A Nossa Revolução
António Sardinha
...não nos surpreendemos, pois, ao ouvi-los [- aos republicanos -] agora bradar-me que a questão não é de homens, e sim de regimes, que a tara insanável da república está na mesma república.
- António Sardinha
- António Sardinha
António Sardinha reflete sobre a trajetória política de Portugal, defendendo que os acontecimentos trágicos dos últimos anos prepararam o país para uma mudança profunda. Destaca o assassinato de figuras republicanas como Machado Santos e Carlos da Maia como símbolo da instabilidade gerada nas lutas pelo poder e argumenta que o verdadeiro problema reside no regime republicano, não apenas nas pessoas que o servem. Apresenta o Integralismo Lusitano como resposta ao estado de espírito nacional, defendendo uma preparação vigilante e confiante, baseada tanto no esforço próprio quanto na fé em Deus. O texto termina com uma nota de esperança, evocando o despertar de um sentimento e expectativa de renovação patriótica, simbolizada pelo grito uníssono de “Portugal!”.
A NOSSA REVOLUÇÃO
Dizia um grande orador sagrado francês que Deus não permite os fins sem primeiro preparar os meios. Olhando atrás, nós vemos como essa máxima profunda encontra plena confirmação no desenrolar trágico da política portuguesa nos últimos onze anos. Na realidade, o que teria sido em 1912 ou em 1914, ou ainda mesmo em 1919, a restauração da Monarquia? A volta pura e simples de um partido que embora depositário de instituições nacionais, ou acabaria depressa nos compromissos que suicidam ou esgotar-se-ia irremediavelmente no esforço contínuo de uma contínua repressão. A hora, sentimo-lo bem no atual momento, a hora desejada do resgate não poderia nunca soar então, porque na lógica secreta dos acontecimentos o mal não atingira ainda o remate da sua curva fatal, nem aos olhos da maior parte dos portugueses as verdades que defendemos se apresentavam claras e intuitivas como já hoje se apresentam.
Eu não quero sublinhar a tremendíssima significação moral dos assassinatos de Machado dos Santos e Carlos da Maia, sobretudo. Sinceros e honestos no seu republicanismo, eles que insurrecionaram contra o poder legítimo as tropas de terra e mar, caíram infamemente varados pelos braços que na sua ingenuidade romântica por si próprios armaram, ao deslocar para o povo da rua o eixo da autoridade que só reside na aceitação voluntária da disciplina e nas forças imorredouras da tradição. Vítimas da sua obra, a morte dos dois honrados marinheiros elucida-nos bem sobre as responsabilidades terríveis dos homens que, pela ação ou pelo pensamento, pretendem influir no curso da história e na alma das coletividades.
Mas outra lição, mais alta, porventura se desprende de tão dramático epílogo. E é que a sociedade não conhece mais a paz desde que o Poder se constitui em pomo de ouro que será do primeiro que lhe deite a mão.
Exclamava de uma vez Berryer que um princípio triunfa por duas maneiras: ou aplicando-se integralmente e produzindo o bem, ou assistindo à aplicação do princípio contrário, que só produz o mal. Tal é a nossa vitória – dolorosa vitória! – em face da epilepsia macabra em que Portugal parece debater-se. Não a vitória definitiva, mas a vitória que preparará a outra, cuja luminosidade reparadora e forte transparece já para além dos horizontes!
Efetivamente, o que dantes se reputava como gratuita afirmação estoica da nossa parte, já desceu ao entendimento dos que são capazes de pensar e sentir por si próprios, obrigados a isso pela paixão e morte iminente da Pátria. Não nos surpreendemos, pois, porque naturalmente o esperávamos no experimentalismo jamais desmentido das nossas doutrinas, não nos surpreendemos, pois, ao ouvi-los agora bradar-me que a questão não é de homens, e sim de regimes, que a tara insanável da república está na mesma república e não na gente que a serve e que decerto haverá razões de ordem imediata para que um povo, brando e pacífico como o nosso, se vá de dia para dia asselvajando canibalescamente.
Limito-me a registar um estado de espírito de que o Integralismo é a definição antecipada e que não tardará a consolidar-se de novo nas formas salvadoras que ele representa. Suponho ser esta a nossa «revolução», que sem a restauração nacional por que nos batemos dificilmente seria possível. Não nos gastamos, portanto, num estéril conceito oposicionista, a derrubar a república com tropos inflamados: como no episódio dos Evangelhos, o que é preciso é estar vigilante, de lâmpada permanentemente acesa, para quando a ocasião nos bater à porta nos achar de alma pronta e ânimo prevenido. Hoje? Amanhã? Não sabemos.
O que sabemos é que, providencialistas como devemos ser, contamos connosco e contamos com Deus. Contamos connosco, exercitando-nos numa atalaia constante para o combate que se avizinha. Contamos com Deus, lembrando-nos de que sem Ele debalde os defensores da Cidade guardarão o seu muro contra o inimigo que ronda na treva – conforme rezam os Livros Santos.
De coração erguido uma coisa verificamos já. É a adesão do país às instituições que ele adivinha, mas sem as encontrar ainda, no seu desejo cada vez mais forte de viver e de trabalhar. A consciência da nacionalidade resolve-se a despertar do sonambulismo torpe em que a tinham sepultado os erros de mais de um século. São as vésperas do novo milagre de Ourique, tão florido e tão belo como o primeiro. E quando nos relógios do tempo o grande minuto soar, ao perguntarem-nos dos arraias contrários: «Quem vem lá?», uma voz unânime, clamorosa e alegre, como se fosse a da Pátria inteira, responderá singelamente:
Portugal!
1921.
in Glossário dos Tempos, 1942.
Eu não quero sublinhar a tremendíssima significação moral dos assassinatos de Machado dos Santos e Carlos da Maia, sobretudo. Sinceros e honestos no seu republicanismo, eles que insurrecionaram contra o poder legítimo as tropas de terra e mar, caíram infamemente varados pelos braços que na sua ingenuidade romântica por si próprios armaram, ao deslocar para o povo da rua o eixo da autoridade que só reside na aceitação voluntária da disciplina e nas forças imorredouras da tradição. Vítimas da sua obra, a morte dos dois honrados marinheiros elucida-nos bem sobre as responsabilidades terríveis dos homens que, pela ação ou pelo pensamento, pretendem influir no curso da história e na alma das coletividades.
Mas outra lição, mais alta, porventura se desprende de tão dramático epílogo. E é que a sociedade não conhece mais a paz desde que o Poder se constitui em pomo de ouro que será do primeiro que lhe deite a mão.
Exclamava de uma vez Berryer que um princípio triunfa por duas maneiras: ou aplicando-se integralmente e produzindo o bem, ou assistindo à aplicação do princípio contrário, que só produz o mal. Tal é a nossa vitória – dolorosa vitória! – em face da epilepsia macabra em que Portugal parece debater-se. Não a vitória definitiva, mas a vitória que preparará a outra, cuja luminosidade reparadora e forte transparece já para além dos horizontes!
Efetivamente, o que dantes se reputava como gratuita afirmação estoica da nossa parte, já desceu ao entendimento dos que são capazes de pensar e sentir por si próprios, obrigados a isso pela paixão e morte iminente da Pátria. Não nos surpreendemos, pois, porque naturalmente o esperávamos no experimentalismo jamais desmentido das nossas doutrinas, não nos surpreendemos, pois, ao ouvi-los agora bradar-me que a questão não é de homens, e sim de regimes, que a tara insanável da república está na mesma república e não na gente que a serve e que decerto haverá razões de ordem imediata para que um povo, brando e pacífico como o nosso, se vá de dia para dia asselvajando canibalescamente.
Limito-me a registar um estado de espírito de que o Integralismo é a definição antecipada e que não tardará a consolidar-se de novo nas formas salvadoras que ele representa. Suponho ser esta a nossa «revolução», que sem a restauração nacional por que nos batemos dificilmente seria possível. Não nos gastamos, portanto, num estéril conceito oposicionista, a derrubar a república com tropos inflamados: como no episódio dos Evangelhos, o que é preciso é estar vigilante, de lâmpada permanentemente acesa, para quando a ocasião nos bater à porta nos achar de alma pronta e ânimo prevenido. Hoje? Amanhã? Não sabemos.
O que sabemos é que, providencialistas como devemos ser, contamos connosco e contamos com Deus. Contamos connosco, exercitando-nos numa atalaia constante para o combate que se avizinha. Contamos com Deus, lembrando-nos de que sem Ele debalde os defensores da Cidade guardarão o seu muro contra o inimigo que ronda na treva – conforme rezam os Livros Santos.
De coração erguido uma coisa verificamos já. É a adesão do país às instituições que ele adivinha, mas sem as encontrar ainda, no seu desejo cada vez mais forte de viver e de trabalhar. A consciência da nacionalidade resolve-se a despertar do sonambulismo torpe em que a tinham sepultado os erros de mais de um século. São as vésperas do novo milagre de Ourique, tão florido e tão belo como o primeiro. E quando nos relógios do tempo o grande minuto soar, ao perguntarem-nos dos arraias contrários: «Quem vem lá?», uma voz unânime, clamorosa e alegre, como se fosse a da Pátria inteira, responderá singelamente:
Portugal!
1921.
in Glossário dos Tempos, 1942.