Francisco Rolão Preto - A Monarquia é a Restauração da Inteligência - 1920
CAPÍTULO SEGUNDO
A falência da «Internacional»
RESUMO
A falência da «Internacional»
RESUMO
O capítulo analisa o colapso da Primeira Internacional (a "Internacional de Marx"), consumado formalmente no Congresso da Haia (22-29 de Setembro de 1872), mas cuja morte Rolão Preto situa nos primeiros dias da guerra franco-prussiana de 1870.
A tese central é que a "solidariedade universal das classes" proclamada pela Internacional era, na prática, uma máscara para a hegemonia germânica — um instrumento ao serviço do pangermanismo bismarckiano e não da fraternidade proletária que professava. Rolão Preto sustenta este argumento através de:
A conclusão do capítulo generaliza o caso: a fraternidade internacionalista fracassa porque assenta numa premissa falsa (a igualdade abstracta dos povos), quando a realidade histórica é antes regida pela diversidade, pela luta e pelo interesse nacional de cada povo.
A tese central é que a "solidariedade universal das classes" proclamada pela Internacional era, na prática, uma máscara para a hegemonia germânica — um instrumento ao serviço do pangermanismo bismarckiano e não da fraternidade proletária que professava. Rolão Preto sustenta este argumento através de:
- A correspondência privada de Marx e Engels, citada extensamente, na qual Marx manifesta simpatia pela política de Bismarck («o nosso Bismarck tem isso de bom, é que ele empurra as coisas em França à crise», 1867) e, durante a guerra de 1870, trabalha para impedir os operários franceses de resistirem à invasão prussiana, ao mesmo tempo que declara a superioridade da classe operária alemã sobre a francesa.
- O confronto Marx–Bakunine, apresentado como o verdadeiro eixo da Internacional: de um lado o "génio alemão" dominador, do outro o idealismo eslavo-latino de Bakunine, apoiado pelos revolucionários latinos (franceses, italianos, espanhóis), que via na guerra a «causa da liberdade e da humanidade» contra o «despotismo germânico».
- A luta doutrinária anterior entre o mutualismo proudhoniano (francês) e o comunismo autoritário de Marx (alemão), com Marx a impor progressivamente a centralização do Conselho Geral de Londres — negando, na prática, o princípio anti-autoritário que antes defendera.
- O desfecho na Haia (1872): expulsão de Bakunine e de James Guilherme, vitória de Marx e da tese de uma direcção centralizada "de cima para baixo" — seguida, no entanto, da cisão e da desagregação da própria Internacional.
A conclusão do capítulo generaliza o caso: a fraternidade internacionalista fracassa porque assenta numa premissa falsa (a igualdade abstracta dos povos), quando a realidade histórica é antes regida pela diversidade, pela luta e pelo interesse nacional de cada povo.
I . «A Primeira Internacional ou a Internacional de Marx» (pp. 14–21)
Rolão Preto situa a morte efectiva da Primeira Internacional no Congresso da Haia (22–29 de Setembro de 1872), embora aponte a guerra franco-alemã de 1870 como golpe decisivo. Sustenta que a «fraternidade dos povos» proclamada pela Internacional não resistiu ao ódio franco-germânico revelado pelo conflito de 1870, e que a Internacional operária, sob a direcção de Marx, serviu de facto à «política do império» e ao pan-germanismo.
Segue-se a reconstituição da luta interna entre a corrente germânica de Marx (centralista, autoritária) e o mutualismo proudhoniano francês, com referência aos Congressos de Genebra (1866) e de Lausanne, e à crítica de Marx aos delegados parisienses, tida por «mais oca fraseologia proudhonica». O Autor cita a intervenção atribuída a Marx sobre a redacção do programa dos delegados de Londres e a subsequente polémica com o socialista francês Edmond Laskine.
O retrato de Bakunine ocupa a parte central da secção: apresentado como «latino por educação», próximo de Proudhon, Pierre Leroux, George Sand e Lamennais, e como desterrado político sobrevivente da Sibéria. O confronto Marx–Bakunine é lido como confronto entre «o génio germânico» e o «sentimentalismo slavo-latino», culminando na tomada do Conselho Geral de Londres por Marx (1871) e na expulsão de Bakunine e James Guillaume no Congresso da Haia (1872).
«Ódios nacionais» (pp. 22–28)
Documenta-se, através de correspondência Marx–Engels, o desprezo germânico pelos operários franceses durante a guerra de 1870 (a fórmula «tinham necessidade de ser tozados», glosando o alemão Prügel), a defesa por Marx de uma «guerra defensiva» alemã, e a actividade de Bakunine em sentido inverso — propaganda anti-alemã junto dos socialistas suíços do Jura e apelo à «Marseillaise». O Autor cita ainda a correspondência de Marx a Bolte (1871) sobre o «mot d'ordre» de fazer reinar o pan-germanismo no Conselho Geral.
O capítulo fecha com a tese central, exposta em registo quase aforístico (p. 27): a luta é «a origem da vida», a diversidade e a desigualdade das raças são necessárias à harmonia, e a Primeira Internacional sucumbiu porque a sua utopia igualitária contrariava essa lei.
Rolão Preto situa a morte efectiva da Primeira Internacional no Congresso da Haia (22–29 de Setembro de 1872), embora aponte a guerra franco-alemã de 1870 como golpe decisivo. Sustenta que a «fraternidade dos povos» proclamada pela Internacional não resistiu ao ódio franco-germânico revelado pelo conflito de 1870, e que a Internacional operária, sob a direcção de Marx, serviu de facto à «política do império» e ao pan-germanismo.
Segue-se a reconstituição da luta interna entre a corrente germânica de Marx (centralista, autoritária) e o mutualismo proudhoniano francês, com referência aos Congressos de Genebra (1866) e de Lausanne, e à crítica de Marx aos delegados parisienses, tida por «mais oca fraseologia proudhonica». O Autor cita a intervenção atribuída a Marx sobre a redacção do programa dos delegados de Londres e a subsequente polémica com o socialista francês Edmond Laskine.
O retrato de Bakunine ocupa a parte central da secção: apresentado como «latino por educação», próximo de Proudhon, Pierre Leroux, George Sand e Lamennais, e como desterrado político sobrevivente da Sibéria. O confronto Marx–Bakunine é lido como confronto entre «o génio germânico» e o «sentimentalismo slavo-latino», culminando na tomada do Conselho Geral de Londres por Marx (1871) e na expulsão de Bakunine e James Guillaume no Congresso da Haia (1872).
«Ódios nacionais» (pp. 22–28)
Documenta-se, através de correspondência Marx–Engels, o desprezo germânico pelos operários franceses durante a guerra de 1870 (a fórmula «tinham necessidade de ser tozados», glosando o alemão Prügel), a defesa por Marx de uma «guerra defensiva» alemã, e a actividade de Bakunine em sentido inverso — propaganda anti-alemã junto dos socialistas suíços do Jura e apelo à «Marseillaise». O Autor cita ainda a correspondência de Marx a Bolte (1871) sobre o «mot d'ordre» de fazer reinar o pan-germanismo no Conselho Geral.
O capítulo fecha com a tese central, exposta em registo quase aforístico (p. 27): a luta é «a origem da vida», a diversidade e a desigualdade das raças são necessárias à harmonia, e a Primeira Internacional sucumbiu porque a sua utopia igualitária contrariava essa lei.
Giuseppe Mazzini (1805-1872), o republicano e nacionalista italiano foi um dos principais adversários doutrinários de Marx no interior da Primeira Internacional, opondo à luta de classes marxista o seu programa de fraternidade nacional republicana.
O nome surge com gralha tipográfica na edição original de 1920 (corpo do texto, página 20; não corrigida em Rolão Preto, Obras Completas, org. José Melo Alexandrino, Edições Colibri, 2015, Volume I, p. 53), mas o conteúdo do texto de Rolão Preto está correcto quanto ao conteúdo histórico: Giuseppe Mazzini foi, de facto, um dos principais opositores doutrinários de Karl Marx na fase fundacional e nos primeiros anos da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT, ou Primeira Internacional, fundada em Londres em 1864).
O Conflito Doutrinário: Marx vs. Mazzini
Bibliografia Recomendada
Fontes Primárias e Textos Históricos
Estudos Historiográficos e Monografias
O nome surge com gralha tipográfica na edição original de 1920 (corpo do texto, página 20; não corrigida em Rolão Preto, Obras Completas, org. José Melo Alexandrino, Edições Colibri, 2015, Volume I, p. 53), mas o conteúdo do texto de Rolão Preto está correcto quanto ao conteúdo histórico: Giuseppe Mazzini foi, de facto, um dos principais opositores doutrinários de Karl Marx na fase fundacional e nos primeiros anos da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT, ou Primeira Internacional, fundada em Londres em 1864).
O Conflito Doutrinário: Marx vs. Mazzini
- Gênese e Regulamentos (1864): Na fundação da AIT, delegados ligados a Mazzini (como Luigi Wolff) tentaram impor estatutos baseados numa estrutura altamente centralizada e paternalista, inspirada no programa mazziniano. Marx combateu essa proposta, redigindo ele próprio a Mensagem Inaugural e os Estatutos Provisórios, onde consagrou o princípio de que "a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra dos próprios trabalhadores".
- Interclassismo e Fraternidade Nacional vs. Luta de Classes: Mazzini rejeitava a luta de classes, a ditadura do proletariado e o materialismo histórico de Marx. Propunha uma aliança interclassista, a solidariedade entre capital e trabalho sob a égide da "Unidade e Fraternidade" republicana e do dever moral/religioso ("Dio e Popolo"). Para Mazzini, a questão social derivava de uma crise moral, resolvível pela associação operária solidária e pela instrução, e não pelo combate contra a propriedade privada ou pela destruição do Estado burguês.
- A Ruptura (1865-1871): Os mazzinianos retiraram-se progressivamente do Conselho Geral da AIT à medida que Marx consolidou o rumo proletário e socialista da organização. A rutura definitiva ocorreu em 1871, quando Mazzini condenou publicamente a Comuna de Paris pelo seu caráter de classe, ateísmo e violência, ao passo que Marx a defendeu categoricamente (A Guerra Civil em França).
Bibliografia Recomendada
Fontes Primárias e Textos Históricos
- MARX, Karl. "Mensagem Inaugural e Estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores" (1864). In: Obras Escolhidas de Marx e Engels. Lisboa: Edições Avante!.
- MARX, Karl. "Atas do Conselho Geral da Primeira Internacional" (1864–1872). Documents of the First International (5 vols.). Moscovo: Progress Publishers, 1964. (Contém os debates específicos e as intervenções de Marx contra as propostas de Luigi Wolff e do grupo mazziniano em março de 1866).
- MAZZINI, Giuseppe. Doveri dell'uomo [Os Deveres do Homem] (1860). (Texto fundamental onde Mazzini expõe o seu programa ético-republicano e a rejeição do materialismo e da luta de classes).
- MAZZINI, Giuseppe. "L'Internazionale" (Artigos publicados no jornal La Roma del Popolo, 1871). (A crítica explícita e sistemática de Mazzini à AIT e ao comunismo marxista após a Comuna de Paris).
Estudos Historiográficos e Monografias
- MASTELLONE, Salvo. Mazzini e Marx: Un duello a distanza. Florença: Passigli Editori, 2003. (Análise exaustiva do confronto intelectual e político entre os dois pensadores no contexto da AIT e do exílio em Londres).
- MUSTO, Marcello (Org.). Trabalhadores, uni-vos! Antologia da Primeira Internacional. São Paulo: Boitempo, 2014. (Obra de referência sobre a diversidade ideológica interna da AIT e os debates programáticos de 1864).
- BELARDELLI, Giovanni. Mazzini. Bolonha: Il Mulino, 2010. (Biografia académica rigorosa que contextualiza a visão mazziniana da questão operária e a sua recusa do socialismo científico).
- DRAKE, Richard. Apostles and Agitators: Italy's Marxist Revolutionary Tradition. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003. (Aborda a transição e os debates no movimento operário italiano do mazzinianismo para o marxismo e o anarquismo).