradique a Oliveira Martins acerca do nosso imperialismo no Oriente, do Sebastianismo e do Marquês de Pombal. Com fundamentos colhidos na história e na sociologia, esse nacionalismo – insisto – não resultava, pois, de uma mera guloseima de estética, de um picturalismo requintado e exigente. Em política, conduzira Fradique francamente a uma posição de inactual – de antecipado, que, por conhecimento próprio, o obrigou talvez à mudez inviolável do cofre espanhol do século XV. Fradique sentia o amor da história e não há nada mais irreconciliável com a Democracia e como Liberalismo do que a História – quando história –, na realidade! Foi por aí que Fradique recuperou o senso das coisas da nossa terra. E assim não nos espanta que Fradique amasse, em Portugal, principalmente o Povo. E porquê? Porque o Povo «não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe comunica os seus caracteres graves e doces». Com o Povo, não mudou também a Paisagem. E a Paisagem arrancou a Fradique essa écloga admirável que é a carta escrita da quinta de Recaldes, no Minho, a Madame de Jouarre. «Um carro retardado, pesado de mato, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ela, que não há nesta alma, toda encrestada das lamas do mundo, pensamento que não pudesse contar a um santo...»

Quando no nosso país se institua a valer um curso de energia nacional, a Fradique se irá pedir, como uma das preleções iniciais, a sua bela carta a Mme. F. – maravilhoso epítome do que seja um patriotismo sentido com a inteligência e compreendido com a emoção. Sabem decerto a que carta me refiro? Refiro-me à resposta de Fradique a uma senhora que pretendia para seu filho um professor de espanhol! Numa hora de estrangeirismo invasor, a carta de Fradique precisava de andar em todas as bocas, de ser lida em todas as escolas, de estar patente à entrada de todas as casas. É dessa carta um grande, um inolvidável conselho digno de se reduzir às honras de um artigo de fé na religião, hoje tão desertada, da Terra e do Sangue: «Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros.» E Fradique justifica-se, Fradique explica-se: «Mesmo porque aos estrangeiros o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável – ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas, e tenta uma instalação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com efeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunais verá que o perfeito poliglotismo é um instrumento de alta escroquerie.»

Passo em claro o episódio comovedor da tia de Fradique (os genealogistas descobrirão, de futuro, se o era por via materna, se por linha paterna), boa e excelente senhora, que, sem falar mais do que o minhoto, «nunca, em cidade ou região inteligente do Universo... deixou de comer os seus ovos, e superiormente frescos». E no momento em que se funda em Portugal uma ‘Casa de Jornalistas’ – que diabo serão na sociedade os jornalistas para terem casa? –, prefiro recordar a definição que Fradique nos dava dos jornais portugueses. Como fenómenos picarescos de decomposição social os encarava e caracterizava o poeta fugidio das Lapidárias. Pois aos jornais, como desforço póstumo, pode Fradique agradecer o conceito de fazedor impertinente de frases que lhe desbota e enegrece a memória! Pobre Fradique! Ninguém padeceu como ele a tragédia profunda da Inteligência – e ninguém como ele é ainda agora festejado como um profissional de ironias célebres, impostas, ditatorialmente, do alto da sua correção, a uma plebe anónima de snobs – dos que vegetam, como o lixo da rua, ao longo dos carnets-mondains e alternam com os moços de corda às esquinas inglórias do Chiado. Afilhado, senão irmão mais novo de Renan, Fradique teve, como Renan, o encanto da conversação e o gosto do estilo. Mas, como em Renan, a bondosa despreocupação de Fradique não correspondia ao conteúdo exato da sua alma.

Léon Daudet apresenta-nos algures Renan como «un sceptique suspendu entre un rêve multicolore et le néant». Suspensa entre a imagem obsidiante do Nada e o sonho artificial de que baldadamente se tentou rodear, eis como decorreu a existência, só nas aparências tranquila e sorridente, de Carlos Fradique Mendes. Inopinatam atque repentinam, veio um dia a morte – a morte que ele e César foram os dois a apetecer igual. O segredo de Fradique ficou para sempre guardado no cofre espanhol do século XV, confiado aos cuidados severos de Madame Lobrinska – aquela «sapiente Libuska» que se movia com o esplêndido peso de uma estátua. Debalde insistiu Eça de Queiroz para que os inéditos de Fradique se revelassem, belos, à admiração enternecida dos seus amigos. Refugiada entre neves e crepes, nos confins do governo de Karkoff, Madame Lobrinska obstinou-se sempre numa recusa tão inabalável e tão gelada, como a impenetrabilidade das velhas esfinges tumulares. Morreu Madame Lobrinska. E nas mãos dos seus herdeiros os papéis de Fradique, ou voaram desfeitos na indiferença da gente estranha, ou juntaram as suas cinzas às cinzas do vasto domínio, quando ultimamente os campesinos de Karkoff o reduziram a um montão de cinzas acarvoadas.
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*

​Pergunta-se: - mas o que conteria afinal o cofre espanhol do século XV, tão ciosamente guardado por Madame Lobrinska? Não creiam que contivesse 
Memórias – e muito menos, ou uma Teoria da Vontade, ou uma Psicologia das Religiões. Senhor de toda a cultura da sua época, Fradique não ignorava que essa cultura representava superiormente, com Balzac, Comte, Taine, Renan e tantos outros, um sistema de crítica filosófica aos baixos erros da Democracia e do Liberalismo.

Não se entende, de outro modo, que Fradique – um cosmopolita e um diletante – concluísse emotiva, estética e socialmente num nacionalismo tão intenso e tão apaixonado, como o que nos oferece o estudo refletido da sua Correspondência. Afigura-se-me que, se nalgum trabalho de fôlego consistia o espólio literário de Fradique, talvez se intitulasse Filosofia da Reação. Não é constranger a uma ideia minha as ideias sempre tão vigorosas e tão independentes de Fradique. É antes concretizar numa fórmula precisa o espírito e as intenções do pouco que de Fradique chegou até nós, desgraçadamente.

Mas seja como for, na minha livraria eu coloco doravante o volume de A Correspondência, entre os pensadores políticos, ao lado de O Novo Príncipe, do dr. José da Gama e Castro, e de O Desengano, do Pe. José Agostinho de Macedo. E se amanhã, de posse de subsídios inesperados e mais decisivos, houver de refundir o presente ensaio, chamar-lhe-ei definitivamente e com mais propriedade: Fradique, mestre da Contra-Revolução.
​
Badajoz, exílio, 2 de Janeiro de 1920.
 
 
António Sardinha


​[ negritos acrescentado ]

Refs.
1842 - Honoré de Balzac - Avant-propos de "La Comédie humaine"
1900 - Eça de Queirós - A  Correspondência de Fradique Mendes, 2ª ed, 1902.
1915 - Hemetério Arantes - Ramalho Ortigão  .pdf - ​a teoria do regresso ao tradicionalismo por meio do positivismo. [ H. Taine. As origens da França contemporânea ]
1920-01-03 - António Sardinha - O espólio de Fradique.  .pdf

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1997 - José Manuel Quintas - O Integralismo Lusitano e a herança de "Os Vencidos da Vida"
2004 - José Manuel Quintas, Filhos de Ramires - As origens do Integralismo Lusitano
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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