NACIONALISMO GALEGO E LIRISMO PORTUGUÊS
António Sardinha
O nacionalismo galego, se naturalmente se prende a Portugal pelas suas mais íntimas afinidades, não deve nunca sonhar com separatismos que terminariam por «balcanizar» a Península. É una no seu superior significado a civilização que criámos – portugueses, galegos e castelhanos.
- António Sardinha
- António Sardinha
RESUMO
António Sardinha aborda as origens e a individualidade do génio galaico-português, destacando fatores sociais, históricos e literários que distinguiram a região do noroeste peninsular em relação ao restante da Península Ibérica. Argumenta que o lirismo popular dos Cancioneiros reflete uma tradição comunitária, agrícola e matriarcal, enraizada em costumes ancestrais e marcada pela ausência de carácter bélico. Realça o papel da mulher, a influência do priscilianismo e a importância de Galiza e Portugal na formação de uma civilização peninsular única, defendendo o diálogo e a valorização do legado comum perante as divisões regionais.
NACIONALISMO GALEGO E LIRISMO PORTUGUÊS
No seu recente e magnífico estudo Poesía juglaresca y juglares (Aspectos de la Historia Literaria y Cultural de España) escreve o ilustre D. Ramón Menéndez Pidal: “Volviendo a los tipos afines al juglar que Giraldo Riquier señala en España, tenemos en primer término el que el llama segrier, y los textos gallegos y portugueses segrer o segrel. Es una clase intermedia entre el trovador y el juglar que parece exclusiva de la escuela poética gallegoportuguesa”, esclarece o insigne filólogo, “tal nombre no ha aparecido hasta hoy em textos castellanos ni provenzales”. E o comentador do Cantar de Mío Cid acrescenta: “Según se expresa Riquier, era el segrer un «trovador que andaba por cortes»; probablemente era un trovador peninsular anterior a la introducción del nuevo tipo de trovador provenzal, y creo muy probable que existiese antes en otras partes de España, y que el conservarse memoria de él solo en la región galaicoportuguesa sea debido únicamente o a la mayor abundancia de textos líricos en esa región, o más bien al carácter más arcaizante del Occidente, que conserva en el lenguaje y en las costumbres fenómenos primitivos desaparecidos en el resto de la Península. El origen del nombre segrer es desconocido, y no puede servirnos de punto de orientación.”
Não acompanharemos agora a Menéndez Pidal na sua definição do que fosse o segrer, superior ao juglar, pois este era ordinariamente vilão, enquanto o segrer costumava ser, pelo menos, escudeiro. Nem tão-pouco insistiremos nas qualidades próprias de tão curiosa manifestação da forte atividade poética do ocidente peninsular. O que assinalamos é o testemunho significativo de um mestre, como é, sem lisonja nem favor, Menéndez Pidal, não só acerca da abundância de textos líricos, que individualiza marcadamente a região galaico-portuguesa, mas, sobretudo, acerca da fisionomia arcaica da mesma região, onde, tanto na linguagem como nos costumes, subsistem efetivamente particularidades, hoje inexistentes na Península restante.
Sempre atribuí no conjunto histórico da Península a diferenciação galaico-portuguesa a causas que remontam bem mais além das lutas e intrigas políticas da Reconquista. Inútil é recorrermos a emaranhados novelos étnicos. No estado de confusão em que se contradizem por ora as variadíssimas teorias que nos fazem, umas descendentes dos Celtas, outras dos Ligures e terceiras ainda (quanto a mim, as mais admissíveis) do ramo líbio-ibérico, seria perdermo-nos numa babilónia de hipóteses, espécie de romance científico, a que nunca acharíamos desfecho. Basta que nos satisfaçam as lições imediatas de observação. E, na verdade, são tão concludentes pelo que toca às origens sociais e literárias do ocidente peninsular, que não carecemos de buscar outro terreno para acreditarmos na personalidade do génio galaico-português, como afirmação autónoma dentro da unidade geral da Península.
Na sua Historia de la poesía castellana en la Edad Media (a p. 133 do 1.º volume) ponderava já Menéndez Pelayo: «Creemos firmemente que la epopeya castellana nació al calor de la antigua rivalidad entre Léon y Castilla (rivalidad que ocultaba otra más profunda, la del elemento gallego, y el elemento castellano) y que este es su sentido histórico primordial.» Reputo preciosa a reflexão de Menéndez Pelayo. Efetivamente a rivalidade dos dois elementos – o galego e o castelhano – transparece de uma maneira inolvidável na lenda e cantar dos Infantes de Lara. O senhor Menéndez Pidal, cuja autorizada voz começamos por invocar, no seu estudo Leyenda de los Infantes de Lara, consegue provar-nos a existência de Gonzalo Gustios, pai dos Infantes, e com ela a circunstância de ser galego, ou de proveniência galega, Ruy Velázquez, inimigo irreconciliável dos de Lara. Suponho em semelhante facto um indício de quanto via claro a aguda penetração crítica de Menéndez Pelayo.
Mas a que corresponderia a rivalidade do elemento galego e do elemento castelhano de que se alimenta no seu berço a antiga epopeia de Castela? Corresponderia, indubitavelmente, às razões por que no Ocidente peninsular, desde a estrutura social à idealidade coletiva, a vida do povo assume um aspecto de evidente indigenato, em contraste frisante com a que nos oferece Castela ou Aragão. Socorramo-nos de Menéndez Pelayo, guia seguro em quantos enredados problemas turvam ou encobrem a face augusta de Hispânia, nossa madre comum. Impressionado com o lirismo nativo dos Cancioneiros galego-portugueses, Menéndez Pelayo na sua já citada Historia de la poesía castellana en la Edad Media atribui-o sem hesitações a «un pueblo de pequeños agricultores dispersos en caseríos, que tienen por principal centro de reunión santuarios y romerías». Oiçamos agora, como aclaração indispensável, o senhor Menéndez Pidal em outro trabalho seu, o belíssimo Discurso acerca de la primitiva poesía lírica española. «La romería tiene en el norte de la península una importancia especial: el fuerte espíritu religioso que allí domina, y el ser la población esparsa y estar muy repartida en lugarcillos y aldeas, favorecen la costumbre que busca en los santuarios famosos el punto de reunión y de mercado de muchos pueblecillos de los alrededores», diz o autor mencionado. E logo adita: «No puede sorprendernos que todos los santuarios mencionados en las cantigas de amigo que tienen como fondo la romería sean santuarios pertenecientes a la región occidental del Duero, es decir, a la Galicia en su máxima extensión romana.» Reputo identificado e contraprovado o «pueblo de pequeños agricultores» a que se refere Menéndez Pelayo, de olhos postos, claro está, na região galaico-lusitana. Mas para maior confirmação eu quero juntar aqui o depoimento de alguém que, apesar de mal conhecido nos meios havidos como cultos, pertence em Portugal à alta linhagem dos Herculanos e dos Gama Barros. Aludo a Alberto Sampaio – a quem sempre me é grato chamar o nosso Fustel de Coulanges. Ora na sua monumentalíssima monografia, - As ‘vilas’ do norte de Portugal, recolhida, enfim, em volume ao alcance de todos pelo piedoso cuidado de um amigo [em 1923 *]. Alberto Sampaio demonstra-nos a existência e o desenvolvimento de uma apertada rede de proprietários e de caseiros durante o período largo de quase treze séculos naquela zona do Douro, que coincide com a Galiza na sua máxima extensão romana. Pelo trabalho paciente e iluminado do nosso historiador, nós podemos ver como o habitante bisonho das cividades desceu para os vales e se fixou ao solo graças às virtudes hábeis e prudentes da romanização. Quem seria esse habitante? Não incorramos na discussão de questões pendentes e tão distantes de solução. Contentemo-nos em concordar com Alberto Sampaio que coberto o país de prédios rústicos, sistematicamente organizados para a exploração agrícola, jamais se interrompeu o aproveitamento do solo e o alargamento da gente, acrescendo que no passar e repassar das invasões, não tendo havido absorção de sangue e civilização dos invasores, salienta Alberto Sampaio, conservaram-se portanto aí sempre vivas as tradições e costumes da sociedade anterior e o génio das populações antigas.
A tais populações pertencia o lirismo anónimo e avulso que veio a estilizar-se nas galas palacianas e literárias dos Cancioneiros. Não fugia Menéndez Pelayo a reconhecer que ele nascera do povo. «El descubrimiento de este lirismo tradicional, que pertenece al pueblo por sus orígenes, aunque sufriese sin duda una elaboración artística, es el más inesperado, así como el más positivo resultado de las últimas investigaciones sobre nuestra literatura de la Edad Media». E o polígrafo brilhantíssimo prossegue: «Hoy no es posible negarlo: hubo en los siglos XIII y XIV una poesía lírica popular de rara ingenuidad y belleza como hubo una poesía épica aunque en lengua diferente. ¿Quién podrá llegar hasta las más escondidas raíces de ese lirismo? ¿Quién podrá sorprender sus infantiles pasos? ¿Se trata de un fondo étnico común a todos los pueblos del Mediodía de Europa, o de algo propio y característico del pueblo gallego? ¿Por qué amaneció allí la poesía lírica con carácter más popular que en Provenza y con un cierto fondo de melancolía vaga, misteriosa y soñadora?»
As interrogações, levantadas por Menéndez Pelayo, permanecem inderrubáveis. Algum reforço lhe trouxeram os estudos do abalizado arabista senhor Ribera y Tarragó, documentando a anterioridade do lirismo romanceado dos moiros andaluzes sobre o celebrado lirismo provençal e ainda o apertado parentesco do primeiro com a poesia lírica do Ocidente da Península. Mas a incógnita cerrada da génese dessa poesia persiste envolta no segredo dos tempos. «Qué población antecediese en Galicia a los celtas – é Menéndez Pelayo quem volta a falar – ni lo sabemos hoy ni quizá lo sabremos nunca a punto fijo. Pero de los celtas galaicos sabemos por testimonio de Sílio Itálico que ululaban cantos bárbaros en sua patria lengua, y consta asimismo de varios cánones de concilios y por un libro de San Martín de Braga (De correctione rusticorum) que conservaron, después de convertidos al cristianismo, supersticiones más o menos poéticas y canciones profanas. Puede disputarse en que lengua estarían – condescende Menéndez Pelayo –; lo verosímil es que fueran en latín bárbaro, en lengua rústica, y que de ellas se pasase por transición gradual a los cantos en lengua vulgar. Que estos son indígenas, no cabe duda; lo demuestra su misma ausencia de carácter bélico, la suave languidez de los afectos, et perfume bucólico que nos transporta a una especie de Arcadia relativamente próspera en medio de las tribulaciones de la Edad Media».
O profundo golpe de vista de Menéndez Pelayo acertadamente indicava «a ausência de carácter bélico» dos cantos populares galaico-lusitanos como sinal do seu manifesto indigenato. Contrastando com «la férrea austeridad de las gestas castellanas» – como do Amadis ponderaria o mesmo Menéndez Pelayo, ao procurar-lhe o nascimento no ocidente peninsular, o lirismo das gentes galaico-lusitanas, não queria traduzir, porém, pela ausência de carácter bélico nos seus desabafos e motivos, frouxidão de raça, insuficiência vital da coletividade. Para nos certificar do contrário, recordemo-nos dos gastos de pertinácia e de vida que aos romanos custou a submissão do noroeste peninsular. Escutemos outra vez Alberto Sampaio: «Povo autónomo, amando sobretudo a independência, belicosos, habitando um país montanhoso coberto de florestas... regendo-se por costumes próprios – eis o único quase apagado eco que deixaram na história. Já em 138 a.C. Décio Junio Brutus, quando atravessou o Douro, tinha notado a extrema bravura dos Brácaros; e na narração da campanha cantábrica... Orósio começa por dizer que Augusto se resolveu à empresa, considerando que pouco valeriam os feitos de duzentos anos na Hispânia, se deixasse os cântabros e astures – suis uti legibus. O imperador – esmiúça Sampaio – dirigiu ele mesmo as operações militares contra estes povos galegos, «Cantabri et Asturis Gallecia provinciale portu sunt»; depois os dois legados subjugaram o resto – «magnis gravibusque bellis». Grandes e graves guerras realmente; o monte Medullium, sobranceiro ao rio Minho, diz o mesmo autor, foi preciso cercá-lo com um fosso de quinze mil passos, para vencer a multidão que se fortificava nele; a gente era trux natura et ferox, «preferindo a morte voluntária à servidão».
Tão comunicativo, o excerto de Alberto Sampaio assegura-nos inteiramente que a ausência de carácter bélico, denunciada por Menéndez Pelayo na antiga poesia galego-portuguesa, não importava consigo a falta dos mais elementares instintos de fereza e de autonomia. O que importava, por certo, era uma concepção de vida diversa da concepção que Castela imporia ao resto da Península. A especial situação que à mulher a gente galaico-lusitana concedeu é um dos seus sinais mais pronunciados. Amparemo-nos do saber e da autoridade de D. Carolina Michaëllis de Vasconcelos nas suas prodigiosas notas ao Cancioneiro da Ajuda. Discorre a doutíssima senhora – tão douta como infatigável! – da hinologia religiosa e do priscialinismo. As doutrinas hetorodoxas do facundo Prisciliano (1385) dominaram durante séculos, naquela sua pátria. Doutrinas que, pelos seus ressaibos mágicos e astrológicos, denunciam o forte pendor do noroeste marítimo para superstições rurais, auspícios, agouros, encantações, sortilégios, amuletos, saltações e cantações divinatórias. A grande influência que a seita concedia à mulher, no culto, na prédica e no ensino, assim como os seus numerosos hinos peculiares, cantados em reuniões noturnas, dão igualmente prova da índole do povo galiziano e da sua grande afeição pela dança, pela música e pelo canto». É preciso encarar o priscilianismo por um ângulo que não seja o ângulo exclusivamente religioso. Debaixo da unidade cristã, recente e ainda pouco enraizada, palpitava mal contido o substrato naturalista do Ocidente peninsular. É ele que irrompe inconfundível, no lirismo dos Cancioneiros, única respiração ao alcance da comprimida musa popular. Coletiva, a musa galaico-lusitana supõe o brando bucolismo de uma rede miúda de confrarias e de mancomunidades agrárias. Se tais confrarias induzem um povo secularmente agarrado à terra, explicam também o seu localismo feroz, de que ficou memória nos analistas romanos. A ausência de carácter bélico da poesia gerada em tão extraordinárias circunstâncias, não pode deixar de se encarar assim como o traço de uma relativa autonomia – de um indigenato indiscutível por parte da população do ocidente peninsular. Daí lhe vem o carácter arcaizante, em tantas e tão variadas manifestações, que ao estudioso e investigador oferece inesgotavelmente a região do norte do Douro – célula fecunda donde irradiou Portugal. Se o lirismo dos Cancioneiros galego-portugueses inicia o ideal de um «pueblo de pequeños agricultores», na frase de Menéndez Pelayo, causa conjuntamente o destaque e a conta em que a mulher se reputava para os nossos antepassados galaico-lusitanos. Já apontámos o papel excecional que a mulher exercia nos ritos priscilianistas.
Não se tratava de uma criação de seita. Se nos recordarmos do arraigo que no noroeste peninsular o priscilianismo encontrou nas camadas populares, arraigo tão entranhado que, eleitos pelo povo, os bispos galicianos do tempo de Prisciliano foram quase todos seus sequazes, atingiremos melhor como o lugar concedido à mulher na liturgia priscilianista exprimia o sentir unânime das massas rurais da boa e ancestral Galécia. De facto, tanto nas instituições jurídicas como nos usos domésticos e agrários da Galiza e de Portugal a mulher goza de uma situação de que em Portugal é mostra eloquentíssima o regime matrimonial da «comunhão de bens». Foi esse particular sentido do «eterno feminino» que individualizou o Amadis, obrigando o penetrante Menéndez Pelayo a buscar-lhe a formação no noroeste peninsular. Acresce a luta tenaz da igreja mediévica para expulsar dos coros religiosos a intervenção feminina, tendo que transigir, por fim, pois, conforme nos ensina D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, “os primeiros coros mulheris, com que defrontaremos na história da literatura galaico-portuguesa no século XI, entoavam sacras nas ruas «salmodiando segundo o costume da Galiza» – choros psallentium mulierum... ex consuetudine Gallaeciae.”
Creio suficientemente documentadas as razões por que o ocidente peninsular constituía uma personalidade própria, anterior historicamente à personalidade tão robusta, mas tão diversificada também, de Castela. Para as ribas montanhosas e distantes do oceano, envolto em mistério, se amassariam as gentes empurradas de regiões mais prósperas pela chegada à Península das raças adventícias. Singelamente, sem nos ampararmos de complicadas miragens eruditas, eis como interpretar o carácter arcaico do noroeste da Península, comparado às outras regiões hispânicas do centro e do levante. Fenómeno de incalculável importância, ele nos ajuda a compreender a formação de Portugal e o seu desenvolvimento independente dentro da universalidade peninsularista. Mede-se bem o valor das questões ligeiramente tocadas no presente estudo. Não se pode, na verdade, separar o problema das origens literárias do lirismo galego-português do problema das origens da nacionalidade portuguesa. Porque não acompanhou a Galiza – tal como hoje a entendemos – o rumo de Portugal, seu filho desmembrado e heróico? A resposta achá-la-emos sem demora, se refletirmos um momento na ação soberana do bispo Gelmirez, criando em Santiago um foco de atividade cultural e política que, se distinguiu a Galiza ao norte do Minho das terras que seriam gradualmente absorvidas pelo futuro centralismo castelhano, não lhe consentiu conjuntamente que seguisse os destinos do aventureiro condado portucalense, considerado como parte sua, e inferior em brilho e riqueza ao núcleo que se agrupava em torno do túmulo do Apóstolo. Adicionem-se as consequentes disputas prelatícias entre Compostela e Braga, lutando ambas pelo mesmo primado, não se olvidando também a qualidade de caravansérail, - a observação é de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos -, que imprimiam à Galiza compostelana as peregrinações incessantes, jorrando incessantemente das portelas pirenaicas. Mais que as diminutas e superficiais imiscuências suevas – tão em relevo na pena de Murguia –, necessitamos de recorrer ao destino esplendoroso, embora fugidio, da como que monarquia teocrática de Gelmirez se quisermos perceber, nos seus exatos motivos, a situação em que a Galiza ficou, oscilando entre Portugal e Castela. Fatalidade que desgraçadamente não tem remédio, cumpre à Galiza recuperar a consciência de quanto contribuiu para o florescimento da civilização peninsular. O nacionalismo galego, se naturalmente se prende a Portugal pelas suas mais íntimas afinidades, não deve nunca sonhar com separatismos que terminariam por «balcanizar» a Península. É una no seu superior significado a civilização que criámos – portugueses, galegos e castelhanos. A América Hispânica – inadmissivelmente apelidada de latina – prolonga e enriquece esse tipo admirável de civilização. Ninguém mais nobremente o cantou do que Camões. E Camões, galego de ascendência, português de nascimento, encerrou nos Lusíadas a aspiração veemente da alma peninsular, a ponto de Oliveira Martins chamar ao imortal poema o «testamento de Espanha». O pensamento hispanista de Camões, guardião máximo do espírito livre de Portugal, carece de ser comentado e divulgado. Na hora da incerteza em que as profecias de Spengler são recebidas e glosadas por inteligências suicidas, a nós, os hispanos, impõe-se a obrigação urgentíssima de nos conhecermos e de nos amarmos. Para isso, um trabalho de preparação se exige, um como que exame de consciência de quanto nos separa e de quanto nos liga. Dolorosamente interrompida por um signo inexorável na jornada gloriosa da sua história, à Galicia está reservada a grande missão de reconciliar Portugal com Castela e Castela com Portugal. Não lhe sendo possível associar-nos a nós, ela que trouxe Portugal no ventre e com tamanho desvelo o amamentou, é-lhe ainda possível ganhar no Estado espanhol a posição de prestígio que de direito lhe cabe. A que tenderá a Galiza, com voz escutada nas direções da Espanha contemporânea? Tenderá a uma dissociação em que todos nós nos definharíamos, gastos em anárquicas discórdias intestinas e nas pugnas destruidoras do futuro que nos espera? Ou tenderá a facilitar a realização do «hispanismo», como sinónimo da nossa civilização, como sinónimo da civilização que, encadeando o Atlântico num formidável abraço, o torne verdadeiramente num «mare nostrum»?
Nem por instantes duvido do caminho por onde, restituída à forte posse de si mesma, a Galiza remará. Vale muito mais uma irrecusável soberania de espírito do que uma precária soberania política. Tal é, sem receio de contradição, o caso da Galiza. O seu nacionalismo – o nacionalismo galego –, projetando-se para além de um turbulento e insubsistente regionalismo, não se envergonhará de aprender a lição de Mistral, que dedicou com zelos de apóstolo toda a sua existência à ressurreição do génio ancestral da Provença. Na ressurreição do génio ancestral da Galiza consiste o mandato imperativo do nacionalismo galego. E que horizontes se lhe não rasgam diante – que perspetivas imprevistas o não aguardam! Reivindicador de uma das mais recusadas afirmações coletivas da Europa, o nacionalismo galego nesse terreno viaja a par do nacionalismo português, tão exuberantemente servido pelo que de mais representativo se conta nas modernas gerações de Portugal. Não abdica o nacionalismo português das razões fundamentais que nos destacaram do aglomerado geral da Península. Entre elas há que sublinhar o conceito de vida, que o lirismo dos nossos Cancioneiros perpetuou e no qual reverenciamos uma das pedras angulares da nacionalidade lusitana. Por adversos que fossem – louvores a Deus que o não são! –, sobre o lirismo dos Cancioneiros, património comum, os dois nacionalismos, o galego e o português, carinhosamente se entrelaçariam. Entrelaçam-se quanto ao passado, porque, Galiza e Portugal saíram idênticos do bloco confuso das origens; entrelaçam-se quanto ao futuro, porque, pátrias do Extremo Ocidente, Portugal e Galiza, de cara voltada à América, saberão corporizar os desígnios ocultos para que o Atlântico os convida.
Por consórcio apertado dos dois nacionalismos, os primeiros capítulos da história de Portugal são inseparáveis dos primeiros capítulos da história da Galiza. É o que ressalta com nitidez deste modesto comentário suscitado pela leitura do estudo do senhor Menéndez Pidal, Poesía juglaresca y juglares, com que ultimamente a cultura peninsular se enriqueceu.
[negritos acrescentados]
Não acompanharemos agora a Menéndez Pidal na sua definição do que fosse o segrer, superior ao juglar, pois este era ordinariamente vilão, enquanto o segrer costumava ser, pelo menos, escudeiro. Nem tão-pouco insistiremos nas qualidades próprias de tão curiosa manifestação da forte atividade poética do ocidente peninsular. O que assinalamos é o testemunho significativo de um mestre, como é, sem lisonja nem favor, Menéndez Pidal, não só acerca da abundância de textos líricos, que individualiza marcadamente a região galaico-portuguesa, mas, sobretudo, acerca da fisionomia arcaica da mesma região, onde, tanto na linguagem como nos costumes, subsistem efetivamente particularidades, hoje inexistentes na Península restante.
Sempre atribuí no conjunto histórico da Península a diferenciação galaico-portuguesa a causas que remontam bem mais além das lutas e intrigas políticas da Reconquista. Inútil é recorrermos a emaranhados novelos étnicos. No estado de confusão em que se contradizem por ora as variadíssimas teorias que nos fazem, umas descendentes dos Celtas, outras dos Ligures e terceiras ainda (quanto a mim, as mais admissíveis) do ramo líbio-ibérico, seria perdermo-nos numa babilónia de hipóteses, espécie de romance científico, a que nunca acharíamos desfecho. Basta que nos satisfaçam as lições imediatas de observação. E, na verdade, são tão concludentes pelo que toca às origens sociais e literárias do ocidente peninsular, que não carecemos de buscar outro terreno para acreditarmos na personalidade do génio galaico-português, como afirmação autónoma dentro da unidade geral da Península.
Na sua Historia de la poesía castellana en la Edad Media (a p. 133 do 1.º volume) ponderava já Menéndez Pelayo: «Creemos firmemente que la epopeya castellana nació al calor de la antigua rivalidad entre Léon y Castilla (rivalidad que ocultaba otra más profunda, la del elemento gallego, y el elemento castellano) y que este es su sentido histórico primordial.» Reputo preciosa a reflexão de Menéndez Pelayo. Efetivamente a rivalidade dos dois elementos – o galego e o castelhano – transparece de uma maneira inolvidável na lenda e cantar dos Infantes de Lara. O senhor Menéndez Pidal, cuja autorizada voz começamos por invocar, no seu estudo Leyenda de los Infantes de Lara, consegue provar-nos a existência de Gonzalo Gustios, pai dos Infantes, e com ela a circunstância de ser galego, ou de proveniência galega, Ruy Velázquez, inimigo irreconciliável dos de Lara. Suponho em semelhante facto um indício de quanto via claro a aguda penetração crítica de Menéndez Pelayo.
Mas a que corresponderia a rivalidade do elemento galego e do elemento castelhano de que se alimenta no seu berço a antiga epopeia de Castela? Corresponderia, indubitavelmente, às razões por que no Ocidente peninsular, desde a estrutura social à idealidade coletiva, a vida do povo assume um aspecto de evidente indigenato, em contraste frisante com a que nos oferece Castela ou Aragão. Socorramo-nos de Menéndez Pelayo, guia seguro em quantos enredados problemas turvam ou encobrem a face augusta de Hispânia, nossa madre comum. Impressionado com o lirismo nativo dos Cancioneiros galego-portugueses, Menéndez Pelayo na sua já citada Historia de la poesía castellana en la Edad Media atribui-o sem hesitações a «un pueblo de pequeños agricultores dispersos en caseríos, que tienen por principal centro de reunión santuarios y romerías». Oiçamos agora, como aclaração indispensável, o senhor Menéndez Pidal em outro trabalho seu, o belíssimo Discurso acerca de la primitiva poesía lírica española. «La romería tiene en el norte de la península una importancia especial: el fuerte espíritu religioso que allí domina, y el ser la población esparsa y estar muy repartida en lugarcillos y aldeas, favorecen la costumbre que busca en los santuarios famosos el punto de reunión y de mercado de muchos pueblecillos de los alrededores», diz o autor mencionado. E logo adita: «No puede sorprendernos que todos los santuarios mencionados en las cantigas de amigo que tienen como fondo la romería sean santuarios pertenecientes a la región occidental del Duero, es decir, a la Galicia en su máxima extensión romana.» Reputo identificado e contraprovado o «pueblo de pequeños agricultores» a que se refere Menéndez Pelayo, de olhos postos, claro está, na região galaico-lusitana. Mas para maior confirmação eu quero juntar aqui o depoimento de alguém que, apesar de mal conhecido nos meios havidos como cultos, pertence em Portugal à alta linhagem dos Herculanos e dos Gama Barros. Aludo a Alberto Sampaio – a quem sempre me é grato chamar o nosso Fustel de Coulanges. Ora na sua monumentalíssima monografia, - As ‘vilas’ do norte de Portugal, recolhida, enfim, em volume ao alcance de todos pelo piedoso cuidado de um amigo [em 1923 *]. Alberto Sampaio demonstra-nos a existência e o desenvolvimento de uma apertada rede de proprietários e de caseiros durante o período largo de quase treze séculos naquela zona do Douro, que coincide com a Galiza na sua máxima extensão romana. Pelo trabalho paciente e iluminado do nosso historiador, nós podemos ver como o habitante bisonho das cividades desceu para os vales e se fixou ao solo graças às virtudes hábeis e prudentes da romanização. Quem seria esse habitante? Não incorramos na discussão de questões pendentes e tão distantes de solução. Contentemo-nos em concordar com Alberto Sampaio que coberto o país de prédios rústicos, sistematicamente organizados para a exploração agrícola, jamais se interrompeu o aproveitamento do solo e o alargamento da gente, acrescendo que no passar e repassar das invasões, não tendo havido absorção de sangue e civilização dos invasores, salienta Alberto Sampaio, conservaram-se portanto aí sempre vivas as tradições e costumes da sociedade anterior e o génio das populações antigas.
A tais populações pertencia o lirismo anónimo e avulso que veio a estilizar-se nas galas palacianas e literárias dos Cancioneiros. Não fugia Menéndez Pelayo a reconhecer que ele nascera do povo. «El descubrimiento de este lirismo tradicional, que pertenece al pueblo por sus orígenes, aunque sufriese sin duda una elaboración artística, es el más inesperado, así como el más positivo resultado de las últimas investigaciones sobre nuestra literatura de la Edad Media». E o polígrafo brilhantíssimo prossegue: «Hoy no es posible negarlo: hubo en los siglos XIII y XIV una poesía lírica popular de rara ingenuidad y belleza como hubo una poesía épica aunque en lengua diferente. ¿Quién podrá llegar hasta las más escondidas raíces de ese lirismo? ¿Quién podrá sorprender sus infantiles pasos? ¿Se trata de un fondo étnico común a todos los pueblos del Mediodía de Europa, o de algo propio y característico del pueblo gallego? ¿Por qué amaneció allí la poesía lírica con carácter más popular que en Provenza y con un cierto fondo de melancolía vaga, misteriosa y soñadora?»
As interrogações, levantadas por Menéndez Pelayo, permanecem inderrubáveis. Algum reforço lhe trouxeram os estudos do abalizado arabista senhor Ribera y Tarragó, documentando a anterioridade do lirismo romanceado dos moiros andaluzes sobre o celebrado lirismo provençal e ainda o apertado parentesco do primeiro com a poesia lírica do Ocidente da Península. Mas a incógnita cerrada da génese dessa poesia persiste envolta no segredo dos tempos. «Qué población antecediese en Galicia a los celtas – é Menéndez Pelayo quem volta a falar – ni lo sabemos hoy ni quizá lo sabremos nunca a punto fijo. Pero de los celtas galaicos sabemos por testimonio de Sílio Itálico que ululaban cantos bárbaros en sua patria lengua, y consta asimismo de varios cánones de concilios y por un libro de San Martín de Braga (De correctione rusticorum) que conservaron, después de convertidos al cristianismo, supersticiones más o menos poéticas y canciones profanas. Puede disputarse en que lengua estarían – condescende Menéndez Pelayo –; lo verosímil es que fueran en latín bárbaro, en lengua rústica, y que de ellas se pasase por transición gradual a los cantos en lengua vulgar. Que estos son indígenas, no cabe duda; lo demuestra su misma ausencia de carácter bélico, la suave languidez de los afectos, et perfume bucólico que nos transporta a una especie de Arcadia relativamente próspera en medio de las tribulaciones de la Edad Media».
O profundo golpe de vista de Menéndez Pelayo acertadamente indicava «a ausência de carácter bélico» dos cantos populares galaico-lusitanos como sinal do seu manifesto indigenato. Contrastando com «la férrea austeridad de las gestas castellanas» – como do Amadis ponderaria o mesmo Menéndez Pelayo, ao procurar-lhe o nascimento no ocidente peninsular, o lirismo das gentes galaico-lusitanas, não queria traduzir, porém, pela ausência de carácter bélico nos seus desabafos e motivos, frouxidão de raça, insuficiência vital da coletividade. Para nos certificar do contrário, recordemo-nos dos gastos de pertinácia e de vida que aos romanos custou a submissão do noroeste peninsular. Escutemos outra vez Alberto Sampaio: «Povo autónomo, amando sobretudo a independência, belicosos, habitando um país montanhoso coberto de florestas... regendo-se por costumes próprios – eis o único quase apagado eco que deixaram na história. Já em 138 a.C. Décio Junio Brutus, quando atravessou o Douro, tinha notado a extrema bravura dos Brácaros; e na narração da campanha cantábrica... Orósio começa por dizer que Augusto se resolveu à empresa, considerando que pouco valeriam os feitos de duzentos anos na Hispânia, se deixasse os cântabros e astures – suis uti legibus. O imperador – esmiúça Sampaio – dirigiu ele mesmo as operações militares contra estes povos galegos, «Cantabri et Asturis Gallecia provinciale portu sunt»; depois os dois legados subjugaram o resto – «magnis gravibusque bellis». Grandes e graves guerras realmente; o monte Medullium, sobranceiro ao rio Minho, diz o mesmo autor, foi preciso cercá-lo com um fosso de quinze mil passos, para vencer a multidão que se fortificava nele; a gente era trux natura et ferox, «preferindo a morte voluntária à servidão».
Tão comunicativo, o excerto de Alberto Sampaio assegura-nos inteiramente que a ausência de carácter bélico, denunciada por Menéndez Pelayo na antiga poesia galego-portuguesa, não importava consigo a falta dos mais elementares instintos de fereza e de autonomia. O que importava, por certo, era uma concepção de vida diversa da concepção que Castela imporia ao resto da Península. A especial situação que à mulher a gente galaico-lusitana concedeu é um dos seus sinais mais pronunciados. Amparemo-nos do saber e da autoridade de D. Carolina Michaëllis de Vasconcelos nas suas prodigiosas notas ao Cancioneiro da Ajuda. Discorre a doutíssima senhora – tão douta como infatigável! – da hinologia religiosa e do priscialinismo. As doutrinas hetorodoxas do facundo Prisciliano (1385) dominaram durante séculos, naquela sua pátria. Doutrinas que, pelos seus ressaibos mágicos e astrológicos, denunciam o forte pendor do noroeste marítimo para superstições rurais, auspícios, agouros, encantações, sortilégios, amuletos, saltações e cantações divinatórias. A grande influência que a seita concedia à mulher, no culto, na prédica e no ensino, assim como os seus numerosos hinos peculiares, cantados em reuniões noturnas, dão igualmente prova da índole do povo galiziano e da sua grande afeição pela dança, pela música e pelo canto». É preciso encarar o priscilianismo por um ângulo que não seja o ângulo exclusivamente religioso. Debaixo da unidade cristã, recente e ainda pouco enraizada, palpitava mal contido o substrato naturalista do Ocidente peninsular. É ele que irrompe inconfundível, no lirismo dos Cancioneiros, única respiração ao alcance da comprimida musa popular. Coletiva, a musa galaico-lusitana supõe o brando bucolismo de uma rede miúda de confrarias e de mancomunidades agrárias. Se tais confrarias induzem um povo secularmente agarrado à terra, explicam também o seu localismo feroz, de que ficou memória nos analistas romanos. A ausência de carácter bélico da poesia gerada em tão extraordinárias circunstâncias, não pode deixar de se encarar assim como o traço de uma relativa autonomia – de um indigenato indiscutível por parte da população do ocidente peninsular. Daí lhe vem o carácter arcaizante, em tantas e tão variadas manifestações, que ao estudioso e investigador oferece inesgotavelmente a região do norte do Douro – célula fecunda donde irradiou Portugal. Se o lirismo dos Cancioneiros galego-portugueses inicia o ideal de um «pueblo de pequeños agricultores», na frase de Menéndez Pelayo, causa conjuntamente o destaque e a conta em que a mulher se reputava para os nossos antepassados galaico-lusitanos. Já apontámos o papel excecional que a mulher exercia nos ritos priscilianistas.
Não se tratava de uma criação de seita. Se nos recordarmos do arraigo que no noroeste peninsular o priscilianismo encontrou nas camadas populares, arraigo tão entranhado que, eleitos pelo povo, os bispos galicianos do tempo de Prisciliano foram quase todos seus sequazes, atingiremos melhor como o lugar concedido à mulher na liturgia priscilianista exprimia o sentir unânime das massas rurais da boa e ancestral Galécia. De facto, tanto nas instituições jurídicas como nos usos domésticos e agrários da Galiza e de Portugal a mulher goza de uma situação de que em Portugal é mostra eloquentíssima o regime matrimonial da «comunhão de bens». Foi esse particular sentido do «eterno feminino» que individualizou o Amadis, obrigando o penetrante Menéndez Pelayo a buscar-lhe a formação no noroeste peninsular. Acresce a luta tenaz da igreja mediévica para expulsar dos coros religiosos a intervenção feminina, tendo que transigir, por fim, pois, conforme nos ensina D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, “os primeiros coros mulheris, com que defrontaremos na história da literatura galaico-portuguesa no século XI, entoavam sacras nas ruas «salmodiando segundo o costume da Galiza» – choros psallentium mulierum... ex consuetudine Gallaeciae.”
Creio suficientemente documentadas as razões por que o ocidente peninsular constituía uma personalidade própria, anterior historicamente à personalidade tão robusta, mas tão diversificada também, de Castela. Para as ribas montanhosas e distantes do oceano, envolto em mistério, se amassariam as gentes empurradas de regiões mais prósperas pela chegada à Península das raças adventícias. Singelamente, sem nos ampararmos de complicadas miragens eruditas, eis como interpretar o carácter arcaico do noroeste da Península, comparado às outras regiões hispânicas do centro e do levante. Fenómeno de incalculável importância, ele nos ajuda a compreender a formação de Portugal e o seu desenvolvimento independente dentro da universalidade peninsularista. Mede-se bem o valor das questões ligeiramente tocadas no presente estudo. Não se pode, na verdade, separar o problema das origens literárias do lirismo galego-português do problema das origens da nacionalidade portuguesa. Porque não acompanhou a Galiza – tal como hoje a entendemos – o rumo de Portugal, seu filho desmembrado e heróico? A resposta achá-la-emos sem demora, se refletirmos um momento na ação soberana do bispo Gelmirez, criando em Santiago um foco de atividade cultural e política que, se distinguiu a Galiza ao norte do Minho das terras que seriam gradualmente absorvidas pelo futuro centralismo castelhano, não lhe consentiu conjuntamente que seguisse os destinos do aventureiro condado portucalense, considerado como parte sua, e inferior em brilho e riqueza ao núcleo que se agrupava em torno do túmulo do Apóstolo. Adicionem-se as consequentes disputas prelatícias entre Compostela e Braga, lutando ambas pelo mesmo primado, não se olvidando também a qualidade de caravansérail, - a observação é de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos -, que imprimiam à Galiza compostelana as peregrinações incessantes, jorrando incessantemente das portelas pirenaicas. Mais que as diminutas e superficiais imiscuências suevas – tão em relevo na pena de Murguia –, necessitamos de recorrer ao destino esplendoroso, embora fugidio, da como que monarquia teocrática de Gelmirez se quisermos perceber, nos seus exatos motivos, a situação em que a Galiza ficou, oscilando entre Portugal e Castela. Fatalidade que desgraçadamente não tem remédio, cumpre à Galiza recuperar a consciência de quanto contribuiu para o florescimento da civilização peninsular. O nacionalismo galego, se naturalmente se prende a Portugal pelas suas mais íntimas afinidades, não deve nunca sonhar com separatismos que terminariam por «balcanizar» a Península. É una no seu superior significado a civilização que criámos – portugueses, galegos e castelhanos. A América Hispânica – inadmissivelmente apelidada de latina – prolonga e enriquece esse tipo admirável de civilização. Ninguém mais nobremente o cantou do que Camões. E Camões, galego de ascendência, português de nascimento, encerrou nos Lusíadas a aspiração veemente da alma peninsular, a ponto de Oliveira Martins chamar ao imortal poema o «testamento de Espanha». O pensamento hispanista de Camões, guardião máximo do espírito livre de Portugal, carece de ser comentado e divulgado. Na hora da incerteza em que as profecias de Spengler são recebidas e glosadas por inteligências suicidas, a nós, os hispanos, impõe-se a obrigação urgentíssima de nos conhecermos e de nos amarmos. Para isso, um trabalho de preparação se exige, um como que exame de consciência de quanto nos separa e de quanto nos liga. Dolorosamente interrompida por um signo inexorável na jornada gloriosa da sua história, à Galicia está reservada a grande missão de reconciliar Portugal com Castela e Castela com Portugal. Não lhe sendo possível associar-nos a nós, ela que trouxe Portugal no ventre e com tamanho desvelo o amamentou, é-lhe ainda possível ganhar no Estado espanhol a posição de prestígio que de direito lhe cabe. A que tenderá a Galiza, com voz escutada nas direções da Espanha contemporânea? Tenderá a uma dissociação em que todos nós nos definharíamos, gastos em anárquicas discórdias intestinas e nas pugnas destruidoras do futuro que nos espera? Ou tenderá a facilitar a realização do «hispanismo», como sinónimo da nossa civilização, como sinónimo da civilização que, encadeando o Atlântico num formidável abraço, o torne verdadeiramente num «mare nostrum»?
Nem por instantes duvido do caminho por onde, restituída à forte posse de si mesma, a Galiza remará. Vale muito mais uma irrecusável soberania de espírito do que uma precária soberania política. Tal é, sem receio de contradição, o caso da Galiza. O seu nacionalismo – o nacionalismo galego –, projetando-se para além de um turbulento e insubsistente regionalismo, não se envergonhará de aprender a lição de Mistral, que dedicou com zelos de apóstolo toda a sua existência à ressurreição do génio ancestral da Provença. Na ressurreição do génio ancestral da Galiza consiste o mandato imperativo do nacionalismo galego. E que horizontes se lhe não rasgam diante – que perspetivas imprevistas o não aguardam! Reivindicador de uma das mais recusadas afirmações coletivas da Europa, o nacionalismo galego nesse terreno viaja a par do nacionalismo português, tão exuberantemente servido pelo que de mais representativo se conta nas modernas gerações de Portugal. Não abdica o nacionalismo português das razões fundamentais que nos destacaram do aglomerado geral da Península. Entre elas há que sublinhar o conceito de vida, que o lirismo dos nossos Cancioneiros perpetuou e no qual reverenciamos uma das pedras angulares da nacionalidade lusitana. Por adversos que fossem – louvores a Deus que o não são! –, sobre o lirismo dos Cancioneiros, património comum, os dois nacionalismos, o galego e o português, carinhosamente se entrelaçariam. Entrelaçam-se quanto ao passado, porque, Galiza e Portugal saíram idênticos do bloco confuso das origens; entrelaçam-se quanto ao futuro, porque, pátrias do Extremo Ocidente, Portugal e Galiza, de cara voltada à América, saberão corporizar os desígnios ocultos para que o Atlântico os convida.
Por consórcio apertado dos dois nacionalismos, os primeiros capítulos da história de Portugal são inseparáveis dos primeiros capítulos da história da Galiza. É o que ressalta com nitidez deste modesto comentário suscitado pela leitura do estudo do senhor Menéndez Pidal, Poesía juglaresca y juglares, com que ultimamente a cultura peninsular se enriqueceu.
[negritos acrescentados]
In Da Hera nas Colunas, 1929.
[*] Nota desta edição: em 1923, por iniciativa de Luís de Magalhães, a Livraria Chardron Lello & Irmão publicou parte da sua obra sob o título Estudos Históricos e Económicos.]
Refs.
Refs.
- Alberto Sampaio - As ‘vilas’ do norte de Portugal.
- Carolina Michaelis de Vasconcelos - Cancioneiro da Ajuda
- Menéndez Pelayo - Historia de la poesía castellana en la Edad Media.
- Ramón Menéndez Pidal - Discurso acerca de la primitiva poesía lírica española, leído en la inauguración del curso de 1919-1920. Ateneo Científico, Literario y Artístico de Madrid, 1919.
- Ramón Menéndez Pidal - Poesía juglaresca y juglares (Aspectos de la Historia Literaria y Cultural de España), 1924.
- Ribera y Tarragó.