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Hispanismo e Latinidade

António Sardinha

RESUMO

​​Hispanismo e Latinidade
  • O Valor do Entendimento Franco-Espanhol e a Confissão de Maurras. O texto destaca como Charles Maurras, figura central do pensamento contrarrevolucionário francês, reconhece finalmente o valor de um entendimento sincero entre França e Espanha para a restauração das "forças latinas". Para António Sardinha, esta confissão valida a sua cruzada intelectual em prol de um maior conhecimento da Espanha, tradicionalmente vista de forma distorcida em França. Maurras, ao admitir a existência de uma dissonância durante a guerra — em que o espírito espanhol por vezes se alinhou com o inimigo —, apela ao perdão fraterno e à superação das dissidências históricas, propondo substituir a desconfiança pela amizade entre povos de civilização e educação comuns.
  • O Alargamento do Nacionalismo e o Princípio de União Latina. A atitude de Maurras representa um avanço em relação ao antigo nacionalismo da Action française, frequentemente hostil e até anticristão. Movido pelas lições da história, Maurras propõe restabelecer laços internacionais, reconhecendo que povos com uma certa comunidade de espírito se compreendem mais facilmente — um princípio fundamental de união. Assim, surge a ideia de um património comum superior aos nacionalismos individuais: a Latinidade.
  • Latinidade: Definição e Relação com o Catolicismo. Maurras alerta para a necessidade de definir Latinidade de modo rigoroso, criticando a confusão frequente entre o génio da raça e elementos que lhe são opostos. Para ele, raça e cultura estão indissoluvelmente ligados à Religião, identificando a Latinidade com o Catolicismo, que considera a sua essência e razão de ser imortal. Sardinha acrescenta que, antes mesmo do Catolicismo, a Península Ibérica já contribuía de forma decisiva para a formação da Latinidade, desde figuras como Séneca e Trajano até à difusão do cristianismo e à defesa da civilização europeia contra a expansão islâmica.
  • A Contribuição Hispânica para a Civilização Ocidental. Sardinha evidencia a importância histórica de Portugal e Espanha na transmissão do saber oriental à Europa, na expansão da cristandade e na criação de novas nacionalidades. A ação dos portugueses na Índia e dos espanhóis no Novo Mundo é vista como fundamental para o reforço dos valores cristãos e da ordem europeia, em contraste com alianças e opções políticas de outros países, como a França de Francisco I. Sardinha sublinha que o génio hispânico, em Portugal e Castela, é a verdadeira coluna dorsal da Latinidade, reconhecido até pelo próprio Maurras, que procura reparar a injustiça histórica cometida por intelectuais franceses como M. Masson.
  • O Catolicismo como Expressão Social Hispânica. A ligação profunda entre Catolicismo e identidade espanhola é salientada como um traço distintivo, que vai além da simples adesão religiosa, sendo uma expressão social genuína. Esta característica explica o papel de espanhóis e portugueses como "criadores de nacionalidades", cuja vocação universal permanece intacta enquanto o princípio vivificador católico subsistir.
  • O Papel de Marius André e a Reinterpretação da Emancipação Hispano-Americana. No prefácio ao livro de Marius André -  La fin de l’empire espagnol d’Amérique - Maurras reconhece a importância da herança moral espanhola na reorganização das "forças latinas". André, conhecedor profundo da Espanha, refuta preconceitos e erros difundidos sobre a colonização espanhola na América, defendendo que o império foi mantido durante séculos sem exército profissional graças a um sistema de governo mais humano e paternal para com indígenas e crioulos, em consonância com tradições da república romana.​ André sustenta que a guerra de emancipação hispano-americana foi, na verdade, uma guerra civil entre americanos de diferentes visões, e que a independência e a república nasceram da fidelidade ao regime espanhol e à religião católica, e não como filhas da Revolução Francesa. Assim, a revolução hispano-americana é interpretada como uma reação contra o anticlericalismo da Revolução Francesa, reposicionando o papel do Catolicismo e da tradição na formação das novas repúblicas americanas.
  • O Significado Social e Político do Hispanismo. Sardinha conclui defendendo que o reforço da latinidade — entendido como reforço da Cristandade — é essencial para a unidade das forças latinas, capaz de unir o Atlântico num abraço de juventude eterna, graças ao milagre sempre vivo do hispanismo. O Oceano das Descobertas é visto como um novo "Mare nostrum", resultado do esforço conjunto de portugueses e espanhóis, impulsionados pelo mesmo amor à Fé e ao Império.
  • Conclusão: Um Cântico à Latinidade e à Amizade Hispano-Francesa. A última imagem do texto é a de Maurras, inspirado pela tradição provençal e por Mistral, entoando um cântico em honra da Espanha magnânima. Sardinha celebra o triunfo do entendimento latino, preferindo, contudo, redobrar esforços para que a unidade e o espírito de latinidade se consolidem de forma duradoura, superando hiatos históricos e preconceitos seculares.


​HISPANISMO E LATINIDADE

I

Alegremo-nos! Charles Maurras acaba de encarar pela primeira vez o valioso concurso que à restauração das "forças latinas" pode trazer um entendimento sincero da França com a Espanha. Se há consolações intelectuais para quem labuta noite e dia na seara vasta das ideias, eis aqui uma delas! A confissão do ilustre mestre do pensamento contrarrevolucionário confirma-me na cruzada que iniciei com todo o afinco da minha modesta pena em favor de um maior conhecimento da grande nação a que Mistral chamava a "Espanha magnânima", é Maurras que no-lo recorda, e que até agora vivia para o figurino mental importado de Paris quase como uma afloração de africanismo dentro da comunidade europeia.

Nobremente declara Charles Maurras que durante a guerra, se a Espanha permaneceu oficialmente neutral, o seu coração e o seu espírito vibraram em mais de uma ocasião de acordo com o inimigo. «Ni je ne m'étonne, ni je ne m'irrite, ni je ne me plains, cela serait trois fois indigne d'une philosophie politique», escreve Maurras. « Je constate votre hiatus d'une belle cadence. Ce hiatus aurait pu être évité.» Ora como é preciso fugir a que essa dissonância se repita de futuro numa outra estrofe épica, Charles Maurras acrescenta: «Que nos amis espagnols nous le pardonnent donc, comme des frères de civilisation et d'éducation: nous aspirons à faire disparaître nos dissidences et à remplacer la défiance par l'amitié.»

Conservo no seu acento original as palavras do eminente preceptor da Contra-Revolução. Representam, concordemos! – um alargamento sensível do antigo nacionalismo da Action française, com frequência bem molesto e até anti-cristão no enunciado das suas reivindicações. Mas tocado pela lição procedente das realidades e dos tempos, Maurras resolve sair dos paliçados da velha cidade gaulesa e restabelecer a sociedade internacional desfeita, estendendo a mão acolhedoramente a parentes e vizinhos. E tudo porque, no deflagrar de tantos e tão inquietantes problemas, «justement pour débattre leurs intérêts, les peuples animés d'une certaine communauté d'esprit se comprennent plus facilement que les autres, et c'est un principe d'union». De modo que, superior ao nacionalismo peculiar a cada uma das pátrias ocidentais, um património mais amplo se alevanta, a que é imperioso acudir: a Latinidade.

Importa, porém, definir o que seja Latinidade nos seus termos exatos. «O historiador filósofo – observa Maurras – admirar-se-á um dia que tantos oradores e poetas italianos, franceses, espanhóis e até valões pudessem confundir com o génio da raça o que lhe era mais diretamente oposto: não se compreenderá sem dificuldade que tantos Latinos apaixonados, alguns mesmo eminentes, renegassem, em nome da Latinidade, o essencial à herança comum a todos os Latinos.» E o facto da raça e da cultura aparece para Charles Maurras ligado indissoluvelmente ao facto da Religião. Assim a Latinidade se identifica com o catolicismo, que é a sua medula e a sua razão de ser imortal.

Desde que Maurras abriu janelas mais rasgadas no seu nacionalismo, decerto se apercebeu logo que a Latinidade, ainda antes de depurada e vivificada pelo fermento de Cristo, já recebera do génio hispânico um inolvidável e poderosíssimo esforço.

De Séneca e Lucano aos imperadores Trajano e Teodósio, é a Península Ibérica que transfunde nas várias camadas de Roma o seu sangue moço e seivoso. A aptidão colonizadora dos seus filhos, séculos depois magnificamente afirmada na criação de mais de vinte nacionalidades americanas, cedo se traduz em Trajano lançando os alicerces da moderna Roménia com colonos levados daqui. E não me parece despropositado lembrar que o povo romeno possui no seu idioma um vocábulo – dor – que, sendo inexprimível, só é comparável à nossa saudade. («Je n'ai trouvé le presque équivalent que dans la langue de nos frères portugais, la saudade», diz a poetisa romena Adrio Val na sua conferência Poètes Roumains.) Triunfa o cristianismo na Península e a feição católica do génio hispânico reveste-se de tal universalidade que nós quase podemos asseverar ser o hispanismo, depois do catolicismo, a base fundamental do conceito de Latinidade. Na Idade-Média não só salvámos a civilização dominando o crescer da onda maometana, como transmitimos à restante Europa o que do Oriente viera até à Península em aquisições de cultura por intermédio das escolas e dos filósofos árabes. Os trabalhos recentes do professor Asín Palacios ensinam-nos como São Tomás e como Dante foram intelectualmente nossos tributários.

Sucedem-se as Descobertas e com elas uma nova dilatação da cristandade, trazendo-se à ciência novos horizontes e novas soluções. Sem reserva e sem desprimor, nessa hora máxima da história, que Charles Maurras continua adornando com o falso prestígio da Renascença, enquanto os portugueses na Índia feriam o Islamismo pelas costas, impedindo o seu avanço até ao coração da Europa Central, e Carlos V limpava de piratas, com a nossa colaboração, o antigo mar latino, e defendia a Igreja dos assaltos da reforma – em França, Francisco I não hesitava em se aliar ao Turco e em pactuar com o Protestantismo.

Por isso nós merecemos um Camões – intérprete supremo da consciência culta e religiosa daquela época, ao passo que a França, discípula – acentue-se – dos nossos humanistas, se contentava consigo própria escutando o diálogo de Ronsard com as Musas à sombra da vinha de mestre Horácio.

E o inventário não terminaria ainda, se de mais carecêssemos para demonstrar como o génio hispânico nas suas duas metades inseparáveis – Portugal e Castela – constitui, na verdade, pelo carácter universal da sua vocação histórica, a coluna dorsal da Latinidade. Reconhece-o Maurras, finalmente, reabilitando a sua pátria do juízo sumário de M. Masson, ao perguntar, em 1782, na Enciclopédia: «Mais que doit-on à l'Espagne? Et depuis deux siècles, depuis quatre, depuis six qu'a-t ‘elle fait pour l’Europe ?» E reconhece-o, porque, seguindo com o seu espírito penetrante a moralidade que a história da obra civilizadora da Espanha no Novo Mundo oferece à meditação de todo o pensador, teve que se render à necessidade de expurgar da inteligência francesa a mentira que nela incrustara a interrogação caluniosa de M. Masson. Por mais de um século a Espanha sofreu as campanhas sistemáticas do ódio jacobino, que nunca lhe perdoou, com o ser o baluarte firme da Igreja contra a Reforma e contra o Judaísmo, a sua adesão incondicional ao primado augustíssimo de Roma. É que o Catolicismo representa alguma coisa de próprio na conformação da alma espanhola, a ponto de o devermos tomar na Península como uma genuína expressão social, quando na vida dos outros povos se manifesta só de fora para dentro – pelo lado ecuménico da sua natureza religiosa.

​II
Assim se explica que espanhóis e portugueses mereçam verdadeiramente o nobre título de "criadores de nacionalidades". Não se perderam decerto essas virtudes ancestrais, desde que se mantém intacto o seu princípio vivificador. Tal é o que Charles Maurras sugere ao numeroso convívio dos seus discípulos no prefácio que estampou à frente do livro de Marius André, La fin de l’empire espagnol d’Amérique.

A base americana tantas vezes acentuada por mim como motivo imediato de uma aproximação entre Espanha e Portugal, foi evidentemente o elemento que mais pesou na reflexão de Maurras. Ao dirigir-se à Espanha em acto de penitência pública, considera Maurras inteligentemente o tesoiro das suas grandes energias morais como preâmbulo essencial a uma definitiva reorganização das "forças latinas", sinónimo evidente das forças da ordem. Conhecida a separação profundíssima de espírito que põe entre a Espanha e a França uma divisória bem mais intransponível que a linha geográfica dos Pirineus, dificilmente se marchava para um entendimento das possibilidades ocidentais da contrarrevolução, visto ser, sobretudo, no tradicionalismo espanhol que existe, por causa do justo orgulho patriótico, o maior ressentimento da Espanha para com a França.

O primeiro passo deu-se, porém, e deu-se com notável espontaneidade por parte de Charles Maurras. Compreendeu Maurras que unicamente por intermédio da Espanha será possível a agremiação contrarrevolucionária da América-Hispânica. E eu não exagero acrescentando que só por semelhante facto a contrarrevolução ganhou uma importante e decisiva batalha. Outro não é o sentido social do livro de Marius André.

Viveu Marius André bastante tempo em Espanha. Como nota pessoal direi aqui que num pequeno grupo de rapazes galegos a que por vezes me associava, encontrei vestígios da sua passagem, e não supondo, porém, a que espécie de trabalho o seu espírito tão metódico e objetivo se andava dedicando. E como todo o estrangeiro que familiarmente se senta à lareira da boa e acolhedora Castela, Marius André deixou-se possuir pelo secreto encanto dessa grande Madre caluniada. Pois foi com gentil desassombro que lhe pagou a sua dívida de hospitalidade, corrigindo os erros e as falsidades que a respeito da ação de Espanha na América pululam à farta nos manuais de ciência oficial, todos bebendo da mesma fonte – o alemão Gervinus.

A tese sustentada e plenamente demonstrada por Marius André em relação à guerra da Emancipação, na América espanhola, é a que ele lapidou num período transparente: «A guerra hispano-americana é uma guerra civil entre Americanos que querem, uns a continuação do regime espanhol, outros a independência com Fernando VII ou um dos seus parentes como rei, ou ainda debaixo do regime republicano.»

Não acompanharei Marius André na sua refutação, aliás bem fácil, das acusações tornadas já proverbiais sobre os processos colonizadores da Espanha. Não obstante, registarei uma passagem sua. «A Espanha, observa – empobrecida, despovoada, em estado quase de guerra permanente na Europa, tinha podido, durante mais de trezentos anos, conservar um longínquo império, o maior que o mundo conhecera até à data, sem exército profissional, graças a um sistema de governo que, se não foi sempre o mais inteligente quanto ao ponto de vista económico, foi, pelo menos, o mais humano e o mais paternal de todos para com os indígenas e os crioulos e, pelo que respeita a certos aspectos, o mais conforme com as tradições da república romana.»

E contrariamente à opinião mantida pelo lugar-comum em voga durante perto de cem anos, o autor de La fin de l’empire espagnol condensa no trecho seguinte aquela parte de verdade que o seu estudo acaba de trazer ao património intelectual da Latinidade – mas da Latinidade Católica, não da Latinidade Maçónica. «Para que o movimento de emancipação apaixonasse as massas, triunfasse e concluísse na república, foi necessário que o povo espanhol se revoltasse contra Napoleão e que os súbditos de Além-mar recusassem também submeter-se ao usurpador. A independência e a república nasceram na América das unânimes manifestações de fidelidade ao regime decaído e à religião católica.»

A revolução hispano-americana será, pois, não uma filha da revolução francesa, como o afirmam numerosos historiadores europeus, mas, ao contrário, uma reacção contra essa revolução, sobretudo no que ela teve de anti-religioso. O aspecto da questão transforma-se inteiramente. E embora assome nоvolume de Marius André, numa ligeira referência e um tanto encoberta na designação vaga de "infante Charlotte", como se enche de extraordinária claridade a atitude da nossa D. Carlota Joaquina perante o lealismo borbónico dos seus adeptos de Montevideu e Buenos Aires! Já na sua política americanista a esposa de D. João VI revelara com tacto admirável, mas naturalíssimo numa filha e neta de Reis, aquela firmeza e superior clarividência que mais tarde manifestaria na defesa da sociedade tradicional.

E não prossigo no desfile de ideias que o livro de Marius André logicamente me suscita. O seu significado parece-me que ficou assente e bem definido. Creio que o destino lhe reserva, por meio do inolvidável prefácio de Charles Maurras, um papel de infinito alcance na dissipação dos preconceitos, que adentro da mesma cidadela católica e monárquica incompatibilizaram até agora franceses e espanhóis. Se das fileiras da Revolução saiu há um século a pergunta injuriosa de M. Masson, das hostes da contrarrevolução responde-lhe enfim vitoriosamente o autor da Enquête sur la Monarchie.

Por nosso lado, com as nossas campanhas peninsularistas, gostosamente temos contribuído para esse aumento de latinidade – o mesmo é que de Cristandade – que Maurras preconiza.

Bem podíamos agora festejar o triunfo legítimo de uma iniciativa que só a nós em Portugal nos pertence! Preferimos, porém, redobrar de energia no caminho percorrido, para que a unidade das forças latinas, enlaçando o Atlântico num abraço de eterna juventude, desenvolva o seu voo amplíssimo, graças ao milagre sempre vivo do hispanismo.
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No ondular da sua cadência heroica, o Oceano das Descobertas tornar-se-á um mar doméstico – um sorridente Mare nostrum de águas quietas e azuis. Assim o quer o esforço de espanhóis e portugueses, conjugados outrora no mesmo amor da Fé e do Império, quando Francisco I se aliava ao Turco, arrancando a Camões um rugido de indignação. Mas o hiato adoçou-se até desaparecer de todo e dir-se-ia que a Musa da Epopeia levanta a voz sonora e grandíloqua. Silêncio!

​Assistido da cigarra divina da Provença, é Charles Maurras que está entoando, em honra da Espanha magnânima, a saudação do velho Mistral.

(1922)

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​[ negritos acrescentados ] 

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