Francisco Rolão Preto - A Monarquia é a Restauração da Inteligência - 1920
CAPÍTULO IV
I
Os socialistas e a guerra
I
Os socialistas e a guerra
RESUMO
Neste capítulo Rolão Preto examina a atitude dos socialistas italianos perante a Primeira Guerra Mundial, situando-a numa cronologia que começa antes de 1914, com as divisões internas do Partido Socialista Italiano, e se prolonga até às tentativas de recomposição da Internacional socialista durante o conflito. O ponto de partida é a cisão de 1912: de um lado ficaram os reformistas ligados a Bissolati, afastados do núcleo dominante do partido; do outro, consolidou-se o socialismo ufficiale, de orientação marxista e internacionalista, associado a figuras como Turati, Treves, Lazzari, Modigliani e, antes da rutura intervencionista, Mussolini. Esta reorganização interna é decisiva porque deslocou o centro da ação socialista para a corrente que, durante a guerra, faria da neutralidade, da paz e da defesa da Internacional os seus principais argumentos políticos.
O capítulo mostra, primeiro, a crise aberta pelo início da guerra europeia em 1914 e pelo colapso prático da II Internacional, quando muitos partidos socialistas passaram a apoiar os respetivos governos nacionais. Em Itália, porém, o socialismo oficial manteve uma linha neutralista, resumida na fórmula da oposição à guerra em nome da paz e da Internacional. Rolão Preto interpreta essa posição não como simples pacifismo, mas como convergência objetiva com a propaganda germanófila: à influência cultural alemã nas universidades e nos meios intelectuais juntava-se o peso financeiro da Banca Commerciale, das ligações industriais com a Alemanha e das manobras políticas de Giolitti, dos católicos neutralistas e dos jornais contrários à intervenção.
Rolão Preto distingue assim vários grupos em confronto. O socialismo ufficiale, maioritário no partido, aparece como a força que sustenta a neutralidade e procura reatar os laços da Internacional; os reformistas de Bissolati, separados desde 1912, surgem como corrente menos influente no quadro internacional socialista; Mussolini representa o caso particular de uma rutura com o antigo campo marxista, ao passar da direção do Avanti! para a defesa da intervenção através de Il Popolo d’Italia; e, fora do socialismo, os nacionalistas da Idea Nazionale, com Enrico Corradini, bem como D’Annunzio, Salandra e o intervencionismo liberal e patriótico, são apresentados como o polo oposto, empenhado em levar a Itália para a guerra ao lado dos Aliados. A narrativa revela-nos, portanto, uma oposição entre internacionalismo socialista e nacionalismo intervencionista, mas também entre o parlamentarismo neutralista de Giolitti e a mobilização popular das ruas favorável à participação na guerra.
Depois da entrada da Itália na guerra, em maio de 1915, o texto acompanha a passagem do neutralismo àquilo que qualifica como derrotismo. A imprensa socialista, o Avanti! e os dirigentes do partido são acusados de explorar os reveses militares e de colaborar nas tentativas de reconstrução da Internacional contra a guerra. A conversa de Lugano, a conferência de Zimmerwald, em setembro de 1915, e a reunião de Kienthal, em abril de 1916, surgem como etapas dessa cronologia internacionalista: nelas participam socialistas italianos como Lazzari, Modigliani, Morgari e Serrati, em articulação com suíços, alemães, russos e outros opositores da guerra. Lida a partir de 1920, a história do socialismo italiano entre 1912 e 1916 é apresentada por Rolão Preto como uma sequência de cisão partidária, neutralismo perante a guerra, oposição à intervenção, campanha derrotista e participação em redes socialistas internacionais, num momento em que o pós-guerra parecia confirmar o perigo revolucionário do socialismo europeu.
O capítulo mostra, primeiro, a crise aberta pelo início da guerra europeia em 1914 e pelo colapso prático da II Internacional, quando muitos partidos socialistas passaram a apoiar os respetivos governos nacionais. Em Itália, porém, o socialismo oficial manteve uma linha neutralista, resumida na fórmula da oposição à guerra em nome da paz e da Internacional. Rolão Preto interpreta essa posição não como simples pacifismo, mas como convergência objetiva com a propaganda germanófila: à influência cultural alemã nas universidades e nos meios intelectuais juntava-se o peso financeiro da Banca Commerciale, das ligações industriais com a Alemanha e das manobras políticas de Giolitti, dos católicos neutralistas e dos jornais contrários à intervenção.
Rolão Preto distingue assim vários grupos em confronto. O socialismo ufficiale, maioritário no partido, aparece como a força que sustenta a neutralidade e procura reatar os laços da Internacional; os reformistas de Bissolati, separados desde 1912, surgem como corrente menos influente no quadro internacional socialista; Mussolini representa o caso particular de uma rutura com o antigo campo marxista, ao passar da direção do Avanti! para a defesa da intervenção através de Il Popolo d’Italia; e, fora do socialismo, os nacionalistas da Idea Nazionale, com Enrico Corradini, bem como D’Annunzio, Salandra e o intervencionismo liberal e patriótico, são apresentados como o polo oposto, empenhado em levar a Itália para a guerra ao lado dos Aliados. A narrativa revela-nos, portanto, uma oposição entre internacionalismo socialista e nacionalismo intervencionista, mas também entre o parlamentarismo neutralista de Giolitti e a mobilização popular das ruas favorável à participação na guerra.
Depois da entrada da Itália na guerra, em maio de 1915, o texto acompanha a passagem do neutralismo àquilo que qualifica como derrotismo. A imprensa socialista, o Avanti! e os dirigentes do partido são acusados de explorar os reveses militares e de colaborar nas tentativas de reconstrução da Internacional contra a guerra. A conversa de Lugano, a conferência de Zimmerwald, em setembro de 1915, e a reunião de Kienthal, em abril de 1916, surgem como etapas dessa cronologia internacionalista: nelas participam socialistas italianos como Lazzari, Modigliani, Morgari e Serrati, em articulação com suíços, alemães, russos e outros opositores da guerra. Lida a partir de 1920, a história do socialismo italiano entre 1912 e 1916 é apresentada por Rolão Preto como uma sequência de cisão partidária, neutralismo perante a guerra, oposição à intervenção, campanha derrotista e participação em redes socialistas internacionais, num momento em que o pós-guerra parecia confirmar o perigo revolucionário do socialismo europeu.
CAPÍTULO IV
Os socialistas e a guerra
I
Os socialistas italianos
Os socialistas e a guerra
I
Os socialistas italianos
Um dos capítulos mais interessantes da história da «Internacional» durante a guerra é, sem dúvida, aquele que se compõe da ação do socialismo da Itália.
Como nos outros países da Europa socialista, na Itália duas correntes de maior importância dividiam o campo dos que assaltam a barricada. Desde 1912[1] que Bissolati, deixando o Avanti aos marxistas que são o grosso do partido, organizou o reformismo italiano. Do mesmo golpe, porém, alienou a sua influência dentro da Internacional, que passou toda a Treves e a Turati e seus camaradas do socialismo-ufficiale. Toda a ação da Internacional na Itália se passa então em volta da secção marxista, a despeito do futuro cisma de Mussolini com o seu Popolo d'Italia.
Em 1915, a regra estabelecida não falhou também aqui; marxista e revolucionário, o seu jogo foi o jogo da sozial Demokratie pangermanista. De lá partiram todas as tentativas para reconstruir a Internacional morta em 1914. A eles, aos socialistas ufficiali, cabe a iniciativa das manobras de Lugano e Zimmerwald. Bons serviços lhe deve a Germânia que, de resto, não foram mais que o fruto necessário de uma enorme e cuidadosa sementeira.
Julgamos útil, para se ter uma mais perfeita impressão desta ação germanizante da Revolução que nos vinha da Alemanha, não a separar do meio em que os acontecimentos se desenrolaram de 1915 em diante. As condições intelectuais e políticas da Itália, no momento da sua intervenção, ajudar-nos-ão a melhor entender o crime da Democracia contra a latinidade e em favor do germanismo, especulador atento dos seus vícios e taras efetivas.
É assim que, mercê da derrocada que a democracia foi para a nossa cultura latina, destruindo as razões da eterna Inteligência meridional, o campo fica aberto e livre para todos os empreendimentos do germanismo. Na estagnação em que o Estado democratizado deixou perder a indústria e o fomento das nações latinas, esmagando a iniciativa na mó formidável do politiquismo, fácil foi o triunfo da hegemonia alemã sobre os nossos produtos a si próprios abandonados.
Na Itália, esta germanização tinha tomado, principalmente nos últimos anos anteriores à guerra, um incremento apavorante.
Esse grande crime democrata que conduziu a Raça a renegar-se a si própria, tão bem provado na esplêndida síntese maurrasiana - Quand les français ne s'aimaient pas[2] -, não foi naturalmente menor, nem menos acentuado, no país de Garibaldi.
Havia já muito tempo que nos meios cultivados a cultura germânica tinha a influência decisiva. Berlim suplantara o prestígio da inteligência latina e Paris tinha sido desertada pelas camadas escolares italianas. De preferência, as universidades alemãs eram os centros intelectuais para onde se dirigia a mocidade na ânsia do conhecimento profundo e íntegro, que era fama ser vago e superficial nos meios culturais franceses.
Depois, a paciência e a minudência dos detalhes, que a alta cultura germânica punha no estudo do passado; Roma artística, intelectual e civilizadora — e a vida da inteligência romana, veneziana e toscana - criou uma atmosfera de simpatia pela erudição alemã, em detrimento do pensamento latino que facilmente serviu de fator valioso nas mãos da propaganda pangermanista na Itália.
Da mesma sorte, nos meios financeiros da Itália a Germânia ganhava terreno com o seu método e a sua persistência costumada, tão diferente da inconstância e da falta de ideias largas, apanágio inglório da Democracia, senhora dos destinos dos países latinos.
Assim, era notório que a Banca Commerciale devia imenso aos bancos alemães, que desta forma introduziam a sua influência no seio da indústria nacional, nomeadamente nos altos-fornos e fundições de aço de Terni, na fábrica de canhões de Vickers, de Spezzia, nos estabelecimentos metalúrgicos de Savona e da ilha de Elba.
O desenvolvimento económico da Itália passou a ser paralelo à expansão económica alemã em país italiano, função uma da outra, resultantes quase.
A Banca Commerciale, inteiramente nas mãos da propaganda comercial germânica e senhora de bons trunfos da política nacional, monopolizou a breve trecho toda a política económica da península.
Ao romper da guerra europeia, na alta finança e na grande indústria encontrou pois a Alemanha o melhor apoio para a sua campanha de neutralidade, em contraposição com os esforços dobrados dos aliados em lançar a Itália na guerra a seu lado. A cultura italiana favorecia também, naturalmente, esta simpatia dos meios industriais e financeiros.
Foi tremenda e extenuante a maneira como essa propaganda pró-neutralismo italiano foi conduzida pela mão do pangermanismo. De tudo se serviu, todos os campos foram bem explorados e estudados para deles tirar o máximo proveito. A política alemã tinha, de resto, um grande aliado na Itália; eram as circunstâncias excepcionais da política italiana de então.
O pacto Giolittini, ou seja, a aliança liberal-católica de Giolitti, tinha dado uma maioria colossal ao ministério deste estadista. Esta maioria, coligação absolutamente senhora do parlamento italiano, era o mais contrária, por natureza intrínseca, à política dos aliados. Os católicos odiavam a França maçonizada e democratizada, ao mesmo tempo que Giolitti, que o fazia pelas suas attaches particulares com von Bülov e as das forças partidárias que capitaneava com a alta finança alemã, cujos interesses eram comuns.
A propaganda de Giolitti era nos meios industriais, enquanto a propaganda dos católicos se fazia nos campos[3].
Diante de tal estado de coisas, que vão fazer os socialistas? Do lado da Alemanha imperialista e autocrata estão os burgueses da alta finança, os clericais e a politicalha de Giolitti, o socialismo pela mão de Treves-Turati não devia hesitar em colher o caminho mais em contrário a essa camarilha financeira; pois é exatamente outro o escolhido. Desde logo, a política da sozialdemokrazia italiana foi germanófila; primeiro neutralista, e, depois, francamente anti-aliados.
Quando o socialismo germânico, pondo de parte todos os princípios da 2.ª Internacional, se mostrava mais imperialista que o próprio governo alemão, o cuidado exclusivo do socialismo italiano era de manter a ortodoxia teórica dessa Internacional.
«Per la pace e per l'Internazionale», foi a fórmula com que se encobriram as mais desenfreadas manobras pangermanistas.
O chanceler alemão despacha-lhes o socialista Sudekum para que nada se perdesse da manobra.
Logo a influência deste se sentiu no Avanti!, que breve trouxe o manifesto da direcção do partido, convidando o proletariado a acentuar a sua oposição irredutível à guerra?[4]. Ferrari, Turati, Treves invocavam repetidamente os argumentos da má situação financeira e económica da Itália e gritavam o natural e sucessivo aumento de impostos, encarecimento da vida e redução de salários que a guerra trazia, e isto só para se tentar realizar «aspirações fantásticas», o sonho «vazio de conteúdo» da Itália, «grande potência balcânica». Este propósito dos nacionalistas era assim julgado por Graziadei: «As mesmas razões que levam os nacionalistas a desejá-la (à guerra) como um acontecimento feliz e salutar, para o povo lha tornam odiosa», e, «uma vez a guerra declarada, e mesmo se a declaração parece pouco justificada, será preciso satisfazer com firmeza e lealdade as suas obrigações militares, mas será necessário que nunca se leve ao ardor de cair por amor ao presente (as terras irredentas), em contradição com as aspirações de amanhã»[5].
O proletariado, segundo o socialismo ufficiale, não devia ter outra política que aquela que «a firmeza e o patriotismo de Quintino tinham feito adotar em 1870: a neutralidade»[6].
A maneira como era interpretada pelo intelectualismo socialista e liberal, o neutralismo pangermânico deu azo a que o povo se fizesse na sua maioria uma ideia negativa e pacífica do sacro egoismo proclamado por Salandra.
No Piemonte o La Stampa, nas regiões napolitanas o Il Mattino, e, na Sicília, quase todos os jornais espalharam o princípio da não-intervenção.
Duas correntes extremistas viram sempre o caminho mais lógico para as suas ideias em jogo no conflito europeu. Uma, o socialismo, coerente consigo próprio, ajuizou naturalmente que o interesse das suas ideias estava no mesmo lado daqueles que combatiam o império germânico, Marx e Guilherme II, Shiedman e Bethmann-Holweg.
A outra corrente era a Idea Nazionale, com Enrico Corradini, que afirmou assim, mais uma vez, como o Nacionalismo era o único critério por onde marchavam juntos o interesse da pátria e da civilização europeia.
Papini e Prezzelini foram os pugnadores idealistas da intervenção preconiza-da do reformismo dentro da elite intelectual; a formação juvenil do Senhor Salve-lino, L'Unità, com Corradini e Federzoni, unia os representantes do irredentismo nacional dentro dessa mesma admirável elite[7].
Era Corradini quem dizia em Roma, a 25 de Fevereiro de 1915:
“A Venetia Julianna, a Dalmácia e as ilhas Dálmatas não são somente elementos do nosso sentimento nacional; são outra coisa: primeiro, as bases de defesa para o nosso território nacional; em segundo lugar, as bases da nossa soberania no Adriático; em terceiro lugar, as bases da nossa expansão económica e da nossa influência política na península balcânica e, em quarto lugar, constituem a bacia onde a Itália pode ir desembocar, todo-poderosa, no Mediterrâneo oriental..."
Assim, pois, o nacionalismo integral tinha na Itália, como em França, a noção antecipada dos interesses nacionais. A guerra aparecia assim como uma necessidade imperiosa que o sacrifício pela terra marcava numa fatalidade amarga das leis Divinas. E só ainda o nacionalismo integral pôde abstrair das fórmulas político-constitucionais da engrenagem liberal-democrata e impor a vontade latente da Nação por sobre o interesse mesquinho das facções.
*
A certeza da impossibilidade de um acordo com a Áustria, essa fórmula giolittina do «parechio», a presença do Rei no Quarto onde se festejava, pela voz do povo e de d'Annunzio, a epopeia dos MIL, e onde o sentimento nacional espontaneamente vibrava no ar aquecido de mil desejos de sacrifício e de esperança patriótica; foi o segundo e decisivo passo na luta pela terra irredenta.
Assim o viram e sentiram os partidos inimigos, que, com o socialismo à frente, quiseram então jogar a última cartada da intervenção.
Aqui, pois, como em toda a parte, o monopólio parlamentar contradisse o interesse nacional.
Foi preciso que, por cima do velho jogo político liberal, se erguesse a onda heróica da alma nacional a impor o seu comando imanente e eterno, indicando o caminho glorioso da batalha. O Monte Citorio foi invadido pela violência popular.
D'Annunzio e o neo-nacionalismo da Idea Nazionale foram os condutores sagrados do espírito e da inteligência da nação. D'Annunzio, qual novo Cadurci, foi o poeta da guerra. Diante da sinceridade e do entusiasmo das manifestações patrióticas da juventude guerreira e devotada de Roma, de Milão, de Florença e de tantos outros pontos de Itália que aclamavam a guerra, o Rei pôde impor a sua soberania salvadora.
Salandra não caiu, antes se abalançou a uma ditadura que havia de conduzir os primeiros passos da intervenção italiana.
No entanto, Von Bülov jogava ainda a batalha diplomática. Giolitti foi chamado a Roma e pelos ofícios do enviado de Berlim lançado como o último trunfo, quase desesperado. Este político italiano, encarnação completa do parlamentar liberal, inerte e pernicioso, procurou o chefe do governo patriota para inutilizar a sua acção rebelde no parlamento.
Salandra recebeu Giolitti e logo os órgãos neutralistas julgam Giolitti chefe da situação. O La Tribuna, o La Stampa, o Avanti!, o Corriere d'Italia, o Osservatore Romano, porta-palavra dos vários partidos e nuances neutralistas, cantam a sua admiração pelo salvador de Itália. Em 12, 300 deputados levam o seu cartão à casa de Giolitti e, nessa noite mesma, o La Tribuna publicava uma carta do «Ditador», onde se afirmava de novo a sua convicção neutralista. Em 13, o ministro Salandra estava demissionário. Giolitti mostra assim a sua atividade em voltar ao poder nesta sucessão dos acontecimentos.
Salandra, habilmente dando a sua demissão, foge à derrota que era segura no parlamento e põe a questão diante do país onde era sustentado por uma minoria ativa.
Manifestações formidáveis se sucederam então nas ruas de Roma, aclamando a política intervencionista. A violência dos manifestantes chegou ao cúmulo. O próprio Corriere della Sera tomou uma atitude quase revolucionária com artigos comovedores e enérgicos.
Fazendo coro com os apelos à insurreição do Idea Nazionale, do Il Secolo e do Il Popolo d'Italia, a voz do representante da burguesia liberal fazia uma impressão profunda.
A sessão do Senado de 20 de Março, em que foram votados os créditos militares e económicos, foi um passo agigantado para a intervenção italiana.
Soninno chegou assim à certeza da impossibilidade de um acordo com a Áustria, e a guerra foi um facto.
Mas - e é este o facto capital a tirar das lições da avant-guerre italiana - se, pois, a intervenção da Itália se deu contra o germanismo, no estado bem personificado do militarismo e do autoritarismo na sua luta contra os povos Latinos, foi a despeito e contra a tenaz e enérgica campanha do socialismo ufficiale que, ainda depois[8] de a intervenção ser um facto, publicava, a 22 de Maio de 1915, um manifesto às classes operárias em que se gritava «abaixo a guerra», «Viva o socialismo! Viva a Internacional».
Depois, a ação desta pacotilha de traidores à nação italiana nunca desobedece aos altos planos da Sozial Demokratie alemã que lhes paga.
A mais ignóbil campanha derrotista é assim alimentada pela imprensa do partido. Os reveses dos aliados e os das próprias armas italianas eram miseravelmente especulados para desmoralizar a opinião do país[9].
Depois são as manobras para reconstruir a «Internacional»; já em Julho de 1915 Ciccotti lançava na Critica Sociale a ideia dessa restauração. E o socialismo italiano oficial, que sempre se recusara a trabalhar com os socialistas da entente que pretendia defender-se do socialismo pangermanizante inspirado de Berlim, foi quem de boa vontade promoveu a conversa de Lugano, ele e os socialistas marxistas suíços, assim como a reunião de Zimmerwald.
Armuzzi, Lazzari, Modigliani, Morgari, Grati, Turati e a senhora Maláfanovi; tais eram já os que, da parte do socialismo italiano, promoviam, em 27 de Setembro de 1914, a conversa de Lugano com os socialistas suíços.
Grenlich, Allisser, Ferri, Grimm, Schenthel, Pllugem e Rimathe tentavam desde logo reatar a Internacional marxista.
Modigliani e Costantino Lazzari são os comparsas da Internacional de Zimmerwald onde «se acordou que o seu papel seria [o] de chamar o proletariado a uma acção comum para a paz, de criar um centro de acção e de procurar reconduzir a classe operária à sua missão histórica».
Decidiu-se enviar convites segundo as condições estabelecidas pelo comité diretor do Partido Socialista Italiano.
Treves fez larga apologia dos zimmerwaldianos no seio do próprio parlamento.
A sua audácia pró-Alemanha foi sem limites. Assim, a Idea Nazionale, de 23 de Fevereiro de 1916, lhes chamou clientes de Sudekum, o social-democrata enviado por Berlim à Itália fazer o pangermanismo marxista.
Depois de Zimmerwald, Kienthal foi ainda outra etapa da traição do socialismo italiano. Os deputados Morgari, Grampolini, Modigliani, Musotte e o director do Avanti!, Serrati, aí foram ainda vender a sua nação em guerra contra o militarismo alemão.
-------------------------------
[1] Foi no congresso de Reggio Emilia que se deu a cisão reformista. Os reformistas tinham por órgão na imprensa um semanário, o Azione Socialista.
[2] Nouvelle Librairie Nationale, Paris, 1916.
[3] Os campos, isto é, quatro quintas partes de Itália, são quase unânimes contra a guerra. E talvez não seja inútil recordar que são os campos que devem dar as quatro quintas partes dos soldados e dos meios necessários à condução da guerra. M. Maggiorino Fenais - no seu pseudónimo de Victor - Nuova Antologia, 16, Março de 1915.
[4] Na ordem do dia votada no congresso de Florença (Janeiro de 1915), o socialismo ufficiale, sob o pretexto [de] que a guerra tinha nascido do simples conflito de interesses financeiros, afirmou de novo a sua vontade neutralista e falou, em caso de mobilização ordenada pelo governo, «da irresistível explosão popular e das graves consequências que a miséria e o espírito de revolta provocariam no futuro».
[5] (Antonio) Graziadei - Idealità socialiste e interessi nazionali nel conflitto europeo (pág. 18). [Roma, Athenaeum, 1915].
[6] Victor «I Problemi interni ed i problemi internazionali» (in Nuova Antologia), Abril de 1915.
[7] «Trieste e a Dalmácia são o nó do problema de expansão italiana». Enrico Corradini, L'Italia e la Guerra, Firenze, 1915.
[8] O jornal La Nazione relata que em Galluzzo, perto de Florença, um grupo de estudantes que gritava «viva a Itália, viva Trieste italiana» foi atacado à pedra e à paulada por um grupo de operários que acusavam os estudantes de serem «provocadores».
[9] Cicotti escreve na Critica Sociale: «A França está no extremo dos seus recursos em homens. Perdeu já metade dos efectivos... Quem visite a Alemanha tem depressa a impressão que se encontra num país submetido a um esforço colossal, mas do qual não se ressente.»
Como nos outros países da Europa socialista, na Itália duas correntes de maior importância dividiam o campo dos que assaltam a barricada. Desde 1912[1] que Bissolati, deixando o Avanti aos marxistas que são o grosso do partido, organizou o reformismo italiano. Do mesmo golpe, porém, alienou a sua influência dentro da Internacional, que passou toda a Treves e a Turati e seus camaradas do socialismo-ufficiale. Toda a ação da Internacional na Itália se passa então em volta da secção marxista, a despeito do futuro cisma de Mussolini com o seu Popolo d'Italia.
Em 1915, a regra estabelecida não falhou também aqui; marxista e revolucionário, o seu jogo foi o jogo da sozial Demokratie pangermanista. De lá partiram todas as tentativas para reconstruir a Internacional morta em 1914. A eles, aos socialistas ufficiali, cabe a iniciativa das manobras de Lugano e Zimmerwald. Bons serviços lhe deve a Germânia que, de resto, não foram mais que o fruto necessário de uma enorme e cuidadosa sementeira.
Julgamos útil, para se ter uma mais perfeita impressão desta ação germanizante da Revolução que nos vinha da Alemanha, não a separar do meio em que os acontecimentos se desenrolaram de 1915 em diante. As condições intelectuais e políticas da Itália, no momento da sua intervenção, ajudar-nos-ão a melhor entender o crime da Democracia contra a latinidade e em favor do germanismo, especulador atento dos seus vícios e taras efetivas.
É assim que, mercê da derrocada que a democracia foi para a nossa cultura latina, destruindo as razões da eterna Inteligência meridional, o campo fica aberto e livre para todos os empreendimentos do germanismo. Na estagnação em que o Estado democratizado deixou perder a indústria e o fomento das nações latinas, esmagando a iniciativa na mó formidável do politiquismo, fácil foi o triunfo da hegemonia alemã sobre os nossos produtos a si próprios abandonados.
Na Itália, esta germanização tinha tomado, principalmente nos últimos anos anteriores à guerra, um incremento apavorante.
Esse grande crime democrata que conduziu a Raça a renegar-se a si própria, tão bem provado na esplêndida síntese maurrasiana - Quand les français ne s'aimaient pas[2] -, não foi naturalmente menor, nem menos acentuado, no país de Garibaldi.
Havia já muito tempo que nos meios cultivados a cultura germânica tinha a influência decisiva. Berlim suplantara o prestígio da inteligência latina e Paris tinha sido desertada pelas camadas escolares italianas. De preferência, as universidades alemãs eram os centros intelectuais para onde se dirigia a mocidade na ânsia do conhecimento profundo e íntegro, que era fama ser vago e superficial nos meios culturais franceses.
Depois, a paciência e a minudência dos detalhes, que a alta cultura germânica punha no estudo do passado; Roma artística, intelectual e civilizadora — e a vida da inteligência romana, veneziana e toscana - criou uma atmosfera de simpatia pela erudição alemã, em detrimento do pensamento latino que facilmente serviu de fator valioso nas mãos da propaganda pangermanista na Itália.
Da mesma sorte, nos meios financeiros da Itália a Germânia ganhava terreno com o seu método e a sua persistência costumada, tão diferente da inconstância e da falta de ideias largas, apanágio inglório da Democracia, senhora dos destinos dos países latinos.
Assim, era notório que a Banca Commerciale devia imenso aos bancos alemães, que desta forma introduziam a sua influência no seio da indústria nacional, nomeadamente nos altos-fornos e fundições de aço de Terni, na fábrica de canhões de Vickers, de Spezzia, nos estabelecimentos metalúrgicos de Savona e da ilha de Elba.
O desenvolvimento económico da Itália passou a ser paralelo à expansão económica alemã em país italiano, função uma da outra, resultantes quase.
A Banca Commerciale, inteiramente nas mãos da propaganda comercial germânica e senhora de bons trunfos da política nacional, monopolizou a breve trecho toda a política económica da península.
Ao romper da guerra europeia, na alta finança e na grande indústria encontrou pois a Alemanha o melhor apoio para a sua campanha de neutralidade, em contraposição com os esforços dobrados dos aliados em lançar a Itália na guerra a seu lado. A cultura italiana favorecia também, naturalmente, esta simpatia dos meios industriais e financeiros.
Foi tremenda e extenuante a maneira como essa propaganda pró-neutralismo italiano foi conduzida pela mão do pangermanismo. De tudo se serviu, todos os campos foram bem explorados e estudados para deles tirar o máximo proveito. A política alemã tinha, de resto, um grande aliado na Itália; eram as circunstâncias excepcionais da política italiana de então.
O pacto Giolittini, ou seja, a aliança liberal-católica de Giolitti, tinha dado uma maioria colossal ao ministério deste estadista. Esta maioria, coligação absolutamente senhora do parlamento italiano, era o mais contrária, por natureza intrínseca, à política dos aliados. Os católicos odiavam a França maçonizada e democratizada, ao mesmo tempo que Giolitti, que o fazia pelas suas attaches particulares com von Bülov e as das forças partidárias que capitaneava com a alta finança alemã, cujos interesses eram comuns.
A propaganda de Giolitti era nos meios industriais, enquanto a propaganda dos católicos se fazia nos campos[3].
Diante de tal estado de coisas, que vão fazer os socialistas? Do lado da Alemanha imperialista e autocrata estão os burgueses da alta finança, os clericais e a politicalha de Giolitti, o socialismo pela mão de Treves-Turati não devia hesitar em colher o caminho mais em contrário a essa camarilha financeira; pois é exatamente outro o escolhido. Desde logo, a política da sozialdemokrazia italiana foi germanófila; primeiro neutralista, e, depois, francamente anti-aliados.
Quando o socialismo germânico, pondo de parte todos os princípios da 2.ª Internacional, se mostrava mais imperialista que o próprio governo alemão, o cuidado exclusivo do socialismo italiano era de manter a ortodoxia teórica dessa Internacional.
«Per la pace e per l'Internazionale», foi a fórmula com que se encobriram as mais desenfreadas manobras pangermanistas.
O chanceler alemão despacha-lhes o socialista Sudekum para que nada se perdesse da manobra.
Logo a influência deste se sentiu no Avanti!, que breve trouxe o manifesto da direcção do partido, convidando o proletariado a acentuar a sua oposição irredutível à guerra?[4]. Ferrari, Turati, Treves invocavam repetidamente os argumentos da má situação financeira e económica da Itália e gritavam o natural e sucessivo aumento de impostos, encarecimento da vida e redução de salários que a guerra trazia, e isto só para se tentar realizar «aspirações fantásticas», o sonho «vazio de conteúdo» da Itália, «grande potência balcânica». Este propósito dos nacionalistas era assim julgado por Graziadei: «As mesmas razões que levam os nacionalistas a desejá-la (à guerra) como um acontecimento feliz e salutar, para o povo lha tornam odiosa», e, «uma vez a guerra declarada, e mesmo se a declaração parece pouco justificada, será preciso satisfazer com firmeza e lealdade as suas obrigações militares, mas será necessário que nunca se leve ao ardor de cair por amor ao presente (as terras irredentas), em contradição com as aspirações de amanhã»[5].
O proletariado, segundo o socialismo ufficiale, não devia ter outra política que aquela que «a firmeza e o patriotismo de Quintino tinham feito adotar em 1870: a neutralidade»[6].
A maneira como era interpretada pelo intelectualismo socialista e liberal, o neutralismo pangermânico deu azo a que o povo se fizesse na sua maioria uma ideia negativa e pacífica do sacro egoismo proclamado por Salandra.
No Piemonte o La Stampa, nas regiões napolitanas o Il Mattino, e, na Sicília, quase todos os jornais espalharam o princípio da não-intervenção.
Duas correntes extremistas viram sempre o caminho mais lógico para as suas ideias em jogo no conflito europeu. Uma, o socialismo, coerente consigo próprio, ajuizou naturalmente que o interesse das suas ideias estava no mesmo lado daqueles que combatiam o império germânico, Marx e Guilherme II, Shiedman e Bethmann-Holweg.
A outra corrente era a Idea Nazionale, com Enrico Corradini, que afirmou assim, mais uma vez, como o Nacionalismo era o único critério por onde marchavam juntos o interesse da pátria e da civilização europeia.
Papini e Prezzelini foram os pugnadores idealistas da intervenção preconiza-da do reformismo dentro da elite intelectual; a formação juvenil do Senhor Salve-lino, L'Unità, com Corradini e Federzoni, unia os representantes do irredentismo nacional dentro dessa mesma admirável elite[7].
Era Corradini quem dizia em Roma, a 25 de Fevereiro de 1915:
“A Venetia Julianna, a Dalmácia e as ilhas Dálmatas não são somente elementos do nosso sentimento nacional; são outra coisa: primeiro, as bases de defesa para o nosso território nacional; em segundo lugar, as bases da nossa soberania no Adriático; em terceiro lugar, as bases da nossa expansão económica e da nossa influência política na península balcânica e, em quarto lugar, constituem a bacia onde a Itália pode ir desembocar, todo-poderosa, no Mediterrâneo oriental..."
Assim, pois, o nacionalismo integral tinha na Itália, como em França, a noção antecipada dos interesses nacionais. A guerra aparecia assim como uma necessidade imperiosa que o sacrifício pela terra marcava numa fatalidade amarga das leis Divinas. E só ainda o nacionalismo integral pôde abstrair das fórmulas político-constitucionais da engrenagem liberal-democrata e impor a vontade latente da Nação por sobre o interesse mesquinho das facções.
*
A certeza da impossibilidade de um acordo com a Áustria, essa fórmula giolittina do «parechio», a presença do Rei no Quarto onde se festejava, pela voz do povo e de d'Annunzio, a epopeia dos MIL, e onde o sentimento nacional espontaneamente vibrava no ar aquecido de mil desejos de sacrifício e de esperança patriótica; foi o segundo e decisivo passo na luta pela terra irredenta.
Assim o viram e sentiram os partidos inimigos, que, com o socialismo à frente, quiseram então jogar a última cartada da intervenção.
Aqui, pois, como em toda a parte, o monopólio parlamentar contradisse o interesse nacional.
Foi preciso que, por cima do velho jogo político liberal, se erguesse a onda heróica da alma nacional a impor o seu comando imanente e eterno, indicando o caminho glorioso da batalha. O Monte Citorio foi invadido pela violência popular.
D'Annunzio e o neo-nacionalismo da Idea Nazionale foram os condutores sagrados do espírito e da inteligência da nação. D'Annunzio, qual novo Cadurci, foi o poeta da guerra. Diante da sinceridade e do entusiasmo das manifestações patrióticas da juventude guerreira e devotada de Roma, de Milão, de Florença e de tantos outros pontos de Itália que aclamavam a guerra, o Rei pôde impor a sua soberania salvadora.
Salandra não caiu, antes se abalançou a uma ditadura que havia de conduzir os primeiros passos da intervenção italiana.
No entanto, Von Bülov jogava ainda a batalha diplomática. Giolitti foi chamado a Roma e pelos ofícios do enviado de Berlim lançado como o último trunfo, quase desesperado. Este político italiano, encarnação completa do parlamentar liberal, inerte e pernicioso, procurou o chefe do governo patriota para inutilizar a sua acção rebelde no parlamento.
Salandra recebeu Giolitti e logo os órgãos neutralistas julgam Giolitti chefe da situação. O La Tribuna, o La Stampa, o Avanti!, o Corriere d'Italia, o Osservatore Romano, porta-palavra dos vários partidos e nuances neutralistas, cantam a sua admiração pelo salvador de Itália. Em 12, 300 deputados levam o seu cartão à casa de Giolitti e, nessa noite mesma, o La Tribuna publicava uma carta do «Ditador», onde se afirmava de novo a sua convicção neutralista. Em 13, o ministro Salandra estava demissionário. Giolitti mostra assim a sua atividade em voltar ao poder nesta sucessão dos acontecimentos.
Salandra, habilmente dando a sua demissão, foge à derrota que era segura no parlamento e põe a questão diante do país onde era sustentado por uma minoria ativa.
Manifestações formidáveis se sucederam então nas ruas de Roma, aclamando a política intervencionista. A violência dos manifestantes chegou ao cúmulo. O próprio Corriere della Sera tomou uma atitude quase revolucionária com artigos comovedores e enérgicos.
Fazendo coro com os apelos à insurreição do Idea Nazionale, do Il Secolo e do Il Popolo d'Italia, a voz do representante da burguesia liberal fazia uma impressão profunda.
A sessão do Senado de 20 de Março, em que foram votados os créditos militares e económicos, foi um passo agigantado para a intervenção italiana.
Soninno chegou assim à certeza da impossibilidade de um acordo com a Áustria, e a guerra foi um facto.
Mas - e é este o facto capital a tirar das lições da avant-guerre italiana - se, pois, a intervenção da Itália se deu contra o germanismo, no estado bem personificado do militarismo e do autoritarismo na sua luta contra os povos Latinos, foi a despeito e contra a tenaz e enérgica campanha do socialismo ufficiale que, ainda depois[8] de a intervenção ser um facto, publicava, a 22 de Maio de 1915, um manifesto às classes operárias em que se gritava «abaixo a guerra», «Viva o socialismo! Viva a Internacional».
Depois, a ação desta pacotilha de traidores à nação italiana nunca desobedece aos altos planos da Sozial Demokratie alemã que lhes paga.
A mais ignóbil campanha derrotista é assim alimentada pela imprensa do partido. Os reveses dos aliados e os das próprias armas italianas eram miseravelmente especulados para desmoralizar a opinião do país[9].
Depois são as manobras para reconstruir a «Internacional»; já em Julho de 1915 Ciccotti lançava na Critica Sociale a ideia dessa restauração. E o socialismo italiano oficial, que sempre se recusara a trabalhar com os socialistas da entente que pretendia defender-se do socialismo pangermanizante inspirado de Berlim, foi quem de boa vontade promoveu a conversa de Lugano, ele e os socialistas marxistas suíços, assim como a reunião de Zimmerwald.
Armuzzi, Lazzari, Modigliani, Morgari, Grati, Turati e a senhora Maláfanovi; tais eram já os que, da parte do socialismo italiano, promoviam, em 27 de Setembro de 1914, a conversa de Lugano com os socialistas suíços.
Grenlich, Allisser, Ferri, Grimm, Schenthel, Pllugem e Rimathe tentavam desde logo reatar a Internacional marxista.
Modigliani e Costantino Lazzari são os comparsas da Internacional de Zimmerwald onde «se acordou que o seu papel seria [o] de chamar o proletariado a uma acção comum para a paz, de criar um centro de acção e de procurar reconduzir a classe operária à sua missão histórica».
Decidiu-se enviar convites segundo as condições estabelecidas pelo comité diretor do Partido Socialista Italiano.
Treves fez larga apologia dos zimmerwaldianos no seio do próprio parlamento.
A sua audácia pró-Alemanha foi sem limites. Assim, a Idea Nazionale, de 23 de Fevereiro de 1916, lhes chamou clientes de Sudekum, o social-democrata enviado por Berlim à Itália fazer o pangermanismo marxista.
Depois de Zimmerwald, Kienthal foi ainda outra etapa da traição do socialismo italiano. Os deputados Morgari, Grampolini, Modigliani, Musotte e o director do Avanti!, Serrati, aí foram ainda vender a sua nação em guerra contra o militarismo alemão.
-------------------------------
[1] Foi no congresso de Reggio Emilia que se deu a cisão reformista. Os reformistas tinham por órgão na imprensa um semanário, o Azione Socialista.
[2] Nouvelle Librairie Nationale, Paris, 1916.
[3] Os campos, isto é, quatro quintas partes de Itália, são quase unânimes contra a guerra. E talvez não seja inútil recordar que são os campos que devem dar as quatro quintas partes dos soldados e dos meios necessários à condução da guerra. M. Maggiorino Fenais - no seu pseudónimo de Victor - Nuova Antologia, 16, Março de 1915.
[4] Na ordem do dia votada no congresso de Florença (Janeiro de 1915), o socialismo ufficiale, sob o pretexto [de] que a guerra tinha nascido do simples conflito de interesses financeiros, afirmou de novo a sua vontade neutralista e falou, em caso de mobilização ordenada pelo governo, «da irresistível explosão popular e das graves consequências que a miséria e o espírito de revolta provocariam no futuro».
[5] (Antonio) Graziadei - Idealità socialiste e interessi nazionali nel conflitto europeo (pág. 18). [Roma, Athenaeum, 1915].
[6] Victor «I Problemi interni ed i problemi internazionali» (in Nuova Antologia), Abril de 1915.
[7] «Trieste e a Dalmácia são o nó do problema de expansão italiana». Enrico Corradini, L'Italia e la Guerra, Firenze, 1915.
[8] O jornal La Nazione relata que em Galluzzo, perto de Florença, um grupo de estudantes que gritava «viva a Itália, viva Trieste italiana» foi atacado à pedra e à paulada por um grupo de operários que acusavam os estudantes de serem «provocadores».
[9] Cicotti escreve na Critica Sociale: «A França está no extremo dos seus recursos em homens. Perdeu já metade dos efectivos... Quem visite a Alemanha tem depressa a impressão que se encontra num país submetido a um esforço colossal, mas do qual não se ressente.»
APONTAMENTOS SOBRE "OS SOCIALISTAS ITALIANOS"
Este texto de Rolão Preto é uma fonte histórica e um documento de combate político, mobilizando factos da história do socialismo italiano, da neutralidade italiana e das conferências socialistas internacionais.
No início da década de 1910, o Partido Socialista Italiano encontrava-se dividido entre tendências reformistas, revolucionárias e maximalistas. A expulsão de Leonida Bissolati e de outros reformistas em 1912 contribuiu para enfraquecer a corrente reformista dentro do partido e reforçar o peso das orientações mais intransigentes. Benito Mussolini situava-se no interior do socialismo revolucionário antes da guerra: em 1914, rompeu com a linha neutralista do PSI, foi afastado do Avanti!, defendeu a intervenção italiana e fundou Il Popolo d’Italia. A posição oficial do PSI durante o conflito permaneceu, em termos gerais, neutralista e pacifista, sendo frequentemente associada à fórmula “né aderire né sabotare”.
A cronologia das iniciativas socialistas internacionais foi a seguinte:
Em 27 de Setembro de 1914, antes da entrada da Itália na guerra, deu-se a reunião de Lugano envolvendo representantes socialistas italianos e suíços.
A Conferência de Zimmerwald realizou-se entre 5 e 8 de setembro de 1915, já depois da intervenção italiana, reunindo socialistas contrários à guerra de diferentes países. Entre os participantes ligados ao socialismo italiano destacam-se Costantino Lazzari, Giuseppe Emanuele Modigliani, Oddino Morgari, Angelica Balabanoff e Giacinto Menotti Serrati. Kienthal, frequentemente designada Segunda Conferência de Zimmerwald, decorreu de 24 a 30 de abril de 1916 e contou também com participação italiana, incluindo Morgari, Lazzari, Modigliani, Serrati, Prampolini e outros representantes do PSI.
Rolão Preto relaciona corretamente o PSI com a reconstrução de uma rede socialista internacional antibélica e interpreta essa rede como instrumento da política alemã. A leitura historiográfica dominante tende a enquadrá-la no internacionalismo socialista contra a guerra.
Pontos polémicos
Algumas afirmações do texto são polémicas. A ideia de que Bissolati “deixou o Avanti! aos marxistas” dá conta de uma evolução partidária prolongada como uma relação de causa e efeito. Bissolati tinha desempenhado funções relevantes no jornal em fases anteriores, mas a sua rutura com o PSI pode também ser compreendida no contexto da crise aberta pelo reformismo, pela guerra da Líbia e pela aproximação de alguns socialistas reformistas à monarquia. A caracterização do socialismo oficial como “pangermanista” constitui o cerne da interpretação política de Rolão Preto. O neutralismo dos socialistas italianos foi por eles explicado como expressão de coerência internacionalista e antibelicista, ainda que, no plano diplomático, coincidisse com os interesses das Potências Centrais. A passagem de “neutralismo” a “derrotismo” constitui a acusação política de Rolão Preto.
A crise intervencionista italiana de maio de 1915
A descrição da crise de maio de 1915 é reconhecível. Giolitti representava uma corrente parlamentar neutralista significativa e defendia que a Itália poderia obter compensações territoriais da Áustria-Hungria sem entrar no conflito. Salandra e Sonnino, pelo contrário, conduziram negociações secretas com a Entente e assinaram o Pacto de Londres em abril de 1915. A crise de maio — com o regresso de Giolitti a Roma, a demissão temporária de Salandra, as manifestações intervencionistas e a acção decisiva do rei Vítor Emanuel III — abriu caminho à entrada da Itália na guerra. Rolão Preto lê esse complexo processo institucional e diplomático como uma oposição moral entre “nação” e “parlamento”, recusando consistência à maioria parlamentar neutralista.
Problemas de identificação e grafia de nomes próprios
O texto apresenta problemas de identificação onomástica, provavelmente resultantes de erros de transcrição, de adaptações portuguesas ou de leitura imperfeita de nomes estrangeiros. Entre os socialistas suíços associados à reunião de Lugano, formas como “Grenlich”, “Allisser”, “Schenthel”, “Pllugem” ou “Rimathe” devem ser confrontadas com os nomes Hermann Greulich, Josef Albisser, Hans Schenkel, Paul Pflüger e Anton Rimathé. Entre os nomes italianos, “Maláfanovi” parece corresponder a Angelica Balabanoff; “Grampolini” deverá corresponder a Camillo Prampolini; e “Musotte” é provavelmente Elia Musatti. Estes casos justificam uma revisão crítica das listas de participantes e recomendam a consulta de fontes especializadas antes da fixação definitiva dos nomes em citações ou numa edição anotada.
Síntese
Impõe-se reter a cronologia essencial: cisão socialista de 1912; neutralismo do PSI em 1914-1915; intervenção italiana em maio de 1915; Zimmerwald em setembro de 1915; e Kienthal em abril de 1916.
Rolão Preto escrevia em 1920. Em Portugal, o Integralismo Lusitano colaborara com a tentativa de uma República Nova protagonizada pelo presidente Sidónio Pais. Assassinado o presidente, os integralistas abandonam o reformismo, desligam-se da obediência a D. Manuel II após o fracasso da Monarquia do Norte e entram decididamente na via revolucionária contra a ditadura do Partido Democrático.
Em Itália, vivia-se a crise social e política do Biénio Rosso (1919-1920) - um período de intensa agitação social inspirada pela Revolução bolchevique na Russia que levou à ocupação de fábricas e de terras - antecâmara da ascensão do fascismo ao poder em 1922. O medo de uma revolução comunista iminente levou a burguesia industrial, os grandes proprietários de terras e a classe média a apoiarem Benito Mussolini e os seus Fasci di Combattimento como uma força de choque para restaurar a ordem.
A leitura pós-bélica de Rolão Preto vê no socialismo italiano um instrumento pangermanista durante a guerra. A importância desta leitura está na interpretação política desses acontecimentos à luz do imediato pós-guerra, da crise revolucionária europeia e da disputa entre nacionalismo e socialismo internacionalista.
29.06.2026
J.M.Q.
II
Os radicais ingleses e a guerra
RESUMO
Apresenta a posição dos radicais ingleses, socialistas e sindicalistas diante da guerra, com ênfase nas críticas ao intervencionismo e ao serviço militar obrigatório. Também aborda as tensões entre a defesa das liberdades individuais e de classe e as exigências de organização, disciplina e mobilização do Estado durante o conflito.
Pontos-chave
Pontos-chave
- Interpreta a guerra como momento de crise do liberalismo inglês e da antiga confiança no individualismo político.
- A mobilização nacional é apresentada como exigência de disciplina, coordenação e subordinação dos indivíduos aos fins do Estado.
- Radicais, socialistas e sindicalistas são descritos como opositores iniciais ao intervencionismo e ao serviço militar obrigatório.
- A oposição ao serviço militar obrigatório é associada à defesa das liberdades individuais, das prerrogativas sindicais e dos interesses de classe.
- A crise das munições e a suspensão de certos direitos das Trade Unions surgem como pontos centrais do conflito entre governo e movimento operário.
- Contrapõe voluntariado e conscrição, apresentando a conscrição como resposta às necessidades militares da guerra.
- A atuação dos radicais e socialistas é interpretada como fator de fragilização da resposta britânica ao militarismo alemão.
- A opinião pública é descrita como tendo evoluído para aceitar a intervenção do Estado e a exigência de esforços nacionais em nome da defesa.
- A conclusão é que a guerra transformou profundamente a Inglaterra, enfraquecendo a fórmula liberal live and let live.
II
Os radicais ingleses e a guerra
II
Os radicais ingleses e a guerra
Aquando do telegrama do Times, tocou a rebate na consciência pacifista e liberalista da velha Inglaterra, foi toda uma derrocada da velha concepção parlamentar e constitucional do regime. Viu-se então como era falsa a egoísta teoria do esplêndido isolamento com que o Liberalismo procurava adormecer as virtudes da raça.
Perante o chamamento da solidariedade europeia, os dirigentes da política nacional foram forçados a mobilizar todas as energias ancestrais do povo para os dirigir na defesa da Nação. Foi preciso, então, organizar, primeiro que tudo, a opinião pública, coisa indispensável em Democracia, onde o Estado é desprovido de prestígio e de autoridade, que carecem.
A comoção produzida pelas notícias da guerra alvoroçou profundamente a alma nacional; diante da realidade da luta, começava a sentir-se a necessidade da ordem, da disciplina; verdades eternas que, através da inteligência restaurada, rebrilhavam numa intensa luz, na retina exaltada da mística patriótica.
A nação inglesa - cuja dinâmica política se limitava ao jogo restrito das facções e onde a tirania de um partido batalhava contra a rebeldia do outro partido, numa incessante rotina - tinha perdido o norte da sua orientação clássica.
O mal estava sobretudo, então se viu, nos costumes fundamentais da sociedade inglesa.
Naquelas circunstâncias graves, apareceu bem claro que o indivíduo não podia ser livre, conforme o critério e o conceito liberalista marcara na utopia anárquica dos seus direitos - mas antes - que ele deveria servir no lugar que uma competente autoridade soberana lhe indicasse. O país teve que mudar o sistema da sua vida corrente.
Não era esperar os golpes da fortuna para depois os aparar e responder; é preciso preveni-los de antemão. Tal o sentido amargo das palavras de Demóstenes, quando se queixava da Democracia, cujos males punham à borda do abismo os povos da Grécia. Contrariando a marcha liberalista e democrata da Inglaterra, outra Inglaterra nasceu onde «coordenação, disciplina, integração dos indivíduos num sistema orientado pelo Estado para os fins nacionais, submissão de cada um aos seus fins», realizavam uma nova ordem[1].
Como se verificou nos outros países em guerra, foram exatamente os partidos, ditos mais avançados - os socialistas - que deviam ser os primeiros a favorecer a guerra contra o militarismo alemão, que primeiro contrariaram a ação governativa do gabinete inglês.
Os radicais ingleses, de começo, não acreditavam na guerra; pacifistas impenitentes, todos opostos à obrigação militar: operários, socialistas e sindicalistas, todos são unânimes em combater a política intervencionista.
Zelosos em defender as prerrogativas das suas Trade Unions, punham o seu conceito de liberdade acima do interesse da civilização europeia comprometida pelo germanismo. Logo a seguir ao escândalo das munições, os chefes operários Roberts, Ben Tillett e John Hodge criam o Comité Socialista de Defesa Nacional, hostil ao princípio da obrigação militar. Era em nome da felicidade de uma certa classe de indivíduos que eles destruíam a felicidade das outras classes que são a maioria da nação. Para impedir a guerra fora das fronteiras, estabeleciam a guerra intestina, conduzida pelos sindicatos revolucionários contra os burgueses que o socialismo de origem continental lhes apontava como inimigos naturais.
O seu patriotismo tinha uma significação restrita e limitada, resumindo-se ao interesse da classe em guerra com as outras classes. É curioso que eles, incompatíveis com toda a disciplina nacional, julgassem necessária e justa toda a organização e toda a tirania dos comités diretores para as forças revolucionárias. A concepção revolucionária indicava a direção a seguir pelos chefes «trabalhistas», para quem a fase burguesa atual da sociedade não era senão «a péssima fase» onde os patrões e os capitalistas junkers não tinham outro intuito senão realizar fabulosos lucros à conta da militarização do país.
Robert Smillie, no congresso dos mineiros em Londres (de 29 de Julho), provou bem no que disse, como era esta a opinião predominante nos meios socialistas ingleses.
Em nada os atemoriza a responsabilidade em que incorrem, lançando a Inglaterra num beco sem saída e impossibilitando-a de, com os seus aliados, esmagar o militarismo alemão. Assim, por exemplo, o serviço militar obrigatório era classificado por George Lansbury como uma revolução, palavra tão horrorosa no seu conceito como para Tennyson a recordação de 1848 e para Edmund Burke a de 1790.
A sua fórmula velha era esta: «Liberdade contra o governo». O coletivismo internacional encontrou, enfim, bom campo de cultura no antigo pensamento liberalista com quem tinha estado, paradoxalmente, sempre em litígio.
O melhor argumento que o radicalismo encontrou para combater a obrigação militar era que ela «contradizia o génio do povo inglês».
Recusando sacrificar as liberdades individuais ao interesse do Estado, punham toda a atividade da vida nacional à mercê do anárquico impulso das iniciativas particulares.
Paradoxalmente também, os meneurs do operariado inglês confundiam assim, em proveito da sua tese anti-intervencionista, os preceitos anarquistas da «internacional», com os falidos mandamentos da escola de Manchester. O socialismo contradizia a sua essência doutrinária, pregando o voluntariado militar. O Independent Labour Party ia mais longe na sua irredutibilidade com o estatismo, empregando esforços extraordinários, contra a main mise do Estado, na mobilização industrial da guerra.
Viu-se então esta absurda contradição, que o é só em aparência: os conservadores pugnando pela subordinação dos cidadãos à coisa pública, pondo de parte toda a liberdade individual, ao mesmo tempo que os inimigos das atuais formas sociais lutavam pelo «deixai fazer» do velho liberalismo, eles que antes da guerra clamavam pela nacionalização de certas indústrias e pelo sacrifício do indivíduo à colectividade.
J. H. Thomas chega a anunciar no parlamento a greve geral dos caminhos-de-ferro, no caso de o serviço militar obrigatório ser decretado.
O jornal Nation afirmou mesmo, pela pena de H. W. Massingham, «que gostaria mais de ver a Inglaterra batida do que submetida ao serviço militar obrigatório».
De todos os meios se serviram os radicais ingleses para impedir a organização militar da sua nação; a Bíblia mesmo e os preceitos cristãos foram chamados a provar a solidariedade do universal socialismo pangermanista, pela boca de Sir Arthur Adlington Haworth, presidente de uma assembleia do congregacionismo inglês e do País de Gales; de um Reverendo Eves, capelão de St John's, Cambridge; de A. C. Pigou, Franklin e Goldsworthy Lowes Dickinson, professores da mesma universidade de Cambridge etc., etc.
A ninguém surpreende a mística religiosa que preside a todos os movimentos político-sociais ingleses; Ramsay MacDonald, célebre chefe trabalhista, proclamava o impulso divino que movia a corrente socialista moderna.
Assim, pelo canal marxista da Internacional veio à Alemanha a boa ajuda dos radicais ingleses[2].
Primeiro do que ninguém, eles negaram a barbárie dos atentados alemães na invasão da Bélgica e denunciaram Sir Edward Grey como um dos fatores da guerra, acusando-o de, na sua hipocrisia, «ter trabalhado no parti pris de implicar a Inglaterra na guerra, servindo-se da Bélgica como um pretexto».
E. D. Morel fundou a União de Controlo Democrático, disposta, entre outras coisas, a impedir a humilhação da Alemanha na ocasião da paz.
A maneira como os meneurs das classes operárias fez interpretar por estas o conflito europeu deu como triste resultado em que, quando a solidariedade entre as classes perante o perigo nacional devia ser maior, foi exatamente quando mais se quis envenenar o eterno litígio.
O inimigo principal e mais odioso era o patrão e o accionista que enriqueceria pelas encomendas da guerra e assim o seu empenho foi todo em atirar as classes operárias contra os patrões, não esquecendo as conquistas antigas, nem por um momento, como seria justo, em proveito do estadismo, base doutrinária do colectivismo.
A lei nova que suspendia certos direitos das Trade Unions para garantir a produção nacional foi razão para a mais violenta campanha trabalhista e radical[3].
A greve de Clyde foi uma primeira consequência.
Quando, em Junho e Julho, 60.000 mineiros do País de Gales se alistam voluntários, rebentam duas greves para coagir o governo a não lançar o serviço militar obrigatório.
O serviço militar obrigatório era assim para os operários o supremo sacrifício da sua liberdade. Os chefes socialistas e radicais esforçavam-se em demonstrar isto mesmo e em fazerem crer a desnecessidade de ela se estabelecer.
Os chefes trabalhistas fundaram o Comité Socialista de Defesa Nacional, que, com os dirigentes dos sindicatos radicais e avançados, trabalharam para que o voluntariado chegasse para as necessidades da guerra.
Mas, em 1916, na Primavera, Lloyd George punha-lhes este dilema:
«A Inglaterra precisa de 30.000 homens por semana; se os chefes socialistas querem evitar a obrigação militar, façam com que esses homens sejam fornecidos pelo voluntariado».
Hodge e Ben Tillett recomeçaram a sua propaganda para atraírem os homens, o que prova a ignorância do povo soberano sobre as necessidades presentes.
Paradoxo do princípio democrático e do regime de opinião.
O sistema de opinião, de persuasão, o sistema inglês, enfim, caiu pela base diante das realidades da luta.
Breve a opinião pública compreendeu como os princípios caros ao individualismo e à liberdade se arruinavam diante das necessidades da guerra. Diante do inimigo, o Rei e o país têm o direito de exigir, e não somente o direito moral, mas legal e constitucional, todos os esforços devidos ao serviço da sua defesa.
Contribui para esta impressão da opinião pública a propaganda que em brochuras, artigos, reclames cinematográficos, largamente se espalhou.
A Jorge V foi reconhecido o direito de decretar o serviço militar obrigatório; invocando-se para esse fim os nomes d'Allferic e de Harold, referindo-se aos Landfyrd às instituições, aos condados, aos arquivos do exército (1811) posse comitatus, a Henrique II e aos estatutos da restauração «13 e 14 cap. II», que transferiu para a coroa o direito de levantar milícias, e essa outra acta do parlamento que no tempo da rainha Vitória, em 1865 (54 e 35 Victor cap. 86.°), o suspendeu só por um ano[4] 36.
Metodicamente, a transformação inglesa foi-se operando assim no domínio das elites e dos indivíduos, até ao ponto de não mais se reconhecer na antiga fórmula - live and let live - o valor que fazia dela toda a base de um sistema.
---------------
Nota: foram normalizadas algumas grafias de nomes próprios, incluindo E. D. Morel, George Lansbury, J. H. Thomas, H. W. Massingham, Sir Arthur Adlington Haworth, A. C. Pigou e Goldsworthy Lowes Dickinson.
--------------
[1] Hyndman, Fortnightly Review, 15 de Março de 1915.
[2] A história detalhada dos manejos pangermanistas dos partidos operários ingleses não cabe decerto nos moldes restritos e, necessariamente, apoucados de um simples capítulo deste livro. Um dia ela se fará, com vagar, e então se verá como a obra de traição foi profunda e vasta da parte da secção inglesa da Segunda Internacional para com a mãe-pátria em guerra com o imperialismo germânico.
O Socialismo e o Sindicalismo ingleses não esqueceram, assim, as tradições do seu
marxismo activo e essencial.
O Independent Labour Party, à frente do qual se encontram Keir Hardie e Ramsay
MacDonald, merece todavia uma especial referência, pois que a sua acção pangermanista foi, desde o começo até final, maior e mais viva do que [a] das outras organizações socialistas e sindicais.
Ficou célebre o violento manifesto que este partido lançou contra a guerra. Entre outras coisas extraordinárias para um país empenhado na luta, como então estava a Inglaterra, o Independent Labour Party proclamava, por exemplo, que «(...) por entre o troar dos canhões, nós enviamos as nossas saudações e os protestos da nossa simpatia aos socialistas alemães.
Eles nunca cessaram de trabalhar para estabelecer boas relações entre a Alemanha e a Inglaterra. Não são, pois, nossos inimigos, mas sim amigos fiéis».
Durante todo o período da guerra, a propaganda germanizante e de entraves ao governo nacional teve no I. L. P. o melhor colo e ajuda. Todas as tentativas de aproximação internacional do socialismo de Berlim encontraram na mesma sorte um eco favorável no se10 do partido. E, se ele não foi a Zimmerwald e a Kienthoal acamaradar as minorias marxistas italianas, francesas e alemãs, foi isto simplesmente porque o governo inglês lhe não concedeu os passaportes.
[3] Evidenciou-se nessa batalha o Trade Union Rights Committee, fundado em Londres depois da lei das munições.
[4] Compulsory Service as a Principle of the Constitution. H. Blake in Nineteenth
Century, Octob., 1915.
Em todo o caso, foi preciso passar por cima da acção socialista e radical para poder fazer a guerra contra o imperialismo alemão que não escondia decerto as suas intenções de conquistar o mundo.
O maior inimigo das ideias radicais foi ainda o próprio radicalismo.
Perante o chamamento da solidariedade europeia, os dirigentes da política nacional foram forçados a mobilizar todas as energias ancestrais do povo para os dirigir na defesa da Nação. Foi preciso, então, organizar, primeiro que tudo, a opinião pública, coisa indispensável em Democracia, onde o Estado é desprovido de prestígio e de autoridade, que carecem.
A comoção produzida pelas notícias da guerra alvoroçou profundamente a alma nacional; diante da realidade da luta, começava a sentir-se a necessidade da ordem, da disciplina; verdades eternas que, através da inteligência restaurada, rebrilhavam numa intensa luz, na retina exaltada da mística patriótica.
A nação inglesa - cuja dinâmica política se limitava ao jogo restrito das facções e onde a tirania de um partido batalhava contra a rebeldia do outro partido, numa incessante rotina - tinha perdido o norte da sua orientação clássica.
O mal estava sobretudo, então se viu, nos costumes fundamentais da sociedade inglesa.
Naquelas circunstâncias graves, apareceu bem claro que o indivíduo não podia ser livre, conforme o critério e o conceito liberalista marcara na utopia anárquica dos seus direitos - mas antes - que ele deveria servir no lugar que uma competente autoridade soberana lhe indicasse. O país teve que mudar o sistema da sua vida corrente.
Não era esperar os golpes da fortuna para depois os aparar e responder; é preciso preveni-los de antemão. Tal o sentido amargo das palavras de Demóstenes, quando se queixava da Democracia, cujos males punham à borda do abismo os povos da Grécia. Contrariando a marcha liberalista e democrata da Inglaterra, outra Inglaterra nasceu onde «coordenação, disciplina, integração dos indivíduos num sistema orientado pelo Estado para os fins nacionais, submissão de cada um aos seus fins», realizavam uma nova ordem[1].
Como se verificou nos outros países em guerra, foram exatamente os partidos, ditos mais avançados - os socialistas - que deviam ser os primeiros a favorecer a guerra contra o militarismo alemão, que primeiro contrariaram a ação governativa do gabinete inglês.
Os radicais ingleses, de começo, não acreditavam na guerra; pacifistas impenitentes, todos opostos à obrigação militar: operários, socialistas e sindicalistas, todos são unânimes em combater a política intervencionista.
Zelosos em defender as prerrogativas das suas Trade Unions, punham o seu conceito de liberdade acima do interesse da civilização europeia comprometida pelo germanismo. Logo a seguir ao escândalo das munições, os chefes operários Roberts, Ben Tillett e John Hodge criam o Comité Socialista de Defesa Nacional, hostil ao princípio da obrigação militar. Era em nome da felicidade de uma certa classe de indivíduos que eles destruíam a felicidade das outras classes que são a maioria da nação. Para impedir a guerra fora das fronteiras, estabeleciam a guerra intestina, conduzida pelos sindicatos revolucionários contra os burgueses que o socialismo de origem continental lhes apontava como inimigos naturais.
O seu patriotismo tinha uma significação restrita e limitada, resumindo-se ao interesse da classe em guerra com as outras classes. É curioso que eles, incompatíveis com toda a disciplina nacional, julgassem necessária e justa toda a organização e toda a tirania dos comités diretores para as forças revolucionárias. A concepção revolucionária indicava a direção a seguir pelos chefes «trabalhistas», para quem a fase burguesa atual da sociedade não era senão «a péssima fase» onde os patrões e os capitalistas junkers não tinham outro intuito senão realizar fabulosos lucros à conta da militarização do país.
Robert Smillie, no congresso dos mineiros em Londres (de 29 de Julho), provou bem no que disse, como era esta a opinião predominante nos meios socialistas ingleses.
Em nada os atemoriza a responsabilidade em que incorrem, lançando a Inglaterra num beco sem saída e impossibilitando-a de, com os seus aliados, esmagar o militarismo alemão. Assim, por exemplo, o serviço militar obrigatório era classificado por George Lansbury como uma revolução, palavra tão horrorosa no seu conceito como para Tennyson a recordação de 1848 e para Edmund Burke a de 1790.
A sua fórmula velha era esta: «Liberdade contra o governo». O coletivismo internacional encontrou, enfim, bom campo de cultura no antigo pensamento liberalista com quem tinha estado, paradoxalmente, sempre em litígio.
O melhor argumento que o radicalismo encontrou para combater a obrigação militar era que ela «contradizia o génio do povo inglês».
Recusando sacrificar as liberdades individuais ao interesse do Estado, punham toda a atividade da vida nacional à mercê do anárquico impulso das iniciativas particulares.
Paradoxalmente também, os meneurs do operariado inglês confundiam assim, em proveito da sua tese anti-intervencionista, os preceitos anarquistas da «internacional», com os falidos mandamentos da escola de Manchester. O socialismo contradizia a sua essência doutrinária, pregando o voluntariado militar. O Independent Labour Party ia mais longe na sua irredutibilidade com o estatismo, empregando esforços extraordinários, contra a main mise do Estado, na mobilização industrial da guerra.
Viu-se então esta absurda contradição, que o é só em aparência: os conservadores pugnando pela subordinação dos cidadãos à coisa pública, pondo de parte toda a liberdade individual, ao mesmo tempo que os inimigos das atuais formas sociais lutavam pelo «deixai fazer» do velho liberalismo, eles que antes da guerra clamavam pela nacionalização de certas indústrias e pelo sacrifício do indivíduo à colectividade.
J. H. Thomas chega a anunciar no parlamento a greve geral dos caminhos-de-ferro, no caso de o serviço militar obrigatório ser decretado.
O jornal Nation afirmou mesmo, pela pena de H. W. Massingham, «que gostaria mais de ver a Inglaterra batida do que submetida ao serviço militar obrigatório».
De todos os meios se serviram os radicais ingleses para impedir a organização militar da sua nação; a Bíblia mesmo e os preceitos cristãos foram chamados a provar a solidariedade do universal socialismo pangermanista, pela boca de Sir Arthur Adlington Haworth, presidente de uma assembleia do congregacionismo inglês e do País de Gales; de um Reverendo Eves, capelão de St John's, Cambridge; de A. C. Pigou, Franklin e Goldsworthy Lowes Dickinson, professores da mesma universidade de Cambridge etc., etc.
A ninguém surpreende a mística religiosa que preside a todos os movimentos político-sociais ingleses; Ramsay MacDonald, célebre chefe trabalhista, proclamava o impulso divino que movia a corrente socialista moderna.
Assim, pelo canal marxista da Internacional veio à Alemanha a boa ajuda dos radicais ingleses[2].
Primeiro do que ninguém, eles negaram a barbárie dos atentados alemães na invasão da Bélgica e denunciaram Sir Edward Grey como um dos fatores da guerra, acusando-o de, na sua hipocrisia, «ter trabalhado no parti pris de implicar a Inglaterra na guerra, servindo-se da Bélgica como um pretexto».
E. D. Morel fundou a União de Controlo Democrático, disposta, entre outras coisas, a impedir a humilhação da Alemanha na ocasião da paz.
A maneira como os meneurs das classes operárias fez interpretar por estas o conflito europeu deu como triste resultado em que, quando a solidariedade entre as classes perante o perigo nacional devia ser maior, foi exatamente quando mais se quis envenenar o eterno litígio.
O inimigo principal e mais odioso era o patrão e o accionista que enriqueceria pelas encomendas da guerra e assim o seu empenho foi todo em atirar as classes operárias contra os patrões, não esquecendo as conquistas antigas, nem por um momento, como seria justo, em proveito do estadismo, base doutrinária do colectivismo.
A lei nova que suspendia certos direitos das Trade Unions para garantir a produção nacional foi razão para a mais violenta campanha trabalhista e radical[3].
A greve de Clyde foi uma primeira consequência.
Quando, em Junho e Julho, 60.000 mineiros do País de Gales se alistam voluntários, rebentam duas greves para coagir o governo a não lançar o serviço militar obrigatório.
O serviço militar obrigatório era assim para os operários o supremo sacrifício da sua liberdade. Os chefes socialistas e radicais esforçavam-se em demonstrar isto mesmo e em fazerem crer a desnecessidade de ela se estabelecer.
Os chefes trabalhistas fundaram o Comité Socialista de Defesa Nacional, que, com os dirigentes dos sindicatos radicais e avançados, trabalharam para que o voluntariado chegasse para as necessidades da guerra.
Mas, em 1916, na Primavera, Lloyd George punha-lhes este dilema:
«A Inglaterra precisa de 30.000 homens por semana; se os chefes socialistas querem evitar a obrigação militar, façam com que esses homens sejam fornecidos pelo voluntariado».
Hodge e Ben Tillett recomeçaram a sua propaganda para atraírem os homens, o que prova a ignorância do povo soberano sobre as necessidades presentes.
Paradoxo do princípio democrático e do regime de opinião.
O sistema de opinião, de persuasão, o sistema inglês, enfim, caiu pela base diante das realidades da luta.
Breve a opinião pública compreendeu como os princípios caros ao individualismo e à liberdade se arruinavam diante das necessidades da guerra. Diante do inimigo, o Rei e o país têm o direito de exigir, e não somente o direito moral, mas legal e constitucional, todos os esforços devidos ao serviço da sua defesa.
Contribui para esta impressão da opinião pública a propaganda que em brochuras, artigos, reclames cinematográficos, largamente se espalhou.
A Jorge V foi reconhecido o direito de decretar o serviço militar obrigatório; invocando-se para esse fim os nomes d'Allferic e de Harold, referindo-se aos Landfyrd às instituições, aos condados, aos arquivos do exército (1811) posse comitatus, a Henrique II e aos estatutos da restauração «13 e 14 cap. II», que transferiu para a coroa o direito de levantar milícias, e essa outra acta do parlamento que no tempo da rainha Vitória, em 1865 (54 e 35 Victor cap. 86.°), o suspendeu só por um ano[4] 36.
Metodicamente, a transformação inglesa foi-se operando assim no domínio das elites e dos indivíduos, até ao ponto de não mais se reconhecer na antiga fórmula - live and let live - o valor que fazia dela toda a base de um sistema.
---------------
Nota: foram normalizadas algumas grafias de nomes próprios, incluindo E. D. Morel, George Lansbury, J. H. Thomas, H. W. Massingham, Sir Arthur Adlington Haworth, A. C. Pigou e Goldsworthy Lowes Dickinson.
--------------
[1] Hyndman, Fortnightly Review, 15 de Março de 1915.
[2] A história detalhada dos manejos pangermanistas dos partidos operários ingleses não cabe decerto nos moldes restritos e, necessariamente, apoucados de um simples capítulo deste livro. Um dia ela se fará, com vagar, e então se verá como a obra de traição foi profunda e vasta da parte da secção inglesa da Segunda Internacional para com a mãe-pátria em guerra com o imperialismo germânico.
O Socialismo e o Sindicalismo ingleses não esqueceram, assim, as tradições do seu
marxismo activo e essencial.
O Independent Labour Party, à frente do qual se encontram Keir Hardie e Ramsay
MacDonald, merece todavia uma especial referência, pois que a sua acção pangermanista foi, desde o começo até final, maior e mais viva do que [a] das outras organizações socialistas e sindicais.
Ficou célebre o violento manifesto que este partido lançou contra a guerra. Entre outras coisas extraordinárias para um país empenhado na luta, como então estava a Inglaterra, o Independent Labour Party proclamava, por exemplo, que «(...) por entre o troar dos canhões, nós enviamos as nossas saudações e os protestos da nossa simpatia aos socialistas alemães.
Eles nunca cessaram de trabalhar para estabelecer boas relações entre a Alemanha e a Inglaterra. Não são, pois, nossos inimigos, mas sim amigos fiéis».
Durante todo o período da guerra, a propaganda germanizante e de entraves ao governo nacional teve no I. L. P. o melhor colo e ajuda. Todas as tentativas de aproximação internacional do socialismo de Berlim encontraram na mesma sorte um eco favorável no se10 do partido. E, se ele não foi a Zimmerwald e a Kienthoal acamaradar as minorias marxistas italianas, francesas e alemãs, foi isto simplesmente porque o governo inglês lhe não concedeu os passaportes.
[3] Evidenciou-se nessa batalha o Trade Union Rights Committee, fundado em Londres depois da lei das munições.
[4] Compulsory Service as a Principle of the Constitution. H. Blake in Nineteenth
Century, Octob., 1915.
Em todo o caso, foi preciso passar por cima da acção socialista e radical para poder fazer a guerra contra o imperialismo alemão que não escondia decerto as suas intenções de conquistar o mundo.
O maior inimigo das ideias radicais foi ainda o próprio radicalismo.