Na Sinagoga
António Sardinha
O perigo que nos envolve é um duplo perigo – é o perigo revolucionário e plutocrático.
- António Sardinha
- António Sardinha
Em maio de 1922, António Sardinha escreve acerca da situação política e social da Europa após a Primeira Guerra Mundial, criticando as lideranças europeias e alertando para duas ameaças à estabilidade europeia: o comunismo liderado por Lenine e o capitalismo financeiro. Apesar do cenário de decadência e o risco de barbárie, Sardinha tem esperança nas energias jovens que surgem em vários países, sugerindo que a Europa poderá estar no início de um renascimento. A imagem de São Jorge no Palácio onde os Aliados se reúnem, simbolizando a luta entre o bem e o mal, podia estar revelando as intenções divinas para o destino da Europa.
[ NOTA: A esperança de António Sardinha foi defraudada e o próprio deu conta dos perigos de alguns nacionalismos europeus em Ao princípio era o Verbo (1924), poucos meses antes de morrer. Ver a contextualização e outros textos referidos no final desta página ]
Pontos essenciais
- Crítica à Liderança Europeia. António Sardinha critica a inferioridade intelectual dos governantes europeus e a má condução dos acordos de paz após a Primeira Guerra Mundial.
- Nacionalismo Francês. Reconhece o papel do excessivo nacionalismo francês nos problemas europeus, mas defende que a recente posição francesa em Génova corresponde ao interesse e à tranquilidade da Europa.
- Duplo Perigo: Revolucionário e Plutocrático. Identifica dois grandes perigos para a Europa: o revolucionário (o “iluminismo material” do comunismo) e o plutocrático (capitalismo financeiro), ambos ameaçando a estabilidade do continente.
- Reconstrução Materialista da Europa. Critica a visão materialista da reconstrução europeia, que reduz a cooperação internacional a uma “sociedade por ações” gerida pelos governos.
- Imbecilidade Burguesa e o Papel da Rússia. Ironiza a ingenuidade dos burgueses europeus em Génova, que acreditam que a Rússia voltará ao sistema económico europeu com apoio financeiro, enquanto Lenine aproveita para fortalecer o comunismo.
- Proletários e Banqueiros. Tanto o idealismo dos proletários quanto a cobiça dos banqueiros contribuem para o avanço do bolchevismo, com Lenine a beneficiar de ambos.
- Europa em Risco de Barbárie. Reflete sobre a destruição da Europa e o risco de continuar a ser dominada por uma “raça sonâmbula” que traz barbárie e extermínio.
- Cântico dos Citas. Cita o poema de Alexandre Bloch, que expressa o messianismo russo e a ascensão dos “Citas” (asiáticos), simbolizando a ameaça oriental à Europa.
- Esperança no Renascimento Europeu. Apesar dos perigos, Sardinha vê sinais de esperança nas energias jovens que se agrupam em torno de líderes nacionalistas em vários países europeus, sugerindo que a Europa poderá estar no início de um renascimento. A esperança reside na renovação das gerações.
NA SINAGOGA
Detenho-me um momento a pensar que no Palácio em que os Aliados se tratam agora por «tu» com os representantes da República dos Sovietes, há uma grande e bela apoteose de São Jorge – lança em riste, cavalo empinado, com o dragão vomitando fogo, mas já dominado pela serenidade heróica do antigo mártir cristão. Isso me satisfaz como um símbolo perfeito das intenções de Deus acerca dos destinos ensombrados da nossa Europa, levada para a carreira solta do abismo por mão de quatro ou cinco burgueses que são como arlequins de feira desempenhando momices sobre um cenário de tragédia viva.
Nunca as inteligências dos que governam os povos estiveram, como hoje estão, num plano tão inferior à lei das circunstâncias! Consequência evidente do rebaixamento mental que a Democracia [o embuste das partidocracias servindo a plutocracia ] importa consigo – nós não esquecemos ainda a caricatura que Keyes nos traçou no Conselho dos Quatro durante os preparativos da Paz. Pois a Paz se formulou em condições que se tornaram depressa em outros tantos motivos de guerra, com Clemenceau eternamente enterrado no seu fauteuil, rodando eternamente as suas luvas de Suéde-gris, e aquele pobre diabo de Wilson, de luneta e de expressão presbiterianas, ouvindo da boca dos intérpretes o que à sua roda se conversaria em francês. O que se sucedeu depois sabemo-lo nós na via dolorosa em que a Europa se vê arrastada e crucificada por uma insensatez que lembra a loucura preliminar com que o Olimpo costumava brindar primeiro os que desejava perder.
Se, na complicação cada vez maior dos problemas que entenebrecem o futuro do nosso continente, o excessivo nacionalismo francês teve responsabilidade, que ninguém decerto lhe diminuirá, não resta dúvida que em Génova o ponto de vista da França, anunciado na sua máxima extensão pelos realistas da Action française, é o ponto de vista que corresponde verdadeiramente ao interesse e à tranquilidade da Europa. Folheio para me certificar o último livro de Georges Valois – La reconstruction économique de l’Europe, e não hesito em concluir com o seu autor que Génova será a continuação de Cannes e que é preciso salvar-nos da Horda que nos espreita e ameaça, restituindo aos povos «les princes ou les Républiques qui écartent la Famine, le Choléra et la Peste, parce qu’ils protègent l’Esprit, la Paix et le Travail».
Tratar realmente com a Rússia no momento em que a ditadura de Lenine se aproxima do seu arranco final, denunciaria um inqualificável propósito criminoso, se não revelasse, sobretudo, um conceito insuficiente da sociedade e das relações morais que a devem reger. Perante os delegados do Rei-Negro, como chama Valois a Lenine, senhor de vidas e fazendas – nós sentimos bem como os enviados das pátrias ocidentais não passam de tristes e míseros fantoches, refletindo na sua oratória sem chama o vazio e a secura do mito – de um mito individualista que nos atira para a ruína e anda já preparando a sepultura em que pretende enterrar-se connosco! Na verdade, dir-se-ia, olhando o espetáculo que Génova nos oferece, que o mundo oscila, como prisioneiro da garra do Diabo, entre a Catástrofe e a Decadência.
É por isso com um estremecimento de pavor que se leem as palavras recentes de Daniel Halévy: «L’illuminisme matériel du communisme révolutionnaire brule d’une flamme sombre qui nous consumera dans les ténèbres et confondra nos âmes mêmes.» [O iluminismo material do comunismo revolucionário arde com uma chama negra que nos consumirá na escuridão e confundirá as nossas almas.] O iluminismo material! Nada mais exato, nada mais arrepiantemente exato! Há, sem contestação, uma animalidade mística, sinal transparente da garra do Diabo, no frenesim vermelho que se desenrola sobre a terra extática dos Czares. Basta passar as páginas do volume do catedrático e socialista espanhol Fernando de los Ríos – Mi viaje a la Rusia sovietista – para nos convencermos de que, pela extinção crescente dos grandes estímulos que enobrecem a vida e levantam a alma, se caminha cegamente para o reinado da Besta, com o gorila espreitando já a sua violência primitiva.
Mas oiçamos os comentários de Georges Valois à profecia sinistra de Halévy – e escutemo-los com o justo orgulho moral de quem se vê abrangido pela esperança ardente do ilustre publicista. «A Europa não escaparia à catástrofe, se ela não tivesse para a salvar senão os liberais ingleses que pensam apenas nos seus interesses, os liberais franceses, que apenas servem os interesses dos primeiros, os liberais russos que não servem os interesses de ninguém, ou ainda os conservadores de todos os países, que não sabem conservar senão o mal e que estão convencidos de que nada pode suspender a marcha do socialismo revolucionário. Mas todas essas energias jovens que se agrupam em França em torno de Maurras, na Bélgica, na Suíça, em Espanha, em Portugal, em torno de homens moços, e em Itália ao apelo de Mussolini, todas essas energias retomaram e mantêm alto o facho da civilização. A Europa está cheia de incitações que encontram eco numa mocidade fremente. «Giovinezza! Giovinezza!» [Juventude! Juventude!] – é em Itália a primeira exortação de um canto que cadencia os passos da juventude sobre a terra latina. Nós não estamos em decadência; estamos, mas é ao começo de um renascimento.
Participamos sem desfalecimento das crenças, fortemente couraçadas, do autor de L’économie nouvelle! A Europa não se salvaria, se não tivesse outras possibilidades de defesa, se o seu destino se encontrasse fechado na pasta das repimpadas mediocridades que tratam agora de ‘tu’ os delegados de Lenine, sem reparar que São Jorge, ao alto, levanta, felizmente, a sua lança, atirando-a direita contra o peito do dragão. O perigo que nos envolve é um duplo perigo – é o perigo revolucionário e plutocrático.
Assim a reconstrução da Europa entende-se nas esferas financeiras, que são o Deus ex-machina da pantomina de Génova, como a obra «de uma vasta sociedade por ações de que os diversos governos europeus seriam, de algum modo, os gerentes», escreve ainda Georges Valois. A tanto – ou a tão pouco! – conduz a conceção materialista da História!
Não dispõem de mais recursos, na indigência da sua formação mental, os herdeiros dos dogmas da escola de Manchester! Supõem os burgueses, instalados em Génova, que a Rússia se devolverá ao concerto das relações económicas desde que se lhe facilitem os materiais e os capitais de que precisa. Sorri-se Lenine com os seus olhos pequenos e oblíquos, em que passa todo o apetite de presa da sua ascendência mongol. Sorri-se Lenine, contente de que seja a imbecilidade burguesa quem lhe forneça as achas com que alimentará a fogueira em que a há-de reduzir a cinzas.
Indubitavelmente, se por um lado o iluminismo de que nos fala Halévy, carregado de presságios como uma Cassandra, é na imaginação simplista dos proletários europeus o caminho sentimental da vesânia bolchevista, dá-lhe mais incremento, empresta-lhe asas mais poderosas a cobiça desenfreada dos Banqueiros, vendo na Rússia e no declive funesto em que ela lançou a economia europeia, um grande e rendoso negócio – um negócio formidável que é necessário explorar e aproveitar. E Lenine continua sorrindo, com os seus olhos oblíquos, projetando na sombra um como que desenho macabro, o desenho da cavalgada bíblica de Gog e Magog...
*
Mais de metade da Europa está destruída e nós marchamos para o precipício – nós, os detentores da Civilização, porque uma raça, até agora sonâmbula, se apresenta na história e vai enredar-nos na sua barbárie de extermínio.
«Sim, somos os Citas – somos os Asiáticos de pupilas rapaces. Os séculos pertenceram-vos, ó Europeus, mas a nossa hora, ei-la que chega. Hoje a Rússia é a Esfinge! Sim, somos os Citas – somos os Asiáticos, de mãos e pupilas rapaces.»
Tal é o cântico da Horda – escrito e ritmado na poesia estranha do russo Alexandre Bloch, morto na flor da idade e todo ele ardendo no messianismo de Lenine.
E, no entretanto, os de Génova, como perfeitos parlamentares, comem, riem e falam a tantas libras por dia, em bom ouro cunhado, sem repararem na inscrição fatídica inscrita no salão do festim. O que vale é que São Jorge lá está, de cavalo empinado e de lança em riste!
E contra o cântico: «Sim, somos os Citas, de pupilas rapaces...», reboa por toda a terra latina o grito fremente «Giovinezza! Giovinezza!» das gerações do resgate!
Maio, 1922.
"Giovinezza" é o título de uma canção composta em 1909, por Giuseppe Blanc, celebrando a juventude e o patriotismo. Tendo sido composta para ser cantada na cerimónia de graduação dos estudantes da Universidade de Turim, tornou-se muito popular entre os soldados italianos durante a Primeira Guerra Mundial.
"Giovinezza! Giovinezza!» – é em Itália a primeira exortação de um canto que cadencia os passos da juventude sobre a terra latina. Nós não estamos em decadência; estamos mas é ao começo de um renascimento", escreveu António Sardinha em Maio de 1922.
Benito Mussolini tomou legalmente o poder em Roma cinco meses meses depois - a "marcha sobre Roma" ocorre de 27 a 29 de Outubro de 1922 - vindo a ser em 1924 que essa canção, introduzidos os versos de Salvator Gotta, vem a ser adoptada como hino oficial dos fascistas.
Muito irá mudar no regime político de Itália após a vitória dos fascistas nas eleições de 1924, as últimas realizadas em regime pluripartidário. O integralista José Pequito Rebelo (1893-1983) identificou e designou os primeiros anos do fascismo como um período de esperança: os sucessos eleitorais dos fascistas tinham ocorrido na sequência do "ano vermelho de 1920", quando estes conseguiram travar o avanço dos comunistas nos campos de Itália. Depois, em 1925, através de "leis de excepção", Mussolini irá abrindo caminho na direcção do estabelecimento de um Estado totalitário. Em 1929, Mussolini vence o "referendo" ao seu novo Estado e estabelece os acordos de Latrão, reconhecendo o Estado do Vaticano. Ao proibirem-se as organizações de juventude da Igreja Católica inicia-se um segundo fascismo. Em 1931, o Papa Pio XI condena a sua "estatolatria pagã" e, em 1932, é o próprio Mussolini quem define a doutrina do Estado totalitário. Em 1935, a invasão da Abissínia pelas tropas italianas irá consumar a adesão da Itália de Mussolini à política imperialista das potências do Eixo. Entrava-se no plano inclinado que conduzirá à Segunda Grande Guerra.
Relacionado
1924 - António Sardinha - Ao princípio era o Verbo
1931 - Carlos Proença de Figueiredo, Recensão ao livro "Do Valor e Sentido da Democracia", de Cabral de Moncada.
José Pequito Rebelo - Pela liberdade... contra o totalitarismo - O bom e o mau fascismo
"Giovinezza! Giovinezza!» – é em Itália a primeira exortação de um canto que cadencia os passos da juventude sobre a terra latina. Nós não estamos em decadência; estamos mas é ao começo de um renascimento", escreveu António Sardinha em Maio de 1922.
Benito Mussolini tomou legalmente o poder em Roma cinco meses meses depois - a "marcha sobre Roma" ocorre de 27 a 29 de Outubro de 1922 - vindo a ser em 1924 que essa canção, introduzidos os versos de Salvator Gotta, vem a ser adoptada como hino oficial dos fascistas.
Muito irá mudar no regime político de Itália após a vitória dos fascistas nas eleições de 1924, as últimas realizadas em regime pluripartidário. O integralista José Pequito Rebelo (1893-1983) identificou e designou os primeiros anos do fascismo como um período de esperança: os sucessos eleitorais dos fascistas tinham ocorrido na sequência do "ano vermelho de 1920", quando estes conseguiram travar o avanço dos comunistas nos campos de Itália. Depois, em 1925, através de "leis de excepção", Mussolini irá abrindo caminho na direcção do estabelecimento de um Estado totalitário. Em 1929, Mussolini vence o "referendo" ao seu novo Estado e estabelece os acordos de Latrão, reconhecendo o Estado do Vaticano. Ao proibirem-se as organizações de juventude da Igreja Católica inicia-se um segundo fascismo. Em 1931, o Papa Pio XI condena a sua "estatolatria pagã" e, em 1932, é o próprio Mussolini quem define a doutrina do Estado totalitário. Em 1935, a invasão da Abissínia pelas tropas italianas irá consumar a adesão da Itália de Mussolini à política imperialista das potências do Eixo. Entrava-se no plano inclinado que conduzirá à Segunda Grande Guerra.
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