O GÉNIO DE CAMILO
António Sardinha
RESUMO
O Génio de Camilo: Estrutura, Hereditariedade e Tragédia
O estudo da personalidade e do génio de Camilo Castelo Branco revela uma complexa interação entre fatores hereditários, sociais e culturais. António Sardinha propõe uma análise crítica e psicológica que rejeita as interpretações deterministas, nomeadamente as de inspiração lombrosiana, e destaca o dualismo interno do escritor, assim como o impacto do seu contexto histórico.
- Hereditariedade e Dualismo Psicológico. Para António Sardinha, compreender o génio de Camilo implica analisar profundamente a influência da sua ancestralidade. Sardinha recusa associar a genialidade à degeneração hereditária, defendendo que a personalidade humana busca sempre a sua realização plena, escapando à servidão da hereditariedade. Contudo, em Camilo, a ancestralidade é fonte de conflito: uma "disputa de mortos" governa a sua criatividade, colocando-o entre duas linhagens antagónicas — a tradicional portuguesa e a judaica. Este dualismo origina uma permanente inquietação nervosa e instabilidade emocional, que se reflete tanto na vida como na obra do escritor.
- Ascendência e Influências Familiares. A análise genealógica revela antepassados marcados por conflitos sociais e morais, como o avô conhecido por “doutor Bexiga”, envolvido em escândalos e crimes, e outros familiares ligados a comportamentos desordeiros. O judaísmo presente na linhagem familiar surge como fonte de inquietação e sarcasmo, traços que marcam a produção literária de Camilo. O ambiente familiar tumultuado, aliado à formação intelectual clássica, contribuiu para moldar a personalidade do escritor, dotando-o de um vasto vocabulário e de uma forte ligação à tradição literária portuguesa.
- O Dualismo na Obra de Camilo. Sardinha sublinha que Camilo, ao contrário de Balzac, não conseguiu superar o conflito entre as suas duas sensibilidades. A sua obra reflete esse tumulto interior, alternando manifestações de rebeldia e apego à tradição. A ausência de uma doutrina filosófica e a influência do ultrarromantismo acentuaram a instabilidade e fragmentação do seu génio. As personagens criadas por Camilo, muitas vezes inspiradas em figuras familiares, evidenciam a transmissão das inquietações ancestrais e o confronto entre o elemento nómada e o autóctone da sua personalidade.
- Doença, Psicose e Crítica ao Determinismo. Sardinha discorda da associação entre genialidade e doença, defendida por Paulo Osório. Para ele, o génio de Camilo foi vítima, e não produto, da psicose que o atormentou. O escritor nunca conseguiu harmonizar as forças internas antagónicas, resultando numa obra rica, mas irregular e marcada pelo sofrimento. A crítica ao determinismo lombrosiano é reforçada pela valorização da vontade individual e da liberdade da alma humana. Sardinha defende que a verdadeira grandeza de Camilo reside na lição moral da sua vida e obra: a luta contra os fantasmas hereditários e a superação das limitações impostas pelo meio e pela doença.
- Formação Intelectual e Papel das Humanidades. A educação clássica recebida por Camilo, afastada dos modismos românticos, foi fundamental para consolidar a sua capacidade intelectual e resistência aos impulsos desagregadores. O domínio da língua e o convívio com os clássicos permitiram ao escritor atenuar parte da influência negativa do seu atavismo judaico, preservando a riqueza expressiva da sua obra. Léon Daudet, citado por Sardinha, reforça que as humanidades são essenciais para a formação do julgamento e para a ordenação das faculdades compreensivas, o que se confirma na trajetória intelectual de Camilo.
- A Tragédia e a Lição de Camilo. O texto conclui que Camilo foi vítima do duelo entre as suas duas heranças, incapaz de alcançar a unidade necessária para a realização plena do seu génio. A sua obra, marcada por fragmentação e sofrimento, é testemunho desse conflito. Sardinha rejeita a ideia de que a doença foi fonte da sua genialidade, afirmando que apenas contribuiu para o declínio da personalidade do escritor. A lição final é a valorização da vontade individual sobre o determinismo e os preconceitos da época, destacando a importância da liberdade da alma humana e da superação dos conflitos internos para atingir a verdadeira grandeza.
- Conclusão. A análise de António Sardinha sobre o génio de Camilo Castelo Branco oferece uma perspetiva complexa e multifacetada, onde a hereditariedade, o ambiente familiar, o contexto histórico e a formação intelectual se entrelaçam para explicar tanto a riqueza quanto a tragédia da sua obra. A abordagem crítica de Sardinha aponta para a necessidade de reconhecer a autonomia e a luta individual como fatores determinantes na realização do génio, em oposição às explicações simplistas e deterministas do seu tempo.
O GÉNIO DE CAMILO
A definição do génio de Camilo nas suas manifestações tão desencontradas, como variadíssimas, só nos será dada pelo estudo psicológico da hereditariedade do escritor. Não se trata, evidentemente, de ressuscitar os velhos processos lombrosianos, nem de ver em toda a admirável fulguração literária do grande romancista o final iniludível de uma longa descendência de desequilibrados. Passaram os tempos em que as esfinges inexoráveis do determinismo pesavam despoticamente nos rumos do destino humano! Contra esse falso dogma científico, que inspirou as brutalidades incomparáveis de Zola, se insurgiu nobremente o pensamento moderno no seu esplêndido volume, L’hérédo, espécie de breviário laico da saúde da alma, no qual com firmeza declara Léon Daudet que «la personnalité humaine tend à se réaliser pleinement au cours de la vie et à échapper à la servitude héréditaire». Mas, se não cuidarmos de reincidir no pleito de Lombroso, não podemos alhear-nos da importância que em Camilo nos oferece a sua ancestralidade. Tema para vastas meditações, aí se condensa o fundo misterioso e abundante em que a forte individualidade de Camilo mergulha as suas raízes.
Camilo, na sua espontaneidade fecundíssima, foi sempre governado por uma «disputa de mortos», como certamente diria Léon Daudet. Na verdade, se considerarmos a obra literária desse escritor como a libertação das imagens ancestrais que lhe povoam o subconsciente, Camilo Castelo-Branco aparece-nos como da estirpe dos Shakespeare e dos Balzac. Mais dos Balzac que dos Shakespeare. Porque se Camilo escolheu, como Balzac, para a libertação dos seus demónios interiores, a forma de romance, e porque palpitava nele, como no autor formidável de La comédie humaine, um historiador poderoso e profundo, ainda que difuso. Como, Shakespeare, Balzac é para Léon Daudet um acumulador – o acumulador prodigioso de uma multidão de antepassados, Balzac descobre-se-nos, efetivamente, como de «ces privilégiés, ou un de ces damnés – c’est au point de vue humain presque la même chose – qui en proie à une foule intérieure, à vingt reviviscentes, au mystère continuel de autofécondation se délivrent de leurs héredismes par la création littéraire». Ocupando na nossa literatura uma posição que o aproxima de Balzac, é assim que Camilo se apresenta às reflexões da crítica que o deseje ser.
De certo modo, ele próprio o sentia ao contestar-nos num raro momento de exasperação: - «Vou ao jazigo das minhas ilusões, exumo os esqueletos, visto-os de truões, de príncipes, de desembargadores, de meninas poéticas à semelhança das que eu vi, quando a poesia era o aroma dos seus altares. Visto-me também das cores prismáticas dos vinte anos, aperto a alma com as garras da saudade até que ela chore abraçada ao que fui. E depois, neste festim de modas, conversamos todos; e eu, no alto silêncio da noite, escrevo as nossas palestras.» Tal é o teatro íntimo a que Camilo assiste a cada hora, chorando e rindo, dentro de si – dentro da sua caudalosa personalidade. Em tantas queixas de paixão dolorida, em tantas rixas ensanguentadas de família, a trama corrente das novelas de Camilo não ultrapassa os horizontes atávicos em que a árvore genealógica do escritor se desenvolveu e bracejou. Trabalhos recentes avivaram para nós essa linhagem irrequieta de inadaptados que são os ascendentes de Camilo, cheios de tatuagens sociais e morais, a que não faltava – nem a nota infamante do judaísmo. Não me parece ser outro o motivo por que Camilo, na mesma convergência de qualidades e de situações, não nos deixou a obra legada por Balzac – seu irmão na chispa e na riqueza inesgotável do génio. Balzac recebera dos seus antepassados uma esplêndida herança psíquica, que se reflete ao longo dos propósitos construtivos de todo o seu ativíssimo labor de romancista. Por isso Balzac se antecipou ao seu século, atingindo nos seus romances as conclusões contrarrevolucionárias que são hoje a mais bela conquista da inteligência contemporânea.
Colocado igualmente na transição do regime tradicional para a sociedade saída do liberalismo, se Camilo fixou os tipos imorredoiros desse conflito de ideias e de instintos irreconciliavelmente adversos, não pôde, no entanto, elevar-se à altura da serenidade superior em que Balzac se refugiou. Havia em Camilo, como em Balzac, um intenso sentido da história. Mas Camilo sofria, tanto na sua inteligência como na sua sensibilidade, as consequências do duelo que nele travavam incessantemente duas hereditariedades hostis. De livro para livro, quando não de página para página, a luta acentua-se entre o Camilo regido por avós bem plantados no coração eterno da pátria – e o Camilo sacudido, num sabat violento, pela constante intervenção da sua ancestralidade israelita. Não devemos atribuir a outros fatores a mobilidade excessiva dos juízos de Camilo – a fraqueza em mais de um lance do seu carácter, o aflorar de desejos depressivos, ao lado de altíssimas cintilações de espírito, onde não é raro brilhar a ânsia mística da Cruz.
No excelente trabalho sobre Camilo, o senhor Paulo Osório chama já com agudeza a nossa atenção para a influência que o atavismo hebraico exerceria em Camilo – não em Camilo como escritor, mas em Camilo-homem – no doente, no desequilibrado, se me permitem. Ressente-se a monografia do senhor Paulo Osório da sugestão errónea das teorias de Lombroso. O seu ponto de vista crítico, aceitando como definitivos os conceitos médico-psíquicos dos fins do século passado, não poderá prevalecer inteiramente.
É-nos, contudo, agradável assinalar que até agora no choramingado camilianismo oficial dos nossos plumitivos, não se conhece nada que se lhe iguale pela amplitude que restituiu à figura de Camilo, de todo deprimida na admiração quantitativa, dos bibliófilos de profissão. Há exageros no livro do senhor Paulo Osório, prejudicado pelo excessivo espírito clínico com que por vezes encara a psicologia atormentada de Camilo. Mas ninguém negará que os termos do problema se encontram ali esmiuçados e classificados com perfeita e metódica segurança. Assim, um dos elementos em que o senhor Paulo Osório insiste como predominante na determinação do temperamento de Camilo é esse do judaísmo da parte dos antepassados do romancista.
Não ignorava Camilo as afinidades que o prendiam a Israel. Salienta-se sempre na sua pena a propósito do mínimo pretexto uma defesa apaixonada dos judeus.
No conhecidíssimo trecho «O jazigo de A. Herculano», da Boémia do espírito, referindo uma página de memórias familiares, Camilo observa: «Conjeturando, pois, que os ossos de A. Herculano esperam a ressurreição da carne, de camaradagem com meu terceiro avô Domingos Correia Botelho, sinto extraordinária alegria, antevendo o meu antepassado, evidentemente um pouco analfabeto, ao lado do primeiro historiador da Península, no dia de Juízo universal.» E acrescendo imediatamente: «Por outro lado, contrista-me a ideia de que A. Herculano, na congregação cosmopolita de Josafat... sentirá pejo de se ver ao lado de uns companheiros de jazigo que foram infamados de judeus. Porque meu tio bisavô José Luís Correia Botelho (horresco referens) quando professou na ordem de Cristo em 1778, viu-se em pancas para contraditar as testemunhas do inquérito que uniformemente asseveravam ser ele terceiro neto do cavaleiro de São Tiago, Martim Machado Botelho e da judia de Vila-Real, Raquel Mendes. Ora, eu, acreditando por justos motivos que as testemunhas, todas fidalgas de Vila-Real, juravam a pura verdade, presumo piedosamente que a veneranda viúva de A. Herculano e os seus amigos, por ignorância, colocaram em péssima companhia os ossos do plangente cantor da Paixão de Jesus de Galileia, crucificado pelos judeus.»
Fala Camilo a seguir de um artigo de D. Guiomar Torresão, em que se descreve uma visita a Vale-de-Lobos e ao jazigo no adro da igreja de Azóia, em que Alexandre Herculano repousou até à sua trasladação para os Jerónimos. Nesse artigo afirmam-se as crenças de Alexandre Herculano pelos sinais religiosos, que a visitante encontrou na velha quinta habitada pelo historiador. A par de D. Guiomar Torresão, Camilo evoca o testemunho de Oliveira Martins no Portugal contemporâneo naquele ponto em que se consigna que «deus era para Herculano o Deus cristão». E Camilo conclui: «Pois, não obstante a capela e as imagens idolátricas dos santos em altares ricamente ornamentados – tanto monta que sejam belas esculturas como grosseiros manipansos – a minha razão, reagindo aos escrúpulos, sugere que Alexandre Herculano, o incomparável autor da Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal –, ele que nos fez chorar sobre a sorte desastrosa dos hebreus – não se envergonharia de ressurgir da sua primeira para a segunda imortalidade entre os obscuros e malsinados descendentes de Raquel Mendes, a judia, por alcunha a Barbuda, minha 5.ª avó.»
Essa quinta avó de Camilo não se chamava, afinal, Raquel, e sim Isabel Mendes do Rocio. Dela, sendo solteira, nascera o marchante Lázaro da Costa, de quem o escritor, apesar das suas veleidades nobiliárquicas, descendia por direita linha. O judaísmo de Isabel Mendes do Rocio não se acha comprovado, porque além de ser irmã de vários sacerdotes, foi avó do padre Manuel Lourenço, escrivão dos livros de fiador da câmara eclesiástica de Vila-Real e ordenado em 1690. Agora, se remontarmos mais alto, é que vamos deparar com a costela denunciadamente suspeita em Martinho Machado Pinto, pai presumível do marchante Lázaro da Costa.
Era Martinho Machado Pinto cavaleiro de São Tiago e tivera por progenitores a Domingos Rodrigues Pinto e a Isabel Machado. De baixo nascimento, Domingos Rodrigues Pinto, vulgo o Marvão, elevou-se da sua pequena situação de tendeiro por serviços prestados na restauração do reino em 1640. Sua mulher, Isabel Machado, da casa e quinta de Silvela, possuía parentes clérigos e afazendados. A alcunha de «Marvão», aposta ao tendeiro Domingos Rodrigues Pinto indica-nos procedência hebraica, como acertadamente observa o senhor Pedro de Azevedo. É, pelo menos, o que se infere da habilitação para o Santo Ofício de Francisco Machado Botelho, filho, mas este legítimo, de Martinho Machado Pinto.
Quando José Luís Correia Botelho, tio-bisavô de Camilo, pretendeu ingressar na ordem de Cristo, levantou-se-lhe o obstáculo da impureza de sangue. Neto do marchante Lázaro da Costa, por ser filho do picheleiro e vendedor ambulante Domingos Correia Botelho, no processo respetivo viu José Luís Correia Botelho espalharem-se todas as mazelas da sua estirpe. Confessa durante as inquirições uma testemunha, que Domingos Correia Botelho «padecia a infâmia de ser infamado de cristão-novo, mas não sabe se esta infâmia lhe vinha por parte de seu pai Lázaro da Costa ou de sua mulher Francisca Mendes. Outra testemunha declara que Lázaro da Costa era infamado de cristão-novo, cuja fama lhe vinha dos chamados por alcunha ‘Barbados do Açougue’. A Mesa (de Consciência e Ordens) – esclarece o senhor Pedro de Azevedo – aceitou a suspeição e ordenou investigações sobre a cristã-novice de Lázaro; em virtude de que eram argumentos mais morais que positivos, ela ilibou a fama dos descendentes de Lázaro de semelhante mácula. Efetivamente, tendo sido o pretenso pai de Lázaro cavaleiro de São Tiago e sua mãe avó de um eclesiástico, não era lógico que o sangue hebraico corresse nas veias daquele. Mal sabiam, porém, os acusadores de que o pai do cavaleiro de São Tiago não era de tão limpo sangue, no bem fundado dizer do povo, como os seus descendentes pretendiam».
Mas, já tão adubada de cal e remida, a descendência de Lázaro da Costa engrossaria o seu judaísmo estrutural pelo casamento de Manuel Correia Botelho, bisavô de Camilo e irmão de José Luís, o Cavaleiro de Cristo, com D. Luísa Maria de Menezes, ou D. Maria Luísa de Magalhães Menezes, ou ainda D. Maria de Carvalho Menezes, filha de Francisco Martins Menezes e de Luísa Rebelo, ambos de Vila-Real, cristãos-novos e moradores na rua de Santa Margarida. Averigua-se e comprova-se assim a ancestralidade hebraica de Camilo, de que o escritor possuía completa consciência, como o verificamos pela transcrição da Boémia do espírito. Facilmente se explica já como Camilo era levado, sempre que a sua pena raspasse de leve pelos judeus, ao seu natural panegírico.
É esse um dos aspetos mais vincados da sua obra longa e tão enxameada de verdadeiras cintilações de portuguesismo. No gosto que atraía Camilo irresistivelmente para as questões e assuntos de história, ele que tão nacionalizado se manifestava no demais, não lhe estranhemos por isso a sua constante insurreição contra a composição católica e monárquica da nossa sociedade tradicional.
No fundo, os avós, marcados pelo estigma da raça, faziam de Camilo um permanente inadaptado, abrindo um conflito violento com os outros – com os avós, agrários ou marítimos, mas enraizados, mas autóctones, de que a hereditariedade de Camilo estava igualmente cheia.
Em tão doloroso e emaranhado dualismo reside a explicação do génio de Camilo. Atento com um notável cuidado crítico ao exame dos antecedentes do escritor, o senhor Paulo Osório filia no atavismo hebraico de Camilo a sua inquietação nervosa – a alma mórbida que, se o conduziu a ele à chama doirada da criação genial, atirou com tantos da sua carne – a uns para o crime passional, a outros para a cegueira dantesca da loucura. Indubitavelmente, as famílias de origem israelita oferecem às estatísticas uma percentagem notável de doidos e de neurasténicos, comparadas com as famílias na extração étnica. A nevrose, que na gente de Camilo nos aparece vinculada como um património familiar, não derivará provavelmente de razões diferentes.
É preciso considerar, no entanto, que as regras sociais e morais da Igreja mais observadas retraem então consideravelmente o campo e ação das psicoses desenvolvidas depois pelo desvario romântico – desde o terreno do patético ao da pura agitação sentimental, de uma maneira quase incalculável. E posto isto, não tenho também, como saída de agentes diversos – que não sejam os engendrados pelo peso do estigma hebraico – a nevrose que acidenta em episódios desencontrados a cadeia genealógica do bastardo de Martinho Machado Pinto – esse Lázaro da Costa, pertencente em Vila-Real aos ‘Barbados do Açougue’.
O que se me afigura, porém, de necessidade salientar, é que, ao encarar-se a personalidade de Camilo através de semelhante critério, se confunde ordinariamente a causa com o efeito. De facto, não é a nevrose que fere em Camilo a instabilidade constante e as constantes alterações da sua movimentada psicologia. É antes o choque de duas forças atávicas hostis que provoca no subconsciente do escritor – no moi, diria Daudet – o desarranjo das imagens, a contradição dos sentimentos, a versatilidade extrema das simpatias e das inclinações, originando a nevrose. Caímos assim na tese de Léon Daudet, no Hérédo.
Para Daudet – e a experiência psicológica demonstra-o largamente –, a personalidade humana é composta de dois elementos concorrentes e na maioria dos casos antagónicos: o moi e o soi. O moi expressa-se no conjunto, tanto físico, como moral, dos nossos antecedentes hereditários, enquanto o soi, constituindo a essência própria da nossa individualidade, se define, pelo que de original e novo a consciência e a vontade conseguem extrair das transmissões comunicadas pelo moi. Camilo é, na exemplificação desta teoria, um soi em perpétuo naufrágio perante os embates ruidosos do seu moi revolto e desordenado. Os mortos mandavam nele com um império cego, em vez de ele mandar nos seus mortos, e de os tornar em agentes dóceis e cúmplices do seu engrandecimento psicológico. Habitado permanentemente por hóspedes inquietos e traiçoeiros, dessa luta, desse duelo inconciliável saiu a obra literária do grande romancista. «L’œuvre d’art est souvenir, un effort personnel de l’individu, en vue de se délivrer de la foule des personnages qui le hantent, empruntés à son ascendance» – insiste Léon Daudet. Era o que por outras palavras dizia lbsen: «Escrever é dar liberdade aos demónios que moram nas células secretas do nosso espírito.»
«Comment voulez-vous que j’aie le temps d’observer, nom cher ami?», perguntava Balzac a Raymond Brucker. «J’ai à peine celui d’écrire.» Apesar da sua preocupação em «observar» («Estou apto para trasladar o que vi e vejo, sem pedir emprestado à imaginativa o que a natureza me não dá», declara ele no prefácio de A filha do Doutor Negro), Camilo podia fazer seu o desabafo de Balzac a Raymond Brucker. «Disse Armand Carrel que a vida de um grande escritor – discorre o senhor Paulo Osório – é o melhor comentário das suas obras, a explicação e, por assim dizer, a história do seu talento. A ninguém melhor que a esse desgraçado e grande Camilo se pode, com justeza, aplicar o conceito, de tal modo os multíplices incidentes da sua vida acidentada influíram na génese da sua obra, quer indiretamente originando os estados de espírito que deram terreno às suas criações, quer de um modo direto sugerindo assuntos que a sua fantasia exuberante depois romantizou. E, assim, essa obra saiu irregular, desordenada, desigual, por vezes até incoerente – como irregular, desordenada, desigual e incoerente foi a vida do grande artista que a criou. É o psicopata a revelar-se a cada página: aqui, atirando para os olhos do público a sua própria vida, no que ela tem de mais secreto e de mais íntimo; além, repudiando opiniões na véspera defendidas, com a mesma convicção e o mesmo ardor; ora fazendo da pena um instrumento de vindicta numa arremetida indómita de orgulho que se não deixa impunemente magoar; ora procurando no leitor o confidente das suas horas de desalento e extrema angústia; esgrimindo hoje contra a palha de uns monos, na ilusão megalómana de que por trás dela existe a cota d’armas de mercadores dignos dele; acumulando amanhã provas contra uma dinastia, pela vaga suspeição de que o representante da linhagem poluída lhe não quer dar um título; umas vezes, escalpelizando com o bisturi do sarcasmo, amorosamente, cruelmente deliciado, como uma fera do Santo Ofício a comandar uma tortura; outras vezes, arrancando da vida real os personagens dos seus livros para os exalçar aos extremos românticos do amor, da abnegação e da ventura, por onde se librava, nas horas calmas, a fantasia alada do seu sonho». Tal é Camilo, na verdade, refletindo espantosamente na sua ondulação sentimental o fluxo e o refluxo hereditário, de que reproduz o coro dissonante e alucinado. Compreende-se assim que ele, improvisando aos galões, quase sem fôlego para respirar, não faça mais que dar expansão ao tumulto ancestral em que, dentro dele, as formas já vívidas do seu atavismo se debatem, extorcionam e gritam.
Como se estivesse considerando a hipótese de Camilo, tornemos a escutar agora Léon Daudet nas suas reflexões. «Les créations littéraires et artistiques – et au premier rang les créations dramatiques – sont les seules qui libèrent aussi complétement l’hérédo.» Se nos dedicarmos, com este preceito sempre em vista, a examinar de perto as personagens mais características da vasta obra de Camilo, concluiremos, sem esforço, que, brotando indecisas e espontâneas da pena do romancista, elas correspondem, no fundo, ao turbilhão de fantasmas que trazem em revolta inapaziguável o moi do escritor. Como esteio sirvamo-nos do pequeno, mas valioso estudo do meu velho amigo e condiscípulo Dr. Jorge Faria – Criminosos e degenerados em Camilo (esboceto de uma camiliana criminal). É um trabalho de estudante – do tempo em que, tirando ambos o nosso direito, saudosamente in Garlandia fuimus. Jorge Faria dispõe numa curiosa e percetível classificação a facies heterogénea dos tipos de Camilo. «Quem não conhece certas personagens de Camilo, maravilhosamente descritas com uma lucidez estranha, com uma sobriedade assombrosa?» – interroga, Jorge Faria, tomado pela profunda admiração que lhe merece o mestre de São Miguel de Seide. E o desfile começa com o Luís da Cunha, da Neta do Arcediago, com Elias, o assassino repelente da Caveira de mártir, com o Álvaro de Abreu, dos Gracejos que matam, com o Abade de Espinho, Leonardo Botelho de Queirós, e com o Narciso Álvaro de O cego de Landim, nas Novelas do Minho, incorporados por Jorge Faria na classificação de «criminosos» dos tratadistas.
Seguem-se os delinquentes por loucura com Baltasar Pereira de O Santo da Montanha, com o Santo de Midões das Quatro horas inocentes, com a doida das Vinte horas de liteira, empurrando Lourenço Pires, que dormia à ourela do Ave, para o redemoinho convulso da corrente. A estes sucedem os delinquentes passionais, a cuja cabeceira toma lugar Simão Botelho, o mal-aventurado tio do romancista. São depois os criminosos ocasionais, uma fieira deles. E não faltam, na galeria debuxada por Jorge Faria, mas já em apontamento posterior, os «avarentos», tal como se nos manifestam na obra de Camilo.
Perfeitamente identificados com as várias espécies determinadas e fixadas, tanto pela psiquiatria, como pela sociologia criminal, os «criminosos» de Camilo, tirando um ou outro colhido da realidade imediata, surpreendem pela exatidão que os caracteriza até nos mais ligeiros detalhes. Difícil, senão impossível, que o romancista os fosse compor ao espelho das nomenclaturas e teorias científicas numa hora em que só existiam na sua forma embrionária. Se meditarmos no problema, a sua solução – e num escritor, para mais como Camilo em quem o improviso era a base febril da criação literária – não é senão a que possivelmente Léon Daudet nos oferece, ao enunciar a sua doutrina sobre a génese da obra de arte. «L’oeuvre d’art, spontanée et géniale – acentua o autor de L’hérédo e do volume complementar Le monde des images –, est moins un agglomérat d’observations qu’une émission de ces hôtes intérieurs, reliés les uns aux autres par des circonstances plus ou moins forgées, logiquement déduites de leurs contrastes.«Onde quero então eu chegar? Simplesmente a isto: como num mero ato de fecundação sexual, Camilo transmite às suas novelas, no delírio alto em que a pena do escritor galopa por sobre o papel, os uivos desencontrados e clamorosos da sua linhagem quase sempre desavinda com a lei de Deus e com a justiça dos homens.
Peguemos nos «avarentos» de Camilo, peguemos nos seus «passionais», sanguinários, marchando a direito, como fera por matagal – e o confronto é concludente, é decisivo, se os alinharmos ao lado desse doutor Bexiga, Domingos José Correia Botelho, «excêntrico, brigão... acusado de irregularidades no desempenho dos seus cargos públicos, e de cumplicidade num crime de assassínio»; de seu irmão José Correia Botelho de Menezes, «provocador e desordeiro»; de seu pai, Manuel Correia Botelho, genro de cristãos-novos, quatro anos antes de morrer perdoado de um crime de assassínio, de que participou com seus filhos Domingos José Correia Botelho e José Correia Botelho de Menezes; de Frei José de São Bernardo, agostinho descalço, que no claustro levava vida escandalosa, «não só para os domésticos como para os estranhos, por acções que produzia indignas do hábito e muito mais do cargo e ministério que ocupava»; e, finalmente, de Domingos Correia Botelho, que, durante uma existência vagabunda, andou de terra em terra propagando as profecias do Bandarra e exercendo o mister de picheleiro. De Domingos José Correia Botelho – o «Bexiga», avô do romancista – anota o senhor Pedro de Azevedo, a propósito de uma reivindicação de dívida: «Estes empréstimos sucessivos despertam em mim a suspeita de que o Bexiga se metera a agiota.»
Em Viseu, para onde foi juiz-de-fora em Junho de 1803, a Nobreza, Clero e Povo capitula energicamente contra o magistrado, acusando-o de receber «por si, sua mulher e filhos e amigos quantias avultadas». O que é curioso é que o dr. Domingos Correia Botelho se defende, como pilar da ordem, com palavras que tresandam a hipocrisia, mas também a uma consciência exata da sua época.
Diz o juiz-de-fora: «A mudança de tempos, a corrupção de costumes, tem desgraçadamente produzido as intrigas e as cabalas nos corações dos homens que conduzidos por uma falsa felozofia não querem conformar suas ações com as leis, aborrecem os superiores, e só desejam viver soltos sem corações e sem magistrados que os contenham: e ponham diques à sua resolução.» A Mesa do Desembargo do Paço, perante o resultado da devassa, não se deixou enlear na felozofia, do avô de Camilo, visto provar «quanto basta para dever ser suspenso, sequestrado e preso» – e tudo porque «ele se acha gravemente indiciado de crimes enormes que pela lei do Reino têm pena de morte, oferecendo tão bem a impunidade a malfeitores a preço de dinheiro, e vendendo a justiça em público leilão...» Camilo, concedendo a seu avô gratuitamente a toga de desembargador da Relação do Porto, informa-nos que o «doutor Bexiga, faleceu na sua quinta de Montezelos, cerca de Vila-Real, assassinado por salteadores». Mais em harmonia com a lógica da situação, o senhor Pedro de Azevedo presume «que Domingos José Correia Botelho se suicidasse para escapar a uma vergonha pública».
Neto do outro Domingos Correia Botelho – do picheleiro que vagamundeava de terra em terra, cantarolando os versos fatídicos do Bandarra –, sabemos já que o «doutor Bexiga», na sua mocidade se envolvera com seu pai e irmão numa rixa gravíssima em Vila-Real, de que resultara «a morte de um soldado». O pai – Manuel Correia Botelho, era escrivão do público e judicial e tanto ele como a mulher, «pouco doces de temperamento, por via de repetidas contendas, malquistavam-se com a maioria da gente de Vila-Real». Trata-se, como se vê, de uma floração espessa de violentos. O doutor Bexiga, alcançadíssimo de inteligência, obteve, no entanto, o lugar de juiz-de-fora em Cascais. É aí que se casa com D. Rita Teresa Margarida Castelo Branco, sendo suspenso do lugar, como mais tarde em Viseu. Pelos abusos e tropelias cometidas por articulados de um processo de partilhas, a sogra mimoseia-o com as seguintes gentilezas: «Este suplicado Domingos José Correia Botelho sendo natural de Vila Real, filho de um nascimento escuro, e de baixa e pobre fortuna, vendo-se condecorado com o honorífico emprego de juiz-de-fora da vila de Cascais, e sabendo que a casa da suplicante era das principais, e das mais ricas daquela vila, e que tinha donzelas, tomou casas para a sua habitação junto às da suplicante com quintal rústico ao seu que só lhe servia de divisão um pequeno muro, e por via de uma Escrava, que corrompeu, se introduziu fora de horas na casa da suplicante desonestando a dita sua filha menor de 20 anos, com a qual se acha casado, recebendo-se em 30 de Outubro de 1771 vindo a parir sua filha um filho, que naceu a 14 de Junho de 1772, 8 meses depois de casados como mostram as certidões do casamento... esta verdade é incontestável, porque os filhos só nascem de 7 e 9 meses, e raras vezes de 11 e 14 meses.»
Paulo Osório sublinha o devaneio ginecológico da sogra do «doutor Bexiga». Nós sublinharemos os devaneios romanescos de Camilo, extraindo com a sua fácil imaginação dos factos tão pouco edificantes da sua família mais de um episódio, que ainda agora nos tocam pelas tintas comunicativas da evocação. Não se esqueceram decerto no Amor de perdição da chegada a Vila-Real de Domingos José Correia Botelho com a sua jovem esposa D. Rita Teresa – mais tarde D. Rita Preciosa da Veiga Castelo-Branco –, com as parentes que saíam do campo a receber Domingos José, que Camilo nos apresenta como «Solarengo de Vila-Real», e toda a nobreza da capital transmontana que desfila junto do coche em que o magistrado avança, bamboleando pelos caminhos da montanha, ao lado de D. Rita Preciosa. Atribui-se aí Camilo uma prosápia linhagista de que, se à data estava convencido, as suas correspondências com o visconde de Sanches de Baena o desiludiriam depois. A mesma deformação literária se alonga por todo o romance, onde Camilo, pelo simples poder da emoção, alcançou restaurar a tradição perdida da novela portuguesa – personificação inolvidável da «Gran coyta de coração» dos Cancioneiros, transmitida mais tarde para o Amadis e para a Menina e moça.
Efetivamente, o caso de Simão Botelho não é como no-lo ressuscita Camilo no Amor de Perdição. Restituiu-o às suas linhas naturais e verídicas o esforço infatigável e benemérito do senhor Pedro de Azevedo. Nos documentos examinados por ele no arquivo do extinto Desembargo do Paço, Simão Botelho reproduz na sua turbulência instintiva o irrequietismo estrutural dos ‘Brocas’ – que assim eram conhecidos em Vila-Real os descendentes dos ‘Barbados do Açougue’. Em 3 de Agosto de 1794, um quarto de hora depois da meia-noite, foi ferido em Viseu, na rua Direita, por um tiro de clavina, Francisco José Ferreira, criado de José Cardoso Cerqueira. Acusados do crime: Simão António Botelho e José Jerónimo de Loureiro e Seixas. Depõe uma testemunha acerca de Simão Botelho: «sendo também público que o mesmo filho do Juiz atirara mais três tiros a outras várias pessoas e que é verdade que sabe pelo ver e ouvir que toda esta cidade [Viseu] andava com temor e estava em Viseu grande desassossego enquanto o dito filho do Juiz de Fora se achava nesta cidade pelos insultos que fazia e esperançado na falta de castigo por seu Pai ser Juiz.»
Procede-se em Viseu a uma devassa, que resulta ineficaz pelas pressões exercidas sobre os depoentes. Ordena o Desembargo do Paço que se proceda a segunda. Entretanto Simão Botelho e seu companheiro, «homens vadios costumados a cometer semelhantes delitos, e a andarem de noite e de dia dando tiros em várias pessoas», haviam-se precatado com a devida «carta de seguro». Contra Simão não cessam as reclamações e os protestos. Nos capítulos apresentados por Viseu na sua repulsa unânime pelo Juiz-de-Fora, conta-se: «é público... que o referido filho (Simão Botelho) associado com o referido Quintas deram um tiro e foram desafiar à porta um do capitão de São Salvador, em ocasião que se queixava de lhe matarem as suas pombas». Ora José Rodrigues Quintas do lugar de Travanca, afirma-se ser «ladrão público que rouba pelas feiras e mercados quanto pode, é de amizade do dito Juiz de Fora, e um caçador que muitas vezes acompanhava com seus filhos». Agora pelo que respeita ao crime que atirou com Simão Botelho para a condição de degredado, escutemos ainda o senhor Pedro de Azevedo, que considera os motivos da pena bem diversos dos que nos são relatados por Camilo.
«Em 17 de Março de 1807 embarcou para a Índia Simão António Botelho, segundo diz uma relação existente no livro das entradas dos presos da cadeia da Relação do Porto de 1803 a 1805, de que nos dá conhecimento Camilo no Amor de Perdição... Os documentos dizem-nos só que ele foi criminado pelo estropiamento que praticou com um tiro da sua carabina ou clavina na pessoa do criado de um indivíduo de Viseu. De ter sido o amor que lhe armou o braço, estão mudos os processos que compulsei; só o arquivo da Relação do Porto nos dirá alguma coisa, no caso que este ainda exista. Quanto a Teresa, seu pai, seu primo, o ferrador João da Cruz e a filha deste, são figuras ao que me parece criadas pela fantasia de Camilo.» A lenda sofria um golpe ainda mais implacável. Ao contrário do que a novela de Camilo fizera crer sentimentalmente a duas ou três gerações de leitores condoídos, Simão Botelho chegou à Índia, e no arquivo do Governo de Goa descobriu o senhor Ismael Gradas os elementos necessários para o poder comprovar.
Se de tudo isto se deduz o quanto Camilo alterou os traços fisionómicos dos acontecimentos, deduz-se também quanto, no fundo, o preocupava o drama íntimo da sua família. Sentiria o romancista, como emissor constante dos seus fantasmas hereditários, que a ela pertencia o fôlego bravo de inquietação e passionalismo animal que marcou com a centelha do génio o criador de tantas maravilhas de humanidade real e dolorosa? Evidentemente que não. Tomado pela aura indomável da sua Psicose, Camilo escrevia, escrevia, libertando-se da Possessão genésica que se lhe congestionava no «moi». E daí, como se assinalou em rápido escorço, a assombrosa coincidência entre os delinquentes da extensa galeria dos seus romances e os tipos ancestrais que dentro dele não terminavam nunca a sua eterna disputa.
Acentuou-se já o dualismo que tornava Camilo uma verdadeira vítima do seu duelo infatigável. É precisamente na linha genealógica dos Correias Botelhos que os passionais e criminosos concorrem em proporção do judaísmo que lhes engrossa na hereditariedade o estigma trágico da degenerescência. O pai de Camilo, sucumbindo à fatalidade dessa herança, é um apático e um inerte, que em rapaz deserta – sempre o inadaptado! – das fileiras militares em que serve como cadete de cavalaria. Da mãe do romancista, Lucinda Rosa de Almeida do Espírito Santo, nada de positivo se apurou até agora.
Provavelmente adúltera, e de uma ninhada de histéricas, reforça no «moi» do escritor as desgraçadas aquisições atávicas que lhe são transmitidas por via paterna. Onde ir buscar, por isso, o outro fator do dualismo, o elemento são que reage aqui e além e que se deixa entrever perfeitamente em Camilo nas duas sensibilidades em que o escritor se transforma e modifica com frequência? Duas sensibilidades? – perguntar-se-á, com bem explicável pasmo. Duas sensibilidades – confirmo – porque, ao lado de Camilo revoltado, sobretudo em matéria política ou religiosa que roce pelos judeus, há um Camilo de sensibilidade genuinamente tradicional, em quem passa o sopro admirável de Balzac nos seus ataques ao liberalismo e aos variados aspectos, tanto sentimentais como sociais, por que o erro revolucionário se manifestava entre nós.
O que faltava a Camilo era a necessária unidade da sua inteligência, desviada do recto juízo, não só pela insurreição ancestral que lhe flamejava no moi, mas também pela intensa rajada individualista que se desencadeava sobre os povos estruturalmente católicos e monárquicos. Se Camilo possuísse uma doutrina, sem dúvida que a sua obra ombrearia em arquitectura e conclusões com La Comédie Humaine de Balzac. Os seus desembargadores, as suas morgadas, os seus professos por amor e as suas meninas poéticas são bem de um Portugal que se dissolve na poeirada liberalista, arrastando para o túmulo o segredo, a um tempo forte e emotivo, da nossa antiga sociedade. Camilo quase que prescruta o mal – quase que o diagnostica. «Se vais até ao calvário, faz lá recomendações ao mau ladrão – ironiza n’O Sangue um dos seus personagens – e diz-lhe que se florescesse em Portugal, mil oitocentos e trinta e cinco anos depois, seria visconde de Festas, visto que ele se chamava Festas.»
Outra definição com o gravado incisivo e sóbrio de um medalhão clássico: «A feição que individualiza o povo, nos ajuntamentos, nas praças, nas oficinas constitucionais, onde se fabricam as fórmulas do governo representativo, essa feição não é a sua, é a compostura que o desaira, o velho cobre da velha moeda com cunhos novos, abertos à pressa, despolidos e grosseiros.» E ainda: «Quando nascerá o génio que nos conte devagar, fenómeno por fenómeno, as metamorfoses que temos visto? Que comédias e que tragédias, desde o leme de um barco de pipas até à vara de uma presidência da câmara municipal? desde a tripeça da palmilheira de aldeia até à banqueta carmesim do coupé da viscondessa?»
Esse génio podia e devia ser Camilo. Em intermitências de penetração, que lhe advinham, por certo, do seu obscurecido, mas profundo instinto de historiador, Camilo atinge a desastrada deslocação moral e política em que o constitucionalismo submergira Portugal. Calixto Elói e o doutor Libório, em confronto, são incontestavelmente as duas metades de Portugal que se chocam, incaracterizam e acabam por se fundir uma na outra. O novelista de A queda de um anjo, abrindo uma exceção no cortejo repetido das suas criações, legou-nos aí a prova completa de quanto o seu pulso valeria se, para além da sátira e da caricatura, lhe fosse possível entrar francamente nos domínios do romance balzaquiano.
A ausência total de espírito filosófico não o permitia a Camilo, imerso por condições especiais do meio e da época na maior das anarquias intelectuais. No entanto, o iluminado sentido da sua costela nacionalista rebrilhava em relâmpagos fugitivos. É frequente vê-lo na Queda de um anjo aludir a Berryer – o grande tribuno tradicionalista. No íntimo de Camilo dormia uma simpatia miguelista secretíssima. Só por isso ele saúda em verso o Rei-Proscrito, quando do seu casamento com D. Adelaide de Loewenstein. De onde em onde, transparece e aflora um outro detalhe francamente revelado, em que Camilo nos denuncia a sua decidida incompatibilidade com a sociedade derivada da aventura de 34. Oiçamo-lo, por exemplo, n’O Demónio do Ouro: «Solarengo antigo vinha de solar; o moderno vem de sola: entre as duas derivações está o Progresso.» Ou nos Mistérios de Lisboa, naquela inolvidável definição do jornalismo, que causticamente chama «calamidade imprevista por Gutemberg.»
Não se pode ser mais inexorável com as forças destrutivas da sociedade tradicional: a burguesia e a imprensa! A noção exacta que Camilo possui do atavismo que substituiu em Portugal a escala ordenada do desenvolvimento individual concentra-se numa pequena passagem de um dos episódios das Noites de Lamego: é na resposta a Guilherme do velho professor, pai de Helena. «Querias ser meu filho para me herdares o meu Horácio de 1629?, e o meu Tucídides de 1731? És tolo, Guilherme! Melhor fôra ser filho daquele forçureiro, que ali mora defronte, que já tem um filho cónego, e prepara outro para os conselhos da coroa. Tu não sabes o que é ser pobre!...» O mesmo conflito entre as duas partes em que Portugal se dividiu moral e intelectualmente se desenha num segundo episódio das Noites de Lamego: «O tio egresso e o sobrinho bacharel».
Prosseguindo na nossa demonstração, repassemos n’A bruxa do Monte Córdova a cena magistral do encontro de Frei Jacinto com os soldados de D. Pedro. O frade caminha, de breviário e bordão, dependurado dos seus oitenta anos. Grita-lhe um dos da tropa, «ilhéu de más entranhas»: «Quem vive?» – «Vive vocemecê, vivem os seus camaradas, e vivo eu. Agora, quem amanhã viverá, Deus o sabe», respondeu Frei Jacinto. – «Não pergunto isso, seu burro! – tornou o farsista. Quem vive? O Miguel ou o senhor D. Pedro?» – «Vivem ambos, creio eu – tornou o monge.» «Tu és malhado ou realista?» – perguntou outro, já bandeado com o ilhéu no escárnio. – «Sou frade.» – «Isso vemos nós que és, velhote; mas queremos saber que partido tens; que bandeira segues.» – «A de Cristo». «Cristo era republicano – disse um sargento que tinha emigrado e lido muita tolice filosófica.» E fiquêmo-nos no sargento «que tinha emigrado e ido muita tolice filosófica» para penetrarmos, por meio das páginas da Agulha em palheiro, nos salões do Príncipe de Monforte. Transponhamos para aqui um expressivo diálogo:
«Talvez que, se me disser o nome de seu pai, eu possa conhecer a sua família.
– V. Exa. não conhece decerto o nome de meu pai. Sou filho de um homem do povo.
– De onde saltam os reis do génio – ajuntou Jerónimo Bonaparte.
Bártolo fez um gesto significativo com a cabeça, e disse, passados uns minutos:
– Veio de Portugal há muito tempo?
– Há vinte e três meses.
– Como estão as coisas por lá? Quem governa a canalha?
– Governa-se ela, presumo eu – disse Fernando.
O Príncipe sorriu e murmurou:
- «A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em Portugal...
– Em Roma no reinado dos Césares e no Baixo Império, e em toda a parte onde as sociedades se dissolvem – acrescentou Fernando.
– Diz muito bem! – acudiu Briteiros. Portugal está em dissolução. O senhor é necessariamente realista.
– Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da liberdade, sinónimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes abatidas pelo privilégio. Se me enganei, a culpa não foi minha.
– Mas enganou-se... – atalhou Bártolo com má cara. – A canalha é que reina.
– Mas com gravata, luva branca, espada, chapéu de plumas e arminhos – ajuntou Fernando Gomes.
– E isso é bom? – redarguiu o fidalgo.
– É bom como lição, como experiência...
– E depois? Quando se quiserem emendar, era uma vez Portugal...
– Seremos espanhóis, ingleses, ou turcos, mas com juízo – disse Fernando.
– Aí está o patriotismo dos malhados! – exclamou Briteiros.
....................................................................
Transitemos agora para os Anos de prosa. «Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a Nova Heloísa de J.-J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente os óculos de um enorme estojo encarnado, montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e, examinando o livro, disse:
«– Era bem grande esse Saint-Preux, ó Jorge!...
– Pois o tio conhece Saint-Preux!
– Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa há bons quarenta anos. Nunca to apresentei quando praticávamos literatura, porque sempre entendi que o ias encontrar em Coimbra, de parceria com os muitos filhos que ele gerou para amparo de Heloísas novíssimas, de que está inçado o mundo, graças às novelas e ao descrédito a que baixou a roca e o fuso. Que carta lês?»
O egresso levou o nariz com os óculos à linha horizontal do livro, e leu algumas linhas da página.
«– Ah! – continua ele –, trata do suicídio.... Está muito atiladamente debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos, e sabia bastante de música; mas os paradoxos dava-os de mimo à humanidade, e para ele guardava a vida com todas as suas paixões vilãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o modo de educar os filhos, e mandava os dele para a roda.»
Tal é o Camilo tradicionalista, o Camilo que à sua ressurreição constante do Portugal-português – do Portugal dos capitães-mores, dos desembargadores, das senhoras morgadas e dos egressos pachorrentos – ligava por vezes um superior pensamento político, a ponto de sentenciar n’A filha do Arcediago que «quem sai fora da sua classe, não tem classe nenhuma», e de observar nos Doze casamentos felizes: «A família, meu amigo, é a base fundamental da sociedade; é o refúgio das virtudes acossadas pelas paixões dos que vagabundeiam de escolho em escolho; é arca santa que alveia o dorso empolado das tormentas do coração e do espírito. – Sem a família, qual seria o destino da mulher, pergunta Legouvé. Sem a família o que será do homem. Só a família pode moralizar o rico e o pobre.» Dir-se-ia que, pelos exemplos reproduzidos, o grande romancista se norteava por uma doutrina, espécie de ideia-orgânica em que a sua alma fragmentária se condensava e robustecia. Verificamos já que não, como fácil nos era verificar que, desde o seu ataque sistemático à dinastia de Bragança, a tantas e tão variadas afirmações de um manifesto rebeldismo sentimental, um outro Camilo existe, inteiramente antagónico do que assim se nos apresenta, assestando armas contra o liberalismo demolidor da nacionalidade. Nessa marca característica do génio de Camilo é onde se evidencia, de uma maneira transparente, o dualismo que principiamos por notar – estrutural e irredutível – no suicida de São Miguel de Seide. Da linhagem psicológica dos grandes hérédos – aceitando-se de Léon Daudet a sua classificação –, Camilo não passou, desgraçadamente, de uma vítima expiatória da disputa de mortos que dentro dele se travava sem trégua nem descanso. Duas personalidades se nos revelam assim no romancista – ambas contraditórias e ambas poderosíssimas. Em semelhantes termos reside, quanto a mim, o drama da individualidade do desventurado escritor.
«Camilo Castelo-Branco, degenerado hereditário, sofreu na sua vida agitada de trabalho e de martírio, uma nevrose – a histero-neurastenia, e uma doença orgânica do sistema nervoso – o tabes. Ao desvio patológico da sua função nervosa devem atribuir-se os seus males físicos, as suas desigualdades de carácter e a sua superioridade intelectual eminentíssima.» Esta é a definição que de Camilo nos apresenta Paulo Osório. Dentro de limites ela conforma-se com a realidade, quanto à observação dos factos. Já assim não sucede quanto à sua interpretação, ou seja, pelo que respeita às conclusões de uma crítica segura e lógica. Padece Paulo Osório da sugestão perniciosa das teorias lombrosianas e dos ensinamentos da escola da Salpêtrière. Só dessa maneira se explica que o autor da monografia Camilo Castelo Branco, a sua vida, o seu génio, a sua obra, atribua conjuntamente ao desvio patológico da função nervosa do mestre de São Miguel de Seide «os seus males físicos, as suas desigualdades de carácter e a sua superioridade intelectual eminentíssima». Concedemos que o desvio patológico assinalado pelo senhor Paulo Osório fosse a causa dos males físicos e até certo ponto das desigualdades de carácter de Camilo. Mas o que de forma alguma subscrevemos é que a fulguração genial de Camilo se considere como uma enganadora aura luminosa do demónio terrível que lhe atormentava a existência, tanto fisiológica, como psicologicamente. Pelo contrário, trabalhado por elementos inimigos e irreconciliáveis, se Camilo não realizou nunca a verdade do seu moi e, por consequência, a posse plena do seu alto e admirável espírito, a culpa pertence à luta interminável em que o escritor se debatia, sem um ligeiro instante de apaziguamento.
Já mais de uma vez o acentuamos e nunca é demais repeti-lo. Assim, o génio de Camilo, longe de ser uma emanação do seu desvio nervoso, é talvez a sua mais dolorosa e excruciada vítima.
Nada mais são, na verdade, de que o génio de Goethe – supremo exemplo de harmonia e de equilíbrio, em quem as duas potências do entendimento – a emoção e a compreensão propriamente dita – se aliaram sempre num consórcio permanente e reflectido. Despojêmo-nos, pois, do preconceito romântico que nos apresenta o génio como uma excepção desregrada, morando para além do humano, já fora de toda a limitação. Não era outro o figurino que Victor Hugo compunha diariamente para si mesmo, espelhando-se na água revolta do seu revolto egocentrismo. O segredo do génio reside precisamente na medida com que se exterioriza e ritma uma abundante personalidade interior. Lembrêmo-nos dos gregos que nesse campo são modelos a meditar. Lembrêmo-nos mesmo de Cícero, de Vergílio, de Tito Lívio, enfim, de tantos e tão elevados padrões morais e intelectuais que o mundo pagão nos legou, embora não tocado ainda pelo vento depurador do Cristianismo. Respondem em seguida, já baptizados pelo sentido eterno das coisas, inspirados como Dante, Camões ou Shakespeare. Eles são, irrecusavelmente – e o génio é apenas isso –, «types achevés de ce qui existe chez le commun des mortels, d’une façon moins nette et continue» – na palavra de Léon Daudet. « Car il n’est rien, chez Lucrèce, Shakespeare, Dante ou Virgile, que ne puisse, à la rigueur, concevoir et éprouver l’épicier du coin, ou la prostituée. Il s’agit, en ces derniers cas, d’un éclair, d’une lueur ou d’une phosphorescence d’images, alors que les maîtres des âges rapportent de durables, d’éternels flambeaux. Ces maîtres totalisent les parcelles du commun, rangent et ordonnent leurs hérédismes, leurs ‘ancestraux’, afin de les lancer, de les couler dans le flot pâteux et doré de leur verbe. Ils font frémir leur peuple intérieur, avant de lui donner des voix, qui se conjoindront en une voix, la leur. »
Como um totalizador privilegiado de quantidades dispersas na variedade do comum, devemos nós, com efeito, classificar o génio. Não cai ele, derivadamente, na alçada dos psiquiatras só porque representa uma forma excepcional da natureza e condição do homem. Esse abuso pseudo-científico achou já, na renovação do pensamento contemporâneo, a necessária correcção. Não foi, portanto, Camilo um génio por ser um doente – um nevropata. Antes o seu génio se ressentiu fundamentalmente da psicose que atormentou o escritor. Invertam-se os termos do problema – e a sua solução aparecer-nos-á imediatamente e revestida da maior segurança. Incluamos, pois, Camilo, no número dos génios fragmentados, em quem o «soi» não conseguiu jamais prevalecer sobre o «moi» confuso, heterogéneo e antagónico.
Donde vinha o antagonismo sabemo-lo nós. O simples exame da hereditariedade de Camilo desvenda-nos o íntimo do seu drama subconsciente. Em Camilo guerreavam-se, encarniçadamente, duas sensibilidades inconversíveis: a sensibilidade nómada, rebelde, em contínua e indominada insurreição, do seu profundo atavismo judaico; e a sensibilidade do enraizado – do territorial, do autóctone, recebida talvez da avó de Camilo, D. Rita Teresa Margarida Castelo Branco. Enquanto na linhagem de seu marido, o famigerado doutor Bexiga, de remarcado cunho israelita, a «inadaptação», é a tara que se transmite de geração a geração, na árvore genealógica de D. Rita Teresa Margarida Castelo Branco, os «emoldurados» desfilam, uns atrás dos outros, numa perfeita conformidade com as normas e com o curso do existente. Creio mesmo não ferir um traço de caricatura, recordando que um dos bisavós de Camilo, Diogo Luís de Mesquita Castelo Branco, pai da furibunda sogra do bacharel Domingos Correia Botelho, fôra criado grave da condessa de Aveiras, com cuja aia, Isabel de Matos, se matrimoniou. O que isto significa de valor moral no quadro da sociedade antiga apreende-se facilmente, se nos fixarmos no papel de dedicação e colaboração doméstica que a famulagem desempenhou dentro do lar cristão e da família portuguesa.
Da mão destes ascendentes de Camilo, alguns mais se destacam para a luz das nossas reflexões em contraste singular com os que se nos oferecem ao longo da prosápia falsamente enramalhetada dos netos do marchante Lázaro da Costa, há soldados que servem desde o posto mais humilde até à conquista dos galões emancipadores, tal como o pai da avó de Camilo, o capitão José Pereira da Silva. Há gentes anónimas – pedreiros e mareantes – que saíam dos reservatórios inesgotáveis da nacionalidade, com as feições estampadas à imagem e semelhança da raça que nos fez e criou a todos. A série ancestral dos Castelo Brancos desfia-se numa ordem e numa sequência que debalde pedimos à turbulência doentia dos Correia Botelhos. Achar-se-á aqui a incógnita da individualidade de Camilo? Não hesito em repetir que sim. No duelo das duas metades em que Camilo se divide, contém-se, palpável e doloroso, o drama agitado do escritor. Por causa da garra hereditária que o esmaga e persegue é que o génio de Camilo se não vazou nunca nas linhas serenas de uma obra definitiva e suprema. Continuemos ouvindo a Léon Daudet, renovador extraordinário da crítica moderna.
«De toutes les lubies insanes qui ont désolé la pensée et la culture française entre 1880 et 1914, la plus falote, non la moins nocive – escreve ele no seu volume Les œuvres dans les hommes [1922] – est vraisemblablement l’assimilation du génie poétique et littéraire à l’excès paroxystique et au délire. Quand on disait ‘génie’, la foule voyait Hugo et la pauvre critique de l’époque, interprète de la foule (idola fori), n’admettait pas qu’un autre type de génialité fut possible. ‘Désordre et génie’, ‘Folie et génie’, ‘Dégénérescence et génie’... Vous retrouvez dans ces titres les thèses, absurdement matérialistes, du vulgarisateur de néant Lombroso, du Boche Max Nordau et de leurs congénères. Vers 1890, Nietzsche, paralytique génial, tenta cependant une distinction entre les génies apolliniens ou équilibrés, dionysiens ou déséquilibrés. Les travaux récents sur l’hérédo – syphilis et l’hérédité intellectuelle et imaginative tout court jettent des lueurs nouvelles sur le problème, entre tous passionnant, du génie. Je crois qu’il importe de distinguer la surabondance des images, la facilité à les libérer et la prédominance de la raison. Cette surabondance, due à une rapide et intense coulée des ancêtres le long de la personnalité profonde, c’est le moi. Cette prédominance de la raison, assurant et réglant, tel un soleil intérieur, la gravitation mentale des immages, c’est le soi. Le génie véritable, authentique et sain, relève du soi. Il appartient à la clarté, non à la confusion, à l’ordre, non au désordre ; à l’équilibre, non à la folie. »
Meditando o exposto, não podia, pois, o génio de Camilo derivar do desvio da sua função nervosa – como pretende o senhor Paulo Osório, sacrificando os seus juízos ao prestígio já decadente da superstição lombrosiana. O génio de Camilo, inerente à riqueza da sua personalidade congenital, foi esmagado pela difusão revolta dessa mesma personalidade. Filiando-se no tipo genial de um Balzac ou de um Shakespeare, Camilo difere deles, na direção da sua individualidade, porque não logrou domar a culpa original do seu atavismo. Génio incompleto, o de Camilo, falta-lhe a «maîtrise du soi», que enchia de legítimo orgulho a Balzac, quando esculpia no pórtico de La Comédie Humaine: «J’écris à la lueur de deux vérités éternelles, la religion et la monarchie.»
Aproxima-se assim Camilo de Nietzsche, de Poe, de quantos, afinal, se abandonam sem reação à querela escumante dos seus mortos.
Aludindo ao primeiro, observa Léon Daudet: «Je le vois déchiré par ses ascendants, comme le docteur Faust, dans la légende originale allemande, fut déchiré par le diable. On suit même, à travers son œuvre vociférant, chuchotant, balbutiante, bredouillante, les changements de ton et d’accent de cinq ou six ancêtres tyranniques, auxquels il cède tout le terrain, avec des yeux exorbités d’épouvante. C’est que, palie, courtoise, onctueuse, chez Renan, la contradiction des fantômes était, chez Nietzsche, hargneuse, rageuse et furibonde, ainsi qu’il sied à des reviviscences, plus ou moins hagardes, de haines de race, la slave et la teutonique.»
Idêntico conflito, o conflito de Camilo, tragicamente expresso na dualidade em que o escritor se digladia. No seu judaísmo irredutível achamos a decifração de tanta luta, de tanta agonia – convém acentuar. Exagero? Ora escutemos um testemunho insuspeito. Num livro curioso de Henry William Steed, traduzido para francês por Firmin Roz, La Monarchie des Habsbourgs, comenta o seu autor: «O carácter da raça judaica tem tanta força que o cunho judaico continuará persistindo durante gerações nas famílias não judaicas em que o sangue judeu entrou.
Semelhante característica pode produzir a beleza ou o génio, ou, inversamente, trazer consigo o desarranjo de espírito tão frequente nas famílias hebraicas da classe elevada. Na sua brochura Die Zukunft der Juden, Werner Sombart fornece-nos sob a autoridade do Dr. Wieth-Knudsen alguns dados estatísticos impressionantes, embora incompletos, tendentes a mostrar que os casamentos entre os judeus e não judeus são menos fecundos que a média das uniões puramente judaicas ou puramente não judaicas em circunstâncias análogas, e afirma ainda que os filhos de um casamento misto estão sujeitos com frequência à falta de harmonia e equilíbrio mental. Efetivamente, é um problema saber se os filhos de tais matrimónios escapam, pelo menos na primeira geração, ao dualismo de carácter que por toda a parte se verifica nos mestiços. Quando eles escapam, os caracteres de uma raça dominam sobre os da outra.»
Tal o que sucede com Camilo. Recebeu Camilo dos «Barbados do Açougue» em Vila Real a inquietação peculiar da psicologia judaica e, sem dúvida, ao seu semitismo hereditário deve Camilo a chispa sarcástica que o distingue com admirável insolência na arrastada caravana ultrarromântica do seu tempo. Aí está, sem dúvida, a causa fundamental da psicose que o invalidou para a plena aplicação das suas altas qualidades intelectuais.
É certo que de onde em onde Camilo triunfa de si mesmo – da tendência que há em todo o hérédo para a autodestruição, e para o suicídio, perante cuja atração fatal o escritor acaba por sucumbir. Seriam as oscilações tão próprias do psicopata? Insistamos sempre: essas oscilações existiam, mas com raiz na disputa atávica que Camilo presenciava dentro de si. Porém, a sociedade romanesca em que viveu agravou-lhe a tendência mórbida, comunicando-lhe os seus hábitos de depravado individualismo. O meio tornou-se cúmplice, deste modo, da inclinação natural de Camilo para o naufrágio e submersão da sua consciência, tanto moral, como literária.
Mas contra o nómada – contra o judeu, protestando incessantemente a sua revolta – opunha-se em Camilo o territorial, e se o segundo elemento componente da individualidade do mestre de São Miguel de Seide não venceu inteiramente, é à sua ação que podemos ainda agradecer o que Camilo salvou e realizou no deplorável desperdício do seu grande e abundante génio. Deixemos ao judeu o sarcasmo, deixemos-lhe o seu ódio instintivo à lição antiga da nossa história. E aceitando do autóctone, do territorial a sua ressurreição nacionalista da vida em província, com morgados e desembargadores, com egressos e vates de abadessado, vejamos agora que fatores disciplinaram a pena de Camilo, a ponto de ser ele, apesar de tudo, o mais fiel arquivista do Portugal que sucumbiu às investidas dos barões da Finança e dos seus consócios, os vários doutores Libórios. Não nos é difícil apurar quais fossem.
Camilo, retirado ao assomar da adolescência para os confinados ermos de uma aldeia da montanha, conta-nos enternecidamente a vida que aí levou na companhia e direção do Padre António de Azevedo. «Uma vidraça do nosso quarto não tinha portadas. Ele queria ver o repontar da aurora. Quando a lua nascia por alta noite, eu acordava às vezes, e via-o sentado no seu leito banhado de luar, rezando os doze mistérios, por umas contas monásticas. Depois chamava-me. Rezávamos matinas com luz artificial e íamos para a igreja. Eu tangia à missa e acolitava, pingando mais sono que devotas lágrimas. De volta do Presbitério, fazíamos chá; depois, lia-se a versão de Alexandre Garrett, os Anais da propagação da fé, as Noites de Young, a Miscelânea curiosa e proveitosa, os Lusíadas, o Teatro de los dioses, as Viagens de Ciro, as Peregrinações de Fernão Mendes Pinto, e a História de Portugal por uma sociedade de ingleses.»
Assim se exprime Camilo nos Serões de São Miguel de Seide. No volume Ao anoitecer da vida acrescenta:
«Creio que tinha eu então entre os quinze e os dezasseis anos. Cismava mais do que lia, e lia mais poetas que compêndios escolares. Porém, que poetas eu conversei na minha infância! O pecúlio das riquezas ritmadas que entesourava a pequena biblioteca da minha família de aquele tempo, biblioteca de padres, lá em cima na serra do Mesio em Trás-os-Montes, eram dois volumes de Bocage, um Camões, e umas trovas de não sei quem, dispersas nuns cinco tomos denominados Miscelânea poética... Já então e de muito antes, se liam e tomavam para molde as poesias de Castilho, Garrett e Herculano; avultavam os Lamartinistas; balbuciavam os bardos novos aquelas meiguices e amaneirados dizeres, nunca ensaiados entre nós com tanta louçania como, poucos anos depois, os admiramos na plêiade de moços que, em Coimbra, escreveram o Trovador. Ora eu, em 1842, não conhecia alguns daqueles nomes, nem àquelas montanhas, onde me fiz homem, havia chegado livro de poeta que merecesse enfileirar-se entre Bocage e um sermonário de José Agostinho de Macedo, com o Teatro dos Deuses à esquerda e o Fernão Mendes Pinto à direita, e as Viagens de Ciro por cima, e a teologia do Lugdonense por baixo.»
Sobre estes depoimentos, e resumindo a conclusão a que se chega em seguida a uma leitura cuidadosa de Camilo, comenta o senhor Paulo Osório: «Literariamente, educou-se pois Camilo fora da atmosfera do seu tempo, começou a ler românticos na altura já em que o seu espírito estava apto a recebê-los sem esse entusiasmo vulgar na gente nova pelos nomes aclamados; ao contrário de todos os outros incipientes plumazes do seu tempo, ele soube que existiu um Bocage, um José Agostinho e um Fernão Mendes Pinto; antes de boquiabrir-se ao estilo floribundo do visconde de Castilho, adorou o visconde Garrett na Lírica de João Mínimo, e em Herculano, humildemente, saudava o Mestre. Daí o seu amor aos clássicos, que foi depois lendo e estudando com interesse, e, mais tarde, a sua paixão de papelista, proporcionando-lhe excelentes meios de investigação de factos históricos deturpados ou controversos; e ainda, como natural consequência dessas leituras, a aquisição de um vocabulário vastíssimo que lhe permitiu levar a nossa língua, que desde o século dezoito se viera deploravelmente empobrecendo e abastardando, a um grau de maleabilidade e a um poder de expressão nunca atingido.»
E afigura-se-me que não é preciso prosseguir nas transcrições. A formação intelectual de Camilo, confiada a um modesto cura de montanha, destaca-os bem nitidamente as suas pronunciadas direções classicistas. Foram as humanidades – retomando hoje de novo o predomínio que lhes pertence na cultura do espírito – o método seguro que imprimiu ao génio desabrochante de Camilo a couraça com que se defendeu mais tarde, nas ondulações doentias da sua personalidade de escritor, de uma desagregação total. Hão-de perdoar-me a insistência em recorrer constantemente ao conselho e à experiência de Léon Daudet. Mas na necessidade evidente de libertar a crítica dos preconceitos lombrosianos e deterministas que a escravizam, eu não sei de guia mais digno da nossa completa confiança.
Pois, no seu recente discurso, Défense des humanités gréco-latines – discurso proferido na Câmara dos Deputados francesa em 27 de Junho do ano de 1922 – Léon Daudet afirmava:
«L’éducation des enfants adresse à qui dans deux périodes de sa formation qui, selon moi, sont différentes. Il y a, pour les jeunes garçons, comme d’ailleurs pour les filles – mais je ne m’occupe en ce moment que des garçons – une première partie de l’éducation et de la formation intellectuelle qui va jusqu’à la puberté. À ce moment, les influences héréditaires, les influences transmises, qui sont le plus souvent des influences sages, ne sont pas encore troublées, ne sont pas devenues limoneuses par des préoccupations de l’ordre sexuel. C’est seulement entre la neuvième et la dixième année et jusqu’à la vingtième année, qui est l’âge où ces préoccupations se sont en quelque sorte décantées, c’est dans cette période de la vie que l’application du jugement, que selon moi forment surtout les lettres anciennes, est le plus nécessaire.» E Léon Daudet insiste e esclarece-se: «Vous savez que la maladie du jugement, qu’on appelle, d’après la racine grecque, l’aphronie: de a privatif et phronos, jugement, est un trouble cérébral et corporel qui prend les enfants à l’âge de onze ans et es accompagné jusqu’à, l’âge de vingt ans, l’âge de l’échéance philosophique, des connaissances métaphysiques qui libèrent la personne humaine des préoccupations exclusives de l’instinct sexuel.
» Pendant cette période, je considère que les humanités, même sans la forme réduite ou elles sont enseignées sont la meilleure assise du jugement» – continua Léon Daudet. E porquê? Porque, «la connaissance par l’homme des racines du langage, la connaissance même cursive et abrupte au moment ou il parle et ou il écrit, est nécessaire pour la formation du jugement et qui enlève ce flottement, ce je ne sais quoi d’incohérent et de trouble que le maître psychologue, le docteur Révillon a appelé l’aphronie.»
E Daudet – o denodado «procurateur du Roi» – desenrola as suas considerações naquele tom sacudido e fácil que é tão próprio da sua veemência persuasiva. «Quelle ignorance profonde – exclama – des conditions de la nature humaine, et surtout de la nature enfantine! L’enfant ne forme son jugement – ce qui est le but essentiel, nous l’avons dit – que par l’effort. L’enfant n’éprouve du plaisir dans ses études que lorsqu’il a fait l’effort intellectuel mesuré à sa jeune personnalité, et, j’ajoute, un effort intellectuel qui lui donne précisément le sentiment de cette personnalité ». Não nos é possível acompanhar Daudet em toda a sua longa e cerrada exposição. Mas para o ponto de vista especial que nos preocupa, precisamos de o escutar mais uns instantes. «Je crois que ce que j’appelle la formation du jugement, c’est-à-dire, l’imposition à ce qui nous entoure et aux circonstances de notre vie des connaissances accumulées, par l’esprit humain en général et par l’esprit de nos ancêtres en particulier, que cet esprit, dis-je, qui est proprement l’humanisme, présuppose ce fait que l’homme va en quelque sorte au-devant de la nature pour la résoudre, au lieu que ce soit la nature qui vienne le recherche, et accabler.»
Mede-se o alcance das humanidades como elemento fixador, não só do gosto literário, mas dos próprios fundamentos da razão e do carácter. Camilo, respirando-lhes o influxo, achou assim um dos apoios de que mais tarde a sua individualidade se socorreu para resistir às forças íntimas que lha pretendiam destroçar. E não passe em claro o facto de Camilo receber num humilde presbitério de montanha a formação intelectual que o tornou grande e inconfundível! Devido ainda às mesmas humanidades, a cultura média, antes da invasão romântica, encontrava-se, além de mais sólida, mais largamente distribuída. É essa a glória da sociedade antiga e a honra das velhas classes eclesiásticas – seculares e regulares, tanto as humildes como as privilegiadas!
Graças à forte educação clássica ganharia Camilo o conhecimento da língua, a posse plena do espírito e da pureza do seu idioma nativo. «Le langage humain – define Léon Daudet – est une reprise des éléments héréditaires du moi par le soi et, dans une certaine mesure, il fait partie de la victoire du soi... Dans le langage, le soi joue le rôle du chant, le moi celui de l’accompagnement. Le verbe, quand vient la phrase, relèves en général du soi. Les pronoms, substantifs et qualifiants, traduisent les alternatives variées du moi et des hérédo présences. La phrase elle-même est un petit système verbostellaire, réglé et dominé par le soi. Le style peut être considéré comme un ensemble de ces systèmes verbostellaires, eux-mêmes gravitant en compagnie des hérédo figures, et où ce soi est constamment vainqueur. Ce qui n’empêche que, chez le meilleur écrivain aussi, le ciel intérieur soit parsemé d’éclats e de débris héréditaires, ou l’automatisme se manifeste en forme de tics et de réflexes variés. La beauté, la force, l’intrépidité au style se mesurent à la qualité, à la prédominance du soi de l’écrivain. Il en est de même de la beauté, de la force, de l’intrépidité d’un langage. La langue latine, la langue française sont deux réussites, ou mieux deux apothéoses du soi. Le verbe y a la toute-puissance. Le verbe y tient l’emploi d’un soleil.» Tal foi a psicoterapia que em Camilo inconscientemente, pela prática da língua, pela renovação do léxico, por uma apurada combinação da linguagem popular com a linguagem erudita ou culta, o impediu de cair no aniquilamento mental debaixo da pressão violenta de uma hereditariedade contraditória, como era a do mestre de São Miguel de Seide.
« Quand le moi, dans le mot, l’emporte sous ses formes péjoratives, il mène à l’obsession et à la folie – surtout alors que l’instinct génésiaque le gonfle et le fait éclater à travers l’esprit. Quand c’est le soi raisonnable qui l’emporte, le mot grave la loi et administre la cité. Dans le premier cas, le mot anarchise; dans le second, il hiérarchise ». Hierarquizando a viva revolta do seu subconsciente, Camilo, enquanto no seu labor de romancista se libertava dos fantasmas que o povoavam interiormente, dava realce e predomínio à costela autóctone – ao atavismo de enraizados e de adaptados que debalde se esforçava dentro dele para lhe imprimir homogeneidade ao sentimento e à visão. Por esse lado – pelo lado da linguagem e da formação clássica o judaísmo de Camilo, tão vivo no sarcasmo, tão presente nos apaixonados ataques às instituições tradicionais, tão manifesto no rebeldismo ingénito do panfletário, não alcançou vitória – a vitória que seria a irremediável destruição do escritor.
Léon Daudet caracteriza em breves conceitos a anormalidade permanente do hebreu. «Psychologiquement – escreve ele –, le peuple juif doit son malaise et son besoin d’agitation à la perte de son dialecte, à cette aphasie profonde (sans amnésie) qui lui fait emprunter le double langage international de la bourse et de la révolution». E Daudet repete: «Le juif est une migration arrêtée, une migration installée dans les principaux comptoirs et marchés financiers de l’Europe.»
« Le juif est un personnage à part, ayant ses qualités et ses défauts à part, poursuivant une destinée de race qui est sans analogie, sinon sans point de contact, avec la destinée des autres races, auxquelles ils se mêlent sans s’assimiler. » É, palpavelmente, a anormalidade que, meio debelada, persistiu em turvar o génio altíssimo de Camilo. O seu irrequietismo é a projeção sentimental e social desse como que exílio interior, desse como que ghetto moral em que nos laboratórios profundos da individualidade do escritor os descendentes dos ‘Barbados do Açougue’, de Vila-Real, se digladiavam na contorção eterna das fossas dantescas. Faltou a Camilo o dom da «psicanálise», tão reclamada pelos neurologistas e psiquiatras contemporâneos, mas que a sociedade antiga exercia num plano superior e intenso, frequentando a confissão e os consequentes sacramentos. Por aí decerto acharia Camilo remédio, se a profunda desconexão da sua personalidade não fosse agravada – como já notámos – pelo sopro anárquico do ultrarromantismo. O capítulo dos amores do mestre de São Miguel de Seide, de sobejo conhecido, concede-nos toda a razão e dispensa-nos de buscar mais justificações.
Não nos resignamos, por isso, a considerar, segundo o senhor Paulo Osório, o génio de Camilo como uma floração patológica – como uma consequência do desvio nervoso do escritor. Sofrendo as consequências da meia irresponsabilidade que o individualismo do seu tempo conferia aos «apaixonados», aos «emotivos» e a várias outras espécies sentimentais em que o «coração sensível» foi fecundo, Camilo, que, no culto das disciplinas clássicas e no convívio renovador da linguagem, conseguiu obter um quadro em que se condensou intelectualmente, naufragou, debaixo do ponto de vista do sentimento e da vontade, porque a sua psicologia levantadiça e doente não conseguiu rectificar-se nos mesmos termos e com vantagens idênticas. Eis porque o devemos lamentar no conflito em que uma crítica séria o contempla hoje – crítica liberta dos preconceitos deterministas e pseudocientíficos a que o senhor Paulo Osório, com toda a admiração pelo grande escritor, não se pôde furtar.
É preciso entoar um hino à liberdade da alma humana – vencer com ânimo heroico os fantasmas que dentro de nós persistem em nos sujeitar à vida inferior dos impulsos e das obsessões. «C’est un fait aussi, observé par tous les aliénistes, que la persistance d’actes de conscience, jusque dans les périodes ultimes d’une maladie telle que la paralysie générale, persistance tenant à la survivance et aux réapparitions du soi, qui peut-être masqué, affaibli, mais non détruit ni supprimé. Là est la grande ressource de la médecine de l’avenir. » E Daudet acrescenta, porque a Léon Daudet, como a um guia seguro, nos amparamos neste ensaio destinado a abrir novos caminhos ao problema da nosografia camiliana: «Il est même des cas, comme celui, classique, de Pasteur, ou une légère hémiplégie, succédant a un épanchement cérébral, coïncide avec une amplification notable du génie créateur et correspond à une ascension du soi. C’est sans doute le soi qui, dans sa lutte et dans sa victoire, a maltraité un système hérédostéllaire jusque dans son prolongement organique. Cette augmentation de la personnalité, que la science matérialiste prend par un effet, est une cause.»
Percebe-se com que optimismo se não encaram assim os dramas crudelíssimos em que a nossa consciência, alterada por espectros tirânicos e dominadores, tantas vezes sucumbe, esmagada de todo! Sofrendo o legado de uma ancestralidade contraditória, Camilo, só por si, demonstra-nos o acerto com que o eminente Dr. Grasset nos aconselha aquela cooperação de higiene física e moral que ele intitula expressivamente «preparação da hereditariedade». Julgamo-nos habilitados a supor a que altura subiria Camilo se, no seu génio, o «soi» do escritor triunfasse inteiramente. Não triunfou, pelos motivos expostos. Mas ainda assim, «hérédo», caracterizado, contemplemos em Camilo a confirmação de que o génio é sempre uma ordenação superior das faculdades compreensivas do homem. Defendido dos elementos psíquicos que lhe perturbavam a individualidade pela influência salutar do «humanismo» e diminuído da rebelião congénita que o judaísmo lhe depusera no sangue pela penetração nacionalista com que o gosto da língua lhe arejava o «moi», julgo achada a fórmula do génio de Camilo. Em Camilo o escritor é são quando o sabat hereditário que lhe torvelinha na composição anímica se detém confinado nos domínios mais reclusos da vontade e da emoção. Se Camilo escritor é assim intelectualmente um produto da sociedade antiga, por mercê da ação depuradora e coordenadora das «humanidades», varridas pelo contrário, as altas probabilidades introspetivas dessa sociedade pelo relaxamento da vida inteira, já não podemos abranger Camilo no mesmo juízo, se o considerarmos debaixo do ângulo exclusivamente psicológico.
Dispondo, numa rara aquisição, dos recursos líricos da nossa novela (o Amadis, a Menina e Moça, o Palmeirim de Inglaterrae a Diana são os ascendentes legítimos do Amor de Perdição), Camilo subverte-se na desordem passional do ultrarromantismo. E ele, a vergôntea assimilada de tanta linhagem de judeus, na influência do ultrarromantismo, no irreparável crepúsculo dos conceitos éticos e sociais da nossa dupla tradição católica e monárquica, sente acordar o fundo adormecido e ei-lo dardejando a sua invetiva atávica, sempre que penetre os átrios augustos da história pátria. Porque Camilo, tão português na ressurreição incomparável dos seus tipos de um mundo que se vai, assume imediatamente uma posição antinacional (menos na questão pombalina) quando desponta o rei ou assoma o perfil duvidoso do cristão-novo.
Quanto ao mais (e no «mais» incluo o Camilo que sofreu e que insultou, o Camilo que amou e que odiou, o Camilo que encheu de admiração e de vociferações meio século de existência pública em Portugal), esse é o enfermo que o senhor Paulo Osório, naturalmente enfeudado às superstições deterministas da sua formação mental, nos quer levar a admitir como contendo em si toda a razão de ser do génio tão facetado do desventuroso escritor. Firmados em critério irredutivelmente oposto, nós proclamamos a triste sujeição, padecida pelo génio de Camilo, que não se ampliou tão alto e tão largo como as suas arrancadas lho permitiam, unicamente porque a doença constituía para o mestre de São Miguel de Seide a grilheta que não cessou nunca de o amarrar às tristes condições da sua natureza inferior.
Não inquiriremos se Camilo «degenerado hereditário», arrastou consigo os frutos terríveis do tabes. Falecem-nos para isso – para o pormenor clínico e nosográfico, a competência e as categorias necessárias. Agora o que repelimos é o conceito fatalista, tão próprio do materialismo expirante, em que a figura de Camilo se envolve, ao apresentarem-lhe o génio como filho da agitação infatigável da «histero-neurastenia». Assim, diminuído na sua personalidade livre e criadora, jamais Camilo podia agradecer ao mal que o excruciava a centelha inconfundível com que Deus o dotara. Enredado na eterna disputa do «soi» com o «moi», nesta disputa Camilo soçobrou, afastado do conforto teológico que na confissão nos facilita uma disciplina regeneradora, em que o princípio experimental da introspeção psíquica nos aparece erguido às suas mais belas e salutares possibilidades.[1] Eis como o problema se deve colocar. Eis como devem ser apreciadas a acção e a recção do génio de Camilo sobre os sedimentos patológicos da sua individualidade. E pretendendo iniciar, embora modesta e hipoteticamente, com as nossas reflexões, um novo roteiro crítico no exame e estudo da obra do desgraçado escritor, consinta-se-nos que assentemos, como verificações basilares:
a) Camilo, escritor espontâneo, refletiu na génese e composição dos seus romances as formas ancestrais, de que provinha;
b) O seu génio, longe de ser uma derivação do seu desvio nervoso, espelhou-lhe antes a influência desagregadora e mortífera;
c) Por seu turno, o individualismo solto do período ultrarromântico roubou a Camilo os recursos psicoterápicos que a confissão religiosa lhe patentearia – recursos que renascem hoje na "psicanálise", numa triunfante experiência;
d) Em compensação, o desequilíbrio dos sentimentos que afetou em Camilo a unidade íntima do carácter e da vontade, vem-se restringido, quanto ao campo da inteligência, pela robusta conformação mental que o escritor recebera das humanidades;
e) que o natural amor e conhecimento da língua, transmitido a Camilo pelo convívio das letras clássicas, atenuou a afloração semita que em Camilo pesava esmagadoramente, como força hereditária descoordenada;
f) que esse semitismo, estabelecendo em Camilo uma disputa atávica com mortos territoriais ou autóctones da outra costela do escritor, daria origem à dualidade frisante que a psicologia de Camilo nos manifesta;
g) finalmente, apesar da pressão de elementos tão dissolventes como os que ficam sumariados, o génio de Camilo, resplandecendo pela intensa luminosidade das suas criações literárias, permite-nos adivinhar a que ponto ele se duplicaria, se a vontade o houvesse acompanhado na revoada extraordinária.
Sobre as alíneas apontadas, uma conclusão se levanta, dominadora e indiscutível: e é a da verdade que assiste a Léon Daudet quando nos ensina que unicamente de nós depende, ou jazermos na escravidão ancestral ou enriquecermos a nossa individualidade com os atributos invencíveis da alma livre e soberana. Tão grande na sua tragédia e no seu talento, ainda Camilo se excede a si próprio pela lição que do seu infortúnio se desprende e vem até nós.
Descubramo-nos diante da sua memória ensanguentada e guardemos sempre connosco aquelas suas palavras, traçadas numa noite de agitada invernia – a noite de 22 de Novembro de 1886: «Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora de repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei é o terminus da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e virtuoso quem o puder ser.»
Em tão crispado testamento há como que a consciência da impossibilidade em que o escritor se debatia para dominar o seu dualismo irreconciliável. Dele morreu Camilo. Mas matou-o, principalmente, a submissão voluntária dos espíritos do seu tempo às esfinges inflexíveis do determinismo e da hereditariedade – superstição criminosa com que a falsa ciência nos encadeou, ao mesmo tempo que ditirambicamente declarava o homem emancipado da tutela de Deus. É o que se desprende desse grito inolvidável – síntese palpitante de uma existência truncada e sem centro: «Seja bom e virtuoso quem o puder ser.» A vontade inclinava-se, desaparecia, diante de uma fatalidade escondida e insaciável. E o suicida em holocausto ao monstro anónimo, saltou nas trevas, no antegozo de um imaginário alívio.
Se ligarmos o fim de Camilo ao desnorteamento da sua existência, entenderemos melhor que os homens não são diferentes das ideias que os regem. Camilo sofreu paixão e morte, porque o individualismo frenético do seu ambiente cultivou e engrossou o individualismo frenético que o escritor refletia como herança estrutural. E não foi outra a causa da diminuição da sua personalidade, do desencontrado da sua obra. Invertam-se, pois, os dados da questão – e seja para se afirmar contra os preconceitos lombrosianos, que em Camilo a doença, longe de lhe alimentar o génio, só lho mutilou e desfigurou, acabando por extingui-lo.
[1] Não é inútil chamar em meu reforço um auxílio decisivo. Abramos esse admirável Guide des nerveux et des scrupuleux (Vade-mecum de tous ceux qui souffrent ou qui voient souffrir), do Padre Raymond da ordem de São Domingos, capelão do célebre Kneippianum em Wörishofen, na Baviera. O Padre Raymond, vivendo por caridade entre uma espessa e variada flora de nevroses as mais caprichosas, restitui-nos com a leitura das suas reflexões, impregnadas de piedosa elevação, a certeza que nunca devemos perder na plenitude do nosso destino, mesmo sobre a terra. "Puisque dans l’homme, l’âme et le corps sont unis dans une unité de personne et que tout se fond et s’unit dans l’âme raisonnable il est facile de comprendre l’influence de l’âme sur le corps, la puissance de gouverner l’organisme et ses forces. Comme elle ne peut puiser dans son corps la force nécessaire pour donner libre essor à ses facultés et l’entrainer à sa suite, ele doit puiser en elle même une force de direction supérieure."
E o factor religioso, como educador da consciência perturbada ou invadida, desdobra-se diante de nós nos seus infinitos recursos e com uma multidão de exemplos e de obras que o Padre Raymond cuidadosamente assinala. O livro do capelão do Kneippianum constitui deste modo um breviário de consolação do espírito e de medicina da alma. É simples o tratamento. Ele consiste na confiança num médico ou num confessor – confiança que leva à obediência – «seul moyen efficace de guérison». Como se vê, Freud nada inventou de novo. E justo é consignar que o aumento das devastações morais, reunidas debaixo da designação geral de «nevrose» coincide, há um século a esta parte, com o decrescimento da vida interior, como a religião a prescreve. Falo no sentido objectivo – e não no sentido apologético. Junte-se-lhes o absolutismo férreo da irresponsabilidade, ditado pelas doutrinas deterministas. Anota Léon Daudet: «L’homme asservi dans sa lignée, l’humanité libre et indefiniment ascendante, telle était l’antinomie sur laquelle vécurent les deux générations de 1870 et 1900». Semelhante antinomia esmagou Camilo nas suas tenazes inexoráveis. Não insistamos, pois, no erro crasso de supor que o seu génio foi função da sua nevrose. A nevrose é que lhe enfraqueceu o génio, e se tanto o flagelou e acabou por vencer, a razão está na ausência total daquelas inibições psicológicas, que a Igreja, inscrevendo como princípio dogmático o livre-arbítrio, naturalmente aponta ao homem para autonomia e defesa da sua personalidade.