Francisco Rolão Preto - A Monarquia é a Restauração da Inteligência - 1920
CAPÍTULO III
A Internacional e o Nacionalismo
A Internacional e o Nacionalismo
RESUMO
Análise da relação entre internacionalismo socialista e nacionalismo, tomando como ponto de partida o episódio da «Maison du Peuple», em Bruxelas, durante a invasão alemã da Bélgica em 1914. Rolão Preto argumenta que a posição atribuída a Koster, ao desvalorizar conceitos como honra, direito internacional e compromissos nacionais como expressões burguesas, estava de acordo com a lógica do socialismo internacional marxista. Em seguida, discute a formação da Associação Internacional Operária, o papel decisivo de Karl Marx na consolidação da Internacional e a tensão entre a ficção de uma solidariedade proletária universal e as forças concretas do poder, do egoísmo individual e das identidades nacionais. A conclusão é que tanto a Primeira como a Segunda Internacional falharam por negarem a diversidade histórica, nacional e humana, demonstrando que o instinto nacional e a força dos indivíduos prevaleceram sobre o ideal abstrato da pátria universal.
CAPÍTULO III
A Internacional e o Nacionalismo
A Segunda como a Primeira Internacional afirmam o Nacionalismo
A Internacional e o Nacionalismo
A Segunda como a Primeira Internacional afirmam o Nacionalismo
É conhecido o incidente da «Maison du Peuple», em Bruxelas, quando da invasão germânica de 1914. O Dr. Koster, o célebre director do Hamburger Echo, veio em missão pangermanista à capital da Bélgica para conseguir dos empregados dos caminhos-de-ferro do país invadido, o retomar do serviço que eles tinham abandonado, no que viria para a Alemanha o ganho de trinta mil homens disponíveis. O camarada Koster discursava em plena Casa do Povo, mostrando as vantagens do proletariado belga com a conquista alemã e criticando o gesto do governo belga que se opôs à passagem de Von Klück, quando da assembleia um operário redarguiu - é verdade que a Bélgica perdeu muito, mas salvou ao menos a sua honra -, Koster teve então esta frase memorável:
- A honra! A honra é uma banalidade que faz parte da ideologia burguesa e com que nós os socialistas nada temos.
Muito barulho fez esta frase em toda a imprensa dos aliados e na de alguns países neutrais. Nela se quis ver o significado germânico da invasão começada. Na verdade, porém, Koster falava a já velha linguagem socialista internacional.
Koster mostrava-se muito simplesmente um bom discípulo de Karl Marx.
Que queria de facto o socialismo internacional senão a criação de um novo mundo social e político, e que foram banidas todas as condições da complexa civilização presente! A 1.ª Internacional como, de resto, a que liquidou em Agosto de 1914, aspiravam em realidade a construir de um só jacto a organização universal feita dos corações eternamente oprimidos do proletariado. A nova era que se abria sobre a Terra era a morte dos preconceitos humanos gerados através de séculos de luta e de logro pela Necessidade e pela Ignorância. Substituía-se, ex-abrupto, pelo sistema racional e lógico criado na Inteligência socialista o velho dogma de organização social que a humanidade se impusera pela mão de um empirismo inútil e incómodo ao progresso.
A que vinham pois as convenções da antiga fé dos homens a querer firmar-se ainda no sentido de uma louca e vã ideologia - a honra?
Que Koster fosse sincero ou não na Casa do Povo de Bruxelas é discutível, que afirmando porém o que afirmou estava perfeitamente na lógica do Socialismo Internacional, ninguém de boa fé o contestará. Kamerate[1], ou camarada, Koster foi o porta-voz do classicismo marxista que triunfou na 1.ª como na 2.ª Internacional.
Não teremos agora que procurar saber se foi em proveito do germanismo que o diretor do Hamburger Echo falou, o que resulta certo é a pureza da ortodoxia marxista, que se afirma no desprezo do socialista alemão pelas velhas formulas que presidiam em 1914 à organização política e social da Europa. De resto, era doutrina assente em Paris como em Berlim, em Viena como em Londres ou Bruxelas, o ínfimo respeito que pelas convenções da velha sociedade proclamavam os meios socialistas. Em Abril desse mesmo ano dizia-nos um socialista eminente de Lovaina, o engenheiro Berièr:
- O direito internacional é uma blague burguesa de que se hão-de rir os vindouros... Nada de mais ingénuo do que supor os governos burgueses capazes de guardar fidelidade a fórmulas puramente abstratas quando soar a hora em que essa fidelidade seja contrária aos seus interesses máximos.
Toda a gente sabe como era aconselhada pelos grupos dirigentes das diversas secções da Internacional Operária a deserção aos compromissos de honra que entre si tomassem as nações. A greve geral era preconizada como o meio mais eficaz para conseguir esse desideratum.
Ainda, quando foi das guerras balcânicas e na perspectiva de um conflito europeu que daí derivasse, a ação do Partido Socialista Internacional Francês foi bem clara e evidente em obrigar o governo nacional a abandonar a Rússia se esta entendesse dever bater-se pelo «cochon serbe».
Sembat notou em tempos este mesmo facto num livro famoso[2], aparecido meses antes da conflagração de 1914. Mas não é este um exemplo isolado. Herve, o famoso Hervè, tão apreciado dos nossos jacobinos nacionais nos tempos da oposição à Monarquia, Hervè não achava natural pedir-se aos socialistas franceses e ingleses para que se ajudasse o germanismo em detrimento manifesto do direito de dois povos pequenos, a Bélgica e Portugal[3]. Evidente era pois que para o socialismo, como para o Chanceler do Império Alemão, havia os mesmos escrúpulos em classificar de - scrap of paper[4]- farrapo de papel - o Direito da velha Europa. Em verdade, predominava na 2.ª como 1.ª Internacional a ideia fundamental do marxismo: a supremacia da solidariedade universal das classes sobre o império do interesse nacional.
Não era, pois, sem razão, ou em nome de uma razão puramente germânica à maneira daquela com que Nethman Holweg justificou a violação da Bélgica - Not kennt kein Gebot [5]-, que o Dr. Koster, o camarada do Hamburger Echo, classificava de absurda e de burguesa a concepção belga da honra inviolada.
Era em nome do socialismo internacional, em volta do qual se tinham podido agrupar e manter unidas as classes operárias de quase todos os países do mundo, que se lançara aquele desafio aos vindouros...
*
Nem o comunismo ateísta e igualitário de um Owen[6], nem a Union Ouvrière traçada pelo coração sensível e incansável de Flora Tristan tiveram condições para se impor como uma necessidade política no meio operário. Só em 1864 é que a ideia amadurecida de uma solidariedade efectiva do proletariado universal conseguiu afirmar-se enfim, de uma maneira imperiosa e viva, na reunião de St. Martins Hall. Daqui nascia a «Associação Internacional Operária», a que o manifesto[7] de Marx serviu de programa e deu ossatura consistente.
Assinavam o manifesto Odger, Cremer, Wheler, mas o espírito marxista é, através de todo ele, bem vivo e inconfundível. Começou, desde logo, daquela maneira a criar-se a hegemonia do autor do das Kapital sobre a Internacional. Foi essa talvez a condição da sua maior resistência.
Karl Marx, com uma vontade definida e enérgica, hostil às fórmulas ocas de sentido dos seus predecessores, foi a única garantia séria da vida da Internacional.
Acusam-no hoje, Laskine[8] à frente, de ambicioso, desmedido e aventureiro incansável, cujo único fito seria apoderar-se da Internacional para dela se servir como apanágio da sua glória, e de instrumento de pangermanismo.
Seja como for, sem Karl Marx a Internacional Operária falia logo à nascença. Foi o seu pulso de ferro ao serviço de um temperamento rebelde ao intelectualismo analista e negativo dos seus mais graduados companheiros, e quiçá rivais, na direcção da Associação Internacional dos Trabalhadores, que salvou a obra começada. As qualidades extraordinárias de energia e decisão de Marx triunfaram na lógica das eternas leis da natureza.
O seu egoísmo, posto ao serviço da sua inteligência bastante invulgar, levou-o à vitória dos seus desejos. Não se realizou, muito embora, a «Internacional» no seu perfeito e completo império político universal. Triunfou porém o marxismo naquela parte das possibilidades que há sempre em cada concepção teórica, seja ela um sistema político na sua complexidade intrínseca de relações com o meio exterior e de coordenação na dinâmica da sua constituição interior, ou seja, a pura criação, perfeita e vaga, de Ideal, Arte, Ciência, Vida, concebidos no isolamento de um coração esquentado e ansioso.
A Internacional não se realizou senão na parte em que triunfou o marxismo. Impossível triunfar por si mesma como todas as utopias, a 1.ª Internacional, enquanto viva, foi para um homem a sua vitória pessoal, a sua obra paciente e corajosamente trabalhada, para satisfação do seu egotismo desmarcado como Indivíduo e como Alemão.
Para quê querer ver outras razões quando a conclusão se afirma clara e evidentemente demonstrada no dinamismo irrefutável das leis da Natureza?
Karl Marx, como qualquer seu compatriota correligionário da Pfaffenthum, ou fazendo coro com a burguesa e reacionária Kreuzzeitung, era apenas um homem, o homem real, vivendo a vida deste mundo, cheia de amarguras e de esperanças, povoada de sonhos bons e pesadelos negros; o homem resultante de toda uma série de circunstâncias anteriores à sua existência e preso das condições morais e materiais do momento histórico em que vive; o homem, enfim, fazendo parte de um meio social que é escravo de um tradicionalismo fatal e irremovível e ao qual, portanto, não pode fugir sem perder uma parte de si mesmo. O homem, em resumo, e não a marionnette, o «homem fictício», na expressão de Taine, que os criadores da metafísica revolucionária inventaram à sua maneira e semelhança para o fim exclusivo de fazerem manobrar o seu sistema político ou social... no papel.
Marx, pois, era o homem; a Internacional a ficção; não tardou grande tempo que o homem se assenhoreasse da ficção como meio de predomínio e de força. A história quase não condenaria, hoje em dia, os sinistros ditadores de 89 se a sua ditadura não fosse sangrenta e infame. Os princípios não reclamam vingança porque «o vento os leva e o vento os traz», na boa imagem do poeta italiano; uma apostasia já não é um crime para ser apenas uma banalidade.
A ficção desfez-se no fumo que o vento levou e só ficou a descoberto, na sua rude realidade, a engrenagem que à sombra dela se criara e avigorara entre os homens. Dessa engrenagem lançou mão o pulso mais firme, a vontade mais forte; era fatal. Desde o Princípio que no livro dos destinos estava gravada esta certeza.
*
A Internacional Operária não podia fugir ao fatalismo da lei que rege as coisas humanas.
Que eram a 1.ª e a 2.ª Internacionais? A negação arrojada e estranha da diversidade de raças, da diferença de climas, da desigualdade de temperamentos e de caracteres através da espécie humana... Que afirmavam a 1.ª e a 2.ª Internacionais? A «pátria universal», em detrimento da pátria histórica; a solidariedade das classes por cima das fronteiras; e a guerra ao nacionalismo, explorando o conflito universal entre o capital e o trabalho. Falidas a 1.ª e a 2.ª Internacionais, provou-se o egoísmo desmarcado de Marx! Mas provou-se mais: que a terapêutica do formulário radical não neutralizava nada o instinto natural do homem forte, sobretudo do homem mais forte.
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[1] Sabe-se o que significa na linguagem da imprensa nacionalista francesa o «Kamerate» dos alemães. Para ela toma o mesmo sentido depreciativo na técnica do socialismo internacional germânico.
[2] Je dis qu'en pareille occasion (no conflito balcânico) si la Russie et l'Autriche en étaient venues aux mains, notre action eut empêché la France de prendre les armes pour la Russie. Faites un Roi sinon faites la Paix, p. 118.
[3] «Il y a en Afrique - escrevia ele - des territoires immenses possédés nominalement par des nations minuscules, comme la Belgique et le Portugal, qui n'auront jamais la force de les exploiter ni de les défendre... Oserai-je dire que ces prétentions (da Alemanha) ne me semblent rien avoir d'exorbitant? Est-il admissible, parce-que le roi Léopold, par suite d'un concours de circonstances fortuites, a pu léguer le bassin du Congo, qui est grand comme l'Europe tout entière, à la Belgique, qui est grande comme cinq départements français, est-il admissible que le Congo reste sous la coupe de la Belgique jusqu'à la fin des siècles ?... Et qu'inconvénient y aurait-il pour la civilisation générale à ce que les Allemands, en plein développement industriel, succèdent aux Portugais impuissants dans une partie de l'Afrique Centrale ?... C'est aux peuples français et anglais d'appuyer, contre les chauvins et les coloniaux de leurs propres pays, les revendications allemandes...", in Guerre Sociale, 21 de Maio de 1912.
[4] Como é sabido, Bethmann-Hollweg pronunciou a célebre frase em inglês - scrap of paper - no decurso da sua entrevista com o ministro de Inglaterra, conforme vem relatado no Livro Azul do Governo Inglês.
[5] A necessidade não conhece lei. Não é verdade que a originalidade desta frase pertença ao chanceler Bethmann. E ela atribuída a vários estadistas, entre os quais, e com mais verossimilhança, ao que parece, a Bismarck.
[6] As célebres tentativas de Owen em New Harmony (Estado do Indiana), e noutros pontos do território dos E. U. A., haviam de ser repetidas por Fourier, Cabet, Louis Blanc e mais tarde por esse estoicismo cristão e nefelibata de Tolstói. Idêntico insucesso destruiu todas aquelas ilusões, o que bem prova a distância que a realidade ingrata põe entre a concepção doirada com que os homens fabricam o seu «reino da Utopia» e a possibilidade de uma concretização de que resulte, de facto, a modificação completa da marcha fatal das coisas humanas.
[7] Achamos útil relembrar aqui, embora de uma maneira muito breve, alguns dos pontos que encerram princípios fundamentais e que no decorrer deste sucinto trabalho veremos constantemente em contradição com a acção socialista da Primeira Internacional. O manifesto começava por uma série de considerandos em que se justificava o programa:
"Considerando que a emancipação dos trabalhadores deve ser obra deles próprios, que os seus esforços para conquistar a sua emancipação não devem tender a constituir novos privilégios, mas sim a estabelecer para todos os mesmos direitos e os mesmos deveres;
Que todos os esforços até aqui têm sido baldados por falta de solidariedade entre os operários das diversas profissões em cada país e de uma união fraternal entre os trabalhadores dos diversos países, etc., etc.».
Concluía numa elaboração resumida de artigos em que se estipulava que «Uma associação é estabelecida para procurar um ponto central de comunicação e de cooperação entre os trabalhadores dos diferentes países aspirando ao mesmo fim, a saber: concurso mútuo, o progresso e a completa alforria da classe operária». Para o bom funcionamento da Associação. estabelece-se assim esta engrenagem interior: um Conselho Geral, composto de «operários representando as diferentes nações fazendo parte da Associação Internacional», dirigirá superiormente a vida interna e externa da Associação, apresentará anualmente no Congresso reunido para esse fim o relatório dos seus trabalhos. Os «Congressos», assembleias magnas da Associação Internacional, eram destinados a desempenhar um grande papel na marcha do movimento operário. Constituídos pelos representantes eleitos das diferentes secções operárias, reuniam-se por direito próprio, marcavam a sede do Conselho Geral que deles saía.
No 7.° artigo estatuía os deveres de solidariedade que uniam cada membro da Internacional à comunidade universal. Nos 9.° e 10.° declarava soberana cada secção na escolha dos representantes para o Conselho Geral e considerava livres as Sociedades operárias que, apesar de fazerem parte integrante da Internacional, podiam continuar a «existir sob as bases que lhe forem particulares."
[8] Cf. L'Internationale et le Pangermanisme. H. Fleury, 1916, Paris.