Crónica Social
Francisco Rolão Preto
Rolão Preto, "Crónica Social", Nação Portuguesa - Revista de Cultura Nacionalista, 2ª série, nº 1, Julho de 1922, pp. 33-35; idem, nº 3, Outubro de 1922, pp. 171-173; Idem, nº 6, Dezembro de 1922, pp. 273-276.
Em texto assinado por Rolão Preto, sob o título "Crónica Social", em 10 de Junho de 1922:
Na verdade, a hora que passa é de uma tal complexidade em aspectos sociais, abrange uma tão vasta simultaneidade de movimentos, de pensamento e de acção contrários ou paralelos, que a sua discriminação demanda uma atenção e trabalho bem difíceis de conseguir.
Este texto de abertura da "Crónica Social", na 2ª série da revista Nação Portuguesa, revela a esperança de Rolão Preto numa vaga de revoluções nacionalistas despontando na Europa e que poderia vir a ser universal.
Aborda os contextos italiano e francês. No caso italiano, segundo Rolão Preto: "a organização cooperativista e sindical do Fascio é francamente integralista. A forma neo-mediévica da interpretação do pensamento corporativo é largamente seguida pelos chefes do sindicalismo nacional Facista".
Rolão Preto acolhe com muita satisfação o sucesso do fascismo em Italia nas suas restantes "crónicas sociais" publicadas na revista Nação Portuguesa (ver Nação Portuguesa, nº 3, Outubro de 1922, pp. 171-173; idem, nº 6, Dezembro de 1922, pp. 273-276).
Na crónica de Dezembro, após a "marcha sobre Roma", Mussolini estava já legalmente no poder em Roma, no respeito da ordem constitucional italiana. Logo na abertura da crónica, Rolão Preto refere "a forma verdadeiramente estonteante como se precipitaram os acontecimento italianos e as dificuldades em que se debate neste momento a imprensa portuguesa, retardando a marcha da nossa revista, não me permitiram uma apreciação detalhada da vitória fascista."
Rolão Preto aproveita para defender ali o seu conceito de "Monarquia Social": "Isto é: nem parlamento político que é uma burla liberalista; nem parlamento profissional que seria uma mistificação revolucionária. Queremos uma representação nacional em que o interesse profissional tenha a sua salvaguarda técnica na - Capacidade. Mas queremos também uma representação em que a harmonia social tenha a sua garantia no interesse nacional, - na Solidariedade.".
Estaria Rolão Preto completamente equivocado acerca dos italianos nas suas crónicas de 1922? Não estava!... Nesse ano, os sindicalistas italianos integrados no Fascio tinham, na verdade, um pensamento sindicalista neo-medievalista muito semelhante ao do Integralismo Lusitano. Mas, estaria Rolão Preto inteiramente seguro de que a Corporatizioni a triunfar iria corresponder ao seu pensamento? Não estava, e por isso concluiu: "... vamos ver como respondem os acontecimento ao congresso de Livorno." (p. 276).
Em Itália, no ano de 1922, havia uma luta complexa mas em torno de dois polos principais: as organizações e acções dos socialistas de tendência bolchevique, sob influência da Rússia soviética (III Internacional), em oposição às várias correntes nacionalistas, tanto sindicalistas (próximas dos integralistas lusitanos) como socialistas (com programas políticos mais centrados em soluções estatistas). Nessa altura, os Nacionalistas e os Facistas (como se escrevia então) estavam de "mãos dadas" no combate ao bolchevismo, e estavam a obter triunfos.
Em Junho de 1922, Rolão Preto definiu Mussolini como um "batalhador do socialismo unificado italiano", lembrando que este defendera a participação da Itália na guerra ao lado dos Aliados, contra os Impérios Centrais, o que lhe valeu ser expulso do Avanti, órgão oficioso do socialismo italiano. Em Outubro, Mussolini atinge legalmente o poder em Itália e, em 1924, a sua vitória eleitoral ocorre ainda no quadro do pluripartidarismo. As primeiras leis fascistas surgem em 1925, a que se seguirá a triunfante institucionalização de um novo regime, ratificado no plebiscito de 1929.
Engano ou equívoco, alimentado pela literatura capciosa sobre o posterior movimento do Nacional-Sindicalismo de Rolão Preto, é o de pensar-se que o sindicalismo defendido pelos integralistas triunfou no Estado Fascista. O que foi institucionalizado em Itália e triunfou em 1929 foi um pseudo-sindicalismo - um sindicalismo subordinado e integrado no Estado, em obediência à doutrina fascista do Estado totalitário que Benito Mussolini virá a definir em 1932.
O alinhamento de Mussolini com os aliados durante a Grande Guerra (1914-18), tinha-lhe trazido simpatias e apoios da Grã-Bretanha e dos EUA durante toda a década de 1920. O livro My Autobiography (1928) de Benito Mussolini, foi sugerido e em grande medida concretizado com o apoio do ex-embaixador dos EUA em Itália, Richard Washburn Child, impresso em Nova Iorque, pela Charles Scribner's Sons. No prefácio dessa autobiografia, Child escreveu ainda que Mussolini tinha uma grandeza sem igual no seu tempo, por ter construído um novo Estado sobre um novo conceito de Estado. A natureza ou o conceito essencial desse novo Estado não foi ali claramente definido, mas Mussolini viria a defini-lo, em 1932, como um Estado totalitário - um regime de partido único e corporativismo de Estado. O regime que virá a servir de inspiração ao Estado Novo de Oliveira Salazar e contra o qual, em Junho de 1934, Rolão Preto se insurgiu na Representação ao Presidente da República.
Voltando ao ano de 1922, Rolão Preto coloca em paralelo as situações italiana e francesa, com os trabalhadores perdendo fé na "bandeira vermelha" (símbolo dos socialismos mais estatista ou comunista) - "Das três internacionais em que se dividem agora as forças sindicalistas e comunistas nenhuma tem hoje a força e o prestígio revolucionário para servir de centro polarizador às grandes massas proletárias." Nesse ano, a esperança de Rolão Preto estava no estabelecimento de uma Monarquia Social em Portugal, no que poderia vir a ser uma parte de uma revolução nacionalista de amplitude universal: "Não é a França, não é a Itália, não é a Germânia - a revolução é mais vasta.", referindo-se às suas palavras no 9º congresso da Action française. O fecho do primeiro artigo é muito esclarecedor acerca do que Rolão Preto entendia por "revoluções nacionais" na Europa: "Nacionalismo integral clama Maurras! Integralismo Lusitano clamamos nós..."
As diferentes tradições nacionais iriam com efeito comandar as revoluções em cada um dos países e, na década seguinte, eram já bem visíveis os contrastes entre os nacionalismos italiano, germânico, francês e português. O sentido dos ensinamentos de Charles Maurras, escrevia Rolão Preto ainda em 1922, apontava para a existência de diferentes tradições nacionais. Dois anos depois, António Sardinha irá esclarece-lo na introdução a Ao princípio era o Verbo. À entrada dos anos 30, o integralista Carlos Proença será dos primeiros a explicar com toda a clareza o anti-totalitarismo do Integralismo Lusitano, distinguindo-o tanto do fascismo como da Action française:
"Esses nacionalismos partem de uma fórmula transpersonalista, sim, mas de base exclusivamente social. Segundo eles são os valores especificamente sociais, do grupo, e da sua expressão política - o Estado, que subordinam todos os outros, elevando-se à categoria de fins exclusivos. Por isso, neles, o Estado, é tudo e o indivíduo nada, fora do Estado, que totalmente absorve aquele, como na "Cidade Antiga". Consequentemente todas as manifestações da actividade espiritual ou material do homem não podem conhecer outra lei que a do interesse e engrandecimento do Estado."
[7 de Junho de 2024, J. M. Q.]
Na verdade, a hora que passa é de uma tal complexidade em aspectos sociais, abrange uma tão vasta simultaneidade de movimentos, de pensamento e de acção contrários ou paralelos, que a sua discriminação demanda uma atenção e trabalho bem difíceis de conseguir.
Este texto de abertura da "Crónica Social", na 2ª série da revista Nação Portuguesa, revela a esperança de Rolão Preto numa vaga de revoluções nacionalistas despontando na Europa e que poderia vir a ser universal.
Aborda os contextos italiano e francês. No caso italiano, segundo Rolão Preto: "a organização cooperativista e sindical do Fascio é francamente integralista. A forma neo-mediévica da interpretação do pensamento corporativo é largamente seguida pelos chefes do sindicalismo nacional Facista".
Rolão Preto acolhe com muita satisfação o sucesso do fascismo em Italia nas suas restantes "crónicas sociais" publicadas na revista Nação Portuguesa (ver Nação Portuguesa, nº 3, Outubro de 1922, pp. 171-173; idem, nº 6, Dezembro de 1922, pp. 273-276).
Na crónica de Dezembro, após a "marcha sobre Roma", Mussolini estava já legalmente no poder em Roma, no respeito da ordem constitucional italiana. Logo na abertura da crónica, Rolão Preto refere "a forma verdadeiramente estonteante como se precipitaram os acontecimento italianos e as dificuldades em que se debate neste momento a imprensa portuguesa, retardando a marcha da nossa revista, não me permitiram uma apreciação detalhada da vitória fascista."
Rolão Preto aproveita para defender ali o seu conceito de "Monarquia Social": "Isto é: nem parlamento político que é uma burla liberalista; nem parlamento profissional que seria uma mistificação revolucionária. Queremos uma representação nacional em que o interesse profissional tenha a sua salvaguarda técnica na - Capacidade. Mas queremos também uma representação em que a harmonia social tenha a sua garantia no interesse nacional, - na Solidariedade.".
Estaria Rolão Preto completamente equivocado acerca dos italianos nas suas crónicas de 1922? Não estava!... Nesse ano, os sindicalistas italianos integrados no Fascio tinham, na verdade, um pensamento sindicalista neo-medievalista muito semelhante ao do Integralismo Lusitano. Mas, estaria Rolão Preto inteiramente seguro de que a Corporatizioni a triunfar iria corresponder ao seu pensamento? Não estava, e por isso concluiu: "... vamos ver como respondem os acontecimento ao congresso de Livorno." (p. 276).
Em Itália, no ano de 1922, havia uma luta complexa mas em torno de dois polos principais: as organizações e acções dos socialistas de tendência bolchevique, sob influência da Rússia soviética (III Internacional), em oposição às várias correntes nacionalistas, tanto sindicalistas (próximas dos integralistas lusitanos) como socialistas (com programas políticos mais centrados em soluções estatistas). Nessa altura, os Nacionalistas e os Facistas (como se escrevia então) estavam de "mãos dadas" no combate ao bolchevismo, e estavam a obter triunfos.
Em Junho de 1922, Rolão Preto definiu Mussolini como um "batalhador do socialismo unificado italiano", lembrando que este defendera a participação da Itália na guerra ao lado dos Aliados, contra os Impérios Centrais, o que lhe valeu ser expulso do Avanti, órgão oficioso do socialismo italiano. Em Outubro, Mussolini atinge legalmente o poder em Itália e, em 1924, a sua vitória eleitoral ocorre ainda no quadro do pluripartidarismo. As primeiras leis fascistas surgem em 1925, a que se seguirá a triunfante institucionalização de um novo regime, ratificado no plebiscito de 1929.
Engano ou equívoco, alimentado pela literatura capciosa sobre o posterior movimento do Nacional-Sindicalismo de Rolão Preto, é o de pensar-se que o sindicalismo defendido pelos integralistas triunfou no Estado Fascista. O que foi institucionalizado em Itália e triunfou em 1929 foi um pseudo-sindicalismo - um sindicalismo subordinado e integrado no Estado, em obediência à doutrina fascista do Estado totalitário que Benito Mussolini virá a definir em 1932.
O alinhamento de Mussolini com os aliados durante a Grande Guerra (1914-18), tinha-lhe trazido simpatias e apoios da Grã-Bretanha e dos EUA durante toda a década de 1920. O livro My Autobiography (1928) de Benito Mussolini, foi sugerido e em grande medida concretizado com o apoio do ex-embaixador dos EUA em Itália, Richard Washburn Child, impresso em Nova Iorque, pela Charles Scribner's Sons. No prefácio dessa autobiografia, Child escreveu ainda que Mussolini tinha uma grandeza sem igual no seu tempo, por ter construído um novo Estado sobre um novo conceito de Estado. A natureza ou o conceito essencial desse novo Estado não foi ali claramente definido, mas Mussolini viria a defini-lo, em 1932, como um Estado totalitário - um regime de partido único e corporativismo de Estado. O regime que virá a servir de inspiração ao Estado Novo de Oliveira Salazar e contra o qual, em Junho de 1934, Rolão Preto se insurgiu na Representação ao Presidente da República.
Voltando ao ano de 1922, Rolão Preto coloca em paralelo as situações italiana e francesa, com os trabalhadores perdendo fé na "bandeira vermelha" (símbolo dos socialismos mais estatista ou comunista) - "Das três internacionais em que se dividem agora as forças sindicalistas e comunistas nenhuma tem hoje a força e o prestígio revolucionário para servir de centro polarizador às grandes massas proletárias." Nesse ano, a esperança de Rolão Preto estava no estabelecimento de uma Monarquia Social em Portugal, no que poderia vir a ser uma parte de uma revolução nacionalista de amplitude universal: "Não é a França, não é a Itália, não é a Germânia - a revolução é mais vasta.", referindo-se às suas palavras no 9º congresso da Action française. O fecho do primeiro artigo é muito esclarecedor acerca do que Rolão Preto entendia por "revoluções nacionais" na Europa: "Nacionalismo integral clama Maurras! Integralismo Lusitano clamamos nós..."
As diferentes tradições nacionais iriam com efeito comandar as revoluções em cada um dos países e, na década seguinte, eram já bem visíveis os contrastes entre os nacionalismos italiano, germânico, francês e português. O sentido dos ensinamentos de Charles Maurras, escrevia Rolão Preto ainda em 1922, apontava para a existência de diferentes tradições nacionais. Dois anos depois, António Sardinha irá esclarece-lo na introdução a Ao princípio era o Verbo. À entrada dos anos 30, o integralista Carlos Proença será dos primeiros a explicar com toda a clareza o anti-totalitarismo do Integralismo Lusitano, distinguindo-o tanto do fascismo como da Action française:
"Esses nacionalismos partem de uma fórmula transpersonalista, sim, mas de base exclusivamente social. Segundo eles são os valores especificamente sociais, do grupo, e da sua expressão política - o Estado, que subordinam todos os outros, elevando-se à categoria de fins exclusivos. Por isso, neles, o Estado, é tudo e o indivíduo nada, fora do Estado, que totalmente absorve aquele, como na "Cidade Antiga". Consequentemente todas as manifestações da actividade espiritual ou material do homem não podem conhecer outra lei que a do interesse e engrandecimento do Estado."
[7 de Junho de 2024, J. M. Q.]