Medicina e História
António Sardinha
António Sardinha discute abordagens pseudocientíficas aplicadas à história, destacando a fragilidade de estudos que misturam métodos clínicos e literários com a análise histórica, como exemplificado na controvérsia sobre a morte de D. João II. Argumenta que, diante da falta de provas objetivas, qualquer conclusão sobre o suposto envenenamento do rei permanece conjectural e sujeita a interpretações pessoais, reforçando a necessidade de rigor documental e metodológico nos estudos históricos.
Medicina e História: Reflexão Crítica sobre a Interpretação Médica do Passado
I. O «Rei Formoso» e a «Flor da Altura». [ Pelo Dr. Asdrubal António d'Aguiar, Chefe de Serviço do Instituto de Medicina Legal de Lisboa, Professor do Curso Superior de Medicina Legal. Estudo Medico-Psychologico. Instituto de Medicina Legal de Lisboa. 1924; Separata do Archivo de Medicina Legal (Vol. I. 1922)]
A Crítica ao Diagnóstico Retrospetivo.
António Sardinha inicia a sua análise destacando a abordagem do dr. Asdrúbal de Aguiar, médico-legista que tenta aplicar, de modo sistemático, metodologias médicas à análise de personagens históricos, em particular D. Fernando e D. Leonor Teles. Sardinha evidencia que tais métodos se baseiam em diagnósticos retrospetivos, prática que considera frágil e perigosa. Essa fragilidade reside, segundo o autor, na influência de escolas ultrapassadas, como a de Charcot, e nos preconceitos racionalistas do século XIX, que atualmente já foram contestados por nomes como Babinski e Choffard. O diagnóstico retrospetivo, ao ser aplicado de forma rigorosa, ignora o contexto social e cultural das figuras estudadas, desconsiderando as condições do meio em que viveram. O autor exemplifica como características como “religiosidade” ou “bravura guerreira” são interpretadas por Asdrúbal de Aguiar como sintomas patológicos, sem levar em conta o ambiente e a época. Sardinha defende que mesmo os avanços na medicina, como autópsias e relatórios médicos, não permitem diagnósticos fiáveis em figuras históricas, reforçando a ideia de Witkowski de que a medicina histórica é, na melhor das hipóteses, uma ciência conjetural.
O Uso Abusivo de Literatura e Genealogia.
Sardinha critica o recurso frequente de Asdrúbal de Aguiar à literatura para fundamentar as suas conclusões, apontando o erro de tomar textos literários como provas científicas. O exemplo da utilização de Alexandre Herculano para justificar a “ferocidade” de Leonor Teles revela o perigo de se confundirem metáforas literárias com diagnósticos médicos, erro semelhante ao cometido por Max Nordau ao literalizar metáforas poéticas. Outro ponto importante na crítica de Sardinha é a abordagem sobre consanguinidade e hereditariedade. Ele salienta que a consanguinidade só conduz à degeneração em famílias já afetadas por graves patologias, citando autores como Sanson, Apert e Woods, que demonstram que as casas reais europeias, apesar de casamentos consanguíneos, produziram descendentes notáveis. O autor, apoiando-se em Léon Daudet, reforça que a hereditariedade é constantemente modificada por fatores não hereditários, o que torna qualquer leitura determinista redutora e insuficiente.
Crítica à Descontextualização Histórica.
O texto de Sardinha sublinha o erro de desconsiderar o contexto histórico e social em que D. Fernando e Leonor Teles viveram. Argumenta que muitos comportamentos considerados patológicos ou degenerados eram, na realidade, respostas a uma época de crise e transição no final do século XIV. Ao ignorar este contexto, as análises acabam por falsificar personagens e suas motivações, servindo apenas ao apetite do público por novidades sensacionalistas.
Sardinha destaca ainda que D. Fernando, frequentemente acusado de fraqueza e volubilidade, tomou decisões políticas conscientes para evitar o fortalecimento de Castela, contribuindo para a estabilidade económica do país e para o início da expansão marítima portuguesa. Sobre Leonor Teles, observa que a sua imagem é fortemente marcada pela visão dos seus adversários, não havendo provas irrefutáveis da sua alegada ferocidade.
Limitações da Prova Iconográfica e Morfológica.
Outro aspeto abordado por Sardinha é o uso de características físicas, como o prognatismo, para justificar diagnósticos de degenerescência. O autor expõe o debate entre médicos, mostrando que o prognatismo dos Habsburgos pode ser visto tanto como estigma de degenerescência quanto como simples característica morfológica hereditária. O exemplo de Carlos V, cuja aparência física foi objeto de múltiplas hipóteses médicas, ilustra bem a fragilidade dessas interpretações.
A Fragilidade dos Estudos Médico-Históricos.
Na conclusão da primeira parte, Sardinha afirma que estudos como o de Asdrúbal de Aguiar padecem de uma fragilidade congénita, pois se baseiam em teorias transitórias e confundem o relativo com o absoluto. Sardinha cita Paul Bourget para sustentar que a introdução do critério clínico na história gera confusão e pode mesmo desorganizar os estudos superiores. Defende, por isso, que a medicina histórica, tal como aplicada por Asdrúbal de Aguiar, é um abuso tanto para a história como para a medicina, apelando para que tal prática não se repita.
II. D. João II morreu envenenado?
A Impossibilidade do Diagnóstico Certeiro.
Na segunda parte, Sardinha responde à dúvida sobre se D. João II morreu envenenado, realçando as limitações da história enquanto ciência. Sustenta que, sem bases objetivas, qualquer resposta a essa questão será sempre conjetural. Afirma que a história, por envolver inevitavelmente interpretações pessoais e psicológicas, não se presta a diagnósticos retrospetivos definitivos, prática comum em médicos como Cabanés ou Galippe, mas rejeitada pela crítica séria. Embora reconheça que há elementos concretos apresentados por vários autores, Sardinha argumenta que não é possível resolver cientificamente, historicamente ou juridicamente o problema devido à falta de documentação.
A sua inclinação pessoal é para a versão de que D. João II não foi envenenado — ou, se o foi, não houve cumplicidade de D. Leonor —, mas reconhece que a ausência de provas impede qualquer conclusão definitiva. O drama da morte de D. João II, narrado por Garcia de Resende, permanecerá sempre envolto em mistério e aberto a múltiplas interpretações. Observa que, dependendo da perspetiva — seja do romancista, do dramaturgo ou do historiador —, a personagem e os acontecimentos assumem sentidos diferentes.
António Sardinha conclui que a verdadeira história não pode responder de forma definitiva à questão do envenenamento de D. João II, limitando-se a manifestar estima e admiração ao interlocutor.
A Crítica ao Diagnóstico Retrospetivo.
António Sardinha inicia a sua análise destacando a abordagem do dr. Asdrúbal de Aguiar, médico-legista que tenta aplicar, de modo sistemático, metodologias médicas à análise de personagens históricos, em particular D. Fernando e D. Leonor Teles. Sardinha evidencia que tais métodos se baseiam em diagnósticos retrospetivos, prática que considera frágil e perigosa. Essa fragilidade reside, segundo o autor, na influência de escolas ultrapassadas, como a de Charcot, e nos preconceitos racionalistas do século XIX, que atualmente já foram contestados por nomes como Babinski e Choffard. O diagnóstico retrospetivo, ao ser aplicado de forma rigorosa, ignora o contexto social e cultural das figuras estudadas, desconsiderando as condições do meio em que viveram. O autor exemplifica como características como “religiosidade” ou “bravura guerreira” são interpretadas por Asdrúbal de Aguiar como sintomas patológicos, sem levar em conta o ambiente e a época. Sardinha defende que mesmo os avanços na medicina, como autópsias e relatórios médicos, não permitem diagnósticos fiáveis em figuras históricas, reforçando a ideia de Witkowski de que a medicina histórica é, na melhor das hipóteses, uma ciência conjetural.
O Uso Abusivo de Literatura e Genealogia.
Sardinha critica o recurso frequente de Asdrúbal de Aguiar à literatura para fundamentar as suas conclusões, apontando o erro de tomar textos literários como provas científicas. O exemplo da utilização de Alexandre Herculano para justificar a “ferocidade” de Leonor Teles revela o perigo de se confundirem metáforas literárias com diagnósticos médicos, erro semelhante ao cometido por Max Nordau ao literalizar metáforas poéticas. Outro ponto importante na crítica de Sardinha é a abordagem sobre consanguinidade e hereditariedade. Ele salienta que a consanguinidade só conduz à degeneração em famílias já afetadas por graves patologias, citando autores como Sanson, Apert e Woods, que demonstram que as casas reais europeias, apesar de casamentos consanguíneos, produziram descendentes notáveis. O autor, apoiando-se em Léon Daudet, reforça que a hereditariedade é constantemente modificada por fatores não hereditários, o que torna qualquer leitura determinista redutora e insuficiente.
Crítica à Descontextualização Histórica.
O texto de Sardinha sublinha o erro de desconsiderar o contexto histórico e social em que D. Fernando e Leonor Teles viveram. Argumenta que muitos comportamentos considerados patológicos ou degenerados eram, na realidade, respostas a uma época de crise e transição no final do século XIV. Ao ignorar este contexto, as análises acabam por falsificar personagens e suas motivações, servindo apenas ao apetite do público por novidades sensacionalistas.
Sardinha destaca ainda que D. Fernando, frequentemente acusado de fraqueza e volubilidade, tomou decisões políticas conscientes para evitar o fortalecimento de Castela, contribuindo para a estabilidade económica do país e para o início da expansão marítima portuguesa. Sobre Leonor Teles, observa que a sua imagem é fortemente marcada pela visão dos seus adversários, não havendo provas irrefutáveis da sua alegada ferocidade.
Limitações da Prova Iconográfica e Morfológica.
Outro aspeto abordado por Sardinha é o uso de características físicas, como o prognatismo, para justificar diagnósticos de degenerescência. O autor expõe o debate entre médicos, mostrando que o prognatismo dos Habsburgos pode ser visto tanto como estigma de degenerescência quanto como simples característica morfológica hereditária. O exemplo de Carlos V, cuja aparência física foi objeto de múltiplas hipóteses médicas, ilustra bem a fragilidade dessas interpretações.
A Fragilidade dos Estudos Médico-Históricos.
Na conclusão da primeira parte, Sardinha afirma que estudos como o de Asdrúbal de Aguiar padecem de uma fragilidade congénita, pois se baseiam em teorias transitórias e confundem o relativo com o absoluto. Sardinha cita Paul Bourget para sustentar que a introdução do critério clínico na história gera confusão e pode mesmo desorganizar os estudos superiores. Defende, por isso, que a medicina histórica, tal como aplicada por Asdrúbal de Aguiar, é um abuso tanto para a história como para a medicina, apelando para que tal prática não se repita.
II. D. João II morreu envenenado?
A Impossibilidade do Diagnóstico Certeiro.
Na segunda parte, Sardinha responde à dúvida sobre se D. João II morreu envenenado, realçando as limitações da história enquanto ciência. Sustenta que, sem bases objetivas, qualquer resposta a essa questão será sempre conjetural. Afirma que a história, por envolver inevitavelmente interpretações pessoais e psicológicas, não se presta a diagnósticos retrospetivos definitivos, prática comum em médicos como Cabanés ou Galippe, mas rejeitada pela crítica séria. Embora reconheça que há elementos concretos apresentados por vários autores, Sardinha argumenta que não é possível resolver cientificamente, historicamente ou juridicamente o problema devido à falta de documentação.
A sua inclinação pessoal é para a versão de que D. João II não foi envenenado — ou, se o foi, não houve cumplicidade de D. Leonor —, mas reconhece que a ausência de provas impede qualquer conclusão definitiva. O drama da morte de D. João II, narrado por Garcia de Resende, permanecerá sempre envolto em mistério e aberto a múltiplas interpretações. Observa que, dependendo da perspetiva — seja do romancista, do dramaturgo ou do historiador —, a personagem e os acontecimentos assumem sentidos diferentes.
António Sardinha conclui que a verdadeira história não pode responder de forma definitiva à questão do envenenamento de D. João II, limitando-se a manifestar estima e admiração ao interlocutor.
MEDICINA E HISTÓRIA
I
O «Rei Formoso» e a «Flor da Altura»
Nós já conhecíamos do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, professor do Curso Superior de Medicina Legal, a sua delirante fantasia sobre o «masoquismo psíquico de Soror Mariana Alcoforado» [*]. Mas o seu último trabalho – trabalho de paciente esmiuçamento genealógico, acabou por defini-lo como cultivador de uma especialidade que, apenas enunciada no pequeno delito acerca de Soror Mariana, se revela agora resolutamente acreditada no espírito do dr. Asdrúbal de Aguiar como um género seguro e de inabalável base científica.
Na volumosa lucubração do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, a que, ingenuamente, chamou «estudo médico-psicológico», acusa-se uma mentalidade dominada em absoluto pelos preconceitos, hoje em completo crepúsculo, da escola de Charcot, por um lado, e por outro lado, pelo baixo criticismo racionalista do século findo, com tipo nas insignes enfatuações de um Lombroso ou de um Max Nordau. Na verdade, a formação intelectual do autor do Rei Formoso e a Flor da Altura, é velha de bastantes anos, confiando ainda nos ídolos e demais superstições que os complicados romances desenvolvidos à roda dos problemas fundamentais da responsabilidade e da hereditariedade inculcaram presunçosamente como sendo a palavra última da Ciência – da Ciência com a indispensável letra maiúscula da praxe!
A análise do livro do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, tão festejado na imprensa diária por pensadores analfabetos, importava talvez a condenação dos critérios imperantes nos meios em que ele professa, inteiramente fechados à renovação cultural que se estende por toda a parte. Não conheço, efetivamente, nada tão novelesco e tão insubsistente como «o estudo médico-psicológico sobre D. Fernando e D. Leonor Teles, a que se aventurou, numa diversão deplorável, o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar! Historicamente falso e medicamente errado, não aproveita da história senão os conceitos, sentimentais ou facciosos, do nosso ultrarromantismo, enquanto, dentro do ângulo clínico, por que o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar pretende encarar a questão, usa de processos, senão pouco probos, pelo menos pouco recomendáveis. Expliquemo-nos, porém.
Discorrendo da psicologia de Santa Joana d’Arc e da natureza das suas visões, o célebre professor e eminente neuropatologista, dr. Georges Dumas, ainda que apresentasse para o caso a sua interpretação, recusou-se terminantemente a formular o que ele intitulava de «diagnóstico retrospetivo». Pois é um «diagnóstico retrospetivo» o que, antes de tudo, o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar formula – e formula-o, tomando por taras e estigmas, tanto pessoais como ancestrais, circunstâncias que são mais «do meio» do que do indivíduo, e que, de modo nenhum, é lícito consignar como indicação de desequilíbrio ou de degenerescência. Assim, o «religiosismo» de certos ascendentes do Rei Fernando, assim a «bravura guerreira» de outros, etiquetada pelo sr. dr. Asdrúbal de Aguiar de «ferocidade». Exemplo: «Pelágio... mostrou-se sempre valoroso nos combates, enérgico, ambicioso, cruel e em extremo religioso.» Ou então: «D. Afonso I. Foi um dos mais nobres guerreiros das Astúrias... D. Afonso I caracterizava-se, como a esposa, pelo muito elevado amor à religião.» Manifesta aqui o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, com o grave pecado do seu «diagnóstico retrospetivo», a debilidade da sua documentação, em que transparecem todas as nódoas do falso objetivismo, de que, por via de regra, a psicologia dos médicos é vítima.
Cheio de escusadas prevenções contra a floração religiosa ou mística da alma antiga, o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar reflete, como já apontámos, o influxo de Charcot e da Salpêtrière, sem se lembrar que os ensinamentos desse notável especialista tombaram pela raiz, desde que o dr. Babinscki, fiel, no entanto, à memória de Charcot, abrangeu na designação geral de «pithiaticos» (ou seja o desenvolvimento mórbido pela persuasão) os vários fenómenos funcionais, agrupados anteriormente dentro da designação geral de «histeria». Por sua vez, o professor Choffard, num artigo sensacional da Presse Médicale (17 de Janeiro de 1912), depois de confessar que, em tempos de Charcot, se verificara une grande époque de l’hystérie», observa: «Et maintenant? Par un singulier changement à vue, il n’y a presque plus d’hystérie dans nos services, pas plus chez les femmes que chez les hommes ; et, pour une part, je crois bien qu’il y a plus de dix ans que je n’en ai observé un cas sérieux dans mes salles ».
Porquê? C’est que depuis Charcot nos idées se sont profondément modifiées en grande partie par le fait de la critique objective, à laquelle M. Babinscki a soumis la doctrine de l’hystérie. Ces hystériques si nombreux, si démonstratifs, si typiques, c’est nous médecins qui par nos méthodes imprudentes d’examen, en faisions la culture artificielle et intensive. Aujourd’hui que nous sommes avertis – remata o prof. Choffard –, l’hystérie a à peu près disparus de notre clinique hospitalière, pour se réduire à un substratum mental, sur le lequel l’avis de plus compétents que moi est encore très partagé». [“Isto porque, desde Charcot, as nossas ideias foram profundamente modificadas, em grande medida, pelo facto da crítica objetiva, a que M. Babinscki submeteu a doutrina da histeria. Estes histéricos, tão numerosos, tão demonstrativos, tão típicos, fomos nós, médicos, que, pelos nossos imprudentes métodos de exame, os cultivamos artificial e intensivamente. Hoje, quando fomos avisados – remata o prof. Choffard – a histeria quase desapareceu da nossa clínica hospitalar, para ser reduzida a um substrato mental, sobre o qual a opinião dos mais competentes do que eu ainda está muito dividida. “] Em face disto, que concluir? Além do evidente desastre em que ruidosamente desabaram as teorias de Charcot, o cuidado que é preciso pôr em tudo quanto envolva a aplicação exagerada de uma doutrina ou de um determinado princípio, sobretudo, no terreno das hipóteses reputadas de «científicas». Ora o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, submetido com exagerada passividade às reminiscências da Salpêtrière, não cultivando nem produzindo «histéricos» nos seus serviços do Instituto de Medicina Legal, meteu-se a descobri-los, ou, talvez melhor, a inventá-los nos domínios da história. De resto, a intervenção do critério clínico na história é apreciada nestes termos por um dos amadores do género, o dr. G.J. Witkowski, no seu Comme moururent les rois de France: «À l’aide des renseignements fournis par les médecins du temps; à l’aide des autopsies incomplètes, telles qu’on les pratiquait alors, à l’aide des traitements plus au moins fantaisistes auxquels les malades étaient soumis, vouloir établir un diagnostic précis est une prétention outrecuidante.» [“Com a ajuda das informações fornecidas pelos médicos da época; com a ajuda de autópsias incompletas, como então eram praticadas, com a ajuda dos tratamentos mais ou menos fantasiosos a que os doentes eram submetidos, querer estabelecer um diagnóstico preciso é uma pretensão exagerada."]
Claro que no caso encarado por Witkowski se pondera unicamente o «óbito», contando-se, para juízo póstumo, com os elementos fornecidos pelos relatos oficiais do tempo: autópsias, tratamento médico, etc. Mesmo assim, Witkowski considera a medicina histórica uma ciência conjetural. Como a consideraremos nós, na gorda monografia do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, que, para se autenticar de estudo sério, se acolhe à seguinte epígrafe, extratada de Pinheiro Chagas: «... D. Fernando punha nos lábios a taça das torpezas que essa risonha Circe lhe mostrava e obedecia ébrio de amor e de voluptuosidade aos seus mínimos caprichos»?
Sem nos acastelarmos numa exigência pedantesca, a «medicina histórica», como a entende e justifica o sr. Asdrúbal de Aguiar, não passa, insistimos, de uma dupla e conjunta desnaturação da história e da medicina. Começa logo que o A., em vez de refundir por completo os lugares-comuns correntes acerca de D. Fernando e D. Leonor Teles, na sua sistemática preocupação do mórbido, do «patológico», só se empenha em aproveitá-los e autenticá-los, porque este doutor, despendendo prodigamente a linguagem barroca dos doutores (já o helenista Emile Egger se queixava da ênfase com que a medicina inventa e distribui vocábulos de variada origem grega, criando, com isso, verdadeiros barbarismos), no fundo, o que se afirma é um ultrarromântico, seduzido pelas piores e mais enredadas situações folhetinescas. Mas testemunhemos, para que não nos julguem difamando por gosto ou tecendo gracejos inadmissíveis!
Para abonar as suas constatações, recorre o dr. Asdrúbal de Aguiar a Alexandre Herculano na narrativa «Arras por foro de Espanha». Quem está no potro dos réus é D. Leonor Teles. Escreve o A. – «Alexandre Herculano viu claramente o grau de ferocidade desta mulher. Definiu-a bem nas seguintes palavras que põe na sua própria boca a dirigi-las ao rei: “Fernando... o povo, ou se rege com a espada de cavaleiro, ou ele vem colocar a azevan do peão sobre o trono real. As febres populares curam-se com banhos de sangue”.»
O sublinhado é do sr. Asdrúbal de Aguiar. Com ele procura justificar o seu veredicto acerca da ferocidade de Leonor Teles, sem lhe ocorrer sequer que «literatura» não é ciência, e que Alexandre Herculano compunha uma novela com todas as licenças do convencionalismo romântico, e não redigia um capítulo de história, por certo discutível. A maneira como de uma frase de evidente composição literária o A. extrai conclusões positivas faz-me recordar o que sucedeu, a propósito de Verlaine, com Max Nordau, de quem Huysmans satirizava: «Ce médicastre allemand c’est un monomane de la folie.»
Jules Lemaître discreteava de Verlaine e da alta impressionabilidade lírica do poeta com a leveza da sua prosa alada. «Cet enfant a une musique dans l’âme, et à certains jours, il entend des voix que nul avant lui avait entendu...» Pois Max Nordau toma à letra a expressão figurada de Lemaître e assegura do autor da Sagesse que ele tinha alucinações místicas como Santa Joana d’Arc! Corremos quase o perigo de a anedota se reproduzir com o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, pela facilidade que denuncia na utilização de dados, à primeira vista refutáveis, se não totalmente desprezíveis.
Sucede, de mais a mais, que o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar se inclina a qualificar a «consanguinidade», como causa bastante de degenerescência. Mas desde André Sanson, na sua Héredité normale et pathologique, ao dr. Apert, na sua recente Héredité morbide, tratadistas autorizadíssimos demonstram-nos que a consanguinidade só é geradora de degenerescência, quando se verifica e repete em famílias já tocadas de taras graves. O dr. Apert invoca até as alianças frequentes dos Darwin e dos Galton, alianças que, durante cinco gerações, se ilustraram com produtos enobrecidos por predicados invulgares. Outro tanto acontece, de um modo geral e segundo os trabalhos do heredologista Frederic Adams Woods (Mental and Moral Heredity in Royalty), com as estirpes reais europeias.
Abandona-se o A. igualmente aos piores excessos das doutrinas sobre a hereditariedade. Evidentemente que ela atua, e atua com incalculável poder. Mas Léon Daudet repara agudamente que a hereditariedade é sempre modificada pela parte não hereditária da nossa personalidade. Admitindo mesmo que é mínima ou nula essa parte, não há, num indivíduo ou numa família, apenas uma ancestralidade – inclusive nas linhagens consanguíneas. Sabe-se lá, portanto, que influência genealógica se realiza?! Perante a fatalidade cerrada do determinismo atávico, com tanto olimpismo professado das cátedras aos compêndios, como calha bem um outro reparo, não menos agudo, da pena de Daudet! Ei-lo: «L’homme asservi dans sa lignée, l’humanité libre et indéfiniment ascendante, telle était l’antinomie sur le quelle vécurent les deux générations de 1870 et 1900.» [” Homem escravizado na sua linhagem, humanidade livre e ascendente indefinidamente, tal era a antinomia em que viviam as duas gerações de 1870 e 1900”]
Padecendo de tão patentes bastardias científicas, o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar deforma com elas o campo da história, e é natural que reincida. Sejamos inexoráveis, pois! Na destrinça dos temperamentos de D. Fernando e de D. Leonor Teles, desliga-os arbitrariamente da época em que viveram, época agitada de transição, agitado final do século XIV, que marca nas sociedades ocidentais uma profunda e desorganizadora crise. Então se inicia a decomposição de que sofremos hoje as derradeiras consequências. Nem D. Fernando, nas suas hesitações, nem D. Leonor Teles, na sua ambição desenvolta, são florações pessoais e esporádicas, de forma a catalogarem-se de «patológicas». O sr. dr. Asdrúbal de Aguiar esquece-se do meio. E porque se esquece do «meio», apesar de no-lo pintar em estilo luarento e peganhoso, comete, embora sinceramente, uma falsificação de personagens e de caracteres, de efeito seguro em públicos gulosos de sensações fortes ou imprevistas.
Se o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar olhasse para a Castela contemporânea, veria fratricídios e felonias, como no Portugal fernandiño. Se transpusesse os Pirenéus, depararia com espetáculos semelhantes. E, no entanto, D. Fernando não é só o «fraco», o «volúvel», que nos descreve! Muitas das suas volubilidades foram atos propositados de política. O que ele procurava era evitar a consolidação do bloco castelhano. No seu Doutor Minerva, o dr. Manuel Bento de Sousa (um médico que não praticava diagnósticos retrospetivos!) coloca D. Fernando no seu perfeito significado. Não se trata de um irresponsável! As suas medidas de fomento estabilizaram economicamente a pátria. Sem ele, a expansão marítima não se inauguraria com tanta felicidade no reinado seguinte. E, sinal de que D. Fernando possuía uma consciência, é a sua nobre confissão à hora da morte: «Tudo isso creio (os dogmas da fé) como fiel cristão, e creio mais que Ele (Deus) me deu estes reinos para os manter em direito e justiça, e eu, por meus pecadas, o fiz de tal guisa que lhe darei deles mui mau conto.»
Quanto a D. Leonor Teles, é conveniente considerar que só a conhecemos através do partido que a venceu e envolta numa lenda que sentimentalmente a enegrece. Não lhe chama Pinheiro Chagas «Circe»? E não se compraz o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar em lhe perfilhar a designação? Registemos, porém, que, pedindo-lhe a mão o mestre de Avis, Leonor Teles rejeitou-lhe com energia a proposta, não sendo, afinal, tão odiada como se quer, pois o mestre de Avis aventurou-se a esse passo por conselho dos seus partidários. Avivemos também na nossa memória o episódio narrado por Fernão Lopes, quando, vencida a nossa frota pela armada de Castela, a triste nova se espalhou na corte. Amachucado o rei com o desastre, eis como a rainha lhe falou: «Por que vos enojais assim, senhor, por a perda da vossa frota, e como outras novas esperáveis vós dela, se não estas que vos vieram? Digo-vos, senhor, que nunca eu outras novas esperei dela em minha vontade, salvo estas que agora ouço; porque eu vi que vós mandáveis trazer os baraços cheios de lavradores e de mesteirais, e os mandáveis meter em elas, com outros agravos que fazíeis ao povo, sempre eu cuidei em minha vontade, que tal mandado vos havia de vir dela como vos veio.» Onde está então o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar, o vampiro que curava «com banhos de sangue as febres populares»?
Não contente com o que a sua imaginação houve de interpretar como estigmas morais, o A. Socorre-se da prova iconográfica, para chamar a juízo as características somáticas de D. Fernando. Utiliza o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar as moedas fernandinas. Conquanto reconheça a debilidade do documento, não se esquiva o autor em questão a proclamar a importância que uma melhor prova iconográfica traduziria para a determinação dos caracteres físicos, normais e anormais, do rei D. Fernando I. Ainda aqui o sr. dr. Asdrúbal de Aguiar sacrifica demasiadamente a uma miragem da sua especialização profissional. E para lho certificarmos, basta lançarmos mão do famigerado prognatismo dos Habsburgos. No seu abundante volume L’hérédité des stigmates de dégénérescence et les familles souveraines, o dr. V. Galippe classifica o prognatismo da casa de Áustria como um sinal evidente e insofismável de degenerescência. Prefaciando-lhe o livro, Henri Bouchot restringe um pouco a generalização do dr. V. Galippe: «Le prognathe peut être idiot comme il peut être également Laurent de Médicis, Charles Quint ou Louis XIV.» Já se não conforma com a lição do dr. Galippe o dr. Apert. Na citada Hérédité morbide, assim se pronuncia: «je veux parler du prognathisme du maxillaire inferieur, conformation vicieuse qui a fait l’Object d’un très intéressant livre de M. Galippe. M. Galippe a étudié sa transmission dans les familles souveraines; il montre qu’elle apparait dans le maison de Bourgogne dès Charles le Téméraire, qu’elle se transmet dans la maison d’Autriche et dans la maison de France, et que, entretenus par les mariages consanguins répétés, elle se fixe en toutes les maisons souveraines catholique donc une conformation qui se transmet cents ans, dans un groupe de souche et s’unissant combien je dis que c’est là un caractère de race et non un stigmate de dégénérescence, le stigmate de dégénérescence c’est ce qui écarte le sujet du type normal dans son espèce, dans sa race, dans sa famille; telles sont les modifications que provoquent dans le type familial l’hérédosyphilis, l’hérédo alcoolisme, et toutes les souffrances des parents; ici c’est le contraire; ce qui caractérise cette conformation spéciale, c’est sa grande tendance à se reproduire identique à elle-même par l’hérédité.»
[“Refiro-me ao prognatismo da mandíbula inferior, uma conformação viciosa que foi tema de um livro muito interessante de M. Galippe. M. Galippe estudou a sua transmissão em famílias soberanas; ele mostra que ela aparece na casa da Borgonha já em Carlos, o Audaz, que é transmitida na casa da Áustria e na casa da França, e que, mantida por repetidos casamentos consanguíneos, está fixada em todas as casas católicas soberanas, portanto, uma conformação que se transmite por cem anos, em um grupo de estoque e união, quanto eu digo que isso é um carácter de raça e não um estigma de degeneração, o estigma da degenerescência é aquele que separa o sujeito do tipo normal na sua espécie, na sua raça, na sua família; Tais são as modificações que a heredossífilis, o alcoolismo e todos os sofrimentos dos pais causam no tipo familiar; aqui é o contrário; O que caracteriza esta conformação especial é a sua grande tendência para se reproduzir idêntica a si mesma por hereditariedade."]
Para uns, estigma de degenerescência; para outros, característica morfológica, transmitindo-se hereditariamente como um selo de raça – o prognatismo dos Habsburgos oferece-nos motivo de sobejo para nos sorrirmos da imponência catedrática com que um dr. Galippe se arroga o direito de intervir clinicamente na apreciação de determinadas figuras históricas. E já agora não deixaremos de nos referir a outra questão ligada a um dos Áustria mais representativos, Carlos V, a fim de que se meça bem o insubsistente e o oscilante de tais divagações. Fundando-se em que todos os retratos de Carlos V o mostram de boca entreaberta, um médico dinamarquês, dr. Wilhelm Meyer, autor ilustre dos primeiros trabalhos sobre vegetações adenoides, sustenta que a abertura permanente da boca do Imperador e a pouca nitidez da sua articulação, pois Carlos V exprimia-se defeituosamente, eram independentes do seu prognatismo inferior e tinham por causa a existência de vegetações adenoides. O dr. Potiquet, sem discordar inteiramente do dr. Wilhelm Meyer, objeta que a abertura permanente da boca em Carlos V pode ser devida ainda à estreiteza anormal das fossas nasais e da faringe superior, ou a um desvio excessivo da membrana nasal, ou a polipos, ou mesmo a uma coriza hipertrófica. E etc., etc., etc. Em que assentamos, afinal?
Do exposto resulta transparente a fragilidade congénita de estudos como o do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar. Sujeitos incondicionalmente a teorias de passageiro domínio, tomam o «relativo» por «absoluto», dando lugar àquelas hipóteses de tipo «científico», mas não científicas, de que nos fala Paul Bourget no seu prefácio aos Limites de la biologie, do dr. Grasset. Com os seus Rougon-Macquart, pensou Émile Zola em criar o «romance científico», transpondo para o terreno da literatura as ideias do dr. Prosper Lucas na sua Psychologie de l’hérédité naturelle. O que é esse romance científico, o dr. Henri Martineau no-lo conta no seu Le roman scientifique d’Émile Zola. Os personagens, efabulados à mercê do puro determinismo atávico, em lugar de servirem a realidade, servem os preconceitos do escritor. Se isto acontece no campo literário, em que a imaginação dispõe de extensas disponibilidades, nós calculamos o que acontecerá na história, com a invasão do critério clínico! Augusto Comte já nos prevenia contra a disposição constante dos biólogos para conceberem a ciência social como um corolário ou apêndice da sua. E apontando a desordem que daí derivaria, anunciava-nos a inevitável desorganização dos estudos superiores. O perigo que, indubitavelmente, a alta cultura corre com tais incursões não científicas, mas de tipo «científico», descobre-se-nos com toda a amplitude no estudo médico-psicológico do sr. dr. Asdrúbal de Aguiar.
Fazemos votos para que o abalizado professor não se desrespeitabilize em novos cometimentos. E lamentando deveras que nos obrigasse a ser tão duros com a sua refolhuda monografia, o nosso intuito foi apenas salientar o abuso sofrido pela história em nome da medicina e a entorse imposta à medicina em nome da história.
II
D. João II morreu envenenado? [1]
Meu querido amigo:
Pergunta-me o meu querido amigo com a sua inexorável concisão de sábio e de professor se D. João II morreu envenenado. Ainda que eu não conceda à história foros exclusivos de ciência, porque, nos domínios dela, entra, sem dúvida, em grau mais que apreciável, a predisposição psicológica de quem a cultiva, pertencem-lhe, no entanto, métodos e processos, que não se compadecem com essa espécie de diagnóstico retrospetivo. Por isso entendo, acerca da consulta que o meu prezado amigo me dirige, que, desde que para resolvê-la nos faltam as necessárias bases objetivas (Fustel de Coulanges – o grande mestre – inquiria sempre, quando uma questão se suscitava, se havia, ou não, um texto com que solucioná-la ou impugná-la), toda a resposta que porventura lhe desse, não passaria de uma conjetura mais ou menos feliz, de uma hipótese arquitetada com maior ou menor habilidade.
Ora o enigma cujo sentido se pretende esclarecer, sendo um tema dos que mais apaixonam a imaginação, é naturalmente dos que estão mais sujeitos aos caprichos da interpretação pessoal. Exatamente porque envolve consigo uma certa antecipação de espírito e obriga à intervenção de um critério, o critério clínico, que só se deve exercer ao contacto imediato das realidades, tentar encará-lo de uma maneira definitiva é abandonar-nos às insignes fantasias eruditas de um doutor Cabanés ou de um doutor Galippe, que a crítica séria não pode utilizar para nada.
Observará, porém, o meu querido amigo que os elementos em que se firmam, por um lado, Manuel Bento de Sousa, por outro, D. António de Lencastre, são suficientemente concretos para que constituam um princípio de estudo que é nossa obrigação não desprezar também. Talvez. Todavia, apesar de me inclinar para a versão de que D. João II não morreu envenenado, ou, se morreu envenenado, não foi com cumplicidade de D. Leonor, não se me afigura que disponhamos da documentação precisa para que, histórica, ou científica, ou juridicamente, o problema se considere resolvido, ou aceitando a tese do envenenamento com Oliveira Martins, Manuel Bento de Sousa e Anselmo Braamcamp Freire, ou tomando posição contrária com D. António de Lencastre, descendente do Senhor Dom Jorge, que ao menos conquista para si a nota simpática de ilibar a memória de D. Leonor da sinistra suspeita com que a enegreceram historiadores de facção.
Ignoramus et ignorabimus! O drama que a morte de D. João I representou – que bem no-la conta Garcia de Resende, meu querido amigo! –, não é daqueles que presumivelmente se virão a fundir com o tempo na luz plena da verdade. Assim, qualquer romancista, com foros de Michelet de ínfima categoria, dirá que o mataram, porque nisso se compraz a sua paixão política, declamando tiradas românticas contra a Sociedade católica, monárquica e aristocrática daquele tempo. Se um dramaturgo de génio surgir, esse verá somente o que há de shakespeareanamente simbólico e humano em duas almas que se amam e odeiam, que se atraem e repelem, D. João e D. Leonor, mas implacavelmente unidas para todo o sempre pela garra do mesmo destino que um dia as deixava despedaçadas ao longo de um areal ribatejano. Por sua vez, o historiador que o seja de temperamento e visão, limita-se a traçar o quadro social da época e a levantar as figuras objetivamente, conforme lhas for ditando a lição dos documentos.
E aqui tem o meu querido amigo quanto do romancista para o dramaturgo, e do dramaturgo para o historiador, D. João II mudaria de expressão e indumentária, segundo a posição intelectual em que militasse cada um deles!
Toda esta arenga se resume, pois, em lhe declarar que escapa às considerações da verdadeira história a questão que me propõe. E impossibilitado de lhe responder como o meu querido amigo desejaria e eu tanto quisera, contento-me, pois, como sempre – porque não se trata já do campo vago das hipóteses –, em lhe confessar a minha profunda estima e a minha admiração vivíssima.
[1] Resposta a um inquérito aberto pelo Prof. Dr. A. Pereira Forjaz (Arquivo de Medicina Legal, vol. 1, 1922).
In Da Hera nas Colunas, 1929.
Refs.
[*] Nota desta edição: António Sardinha refere o texto de Asdrúbal António d' Aguiar, MASOCHISMO PYCHICO DE SOROR MARIANNA ALCOFORADO, Separata do Archivo de Medicina Legal, Lisboa I (II), 1922, p. 93-140, depois publicado no livro «SOROR MARIANNA: estudo sobre a religiosa portuguesa, Lisboa, Portugália, 1924.
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