António Sardinha
A Aliança Peninsular
Antecedentes & Possibilidades
... um Portugal enclausurado na sua estreita faixa atlântica, preocupa-nos deveras e é a realidade sobre a qual incidimos a todo o instante a nossa meditação, visto ser o aspecto mais grave de que o futuro nacional se reveste para nós.
António Sardinha, 1917.
António Sardinha, 1917.
1ª edição - 1924
A Aliança Peninsular proposta por António Sardinha, em 1924, parte de uma ideia-chave: para preservar uma comum civilização hispânica, personalista e comunitária, distinta da civilização individualista e materialista europeia e norte-americana, impõe-se uma aproximação entre Portugal, Espanha, e as novas nações a que deram origem nas Américas. A verdadeira força dos povos hispânicos reside na solidariedade histórica, cultural e espiritual, capaz de restaurar a sua relevância mundial diante da dispersão interna e das ameaças externas.
Em A Aliança Peninsular, por via de uma análise histórico-cultural e política, Sardinha defende que a grandeza histórica de Portugal e Espanha reside no dualismo político que marcou as suas relações ao longo dos séculos. Esse dualismo político, longe de significar antagonismo, é visto como fonte de equilíbrio e de força, permitindo a cooperação que projetou ambos os países no cenário internacional, especialmente durante os Descobrimentos e Expansão Ultramarina. Sardinha rejeita tanto os antagonismos nacionalistas quanto os imperialismos materiais, defendendo o Hispanismo como um projeto universalista fundamentado em valores espirituais e culturais comuns. A cooperação peninsular, inaugurada pela Dinastia de Avis, é apresentada como modelo político para o futuro das relações entre os dois Reinos peninsulares.
Em A Aliança Peninsular, por via de uma análise histórico-cultural e política, Sardinha defende que a grandeza histórica de Portugal e Espanha reside no dualismo político que marcou as suas relações ao longo dos séculos. Esse dualismo político, longe de significar antagonismo, é visto como fonte de equilíbrio e de força, permitindo a cooperação que projetou ambos os países no cenário internacional, especialmente durante os Descobrimentos e Expansão Ultramarina. Sardinha rejeita tanto os antagonismos nacionalistas quanto os imperialismos materiais, defendendo o Hispanismo como um projeto universalista fundamentado em valores espirituais e culturais comuns. A cooperação peninsular, inaugurada pela Dinastia de Avis, é apresentada como modelo político para o futuro das relações entre os dois Reinos peninsulares.
ÍNDICE
- Assentando posições (conversa preliminar) - António Sardinha apresenta o seu livro A Aliança Peninsular com reflexões sobre a relação histórica dos portugueses com o Hispanismo, argumentando que a verdadeira força da Península está no dualismo harmonioso entre Portugal e Espanha, ilustrado por episódios históricos e figuras femininas simbolizando o entendimento entre os dois Estados, como Santa Isabel, Dona Joana de Áustria, Dona Bárbara de Bragança. O futuro da civilização ocidental assenta no equilíbrio e colaboração entre os Reinos de Portugal e de Espanha.
- A unidade hispânica. Análise da importância estratégica do poder naval da Península Ibérica, destacando os planos de Filipe II com a "Invencível Armada", para tentar manter a supremacia marítima contra a Inglaterra. A narrativa de António Sardinha questiona interpretações simplistas da história portuguesa e espanhola, destacando que os projetos militares e as alianças, como o casamento de Filipe II com Maria Tudor, tinham raízes em necessidades políticas e comerciais. O fracasso da Armada marcou o início do declínio da influência peninsular nos mares, sugerindo que a restauração dessa força depende de uma nova convergência estratégica entre Portugal e Espanha.
- O selo da Raça. O lirismo é a marca distintiva da identidade nacional portuguesa.
- Genealogia de uma Ideia. Análise dos projectos de união política de Portugal e Espanha, concluindo que a verdadeira união deve ser sobretudo moral e espiritual, seguindo a tradição da Dinastia de Avis, promovendo o benefício mútuo sem sacrificar as respectivas independências políticas.
- A Pátria Portuguesa. Partindo da influência da estrutura rural e do espírito comunitário dos povos do noroeste da Península Ibérica na formação do lirismo galego-português, é destacado o papel das freguesias e mancomunidades agrícolas na organização social e na diferenciação cultural dos portugueses. Para além das ambições ou acasos históricos, foram os costumes antigos e as resistências locais face às invasões, os principais fatores a sustentar a individualidade histórica e a justificar a separação política entre Portugal e Espanha.
- Sebastianismo e Quixotismo. O Sebastianismo, expressão da esperança e do lirismo português, é contrastado com o Quixotismo castelhano, destacando as diferenças e complementaridades entre as identidades portuguesas e castelhanas na formação da civilização hispânica.
- O lenço de Verónica. A singularidade de Portugal em relação à Espanha, explica-se pelas diferenças geográficas, climáticas e culturais, mas também pelo distinto caráter nacional português, evidenciado na literatura e na história. Observadas as tentativas históricas de união política entre os dois países, António Sardinha conclui que a prosperidade de Portugal e Espanha reside na valorização das autonomias e na cooperação respeitosa, sem fusões artificiais.
- Pecados velhos. O Iberismo e a Monarquia Portuguesa no Século XIX. Uma análise do envolvimento de Portugal e de Espanha nas correntes liberais e maçónicas do século XIX, com especial foco nas tentativas de unificação peninsular sob uma única coroa. São analisadas as motivações, os movimentos políticos e as figuras que marcaram este período, evidenciando as consequências dessas aspirações para a identidade nacional portuguesa.
- Quinas de Portugal. A relação entre Portugal e Espanha sempre foi marcada por esforços de união e períodos de conflito, com ênfase na manutenção da autonomia portuguesa. As figuras femininas da Casa de Bragança desempenharam papéis fundamentais na tentativa de conciliação entre as duas nações. No entanto, a instabilidade política e as influências externas perpetuaram a divisão e o afastamento, condicionando o destino de ambos os países na cena europeia.
- Errata necessária. Análise da influência do lirismo nacional e do francesismo na identidade portuguesa. António Sardinha apela à revalorização do património e da identidade nacionais, defendendo que não existe paralelismo entre Portugal e França, e que a história portuguesa, marcada por ofensas e mutilações, exige uma resposta firme e consciente. A preservação da memória histórica e o reconhecimento dos legítimos direitos portugueses são apresentados como fundamentais para o futuro da nação.
- A 'lenda negra'. Reflexões sobre a Unidade Peninsular, a ‘Lenda Negra’ e o Papel Civilizacional de Portugal e Espanha. Sardinha destaca o papel central de Portugal e Espanha na difusão do Cristianismo, da sua cultura e valores espirituais. O enfraquecimento do Hispanismo teve como consequência a ascensão dos modelos individualistas, capitalistas e materialistas de progresso. Para superar a "lenda negra" criada pelos iluministas a respeito dos hispânicos, impõe-se valorizar a colaboração e a fraternidade entre portugueses e espanhóis para a reactivação da sua comum identidade e missão histórica.
- O que nos divide. Defende que as relações entre Portugal e Espanha, marcadas por conflitos e afinidades, devem ser interpretadas à luz de uma solidariedade peninsular. A experiência histórica demonstra que, mesmo em tempos de domínio castelhano, Portugal preservou a sua autonomia e vitalidade cultural. O hispanismo proposto integra, sem anular, as identidades nacionais, promovendo uma aliança baseada na partilha civilizacional e na projeção global das culturas ibéricas.
- Cabeça de Europa. A superação da decadência peninsular deve ocorrer por meio de uma restauração do espírito hispânico. Apenas uma grande aliança entre os povos hispânicos, fundada em valores históricos e culturais comuns, poderá garantir o seu renascimento e relevância global. A Península Ibérica poderá novamente ser, como sonhou Luís de Camões, não apenas a “cabeça da Europa”, mas a sua salvadora.
- Estaremos decadentes? António Sardinha conclui que não existe uma decadência irremediável dos povos peninsulares. O que há é uma crise de definição e de organização, agravada pela influência de doutrinas exteriores e pela ausência de um princípio superior aglutinador. A restauração da personalidade coletiva e da grandeza histórica depende da criação desse princípio e da reforma profunda do Estado, para que, libertos das teorias do declínio, portugueses e espanhóis possam retomar o seu lugar de destaque na civilização global.
- Se ainda é tempo! A questão de Marrocos está intrinsecamente ligada à sobrevivência e autonomia da Península Ibérica. A presença de uma potência inamistosa num território estratégico como Marrocos representa uma ameaça direta à independência política, económica e militar de Espanha e Portugal. Só uma política de cooperação, aliada à reorganização do poder naval, permitirá às duas nações garantir o seu lugar no cenário internacional, preservando o legado histórico e respondendo aos desafios do futuro.
- Mare nostrum. António Sardinha conclui o livro A Aliança Peninsular considerando que o futuro do conjunto das nações de língua portuguesa e espanhola requer um esforço consciente de recuperação das suas raízes civilizacionais. Em Aliança, Portugal e Espanha poderão desempenhar um papel relevante no cenário mundial, impulsionando a preservação das independências, identidade e valores, de todas as nações hispânicas diante dos desafios colocados pelos imperialismos de estrangeiros. A política do Atlântico como mare nostrum e a defesa da civilização hispânica são caminhos para a renovação e grandeza de todas as nações peninsulares e ultramarinas.
ANTECEDENTES de A ALIANÇA PENINSULAR
- 1915-04 - O Território e a Raça - A fórmula de amanhã em política exterior há de ser, sem dúvida, não união-ibérica, mas aliança-peninsular. Nós não teremos deste modo a vergonha de Olivença! Não terá a Espanha a ignomínia de Gibraltar!
- 1917 - O exército espanhol
- 1917 - Duas datas. Escrito no Verão de 1917, este texto foi incluído em Ao ritmo da ampulheta (1925), assinalando Sardinha mudanças de perspectiva nas notas de rodapé. Em síntese, de 1917 para 1924, Sardinha corrige o conceito de "latinidade" por "ocidental" (e pelo lugar da hispanidade nesse ocidente), deixa de ver na arrancada para a Índia uma causa da decadência nacional, passando a salientar a dimensão espiritual de toda a Expansão Ultramarina Portuguesa. Em 1916, a Alemanha tinha declarado guerra a Portugal, manifestando o Integralismo Lusitano o seu apoio a D. Manuel II no âmbito da aliança luso-britânica. Doravante, António Sardinha irá passar a centrar as suas reflexões geopolíticas em torno da questão de Marrocos: "A grandeza do rasgo de D. Sebastião mede-se ao presente pela importância que assume para a Península o problema marroquino – insisto –, sendo Alcácer o epílogo funesto da manhã de glória iniciada em Ceuta." [negrito acrescentado] .
- 1917-10 - O nosso futuro - um Portugal enclausurado na sua estreita faixa atlântica, preocupa-nos deveras e é a realidade sobre a qual incidimos a todo o instante a nossa meditação, visto ser o aspecto mais grave de que o futuro nacional se reveste para nós. [...] Debruçado para o Atlântico, no dia em que à fórmula estulta de união ibérica se substituir a fórmula consciente e erguida da aliança peninsular, Portugal, ligado à Espanha pela mesma finalidade exterior, recuperará novamente o senso adormecido da sua antiga vocação mundial.
- 1917-10 - A batalha do Buçaco - António Sardinha sugere que, caso a Espanha renunciasse à sua pretensão de absorver Portugal e fosse possível uma aliança com o Brasil sem prejudicar o compromisso com a Inglaterra, a política externa portuguesa poderia ser reconfigurada sem perder o seu objetivo tradicional.
- 1918 - Os nossos Reis
- 1918-08 - O rei Fernando
- 1918-12 - D. Carlota Joaquina
- 1919 - A agonia de Agatão Tinoco - Cada vez bendigo mais a hora que me trouxe a Espanha! O meu nacionalismo ampliou-se com a projecção que lhe faltava de um necessário complemento internacional. Achei-o aqui, ao contacto benéfico da madre Espanha, e à morte de Agatão Tinoco o terei que agradecer, sobretudo.
- 1919 - A descoberta de Espanha - ... organizemo-nos nós primeiro que tudo, restituindo a Portugal as suas instituições tradicionais para que haja firmeza no Estado e vigor na Nação. Ultrapassada, porém, a base da nossa restauração interna, o nosso nacionalismo, profundamente católico, profundamente missionário, carece de um sentido mundial que, sendo o da sua vocação antiga, só com o concurso da Espanha se tornará amplamente possível.
- 1919 - A política espanhola.
- 1919-08 - A questão de Marrocos - Deus permitisse que Portugal, reorganizado pela ação vigorosa e consciente da sua Realeza tradicional, pudesse então restaurar-se das desgraças e das ignomínias em que a vitória agora sordidamente o abandonou! Tânger seria decerto uma das recompensas. E com Tânger, um passo andado para que, cingido entre tantas nações de origem peninsular, o Atlântico se tornasse deveras, como já foi, e como o sonhou el-rei D. João IV, um verdadeiro lago português, um indisputado «mare nostrum».
- 1919-11 - O caso D. Jaime - A federação com Portugal, tanto para D. Carlos, como para Vázquez de Mella, seu testamenteiro espiritual, não representa sujeição, e muito menos absorção./ Dentro do respeito devido à ampla e plena soberania do nosso país, entende-se apenas como a uniformidade da política exterior em ambas as pátrias, para garantia do qual reputa Vázquez de Mella necessária a existência de um conselho ou órgão permanente, composto de representantes das duas nacionalidades, a fim de que a acção externa da Península se possa desenvolver com firmeza e continuidade, acima das contingências intestinas do partidarismo. Quando nessa federação entrassem os estados hispano-americanos, seria assim uma espécie de ‘sociedade das nações’ de origem peninsular, mais positiva e mais natural do que a outra, gerada como um mito absurdo da cabeça de mestre Wilson.
- 1919-12-01 - Portugal-Restaurado - Rei natural e naturais instituições queremos nós agora recuperar também para Portugal, a fim de que Portugal seja outra vez Portugal-Restaurado. Mas Portugal-Restaurado não é só um Portugal-Restaurado em plena soberania, adentro dos seus limites geográficos. Portugal-Restaurado é ainda um Portugal católico e monárquico, cuja vocação no mundo foi dilatar a Fé e o Império. Da dilatação, por plagas adustas, da Fé e do Império, nasceram para a marcha dos séculos mais de vinte nacionalidades. Para isso predestinou Deus a Portugal, como predestinou a Castela, sua irmã mais velha. Como Portugal, Castela é o pelicano sangrando.
- 1919-12 - Nocturno de S. Silvestre
- 1920 - Portugueses e espanhóis - Quando o tradicionalismo, pela boca de Vázquez de Mella, apregoa a necessidade de uma aliança com Portugal, para que a Espanha possa ter uma política externa segura e enérgica, não é somente o interesse de Espanha que enche de acentos viris e inflamados a voz do incomparável tribuno. O interesse de Portugal vê-se compreendido na velha aspiração de todos os bons patriotas espanhóis. É que Portugal, sem um entendimento fraternal e sincero com a Espanha, não poderá recuperar a sua perdida influência no mundo, como nação atlântica que é.
- 1920 - "Poemas Castellanos"
- 1920 - Conde Santibáñez del Río, Portugal y el hispanismo.
- 1920-05 - Amizade peninsular - Conde Santibáñez del Río, Portugal y el hispanismo: O senhor marquês de Quintanar – gentil-homem de raça e de espírito – acaba de publicar, em volume, com uma significativa carta do conde de Romanones, os seus conhecidos e belos artigos sobre «Portugal y el hispanismo».
- 1920-08 - Meditação de Aljubarrota - A vitória em Aljubarrota afastou Portugal das disputas peninsulares e possibilitou os Descobrimentos. A vitória de Castela em Toro abriu caminho ao seu decisivo papel contra a heresia protestante e o avanço otomano. Os destinos complementares de Portugal e Castela, sugerem que a celebração de Aljubarrota inspire fraternidade e renovação espiritual face aos desafios do presente.
- 1920-10 - A Festa da Raça - De há muito que o Integralismo Lusitano inscreve entre as suas aspirações fundamentais o regresso ao hispanismo de Quinhentos, que achou em Camões um cantor inolvidável, e que, evidentemente, se traduzirá amanhã numa fórmula leal e clara de amizade, de colaboração mútua. / É aí que está, sem dúvida, o segredo do ressurgimento do nome português no mundo. Outra não é a conclusão inteligente e patriótica de quem, olhando à excepcional posição geográfica de Portugal, ambiciona legitimamente para a terra em que nasceu o vê-la restituída à sua antiga glória e preponderância.
- 1920-10 - À lareira de Castela
- 1921 - Paixão de Espanha - António Sardinha analisa a controvérsia espanhola sobre o abandono de Marrocos, destacando a importância estratégica da região para toda a Península Ibérica e advertindo que decisões apressadas, como a proposta de troca de Gibraltar por Ceuta, podem comprometer o futuro de Espanha e Portugal. Critica o liberalismo e o derrotismo predominantes, lamentando a perda da grandeza histórica peninsular e apelando a uma reflexão profunda sobre o destino comum dos povos ibéricos.
- 1922 - "Portugal, 'tierra gensor!'"
- 1922 - 1640 - Corrigenda sanguinolenta ao erro político cometido pela aspiração imperialista tanto da casa de Áustria, como, mais atrás, da casa de Avis, fortifica-nos na convicção de que a unidade da Península é uma unidade espiritual, garantida pela acção concorde de duas soberanias políticas – a espanhola e a portuguesa.
- 1922 - Hispanismo e Latinidade - No ondular da sua cadência heroica, o Oceano das Descobertas tornar-se-á um mar doméstico – um sorridente Mare nostrum de águas quietas e azuis. Assim o quer o esforço de espanhóis e portugueses, conjugados outrora no mesmo amor da Fé e do Império, quando Francisco I se aliava ao Turco, arrancando a Camões um rugido de indignação. Mas o hiato adoçou-se até desaparecer de todo e dir-se-ia que a Musa da Epopeia levanta a voz sonora e grandíloqua. Silêncio!
- 1922 - Porque Voltámos - A colheita advinha-se como numa ceara magnífica. Adivinha-se na aspiração larga de restituirmos à nacionalidade a sua alma adormecida, porque uma nacionalidade é, sobretudo, uma alma, um valor espiritual, um génio; e, integrando-a em si mesma, leva-la depois a participar da marcha do mundo por mercê da função civilizadora de que a tornarmos capaz. / Abramos os Lusíadas e ali prescutaremos, como em nenhuma parte, a vocação apostólica que anima, qual seiva mística, o corpo moral da Pátria bem amada. Talvez que uma secreta voz nos grite que a Portugal o Senhor reserve, pela paixão e morte que está padecendo, a missão sacratíssima de restaurador da Cristandade desfeita. A nossa pequenez, a destruição entre nós de tudo quanto se convencionou chamar o «existente», e, para mais, a nossa posição privilegiada de varandim da Europa, lançado de encontro às terras moças do Ocidente, representam, ou não representam, sinais de predestinação indubitável? Se, pelo desvio do eixo da civilização do Mediterrâneo para o Atlântico, a idade moderna deve o ser a Portugal, e se Portugal, em mais de uma jornada de epopeia, salvou a Europa da onda islamita, porque não acreditarmos no milagre que há-de vir – no «milagre» de que a miséria actual é a preço de o havermos merecido aos desígnios profundos de Deus? Confessemos, pois, o Espírito, e pelo Espírito restauremos a Inteligência, humanizando-a pela Acção. «Ao princípio era o Verbo, e o Verbo se fez Carne e habitou entre nós.» / Tal é o preceito inspirado da nossa filosofia, resolvidos como nos achamos a não nos perder em banquetes estéreis de sofistas. Um outro encanto nos atrai – e é o de realizarmos, com Portugal-Reconquistado, uma Cristandade maior e mais bela. Para isso, e o Épico no-lo profetiza em acentos sonoros como o bronze, / «Não faltarão cristãos atrevimentos / nesta Pequena Casa Lusitana.»
- 1922-06 - O Pan-hispanismo. Mas o peninsularismo não é senão a jornada inicial! Na margem oposta do Oceano - do Oceano que nós tornámos algum dia como Mare nostrum, num perfeito lago familiar—, outras pátrias existem que falam a nossa língua e que não ficam insensíveis ao nosso apelo. O pan-hispanismo nos surge daqui, como conclusão lógica, constituído por dois elementos estruturais, - o espanholismo e o lusitanismo «Voz clamorosa de la sangre, contra el pan-americanismo, — foi como definiu o pan-hispanismo o ano passado, por ocasião da Festa de Raça, no seu formoso discurso do Teatro Real de Madrid o conde de la Mortera, D. Gabriel Maura Gamajo, acrescentando em seguida que «los pueblos que no se agrupen en organizaciones más amplias que la sociedad nacional, sucumbirán bajo el imperialismo».
- 1922-07 - A Ordem-Nova
- 1922-07 - La Unidad Hispánica, Julho-Agosto.
- 1922-11 - Hispanismo e Espanholismo. Ainda a entrevista de Miramar.
- 1922-12 - Ainda a entrevista, Dezembro.
- 1923 - A lição do Brasil - A Jackson de Figueiredo. O Brasil é entendido como uma extensão natural de Portugal, associado ao seu destino e à sua missão histórica. O esforço português nas Descobertas só frutificou plenamente com o Brasil, que agora se prepara para afirmar-se como potência mundial. A aproximação entre Portugal e Brasil é vista como fundamental, devendo formar-se o bloco do lusitanismo, inserido no contexto mais amplo de hispanismo, envolvendo também as nações de origem espanhola na América.
- 1923 - Alcácer-Quibir. Oliveira Martins chamou ao sebastianismo a «prova póstuma da nacionalidade». Chamemos-lhe nós a sua mais bela afirmação de viver. Pois que é essa crença exasperada e ingénua senão a resistência de um povo que acredita em si com firmeza, e que renasce tantas vezes do sepulcro quantas o tentam atirar para dentro dele? Instinto soberbo de vitalidade, cumpre-nos a nós – os de hoje – darmos-lhe definição e consciência. Só pelo regresso da nossa razão às normas saídas do passado corresponderemos à voz que cresce das nossas veias e já encontra eco na nossa inteligência.
- 1923 - Eterno tema. Aclarações indispensáveis.
- 1923-01 - Olhando o Caminho
- 1923-02 - Ao Princípio era o Verbo (palavras de apresentação do Livro). Dilatar a Fé e o Império, equivale a sustentar o guião despedaçado da Civilização. Os motivos de luta e de apostolado que outrora nos levavam à Cruzada e à Navegação, esses motivos subsistem. Talvez como nunca, o duelo entre o «homem ocidental» e o «homem oriental» atinge um dos seus embates mais dramáticos e mais decisivos. Categoria psicológica inconfundível, o «português», comungando com o «castelhano» na mesma sede insaciável de Absoluto, contorna-se-nos perfeitamente como um exemplar representativo do «homem ocidental». [...] ... que a visão cristã do Portugal-Maior se descubra diante de nós, importa que se areje a torre fechada em que nos torcemos, - importa que se destrua nas pregas mais insignificantes da nossa sensibilidade ou do nosso conhecimento qualquer raiz daninha que para lá bracejasse. Atiradas a esmo, no fragor da batalha, as páginas que enfeixamos debaixo de tão ardorosa inquietação, - desde a dor de Antero e do purgatório de Fialho à revisão de processos, como o de Gomes Freire e de D. Carlota Joaquina -, convém que generosamente se encarem como detalhes, sem a convergência dos quais o conjunto não seria possível.
- 1923-12 - Mais longe ainda!. Gritam as "direitas", - gritam as "esquerdas". "Esquerdas" e "direitas" urge que desapareçam, porque são filhas do individualismo solto da Revolução [Francesa], - e a Revolução é a morte da alma centenária dos povos e a geradora da monstruosidade plutocrática dos tempos modernos, perante a qual, e esquecidas as regras divinas da Justiça, é quase de legítima defesa a monstruosidade bolchevista.
- 1924-08 - Relações luso-espanholas. A questão da pesca, 16 de Agosto.
- 1924-10 - Madre-Hispânia. Se recorrermos, minhas senhoras e meus senhores, à distinção que o Tomismo nos fornece entre "pessoa" e "indivíduo", abrangeremos sem dificuldade como o nacionalismo dos hispanos – centrípeto, acumulador por excelência – teria de ser universalista – aditivo, portanto, – ao passo que o nacionalismo de ingleses e alemães, individualistas por pecado original, seria centrífugo, atómico, subtrativo, como consequência. Eis aqui o motivo bem palpável porque nós fundámos "nacionalidades", não conseguindo os outros povos, que enfática e empavonadamente se intitulam de "colonizadores", ir além de "colónias" e, quando muito de "Estados", cujos fundamentos assentaram no extermínio sistemático das populações indígenas. / Insisto, senhoras e senhores, na distinção entre "pessoa" e "indivíduo", aplicando-a à história peninsular e à sua projeção universal. A "individualidade" vem do corpo, da matéria, do instinto. Inversamente, a "personalidade", vem da alma – é, observação aguda de um publicista contemporâneo – «a subsistência da alma, independentemente do corpo». «Desenvolver a sua individualidade – assinala o mesmo autor – é viver da vida egoísta das paixões, é fazer-se o centro de tudo e terminar, finalmente, por ser o escravo de mil bens passageiros que nos trazem um prazer de momento. A personalidade, ao contrário, aumenta na medida em que a alma, elevando-se ao de cima do mundo sensível, se prende mais estreitamente pela inteligência e pela vontade ao que constitui a vida do espírito.» (P. Garrigou-Lagrange, Le Sens commun., ed. 1922 PDF)
Publicações póstumas:
- 1930 - A Aliança Peninsular - Antecedentes & Possibilidades, 2ª edição, Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde la Mortera, Porto, Livraria Civilização.
- 1930 - La Alianza Peninsular, Prólogo de Ramiro de Maeztu, tradução de marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Río, Madrid, 1930;
- 1939 - La Alianza Peninsular, 2ª edição em espanhol, tradução e prólogo de marquês de Quintanar, prólogo da 1ª edição espanhola de Ramiro de Maeztu, e "Unidad y Dualismo Peninsular", estudio de José Pequito Rebelo, Segovia, El Adelantado, 1939.
- 1943 - À Lareira de Castela - Estudos Peninsulares, Lisboa.
- 1972 - A Aliança Peninsular, 3ª edição, Lisboa, Biblioteca do Pensamento Político, com nota prévia de Mário Saraiva (4ª edição, Lisboa, 1974).
Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde de la Mortera
Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde de la Mortera
Prologo de Ramiro de Maeztu
Tradução do marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Rio
Tradução do marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Rio
Tradução e prólogo do marquês de Quintanar
Prólogo da primeira edição de Ramiro de Maeztu
Com um estudo de José Pequito Rebelo: "Unidad e y Dualismo Peninsular" (1937)
Inclui:
NOTA PRÉVIA À 3ª EDIÇÃO, por Mário Saraiva (Julho de 1972)
Prólogo de Gabriel Maura Gamazo, conde de la Mortera (Junho de 1924)
Prólogo da Primeira edição espanhola, por Ramiro de Maeztu (1930)
Prólogo da segunda edição espanhola, pelo marquês de Quintanar (4 de Dezembro de 1939)
Apêndice:
Espanha e Portugal - Unidade e Dualidade Peninsular, por José Pequito Rebelo (de 1937), com notas explicativas e correspondências, em 1939, com Federico Garcia Sanchiz e José Maria Peman.
NOTA PRÉVIA À 3ª EDIÇÃO, por Mário Saraiva (Julho de 1972)
Prólogo de Gabriel Maura Gamazo, conde de la Mortera (Junho de 1924)
Prólogo da Primeira edição espanhola, por Ramiro de Maeztu (1930)
Prólogo da segunda edição espanhola, pelo marquês de Quintanar (4 de Dezembro de 1939)
Apêndice:
Espanha e Portugal - Unidade e Dualidade Peninsular, por José Pequito Rebelo (de 1937), com notas explicativas e correspondências, em 1939, com Federico Garcia Sanchiz e José Maria Peman.
ECOS e AFINS
1929 - Zacarías de Vizcarra Arana, "La palavra 'Hispanidad'", La Lectura Dominical, Madrid, Ano XXXVI, nº 1875, 7 de Dezembro de 1929, p. 809.
1934 - Ramiro de Maeztu, Defensa de la Hispanidad, 1934.
1944 - Zacarías de Vizcarra Arana, Origen del nombre, concepto y fiesta de la Hispanidad, El Español, Madrid, 7 de Outubro de 1944.