ADIANTE, POR SOBRE OS CADÁVERES! (*)
António Sardinha
Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem! O drama vem de mais longe e o seu conflito é bem mais patético. De um lado a Matéria com o seu cortejo de «conservadores» e de «radicais», adorando o mesmo deus, o Oiro omnipotente e aliciante. Do outro lado o Espírito, contrapondo-lhe o inefável sorriso da primeira alvorada do mundo, da alvorada inigualável da Criação. - António Sardinha
RESUMO
A Crise das Democracias Ocidentais e o Papel das Elites
- O texto de António Sardinha propõe uma reflexão sobre a crise que atravessa a civilização ocidental no pós-guerra, observando o contexto português enquanto parte integrante deste fenómeno mais amplo. Sardinha recusa analisar a crise apenas como um problema político ou social, entendendo-a sobretudo como uma crise de civilização, cujas raízes e consequências ultrapassam fronteiras nacionais.
- A crise europeia — refletida em Portugal de forma trágica — não se resume a dificuldades passageiras, mas representa um momento perigoso e decisivo, onde se joga o destino das nações. O termo “crise”, desvalorizado pelo uso excessivo e superficial dos políticos, deve ser resgatado no seu sentido mais profundo: um instante de risco máximo, em que a própria razão de ser dos povos está em jogo. Esta crise não é exclusivamente portuguesa, mas sim o resultado de um mal enraizado na própria ideia de Europa, em que o individualismo crescente — nascido da Reforma e da Revolução Francesa — desfez a unidade moral que sustentava cada pátria. O individualismo, nas suas múltiplas formas, minou a objetividade e expulsou o absoluto da vida humana, substituindo-o por um intelectualismo subjetivo e por uma filosofia moderna que despreza a experiência e a tradição.
- A perversão da inteligência — levada ao subjetivismo e à crítica destrutiva desde o século XVIII — é o elemento mais nefasto do individualismo. Este processo preparou o caminho para uma barbárie sem nome, um verdadeiro suicídio da inteligência, afastando o homem da ordem espiritual. Apenas o retorno à objetividade e à lei do Espírito pode salvar a civilização ocidental da sua ruína.
- Inspirado por René Johannet, Sardinha destaca que o problema fundamental das sociedades é o das elites. Não basta substituir as classes dirigentes apáticas ou parasitárias por outras: é preciso criar verdadeiras elites, minorias renovadoras, capazes de conduzir a sociedade com base em valores morais e espirituais. A seleção positiva destas elites é essencial, pois a democracia dos partidos, ao privilegiar a quantidade sobre a qualidade, permitiu o predomínio das forças materiais sobre o espírito. Sardinha defende que as elites não podem ser apenas detentoras do poder por direito ou força, mas devem ser formadas e preparadas para exercer uma função criadora e escalonadora, evitando cair numa oligarquia fechada e estéril. O verdadeiro equilíbrio social não se alcança por imposição militar ou policial, mas pela restauração de uma ordem inspirada no império do Espírito.
- A ordem é condição da vida, mas não a sua origem: é a vida, com o seu ritmo sagrado, que gera a verdadeira ordem. A restauração da civilização ocidental depende da instauração dos mesmos princípios espirituais que outrora permitiram o florescimento da Europa. Sem este regresso, o caos ameaça regressar com força renovada. A Igreja surge, neste contexto, como a única instituição capaz de manter a firmeza e apontar o caminho da reconstrução, tal como o fez durante a Idade Média, salvando os legados da cultura clássica e promovendo uma ordem que impediu a Europa de mergulhar na anarquia.
- Sardinha recorre a Augusto Comte e a Jacques Maritain para criticar os individualismos revolucionários, que negam a verdadeira liberdade ao rejeitar a autoridade e exaltar os instintos mais baixos do ser humano. O mundo moderno, ao fundar-se na fecundidade do dinheiro e na utilidade, transforma a atividade humana num delírio materialista, afastando o homem de Deus e do Espírito. O progresso autêntico, sublinha, reside na elevação da matéria ao espiritual.
- Na modernidade, a “civilização” foi reduzida à técnica, perdendo-se o prestígio da alta cultura e da cultura desinteressada. Sardinha defende que a defesa do modelo de humanidade herdado do Cristianismo exige a revisão do conceito de elite, valorizando a perfeição interna e o valor moral sobre a simples organização numérica. O bolchevismo e o fascismo, ao privilegiarem a ação de minorias determinadas, evidenciam o fracasso da democracia dos partidos políticos e a necessidade de novas fórmulas de condução estatal.
- O poder, conclui Sardinha, é sempre exercido por uma minoria. A diferença reside na legitimidade: o poder deve garantir o bem da comunidade e não ser um fim em si mesmo. Tanto o bolchevismo como o fascismo demonstram que o governo das elites é inevitável, mas só será benéfico se orientado por princípios morais e espirituais.
- Sardinha defende que a crise portuguesa é inseparável da crise europeia. A renovação da civilização ocidental exige a formação de verdadeiras elites, reconciliadas com as suas fontes espirituais e culturais. Só assim será possível evitar o caos e restaurar uma ordem baseada no Espírito, capaz de garantir a continuidade da civilização.
ADIANTE, POR SOBRE OS CADÁVERES!
Nova jornada vai começar para a nossa revista e são hoje, como ontem, as mesmas palavras de exortação. Nem por um só instante desprendamos o problema português do problema ocidental! Mais que uma crise de ordem meramente política e social, a crise, que tão dolorosamente a Europa atravessa e que no nosso país se reflete em aspetos máximos de tragédia, é, sobretudo e talvez unicamente, uma crise de «civilização».
Mas o que se deve entender, o que entendemos nós por «crise»? Igual interrogação se fazem todos os que na hora presente têm em consciência a responsabilidade do futuro – ou manejem uma pena ou afaguem uma espada. Igual pergunta se faz a si próprio René Johannet, autor desse livro, bem discutível por certo, mas forte de energia, tão rico de apelo à ação – Éloge du bourgeois français. «Moment périlleux et décisif, dit fort bien Littré» – regista René Johannet a respeito do que seja uma «crise». «Périlleux, c’est-à-dire, autour duquel se joue le tout pour le tout.» E o autor do Éloge de bourgeois français, procurando definir a sua preocupação, remata concludentemente: «Voilà les développements naturels que comporte la définition de Littré, qui est la définition classique.» Uma «crise» não é, pois, uma dificuldade passageira, uma contrariedade fugitiva na marcha das coisas públicas ou dos negócios governativos. Se uma das piores gafas dos sistemas democráticos é a «vulgarização» excessiva, é a «facilitação» deprimente a que obriga tudo, na bastardia dos vocábulos e no uso indecoroso a que o verbalismo dos tribunos e dos sicofantas lhes sujeitam e entortam o significado, vai-se-lhes a natural nobreza, a natural propriedade, a ponto de se tornarem fórmulas vagas, expressões unicamente auditivas. Tal acontece com o termo «crise», inteiramente desonrado pela gíria dos políticos profissionais e de seus compadres, os senhores que, a tanto por opinião, escrevem «artigos» nas gazetas.
Impõe-se assim a necessidade de a tudo se restituir o seu valor, de a tudo se restituir o seu lugar e o seu sentido. Restituamos, pois, à palavra «crise» a sua perdida dignidade! Se ela traduz, na verdade, um instante «perigoso e decisivo», um instante em que o risco de se ser vencido é igual ao risco de total subversão, não há dúvida que Portugal se encontra em «crise», porque se encontram em completa negação as suas mais íntimas razões de ser, os motivos mais fortes da sua velha existência histórica.
Mas o fenómeno, cujos efeitos dominadores e progressivos com angústia constatamos, não é um fenómeno doméstico, de natureza exclusivamente nacional. Se lhe bosquejarmos a densa árvore genealógica, sem custo se verificará que as suas raízes são as raízes do mal profundo, do mal já mais que secular, em que a ideia solidária de «Europa» se vem assustadoramente desfazendo. O minuto extremo, aquele em que a «crise» atinge a plenitude e se resolve, numa direção ou noutra, é, porém, o minuto que corre. Mas de que estranha enfermidade, de que herança perniciosa recolhemos as consequências? Não é inútil repeti-lo! São os frutos de um largo e irreprimido individualismo, que, revelando-se primeiro com a Reforma na dissidência religiosa, se revelou com a Revolução Francesa na quebra da unidade moral por que cada pátria se regia e alimentava.
Como os do Proteu mitológico, vários são os aspetos do Individualismo, múltiplas e imprevistas as suas formas. Mas, sem dúvida, a sua obra mais nefasta foi a que, em nome de uma ilusória «liberdade intelectual», operou nos domínios da Inteligência propriamente dita. Levando-a às emboscadas do puro subjetivismo, levando-a à rutura com a objetividade e, portanto, com a essência inalterável do Ser, expulsou o «absoluto» da vida humana, para o substituir, numa evidente diminuição da nossa personalidade, pelas traiçoeiras, ainda que sorridentes seduções do chamado intelectualismo, da chamada «filosofia moderna». Desprezadas desta maneira a lição e a experiência dos séculos, os homens rolaram de quimera para quimera, de utopia para utopia, entregues cegamente ao canto hipócrita das sereias que, prometendo-lhes a ambicionada emancipação, a posse apetecida dos frutos da árvore de Todo-o-Saber, só os trouxeram, afinal, aos parapeitos do abismo, em que, suspensa da sua túnica bordada de castelos e catedrais, a grande madre Europa, se alonga um passo adiante, não tardará a precipitar-se.
Não nos quedaremos aqui em demorados exames de consciência. Mas, apontando como a tara pior do Individualismo a sinistra perversão da Inteligência, diabolicamente efetivada por ele, o nosso fim é salientar a urgência de condicionar toda a ação reconstrutora por um labor constante de retificação mental. Para que a «crise» assumisse quase as raias de catástrofe sem remédio, abriu-lhe o caminho, facilitou-lhe o andamento, o trabalho de dissociação criticista, em que, a partir principalmente do século XVIII, a Inteligência, prostituindo-se, se empenhou afincadamente. Preparando o advento de uma barbárie sem nome, era, no fim de contas, o seu suicídio que a Inteligência preparava. Apercebeu-se ela da sorte que a esperava nas alamedas da Cidade-Nova, a tempo de poder reagir, já com a lei do Número ululando, como um monstro de mil cabeças, contra a lei do Espírito, eterna lei libertadora, a lei pela qual o homem, se aceita e serve, é implicitamente colaborador de Deus na obra incessante da criação.
Saudando no prólogo do seu livro, já citado, o Ditador que há-de surgir para agrupar e coordenar os valores dispersos, mas diligentes, de que a França hodierna regurgita, cheia, escreve René Johannet: «Il n’y a jamais pour les peuples qu’un seul et immense problème, qui ne s’interrompt pas une minute et ne cesse de se transformer: le problème des élites». Efetivamente, o problema imenso, o único problema a que, no fundo, se reduzem as agitadas questões do nosso mundo, do desgarrado mundo ocidental, é um problema de «elites», um problema de «aristocracia» (ressuscitando e reabilitando a velha designação), é um problema de puros elementos condutores, de minorias renovadoras, que se sobreponham energicamente às apáticas, quando não subtrativas, quando não parasitárias, «classes dirigentes» das mentiras convencionais do nosso tempo. Se, como reconhecemos, a sociedade morre por carência de atividades que a estimulem na luta que é imperioso manter contra os agentes que afanosamente a desfibram e decompõem, para onde apelar, a não ser para a «seleção positiva», visto que a seleção pretensamente igualitária da Democracia só gerou o predomínio das cegas forças materiais sobre o claro sorriso de Minerva – sobre a imarcescível Flor-de-Lis, que é o brasão de tudo quanto, em nome do Espírito, se oponha à tirania grosseira do Oiro e do Número? Mas como suscitar essas «elites», como promover a sua floração, o seu desenvolvimento?
Decerto que, nas próprias reservas da sociedade, o seu gérmen existe latente. O que carecemos é de moldes, é de instituições que naturalmente promovam a sua gestação e as amparem depois no crescimento, facilitando-lhes a detenção do Poder e com ela a direção da vida social. Se a «aristocracia», se a «elite» não dispõe de nenhuma formação ética e mental, irrecusavelmente que se volve depressa em casta absorvente, em oligarquia sequiosa dos mil e um prazeres derivados do desfruto do mando. Se mandar é um «fim» e não um «meio», a elite» não é «elite», porque não corresponde à sua dupla função criadora e escalonadora. Iludem-se, por isso, os que, aferrados a um arcaico e desprezível conservantismo, imaginam que o repouso da sociedade e o seu ingresso no desejado equilíbrio se limita apenas a uma simples operação de carácter policial, a um mero restabelecimento militar da ordem. A «ordem» em si pode até ser a «ordem» do bolchevismo, pode até ser a ordem que existe nos próprios Infernos, porque no Inferno existe uma «ordem», como Dante no-lo assinala, a Teologia no-lo ensina e agudamente Jacques Maritain nos acentua no seu Anti-moderne.
Acabemos com tão estéril como anuladora superstição, a superstição da Ordem! Naturalmente que a ordem é condição essencial da vida. Mas não é a Ordem que gera a Vida, e sim a Vida que gera a Ordem. À Ordem, ditada pelo ritmo sagrado da Vida, nos devemos dirigir. E outra não é senão a Ordem, fundada e inspirada numa ordem mais profunda e mais real – a do império imprescritível do Espírito.
Pense-se o que se pensar, braceje-se o que se bracejar, o dilema está nitidamente enunciado: a Ordem, sinónimo de civilização, só se restaurará pelos mesmos princípios porque, nos horizontes já brumosos da história, um dia foi possível. Sem a plena instauração de tais princípios, o Caos voltará a soltar o seu rugido infrene, voltará a negra confusão primitiva. E nesta altura prevenimos que, amando cada vez mais a expressão directa e sóbria, não nos achamos aqui esboçando apocalipses, com tanto de ridículas como de enfáticas! No duelo tremendo em que se emaranham os instintos mais ocultos da sociedade com as suas mais belas lucilações, apenas a Igreja mantém a firmeza do seu rochedo, apenas a Igreja que fez a Europa e que salvou do naufrágio do mundo antigo os melhores legados da cultura clássica, nos aponta a estrada segura da vitória e da reconstrução.
Não se esqueceu ainda aquela vigorosa página de Taine, no Ancien régime, quando o filósofo, resumindo o pandemónio violentíssimo da grande noite medieval, com as invasões passando e repassando, nos coloca diante dos olhos a solicitude quase divina dos monges e dos bispos, tirando de tantos escombros fumegantes os lineamentos de uma nova idade de paz, de trabalho e de fraternidade. Graças ao clero, graças à Igreja, as vontades se somaram, as dedicações se hierarquizaram, as inteligências exploraram as veredas obstruídas do conhecimento e da meditação, e de tão aplicada e evangélica tarefa resultou uma «ordem» que, no dizer de Taine, «a empêché l’Europe de devenir une anarchie mongole». Ameaçada de novo a Europa de cair, de mergulhar, e talvez irreparavelmente, numa como que «anarquia mongol», à «ordem cristã» necessitamos de nos devolver, porque só na ordem cristã» o homem deixa de ser «indivíduo» para se tornar «pessoa» – porque só na «ordem cristã» o homem, de quantidade errática e centrífuga, se transforma em parcela aditiva, em fecundo elemento ativo, dentro da continuidade admirável das gerações.
«Revolta do ser contra a espécie» – eis como Augusto Comte classificou o individualismo revolucionário. Revolucionário, não porque ele date da Revolução Francesa, não porque ele descenda do grito rebelde de Lutero, mas porque, acompanhando-lhe a linhagem ao arrepio dos tempos, vai diretamente entroncar no «Non serviam!» eterno de Satanás. Pois «revolta do ser contra a espécie», o individualismo revolucionário, tão seguramente sintetizado na frase epigráfica de Comte, é a negação da Liberdade que, sem a Autoridade, é mito vão, é fantasma irónico e nunca possuído. Obedecendo tão-somente às solicitações inferiores da nossa contraditória humanidade, o que pretende é pôr no trono a besta semi-desperta que habita nas criptas, tão povoadas como misteriosas, de cada um de nós. Ora se paramente com a refulgência dominadora do Bezerro-de-Oiro, ou, numa sinceridade estorcionada de manicómio, erija altares a ídolos que têm boca e não falam, que têm olhos e não veem – como reza a letra do Salmo –, não há disfarce que esconda ou evite a regressão pavorosa a que o homem se condena, quando entregue exclusivamente a si próprio. Pondera a propósito Jacques Maritain: «Fondé sur les deux principes contre-nature de la fécondité de l’argent et de la finalité de l’utile, multipliant sans aucun terme possible les besoins et la servitude, détruisant le loisir de l’âme, soustrayant le factible matériel à la régulation qui le proportionnait aux fins de l’être humain, et imposant à l’homme le halètement de la machine et le mouvement accéléré de la matière, le monde moderne imprime à l’activité humaine un mode proprement diabolique, car le but final de tout ce délire est d’empêcher l’homme de se souvenir de Dieu...» Falar em Deus, é falar no Espírito, e o que é progredir, racionalmente entendido, o que é «civilizar» senão elevar a Matéria ao Espírito, reintegrar a Criatura no Criador?
«Progresser... c’est... passer du sensible au rationnel et du rationnel au spirituel et du moins spirituel au plus spirituel; civiliser c’est spiritualiser» – salienta ainda Jacques Maritain. Mas o que se toma hoje por «civilizar»? Toma-se, precisamente, a operação inversa – ou seja, a diminuição crescente do «espiritual», em manifesto e absorvente proveito do «material». Ora, à claridade de tais reflexões, se torna urgente para nós assentar o que convém dizer-se por «elites». Na perversão do conceito de «civilização», confundiu-se esta, de uma maneira absurda, com um dos seus aspetos, indubitavelmente dos mais tangíveis, mas por certo dos menos vitalizadores – o da «técnica». A alta cultura, a cultura desinteressada, perdeu o seu prestígio, e quando, porventura, subsista num ponto ou noutro, subsiste desnaturada pela avariose filosófica dos últimos dois séculos. Se, na realidade, nos anima o fervente desejo de assegurarmos posições para defesa do tipo de humanidade que o Ocidente recebeu do Cristianismo, impõe-se-nos a obrigação indeclinável de rever e de retificar esse juízo corrente de «elite».
Escolhendo para tema de um seu notabilíssimo discurso as «tendências intelectuais predominantes no mundo», assim se exprimiu Mons. Seipel, o eminente chanceler austríaco: «A tendência predominante na época que antecedeu a guerra era a exaltação da técnica, da organização, da democracia... A ciência do pensamento caíra em completo descrédito, porque a ‘técnica’ criava tantas comodidades que ninguém supunha possível o viver-se sem ela. A ‘organização’ foi a aplicação desta ideia predominante de ‘técnica’ aos grupos humanos. A força isolada é impotente e daqui a necessidade de congregar esforços para se alcançar os efeitos correspondentes às aspirações de maior ‘bem-estar’. Insurgiu-se Mons. Seipel contra a organização, no sentido exclusivamente numérico com que se pratica. Os próprios efectivos católicos padeceram as influências funestas de tão grosseiro equívoco. «Hoje nas nossas organizações buscamos, mais que o número, o valor moral e a perfeição interna dos seus membros» – acrescentou Mons. Seipel. O vento faz cair as folhas sêcas e as árvores só se beneficiam com isso. Não desprezamos a organização, mas cultivamos o espírito com mais cuidado que o organismo, preferindo a minoria selecta ao recrutamento em massa, que, incontestavelmente, é imprescindível, mas que não pode utilizar-se sem a primeira.
Eis francamente enunciado o problema da formação e da função das «elites». Em reforço das suas afirmações, aludiu também o ilustre e virtuoso chanceler austríaco aos exemplos que salutarmente o bolchevismo nos oferece. A noção vigente e legal da Democracia recebeu do bolchevismo o golpe decisivo, porque nos veio demonstrar como uma minoria compacta conseguiu desencadear tamanha comoção social. É oportuno documentar agora a opinião de Mons. Seipel com as impressões do conhecido político espanhol D. Francesc Cambó. «De todas las revoluciones triunfantes ocurridas en Europa en los últimos años – escreve ele–, las únicas sobre las cuales se ha concentrado la atención del mundo entero han sido la revolución bolchevista y la revolución fascista... El que no ve, presiente que lo que ha tenido lugar en Italia y Rusia no interesa sólo a los rusos y a los italianos, sino que interesa al mundo entero y tiene un valor universal.» Porquê?
Porque tanto o bolchevismo, como o fascismo, «representan, en su aspecto negativo, la exposición del fracaso de todo el sistema político y de toda la ideología democrática y humanitaria que imperaba en Europa hacía casi un siglo al estallar la guerra, y en su aspecto positivo, vienen a ser un encargo, un tanteo, en busca de las nuevas fórmulas para encuadrar y dirigir las funciones estatales». E Cambó agrega: «El bolchevismo y el fascismo son, francamente, lealmente, antidemocráticos. Reniegan de la soberanía popular y adjudican el gobierno a las minorías que, por su audacia, por su fuerza, por su heroísmo, han conquistado el derecho de gobernar a los demás... Tanto en Rusia como en Italia – prossegue Cambó – ha quedado de manifiesto que los progresos de la humanidad son más superficiales que lo que nuestra vanidad se complace en creer y afirmar: hoy, como en los comienzos más lejanos de la historia, el valor personal, el esfuerzo heroico, es el que triunfa y constituye la base esencial del Poder... Uno y otro movimiento expresan su menosprecio por el sufragio universal y por las instituciones parlamentarias... Tanto en Rusia como en Italia se gobierna hoy, no en nombre de todo el pueblo, según quería la ideología democrática, sino en nombre de un partido, llegado al Poder proclamando un ideal y por el camino del esfuerzo heroico y cruento.» E Cambó remata: «Podrá pensarse lo que se quiera de los sistemas políticos que imperan en Rusia y en Italia, pero es preciso confesar que su exposición es de una franqueza, como no se encontraba ni por azar, en las expresiones tal vez decadentes, tal vez rudimentarias, de la caricatura abyecta del régimen parlamentario, en que vivían, en que viven todavía algunos países, donde también gobierna una minoría que llegó al Poder por la intriga y en el se mantiene por la ineficacia y por la claudicación.»
Do depoimento, tão significativo, de Cambó se deduz, afinal, aquilo que é um facto insofismável – o Poder é sempre uma ditadura, consistindo apenas as diferenças que o hajam de distinguir na forma como essa ditadura se exerce, se em benefício, se em detrimento da coletividade. Tombaríamos assim na justificação terminante das teorias de Duguit, se à razão objetiva do Poder não adicionássemos para com os seus titulares um elemento de natureza moral ou subjetiva: a legitimidade. Despidas dos seus revestimentos históricos, a legitimidade do Poder resume-se em garantir na sequência do seu exercício o bem da comunidade. Se o Poder se adquire ou ganha como um «fim», surge logicamente a tirania, ou disfarçada em ficções legalistas, ou assumindo o carácter franco de um aberto ato de conquista. Como é uma minoria que inevitavelmente o detém e exerce, a casta aparece, ou saída da força, ou gerada pela hipocrisia dos convencionalismos jurídicos. A segunda hipótese é a hipótese vulgar e nauseabunda das democracias, oprimindo e desvirtuando o ritmo social debaixo da opressão anónima dos partidos e dos parlamentos. A primeira hipótese, essa, é a da Rússia, e ainda a da Itália. Reações vigorosas contra a decomposição engendrada na alma dos povos pelo narcótico individualista, a experiência russa, produzida em nome das teorias de Karl Marx – um judeu alemão – num terreno mal europeizado, em que a sonolência asiática amolenta o sentir da maioria, só vale para nós como o sinal evidente de que quem dirige e governa é sempre um grupo de homens reduzido, desde que os unifique uma ideologia ou mentalidade comum. Mais orgânico, mais inspirado nas razões claras do Ocidente, o ensaio governativo de Mussolini descobre-nos o lado positivo do fenómeno que, em termos opostos, a Rússia fornece à nossa meditação. É à morte da Democracia a que assistimos, é à vitória da sinceridade e do desassombro na arte de governar. Consequentemente, para nós, renovadores, tão elucidativo é o exemplo do fascismo, como o exemplo do bolchevismo.
De resto, é como o considera Mons. Seipel. E caracterizando o eminente estadista e virtuoso sacerdote o sistema ditatorial que se experimenta mais ou menos em toda a parte contra os vícios e insuficiências da Democracia, eis como ele se pronuncia ainda: «É este regime (o da ditadura) um regime em que se substitui a vontade da maioria pela vontade de alguns homens de vontade e de energia... A ditadura não se suporta somente por medo, mas porque se sente a necessidade de uma mão forte e se prefere o império de uma vontade clara à tortuosidade de uma democracia infrutuosa. Nem o bolchevismo nem a ditadura são sistemas ideais, nem a melhor forma que poderemos encontrar para a democracia. Mas tanto o bolchevismo como a ditadura nos demonstram que o governo de todos será substituído pelo império de poucos, responsáveis ante a coletividade. Não é a forma que decide, senão o pensamento e a substância.»
Certamente é o pensamento, é a essência, e não a forma, o que imprime natureza e direção. Das agitadas combinações em que a Europa se debate depois da guerra, o que resulta já bem visível, já bem palpável, é esse apelo para uma vontade responsável e definida que confira consciência e personalidade à acefalia e ao anonimato do Estado democrático. Podem fracassar aqui e além, momentaneamente, ou com Mussolini, ou com Mons. Seipel, ou com o general Primo de Rivera, tais prefigurações – consinta-se o emprego do termo! – da nova ordem, da ordem por vir. A nova ordem – a ordem por vir – não brotará de um jato das entranhas enfermas da sociedade, tal como Minerva, armada de casco e lança, brotou da cabeça de Júpiter. Só cérebros simplistas acreditarão na possibilidade de uma mutação rápida de cenário, como num lance aparatoso de mágica. Possuamo-nos desta verdade incontestável e, integrando-nos no plano de Deus, não queiramos, num ridículo e ilusório orgulho, resolver de um instante para o outro, ou a golpes insensatos de reformas, ou por meio de qualquer cruenta cavalhada revolucionária, a sorte de um povo, o destino de uma civilização! O rumo dos acontecimentos já nós sabemos onde nos leva: ou ao caos, se não reagirmos ou se reagirmos mal, ou ao governo das «elites», visto que, na aguda reflexão de René Johannet, para os povos não há senão um imenso e único problema – o problema das «elites».
Mas não nos entreguemos passivamente à miragem, ou ao fetichismo das «elites»! É urgentíssimo, como assinalámos, promover a preparação dessas «elites». Não nos abandonemos também, nem ao critério errado da «organização», nem à idolatria da técnica. Urge que o homem se «realize» totalmente – e tal realização só lhe é possível por influxo e graça especial da lei do Espírito. Se a «cultura superior», se a «cultura desinteressada», nos aparece assim como fundamental, não nos aparece com papel menos preponderante a «piedade», como modeladora e ordenadora das decaídas potências da alma. Um dos grandes benefícios prestados pelo Cristianismo à civilização é esse de, em cada homem, suscitar um como que resumo da humanidade. Não é deste modo indiferente a distinção entre «pessoa» e «indivíduo», que da filosofia da Escola trazemos para o campo da história, a fim de melhor se destacar que todas as culturas e todas as épocas, baseadas na «vontade», são culturas e épocas individualistas, subtrativas, logicamente, em relação ao todo humano, porque se baseiam no que no indivíduo é mais facilmente «animal», mais facilmente «instintivo», mais facilmente anárquico e flutuante. Ao inverso, são «aditivas», são «continuadoras», e «condensadoras» as culturas e as épocas que se fundam, não no «indivíduo», mas na «pessoa», sinónima, no seu valor transitório, de «género-humano», de «humanidade». O segredo, a resistência e, porque não dizer, a «eternidade» da civilização ocidental é onde residem. Diminuída hoje, porque o indivíduo, a domina e enfraquece, da inteligência à economia, da sensibilidade ao entendimento. Rediviva amanhã, se a pusermos outra vez em contacto com as suas fontes originais – fontes ocultas e sempre moças.
Para tanto carecemos nós – os que nos damos à consideração das «causas» e «efeitos», de nos reconciliarmos, sem perda de um instante, com o Ser – com a violência e desprezada objetividade. Ensina-nos Santo Tomás, a cujo patrocínio nos confiamos, que a verdade não é mais que a «adaequatio intellectus et rei» – o consórcio da inteligência com a realidade. Ao consórcio de inteligência com a realidade precisam de se submeter, modesta, mas vitalizadoramente, os que em Portugal se devotaram à cruzada da salvação nacional. Só assim uma «elite» se produzirá e educará – «elite» sem a qual a reação que «inevitavelmente», mais hoje, mais amanhã, há-de irromper das reservas últimas da coletividade, pronto se perderia na inconsequência e no improviso das já desastradamente provadas «restaurações políticas». Convençamo-nos, pois, de que a questão portuguesa não é separável da questão europeia, de que a crise que o nosso país atravessa é a crise que atravessa a civilização ocidental. Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem! O drama vem de mais longe e o seu conflito é bem mais patético. De um lado a Matéria com o seu cortejo de «conservadores» e de «radicais», adorando o mesmo deus, o Oiro omnipotente e aliciante. Do outro lado o Espírito, contrapondo-lhe o inefável sorriso da primeira alvorada do mundo, da alvorada inigualável da Criação.
No revolto laboratório, o Futuro se delineia e afeiçoa. Delineia-o e afeiçoa-o o simultâneo labor de destruição e de renovação, em que temos o nosso papel, a nossa ação. Acendamos a lâmpada do estudo, e invoquemos a Jesus, Pai dos Séculos, Pastor das Nações. E é já poeira do túmulo, pobre cadáver ambulante, aquele que, à glória intraduzível de ser um antecipado, preferir jazer no charco em companhia das rãs, coaxando a miséria insolente da sua irracionalidade!...
1924.
[ negritos acrescentados ]
Mas o que se deve entender, o que entendemos nós por «crise»? Igual interrogação se fazem todos os que na hora presente têm em consciência a responsabilidade do futuro – ou manejem uma pena ou afaguem uma espada. Igual pergunta se faz a si próprio René Johannet, autor desse livro, bem discutível por certo, mas forte de energia, tão rico de apelo à ação – Éloge du bourgeois français. «Moment périlleux et décisif, dit fort bien Littré» – regista René Johannet a respeito do que seja uma «crise». «Périlleux, c’est-à-dire, autour duquel se joue le tout pour le tout.» E o autor do Éloge de bourgeois français, procurando definir a sua preocupação, remata concludentemente: «Voilà les développements naturels que comporte la définition de Littré, qui est la définition classique.» Uma «crise» não é, pois, uma dificuldade passageira, uma contrariedade fugitiva na marcha das coisas públicas ou dos negócios governativos. Se uma das piores gafas dos sistemas democráticos é a «vulgarização» excessiva, é a «facilitação» deprimente a que obriga tudo, na bastardia dos vocábulos e no uso indecoroso a que o verbalismo dos tribunos e dos sicofantas lhes sujeitam e entortam o significado, vai-se-lhes a natural nobreza, a natural propriedade, a ponto de se tornarem fórmulas vagas, expressões unicamente auditivas. Tal acontece com o termo «crise», inteiramente desonrado pela gíria dos políticos profissionais e de seus compadres, os senhores que, a tanto por opinião, escrevem «artigos» nas gazetas.
Impõe-se assim a necessidade de a tudo se restituir o seu valor, de a tudo se restituir o seu lugar e o seu sentido. Restituamos, pois, à palavra «crise» a sua perdida dignidade! Se ela traduz, na verdade, um instante «perigoso e decisivo», um instante em que o risco de se ser vencido é igual ao risco de total subversão, não há dúvida que Portugal se encontra em «crise», porque se encontram em completa negação as suas mais íntimas razões de ser, os motivos mais fortes da sua velha existência histórica.
Mas o fenómeno, cujos efeitos dominadores e progressivos com angústia constatamos, não é um fenómeno doméstico, de natureza exclusivamente nacional. Se lhe bosquejarmos a densa árvore genealógica, sem custo se verificará que as suas raízes são as raízes do mal profundo, do mal já mais que secular, em que a ideia solidária de «Europa» se vem assustadoramente desfazendo. O minuto extremo, aquele em que a «crise» atinge a plenitude e se resolve, numa direção ou noutra, é, porém, o minuto que corre. Mas de que estranha enfermidade, de que herança perniciosa recolhemos as consequências? Não é inútil repeti-lo! São os frutos de um largo e irreprimido individualismo, que, revelando-se primeiro com a Reforma na dissidência religiosa, se revelou com a Revolução Francesa na quebra da unidade moral por que cada pátria se regia e alimentava.
Como os do Proteu mitológico, vários são os aspetos do Individualismo, múltiplas e imprevistas as suas formas. Mas, sem dúvida, a sua obra mais nefasta foi a que, em nome de uma ilusória «liberdade intelectual», operou nos domínios da Inteligência propriamente dita. Levando-a às emboscadas do puro subjetivismo, levando-a à rutura com a objetividade e, portanto, com a essência inalterável do Ser, expulsou o «absoluto» da vida humana, para o substituir, numa evidente diminuição da nossa personalidade, pelas traiçoeiras, ainda que sorridentes seduções do chamado intelectualismo, da chamada «filosofia moderna». Desprezadas desta maneira a lição e a experiência dos séculos, os homens rolaram de quimera para quimera, de utopia para utopia, entregues cegamente ao canto hipócrita das sereias que, prometendo-lhes a ambicionada emancipação, a posse apetecida dos frutos da árvore de Todo-o-Saber, só os trouxeram, afinal, aos parapeitos do abismo, em que, suspensa da sua túnica bordada de castelos e catedrais, a grande madre Europa, se alonga um passo adiante, não tardará a precipitar-se.
Não nos quedaremos aqui em demorados exames de consciência. Mas, apontando como a tara pior do Individualismo a sinistra perversão da Inteligência, diabolicamente efetivada por ele, o nosso fim é salientar a urgência de condicionar toda a ação reconstrutora por um labor constante de retificação mental. Para que a «crise» assumisse quase as raias de catástrofe sem remédio, abriu-lhe o caminho, facilitou-lhe o andamento, o trabalho de dissociação criticista, em que, a partir principalmente do século XVIII, a Inteligência, prostituindo-se, se empenhou afincadamente. Preparando o advento de uma barbárie sem nome, era, no fim de contas, o seu suicídio que a Inteligência preparava. Apercebeu-se ela da sorte que a esperava nas alamedas da Cidade-Nova, a tempo de poder reagir, já com a lei do Número ululando, como um monstro de mil cabeças, contra a lei do Espírito, eterna lei libertadora, a lei pela qual o homem, se aceita e serve, é implicitamente colaborador de Deus na obra incessante da criação.
Saudando no prólogo do seu livro, já citado, o Ditador que há-de surgir para agrupar e coordenar os valores dispersos, mas diligentes, de que a França hodierna regurgita, cheia, escreve René Johannet: «Il n’y a jamais pour les peuples qu’un seul et immense problème, qui ne s’interrompt pas une minute et ne cesse de se transformer: le problème des élites». Efetivamente, o problema imenso, o único problema a que, no fundo, se reduzem as agitadas questões do nosso mundo, do desgarrado mundo ocidental, é um problema de «elites», um problema de «aristocracia» (ressuscitando e reabilitando a velha designação), é um problema de puros elementos condutores, de minorias renovadoras, que se sobreponham energicamente às apáticas, quando não subtrativas, quando não parasitárias, «classes dirigentes» das mentiras convencionais do nosso tempo. Se, como reconhecemos, a sociedade morre por carência de atividades que a estimulem na luta que é imperioso manter contra os agentes que afanosamente a desfibram e decompõem, para onde apelar, a não ser para a «seleção positiva», visto que a seleção pretensamente igualitária da Democracia só gerou o predomínio das cegas forças materiais sobre o claro sorriso de Minerva – sobre a imarcescível Flor-de-Lis, que é o brasão de tudo quanto, em nome do Espírito, se oponha à tirania grosseira do Oiro e do Número? Mas como suscitar essas «elites», como promover a sua floração, o seu desenvolvimento?
Decerto que, nas próprias reservas da sociedade, o seu gérmen existe latente. O que carecemos é de moldes, é de instituições que naturalmente promovam a sua gestação e as amparem depois no crescimento, facilitando-lhes a detenção do Poder e com ela a direção da vida social. Se a «aristocracia», se a «elite» não dispõe de nenhuma formação ética e mental, irrecusavelmente que se volve depressa em casta absorvente, em oligarquia sequiosa dos mil e um prazeres derivados do desfruto do mando. Se mandar é um «fim» e não um «meio», a elite» não é «elite», porque não corresponde à sua dupla função criadora e escalonadora. Iludem-se, por isso, os que, aferrados a um arcaico e desprezível conservantismo, imaginam que o repouso da sociedade e o seu ingresso no desejado equilíbrio se limita apenas a uma simples operação de carácter policial, a um mero restabelecimento militar da ordem. A «ordem» em si pode até ser a «ordem» do bolchevismo, pode até ser a ordem que existe nos próprios Infernos, porque no Inferno existe uma «ordem», como Dante no-lo assinala, a Teologia no-lo ensina e agudamente Jacques Maritain nos acentua no seu Anti-moderne.
Acabemos com tão estéril como anuladora superstição, a superstição da Ordem! Naturalmente que a ordem é condição essencial da vida. Mas não é a Ordem que gera a Vida, e sim a Vida que gera a Ordem. À Ordem, ditada pelo ritmo sagrado da Vida, nos devemos dirigir. E outra não é senão a Ordem, fundada e inspirada numa ordem mais profunda e mais real – a do império imprescritível do Espírito.
Pense-se o que se pensar, braceje-se o que se bracejar, o dilema está nitidamente enunciado: a Ordem, sinónimo de civilização, só se restaurará pelos mesmos princípios porque, nos horizontes já brumosos da história, um dia foi possível. Sem a plena instauração de tais princípios, o Caos voltará a soltar o seu rugido infrene, voltará a negra confusão primitiva. E nesta altura prevenimos que, amando cada vez mais a expressão directa e sóbria, não nos achamos aqui esboçando apocalipses, com tanto de ridículas como de enfáticas! No duelo tremendo em que se emaranham os instintos mais ocultos da sociedade com as suas mais belas lucilações, apenas a Igreja mantém a firmeza do seu rochedo, apenas a Igreja que fez a Europa e que salvou do naufrágio do mundo antigo os melhores legados da cultura clássica, nos aponta a estrada segura da vitória e da reconstrução.
Não se esqueceu ainda aquela vigorosa página de Taine, no Ancien régime, quando o filósofo, resumindo o pandemónio violentíssimo da grande noite medieval, com as invasões passando e repassando, nos coloca diante dos olhos a solicitude quase divina dos monges e dos bispos, tirando de tantos escombros fumegantes os lineamentos de uma nova idade de paz, de trabalho e de fraternidade. Graças ao clero, graças à Igreja, as vontades se somaram, as dedicações se hierarquizaram, as inteligências exploraram as veredas obstruídas do conhecimento e da meditação, e de tão aplicada e evangélica tarefa resultou uma «ordem» que, no dizer de Taine, «a empêché l’Europe de devenir une anarchie mongole». Ameaçada de novo a Europa de cair, de mergulhar, e talvez irreparavelmente, numa como que «anarquia mongol», à «ordem cristã» necessitamos de nos devolver, porque só na ordem cristã» o homem deixa de ser «indivíduo» para se tornar «pessoa» – porque só na «ordem cristã» o homem, de quantidade errática e centrífuga, se transforma em parcela aditiva, em fecundo elemento ativo, dentro da continuidade admirável das gerações.
«Revolta do ser contra a espécie» – eis como Augusto Comte classificou o individualismo revolucionário. Revolucionário, não porque ele date da Revolução Francesa, não porque ele descenda do grito rebelde de Lutero, mas porque, acompanhando-lhe a linhagem ao arrepio dos tempos, vai diretamente entroncar no «Non serviam!» eterno de Satanás. Pois «revolta do ser contra a espécie», o individualismo revolucionário, tão seguramente sintetizado na frase epigráfica de Comte, é a negação da Liberdade que, sem a Autoridade, é mito vão, é fantasma irónico e nunca possuído. Obedecendo tão-somente às solicitações inferiores da nossa contraditória humanidade, o que pretende é pôr no trono a besta semi-desperta que habita nas criptas, tão povoadas como misteriosas, de cada um de nós. Ora se paramente com a refulgência dominadora do Bezerro-de-Oiro, ou, numa sinceridade estorcionada de manicómio, erija altares a ídolos que têm boca e não falam, que têm olhos e não veem – como reza a letra do Salmo –, não há disfarce que esconda ou evite a regressão pavorosa a que o homem se condena, quando entregue exclusivamente a si próprio. Pondera a propósito Jacques Maritain: «Fondé sur les deux principes contre-nature de la fécondité de l’argent et de la finalité de l’utile, multipliant sans aucun terme possible les besoins et la servitude, détruisant le loisir de l’âme, soustrayant le factible matériel à la régulation qui le proportionnait aux fins de l’être humain, et imposant à l’homme le halètement de la machine et le mouvement accéléré de la matière, le monde moderne imprime à l’activité humaine un mode proprement diabolique, car le but final de tout ce délire est d’empêcher l’homme de se souvenir de Dieu...» Falar em Deus, é falar no Espírito, e o que é progredir, racionalmente entendido, o que é «civilizar» senão elevar a Matéria ao Espírito, reintegrar a Criatura no Criador?
«Progresser... c’est... passer du sensible au rationnel et du rationnel au spirituel et du moins spirituel au plus spirituel; civiliser c’est spiritualiser» – salienta ainda Jacques Maritain. Mas o que se toma hoje por «civilizar»? Toma-se, precisamente, a operação inversa – ou seja, a diminuição crescente do «espiritual», em manifesto e absorvente proveito do «material». Ora, à claridade de tais reflexões, se torna urgente para nós assentar o que convém dizer-se por «elites». Na perversão do conceito de «civilização», confundiu-se esta, de uma maneira absurda, com um dos seus aspetos, indubitavelmente dos mais tangíveis, mas por certo dos menos vitalizadores – o da «técnica». A alta cultura, a cultura desinteressada, perdeu o seu prestígio, e quando, porventura, subsista num ponto ou noutro, subsiste desnaturada pela avariose filosófica dos últimos dois séculos. Se, na realidade, nos anima o fervente desejo de assegurarmos posições para defesa do tipo de humanidade que o Ocidente recebeu do Cristianismo, impõe-se-nos a obrigação indeclinável de rever e de retificar esse juízo corrente de «elite».
Escolhendo para tema de um seu notabilíssimo discurso as «tendências intelectuais predominantes no mundo», assim se exprimiu Mons. Seipel, o eminente chanceler austríaco: «A tendência predominante na época que antecedeu a guerra era a exaltação da técnica, da organização, da democracia... A ciência do pensamento caíra em completo descrédito, porque a ‘técnica’ criava tantas comodidades que ninguém supunha possível o viver-se sem ela. A ‘organização’ foi a aplicação desta ideia predominante de ‘técnica’ aos grupos humanos. A força isolada é impotente e daqui a necessidade de congregar esforços para se alcançar os efeitos correspondentes às aspirações de maior ‘bem-estar’. Insurgiu-se Mons. Seipel contra a organização, no sentido exclusivamente numérico com que se pratica. Os próprios efectivos católicos padeceram as influências funestas de tão grosseiro equívoco. «Hoje nas nossas organizações buscamos, mais que o número, o valor moral e a perfeição interna dos seus membros» – acrescentou Mons. Seipel. O vento faz cair as folhas sêcas e as árvores só se beneficiam com isso. Não desprezamos a organização, mas cultivamos o espírito com mais cuidado que o organismo, preferindo a minoria selecta ao recrutamento em massa, que, incontestavelmente, é imprescindível, mas que não pode utilizar-se sem a primeira.
Eis francamente enunciado o problema da formação e da função das «elites». Em reforço das suas afirmações, aludiu também o ilustre e virtuoso chanceler austríaco aos exemplos que salutarmente o bolchevismo nos oferece. A noção vigente e legal da Democracia recebeu do bolchevismo o golpe decisivo, porque nos veio demonstrar como uma minoria compacta conseguiu desencadear tamanha comoção social. É oportuno documentar agora a opinião de Mons. Seipel com as impressões do conhecido político espanhol D. Francesc Cambó. «De todas las revoluciones triunfantes ocurridas en Europa en los últimos años – escreve ele–, las únicas sobre las cuales se ha concentrado la atención del mundo entero han sido la revolución bolchevista y la revolución fascista... El que no ve, presiente que lo que ha tenido lugar en Italia y Rusia no interesa sólo a los rusos y a los italianos, sino que interesa al mundo entero y tiene un valor universal.» Porquê?
Porque tanto o bolchevismo, como o fascismo, «representan, en su aspecto negativo, la exposición del fracaso de todo el sistema político y de toda la ideología democrática y humanitaria que imperaba en Europa hacía casi un siglo al estallar la guerra, y en su aspecto positivo, vienen a ser un encargo, un tanteo, en busca de las nuevas fórmulas para encuadrar y dirigir las funciones estatales». E Cambó agrega: «El bolchevismo y el fascismo son, francamente, lealmente, antidemocráticos. Reniegan de la soberanía popular y adjudican el gobierno a las minorías que, por su audacia, por su fuerza, por su heroísmo, han conquistado el derecho de gobernar a los demás... Tanto en Rusia como en Italia – prossegue Cambó – ha quedado de manifiesto que los progresos de la humanidad son más superficiales que lo que nuestra vanidad se complace en creer y afirmar: hoy, como en los comienzos más lejanos de la historia, el valor personal, el esfuerzo heroico, es el que triunfa y constituye la base esencial del Poder... Uno y otro movimiento expresan su menosprecio por el sufragio universal y por las instituciones parlamentarias... Tanto en Rusia como en Italia se gobierna hoy, no en nombre de todo el pueblo, según quería la ideología democrática, sino en nombre de un partido, llegado al Poder proclamando un ideal y por el camino del esfuerzo heroico y cruento.» E Cambó remata: «Podrá pensarse lo que se quiera de los sistemas políticos que imperan en Rusia y en Italia, pero es preciso confesar que su exposición es de una franqueza, como no se encontraba ni por azar, en las expresiones tal vez decadentes, tal vez rudimentarias, de la caricatura abyecta del régimen parlamentario, en que vivían, en que viven todavía algunos países, donde también gobierna una minoría que llegó al Poder por la intriga y en el se mantiene por la ineficacia y por la claudicación.»
Do depoimento, tão significativo, de Cambó se deduz, afinal, aquilo que é um facto insofismável – o Poder é sempre uma ditadura, consistindo apenas as diferenças que o hajam de distinguir na forma como essa ditadura se exerce, se em benefício, se em detrimento da coletividade. Tombaríamos assim na justificação terminante das teorias de Duguit, se à razão objetiva do Poder não adicionássemos para com os seus titulares um elemento de natureza moral ou subjetiva: a legitimidade. Despidas dos seus revestimentos históricos, a legitimidade do Poder resume-se em garantir na sequência do seu exercício o bem da comunidade. Se o Poder se adquire ou ganha como um «fim», surge logicamente a tirania, ou disfarçada em ficções legalistas, ou assumindo o carácter franco de um aberto ato de conquista. Como é uma minoria que inevitavelmente o detém e exerce, a casta aparece, ou saída da força, ou gerada pela hipocrisia dos convencionalismos jurídicos. A segunda hipótese é a hipótese vulgar e nauseabunda das democracias, oprimindo e desvirtuando o ritmo social debaixo da opressão anónima dos partidos e dos parlamentos. A primeira hipótese, essa, é a da Rússia, e ainda a da Itália. Reações vigorosas contra a decomposição engendrada na alma dos povos pelo narcótico individualista, a experiência russa, produzida em nome das teorias de Karl Marx – um judeu alemão – num terreno mal europeizado, em que a sonolência asiática amolenta o sentir da maioria, só vale para nós como o sinal evidente de que quem dirige e governa é sempre um grupo de homens reduzido, desde que os unifique uma ideologia ou mentalidade comum. Mais orgânico, mais inspirado nas razões claras do Ocidente, o ensaio governativo de Mussolini descobre-nos o lado positivo do fenómeno que, em termos opostos, a Rússia fornece à nossa meditação. É à morte da Democracia a que assistimos, é à vitória da sinceridade e do desassombro na arte de governar. Consequentemente, para nós, renovadores, tão elucidativo é o exemplo do fascismo, como o exemplo do bolchevismo.
De resto, é como o considera Mons. Seipel. E caracterizando o eminente estadista e virtuoso sacerdote o sistema ditatorial que se experimenta mais ou menos em toda a parte contra os vícios e insuficiências da Democracia, eis como ele se pronuncia ainda: «É este regime (o da ditadura) um regime em que se substitui a vontade da maioria pela vontade de alguns homens de vontade e de energia... A ditadura não se suporta somente por medo, mas porque se sente a necessidade de uma mão forte e se prefere o império de uma vontade clara à tortuosidade de uma democracia infrutuosa. Nem o bolchevismo nem a ditadura são sistemas ideais, nem a melhor forma que poderemos encontrar para a democracia. Mas tanto o bolchevismo como a ditadura nos demonstram que o governo de todos será substituído pelo império de poucos, responsáveis ante a coletividade. Não é a forma que decide, senão o pensamento e a substância.»
Certamente é o pensamento, é a essência, e não a forma, o que imprime natureza e direção. Das agitadas combinações em que a Europa se debate depois da guerra, o que resulta já bem visível, já bem palpável, é esse apelo para uma vontade responsável e definida que confira consciência e personalidade à acefalia e ao anonimato do Estado democrático. Podem fracassar aqui e além, momentaneamente, ou com Mussolini, ou com Mons. Seipel, ou com o general Primo de Rivera, tais prefigurações – consinta-se o emprego do termo! – da nova ordem, da ordem por vir. A nova ordem – a ordem por vir – não brotará de um jato das entranhas enfermas da sociedade, tal como Minerva, armada de casco e lança, brotou da cabeça de Júpiter. Só cérebros simplistas acreditarão na possibilidade de uma mutação rápida de cenário, como num lance aparatoso de mágica. Possuamo-nos desta verdade incontestável e, integrando-nos no plano de Deus, não queiramos, num ridículo e ilusório orgulho, resolver de um instante para o outro, ou a golpes insensatos de reformas, ou por meio de qualquer cruenta cavalhada revolucionária, a sorte de um povo, o destino de uma civilização! O rumo dos acontecimentos já nós sabemos onde nos leva: ou ao caos, se não reagirmos ou se reagirmos mal, ou ao governo das «elites», visto que, na aguda reflexão de René Johannet, para os povos não há senão um imenso e único problema – o problema das «elites».
Mas não nos entreguemos passivamente à miragem, ou ao fetichismo das «elites»! É urgentíssimo, como assinalámos, promover a preparação dessas «elites». Não nos abandonemos também, nem ao critério errado da «organização», nem à idolatria da técnica. Urge que o homem se «realize» totalmente – e tal realização só lhe é possível por influxo e graça especial da lei do Espírito. Se a «cultura superior», se a «cultura desinteressada», nos aparece assim como fundamental, não nos aparece com papel menos preponderante a «piedade», como modeladora e ordenadora das decaídas potências da alma. Um dos grandes benefícios prestados pelo Cristianismo à civilização é esse de, em cada homem, suscitar um como que resumo da humanidade. Não é deste modo indiferente a distinção entre «pessoa» e «indivíduo», que da filosofia da Escola trazemos para o campo da história, a fim de melhor se destacar que todas as culturas e todas as épocas, baseadas na «vontade», são culturas e épocas individualistas, subtrativas, logicamente, em relação ao todo humano, porque se baseiam no que no indivíduo é mais facilmente «animal», mais facilmente «instintivo», mais facilmente anárquico e flutuante. Ao inverso, são «aditivas», são «continuadoras», e «condensadoras» as culturas e as épocas que se fundam, não no «indivíduo», mas na «pessoa», sinónima, no seu valor transitório, de «género-humano», de «humanidade». O segredo, a resistência e, porque não dizer, a «eternidade» da civilização ocidental é onde residem. Diminuída hoje, porque o indivíduo, a domina e enfraquece, da inteligência à economia, da sensibilidade ao entendimento. Rediviva amanhã, se a pusermos outra vez em contacto com as suas fontes originais – fontes ocultas e sempre moças.
Para tanto carecemos nós – os que nos damos à consideração das «causas» e «efeitos», de nos reconciliarmos, sem perda de um instante, com o Ser – com a violência e desprezada objetividade. Ensina-nos Santo Tomás, a cujo patrocínio nos confiamos, que a verdade não é mais que a «adaequatio intellectus et rei» – o consórcio da inteligência com a realidade. Ao consórcio de inteligência com a realidade precisam de se submeter, modesta, mas vitalizadoramente, os que em Portugal se devotaram à cruzada da salvação nacional. Só assim uma «elite» se produzirá e educará – «elite» sem a qual a reação que «inevitavelmente», mais hoje, mais amanhã, há-de irromper das reservas últimas da coletividade, pronto se perderia na inconsequência e no improviso das já desastradamente provadas «restaurações políticas». Convençamo-nos, pois, de que a questão portuguesa não é separável da questão europeia, de que a crise que o nosso país atravessa é a crise que atravessa a civilização ocidental. Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem! O drama vem de mais longe e o seu conflito é bem mais patético. De um lado a Matéria com o seu cortejo de «conservadores» e de «radicais», adorando o mesmo deus, o Oiro omnipotente e aliciante. Do outro lado o Espírito, contrapondo-lhe o inefável sorriso da primeira alvorada do mundo, da alvorada inigualável da Criação.
No revolto laboratório, o Futuro se delineia e afeiçoa. Delineia-o e afeiçoa-o o simultâneo labor de destruição e de renovação, em que temos o nosso papel, a nossa ação. Acendamos a lâmpada do estudo, e invoquemos a Jesus, Pai dos Séculos, Pastor das Nações. E é já poeira do túmulo, pobre cadáver ambulante, aquele que, à glória intraduzível de ser um antecipado, preferir jazer no charco em companhia das rãs, coaxando a miséria insolente da sua irracionalidade!...
1924.
[ negritos acrescentados ]
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(*)
"Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!" [...]... "Desinserida do texto a que pertence, isolada, desligada do sentido que ditou o artigo, e que o autor lhe deu, esta frase tem sido comentada num ponto de vista falso e negativo, e sobre ela se tentou especular a ponto de se querer interpretá-la como um desabafo de cepticismo, se não de descrença. Mas nada mais errado e injustificado! António Sardinha debatia-se contra a mentalidade dos monárquicos da Carta Constitucional que pretendiam simplesmente destituir um presidente para re-entronizar o rei — o inverso do que quiseram e fizeram os republicanos de 1910, que foi substituir o rei por um presidente — convencidos de que a única mudança na chefia do Estado transformaria radicalmente as coisas, como por encanto."... - Mário Saraiva, in Uma frase de António Sardinha
Dias depois de ter publicado esta página, reproduzindo o texto "Adiante, por sobre os cadáveres!" de António Sardinha, e de ter inserido a chamada de atenção de Mário Saraiva para uma prática comum na literatura capciosa acerca do Integralismo Lusitano - a truncagem e descontextualização das citações - eis que me chega às mãos um texto de Rui Ramos em que ele se junta aos falsários referidos por Saraiva em 1987; ver Rui Ramos, "A república dos monárquicos", Crítica XXI, nº 12, Setembro de 2025, página 94. O texto de Rui Ramos, além do tom acintoso usado ao referir-se aos integralistas, contém a famosa truncagem do pensamento de António Sardinha. As referências ao grupo da Seara Nova e à participação dos integralistas na efémera revista Homens Livres - Livres da Finança e dos Partidos - merecem também correção: Hipólito Raposo e Pequito Rebelo são aí apresentados como "colaboradores" naquela revista, mas não tiveram efectiva colaboração, ao contrário do que Rui Ramos refere, e por um motivo: o texto submetido por Hipólito Raposo não passou na censura interna da revista. Nas suas Memórias, Hipólito Raposo explicou que não chegou a participar por lhe ter sido recusada a publicação de um artigo intitulado "Nos liberi sumus" (Nós somos livres), em que combatia a personalidade política e moral do presidente da República, Manuel Teixeira Gomes [vide Folhas do Meu Cadastro, 1945, pp. 234-235]. O projecto constitucional que vinha sendo defendido pelo grupo da Seara Nova - prevendo duas câmaras: câmara de partidos e câmara corporativa - veio a ser o modelo aplicado no Estado Novo de Oliveira Salazar, em 1933, embora sob forte influência e inspiração do fascismo de Benito Mussolini que, desde o referendo de 1929, passara a funcionar em regime de partido único. Em 1922, Mussolini tomou legalmente o poder e foi ainda em regime pluripartidário que venceu as eleições de Abril de 1924. A ditadura fascista a que Rui Ramos se refere só começou a tomar forma em 1925, ao serem publicadas as primeiras "leggi fascistissime", alguns meses após a morte de António Sardinha. - J. M. Q. - 07.10.2025
"Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!" [...]... "Desinserida do texto a que pertence, isolada, desligada do sentido que ditou o artigo, e que o autor lhe deu, esta frase tem sido comentada num ponto de vista falso e negativo, e sobre ela se tentou especular a ponto de se querer interpretá-la como um desabafo de cepticismo, se não de descrença. Mas nada mais errado e injustificado! António Sardinha debatia-se contra a mentalidade dos monárquicos da Carta Constitucional que pretendiam simplesmente destituir um presidente para re-entronizar o rei — o inverso do que quiseram e fizeram os republicanos de 1910, que foi substituir o rei por um presidente — convencidos de que a única mudança na chefia do Estado transformaria radicalmente as coisas, como por encanto."... - Mário Saraiva, in Uma frase de António Sardinha
Dias depois de ter publicado esta página, reproduzindo o texto "Adiante, por sobre os cadáveres!" de António Sardinha, e de ter inserido a chamada de atenção de Mário Saraiva para uma prática comum na literatura capciosa acerca do Integralismo Lusitano - a truncagem e descontextualização das citações - eis que me chega às mãos um texto de Rui Ramos em que ele se junta aos falsários referidos por Saraiva em 1987; ver Rui Ramos, "A república dos monárquicos", Crítica XXI, nº 12, Setembro de 2025, página 94. O texto de Rui Ramos, além do tom acintoso usado ao referir-se aos integralistas, contém a famosa truncagem do pensamento de António Sardinha. As referências ao grupo da Seara Nova e à participação dos integralistas na efémera revista Homens Livres - Livres da Finança e dos Partidos - merecem também correção: Hipólito Raposo e Pequito Rebelo são aí apresentados como "colaboradores" naquela revista, mas não tiveram efectiva colaboração, ao contrário do que Rui Ramos refere, e por um motivo: o texto submetido por Hipólito Raposo não passou na censura interna da revista. Nas suas Memórias, Hipólito Raposo explicou que não chegou a participar por lhe ter sido recusada a publicação de um artigo intitulado "Nos liberi sumus" (Nós somos livres), em que combatia a personalidade política e moral do presidente da República, Manuel Teixeira Gomes [vide Folhas do Meu Cadastro, 1945, pp. 234-235]. O projecto constitucional que vinha sendo defendido pelo grupo da Seara Nova - prevendo duas câmaras: câmara de partidos e câmara corporativa - veio a ser o modelo aplicado no Estado Novo de Oliveira Salazar, em 1933, embora sob forte influência e inspiração do fascismo de Benito Mussolini que, desde o referendo de 1929, passara a funcionar em regime de partido único. Em 1922, Mussolini tomou legalmente o poder e foi ainda em regime pluripartidário que venceu as eleições de Abril de 1924. A ditadura fascista a que Rui Ramos se refere só começou a tomar forma em 1925, ao serem publicadas as primeiras "leggi fascistissime", alguns meses após a morte de António Sardinha. - J. M. Q. - 07.10.2025