Porque Voltámos
António Sardinha
uma nacionalidade é sobretudo uma alma, um valor espiritual, um génio
- António Sardinha
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António Sardinha defende um nacionalismo português enraizado no tradicionalismo, argumentando que apenas a combinação entre ambos pode renovar e fortalecer a nação. Critica o individualismo económico e a influência da plutocracia, exalta o papel da inteligência e da ordem social, e destaca a missão espiritual e civilizadora de Portugal como restaurador da Cristandade. Inspirando-se nos Lusíadas, afirma a vocação apostólica do país e conclama à ação guiada pelo Espírito, com a esperança de um futuro mais elevado para Portugal e para a Europa.
O Nacionalismo Português: Tradição, Inteligência e Missão Civilizadora
António Sardinha defende um nacionalismo alicerçado no tradicionalismo, isto é, fundado nos princípios e nas instituições comprovadas pela experiência histórica. A renovação nacional só é possível pela união entre o impulso criador nacional e a disciplina social e intelectual do tradicionalismo. Garantia da durabilidade e fecundidade do projeto nacional, o tradicionalismo é a base mais sólida para uma reconstrução moral e espiritual da nacionalidade.
Critica o individualismo económico, apontando-o como origem dos males trazidos pela plutocracia contemporânea. O progresso apregoado e o domínio da Finança são denunciados como fatores de abaixamento da cultura comum e ameaça à inteligência nacional. O industrialismo é responsabilizado pela perda da dignidade das profissões e pelo risco de extinção do pensamento independente. Propõe uma organização social baseada na sindicalização dos interesses e profissões. A liberdade orgânica é inseparável da competência, da hierarquia e da autoridade.
Sardinha opõe-se às mentiras da plutocracia e das ideologias revolucionárias, identificadas como parasitárias e regressivas. O verdadeiro progresso reside na confissão do Espírito, que possibilita ao homem encontrar dentro de si recursos infinitos e motivos de elevação e grandeza. A inteligência deve ser restaurada e humanizada pela ação, incorporando valores espirituais e civilizadores, tornando-se um elemento fundamental para a revitalização da sociedade portuguesa.
Inspirando-se nos Lusíadas, Sardinha enaltece a vocação apostólica de Portugal, sugerindo que ao país cabe uma missão de restaurador da Cristandade. A posição geográfica e histórica de Portugal, bem como sua experiência de dificuldades e destruição, são interpretadas como sinais de uma predestinação divina. Conclama à ação guiada pelo Espírito, defendendo que Portugal deve restaurar a inteligência e contribuir para uma Cristandade maior e mais bela. Este ideal é visto como esperança para um futuro mais elevado, não apenas para Portugal, mas para toda a Europa.
Critica o individualismo económico, apontando-o como origem dos males trazidos pela plutocracia contemporânea. O progresso apregoado e o domínio da Finança são denunciados como fatores de abaixamento da cultura comum e ameaça à inteligência nacional. O industrialismo é responsabilizado pela perda da dignidade das profissões e pelo risco de extinção do pensamento independente. Propõe uma organização social baseada na sindicalização dos interesses e profissões. A liberdade orgânica é inseparável da competência, da hierarquia e da autoridade.
Sardinha opõe-se às mentiras da plutocracia e das ideologias revolucionárias, identificadas como parasitárias e regressivas. O verdadeiro progresso reside na confissão do Espírito, que possibilita ao homem encontrar dentro de si recursos infinitos e motivos de elevação e grandeza. A inteligência deve ser restaurada e humanizada pela ação, incorporando valores espirituais e civilizadores, tornando-se um elemento fundamental para a revitalização da sociedade portuguesa.
Inspirando-se nos Lusíadas, Sardinha enaltece a vocação apostólica de Portugal, sugerindo que ao país cabe uma missão de restaurador da Cristandade. A posição geográfica e histórica de Portugal, bem como sua experiência de dificuldades e destruição, são interpretadas como sinais de uma predestinação divina. Conclama à ação guiada pelo Espírito, defendendo que Portugal deve restaurar a inteligência e contribuir para uma Cristandade maior e mais bela. Este ideal é visto como esperança para um futuro mais elevado, não apenas para Portugal, mas para toda a Europa.
A colheita advinha-se como numa ceara magnífica. Adivinha-se na aspiração larga de restituirmos à nacionalidade a sua alma adormecida, porque uma nacionalidade é, sobretudo, uma alma, um valor espiritual, um génio; e, integrando-a em si mesma, leva-la depois a participar da marcha do mundo por mercê da função civilizadora de que a tonarmos capaz.
- António Sardinha
PORQUE VOLTÁMOS
Reaparece hoje em segunda série a nossa revista. Tem passado, e passado honroso, esta pequena brochura. Lançada ao caminho, já lá vão mais de seis anos, com muita ousadia, mas com incomparável boa-vontade, a Nação Portuguesa conseguiu acordar entre nós a preocupação das questões contemporâneas e foi bem depressa um aguerrido fortim, de onde irradiou intelectualmente a mais fecunda e enérgica tentativa de resgate de que a vida nacional se pode orgulhar nos últimos tempos.
Não inventariamos as vantagens obtidas, nem nos vamos agora congregar outra vez para que se distribuam embevecidamente os loiros colhidos. Se esses loiros existem, correm até o risco grave de se perderem para sempre. Trabalhada por diversas forças de desagregação, a sociedade portuguesa desfibra-se, decompõe-se – vai-se. E vai-se, sobretudo, porque deixou obliterar o sentido da sua própria continuidade, o conhecimento do seu génio ancestral. Somos vítimas de uma longa dissolução moral e mental – herdada, como tara terrível, do romantismo revolucionário, desde o domínio da política ao das coisas serenas do pensamento. Numa hora tão grave para os destinos da Pátria, quando assume quase aspectos de tragédia a crise em que de dia para dia nos despenhamos, com que espírito se encaram as soluções do futuro, com que consciência nos inteiramos das responsabilidades do momento que passa?
Se as instituições desorganizadoras da República agravaram sensivelmente o mal, como lógico desfecho da anarquia liberalista que em 1834 se apossou das rédeas do poder para contrariar e perverter a formação histórica da nacionalidade, não se confinam apenas aí as causas fundamentais da demorada agonia em que tudo entre nós parece estrebuchar. O que nos mata, principalmente, é, com a falta de uma ideia-directriz, a falta de um grupo ou classe social em que se apoie qualquer tentativa séria de «reaportuguesar Portugal» – na definição já agora memorável do poeta Afonso Lopes Vieira. E afinal, porquê?
Porque não existe em Portugal um mínimo de cultura colectiva, que permita compreender a uma minoria resoluta e capaz de que não há restauração nacionalista possível sem a prévia instauração de um princípio salvador. Vive-se, assim, na mais apagada e mortífera negação do que sejam as virtudes construtoras do Espírito e manda a verdade que se diga que, ao lado do semi-analfabetismo dos partidários do regime instalado no Terreiro do Paço, são réus confessos no mesmo crime ignóbil os que, ao mero funcionamento da máquina eleitoral, confiam automaticamente a salvação do país pelo regresso puro e simples das clientelas caídas em 1910.
Não inventariamos as vantagens obtidas, nem nos vamos agora congregar outra vez para que se distribuam embevecidamente os loiros colhidos. Se esses loiros existem, correm até o risco grave de se perderem para sempre. Trabalhada por diversas forças de desagregação, a sociedade portuguesa desfibra-se, decompõe-se – vai-se. E vai-se, sobretudo, porque deixou obliterar o sentido da sua própria continuidade, o conhecimento do seu génio ancestral. Somos vítimas de uma longa dissolução moral e mental – herdada, como tara terrível, do romantismo revolucionário, desde o domínio da política ao das coisas serenas do pensamento. Numa hora tão grave para os destinos da Pátria, quando assume quase aspectos de tragédia a crise em que de dia para dia nos despenhamos, com que espírito se encaram as soluções do futuro, com que consciência nos inteiramos das responsabilidades do momento que passa?
Se as instituições desorganizadoras da República agravaram sensivelmente o mal, como lógico desfecho da anarquia liberalista que em 1834 se apossou das rédeas do poder para contrariar e perverter a formação histórica da nacionalidade, não se confinam apenas aí as causas fundamentais da demorada agonia em que tudo entre nós parece estrebuchar. O que nos mata, principalmente, é, com a falta de uma ideia-directriz, a falta de um grupo ou classe social em que se apoie qualquer tentativa séria de «reaportuguesar Portugal» – na definição já agora memorável do poeta Afonso Lopes Vieira. E afinal, porquê?
Porque não existe em Portugal um mínimo de cultura colectiva, que permita compreender a uma minoria resoluta e capaz de que não há restauração nacionalista possível sem a prévia instauração de um princípio salvador. Vive-se, assim, na mais apagada e mortífera negação do que sejam as virtudes construtoras do Espírito e manda a verdade que se diga que, ao lado do semi-analfabetismo dos partidários do regime instalado no Terreiro do Paço, são réus confessos no mesmo crime ignóbil os que, ao mero funcionamento da máquina eleitoral, confiam automaticamente a salvação do país pelo regresso puro e simples das clientelas caídas em 1910.
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Há uma página de Eça de Queiroz que se deve sempre reler abrangendo toda a comunicação sugestiva e dolorosa do seu alto valor simbólico. É a página final de O Crime do Padre Amaro. No Loreto, junto ao gradeamento do pequeno largo lisboeta, o Padre Amaro conversa com o cónego Dias. Passa, pomposo no seu bigode grisalho e nos seus óculos de ouro, o conde de Ribamar. Os dois eclesiásticos saúdam o homem de Estado que se digna parar um momento como qualquer mísero mortal.
A Comuna acabara de estalar, com as Tulherias tornadas num braseiro, e as notícias da Havas, suspensas na Havaneza, contavam o horror dos massacres e das devastações. «O Chiado lamentava com indignação aquela ruína de Paris» – observa o romancista. E logo acrescenta: «Mas espalhava-se que o ministério recebera outro telegrama mais desolador: toda a linha de boulevard da Bastilha à Madalena ardia e ainda a praça da Concórdia, e as avenidas dos Campos Elíseos até ao Arco do Triunfo. E assim tinha a revolta arrazado, numa demência, todo aquele sistema de restaurantes, café-concertos, bailes públicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chamas devorado aquela centralização tão cómoda da patuscada! Oh que infâmia! O mundo acabava! E as interjeições cresciam e repetiam-se com os protestos vociferados dos vadios», que, ainda segundo Eça, se costumavam reunir (costumam, íamos a escrever) à porta da Havaneza, charuteando e politicando. Foi então que o poeta estimado das Flores e Ais (ontem como hoje!), porque se houvesse falado no nome de Proudhon, não se conteve no seu silêncio cismador sem atalhar «que à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estilista bastante ameno». Bradou-lhe logo o França, bamboleando o corpo desembaraçado: «Qual estilo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado, rachava-lhe os ossos.»
Pois a figura de França, na sua apreciação de Proudhon, é a figura perfeita da nossa sociedade apelidada de «conservadora», que, atulhando o Chiado em mexericos de aldeia, dali julga os acontecimentos do mundo inteiro numa visão simplista que se resume no fim de contas ao desejo de pilhar Lenine à mão e... e mandá-lo em paz; entanto, mais acima, os dois sacerdotes continuavam presos da palavra solene do conde de Ribamar.
«Ah, a imperatriz no trono de França, Pio Nono no trono de Roma, aí temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois deste exemplo da Comuna não se torna a ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo, nestes cem anos mais chegados!...»
«Deus Nosso Senhor o ouça, senhor Conde», acudiu, mesureiro, o cónego Dias. E o conde seguiu discreteando sobre Materialismo e Revolução na mesma inocência de entendimento com que presentemente lhe perpetuam as reflexões, aos umbrais da Havaneza, os seus numerosos filhos espirituais. A diferença encontra-se apenas num ponto: e é que ao passo que Ribamar contava com Pio IX para debelar, como sólida coluna, os perigos mundiais da desordem, agora, no Chiado, a sua vasta descendência inquire, entre indignada e aflita, se Pio XI «aderiu» ao bolchevismo, por caminhar resolutamente ao encontro da Era-Nova e não recusar ao torvelinho enigmático da Rússia o baptismo que a Igreja concede a tudo o que nasceu tocado da mancha original.
Entrementes, o cónego Dias e o Padre Amaro não se cansavam de escutar a voz rolada do conde, gabando «a nossa paz», «a nossa prosperidade», «o nosso contentamento, plantados os três no pequeno largo em que desembocavam com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime». «Meus senhores, afirmava ele convicto, não admira que sejamos, realmente, a inveja da Europa!»
«E o homem de estado – remata Eça melancolicamente –, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país, ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida!
A Comuna acabara de estalar, com as Tulherias tornadas num braseiro, e as notícias da Havas, suspensas na Havaneza, contavam o horror dos massacres e das devastações. «O Chiado lamentava com indignação aquela ruína de Paris» – observa o romancista. E logo acrescenta: «Mas espalhava-se que o ministério recebera outro telegrama mais desolador: toda a linha de boulevard da Bastilha à Madalena ardia e ainda a praça da Concórdia, e as avenidas dos Campos Elíseos até ao Arco do Triunfo. E assim tinha a revolta arrazado, numa demência, todo aquele sistema de restaurantes, café-concertos, bailes públicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chamas devorado aquela centralização tão cómoda da patuscada! Oh que infâmia! O mundo acabava! E as interjeições cresciam e repetiam-se com os protestos vociferados dos vadios», que, ainda segundo Eça, se costumavam reunir (costumam, íamos a escrever) à porta da Havaneza, charuteando e politicando. Foi então que o poeta estimado das Flores e Ais (ontem como hoje!), porque se houvesse falado no nome de Proudhon, não se conteve no seu silêncio cismador sem atalhar «que à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estilista bastante ameno». Bradou-lhe logo o França, bamboleando o corpo desembaraçado: «Qual estilo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado, rachava-lhe os ossos.»
Pois a figura de França, na sua apreciação de Proudhon, é a figura perfeita da nossa sociedade apelidada de «conservadora», que, atulhando o Chiado em mexericos de aldeia, dali julga os acontecimentos do mundo inteiro numa visão simplista que se resume no fim de contas ao desejo de pilhar Lenine à mão e... e mandá-lo em paz; entanto, mais acima, os dois sacerdotes continuavam presos da palavra solene do conde de Ribamar.
«Ah, a imperatriz no trono de França, Pio Nono no trono de Roma, aí temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois deste exemplo da Comuna não se torna a ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo, nestes cem anos mais chegados!...»
«Deus Nosso Senhor o ouça, senhor Conde», acudiu, mesureiro, o cónego Dias. E o conde seguiu discreteando sobre Materialismo e Revolução na mesma inocência de entendimento com que presentemente lhe perpetuam as reflexões, aos umbrais da Havaneza, os seus numerosos filhos espirituais. A diferença encontra-se apenas num ponto: e é que ao passo que Ribamar contava com Pio IX para debelar, como sólida coluna, os perigos mundiais da desordem, agora, no Chiado, a sua vasta descendência inquire, entre indignada e aflita, se Pio XI «aderiu» ao bolchevismo, por caminhar resolutamente ao encontro da Era-Nova e não recusar ao torvelinho enigmático da Rússia o baptismo que a Igreja concede a tudo o que nasceu tocado da mancha original.
Entrementes, o cónego Dias e o Padre Amaro não se cansavam de escutar a voz rolada do conde, gabando «a nossa paz», «a nossa prosperidade», «o nosso contentamento, plantados os três no pequeno largo em que desembocavam com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime». «Meus senhores, afirmava ele convicto, não admira que sejamos, realmente, a inveja da Europa!»
«E o homem de estado – remata Eça melancolicamente –, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país, ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida!
*
«Pátria para sempre passada, memória quase perdida!» Pois para que não o seja é que nós voltamos ao mais alto exercício do nosso dever de portugueses, que não é senão o de promover entre nós uma restauração da Inteligência. De um e outro lado da trincheira em que Portugal se corta de cima a baixo, pululam, numa inconsciência torpe de arraial, os mesmos bonecos, os mesmos postiços, cuja genealogia Eça de Queiroz nos traçou na sua obra cheia da mais elevada intenção demolidora. Portugal morre, porque, tal como uma tribo revolta de berberes, deixou secar as raízes que o prendem à alma eterna da história. Cabe-nos a nós por isso – minoria que por acaso nos julguem – reconstruir, antes de mais nada, a fisionomia moral da Nacionalidade, indo beber ao património das gerações transactas os estímulos sagrados que nos abrirão, de par em par, as portas misteriosas do Futuro.
Assim se define o nosso nacionalismo, que não é nacionalismo somente, porque o tempera, como regra filosófica, o mais rasgado e mais genuíno tradicionalismo. Aceitação das razões fundamentais da Pátria com todas as leis derivadas da Raça e do Meio, nós não nos fechamos, porém, nessa moldura estática, em que por vezes pode tumultuar um forte vento anárquico, como o provam na sua incapacidade conhecida as diversas improvizações nacionalistas provocadas pela guerra europeia. Há que ir mais longe e realizar pela projecção do génio de cada pátria numa consciência maior um ideal superior de civilização, o da civilização cristã que formou o mundo e esperamos confiadamente o salvará ainda.
Se o nacionalismo é, deste modo, na vida dos povos um necessário e imprescindível elemento de renovação, como que o plasma originário e criador, só se torna, contudo, duradoiro e fecundo quando depurado pelas disciplinas sociais e intelectuais do tradicionalismo. Consiste, por seu turno, o tradicionalismo no reconhecimento e na prática de um sistema de princípios e de instituições acreditados pela experiência e em que se condensa o fruto de uma longa observação na arte de governar e de ser governado. Do consórcio dos dois factores – nacionalismo e tradicionalismo – resulta, pois, a norma de conduta que a ciência sociológica proclama hoje como a única eficaz, depois das aventuras ruínosas a que as ideologias tentadoras da Revolução arrastaram o Estado e a Sociedade. Lembram-se por acaso do diálogo da Ermida com a Campina na Colline inspirée, de Maurice Barrès? «O que é um grande pensamento, se o entusiasmo o não anima? O que é um grande entusiasmo, se o pensamento o não coordena?» Eis aqui a fórmula exacta em que o nosso nacionalismo se confunde e amplia com o nosso tradicionalismo.
A colheita adivinha-se como numa seara magnífica. Adivinha-se na aspiração larga de restituirmos à nacionalidade a sua alma adormecida – porque uma nacionalidade é, sobretudo, uma alma, um valor espiritual, um génio – e, integrando-a em si mesma, levá-la depois a participar da marcha do mundo por mercê da função civilizadora de que a tornarmos capaz.
Todo esse universo de problemas se abriga assim dentro do nosso viático. E porque reflectimos em nós a tragédia imensa do nosso tempo, não nos podemos esquivar às interrogações angustiosas da hora presente. Se em política nos declaramos pela Monarquia, é conveniente sempre acentuar que nos declaramos pela Monarquia-social, regime que, repelindo como absurdo o sistema actual do Estado, apela para a sindicalização dos interesses e das profissões, como a única garantia eficaz de liberdade – mas da liberdade orgânica, irmã gémea da competência, da hierarquia e da autoridade.
Exactamente porque nos inscrevemos como defensores da Inteligência é que não partilhamos da defesa do individualismo económico, gerador da plutocracia contemporânea. Nada mais falso que o apregoado progresso dos nossos dias! O grito de alarme já se levantou e nós vemos, no crescer da judiaria cosmopolita da Finança, as coisas serenas do Espírito – ou reduzidas, como uma espécie de histrionismo inédito, a um luxo que os poderosos do dinheiro cultivam e alugam para brilho dos seus salões, ou então ao mais triste e ao mais miserando de todos os proletariados. Ameaçada assim a sorte da Inteligência, a grande pecadora do século XVIII – dois são os corrosivos que lhe andam preparando o eclipse total. O rebaixamento da cultura comum é aterrador, como consequência do industrialismo que se apossou da sociedade metalizada pelo frenesim crescente dos homens dos Bancos e da sua execranda ditadura, hoje desgraçadamente mundial. Esse industrialismo, legítimo rebento da Revolução Francesa, começando logo por destruir a dignidade das profissões pela extinção atrabiliária dos grémios, atinge agora o ponto agudo dos seus excessos, pondo em risco de morte o prestígio e a independência do pensamento humano. Outro tanto acontece com a barbárie que se levanta na Rússia e cuja tropelada se percebe já nas encruzilhadas da História, como se fosse o avanço da cavalgada bíblica de Gog e Magog...
Dolorosa situação a nossa, que na flor mais recolhida das nossas aspirações guardamos a semente transformadora da hora que vem! O sorriso divino de Minerva empana-se com a fumarada insolente de Vulcano, e já da noite carregada das Origens se ouve crescer para o alto a revolta indominada do Caos. Pois não hesitemos um instante, como portugueses de Portugal e como cristãos de todo o mundo! As energias salutares não desapareceram ainda da face da terra e a esse pequeno núcleo de resgate futuro que toma posições na Europa juntemos também a fé ardorosa do nosso esforço. É pela Inteligência que desfraldamos a nossa bandeira. E, desfraldando-a pela Inteligência, desfraldamo-la pela Ordem-Nova, unidos como uma só pessoa contra a mentira plutocrática e contra a mentira revolucionária – formas regressivas e parasitárias da bela actividade do homem que, sempre que confessa o Espírito e se socorre humildemente da sua virtude transfiguradora, encontra dentro de si possibilidades infinitas, recursos inesgotáveis – motivos permanentes de elevação e grandeza.
Entende-se, desta forma, como o destino de Portugal se liga de perto ao desenlace do tremendo drama europeu. Abramos os Lusíadas – fonte de consolações íntimas, breviário de esperança, em que passa por vezes aquela mesma presença misteriosa que a alma dolorida procura encontrar nos versículos da Imitação. Camões é o poeta da Contra-Reforma, é o cantor do ideal supremo da Cristandade, apontado à Europa pelo Concílio de Trento. Ele reflecte nas suas ânsias a ânsia do humanismo ortodoxo, arrependido do festim esplendoroso da Renascença. Responde assim, de alguma maneira, à inquietação que sentimos no sangue, mordidos ainda pelo veneno agradável de Todo-o-Saber.
Abramos os Lusíadas e ali prescutaremos, como em nenhuma parte, a vocação apostólica que anima, qual seiva mística, o corpo moral da Pátria bem amada. Talvez que uma secreta voz nos grite que a Portugal o Senhor reserve, pela paixão e morte que está padecendo, a missão sacratíssima de restaurador da Cristandade desfeita. A nossa pequenez, a destruição entre nós de tudo quanto se convencionou chamar o «existente», e, para mais, a nossa posição privilegiada de varandim da Europa, lançado de encontro às terras moças do Ocidente, representam, ou não representam, sinais de predestinação indubitável? Se, pelo desvio do eixo da civilização do Mediterrâneo para o Atlântico, a idade moderna deve o ser a Portugal, e se Portugal, em mais de uma jornada de epopeia, salvou a Europa da onda islamita, porque não acreditarmos no milagre que há-de vir – no «milagre» de que a miséria actual é a preço de o havermos merecido aos desígnios profundos de Deus? Confessemos, pois, o Espírito, e pelo Espírito restauremos a Inteligência, humanizando-a pela Acção. «Ao princípio era o Verbo, e o Verbo se fez Carne e habitou entre nós.»
Tal é o preceito inspirado da nossa filosofia, resolvidos como nos achamos a não nos perder em banquetes estéreis de sofistas. Um outro encanto nos atrai – e é o de realizarmos, com Portugal-Reconquistado, uma Cristandade maior e mais bela. Para isso, e o Épico no-lo profetiza em acentos sonoros como o bronze,
«Não faltarão cristãos atrevimentos
nesta Pequena Casa Lusitana.»
1922.
[ negritos acrescentados ]