Francisco Rolão Preto - A Monarquia é a Restauração da Inteligência - 1920
CAPÍTULO I
O pragmatismo da guerra
O pragmatismo da guerra
RESUMO
Interpretando a Primeira Guerra Mundial como o colapso das ilusões pacifistas, internacionalistas e socialistas, Rolão Preto defende que o conflito revelou a permanência da luta, do sacrifício e da necessidade histórica. A partir dessa leitura, apresenta o nacionalismo como uma doutrina capaz de unir indivíduo, sociedade e Estado em torno de um interesse comum, contrapondo-o ao universalismo socialista, considerado abstrato e incapaz de resistir ao apelo concreto da pátria, das fronteiras e da identidade nacional
CAPÍTULO I
O pragmatismo da guerra
O pragmatismo da guerra
«Devant l'Europe à feu ce ne sont pas seulement des tours, des beffrois, des remparts et des cathédrales qui s'effondrent, ce sont aussi des systèmes d’idées. »
Charles Maurras.
«Bientôt les armées ne furent plus séparées l'une de l'autre que par un étroit intervalle, une bande de terre unie et vide, et dont la vue faisait frissonner les plus braves par la pensée que la dans une mêlée sanglante s'accompliraient les destins.»
« La Révolte des Anges », Anatole France.
O canhão que em 31 de Julho de 1914 acordava os ecos do velho Danúbio troando sobre Belgrado dissipou as últimas tentativas da ideologia romântico-pacifista representando-se, formidável, como os grandes acontecimentos que marcam as épocas da História. Um ciclo imenso se fechava naquela tarde de tragédia, enquanto da Terra misteriosamente se erguia o prelúdio sangrento e heróico de uma nova era.
Pouco tempo se enganou a Europa e o mundo no seu juízo sobre o vasto e profundo significado da hora que soava naquela atmosfera amarga onde se pintava a aflição de uma ansiedade enorme, adivinhava-se a derrocada tremenda e universal que os erros do nosso orgulho e da nossa ambição haviam provocado no dinamismo absorvente da conquista.
A pólvora que os monitores austríacos queimavam naquele dia formidável era assim a velha pólvora humana que a Necessidade - nossa eterna condição - criou para nos purificarmos no sangue e no fogo...
A lei divina da luta universal cumpria-se na fatalidade incognoscível de todos os tempos. Caíam por terra as doiradas ilusões dos que a haviam esquecido, ou que dela se queriam libertar voando nas asas tentadoras da utopia.
E agora as almas que viam enfim, na decepção trágica, a sua imperfeição e a sua fraqueza desoladora, sofriam na maior das desordens e no maior desalento a sua dor muitas vezes amarga porque era sem esperança e toda salpicada do sangue do remorso.
Pouco tempo se enganou a Europa e o mundo no seu juízo sobre o vasto e profundo significado da hora que soava naquela atmosfera amarga onde se pintava a aflição de uma ansiedade enorme, adivinhava-se a derrocada tremenda e universal que os erros do nosso orgulho e da nossa ambição haviam provocado no dinamismo absorvente da conquista.
A pólvora que os monitores austríacos queimavam naquele dia formidável era assim a velha pólvora humana que a Necessidade - nossa eterna condição - criou para nos purificarmos no sangue e no fogo...
A lei divina da luta universal cumpria-se na fatalidade incognoscível de todos os tempos. Caíam por terra as doiradas ilusões dos que a haviam esquecido, ou que dela se queriam libertar voando nas asas tentadoras da utopia.
E agora as almas que viam enfim, na decepção trágica, a sua imperfeição e a sua fraqueza desoladora, sofriam na maior das desordens e no maior desalento a sua dor muitas vezes amarga porque era sem esperança e toda salpicada do sangue do remorso.
O Nacionalismo
Desfeita e dissipada a nuvem traiçoeira da ideologia, que os esforços de uma imaginação apaixonada e de uma sensibilidade tendida na tirania absorvente do orgulho haviam acastelado no horizonte da inteligência e do coração, maior foi então a extensão da derrocada interior vista através da serenidade das leis fixas, imutáveis e profundas da História.
Do mistério das ruínas da terra e do espírito, de novo o pensamento da criação se ergue e afirma nos eternos princípios da vida.
De novo o critério do útil restaura a verdade dos velhos postulados da histórica concepção orgânica das sociedades nacionalistas: o dever que solidariza as classes e os indivíduos na comum aspiração [a] que uma linha de fronteiras dá corpo e significação próprias; a ideia do sacrifício necessário que disciplina os espíritos tornando-os partes integrantes e funcionais do organismo-nação.
No espírito de profundo pragmatismo que resulta do jogo das realidades na lição vastíssima da guerra, evidencia-se assim a virtude perfeita do Nacionalismo, como a única maneira adentro do quadro da civilização atual de fazer identificar e coincidir o interesse do indivíduo com o da sociedade a que pertence. Só o nacionalismo tem em si a força moral necessária para significar altamente, aos olhos dos indivíduos, esse conceito admirável de espiritualidade criadora e sempre renovada nas virtudes da sua própria natureza, que o torna a ideia central e imanente, em volta da qual as energias e as vontades se tendem no esforço comum.
Só o nacionalismo como doutrina social compreende e ordena o instinto egoísta do homem, não considerando o indivíduo como fim da organização social, mas sim como função da nação, de sorte que a atividade e a saúde da vida nacional dele dependem, e que a prosperidade e a riqueza particular são uma direta sequência da riqueza e da prosperidade da nação. Só ainda o nacionalismo dá aos interesses individuais o significado duradouro e perdurável através do tempo consubstanciando-o com o interesse nacional, que é eterno, e, assim, no dinamismo constante da vida nacional o passado assegura o presente como o presente indica os tempos que hão-de vir.
Função do agregado nacional, o homem é, na concepção orgânica do nacionalismo integral, o beneficiário direto do interesse comum; o seu bem é o bem da nação e, da mesma maneira, o bem da nação é o seu próprio bem.
É o pensamento do Duque d'Orleães, futuro Rei de França.
« Tout ce qui est national est nôtre !»
Enfim, só o nacionalismo provado mais uma vez no sacrifício formidável dos milhões de mortos da conflagração europeia, que ora se apaga, representa, em realidade, a base segura em que o Estado se pode apoiar, pois que determina a cada um dos seus órgãos o papel da sua própria função, e assim pode manter a supremacia absoluta dos seus fins superiores, necessária ao triunfo material e moral do país ou da raça, que entregou a defesa dos seus destinos à sua protetora armadura.
Do mistério das ruínas da terra e do espírito, de novo o pensamento da criação se ergue e afirma nos eternos princípios da vida.
De novo o critério do útil restaura a verdade dos velhos postulados da histórica concepção orgânica das sociedades nacionalistas: o dever que solidariza as classes e os indivíduos na comum aspiração [a] que uma linha de fronteiras dá corpo e significação próprias; a ideia do sacrifício necessário que disciplina os espíritos tornando-os partes integrantes e funcionais do organismo-nação.
No espírito de profundo pragmatismo que resulta do jogo das realidades na lição vastíssima da guerra, evidencia-se assim a virtude perfeita do Nacionalismo, como a única maneira adentro do quadro da civilização atual de fazer identificar e coincidir o interesse do indivíduo com o da sociedade a que pertence. Só o nacionalismo tem em si a força moral necessária para significar altamente, aos olhos dos indivíduos, esse conceito admirável de espiritualidade criadora e sempre renovada nas virtudes da sua própria natureza, que o torna a ideia central e imanente, em volta da qual as energias e as vontades se tendem no esforço comum.
Só o nacionalismo como doutrina social compreende e ordena o instinto egoísta do homem, não considerando o indivíduo como fim da organização social, mas sim como função da nação, de sorte que a atividade e a saúde da vida nacional dele dependem, e que a prosperidade e a riqueza particular são uma direta sequência da riqueza e da prosperidade da nação. Só ainda o nacionalismo dá aos interesses individuais o significado duradouro e perdurável através do tempo consubstanciando-o com o interesse nacional, que é eterno, e, assim, no dinamismo constante da vida nacional o passado assegura o presente como o presente indica os tempos que hão-de vir.
Função do agregado nacional, o homem é, na concepção orgânica do nacionalismo integral, o beneficiário direto do interesse comum; o seu bem é o bem da nação e, da mesma maneira, o bem da nação é o seu próprio bem.
É o pensamento do Duque d'Orleães, futuro Rei de França.
« Tout ce qui est national est nôtre !»
Enfim, só o nacionalismo provado mais uma vez no sacrifício formidável dos milhões de mortos da conflagração europeia, que ora se apaga, representa, em realidade, a base segura em que o Estado se pode apoiar, pois que determina a cada um dos seus órgãos o papel da sua própria função, e assim pode manter a supremacia absoluta dos seus fins superiores, necessária ao triunfo material e moral do país ou da raça, que entregou a defesa dos seus destinos à sua protetora armadura.
A Floração Nacionalista
A Nação é um organismo que se renova por si próprio na vitalidade particular dos indivíduos ou das classes que lhe formam o sedimento. É uma manifestação natural do particularismo que cria em si próprio um círculo de independência e de liberdade; o instinto de solidariedade que os mesmos costumes e os mesmos interesses cromatizam, dando forma e capacidade sua à consciência colectiva dos povos em contraste e oposição de interesses e de costumes entre uns e outros.
Foi este grande princípio da autocriação nacionalista, ou da diferenciação automática das nações, que a conflagração europeia, de tão profundas consequências, confirmou de uma maneira francamente inequívoca. Retalha-se e colora-se num estranho xadrez o velho tabuleiro europeu. De toda a parte as vozes mais diversas e ignoradas ergueram o seu brado de fé particular, nacionalista.
A Finlândia, a Estónia, a Polónia, a Boémia, os checoslovacos, os jugoslavos, a Ucrânia, a Arménia, a Síria, o Egipto - todo esse formigueiro de novos povos que surgem ou ressurgem com a sua finalidade particular, a inteligência própria dos seus interesses e a cor específica dos seus sentimentos, no quadro da nova era, que uma fantástica aurora de ansiedade ilumina aos nossos olhos maravilhados.
E, depois, é ainda o aspecto do velho nacionalismo, renovado no imperialismo conquistador e absorvente da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos da América, do Japão, da Itália e da França, afirmando assim as suas eternas virtudes de coesão e de energia que ele inspira aos homens e que um comum pensamento abraça debaixo da mesma bandeira sagrada.
Foi este grande princípio da autocriação nacionalista, ou da diferenciação automática das nações, que a conflagração europeia, de tão profundas consequências, confirmou de uma maneira francamente inequívoca. Retalha-se e colora-se num estranho xadrez o velho tabuleiro europeu. De toda a parte as vozes mais diversas e ignoradas ergueram o seu brado de fé particular, nacionalista.
A Finlândia, a Estónia, a Polónia, a Boémia, os checoslovacos, os jugoslavos, a Ucrânia, a Arménia, a Síria, o Egipto - todo esse formigueiro de novos povos que surgem ou ressurgem com a sua finalidade particular, a inteligência própria dos seus interesses e a cor específica dos seus sentimentos, no quadro da nova era, que uma fantástica aurora de ansiedade ilumina aos nossos olhos maravilhados.
E, depois, é ainda o aspecto do velho nacionalismo, renovado no imperialismo conquistador e absorvente da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos da América, do Japão, da Itália e da França, afirmando assim as suas eternas virtudes de coesão e de energia que ele inspira aos homens e que um comum pensamento abraça debaixo da mesma bandeira sagrada.
Universalismo Socialista
Foi E. [Émile] Faguet quem afirmou esta verdade simples: «On ne peut pas établir du socialisme quelque part qu'en l'établissant partout; on ne pourra l'établir partout que quand il ny aura de patrie nulle part.»
Era o que no pensamento marxista se traduzia pelo conceito de «nação universal» que Jaurès aclamava do alto da tribuna parlamentar dias antes de os fados lhe pouparem o mais formidável desmentido![1]
Marchava-se ao universalismo socialista, à federação dos povos, à socialização de todas as coisas da Terra, à abolição das fronteiras, acreditava ele, e gritava a sua fé de romântico apaixonado na próxima vitória do internacionalismo ideológico e quimérico. Não tardou o trágico e rápido despertar do voluptuoso sonho de enganar. O sentido histórico do patriotismo através das leis ocultas da existência e do devir nacional acordou [de] súbito na consciência dos povos. Rebrilharam com ofuscante intensidade os traços de sangue que marcam as fronteiras na tradição gloriosa dos nossos maiores; ressurgiu mais perfeita, mais bela, mais necessária, a ideia sublime do sacrifício e do dever nacionalista, que tinha inspirado o heroísmo e o martírio, e cujo eco nos soava ainda no coração agradecido. Filhos de guerreiros, de navegadores ou de artistas, todos nós sentimos o aguilhão do dever ancestral; cavaleiros ou peões, senhores ou menestréis, um espírito de fraternidade atávico e sagrado sobre nós correu como uma ordenança de Deus. Todos defendemos os muros da Cidade cercada, do nosso inimigo, do inimigo que nós odiamos, com quem não tivemos mais relações que as da guerra.
Pela segunda vez a quimera do universalismo socialista desaparecia no fumo da batalha.
O Nacionalismo triunfava enquanto a Segunda Internacional se desfazia no pó de uma outra ilusão vivida.
Colocado perante o tremendo dilema, o operário viu então como era forte, e mais profundo do que ele jamais supusera, o sentimento intenso que o ligava através do tempo à sua terra e à sua Nação, à medida que, fugaz e ténue, a solidariedade das classes por sobre as fronteiras, solidariedade meramente subjetiva e puramente dogmatizada pelos especuladores da metafísica revolucionária.
O erro operário era sem desculpa, pois que a história da Primeira Internacional era por si bastante concludente. Conheciam-na eles? A sua ignorância é a única atenuante.
Vamos a ver como as tradições da Primeira Internacional foram bem seguidas e corrigidas, para pior, na «Segunda Internacional Operária», e como a lição proveitosa da História não permite a ninguém uma sombra de ilusão sobre a mentira em que assenta bases o socialismo internacional
[1] Jean Jaurès, como todos se lembram, foi assassinado por Vilain no dia 31 de Julho de 1914, horas antes da declaração de guerra da Alemanha à França.
Era o que no pensamento marxista se traduzia pelo conceito de «nação universal» que Jaurès aclamava do alto da tribuna parlamentar dias antes de os fados lhe pouparem o mais formidável desmentido![1]
Marchava-se ao universalismo socialista, à federação dos povos, à socialização de todas as coisas da Terra, à abolição das fronteiras, acreditava ele, e gritava a sua fé de romântico apaixonado na próxima vitória do internacionalismo ideológico e quimérico. Não tardou o trágico e rápido despertar do voluptuoso sonho de enganar. O sentido histórico do patriotismo através das leis ocultas da existência e do devir nacional acordou [de] súbito na consciência dos povos. Rebrilharam com ofuscante intensidade os traços de sangue que marcam as fronteiras na tradição gloriosa dos nossos maiores; ressurgiu mais perfeita, mais bela, mais necessária, a ideia sublime do sacrifício e do dever nacionalista, que tinha inspirado o heroísmo e o martírio, e cujo eco nos soava ainda no coração agradecido. Filhos de guerreiros, de navegadores ou de artistas, todos nós sentimos o aguilhão do dever ancestral; cavaleiros ou peões, senhores ou menestréis, um espírito de fraternidade atávico e sagrado sobre nós correu como uma ordenança de Deus. Todos defendemos os muros da Cidade cercada, do nosso inimigo, do inimigo que nós odiamos, com quem não tivemos mais relações que as da guerra.
Pela segunda vez a quimera do universalismo socialista desaparecia no fumo da batalha.
O Nacionalismo triunfava enquanto a Segunda Internacional se desfazia no pó de uma outra ilusão vivida.
Colocado perante o tremendo dilema, o operário viu então como era forte, e mais profundo do que ele jamais supusera, o sentimento intenso que o ligava através do tempo à sua terra e à sua Nação, à medida que, fugaz e ténue, a solidariedade das classes por sobre as fronteiras, solidariedade meramente subjetiva e puramente dogmatizada pelos especuladores da metafísica revolucionária.
O erro operário era sem desculpa, pois que a história da Primeira Internacional era por si bastante concludente. Conheciam-na eles? A sua ignorância é a única atenuante.
Vamos a ver como as tradições da Primeira Internacional foram bem seguidas e corrigidas, para pior, na «Segunda Internacional Operária», e como a lição proveitosa da História não permite a ninguém uma sombra de ilusão sobre a mentira em que assenta bases o socialismo internacional
[1] Jean Jaurès, como todos se lembram, foi assassinado por Vilain no dia 31 de Julho de 1914, horas antes da declaração de guerra da Alemanha à França.