ESTUDOS PORTUGUESES
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        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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​AS «CARTAS» DA FREIRA

António Sardinha

As «Cartas» da Freira: Análise Crítica e Contextual
  • I. A Questão da Autoria das Cartas Portuguesas. António Sardinha inicia a sua reflexão destacando uma concordância entre ele e Rousseau, relacionada à autenticidade das famosas «Cartas portuguesas». Rousseau, na Lettre à M. d’Alembert, aposta que as cartas foram escritas por um homem. Sardinha observa que, desde sua publicação em Paris em 1669, as «Cartas» geraram um extenso debate, com hipóteses que, por si só, formam um romance mais turbulento que os próprios conflitos nelas narrados. Chamando a atenção para a lucidez de Rousseau e comparando-o a Camilo Castelo Branco, Sardinha nota que este último também rejeitou a autoria das cartas por uma freira alentejana, baseando-se em genealogias e notícias familiares. Camilo, ao tratar da árvore genealógica de Soror Mariana, conclui que, ainda que tenha existido uma religiosa chamada Mariana Alcoforado em Beja, atribuir-lhe a autoria das cartas pode ser apenas fruto da ficção romântica. Sardinha salienta o artifício literário presente nas cartas e argumenta que a aura de sofrimento associada à obra deriva de uma sentimentalidade romântica exacerbada no século XIX, especialmente após as primeiras tentativas de tradução ao português por Filinto Elísio, Luciano Cordeiro e outros.
  • O Ultrarrromantismo e a Construção do Mito. Sardinha distingue o Romantismo, que renovou a literatura portuguesa, do ultrarromantismo, responsável por distorções profundas nos sentimentos nacionais. O exemplo das «Cartas» serve para ilustrar os efeitos perniciosos do ultrarromantismo, que, influenciado pelo modelo francês, procurou adaptar a obra ao gosto lusitano. Autores como Filinto Elísio, Morgado de Mateus, António Pedro Lopes de Mendonça e Herculano participaram desse esforço, mas as tentativas de resgatar o texto original revelam inconsistências e anacronismos. O debate sobre a condição social de Mariana Alcoforado, a sua família e a suposta nobreza dos Alcoforados em Beja é outro ponto de discussão. Sardinha desmonta exageros genealógicos e mostra que, apesar de ostentarem brasão, eram de modesta nobreza provinciana. O cruzamento entre os Alcoforados e os Albuquerques de Monforte e Portalegre, bem como a origem judaica destes últimos, evidencia o carácter heterogéneo dessas famílias.
  • ​Interpretações e Exageros dos Comentadores. As interpretações de Teófilo Braga e Luciano Cordeiro são criticadas por Sardinha, que aponta a falta de rigor lógico e o abuso de explicações fantasiosas. Detalhes como o uso do «Dom» por Mariana ou a ameaça de vingança familiar são vistos como extrapolações românticas inadequadas. O autor ironiza certas deduções sobre comunicações postais no século XVII e destaca que as glosas exageradas privam o tema da seriedade necessária. A análise médica e psicológica do Dr. Asdrúbal de Aguiar, que classifica Mariana como masoquista, é tratada como exemplo de descalabro intelectual, influenciado por teorias já desacreditadas. Sardinha critica o uso das cartas como base para diagnósticos retrospectivos e lamenta que inclusive estudiosos prudentes, como Fidelino de Figueiredo, cedam a tais interpretações.
  • II. O Texto das Cartas e a Língua Original. Sardinha aprofunda o comentário sobre a tendência romântica de apropriação das «Cartas», notando que o ultrarromantismo nacional se projectou nelas, gerando um cortejo de frases e interpretações muitas vezes sem sentido. Apenas o estudo de Luciano Cordeiro é considerado digno de complacência pela sua sinceridade.
  • O Debate Sobre a Tradução. Retomando a hipótese de Alexandre Herculano e do Conde de Sabugosa, segundo a qual as cartas seriam originalmente escritas em francês, Sardinha apresenta as reflexões de Afonso Lopes Vieira, que defende que o texto francês é o original e que as versões portuguesas não conseguem capturar o perfume do estilo autêntico. Luciano Cordeiro e Morgado de Mateus sustentam a tese de uma tradução quase literal do português para o francês, apontando construções sintáticas que revelariam o fundo lusitano. No entanto, Sardinha questiona essa hipótese, argumentando que Soror Mariana, se tivesse formação literária, não dominaria o francês a ponto de redigir as cartas nessa língua. O uso do francês em Portugal só se popularizou após a chegada de Maria Francisca de Savóia à corte, e mesmo assim restrito à alta aristocracia. Sardinha conclui que a hipótese de autoria das cartas por Soror Mariana em francês não resiste a uma análise crítica. Rousseau, ao apostar na autoria masculina, percebe o artificialismo e a convencionalidade presentes nas cartas.​
  • III. Especulação Editorial e Veracidade Histórica. Sardinha cita Camilo Castelo Branco, que sugere que Soror Mariana não escreveu as cartas, mas apenas emprestou seu nome e amor à ficção. A única evidência positiva é a nota manuscrita encontrada por Boissonade, que associa o nome de Mariana Alcoforado às cartas, mas sem valor absoluto. O autor defende a necessidade de examinar criticamente essa nota e considera plausível que a associação do nome tenha resultado de coincidências editoriais.
  • O Destinatário das Cartas. O papel de Chamilly como destinatário das cartas é questionado por biografias e estudos posteriores. Saint-Simon, ao retratar Chamilly, duvida que ele pudesse inspirar o amor intenso das cartas ou que tivesse capacidade literária para responder à religiosa. O surgimento das respostas às cartas é visto como uma «pure spéculation de librairie», ou seja, resultado de interesses editoriais, não de realidade histórica. Sardinha observa que, mesmo que tivesse havido um romance entre Chamilly e uma freira portuguesa, as cartas não foram escritas por Mariana, nem em português, nem em francês. O problema das cartas, portanto, é resultado de especulações editoriais e de uma construção literária artificial.
  • IV. O Significado das Cartas na literatura europeia. Impossibilitado de determinar a autoria definitiva das cartas, Sardinha volta-se para o significado que elas assumem ao serem consideradas produto literário, não pessoal. As «Cartas» passam a representar uma tendência geral de sensibilidade e gosto, evidenciando a influência do lirismo peninsular no rígido classicismo francês. Sardinha traça paralelos com a influência da novela «Astréa» de Honoré d’Urfé, derivada da «Diana» de Jorge de Montemor, e com a obra «Sonnets from the Portuguese» de Elizabeth Barrett Browning, que também utilizam o mito do amor português como referência de sensibilidade.
  • O Lirismo Português e a Recepção Francesa. A transposição da sensibilidade portuguesa para a França do século XVII é analisada através de testemunhos literários e sociais, como Tirso de Molina e Lope de Vega, que reconhecem o caráter apaixonado dos portugueses. O marquês de Cascais é citado como exemplo do «Português derretido», reforçando o estereótipo do sentimento intenso na cultura francesa. O estilo português, «mais poético que oratório», é considerado difícil de traduzir para o francês. Sardinha sugere que o sucesso das «Cartas» advém justamente de introduzirem na França um modo de sentir e amar desconhecido à sociedade de Descartes e Pascal, inaugurando assim uma psicose pré-romântica. Ao despir as cartas de seu aspecto pessoal e romanesco, Sardinha propõe que elas sejam vistas como capítulo importante para a história da sensibilidade portuguesa, inspirando gêneros epistolares e obras como «La Nouvelle Héloïse» e «Les Liaisons dangereuses».
  • V. Conclusão: Revisão Crítica e Valor Cultural. Sardinha encerra seu estudo sugerindo que o verdadeiro valor das «Cartas» reside menos na sua autoria individual e mais no papel que desempenharam como documento da influência espiritual portuguesa na Europa. Ele defende uma revisão implacável e sistemática dos mitos e convencionalismos que cercam o tema, propondo que se valorize o impacto cultural e literário do lirismo português, ao invés de perpetuar o melodrama da freira apaixonada. O autor conclama a coragem intelectual para encarar a verdade dos fatos e contribuir para a restauração da fisionomia moral da Pátria, livre das distorções ultrarromânticas que marcaram a recepção das «Cartas».




​​AS «CARTAS» DA FREIRA 
​

I

​Sempre lhes quero contar que ao menos numa coisa estamos os dois de acordo, Jean-Jacques Rousseau e eu. E é acerca daquela passagem da Lettre à M. d’Alembert, em que o autor do Émile, a propósito das mulheres e do amor, declara redondamente: «Je parierais tout au monde que les Lettres portugaises ont été écrites par un homme.»

Na verdade, à roda da enovelada questão das Lettres portugaises, aparecidas em Paris, «chez Claude Barbin, au Palais, sur le second perron de la Sainte-Chapelle», no ano da graça de 1669, «avec le privilége du Roy», desenvolveu-se durante dois séculos e meio todo um abundante mundo de hipóteses novelescas, que só por si constituem um romance bem mais agitado que o agitado conflito em que gratuitamente se estorcem e gritam as cinco «Cartas da freira». Surpreende, por isso, que seja Jean-Jacques, o pai do grande pecado romântico, o primeiro a entrar na visão do problema com as luzes serenas da inteligência. É do mesmo modo o que sucede em Portugal com Camilo Castelo Branco, não menos romântico que Rousseau e que se escusou sempre a atribuir a autoria das célebres Cartas à pobre religiosa alentejana, desenterrada do olvido do seu coval humilde pelo folhetim publicado por Boissonade – supõe-se que fosse Boissonade –, em 5 de Janeiro de 1810 no Journal de l’Empire.

Ocupava-se o folhetim do Journal de l’Empire do Manuel du Libraire et de l’Amateur des livres, de Jacques Brunet. Registava Brunet a edição das Cartas, «chez Barbin», sem lhe aditar nenhum esclarecimento que lhe identificasse a paternidade. Boissonade, ou o do Journal de l’Empire, esclarecia então que as Cartas tinham sido dirigidas ao senhor de Chamilly e que a sua tradução para francês pertencia, ou a Guilleragues, ou a Subligny. Quanto à religiosa que as escrevera, os bibliógrafos não adiantavam nada. Mas ele, Boissonade, possuia no seu exemplar da edição de 1669, uma nota manuscrita que talvez resolvesse o enigma. «Sur mon exemplaire de l’édition des Lettres portugaises, de 1669 – informa o A. do Journal de l’Empire –, il y a cette note d’une écriture qui m’est inconnue: La religieuse qui a écrit ces lettres se nommait Mariana Alcoforada, religieuse à Béjà, entre l’Estrémadure et l’Andalousie. Le chevalier à qui ces lettres étaient écrites était le comte de Chamilly – dit alors le comte de Saint-Léger.»

Impressionou-se o morgado de Mateus com uma pista tão concreta, dedicando-se imediatamente a desenredar dos nossos linhagistas qualquer indício da existência da mal-aventurada monja. Como uma predestinação fatal do apelido, surgiu-lhe apenas o espectro do pagenzito António Alcoforado, envolto no halo sangrento da sua tragédia amorosa. E só Camilo se sentiria visitado pela alegria de arrancar a um velho chão genealógico – como ele tanto gostava de dizer! – uma alusão autêntica à Soror Mariana da nota de Boissonade. Na sua continuação ao Curso de literatura portuguesa, eis como Camilo se exprime: «Não duvidamos, todavia, nem dos amores, nem da existência da religiosa Mariana Alcoforado no convento da Conceição em Beja pelas notícias que temos dela e de sua família, conformes às genealogias ordenadas por D. António de Aguilar e José Freire de Montarroio Mascarenhas...» E depois de nos deslindar a árvore familiar de soror Mariana, Camilo acrescenta: «Desde 1724, não encontramos a posteridade dos Alcoforados de Beja, cujo tronco não é com certeza do rico-homem D. Gueda o velho, de quem descendem os Alcoforados da casa do Silva, de Vila Pouca, etc. Ainda assim cabe alguma glória aos Alcoforados de Beja, se alguns existem, porque lá têm a mimosa vergôntea da apaixonada freira que provavelmente feneceu, e se pulverizou no claustro de Beja sem ter frutificado, tendo florecido tanto em cartas de fina amante, se a conjectura prevaleceu às nossas suspeitas de que tal freira, amando talvez muito o conde, não escreveu tais cartas, e apenas lhe deu o amor e o nome para a vaidosa ficção.» Observava isto Camilo, haverá já para cima de quarenta anos, e eu creio que em semelhante juízo assenta a solução do problema das Cartas da Freira. Se, efectivamente, as analizarmos com a atenção requerida, salta-nos logo à vista o evidente artifício literário que as repassa de ponta a ponta. Não se perceberia nunca como é que se amassou à sua volta uma auréola de dor soluçada, se não considerarmos quanto contribuiu para formá-la a sentimentalidade própria da psicose romântica. Para que o nosso asserto se justifique devidamente, basta reparar que o começo das tentativas de reversão das Cartas à nossa linguagem coincide com o alvorecer do século passado. É Filinto Elísio quem abre a marcha desses diligentes restituidores, e abre-a tropegamente, a ponto de Luciano Cordeiro, nada feliz também, não resistir a ponderar, a respeito de um dos trechos adaptados pelo árcade: «Será castiço e galante, mas adivinha-se a pitada do rapé fungada pachorrentamente pelo purista, torneando o período.»

Não cheirava rapé Luciano Cordeiro. Mas impregnado da verbologia romanesca e com as tinturas francesas da mentalidade do seu tempo, não soube interpretar a pretensa angústia da Freira de Beja na Lettre première. Pois como imaginam que Luciano Cordeiro traduziu? «Consagrei-te a vida desde que em ti descansaram meus olhos, e sinto em sacrificar-ta um místico prazer.» Um místico prazer! É admitir abusivamente, num anacronismo sem qualificação por grosseiro em extremo, que em Soror Mariana – e porque não «Madre Mariana», como lhe chamam os documentos referentes? – o divino se confundisse com o humano, naquela leviandade de fraseologia que só o ultrarromantismo tornou possível entre nós.

Com efeito, se colocarmos num plano mais amplo a debatida questão das Cartas, verificamos sem esforço que elas nos fornecem motivo para um estudo acerca das devastações cometidas em Portugal pelo ultrarromantismo. Repare-se que eu não acuso o Romantismo, porque com o seu regresso pela mão de Garrett às fontes líricas da nossa raça, não o reputo de modo nenhum um desorganizador da alma nacional, que, pelo contrário, libertou da convenção asfixiante da Arcádia. Já o ultrarromantismo, sinónimo português do Romantismo que de França soprou com a Revolução, abriu sulco profundo no veio dos nossos sentimentos, avariando-os perversa e desabaladamente. Ora se quisermos um dia instruir-lhe o volumoso processo, a história das Lettres portugaises nos basta. Seguramente levado pela influência que exerciam na sociedade polida de França sua contemporânea, é que Filinto as procuraria enroupar da luzente expressão lusitana. Na mesma esteira de curiosidade erudita seguiria o Morgado de Mateus, embora directamente influenciado pela atmosfera dos salões onde imperava a sedução intelectual de Madame de Sousa, sua companheira. Empenha-se mais tarde António Pedro Lopes de Mendonça em devolver as Cartas da Freira à sua presumível forma nativa. Herculano resmunga e é Lopes de Mendonça quem no-lo revela. «O nosso amigo Alexandre Herculano – informa – é da opinião que as Cartas são originalmente escritas em francês, e parece dar pouco crédito à tradição que as atribui a uma religiosa portuguesa.» Assoma depois a reflexão prudente de Camilo. E de então para cá representaria um curioso florilégio de psicopatia literária, o deboche lírico que em torno das Cartas se desenvolveu, dando lugar às mais imprevistas e disparatadas afirmações. Fixaremos algumas.

Conduzido pelo seu critério farisaico de jacobino, Teófilo Braga decretará que as Cartas «são o único produto verdadeiramente sentido, verdadeiramente belo, que a alma portuguesa apresenta no século XVII». Guardando melhor as proporções e as conveniências, Luciano Cordeiro não apoia o juízo falso que a Teófilo merece a centúria seiscentista – admirável centúria, tão católica, tão clássica e tão nacional! –, mas não se evita de cair na culpa mortal da sua geração envenenada pelo francesismo torpe de Michelet e Victor Hugo, admitindo que «sem as Cartas esse século (o século XVII) fica realmente truncado na história literária portuguesa». Porquê? Porque «falta aquele viático, vibrante, indisciplinado, que nos traz como que uma lembrança consoladora e amiga do que é natural, do que é espontâneo, do que é ingénua e necessariamente verdadeiro e eterno, no meio das pompas e dos refinamentos artísticos, magistrais, da grande orquestra dos seiscentistas».

E não se fica por aqui o tormento de Soror Mariana, a triste neta de Maria Mendes, a tendeira de Beja! Descendendo por seu pai de uma pequena nobreza de província, os efeitos sentimentais de que lhe rodeiam a figura fazem-na depressa de uma alta estirpe, mordida, ao cabo de tanta humildade no amor, pelo orgulho legítimo do sangue. «Si quelque hazard vous ramenoit en ce pays, je vous déclare que je vous livreroy à la vengeance de mes parents.» «Esta frase sugere ao Sr. Teófilo Braga uma ideia que sem querer nos parece injusta», anota Luciano Cordeiro na sua boa-fé evidente. Diz ele: «A abandonada religiosa tem alma peninsular; queria ver sangue em castigo de tamanha traição. Ela ameaça-o com o punhal.» E Luciano Cordeiro ajunta: «Com o que ela o ameaça, supondo que sinceramente o ameaça, é com a vingança dos seus. Certo pode bem dizer-se como o ilustre escritor: “o instinto fidalgo dos Alcoforados renascia”. Mas esse instinto ou essa fidalguia não usava punhal, usava espada, já o observámos.»

Eis um ligeiro detalhe que nos instrui suficientemente o punhal dos Alcoforados! Mas o abuso continuará. Singelamente, a imaginária Freira das Cartas confessa: «J’estois troublé par le péril que vous couriez en entrant dans le Couvent, je ne vivois pas lorsque vous estiez à l’armée, j’etois au desespoir de n’estre pas plus belle et plus digne de vous, je murmurois contre la mediocrité de ma condition...» É a «médiocrité de ma condition» que nos interessa nesta transcrição. Afivelado à ideia de que os Alcoforados se inseriam em estirpe doirada, Luciano Cordeiro, sempre com as lunetas que lhe emprestara o A. do Journal de l’Empire, protesta quase indignado: «Para nós aquela ‘mediocridade de condição’ alude simples e naturalmente à condição de freira, e de freira franciscana, de uma pequena cidade de província, o que nos parece bem mais natural e conforme com as revelações dos documentos do que atribuí-la a inferioridade de nascimento e fidalguia. Tão fidalgos, senão mais que os Boulon, eram os Alcoforados, e nem como freira e franciscana, Mariana deixa de usar o Dom, que era então ainda uma característica genealógica.»
Será difícil condensar em tão poucas palavras um número tão grande de contrassensos. Dir-se-ia, pelas considerações de Luciano Cordeiro, que se Soror Mariana não fosse freira franciscana e numa cidade de província, para mais desgraça, a mediocridade da sua condição se manifestaria menos carregada a Chamilly. Por outro lado, como se entende que ela, apesar de freira e tão humilde, gozasse da prerrogativa aristocrática do Dom? Que fraqueza de lógica num espírito como o de Luciano Cordeiro, a quem a historiografia portuguesa deve, na verdade assinalados serviços! E, afinal, para que são tão desastradas explicações? Porque, evidentemente, ao conceito romântico da ‘lenda’ da Freira das Cartas, a par da revolta da mulher contra o cordão da regra, convinha o resfolego altivo da fêmea de linhagem, que não sabe lastimar-se e gemer...

Ora, apurando bem, e conquanto, a meu ver, Madre Mariana Alcoforado nada tenha presumivelmente com a Marianne das Lettres portugaises, os Alcoforados de Beja não enterravam tão fundo, como pretende Luciano Cordeiro, as raízes da sua prosápia familiar, a ponto de Cordeiro os reputar tão, ou mais fidalgos que Bouton, donde provinha o senhor de Chamilly.

Os Boutons eram de Borgonha, com passado nobiliárquico anterior a 1400 e exercendo cargos palatinos junto dos duques, seus suseranos. Quanto aos Alcoforados de Beja, é indubitável que eles ostentavam no seu brasão as armas dos Alcoforados do Reino. Não passavam, porém, de um ramo obscuro de nobreza provinciana, como já se acentuou. A prova oferece-se-nos na circunstância de ter o próprio pai de Mariana – Francisco da Costa Alcoforado – pertencido à casa e criação do mestre de campo general de Trás-os-Montes, Tristão da Cunha. A lição dos nobiliários, citados por Camilo, dá-no-lo como indo a Beja na qualidade de meirinho de uma alçada. Ali conheceu a filha dos tendeiros Francisco Mendes e Maria Alves e, casando com ela, lançara as bases da sumida dinastia alentejana dos Alcoforados. Francamente os factos não correspondem muito às hipérboles de que Luciano Cordeiro rodeia o berço de Mariana.

Com o crescer do movimento social que a Restauração importou consigo, Francisco da Costa Alcoforado, senhor dos bens que o casamento lhe trouxe, elevou-se pelo exercício dos cargos municipais ao conceito honroso que usufruía entre a gente de Beja. Quem conheça um pouco sobre os documentos a dinâmica da família portuguesa, compreenderá o fácil ascenso de Francisco da Costa Alcoforado, desde que, vivendo à lei da nobreza, utilizou com mãos limpas os largos cabedais que herdara e porventura granjeou.

Se, insisto, neste episódio da nobreza dos Alcoforados, é para demonstrar como a ideia romântica, que à roda das Cartasnasceu e tomou corpo, conseguiu alterar toda a realidade tanto psicológica como histórica, da emaranhadíssima questão. Luciano Cordeiro chega a abespinhar-se com Camilo, porque o romancista, escavando no seu velho chão genealógico, põe em dúvida a recuada progénie do genro da tendeira Maria Alves. Se percorresse, porém, sem opiniões preconcebidas, o arquivo particular do Dr. Martinho de França de que bastamente se socorreu, para reforçar o seu conhecido estudo, Luciano Cordeiro devia concluir sem dificuldade que nem nas casas fidalgas do Alentejo os Alcoforados obtiveram ligações de luzimento. Vemo-los assim enlaçados por mais de um matrimónio com os Albuquerques de Monforte e Portalegre. Os Albuquerques de Monforte e Portalegre, embora trouxessem no seu escudo as armas dos Albuquerques do Reino, descendiam de um espanhol natural de Albuquerque, e o primeiro que avulta entre eles é o Dr. António Pinheiro de Albuquerque, juiz-de-fora de Monforte e tão marcadamente judeu que não pôde professar na ordem de Cristo de cujo hábito recebera mercê. Os processos de Santo Ofício são curiosos a tal respeito, como curiosa é a maneira por que se apossaram de armoriais que nem por sombras lhes pertenciam. Tema para uma novela de excelente sabor camilianesco, a que voltaremos talvez um dia. Hoje limitamo-nos a elucidar que o decantado arreganho nobiliárquico dos Alcoforados se cruzou sem hesitações, e por apertados laços, com essa família manifestamente infamada. E Luciano Cordeiro ao insinuar que o Visconde de Juromenha guardava nos seus papéis o segredo da existência de Soror Mariana. O Dr. Martinho de França de Azevedo Coutinho foi, realmente, herdeiro do Visconde de Juromenha. Mas os documentos do seu arquivo alusivos aos Alcoforados vieram-lhe de sua esposa, D. Catarina de Albuquerque, representante dos referidos Albuquerques de Monforte e Portalegre.

E creio desfeita a miragem da fidalguia ciosa e quase intratável dos Alcoforados! De resto, tirando um que subiu a desembargador extravagante da Relação do Porto, a maior parte não vai além de simples postos militares vulgaríssimos na composição da nossa sociedade tradicional. Mas a inventiva teatral dos comentadores das Cartas não se limita a recorrer ao punhal dos Alcoforados. Vai mais longe num ilogismo de situações, que adjetivá-las se nos afigura desnecessário. Na Première lettre a Freira desabafava: «J’avoue cependant que l’occasion, que mon frère m’a donné de vous écrire, a surpris en moi quelques mouvements de joie...» Logo o comentário de Teófilo Braga generaliza apressadamente, sem cuidar da imoralidade das suas deduções: «No meio da sua aflição todos conheciam que aquela paixão a matava; foi desde esse instante que sua mãe lhe falou com bondade; disseram-lhe que escrevesse ao conde... Naquele tempo não havia as comunicações do correio; as cartas iam por mão própria. O irmão ofereceu-se-lhe para fazer chegar às mãos de Chamilly uma carta.» E entra-se com a explicação de Teófilo Braga sobre a falta de comunicações postais no século XVII nos domínios francos da gargalhada. É no que degenera, no fim de contas, o drama amoroso da Freira das Cartas, se nos guiarmos, para a sua compreensão, pelas insensatas e ridículas glosas que lhe deformam por completo o significado. Os exageros são tantos que terminam por arrancar ao problema a seriedade que ele merece. Mariana Alcoforado é a Santa Teresa de Jesus do amor carnal, como Santa Teresa de Jesus, é a Mariana Alcoforado do amor divino, sintetizam Pinheiro Chagas e D. Maria Amália Vaz de Carvalho: «Pobre Mariana... Agarraram em ti, encerraram-te numa clausura estreita, meteram-te nas mãos toda a literatura de visionários e de nevróticos, em que as palavras do mais concreto materialismo servem para representar símbolos, abstrações e sonhos, perverteram-te a robusta e sadia organização!» Segue-se o Conde de Sabugosa: «Enquanto houver almas femininas que viverem, e corações que se enterneçam, as cartas da Freira portuguesa serão lidas como um breviário de amor, e os trenos ardentes da monja sentimental hão-de acompanhar em uníssono os arrebatamentos líricos das mulheres apaixonadas.»

Não passaríamos de um sorriso disfarçado e correto, em face destes desperdícios bastardos da eloquência sonorosa de Acácio, se o abuso não atingisse limites mais desmarcados. No género daqueles trabalhos pseudocientíficos, em que tanto se notabilizou o século transato («le Stupide», como lhe chama Léon Daudet, com maiúscula e tudo), aparece por fim no Arquivo de Medicina Legal e devido à pena do Dr. Asdrúbal de Aguiar, um ensaio de crítica, ou coisa que ọ valha, intitulado nada mais, nada menos, do que Masoquismo psíquico de Soror Mariana Alcoforado. Percorram-se com curiosidade essas páginas de emproada gordura catedrática e ver-se-á que tristes descalabros de inteligência acarretam as influências já hoje desacreditadas de Nordau e de Lombroso. Evidentemente que não venho aqui desfibrar a monografia do senhor Asdrúbal de Aguiar. Observo-lhe apenas que, para a sua categoria de professor e de médico-legista, não é muito abonatória a circunstância de tomar como elementos de informação segura as Cartas da Freira, para depois arquitetar sobre elas todo um edifício frágil de um diagnóstico retrospetivo. Diverte a obsessão masoquista do senhor Asdrúbal de Aguiar! «Mariana Alcoforado, a desolada freira portuguesa, autora de tão belas e comovedoras Cartas de amor, era possuidora de uma psique das mais curiosas» – resume sentenciosamente. Nas suas cartas, únicos documentos que existem dela, revela-se-lhe bem a alma em toda a sua complexidade, havendo razões bastantes para nos permitirem qualificar a enamorada soror como participe do assaz interessante capítulo de medicina forense, masoquismo. O que é lamentável é que um espírito prevenido e prudente, como é o de Fidelino de Figueiredo, dê azo a que o suponhamos ligado a novelões da natureza dos do Sr. Asdrúbal de Aguiar, ao aceitar recentemente, num inexplicável eclipse crítico, que o «faites-moi souffrir encore plus de maux» da Prémière lettre, corresponde de certo modo ao facto assinalado pela escrivã do convento no termo de óbito de Madre Mariana: «Trinta anos fez ásperas penitências, padeceu grandes enfermidades e com muita conformidade, desejando ter mais que padecer.»


 
II

Suponho suficientemente comentado o desvio sofrido entre nós pelo problema das Cartas. A tendência romanesca da nossa sociedade dita intelectual apropriou-se da questão, atirando-a, num desvario de sentimentalidades postiças, para o terreno donde nos desponta agora, como orquídea inesperada e rara, o masoquismo da pobre clarissa de Beja. O ultrarromantismo nacional não viu as Cartas; viu-se nas Cartas. E daí esse longo cortejo de frases despidas de senso na sua maior parte, em que a face do problema se some inteiramente, tornada em qualquer motivo de emoção folhetinesca. Apenas o estudo de Luciano Cordeiro é digno de complacência pela sinceridade que revela. Quanto ao mais, fantasia por fantasia, eu prefiro os adoráveis temas versalhescos com que em França gravadores apurados acompanharam mais de uma imitação das Lettres portugaises. Por exemplo: os Cupidinhos encantadores das «Lettres d’une chauvinesse de Lisbone à Melcour, officier françois», edição de Haia, ano de MDCCLXXI, que «se trouve à Paris, Chez Delalain, rue de la Comédie Françoise». E penso não exagerar que foi debaixo da sugestão da conhecida gravura da edição de 1697 (Lettres d’amour d’une Réligieuse portugaise... enrichies et augmentées de plusieurs nouvelles Lettres fort tendres et passionées de la Président à M. Baron de D...), que o sr. Júlio Dantas se inspirou para o seu tão discutido acto sobre Soror Mariana, acto que, entre outras novidades, nos surpreende com a de um bispo em Beja no século XVII. Não divaguemos, porém! A imprecisão dos juízos que o problema das Cartas suscita ficou já bem assinalada. No entanto, ela aumenta de dia para dia na evidência cada vez mais irrefutável que o caminho, para resolver e encarar, é diverso do que até agora se tem seguido. Retomando de Alexandre Herculano a hipótese de que as Cartas seriam originariamente escritas em francês, o Conde de Sabugosa provocou algumas reflexões de Afonso Lopes Vieira, que são a única manifestação de sensibilidade superior suscitada em Portugal à roda do enigma, de resto tão simples e tão transparente, das Lettres portugaises. Pondera o poeta das Ilhas de Bruma no seu lusismo, irmão-gémeo pela limpidez da água-viva das nascentes: «Depois do estudo tão sólido de Luciano Cordeiro, uma coisa apenas, que eu saiba, se passou com interesse para o problema das Cartas; foi a intuição do ilustre escritor o Conde de Sabugosa, que as dá como redigidas em francês. Isto resolve, quanto a mim, o que estava ainda para resolver acerca de uma questão primacial para o nosso Lirismo – o texto português das Cartas. Eis aí porque elas se recusaram sempre a ser vertidas; é porque foram sentidas na linguagem do homem amado. E agora entendo melhor o desconsolo que sempre me tolhia ao ler as versões, desde as de Filinto, que concedeu às Cartas a mercê de as toucar com o lenço do rapé vernáculo e florido: «Considera, amor meu, quão pouco previsto foste...» e a do morgado de Mateus, que atou pesos de chumbo ao voo da andorinha – «Parece-me que faço grão menoscabo dos sentimentos do meu coração»... até à de Luciano Cordeiro, que é a parte provisória do seu estudo: «Como eu seria feliz se o Senhor tivesse consentido em que continuasse a amá-lo!»
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E Afonso Lopes Vieira acrescenta: «Perante o misterioso texto francês, Filinto e o benemérito Morgado (para só chamar estes dois letrados característicos) cuidaram de o transpor, cada um a seu modo, na linguagem clássica nacional. Filinto emoldurou a paixão da Freira num adejo daqueles anjinhos todos feitos de róseos refegos de carne, e das Cartas o que ficou senão um lamentável delambido? O morgado de Mateus forjou um seiscentismo que dessora e trava o ímpeto da paixão. O primeiro converteu a grande amorosa numa sécia que envia os suspiros em papel de rebuçados.»

«O segundo – continua o autor do Em demanda do Graal – no-la tornou em pesada aluna de Bernardes, sem sombra da graça lírica do Mestre. Porque não imitou do exercício clássico, Luciano Cordeiro, medíocre filólogo, como era vulgar na sua geração de escritores, logrou às vezes achegar-se à palpitação nativa, e para isso não recuou diante do tratamento heteróclito de o senhor, para alcançar o efeito intraduzível de vous.» E remata: «Mas as Cartas perderam o estilo, e com ele o perfume evolou-se...»

«Resulta daqui, antes de mais nada, que está por terra o labor erudito levantado em torno da convicção geral de que as Cartas haviam sido traduzidas. Assim o afirmara rotundamente o abade de Saint-Léger, ao prefaciar a edição de Delance, ano de 1796. Chamilly, de volta a França – diz o abade de Saint-Léger, segundo versão de Luciano Cordeiro –, teve a tola vaidade de comunicar estas Cartas, sendo exatamente a esta tolice que devemos possuí-las. Confiou o original ao advogado Subligny para as traduzir e publicar.»

E, firmado na revelação de Saint-Léger, o nome de Subligny como tradutor das Cartas, apareceu ao lado de Guilleragues – o Conde Savengne de Guilleragues –, o qual passava também por tradutor das Lettres portugaises, sob designação claramente estropiada de Cuilleragues. E preparemo-nos para a confusão, apurando bem o espírito. Na concorrência de Subligny com o Conde Savergne de Guilleragues, o abade de Saint-Léger hesita: «Seria que Guilleragues fizesse as respostas de Chamilly, e Subligny a tradução das Cartas da religiosa portuguesa? É o que ignoramos e o que julgamos muito inútil discutir. Reproduz a célebre nota do Journal de l’Empire a lição de Saint-Léger; ou Subligny ou Lavergne de Guilleragues. Mas qual dos dois? «Entre os dois supostos tradutores – opina Luciano Cordeiro –, e consideradas exactamente as situações e as tendências de cada um, cremos mais provável que fosse por intermédio de Guilleragues que as Cartas fizessem a sua primeira aparição em público, ou fosse a ele que Chamilly as revelasse e desse.» Prossegue depois: «E no fim de tudo pode bem ser que o verdadeiro tradutor fosse simplesmente o próprio Chamilly, e que o papel do outro se limitasse ao de monitor literário ou concessionário amigo da versão literal – tão pronunciadamente acentuada, que ele lhe comunicasse das Cartas.»

Repararam da «versão literal» – «tão pronunciadamente acentuada»? Para Luciano Cordeiro, o fundo português das Cartas, mostrava-se transparente. E socorre-se do parecer de Sousa Botelho (morgado de Mateus), que nos assegura: «um português, ou seja, quem for que conheça bem esta língua, não poderá duvidar de que as cinco cartas da religiosa tenham sido traduzidas quase literalmente de um original português. A construção de muitas frases é tal que retraduzindo-se palavra a palavra em português, encontrar-se-ão inteiramente no género e no carácter desta língua. Insiste o morgado de Mateus: «A tradução afrouxou-as incontestavelmente, mas repito: para qualquer português é claro que pela conformidade de certas frases da tradução com as que se empregam na língua portuguesa, o tradutor seguiu quase literalmente o original, salvo naquilo que algumas vezes exigia génio diferente das duas línguas.» Teófilo Braga também concorda: «Embora essas Cartas – escreve – só existam hoje na tradução francesa de Guilleragues, de 1669, ainda revelam a feição da sintaxe portuguesa, e são de modo que por si tem caracterizado na Europa o génio e o carácter português». Por último Fidelino de Figueiredo não foge ao lugar-comum, herdado do morgado de Mateus, e reconhece como argumento a favor da hipótese Herculano-Sabugosa ao lusismo evidente da forma, que se manteve através da tradução ou revisão de Guilleragues, e que Morgado de Mateus possuídor de bom francês e casado com uma escritora francesa, apontou na sua crítica».

Mas, na verdade, o lusismo das Cartas manifestar-se-á tão palpitante, que haja de admitir o ponto de vista do morgado de Mateus? Ou, contrariamente, as reflexões de Afonso Lopes Vieira, ditadas pela sua profunda sensibilidade nacionalista, corresponderão mais de perto à realidade? Tomemos um período das Cartas ao acaso e instruamos o nosso critério. Por exemplo, aquele da Cinquième Lettre: «Votre procédé n’est point d’un honnête homme, il faut que vous ayez eu pour moy de l’aversion naturelle, puisque vous ne m’avez pas armée éperdument...» Nada mais fácil de restituir ao idioma nativo, se este ligeiro período é porventura, de uma tradução. Pois vejamos algumas das interpretações tentadas, para melhor nos convencermos! Comecemos pela de Filinto. «Não procedes como honrado, e demonstras acerca de mim natural aversão, pois que às perdidas me não amaste». Agora a do morgado de Mateus: «O teu procedimento não é o de um homem honrado... A não teres tido aversão natural por mim, era natural que me amasses, descomedidamente. Depois a de Pinheiro Chagas, que é bem do brigadeiro da charge de Eça de Queiroz: «O vosso procedimento não é de homem de prol. Por força que me consagrais uma natural aversão, logo que não me amais loucamente.»

Não precisamos de nos alongar para que demos razão a Afonso Lopes Vieira: as Cartas recusam-se a ser traduzidas, não «porque foram sentidas na linguagem do homem amado», como quer o poeta do País Lilás, mas, porque, naturalmente, não foram redigidas em outra língua. Quem as redigiu então? Apesar do reforço que à hipótese Herculano-Sabugosa pode emprestar a verba do inventário dos bens de Miguel da Cunha Alcoforado, irmão de Soror Mariana («mais de duzentos livros franceses avaliados em cinquenta mil réis» – reza essa verba), Soror Mariana não as escreveria em francês, se a pobre freira de Beja as escreveu de alguma maneira... Com acuidade invoca a este respeito Fidelino de Figueiredo a razão psicológica de que o coração, para se exprimir, sempre buscou a mais espontânea linguagem, e de que o uso de um idioma estrangeiro constrangeria os impulsos dele». De mais a mais «Chamilly conheceria do português, que ouvira falar durante anos, o suficiente para compreender o que a sua abandonada amante lhe escreveria.»

Acrescentemos nós, por nossa parte, que, a aceitar-se em Soror Mariana uma fina formação literária, ela não iria além do latim e do castelhano – se tanto. O francês só principiou a generalizar-se na Europa, em seguida a Vestfália (1648). Não me parece que vinte anos mais tarde a sua influência se fizesse sentir de tal maneira em Portugal que chegasse a uma cidadezinha da província como Beja. Convém recordar ainda que só com Maria Francisca de Sabóia o francesismo se instala na nossa corte. Data aproximadamente daí a afamada sátira que R. François Michel nos revela no seu curioso livro Les portugais en France. Les français en Portugal:

Enfermo do mal francês,
Há anos está Portugal:
E não sara deste mal,
Porque o curam ao revés!
Deus lhe acuda desta vez!
Porque este reino coitado.
De sorte está galicado,
Que é dificultosa a cura,
E assim está na sepultura
vivo, mas quase enterrado.
 
De uma rainha francesa
Que aqui veio a Portugal,
Se pegou tão grande mal
Nesta nação portuguesa;
Penetrou mais na nobreza
Este pestífero humor;
Já não há grande senhor
Que este veneno escondido
Lhe não tenha corrompido
Do seu peito o interior.
 
E assim, a sátira se arrasta no mesmo tom entre galhofeiro e lastimoso. Documento significativo nos revela a que ponto a vinda de mademoiselle d’Aumale nos afrancesara, não nos consente, por outro lado, que se admita para o problema das Cartas a solução, aliás comodíssima, de que Mariana Alcoforado as escrevesse em francês. O argumento invocado pelo Conde de Sabugosa de que havia entre nós senhoras, como a Condessa da Ericeira, D. Joana de Menezes, que dominavam a primor a língua francesa, não constitui razão decisiva, porquanto não passavam de um número reduzidíssimo e pertencendo à alta aristocracia, que foi por onde, ao contacto da corte, o afrancesamento principiou.

Não, a hipótese tão carinhosamente afagada pela ternura lusíada de Afonso Lopes Vieira é inviável, não resiste a um ligeiro exame crítico. Rousseau viu perfeitamente a questão quando apostava que as Cartas tinham saído da pena de um homem. Na verdade, que coisa mais falsa, mais artificial, de que uma alma feminina, sangrando nos destroços do afeto, não achar outro modo de se exprimir, senão: «Considère, mon Amour, jusqu’à quel excès tu as manqué de prévoyance. Ah, malhereux! Tu as esté trahi, et tu m’as trahie par des espérances trompeuses.» Ou então: «L’orgueil ordinaire de mon sexe ne m’a point aydé à prendre des resolutions contre vous!», «orgueil ordinaire de mon sexe»! Meu Deus, como a atitude convencional é manifesta, como é manifesto o fabrico literário das Cartas!


III

Se Rousseau via perfeitamente a questão, atribuindo as Cartas à autoria de um homem, isto é, desvendando o evidente propósito que havia nelas de se obter um sucesso de livraria, como diríamos hoje, Camilo Castelo Branco concedia ao problema o máximo que historicamente se lhe pode conceder, transigindo, «que tal freira, amando talvez muito o conde, não escreveu tais cartas, e apenas lhe deu o nome e o amor para a vaidosa ficção. Efetivamente, o único dado positivo que em todo este enredo folhetinesco nos aparece, por enquanto, de difícil destruição, é a nota existente no exemplar das Lettres portugaises, que possuía Boissonade. Por essa nota, a freira das Cartas teria sido soror Mariana Alcoforado, afirmando-se isto muito antes de se supor a existência de uma monja com semelhante nome, num convento de Beja, entre a Extremadura e Andaluzia». Se realmente, significa uma circunstância para ponderar, só nos leva quando muito a subscrever a opinião de Camilo. Entre a freira e Chamilly poderia ter havido qualquer idílio, mas as Cartas não são produto da exaltação sentimental de Soror Mariana. Que o não são, já nós o sabemos em face da impossibilidade patente de se reduzirem a português, a ponto de se estabelecer como recurso único, que seriam originariamente escritas em francês, tal como foram publicadas. Isso destrói por si completamente a complicada construção erudita que no-las dava traduzidas, ou pelo advogado Subligny ou pelo conde Savergne de Guilleragues. Que valor reconhecer agora à nota do exemplar possuído por Boissonade? Nenhum outro que vá além do que naturalmente resulta da coincidência de corresponderem os factos a essa indicação anónima e inteiramente casual. Não é, pois, um valor absoluto, que não contestamos nem subscrevemos incondicionalmente. Quanto a nós é tudo quanto fica de pé, até novos elementos, do laborioso esforço de mais de um século acumulado em torno das Cartas. Não aventuramos, por isso, explicações, porque não queremos obrar no terreno do que seja presumível ou casual, exclusivamente.
Contudo, parece de conveniência acentuar que a nota manuscrita do exemplar de Boissonade carecia de ser examinada, antes de tudo, para se determinar, pelo tipo da letra, a época a que pertencia. Depois poderia fixar somente um boato colhido na ocasião da aparição das Cartas, entre gente de guerra francesa que houvesse servido com Schömberg em Portugal. E como nas Cartas a freira se chama Mariana, nada mais fácil, se se lhe juntar o apelido de Alcoforado, por alguém que, durante as campanhas da Restauração, estivesse em Beja e frequentasse a grade do convento da Conceição, segundo os usos do tempo.

Luciano Cordeiro liga muita importância ao detalhe de Claude Barbin, o editor das Cartas, obter dois anos mais tarde, em 1671, «Grace & Privilège du Roy», para imprimir um livro intitulado Relation de l’isle de Madère, tradução de um original português, em que figura como seu autor um tal Francisco Alcoforado, imaginário companheiro de Gonçalves Zarco na descoberta daquela ilha. A Relation editada por Barbin, passa por ser a fonte da lenda romanesca – sempre o romanesco! – de Machin e Ana de Arfet, arrojados por uma tempestade às praias da Madeira. No fundo, Luciano Cordeiro o diz, «não é mais do que um extrato ou uma acomodação... de uma Epanáfora de D. Francisco Manuel de Melo. Pergunta Luciano Cordeiro: «Não é extremamente curiosa a aparição deste nome de Alcoforado numa publicação de Barbin poucos anos, apenas, depois da publicação das Cartas da freira Mariana?» Idêntica pergunta faço eu, mas com pensamento diverso. Sem enveredarmos – insisto – pelo caminho do hipotético, não repugna, no entanto, aceitar que a associação do apelido Alcoforado ao nome da freira Mariana resultasse da circunstância de a mesma livraria editar dois trabalhos de feição portuguesa e daí derivar, por uma espantosa casualidade, a coincidência da nota do exemplar de Boissonade com um sumido perfil de monja, desfeito já na confusão das formas transitórias.

E não me acusem de estar inventando um romance contra o romance das Cartas! No campo incerto em que discorro, suscito somente probabilidades, que se reduzem, em resumo, a simples dúvidas, destinadas a despojar o problema das falsas luzes com que se julga de há muito resolvido. Tenho como suficientemente demonstrado que, não escrevendo Soror Mariana as Cartas em português, muito menos as escreveria em francês. Referir-se-lhe-ão, porém, as Cartas na retórica Marianne das Lettres portugaises? Eis a parte que subsiste ainda debaixo de uma interrogação. Interrogação que, em todo o caso, não devemos considerar radicada em alicerces firmes. Com alicerces firmes se reputava a versão erudita que fazia de Guilleragues, ou de Subligny, o tradutor das Cartas. Mas onde vai já essa certeza, tão dogmaticamente afirmada? É o que sucede com o próprio senhor de Chamilly. Assim, E. Beauvois, seu biógrafo, recusa admitir a veracidade dos seus amores com a religiosa portuguesa das Cartas. Na sua esteira, seguiu Maurice Paléologue que em artigo da Revue des Deux Mondes, 15 de Outubro de 1889, admitia a autenticidade das Cartas, mas duvidava dos amores que se têm como dramatizados por elas. Ultimamente, no n.º 5 da Revue Critique, de 1 de Março de 1918, lia-se a consulta seguinte: «Chamilly, Noël Bouton de Chamilly est-il le destinataire et l’éditeur des Lettres portugaises?

» Ni l’un ni l’autre. Les Lettres Portugaises son l’oeuvre d’un bel esprit, une spéculation de librairie, une supercherie manifeste, et dans l’édition originale donnée en 1669 – l’année où Chamilly revint de Portugal – par un anonyme, on déclare ne savoir ni le nom du destinataire ni le nom des traducteurs. C’est en 1678 que les Lettres publiées à Cologne, chez Marteau, portent les sous-titres écrits au chevalier de C... officier français. »

Os períodos da Revue Critique suscitaram os reparos do senhor Fidelino de Figueiredo. «O redactor desta resposta desconhece por completo o assunto sobre que tão decididamente consultou», comenta na sua História da Literatura Clássica, 2.ª época. «É um caso de desconhecimento, não uma corrente de opinião que se afirma.» Vejamos, porém, até que ponto, em relação a Chamilly, a Revue Critique terá consigo a razão. Não pude alcançar o estudo de Beauvois para avaliar dos fundamentos com que recusa ser o cavalheiro de Chamilly o destinatário das Lettres portugaises. Afigura-se-me, no entanto, que é legítima essa ideia se considerarmos que a publicação das Cartas, devida à indiscrição de Chamilly, se encontra em desacordo com os traços morais que a seu respeito nos deixou o testemunho dos seus contemporâneos.

Oiçamos Saint-Simon, por ocasião de Chamilly subir a Marechal de França (1703): «C’était un grand et gros homme, le meilleur homme du monde, mais si bête et si lourd, qu’on ne comprenait pas qu’il put avoir quelque talent pour la guerre... À le voir et à l’entendre on n’aurait jamais pu se persuader qu’il eût inspiré un amour si démesuré que celui qui est l’âme de ces fameuses Lettres portugaises, ni qu’il eût écrit les réponses qu’on y voit à cette religieuse... L’âge et le chagrin l’avait fort approché de l’imbécile. Sa femme, pleine de vues, séchait pour de douleur. Dans les divers commandements et gouvernements ou elle l’avait suivi, elle avait eu l’art de tout faire, de suppléer jusqu’à ses fonctions, de laisser croire que c’était lui que faisait tout, jusqu’au détail domestique. Partout ils s’étaient fait aimer et respecter, mais elle singulièrement. Par Chamillard, elle remit son mari a flot, lui procura le commandement de la Rochelle et des provinces voisines qui avait eu le Maréchal d’Estrée, avant qu’il allât en Bretagne, et le porta aussi au bâton d’autant plus aisément que le roi avait toujours eu pour lui de l’estime et de l’amitié. Sa promotion trop retardée fut généralement applaudie. »

Pelo retrato que de Chamilly devemos a Saint-Simon, sabemos que ele era «le meilleur homme du monde, le plus brave et le plus plein d’honneur». Dificilmente se compreende assim que esse homem «cheio de honra», modelo de bravura e de bondade, entregasse, por impulso vaidoso inexplicável, à indiscrição de quem quer que fosse as cartas de uma mulher, que ficara morrendo de amor por ele.

Muito menos se entende que as desse a lume, buscando para as Cartas editor e tradutor. A sua honra, a honra que Saint-Simon frisa como linha predominante do seu carácter, não lho permitia também, quanto ao sentido e efeito literários das Cartas, a circunstância de ser «si bête et si lourd, qu’on ne comprenait pas qu’il put avoir quelque talent pour la guerre».

É certo que Saint-Simon regista a ideia corrente que o apresentava como destinatário das Lettres portugaises. Mas regista-a acrescentando que «à le voir et à l’entendre on n’aurait jamais pu se persuader qu’il eut inspiré un amour aussi demesuré». Convém sublinhar igualmente que para Saint-Simon se manifestava tão impossível, pela estreiteza mental de Chamilly, o haver ele sido «l’âme des ces fameuses Lettres portugaises» como o haver «écrit les réponses qu’on y voit à cette religieuse». Não separava, pois, Saint-Simon em Chamilly o destinatário das Cartas do autor das respostas que apareceram no mesmo ano «chez Barbin», numa nova edição das Lettres portugaises. «Pure spéculation de librairie», chama Émile Henriot às pretensas respostas do senhor de Chamilly. Mais zeloso em não diminuir uma única linha à concepção novelesca através da qual o seu espírito encarava o problema das Cartas, Luciano Cordeiro declara: «Se a primeira ideia que naturalmente ocorre, e que o exame das Respostas não faz mais do que inteiramente confirmar, é a de que elas são um embuste grosseiro que nem por algum merecimento literário se faz desculpar, devemos confessar que uma suspeita nos tem obstinadamente acompanhado essa ideia.» Qual seja a suspeita di-lo Luciano Cordeiro: «É a de que a par da exploração, do ruído e do interesse que as cinco cartas da freira portuguesa despertavam, houve também a intenção de atenuar a antipatia, a censura, que porventura se manifestaria em relação ao destinatário ingrato e inconfidente, enquanto se procuraria desnortear a opinião acerca de quem ele realmente fosse.» E depois de nos lembrar que o aparecimento das Respostas coincidia com o regresso de Chamilly a França, depois de uma nova campanha, Luciano Cordeiro acrescenta: «A ideia capital das Respostas é mostrar-nos o sedutor da pobre freira portuguesa sob um aspecto perfeitamente diverso daquele que as Cartas naturalmente haviam de atribuir-lhe no conceito dos corações sensíveis.»

No conceito dos corações sensíveis! Sempre o Romantismo, sempre o romanesco! Os «corações sensíveis não existiam na França de Luís XIV, na França do grande século. Precisamente a voga das Lettres portugaises» é que criaria esse tipo de anormalidade psíquica, gerando ali um estado de espírito pré-romântico. Não se apercebeu Luciano Cordeiro, que o sucesso das Cartas lhe advinha, exatamente, do facto de revelarem à França um modo de sentir e amar, que não se incluía nos conceitos usuais da sociedade contemporânea de Descartes e de Pascal. Não tinha, por isso, o senhor de Chamilly de justificar-se. As suas Respostas, ou sejam da pena do autor das Cartas ou de pena diversa, saíram do êxito de livraria, obtido pelas Cartas. De resto, a suspeita de Luciano Cordeiro não se conforma em nada com o testemunho direto de Saint-Simon acerca de Chamilly, «si bête et si lourd, qu’on ne comprenait pas qu’il put avoir quelque talent pour la guerre». É mais ou menos o que nos repete quando da morte de Chamilly em 1715. « Il mourut à Paris – escreve – en janvier, après une longue maladie, à soixante-dix-neuf ans... Il était fort homme de bien et d’honneur et vivait partout très honorablement ; mais il avait si peu d’esprit qu’on était toujours surpris et sa femme, qui en avait beaucoup, souvent embarrassée. »
Para Saint-Simon, como constatamos, não era necessário que Chamilly escrevesse as Respostas, para que a houvesse de considerar «un fort homme de bien et d’honneur», que vivia «partout très honorablement». E se na edição das Cartas, de 1690, o nome de Chamilly, Monsieur de Chamilly, se nos depara como sendo o seu destinatário, um tal detalhe, tão concretamente afirmado, não impedia que Saint-Simon duvidasse, ao ascender Chamilly ao marechalato de França, que «à le voir et à l’entendre – insistimos–, on n’aurait jamais pu se persuader qu’il eut inspiré un amour aussi démesuré que celui qui est l’âme de ces fameuses Lettres portugaises, ni qu’il eut écrit les réponses qu’on y voit a cette religieuse...» Tratava-se de um boato, de um on-dit, que Saint-Simon acolhia nos termos em que o acolheu Duclos, outro memorialista do tempo. E não nos esgotemos em mais suposições! Nos termos em que o problema se estabelece, pode bem ser que Chamilly em Portugal amasse uma freira e que a freira fosse – na versão de Camilo – Soror Mariana Alcoforado. Mas o que se nos mostra bem claro é que nem as Cartas se escreveram na nossa língua, nem à pobre clarissa de Beja caberá o pecado de ter composto em descaído francês aquele exercício de pura e enfadonha retórica. «Supercherie manifeste» define as Cartas a Revue Critique, no seu número já citado, não representam mais que uma «spéculation de librairie». E talvez que essa Madame de Pédégache de quem nos fala Barbin como autora das Cartas no seu Dictionnaire des ouvrages anonymes, ligada como devia estar à família portuguesa Pédégache Brandão Ivo, guarde consigo o segredo do problema. Vale a pena seguir a pista, porque nos pode levar a resultados definitivos.


IV

Impossibilitados agora de averiguar o que haja de verdade na impressão recolhida por Barbin e que atribui a autoria das Cartas a Madame de Pédégache, vejamos qual o significado que elas assumem para nós, desde que se estabeleça que não foram escritas por Soror Mariana ou por qualquer outra monja desconhecida. «Les Lettres portugaises, sans être fort répandues, ont toujours joui de quelque réputation auprès de ce petit nombre de lecteurs, qui préfèrent le langage de l’âme à toute l’affectation du bel esprit», escreve-se nas Réflexions préliminaires das curiosas e raras Lettres d’une chanoinesse de Lisbonne à Melcour, officier français(seconde édition, à la Haye, MDCCLXXI). E quem examinar as considerações que se seguem vê-se que nos encontramos, à véspera de Rousseau, numa manifestação de pré-romanesco, para não dizer pré-romantismo pela referência mais atenciosa que o Romantismo nos merece a nós, portugueses.
Colocada a questão neste terreno, nós acabaremos por verificar que, perdendo com Soror Mariana o aspeto de um simples caso particular, as Cartas passam a revestir-se das linhas mais amplas e mais expressivas de uma tendência geral de sensibilidade e de gosto, em que implicitamente se afirmava uma penetração, ainda que bastarda, do nosso lirismo no génio clássico e rigidamente intelectualista da França de Corneille e de Racine. Compreenderemos melhor o alcance de tal transposição do problema se nos recordarmos da influência da Astréa, de Honoré d’Urfé, nos costumes sociais e literários da sua pátria, e da sugestão que a célebre novela exerceria mais tarde no espírito e no temperamento de Jean-Jacques Rousseau. Ora a Astréa, por seu turno, não passava de uma imitação de talento da Diana do nosso Jorge de Montemor, que, embora redigida e publicada em castelhano, transmitia às preferências cultas da Europa ocidental o prestígio estranho da concepção do amor e da mulher que o nosso lirismo corporizara em épocas diversas e com diversas modalidades no Amadis e na Menina e Moça.

Se examinarmos com cuidado crítico a genealogia apontada, sem dificuldade concluiremos na paternidade, ainda que espúria, do nosso lirismo sobre as primeiras aflorações românticas em França. Era uma das variadas facetas por que o Peninsularismo contagiara à comunidade europeia o alto esplendor das suas realizações artísticas e intelectuais. Não é necessário aludir ao tributo que as letras francesas prestaram tanto ao teatro, como à novela pícara dos nossos irmãos e vizinhos espanhóis. Anda cheia de Portugal e do sentimentalismo próprio da nossa raça a literatura do grande século castelhano. Diz um personagem de Tirso de Molina: «... fuera error / tener, en cosas de amor, / competidor portugués.»

Declara outro de Lope de Vega: «Tengo los ojos niños y portuguesa el alma.» «Sebosos» se chamava no século XVII em Espanha aos portugueses, sem dúvida, por essa sua maneira de amar e sentir. Daí naturalmente o Português derretido com que um memorialista francês define o nosso marquês de Cascais, embaixador de D. João IV, na corte de Ana de Áustria: «C’est toit un vrai Portughez derretido; il portait à son chapeau un bas de soie de sa maîtresse, disait et faisait cent folies; au cours, il avois, dans son carrosse, des cassettes pleines de gants, et il envoyait aux dames qui avoient le bonheur de luy plaire. Il luy est arrivé plus d’une fois d’y fermer les rideaux, et de changer d’habit durant cette petite éclipse, pour paroistre après comme un soleil au sortir d’un nuage.»

«Vrai Portughez derretido» – na frase de Tallement de Réaux –, o marquês de Cascais, D. Álvaro de Castro, reforçava com a extravagância rutilante da sua individualidade o conceito corrente em França acerca de Portugal e dos portugueses. Semelhante conceito pertencia ao conjunto de normas e de ideias que Castela irradiava, com o primado espiritual do seu século de oiro, para além dos Pirenéus. O meio achava-se já preparado por causa do vínculo psicológico que ali deixara a Diana através da novela de Honoré d’Urfé. Surgem os acontecimentos de 1640 e o interesse que prendia de perto a França à nossa insurreição nacional. As relações dos dois povos apertam-se. A colónia portuguesa em Paris desperta as gerais curiosidades. Contribui incontestavelmente para isso a embaixada do marquês de Cascais. De modo que não nos surpreendemos que um contemporâneo das Lettres portugaises escreva: «C’est du Portugal que nous sont venues toutes les façons de parler outrées. Les Portugais ne disent rien, quelque bas et quelque petit qu’il soit, qu’en des termes lumineux ; et, s’ils décrivent une chaumière, leurs paroles sont si hors de propos magnifiques, qu’on le prendrait dans leur description pour quelque palais enchanté ».

Há aqui um evidente exagero. Mas percebe-se o conflito constante das duas línguas, uma de razão e reflectida, a outra possuindo no mundo a virtude de exprimir superiormente os estados líricos da alma humana. De certo modo, assim o entendia o nosso D. Luís da Cunha, solicitado para traduzir em francês uma carta de natureza política, dirigida ao cardeal de Fleury. «Je vous diray – desculpava-se ele –, qui outre que je ne suis pas un bon traducteur, les expressions dont M. de Mendonça se sert sont si fortes et si éloignées de la phrase française, que je n’en trouve point d’équivalent.» O mesmo se confessava à frente da Rélation historique de la découverte de l’isle de Madére, atribuída a um suposto Alcoforado e editada chez Barbin. « Estrement estivé & bien plus ‘poétique qu’oratoire’, ce style est universellement pratiqué par la plus part des Portugais.»

Com tal noção do estilo dos portugueses – «bien plus poétique qu’oratoire» –, e tendo ido de Portugal «toutes les façons de parler outrées», não custa agora muito a adivinhar as condições em que as Lettres portugaises foram concebidas e geradas. A saída de Schomberg para Portugal e a ação que os franceses obtiveram no final das nossas campanhas da Restauração avivaram logicamente no pensamento parisiense o nome de Portugal, os Portugueses derretidos e «toutes les façons de parler outrées». Barbin – ce chien de Barbin – não perdeu a oportunidade. Eis o período esplendoroso da epistolografia. «D’un autre côté, on semble avoir oublié que nous étions toujours à l’époque de notre litterature, que j’apellerais épistolaire, et où, chez nous, on parlait beaucoup du Portugal», observa um publicista. E eis como as Lettres portugaises apareceriam coroadas imediatamente do maior sucesso.

Retirando-lhe, pois, todo o significado pessoal de um caso romanesco, elas tornam-se desta forma num capítulo de alta e sugestiva atração para quem houver um dia de escrever a História da sensibilidade portuguesa. Comparo-as muito, no processo psíquico da sua elaboração, aos Sonnets from the Portuguese, com que quase dois séculos depois Elizabeth Barrett Browning se ilustraria e ilustraria a literatura inglesa. «Os sonetos do Português – acentua Stedman nos seus Victorian Poets – são... senão a mais bela, decerto uma parte da mais bela poesia subjetiva da nossa literatura. A sua forma relembra o mais perfeito modelo inglês; mas não é sacrilégio dizer que a sua música nos desce de uma atmosfera mais alta e mais pura do que a do Cisne do Avon. Os sonetos pessoais de Shakespeare foram uma torrente da sua mocidade impetuosa; a sua larga visão, que abrangia um mundo, num só relance, era absolutamente objetiva; ao passo que os sonetos de Mrs. Browning são as manifestações dos mais ternos sentimentos de uma mulher, no período em que a sua arte já estava amadurecida, e toda a sua natureza exaltada por uma paixão que, nos seres da sua essência, apenas uma vez se revela, e dessa vez por todas.»

Tais são, segundo um crítico reputado, os Sonnets from the Portuguese. Porque os intitularia assim Elizabeth Browning? «Teria ela, no seu espírito, ao compô-los, a lembrança daquela suavíssima figura de mulher, que foi a nossa freira de Beja? – pergunta Fernandes Costa. «Sentiria quão profundamente amorosa pode ser uma raça, capaz de traduzir os seus apaixonados sentimentos com tal sublimidade de expressão? Não no-lo diz; e levou consigo, para a campa, no cemitério florentino de Fiesole, onde jaz sepultada, como Fielding ficou sepultado no cemitério de Lisboa, o segredo daquela sua adoção.»

Em seguida, Fernandes Costa entende que sem querermos penetrar num mistério, aonde nenhum dado positivo conseguiríamos colher, parece-nos, todavia, que esta hipótese da freira de Beja pode perfeitamente ser arredada, abrindo-se-nos outro campo, mais natural ainda, onde o facto encontra literária explicação. E Fernandes Costa filia o «lusismo» de Elisabeth Barrett Browning na leitura e influência de Camões. Aceitamos como definitiva a versão de Fernandes Costa, tomando do exemplo da poetisa dos Sonnets from the Portuguese os dados suficientes para mais uma vez demonstrar que o reconhecimento de certo tipo de sensibilidade, mais requintado e meditativo, levava o estrangeiro culto a etiquetá-lo de «português». Genuíno temperamento poético, Elisabeth Barrett Browning deu-lhe nobreza lírica duradoura. Não aconteceu o mesmo com as Lettres portugaises, que não passam intrinsecamente de um paciente exercício literário, mas cujas condições de êxito se acham naturalmente incluídas na revolução sentimental, precursora da Revolução, de que o século XVII francês andava já prenhe.

Na verdade, se as analisarmos detidamente, veremos que há ali um hábito de auto-análise que é mais francês que português, e só a sua atitude pretensiosamente emotiva consegue disfarçar através de uma sensibilidade que, comparada com o nosso lirismo, é bem – na frase perfeita de Afonso Lopes Vieira – «luar empalhado». É por isso que eu estou de acordo com Jean-Jacques Rousseau apesar da pista que nos levanta o nome de Madame de Pédégache: «Je parierais tout au monde que les Lettres portugaises ont été ecrites par un homme. É recusar o que em glória nos caiba na ditadura espantosa que as Cartas exerceram nos corações e nas inteligências? Não, de modo nenhum. Volto a insistir em que elas oferecem matéria larga para quem venha a escrever a História da sensibilidade portuguesa. «Les Lettres portugaises sont devenues de la littérature. On en a fait un genre. Le dix-huitième a vécu d’elles. Berguin les a mises en vers. Et sans toutefois s’en exagérer l’importance, l’on peut dire qu’elles furent l’origine des romans par lettres, de la Nouvelle Héloïse et des Liaisons dangereuses, sans compter d’autres ouvrages moins fameux et moins dignes de survivre. Il n’y a point de doute que Racine les ait vivement goûtées. Choderlos de Laclos même ne semble pas les avoir ignorées ; et maintes lettres de la Présidente de Tourvel sont des ‘vraies portugaises’, suivant l’expression de Madame de Sévigné».

Outra não é, realmente, a teoria das Cartas, o ponto de vista a que nós portugueses nos devemos abraçar. «Le dix-huitiéme a vécu d’elles.» E, sem sombra de dúvida, Rousseau, que, por intermédio da Astréa, de Honoré d’Urfé, já descendia de uma contrafação bastarda do nosso lirismo na Diana de Jorge de Montemor, receberia das Lettres portugaises o gérmen que frutificou na Nouvelle Héloïse. Esta é a via por onde a psicose romântica se infiltra na Europa ocidental, psicose, quando alojada em plena imaginação, mas regra rejuvenescedora do espírito, quando, perto das suas nascentes, que são as nascentes líricas dos Cancioneiros, constitui a razão fundamental do génio lusitano. Verifica-se assim que criamos uma norma de sensibilidade, que levara o século XVII francês a usar como locução proverbial sensível como uma Portuguesa. Madame de Sevigné contaria à filha: «Brancar escreveu-me uma carta tão expressivamente terna, que compensa todo o seu esquecimento passado. Fala-me no seu coração em todas as linhas. Se eu lhe respondesse no mesmo tom, a minha carta seria uma verdadeira portuguesa.» E, presumivelmente, Racine trasladaria para a tragédia Bajazet no conflito amoroso de Roxane o conflito de Soror Mariana.

Despojada, portanto, dos elementos fantasiosos com que o ultrarromantismo o deformara, o problema das Cartas assume, encarado por este prisma, o aspeto que importa para nós que ele assuma. Examinamos a inconsistência e a contradição dos dados que o rodeiam até agora, complicando-o com escusadas intervenções novelescas. Basta ler as Cartas detidamente para se concluir que é falso o acento lírico que gratuitamente se lhe confere e que nunca Soror Mariana as escreveria. Quando muito Soror Mariana, se amou a Chamilly, apenas lhe deu o amor e o nome para a vaidosa ficção» – como queria, talvez acertadamente, Camilo Castelo Branco. E ocorre-nos perguntar que romance erudito se não haveria engendrado em torno dos Sonnets from the Portuguese, se não tivessem sido publicados com a indicação expressa de quem era a sua autora. Como subsídio psicológico, embora em épocas diferentes e num maior grau de talento, Elisabeth Barrett Browning ajuda-nos a compreender a pena enigmática que traçou as Cartas.
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E não insistamos! Afigura-se-nos mais nobre e mais belo considerar as Cartas como documento da influência espiritual exercida por nós na Europa do que continuar cultivando o folhetim melodramático da freira esmagada pelo hábito e gritando detrás da grade o vulcão palavroso do seu amor estridente, insuportavelmente declamatório. Curemo-nos, meus senhores, das taras profundíssimas que nos viciam as ideias e os sentimentos, e definamos corajosamente as coisas, tal como são. É um acto de heroísmo mental que nos ajuda a olhar os limites da vida com uma firmeza melancólica, mas consoladora. Diante da espessa floresta de mitos que nos embaraça a visão, não nos abandonemos ao temor da empresa! A hora – hora preparatória dessa desejada síntese que seja rumo para os espíritos e fonte de energia para a vontade – é, sobretudo, uma hora de revisão implacável e sistemática. Saibamos nós cumprir-lhe os ditames imperiosos, e na obra que nos cabe de restaurarmos pela inteligência a fisionomia moral da Pátria não seja o convencionalismo ignaro dos ídolos quem nos force a recuar no caminho! 



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